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Linguagens, Educação e Sociedade (LES)

versão impressa ISSN 1518-0743versão On-line ISSN 2526-8449

Revista LES vol.29 no.59 Teresina jan./abr. 2025  Epub 13-Jun-2025

https://doi.org/10.26694/rles.v29i59.5883 

Artigos

A PERCEPÇÃO DOS PESQUISADORES DE LETRAS SOBRE O EIXO DE LINGUAGENS E SUAS TECNOLOGIAS NA BNCC

LANGUAGE ARTS AND LITERATURE RESEARCHERS’ PERCEPTION REGARDING THE AXIS OF LANGUAGE AND ITS TECHNOLOGIES IN THE BNCC

LA PERCEPCIÓN DE LOS INVESTIGADORES DE LETRAS SOBRE EL EJE DE LENGUAJES Y SUS TECNOLOGÍAS EN LA BNCC

Mariana Gurgel Pegorini

1 Mestranda em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Professora titular de Língua Inglesa no Colégio Marista Anjo da Guarda, Curitiba, Paraná, Brasil. Endereço para correspondência: Rua Crescêncio Batista, n. 453, Atuba, Pinhais, Paraná, Brasil. Email: marianagurgelpegorini@gmail.com

1 
http://orcid.org/0000-0002-7931-6731

Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira

2 Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUCPR, Curitiba, Paraná, Brasil. Endereço para correspondência: Rua Des. José Carlos Ribeiro Ribas, nº 1.409, Abranches, Curitiba, Paraná, Brasil, CEP: 82130-300. E-mail: alboni@alboni.com

2 
http://orcid.org/0000-0003-3759-0377

1Pontifícia Universidade Católica do Paraná

2Pontifícia Universidade Católica do Paraná


RESUMO

O tema deste artigo é o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na visão dos pesquisadores da área de Letras, mais especificamente, os fatores positivos e desfavoráveis que estes pesquisadores percebem na BNCC, expressos nos seus artigos. Portanto, o problema de pesquisa que orienta esse trabalho é: quais percepções os pesquisadores da área de Letras construíram acerca do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC? O objetivo geral do artigo é analisar criticamente o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC a partir da produção acadêmica da área de Letras. A metodologia adotada é a revisão sistemática de caráter qualitativo. Por meio da plataforma Periódicos CAPES, selecionou-se 16 artigos, todos produzidos por pesquisadores de Letras que analisaram o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC e que disponibilizaram seus trabalhos de forma integral. Dentre os fatores positivos percebidos pelos autores, merece ênfase a perspectiva enunciativo-discursiva que o eixo de Linguagens e suas Tecnologias adota. E entre os fatores negativos apontados nos artigos, destaca-se a insatisfação dos pesquisadores quanto à BNCC, devido ao seu caráter impositivo e unificador, que fere a autonomia docente. Dessa forma, conclui-se que, apesar de concordarem com determinadas práticas pedagógicas e perspectivas de ensino contidas na BNCC, os docentes gostariam de poder elaborar seus próprios currículos a fim de atender melhor às necessidades dos seus estudantes, considerando o contexto em que estão inseridos.

Palavras-chave: Base Nacional Comum Curricular; Linguagens e suas Tecnologias; Letras; Revisão sistemática.

ABSTRACT

This article's theme is the Base Nacional Comum Curricular's (BNCC) Languages and its Technologies axis from the point of view of researchers from the area of Language Arts and Literature, most specifically, the positive and negative factors those researchers notice in BNCC, expressed in their articles. Therefore, the research problem that guides this work is: what perceptions did the Language Arts and Literature researchers develop concerning BNCC's axis of Language and its Technologies? The general aim of this article is to critically analyze the axis of Language and its Technologies based on researchers from the field of Language Arts and Literature's academic production. Through the Periódicos Capes platform, sixteen articles were selected, all produced by researchers from the area of Language Arts and Literature who analyze BNCC's axis of Language and its Technologies and who published their works integrally. Among the positive factors noticed by authors, the enunciate-discursive perspective adopted by the axis of Language and its Technologies should be emphasized. And amidst the negative factors, the researchers' dissatisfaction due to BNCC’s imposing and unifying character, which harms teaching autonomy, is highlighted. Therefore, it is possible to conclude that, although teachers agree to some pedagogical practices and teaching perspectives contained in BNCC, they would like to be able to elaborate their own curriculums to better meet with their students' needs, considering the context they are in.

