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Linguagens, Educação e Sociedade (LES)

versão impressa ISSN 1518-0743versão On-line ISSN 2526-8449

Revista LES vol.28 no.58 Teresina set./dez 2024  Epub 28-Mar-2025

https://doi.org/10.26694/rles.v28i58.5475 

Artigo

AGENCIAMENTOS COLETIVOS E EDUCATIVOS NA CENA ROCK EM TUCURUÍPA: PRÁTICAS EDUCATIVAS, FEMINISMOS E RESISTÊNCIAS CULTURAIS

COLLECTIVE AND EDUCATIONAL AGENCIATIONS IN THE ROCK SCENE IN TUCURUÍ-PA: EDUCATIONAL PRACTICES, FEMINISMS AND CULTURAL RESISTANCES

AGENCIAS COLECTIVAS Y EDUCATIVAS EN LA ESCENA ROCK DE TUCURUÍ-PA: PRÁCTICAS EDUCATIVAS, FEMINISMOS Y RESISTENCIAS CULTURALES

Ionara Conceição Lemos Pinheiro

1 Mestranda em Educação e Cultura pela Universidade Federal do Pará (UFPA/PPGEDUC/CUNTINS), Campus de Cametá, Pará, Brasil. Especialista em Literatura e suas Interfaces pela Universidade do Estado do Pará (UEPA). Endereço: Rua Deodoro de Mendonça, 71, Matinha, Tucuruí, Pará, Brasil, CEP: 68.458-474.

1 
http://orcid.org/0009-0008-8763-313X

Gilcilene Dias da Costa

2 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEDU/UFRGS). Docente Associada da Universidade Federal do Pará (UFPA) vinculada ao PPGEDUC/CUNTINS, Campus de Cametá, Pará, Brasil. Endereço: Travessa José Bonifácio, 337, São Benedito, Cametá, Pará, Brasil.

2 
http://orcid.org/0000-0002-7156-5610

1Universidade Federal do Pará

2Universidade Federal do Pará


RESUMO

Historicamente a arte esteve em vários momentos atrelada aos movimentos que se mostravam de resistência a algum tipo de opressão imposta. Dentre as mais diversas manifestações artísticas, certamente a música é a que consegue alcançar mais pessoas, principalmente após o advento dos meios de comunicação de massa. A partir dessas questões iniciais pretende-se investigar as relações que a músicagênero Rock, sobretudo a de autoria feminina, estabelece com a arte-educação desenvolvida em ambientes escolares e em coletivos culturais, tornando-se uma atividade criadora onde educadores e educandos trocam experiências, conseguem transmitir sua realidade social, seus anseios, sonhos e buscam resistir a tantas formas de coerção por parte da sociedade atual. Assim, o presente texto expõe os passos iniciais da pesquisa a ser desenvolvida no biênio 2023-2024 no curso de Mestrado em Educação e Cultura (PPGEDUC/ UFPA Cametá/Pará). Dessa forma, o texto traz os referenciais teóricos e autores/as estudados, bem como as colaborações destes na construção, desconstrução e reconstrução de conceitos, práticas e saberes da arte rock.

Palavras-chave: Arte-Educação; Coletivos Culturais; Feminismos; Resistência; Rock

ABSTRACT

Historically, art has at various times been linked to movements that have shown themselves to be in resistance to some kind of imposed oppression. Among the most diverse artistic manifestations, music is certainly the one that manages to reach the most people, especially after the advent of the mass media. Based on these initial questions, the aim is to investigate the relationship that rock music, especially femaleauthored music, establishes with art education developed in school environments and cultural collectives, becoming a creative activity where educators and students exchange experiences, manage to convey their social reality, their desires, dreams and seek to resist so many forms of coercion on the part of today's society. Thus, this text sets out the initial steps of the research to be carried out in the 2023-2024 biennium in the Master's course in Education and Culture (PPGEDUC/ UFPA Cametá/Pará). In this way, the text brings together the theoretical references and authors studied, as well as their contributions to the construction, deconstruction and reconstruction of concepts, practices and knowledge in this rock art.

Keywords: Art Education; Cultural Collectives; Feminisms; Resistance; Rock

RESUMEN

Históricamente, el arte ha estado vinculado en diversas ocasiones a movimientos que se han mostrado en resistencia frente a algún tipo de opresión impuesta. Entre las manifestaciones artísticas más diversas, la música es sin duda la que consigue llegar a más gente, especialmente tras la llegada de los medios de comunicación de masas. A partir de estas cuestiones iniciales, se pretende indagar en la relación que la música rock, especialmente la de autoría femenina, establece con la educación artística desarrollada en entornos escolares y colectivos culturales, convirtiéndose en una actividad creativa donde educadores y educandos intercambian experiencias, consiguen transmitir su realidad social, sus deseos, sueños y buscan resistir a tantas formas de coacción por parte de la sociedad actual. Así, este texto expone los pasos iniciales de la investigación que se llevará a cabo en el bienio 2023-2024 en el curso de Maestría en Educación y Cultura (PPGEDUC/ UFPA Cametá/Pará). De esta forma, el texto reúne las referencias teóricas y los autores estudiados, así como sus contribuciones a la construcción, deconstrucción y reconstrucción de conceptos, prácticas y saberes en esta arte rock.

Palabras clave: Educación artística; Colectivos culturales; Feminismos; Resistencia; Rock

INTRODUÇÃO

O presente trabalho é um recorte da pesquisa desenvolvida no curso de Mestrado do Programa de Pós-graduação em Educação e Cultura da Universidade Federal do Pará (PPGEDUC/UFPA/CUNTINS) no biênio 2023-2024, e parte da experiência docente com adolescentes e jovens periféricos/as desde 2007 até a atualidade, em atividades que envolvem a Língua Portuguesa, a Literatura, a Produção Textual, o Teatro, a Dança e a Música, em especial o Rock.