Keywords: Base Nacional Comum Curricular; Language and its Technologies; Language Arts and Literature; Systematic review.

RESUMEN

El tema de este artículo es el eje de Lenguajes y sus Tecnologías de la Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desde el punto de vista de investigadores del área de Letras, más específicamente, los factores positivos y desfavorables que estos investigadores perciben en la BNCC, expresos en sus artículos. Por lo tanto, el problema de investigación que orienta este trabajo es: ¿cuáles percepciones construyeron los investigadores de Letras acerca del eje de Lenguajes y sus Tecnologías de la BNCC? El objetivo general de este artículo es analizar críticamente el eje de Lenguajes y sus Tecnologías de la BNCC desde la producción académica del área de Letras. La metodología adoptada es la revisión sistemática de carácter cualitativo. Por medio de la plataforma periódicos CAPES, fueron seleccionados 16 artículos, todos producidos por investigadores del área de Letras que analizaron eje de Lenguajes y sus Tecnologías de la BNCC y que hicieron disponibles sus trabajos de forma integral. Entre los factores positivos percibidos por los autores, merece énfasis la perspectiva enunciativo-discursiva que el eje de Lenguajes y sus Tecnologías adopta. Y entre los factores negativos apuntados en los artículos, recibe destaque la insatisfacción de los investigadores a respecto de la BNCC, debido a su carácter imponente y unificador, que hiere la autonomía docente. De esa manera, se concluye que, a pesar de estar de acuerdo con determinadas prácticas pedagógicas y perspectivas de enseñanza contenidas en la BNCC, a los docentes les gustaría poder elaborar sus propios currículos a fin de satisfacer mejor a las necesidades de sus estudiantes, considerando el contexto en que están insertados.

Palabras-clave: Base Nacional Comum Curricular; Lenguajes y sus Tecnologías; Letras; Revisión sistemática.

INTRODUÇÃO

O tema deste artigo é o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na visão dos pesquisadores da área de Letras, mais especificamente, os fatores positivos e negativos que estes pesquisadores enxergam na área de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC, expressos nos seus artigos. Portanto, o problema de pesquisa que orienta esse trabalho é: quais percepções os pesquisadores da área de Letras construíram acerca do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC?

Essa pesquisa é relevante visto que, desde a publicação da BNCC, em 2018, houve uma grande discussão no meio escolar e acadêmico sobre esse tema, resultando em produções acadêmicas de diferentes áreas, em nível de graduação ou de pós-graduação. Ademais, na educação superior, promoveram-se alterações na formação de docentes a fim de ajustá-la à lógica do documento, como será discutido posteriormente no referencial teórico. Apesar da imposição da BNCC, professores das diversas áreas se manifestaram contrários à adoção desse currículo padronizado por questões ideológicas e políticas, tais como a necessidade de capacitação dos profissionais e de uma reestruturação das escolas para atenderem às novas exigências que o documento traz.

O objetivo deste artigo, assim, é analisar criticamente o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC a partir dos artigos científicos da área de Letras publicados nos periódicos CAPES. E os seus objetivos específicos são:

  • a) Contextualizar o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC do ponto de vista teórico e legal.

  • b) Verificar os fatores positivos e negativos do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC que são identificados nos artigos de pesquisadores em Letras.

  • c) Analisar criticamente os resultados obtidos.