Dessa forma, este estudo propõe cartografar práticas educativas que utilizam os atravessamentos transdisciplinares da arte-educação na rede pública de ensino no município de Tucuruí, mostrar as estratégias artísticas e pedagógicas utilizadas por esses/as educadores/as, bem como os efeitos dessas práticas para os educandos e para a comunidade escolar na qual trabalham.

A pesquisa pretende, ainda, registrar através da produção de um documentário, momentos de intertrocas e de partilha de saberes com esses/as docentes e também com os/as fazedores de cultura que promovem atividades em seus coletivos culturais, em especial o Movimento Rock Tucuruí. A partir disso, esperamos divulgar as ações desses/as arte-educadores/as que contribuem com a educação dentro e fora dos muros da escola, potencializar as suas estratégias artísticas e pedagógicas, e investigar a contribuição dessas atividades, o seu alcance cultural e educacional e o papel da arte-educação e de coletivos culturais como o Movimento Rock Tucuruí (MRT) no fomento à criação coletiva, à arte musical feminina, ao pensamento crítico de adolescentes e jovens periféricos/as, entre outros temas.

Com isso, esperamos abrir passagens para as potências femininas, artísticas e educativas, na cena musical local, bem como destacar as contribuições pedagógicas, artísticas e formativas do MRT como coletivo cultural para a formação de pessoas críticas e sensíveis às questões sociais e políticas da sociedade e fortalecer a educação básica e outras práticas educativas em Tucuruí e região do lago.

No que diz respeito à metodologia do trabalho, vamos considerar a CARTOGRAFIA como processo teórico-metodológico, pois esta vem se constituindo atualmente como um caminho alternativo para as diferentes perspectivas que este estudo projeta.

A cartografia, conceito desenvolvido por Deleuze e Guattari (1995), assume, na pesquisa de intervenção filosófica, as feições de um método pelo qual o pesquisador não utiliza procedimentos prontos e acabados, mas constrói no percurso das atividades os seus próprios procedimentos. É uma forma não diretiva de trabalho que possibilita uma mobilidade de ação no contexto de atuação do pesquisador. Trata-se, pois, de um método flexível, aberto, e, por isso, pode contribuir na pesquisa de intervenção filosófica, uma vez que dá condições ao pesquisador de criar possibilidades de ação no decorrer da sua investigação. (Moura; Oliveira, 2020, p.143).

Situada na filosofia, na ideia de multiplicidade e no pensamento rizomático de Deleuze e Guattari (1995), a cartografia aponta que as realidades existentes e os sujeitos que nela atuam estão em um fluxo constante de movimento (devir) que não possuem raiz ou centro (intermezzo). Diferente do método de pesquisa tradicional, a cartografia constrói os seus procedimentos metodológicos durante o desenvolvimento da pesquisa, pois entende que os sujeitos e lugares de pesquisa possibilitam ao pesquisador produzir seus próprios procedimentos.

A Cartografia como método de pesquisa-intervenção pressupõe uma orientação do trabalho do pesquisador que não se faz de modo prescritivo, por regras já prontas nem com objetivos previamente estabelecidos. No entanto, não se trata de uma ação sem direção, já que a cartografia reverte o sentido tradicional de método sem abrir mão da orientação do percurso da pesquisa. O desafio é o de realizar uma reversão do sentido tradicional de método - não mais um caminhar para alcançar metas pré-fixadas (metá-hódos), mas o primado do caminhar que traça, no percurso, suas metas. (Passos; Kastrup; Escóssia, 2012, p.17)

Mas o que isso significa para o estudo em andamento? Significa que as estratégias metodológicas em uma pesquisa vão se construindo no percurso desta, na relação com os sujeitos, os lugares e com o próprio objeto, de maneira processual.

Seguindo o método cartográfico, pretendemos realizar uma PESQUISAINTERVENÇÃO em espaços escolares e não escolares, relacionando as práticas artísticas e educativas dos arte-educadores da rede pública de ensino às vivências musicais dos/as fazedores/as de cultura atuantes na cena rock do MRT, com destaque à arte musical feminina.

Nesse sentido, a pesquisadora-cartógrafa faz parte da pesquisa em curso, pois habita o seu território encontrando-se com os elementos da realidade estudada, acompanhando e intervindo nos processos em andamento, conforme sinalizam Moura e Oliveira (2020) a respeito do trabalho do cartógrafo:

O trabalho do cartógrafo inicia com o habitar do território, pois somente assim terá condições de mapear o território de pesquisa, traçando linhas e revelando nessas os movimentos, intensidades, conexões, entradas e saídas, possibilidades e potencialidades de acesso às mesmas. (Moura; Oliveira, 2020, p.148)

Desse modo, a cartografia se apresenta como um pesquisar em movimento, e considera as variações e as movimentações contínuas do território de pesquisa para então elaborar o seu plano de organização e orientar os seus percursos e procedimentos.

Farias (2020, p. 4) aponta ainda que "por tratar-se de uma pesquisa cujos sujeitos são mulheres, engajadas em questões de gênero, a pesquisa de gênero (Terragni, 2005), mostrou-se como a fundamentação metodológica mais adequada". A pesquisa de gênero valoriza as experiências e as linguagens de mulheres em algum segmento da vida real, buscando problematizar e compreender suas existências e relações.

Por fim, a pesquisa de gênero também pressupõe a “compreensão participada e não autoritária do outro” (lieblich, apud Terragni, 2005, p. 148). Nas palavras de Mies (1983, p. 123), “a relação vertical entre pesquisadora e ‘objetos de pesquisa’, o olhar de cima, deve ser substituída pelo olhar de baixo”, numa perspectiva horizontal. Eu, como pesquisadora, reconheço, valido e respeito o conhecimento e a experiência das colaboradoras da pesquisa. (Farias, 2020, p. 5)

Além disso, dentro das etapas da pesquisa cartográfica, destacamos, ainda, o levantamento bibliográfico de autores/as, obras e teorias que orientarão caminhos e apontarão possibilidades nessa pesquisa que, inicialmente, está dividida em três partes: Arte-educação, Rock e Resistência.

Assim, a pesquisa bibliográfica aborda as considerações e conceitos cunhados a partir dos estudos de Ernest Fischer, João Francisco Duarte, Ana Mae Barbosa e outros autores/as sobre Educação, Arte e Arte-Educação3.

A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade. A Arte, ela própria, é uma realidade social. (Fischer, 1983, p. 57)

Esses/as autores/as apontam em suas obras discussões necessárias para compreender a relação da escola com a realidade social, refazem o itinerário da história recente da arte-educação e dão destaque à contribuição artística feminina, muitas vezes subestimada ou até mesmo calada.

O feminismo trouxe questões para a Arte que permanecem questões vitais, sociais e estéticas até hoje, como as definições de subjetividades e sexualidades, de agendas políticas pessoais e institucionais, de estratégias de representação do corpo feminino e múltiplas narrativas, da relação entre o público e o privado e da relação entre Arte e Artesanato. (Barbosa; Amaral, 2019, p. 429)

Seguindo no método de investigação bibliográfica também serão abordados os estudos feministas como os de Gerda Lerner, Mari Del Priori, Márcia Tiburi, entre outras, a fim de fomentar reflexões sobre as práticas sociais e culturais que reforçam e sustentam há séculos um regime de poder/discurso fundamentado no patriarcado, em detrimento das mulheres e das minorias sociais e subalternizadas.

Para começarmos nosso processo de compreensão sobre o feminismo, podemos defini-lo como o desejo por democracia radical voltada à luta por direitos daqueles que padecem sob injustiças que foram armadas sistematicamente pelo patriarcado. Nesse processo de subjugação, incluímos todos os seres cujos corpos são medidos por seu valor de uso. Corpos para o trabalho, a procriação, o cuidado e a manutenção da vida, para a produção do prazer alheio - que também compõem a ampla esfera do trabalho na qual está em jogo o que se faz para o outro por necessidade de sobrevivência. (Tiburi, 2021, p. 12)

Por se tratar de uma temática ampla, a construção do Referencial Teórico tem sido um processo gradativo e que tem passado por várias modificações. O Mapa Conceitual a seguir ilustra como tem funcionado essa construção até o momento para guiar o contínuo processo de pesquisa e seleção de autores e obras relevantes para o desenvolvimento do tema:

Fonte: Gráfico produzido pela pesquisadora (2023) by Xmind.

Figura 1 Mapa conceitual do referencial teórico. 

Além desses conceitos é preciso ressaltar que, do ponto de vista da sua natureza, este trabalho também é qualitativo, conforme descrito por Minayo (2014), onde se entende que esse tipo de pesquisa

[...] visa compreender a lógica interna de grupos, instituições e atores quanto a☹a) valores culturais e representações sobre sua história e temas específicos; (b) relações entre indivíduos, instituições e movimentos sociais; (c) processos históricos, sociais e de implementação políticas públicas e sociais. (Minayo, 2014, p. 23)

A partir desse ponto de vista metodológico e, tomando por base os elementos que serão analisados - históricos, pedagógicos, culturais e existenciais entre grupos e indivíduos - é possível entender que, além de uma Pesquisa-Intervenção, trata-se também de uma Pesquisa Social que Minayo (2014) define como pesquisas que

[...] nascem de determinado tipo de inserção no real, nele encontrando razões e objetivos. Enquanto prática intelectual, o ato de investigar reflete também dificuldades e problemas próprios das Ciências Sociais, sobretudo sua intrínseca relação com a dinâmica histórica. (Minayo, 2014, p. 47)

A necessidade de se mencionar o conceito de Pesquisa Social se dá pela dinâmica que aqui será trabalhada, pois, voltando ao tema deste trabalho e, mais ainda, aos seus objetivos, é possível perceber que ele estará mergulhado em uma conjuntura que irá abordar os indivíduos em seu meio social e em suas tentativas de representatividade, além de buscar entender a relação entre arte, educação e cultura e o impacto que elas podem ocasionar por meio de práticas docentes e projetos culturais de resistência.

Para tanto, serão realizadas entrevistas gravadas em áudio visual com os/as arteeducadores na rede pública de ensino do município de Tucuruí, e também com fazedores/as de cultura atuantes nos espaços onde acontecem as atividades do Coletivo Cultural Movimento Rock Tucuruí, entre os anos de 2023 e 2024.

De acordo com Minayo (2014), a entrevista é

[...] acima de tudo uma conversa a dois, ou entre vários interlocutores, realizada por iniciativa do entrevistador, destinada a construir informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e abordagem pelo entrevistador, de temas igualmente pertinentes tendo em vista este objetivo. (Minayo, 2014, p. 261).

A partir dos saberes construídos por meio dessa pesquisa esperamos demonstrar o quanto o fomento às práticas educativas e artísticas contribui para a formação e o desenvolvimento da consciência crítica das pessoas em relação a temas como desigualdade social, protagonismo feminino, respeito às diversidades, entre outros, por meio de processos criativos.

ARTE-EDUCAÇÃO ALÉM DOS MUROS DA ESCOLA: ROCK E CRIAÇÃO COLETIVA.