Este artigo está organizado da seguinte forma: apresenta conceitos sobre a BNCC e o ensino por competências incluso nela; descreve a metodologia de pesquisa, indicando os trabalhos selecionados para estudo; analisa os resultados e encerra com as considerações finais.

REFERENCIAL TEÓRICO

A BNCC é um documento normativo que estabelece quais conhecimentos os estudantes brasileiros devem dominar em cada fase da Educação Básica, com vistas à formação integral do ser humano e à criação de uma sociedade justa, democrática e inclusiva (Brasil, 2018). É também definida como um meio de balizar a qualidade da educação. Para isso, a Base é organizada em níveis de ensino, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, assim como em eixos curriculares: Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Linguagens e suas Tecnologias e Matemática. Cada eixo conta com competências e habilidades que os estudantes devem desenvolver. De acordo com o documento (Brasil, 2018, p. 10), competência é a "mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho".

Para Zabala e Arnau (2010), o ensino por competências é uma estratégia que visa a superar a educação tradicional, centrada na memorização, sem se preocupar com a forma como os conhecimentos serão aplicados na vida real. Os autores conceituam “competência” como a capacidade de realizar uma tarefa com eficiência, explicando que essa proposta de ensino converte os saberes acadêmicos em algo aplicável. Embora as disciplinas e conteúdos escolares permaneçam os mesmos, a intenção passa a ser que o estudante possa aplicar o que aprendeu para solucionar problemas reais. Além disso, a escola adota a formação integral, isto é, deixa de formar alunos apenas intelectualmente, e começa a desenvolver os demais aspectos do ser humano, como o social.

Por outro lado, Santos e Mesquida (2014) discordam dessa visão acerca do ensino por competências. Para esses pesquisadores, essa abordagem está ligada ao neoliberalismo, que ao chegar ao ambiente escolar introduziu nele os ideais de qualidade, produtividade e eficiência, que aos poucos foram se desviando para competências. Dessa forma, o trabalho docente passa a se assemelhar ao gerenciamento, pois, ao invés de planejar e refletir sobre a sua atuação, o professor se limita a colocar as atividades pensadas por outras pessoas em prática e eliminar eventuais obstáculos. Os autores ainda explicam que a finalidade última do ensino por competências é a adaptação ao mercado de trabalho, o que justifica a preocupação em ensinar os estudantes a resolverem problemas, tomarem decisões e continuarem aprendendo.

Freitas, Libâneo e Silva (2018) levantam outra crítica ao ensino neoliberal: a função educativa da escola deixa de ser a formação científica e cultural do estudante e passa a ser a transmissão de conhecimentos utilitários, como a leitura, a escrita, o cálculo, a transmissão de problemas, entre outros. Neste modelo, a aprendizagem dos alunos e a qualidade da educação são medidas por avaliações de desempenho. Tendo isso em vista, discordam de Zabala e Arnau (2010) pois entendem que o processo de aprendizagem está orientado para a memorização e reprodução de conteúdos.

Libâneo (2018) argumenta que esse processo resulta em uma perda da autonomia docente, pois o papel do professor se reduz ao treinamento para responder a testes padronizados. É possível acrescentar que, com isso, a qualidade do trabalho docente passa a ser medida pelos resultados de testes de larga escala, desconsiderando outros fatores relevantes, como o desenvolvimento de habilidades de pensamento superiores, já que tais testes requerem principalmente a memorização e reprodução.

Segundo Pereira e Evangelista (2019), os responsáveis pelo modelo de ensino neoliberal desejam que os professores tenham um nível mínimo de ensino, envolvendo Matemática, Língua Portuguesa e os métodos pragmáticos de ensino, de modo que estes não sejam questionadores e apenas reproduzam o que os materiais didáticos fornecidos pelos grupos neoliberais ditam. Nota-se assim uma redução do seu papel e um engessamento da sua atuação.