A arte tem o poder de transformar vidas, ou seja, ela é capaz de influenciar, sob o ponto de vista político, cultural e educacional, o comportamento das pessoas. Nesse contexto, a música tem uma especial relevância, pois exerce uma grande influência no comportamento humano, determinando modos de falar, de agir e de pensar. Quando utilizada como instrumento de protesto ou de contestação, a música adentra no contexto político e na realidade social do indivíduo, e faz críticas às formas de organização da sociedade buscando justiça social. E o Rock é o gênero que há mais tempo exerce essas manifestações de resistência através da música. Para Souza e Pereira (2013) o uso da música como motivação aos alunos e como instrumento de reflexão, comunicação e formação de opinião, através de análise de canções produzidas

[...] faz com que os estudantes percebam que as informações contidas nos relatos dos meios convencionais não são os únicos registros capazes de contar uma história; leva-os a perceber que as manifestações populares, não só no Brasil, mas em diversas as partes do mundo, foram utilizadas contra toda e qualquer forma de repressão e/ou manipulação por parte dos governos; e possibilitam, desta forma, uma análise da música como espaço de resistência[...] (Souza; Pereira, 2013, p.3)

Sendo assim, é preciso entender que música é muito mais do que um “produto comercial”, ela tem um papel indispensável na dinâmica social pelas quais os discursos, os modos de socialização e formas de resistência são expressos de forma artística pelos sujeitos envolvidos. É, então, um evento sociocultural que envolve muito mais do que sons, ritmos e instrumentos musicais, mas também todas as práticas, concepções de mundo, costumes, crenças, realidades e sentimentos que fazem parte do cotidiano dos sujeitos envolvidos.

Os teóricos críticos da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer, nas suas elaborações sobre os conceitos de indústria cultural e semiformação, nos ajudam a pensar sobre o currículo cultural, bem como sobre a sua atuação no seio da sociedade capitalista, que tem como regra principal transformar tudo em mercadoria e lucro, inclusive as expressões culturais. Embora passados mais de 60 anos, suas críticas mostram-se ainda atuais para as reflexões sobre os modos de dominação cultural da atualidade. (Bezerra de Souza, 2012, p.10)

A partir do momento em que se busca entender a música, sobretudo o Rock, como uma prática reflexiva e uma forma de expressão do sujeito e de seu meio social, é possível perceber a importância da sua utilização como ferramenta didático-pedagógica como forma de integração e inclusão social na formação de sujeitos políticos capazes de pensar de maneira crítica sobre a vida social e cultural que os cerca. Por outro lado,

Pensando a indústria cultural como alienante e deformadora da capacidade de reflexão dos indivíduos no sistema capitalista, Adorno (1996) elabora o conceito de semiformação ou barbárie estética. De acordo com o seu pensamento, o estado de semiformação no qual os sujeitos contemporâneos se encontram é o efeito mais imediato da ação da indústria cultural sobre os indivíduos. Isso é causado pelo fato de ela imprimir em seus produtos um ar de autenticidade inexistente, vazio; ao confundir a alta e baixa cultura como idênticas e igualmente acessíveis a todos graças à fabricação em série, à oferta e à procura. (Bezerra de Souza, 2012, p.10)

Pensar a música-gênero Rock como intercessor de práticas educativas que potencializam o pensar crítico e inventivo dos educandos é muito provável, pois ela traz em suas letras e acordes um estilo musical polêmico e interventivo, em que é possível pensar um mundo melhor expondo, ao mesmo tempo, as crises existenciais humanas e individuais, e os pensamentos e desejos de mudanças sociais em prol do coletivo.

O município de Tucuruí e os outros municípios da região do Lago são celeiros de pessoas envolvidas em movimentos artísticos e culturais como a MÚSICA, em especial o ROCK, gênero musical que sempre esteve atrelado aos mais diversos movimentos de resistência a todo e qualquer tipo de opressão imposta pela sociedade.

Assim, o tema surgiu das experiências didáticas da pesquisadora que atua como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II e Médio a partir de 2006. No trabalho com adolescentes foi possível observar os problemas educacionais e sociais enfrentados por eles na época, tais como: falta de interesse em estar na sala de aula, baixa autoestima e dificuldade em aprender a língua materna de maneira efetiva. Esses fatores contribuíam para que eles se sentissem inseguros e tímidos, por acreditarem que não tinham condições de aprender, sentindo-se na maioria das vezes inferiores e sendo até mesmo agressivos com os que tinham mais facilidade em assimilar o conhecimento. Apesar dessas dificuldades, foi observada a preferência desses alunos por aulas com músicas e algumas tecnologias como uso do áudio e vídeo. Diante dessa percepção, surgiu a ideia de utilizar nas aulas de Língua Portuguesa a estratégia de juntar música, tecnologias e conteúdo para contribuir na aquisição de conhecimentos.

As atividades em sala tornaram-se mais produtivas e nos meses que se seguiram foi possível perceber a melhora de forma geral nos alunos: diminuição da agressividade, interesse maior em estar na sala de aula, leitura e escrita mais efetiva, saindo do nível do analfabetismo funcional. Esses primeiros resultados foram significativos e motivadores a continuar e colocar em prática um projeto de ensino elaborado em 2005, durante o curso de Especialização em Literatura e suas Interfaces (UEPA), que visava desenvolver atividades de leitura, interpretação e produção textual através de oficinas de dança, teatro e música.

Entre 2007 e 2010 esses projetos de ensino foram desenvolvidos com adolescentes entre 12 a 16 anos. As atividades com aulas de música e ensaios de dança e teatro aconteciam duas vezes por semana no contra turno de estudo. A fim de não ser apenas um momento de diversão sem compromisso, os adolescentes participantes dos projetos não podiam ter rendimento abaixo da média escolar (na época 6,0) em nenhuma disciplina da série, também não podiam se envolver em situações de indisciplina, assim como precisavam ser assíduos na escola. As atividades baseavam-se muito em leitura e interpretação de textos diversos como letras de músicas, peças teatrais e poemas.

O ato de ler, não limitado somente à prática da leitura e escrita de forma mecânica, passou a fazer parte do cotidiano desses adolescentes e influenciou positivamente para um pensamento mais crítico, voltado à sua vivência de mundo. Os que antes nutriam o sentimento de inferioridade que os acompanhou durante grande parte de sua vida, agora passavam a expressar a vontade de melhorar sua condição na sociedade, de mudar de vida através do estudo e de mudar a maneira de viver e de relacionar-se com o outro.