Essa realidade de controle do trabalho pedagógico, seja pela determinação de um currículo único ou da aplicação de testes externos, pode atingir tanto as escolas públicas quanto as privadas em todos os níveis, uma vez que a BNCC engloba toda a Educação Básica nacional. Em especial no Ensino Médio, favorece um ensino superficial, apressado, impessoal e técnico, devido à grande quantidade de conteúdo estipulado para essa fase e pela cobrança de que a escola promova a inserção rápida no mercado de trabalho.

Libâneo (2018, p. 318) afirma que as avaliações externas funcionam como um mecanismo de padronização e direcionamento do currículo, bem como levam os professores a acreditarem que a qualidade da educação depende principalmente dos seus esforços, não levando em conta fatores como “a infraestrutura da escola, condições de trabalho, orientação pedagógica, e sua própria condição salarial e suas carreiras profissionais".

Do ponto de vista dos estudantes, Libâneo (2018) defende que o ensino por competências cria uma competição entre eles, desconsiderando suas características individuais, assim como a bagagem social e cultural que cada um traz. O autor explica que os que não conseguem competir são classificados como indisciplinados ou maus alunos. Libâneo (2018) também diverge do pensamento de Zabala e Arnau (2018), uma vez que afirma que o ensino por competências segue a mesma lógica do ensino tradicional, embora esteja maquiado por tecnologias.

Silvas e Giovendi (2022) são críticos em relação à BNCC. Os autores argumentam que a função docente envolve tanto a teoria, isto é, o planejamento do que será ensinado e como o será, quanto a execução, enquanto o documento faz com que o professor se torne apenas um executor. Além disso, defendem que o currículo não pode ser planejado de forma separada do contexto local de cada escola, mas que deve ser construído de forma coletiva e democrática.

A implementação da BNCC acarreta mudanças na formação docente. De acordo com Claudino e Borges (2023), os princípios de formação de novos professores, que antes prezavam por uma preparação densa, crítica e ampliada, foram corrompidos e submetidos à Base. Para essas pesquisadoras, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) têm como fim formar aplicadores da BNCC, barrando a autonomia docente. Também argumentam que uma formação fragmentada dessa maneira conduz a negação da pluralidade de formas de ensinar e de aprender, além de desvalorizar o papel do professor. As autoras explicam que isso é justificado pelo discurso de que os resultados insuficientes dos estudantes são fruto de uma má formação dos educadores.

Peroni, Caetano e Arelaro (2019) apontam que, além da formação docente, a BNCC orientará a adequação de livros e recursos didáticos e o alinhamento das avaliações. Os autores nomeiam grupos privados envolvidos na elaboração da Base: a Fundação Santillana e Abrelivros, o Itaú-Unibanco, o Instituto Ayrton Senna, o Insper, a Fundação Roberto Marinho, o Instituto Natura e o Movimento Todos pela Educação, os quais produzem materiais didáticos. Segundo os pesquisadores, a participação de tais grupos se deve a interesses financeiros, como a venda de material didático, de consultorias especializadas, a tomada da gestão das escolas e dos programas da secretaria de educação.

Ademais, o interesse dos grupos privados pela educação está de acordo com o que postula Laval (2019): as reformas educacionais neoliberais são orientadas pela competição econômica e pela crescente necessidade do saber para acumular capital. Afirma que disso surgem as propostas de padronização de métodos e conteúdos, como a BNCC. O autor argumenta que em épocas anteriores, era preciso que os trabalhadores fossem dóceis, mas que na atualidade, é necessário que sejam criativos e que tenham iniciativa, e que as escolas assumam o papel de suprir essa necessidade das empresas, provendo indivíduos com esse perfil para o mercado de trabalho. Enquanto isso, sua função de emancipar sujeitos politicamente e contribuir com o desenvolvimento pessoal fica negligenciada (Laval, 2019).