Durante o período em que os dois projetos foram desenvolvidos, os grupos “Arte em Cena” (Grupo de dança e teatro) e “Musicando” (Educando através da música) participaram de diversas competições e festivais locais e intermunicipais, alcançando sempre boas colocações nas categorias em que concorriam. O “Arte em Cena” foi selecionado três anos seguidos (2007, 2008 e 2009) para se apresentar na Feira PanAmazônica do Livro, sendo 2007 em Belém e 2008/2009 no Salão do Livro da Região do Lago. Os integrantes do “Musicando” venceram dois dos três festivais de música do COEP - Comitê das Empresas Públicas no Combate à Fome e a Miséria - (promovidos pela Eletronorte em parceira com a Secretaria Municipal de Educação) e os seus integrantes receberam premiações individuais como melhor intérprete e melhor composição autoral.

As ações com esse público culminaram em 2015 no “Movimento Rock Tucuruí”, um coletivo cultural empenhado na organização e promoção de eventos culturais voltados à juventude, pois a carência de atividades nesse sentido é uma lacuna muito grande em nossa região.

Quando eu iniciei nesse mundo (da cena musical rock), existia uma já finada, na verdade, Associação do Rock, e eu conheci pessoas que estavam muito aí empenhadas em trazer a cena Rock de novo pra Tucuruí, (...) e essas pessoas que se juntaram pra criar o Movimento Rock Tucuruí, que é esse coletivo que tanto traz eventos pra cidade, como promove eventos internos no sentido de também valorizar o artista local, né? Eles conseguiram reacender no coração e na cabeça de algumas pessoas esse rock que estava adormecido. (Rafaela Gomes4, Professora universitária, cantora e integrante do Movimento Rock Tucuruí).

As ações desenvolvidas por esse coletivo cultural ajudaram a ampliar o públicoalvo que antes estava restrito apenas à escola em que eu estava lotada. Através da promoção de oficinas de produção textual e composição, festivais de músicas autorais, eventos com bandas locais e eventos beneficentes em prol de pessoas vulneráveis, foi possível trabalhar a importância de uma aprendizagem mais abrangente, uma educação que ultrapassa as paredes da sala de aula e que é um vetor para efetuar mudanças positivas no dia-a-dia dos sujeitos envolvidos como o aumento de sua autoestima, o respeito às diferenças e a valorização da figura feminina, traduzindo isso em criações artísticas no momento em que esses/as jovens estão aprendendo um instrumento, compondo músicas e criando obras coletivas.

A minha personalidade, ela tem totalmente a ver com a música, em especial com a parte do rock, né? E esse tocar e cantar, isso é uma parte muito forte do meu caráter, da minha personalidade, e eu só descobri isso por conta disso que eu tive, dessa vivência que eu tive na escola. Se eu não tivesse tido, eu não conseguiria ter entendido e me conhecido e descoberto sobre isso, e talvez eu seria uma pessoa diferente, talvez eu não seria nem professora, porque a música, antes de eu ser professora, ela me tirou a timidez que eu tinha, né, frente às pessoas, e me colocou nesse local de destaque, no meio social. (Rafaela Gomes5, Professora universitária, cantora e integrante do Movimento Rock Tucuruí)

Atividades como essas fazem com que os estudantes percebam que as informações contidas nos currículos e disciplinas dos meios convencionais não são os únicos registros capazes de contar uma história ou produzir saberes, mas leva-o/s a perceber que diversas manifestações culturais como a música, não só no Brasil, mas em várias as partes do mundo, foram utilizadas contra toda e qualquer forma de repressão e/ou manipulação por parte dos governos; e possibilitam, desta forma, uma análise dessas culturas como espaços de resistência contra toda e qualquer espécie de opressão (Souza; Pereira, 2013).

SILENCIAMENTOS X RESISTÊNCIAS

A perspectiva construída até aqui possibilita compreender a música como impulsionadora de um pensar crítico e inventivo e pode ser um fator positivo de mudança quando utilizada como elemento didático-pedagógico que auxilia na integração social e na formação de sujeitos capazes de pensar de maneira crítica (Souza; Pereira, 2013).

Desse modo, a incorporação de representações e linguagens do mundo fora da escola aproxima o saber [...] escolar da vida social e demonstra a necessidade de dinamizar o processo de ensino e aprendizagem, diversificando as experiências didáticas e proporcionando aos alunos condições para a construção de conhecimentos de forma interdisciplinar e interativa. (Souza; Pereira, 2013, p.6)

Nessa direção, a pesquisa em andamento se propõe a analisar, compreender e, se possível, intervir nas seguintes questões: como as práticas artísticas e educativas de coletivos culturais como o Movimento Rock Tucuruí, que utilizam a arte-educação como vetor de criação coletiva, podem contribuir no incentivo à arte musical feminina e na formação de sujeitos críticos? Como potencializar as estratégias artísticas e pedagógicas no ensino de arte-educação na rede pública de ensino no município de Tucuruí? Qual a participação/contribuição do Movimento Rock Tucuruí na formação de uma juventude política e inventiva?

É a partir dessas questões iniciais que este trabalho pretende investigar as relações que a música-gênero Rock, sobretudo a de autoria feminina, estabelece com a arte-educação desenvolvida em ambientes escolares e em coletivos culturais, tornandose uma atividade criadora onde os envolvidos (educadores e educandos) trocam experiências, deparam-se com o diverso e aprendem a respeitá-lo, e enriquecem seu repertório humano (Duarte, 1994).

É possível citar vários gêneros musicais que, no decorrer dos tempos, estiveram relacionados à busca de despertar nos sujeitos a consciência de que estes sofriam algum tipo de opressão por parte do sistema, entretanto, nenhum deles teve a abrangência e a relevância do Rock.

Desde as suas origens, nos anos 1950, o Rock rompeu barreiras e revolucionou costumes ao misturar o blues, soul e funk dos cantores negros com o folk e country do interior americano de predominância branca. Nas décadas que se seguiram, o Rock passou a ser a voz dos que queriam mudar o mundo e um dos principais meios de passar mensagens de indignação e conscientização, principalmente aos jovens (Sossmeier; Parizzotto, 2013).

Seguindo essa linha de pensamento, é preciso deixar explícito que “arteeducação” não é ensaio e nem treino para ser artista, tampouco significa ser apenas mais uma disciplina no currículo escolar com o peso da frequência e resultado no final do ano letivo.

É interessante também falar sobre isso, porque é... no meu ensino fundamental e médio, eu praticamente não tive aula de arte. Então, quando eu assumi esse concurso, eu já vim com essa ideia de quebrar esse estereótipo de que professor de arte era só um tapa-buraco dentro da escola. É... Por conta disso, eu sempre tento trazer é, é... temas sociais, sempre tento abordar é... o cotidiano dos próprios alunos de forma prática dentro do conteúdo de arte, que acaba deixando ele um pouco mais atrativo e faz com que a compreensão seja mais intensa em relação aos alunos. (Prof. David Therezo6, Arte-educador da Rede Estadual de ensino).

Arte-educação é baseada numa relação dialógica e na construção da expressão e do sentido pessoal que seja próprio de cada educando. Com isso, ela torna-se uma atividade criadora onde os envolvidos (educadores e educandos) trocam experiências, deparam-se com o diverso e aprendem a respeitá-lo, enriquecendo, assim, seu repertório humano (Duarte, 1994).

O lado mais bonito que eu acho da arte é justamente provocar reflexão. Eu acho que a arte a gente pode trabalhar qualquer conteúdo e a gente provoca uma reflexão, né? A arte, ela tem vários é... sentidos, mas a arte que eu mais gosto de trabalhar é justamente essa de provocar reflexão através de qualquer linguagem artística. Linguagem corporal, linguagem fotográfica, textual, textual através de poesia, musical. É... E aí eu aplico, sim, o conteúdo e depois a gente faz algumas práticas, sempre dentro do que é possível, né? Dentro do cronograma e dentro das nossas mesmas limitações de recursos, mas eu sempre tento é... também colocar a prática. (Prof. Darlen Moura7, Arte-educadora da Rede Estadual de ensino).

Essa fala diz muito sobre a função da arte e sua relação direta com a educação, o conhecimento, a linguagem, etc. Ernest Fischer em sua obra “A Necessidade da Arte” questiona se a função da arte poderia ser resumida em uma única fórmula (Fischer, 1983, p. 12) e, nas páginas que seguem, é possível entender que não, que a razão de ser da arte está em constante modificação, principalmente em uma sociedade em que se precisa lutar por direitos básicos como o direito de existir. Unindo a concepção teórica de Fischer à prática docente da Prof. Darlen, podemos perceber que a função básica da arte para uma classe social que precisa lutar para transformar o mundo em que vive não é apenas a de criar e apreciar belezas, mas sim a de provocar reflexões, incitar à ação e assim, fazer com que o ser humano se torne capaz de conhecer e mudar a sociedade (Fischer, 1983, p. 20).

O século XXI apresenta a educação para os docentes a partir de uma nova perspectiva: a da coletividade. Os séculos anteriores sempre exaltaram a inteligência e a criatividade como características individuais, sendo o sujeito um agraciado por uma divindade com um talento ou um ser único e iluminado com um dom especial.

Entretanto, de acordo com Hall (2006), é importante considerar a chamada “crise de identidade” para se compreender o contexto das sociedades modernas, uma vez que

[...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada "crise de identidade" é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (Hall, 2006, p.7)

Essa fragmentação do sujeito moderno resulta em uma sociedade heterogênea, onde se busca cada vez mais a unicidade e não mais a unanimidade. Mas como realizar uma arte-educação num sistema educacional baseado no utilitarismo, onde somos apenas peças na engrenagem escolar?

Duarte (1994) afirma que:

É necessário se recuperar, no interior das escolas, e expressão pessoal - tanto por parte dos alunos quanto dos professores. Tornamo-nos um País com medo: medo das divergências dos padrões oficiais impostos. Assim, é mais “seguro” repetir fórmulas e conceitos “objetivos”; é mais “seguro” ser estritamente “científico” e “neutro”, pois evitamos o comprometimento com nossa própria palavra, com nossos próprios valores. (Duarte, 1994, p.83)

Nesse contexto, a arte-educação acaba sendo utilizada como um reforço dos padrões já estabelecidos, levando aos educandos a ideia errônea de homogeneização humana, já tão reforçada pelos meios de comunicação de massa e as redes sociais. Num cenário assim, a “expressão pessoal” de valores e sentimentos, assim como as tentativas de representatividade de estilos ou costumes é vista como um “perigo” à normalidade estética e, portanto, deve ser neutralizada.

De acordo com Barbosa (2023) no início da década de 2020 os educadores do mundo ocidental recomeçaram a falar em “criatividade”. Num mundo cada vez mais conectado, o destaque está na técnica de agregar mentes em favor da criação coletiva e transdisciplinar, e essa metodologia a arte-educação conhece muito bem. Segundo a autora, nos últimos anos, o conceito de “cultura” foi integrado à arte-educação e trouxe influências amplamente positivas (Barbosa, 2023).

Apesar dos inúmeros ataques desde 1996, o ensino da arte teve seu campo estendido graças aos vários cursos de formação e pós-graduação que formou inúmeros arte-educadores, além de programas de acesso às universidades como o sistema de cotas, o PROUNI e o FIES, que diversificaram as salas da aula das instituições de ensino superior (Barbosa, 2023).

ARTE MUSICAL FEMININA

Uma das particularidades mais marcantes do povo brasileiro é a sua cultura e, principalmente, a sua música que inúmeras vezes é utilizada como meio de comunicar ou dar destaque à sua história. E um breve olhar sobre as atividades músico-pedagógicas desenvolvidas dentro e fora do espaço escolar, como aprender a tocar um instrumento, compor músicas ou simplesmente cantar, permite perceber como elas auxiliam os/as jovens envolvidos/as a transmitir sua realidade social, seus anseios, sonhos e injustiças e resistir a tantas formas de coerção por parte da sociedade atual.

Em concordância com o pensamento crítico educacional, é possível entender esses momentos como parte de uma construção coletiva do sujeito, considerando a sua bagagem cultural adquirida ao longo de sua vida, daí a necessidade de promover espaços que permitam ouvir a voz dos educandos e estes se verem como participantes ativos num exercício constante de reflexão sobre a construção do conhecimento e os seus próprios processos formativos (Lins; Bregagnolo, 2020). Dessa forma, as oficinas e demais ações acabam sendo esses espaços de troca onde acontecem momentos de debate e escuta e onde o ato educativo e artístico torna-se um ato político. De acordo com Fiuza (In Cerri, 2007),

Vivemos numa sociedade em que sons e imagens invadem diariamente nosso cotidiano. Essa assertiva não tem nada de genial, e muitos professores perceberam nas últimas décadas o grande filão que é o trabalho na sala de aula com as linguagens: cinematográfica, teatral, literária, televisiva e, claro, musical. (Fiúza, 2007, p. 65)

Assim, o trabalho feito com textos diversos, principalmente letras de música, permite aos alunos e alunas olhar para si próprios e fazer uma leitura de si mesmos. Suas experiências individuais captadas nas letras de rock e, posteriormente, em suas produções textuais, geralmente levam ao resgate de suas histórias pessoais, que expõem a suas visões sobre mundo, sobre como é e como deveria ser a sociedade e as pessoas que nela vivem (Lins; Bregagnolo, 2020).

Além disso, há a importância de ver-se representado por músicas que trazem em suas letras a realidade que os cerca ou conhecer trabalhos de pessoas com biografias parecidas com as suas: jovens artistas diversos (Raimundos, Charlie Brown Jr., Luxúria), pessoas LGBTQIA+ (Legião Urbana, Cazuza, Cássia Éller), mulheres (Rita Lee, Pitty, Tina Turner), negros (Planet Hemp, O Rappa, Sister Rosetta Tharpe - a pioneira no rock ainda nos anos 1940), etc.

Assim, a pesquisa em curso traz mais uma questão norteadora: Como as práticas artísticas produzidas em espaços escolares e não escolares, considerando a cena Rock mundial, nacional, regional e local, corroboram as práticas de resistências e inventividades da mulher no cenário dessa arte?

O prefácio do livro “Mulheres não devem ficar em silêncio”, organizado por Ana Mae Barbosa, traz a triste constatação de que “as mulheres pioneiras são seguidas, mas não reconhecidas em seu pioneirismo”. Nos artigos e ensaios que compõem o livro, Barbosa (2019) e seus autores/as deixam explícito que “a missão da mulher nas artes e nos espaços de poder nunca foi fácil”. Cada página é dedicada a trazer à tona a trajetória pessoal e, principalmente, profissional de mulheres que foram ativistas de uma educação libertadora e impulsionadoras de uma produção artística feminina.

Ao longo da história, é notória a situação de que as mulheres foram educadas e ensinadas a fazer sacrifícios em nome da família, e adotar uma personalidade introspectiva e submissa. Na prática, isso resulta em relações sociais de poder sobre as mulheres e essa estrutura cresceu e se fortaleceu ao longo da história da Humanidade, ou seja, o papel de protagonista nas histórias pautadas pelo patriarcado será sempre dos homens cis, brancos e heterossexuais.

Ionara Lemos, pesquisadora PPGEDUC: Você já tinha pensado nessa ausência do elemento feminino, da figura feminina na cena rock? Sim, porque como eu sou uma pessoa que tô à frente do cantar, né, do cantar o rock, de ser essa figura feminina, eu sempre me... sempre não, mas na maioria das vezes me via muito só eu. Caraca, tem várias bandas, mas só eu (de mulher) que canto. E em muitos momentos, que é o que inclusive acontece hoje, eu não era a cantora da banda, eu era uma ‘participação especial’ (gesto feito com os dedos pela narradora). Então isso sempre foi, assim, despertou na minha cabeça essa questão, só posso fazer pequenos... só posso ter pequenos momentos, né, durante esses eventos e tal. Já era gratificante pra mim, mas é muito pouco perto do que a gente pode ter do nosso potencial. E eu sei que em Tucuruí tem muito mais pessoas, muito mais mulheres, que até querem, mas talvez não se sentem à vontade, eu acho que não tem oportunidade, não tem o incentivo, como a gente tava conversando aqui, mas é bem visível e sempre foi perceptível pra mim. (Rafaela Gomes8, Professora universitária, cantora e integrante do Movimento Rock Tucuruí)

A Arte imita a vida, então o cenário artístico não segue um roteiro diferente. Relatos como esses e de tantos outros talentos femininos que foram silenciados, apagados e mortos são inúmeros: desde Marilyn Monroe, passando por Tina Turner e, mais recentemente, Jacinda Ardern e Shakira, a sociedade assiste (e na maioria das vezes aplaude) o ato da mulher ser apenas uma “participação especial”, abrir mão da carreira pelo bem da família, apoiar incondicionalmente a carreira de quem se ama em detrimento da sua própria. E quando afloram sentimentos de revolta e indignação que culminam em tentativas de mudar essa realidade, isso é vigorosamente silenciado de inúmeras formas pela dominação masculina patriarcal, pois, afinal, o foco é a felicidade do companheiro e da família (Tiburi, 2021).

Diante desse panorama, a pesquisa levanta mais questões para se pensar: quem é o autor desse roteiro imposto às mulheres? Como é possível a mulher se dedicar a outras atividades que não sejam o cuidado da família? Como a mulher pode atuar no cenário profissional, artístico ou político? Como mudar esse roteiro?

Historicamente, as mulheres sempre tiveram um papel central na arte, mas foram invisibilizadas por uma sociedade patriarcal. Agora, o desafio é conquistar mais autonomia e liberdade, e ocupar cada vez mais espaço no teatro, circo, cinema, na música, literatura ou dança, mostrando todas as suas múltiplas potencialidades.

É preciso buscar de maneira constante e insistente uma educação de qualidade, a qual deve ser pautada por um trabalho e uma pedagogia que traga aos educandos uma aprendizagem significativa, integral e formativa, onde estes desenvolvam a capacidade crítica em relação a temas como desigualdade social, femininos, respeito às diversidades, entre outros temas essenciais.

Então se você não tiver hoje, minha opinião, alguém ou algum grupo pra tá fomentando o ensino... Às vezes tu nem vai aprender nada, porque tu já sabe, mas só de se inserir naquilo através de um mediador, seja da educação, né, que vai fazer você experimentar isso. Talvez você tenha vergonha, que você seja tímida, que você tenha medo, vai abrir essa porta. Que é uma porta que eu vejo que está fechada. Mas não fechada porque a gente quer que esteja fechada. (...) Mas essa porta que a gente mesmo deixa fechada na nossa cabeça, com medo de experimentar coisas novas, coisas que não são "padronizadas para o público feminino" (gesto de entre aspas feito pela narradora). Quando a gente fala de uma sociedade machista, do patriarcado, sempre o homem tá no protagonismo. E nesse caso, a mulher acaba ficando um pouco ali de lado. (Rafaela Gomes9, Professora universitária, cantora e integrante do Movimento Rock Tucuruí)

Ionara Lemos, pesquisadora PPGEDUC: E é interessante essa hegemonia masculina porque o rock, na verdade, nasceu... foi parido por uma mulher, né? Uma preta da hora, da década de 50, né, que é a Sister Rosetta. Ela que começou esse movimento do blues com o jazz e o country e a questão do violão elétrico, né, que não era guitarra ainda na época.

Assim sendo, o estudo em curso pretende realizar uma PESQUISA-INTERVENÇÃO em espaços escolares e não escolares, a fim de abrir passagens para as potências femininas, artísticas e educativas, na cena musical do município de Tucuruí e relacionar essas práticas artísticas e educativas às vivências musicais de mulheres atuantes no Movimento Rock Tucuruí.

CONSIDERAÇÕES NÃO CONCLUSIVAS

O presente texto buscou apresentar os passos iniciais da pesquisa de mestrado desenvolvida no biênio 2023-2024 no PPGEDUC/UFPA/CUNTINS. Dessa forma, ele traz os referenciais teóricos, obras e autores/as ainda em fase de aprofundamento e construção, desconstrução e reconstrução de conceitos, práticas e conhecimentos, que irão contribuir significativamente para aprofundar diversos aspectos da pesquisa, além de possibilitar reflexões que podem levar à consolidação do trabalho ou até mesmo a repensá-lo.

Em relação à pesquisa social, ela está sendo feita por meio de entrevistas (momentos de intertrocas) gravadas em áudio visual, e esse conteúdo coletado “in loco”, acrescido dos registros em imagens, fará parte não apenas da dissertação como também do documentário “Educação, Rock e Resistência Cultural” produzido pela pesquisadora com recursos da Lei Paulo Gustavo através do Edital de Chamamento Público Nº 23/2023 SECULT/PA - Audiovisual - Apoio a Produções Audiovisuais - por meio do projeto aprovado.

Fonte:https://www.secult.pa.gov.br/edital/93

Figura 2 Comprovação da aprovação do projeto do documentário “Educação, Rock e Resistência Cultural”. 

Até o momento é possível assinalar que as atividades artísticas e pedagógicas desenvolvidas dentro e fora dos muros da escola por arte-educadores/as e agentes culturais do Movimento Rock Tucuruí são propostas que realmente viabilizam a melhoria da qualidade da educação e possibilitam mudanças positivas na sociedade. Os espaços onde acontecem essas ações dão oportunidades a jovens mulheres artistas para se engajarem em práticas afirmativas no que se refere à arte, ao gênero, entre outras questões, e também condições de ocuparem esses locais, adquirir conhecimentos, ouvir e serem ouvidas.

Os próximos passos da pesquisa-intervenção adentrarão às ondas musicais do rock e seus referenciais teóricos, a fim de seguir ao encontro das potências artísticas femininas e das práticas educativas de resistências e transgressões do MRT e suas reverberações na cena artística local.

A partir dos resultados, almejamos: divulgar as ações desses/as artistas e arteeducadores/as que contribuem com uma educação crítica e inventiva dentro e fora dos muros da escola; dar visibilidade à arte feminina na cena rock local; destacar as contribuições artísticas e educativas do MRT como coletivo cultural para a formação de pessoas críticas e sensíveis às questões sociais e políticas da sociedade, as quais fortalecem a educação básica e fomentam outras práticas educativas em Tucuruí e região do lago.

3Termo impresso na década de 1980 pela Profa. Dra. Ana Mae Barbosa que designa uma categoria de profissionais, devidamente licenciados em Arte, e o tipo de trabalho que desenvolvem, com base, em geral, na abordagem triangular também assinalada por Barbosa.

4Colaboradora da pesquisa em andamento entrevistada em 11/12/2023.

5 Colaboradora da pesquisa em andamento entrevistada em 11/12/2023.

6Colaborador da pesquisa em andamento entrevistada em 02/12/2023.

7Colaboradora da pesquisa em andamento entrevistada em 02/12/2023.

8Colaboradora da pesquisa em andamento entrevistada em 11/12/2023.

9Colaboradora da pesquisa em andamento entrevistada em 11/12/2023.

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Recebido: 23 de Fevereiro de 2024; Aceito: 24 de Julho de 2024; Publicado: 03 de Setembro de 2024

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