Ainda conforme Peroni, Caetano e Arelaro (2019), a BNCC foi aprovada de forma não transparente e antidemocrática, uma vez que a sua terceira (e última) versão foi implementada desconsiderando a construção anterior dos professores e especialistas de universidades, priorizando a participação de integrantes internacionais e membros das secretarias do Ministério da Educação. Nesse sentido, como referem Albino e Araújo (2019), não foram considerados documentos encaminhados à época ao Conselho Nacional de Educação - CNE por associações representativas da educação no país, como a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) e a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), que entendiam que nenhuma das versões da BNCC reconheciam “as dimensões da diversidade da educação brasileira, traduzindo-se em um mecanismo antidemocrático de desrespeito, sobretudo, às diferenças existentes em nosso país” (Albino; Araújo, 2019, p. 253).

Dessa forma, vê-se que a BNCC não foi recebida e entendida da mesma forma por todos os profissionais da educação. A pesquisa científica é um meio propício para investigar o posicionamento desses sujeitos e compreender quais fatores positivos e negativos identificam na Base.

METODOLOGIA

A metodologia desta pesquisa é bibliográfica, documental e de revisão sistemática. Rother (2007) define a pesquisa de revisão como aquela que utiliza como fontes os resultados de pesquisa de outros autores para fundamentar teoricamente um objetivo. Ferenhof e Fernandes (2016) conceituam revisão sistemática como a pesquisa que reúne e integra os resultados de pesquisa de um tema de forma organizada e abrangente. A abordagem adotada será a qualitativa, que, segundo Triviños (2015), se preocupa menos com a quantidade de dados coletados e mais com a qualidade e os interpreta indutivamente. A plataforma utilizada para a coleta de artigos de pesquisadores da área de Letras foi o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

O descritor utilizado foi "Base Nacional Comum Curricular". Inicialmente, encontrou-se 2.317 artigos. Após a aplicação do filtro dos 5 últimos anos (2018 a 2023), restaram 2.134. Destes, 601 foram escritos em português, enquanto o restante foi publicado em inglês ou espanhol, majoritariamente. Finalmente, com a leitura dos títulos, selecionou-se 17 artigos relevantes para esta pesquisa. O critério de seleção foi que os artigos tratassem dos componentes curriculares Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literatura, pertencentes ao eixo de Linguagens e suas Tecnologias, no qual atuam os pesquisadores da área de Letras.

Esse procedimento se justifica, uma vez que a pesquisa busca investigar especificamente a percepção de pesquisadores pertencentes à área de Letras acerca do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC, e que o profissional de Letras pode atuar dando aulas nos três componentes curriculares. Portanto, todos os artigos que tratavam de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Literatura foram incluídos (e o componente curricular abordado pelo artigo foi identificado por meio da leitura do resumo e das palavras-chave). Optou-se por incluir autores favoráveis ou desfavoráveis à BNCC a fim de mostrar a diversidade de ideias a respeito do tema.

Quadro 1 Textos selecionados para a análise 

Número Título Autor(a)(s) Ano de publicação
1 Literatura sufocada: a leitura literária nas versões da
Base Nacional Comum Curricular para os anos iniciais do Ensino Fundamental
Oliveira e Fraguas 2022
2 As práticas de Oralidade em Língua Portuguesa a partir dos textos introdutórios da Base Nacional Comum Curricular Nascimento e Moretto 2022
3 Ensino de língua inglesa e a Base Nacional Comum Curricular à luz de uma teoria crítica Sousa e Nascimento 2023
4 As práticas de ensinagem de Língua Portuguesa e a Base Nacional Comum Curricular Sousa 2023
5 Gênero orais da esfera científica na Base Nacional
Comum Curricular
Storto,
Costa-Maciel e Magalhães
2023
6 O ensino de língua portuguesa: das propostas e parâmetros à Base Nacional Comum Curricular Pietri 2021
7 Base Nacional Comum Curricular (BNCC), bilinguismo, leitura em língua adicional e estratégias: abordagens e Rosso e Fontes 2021
discussões
8 O espaço do texto literário na Base Nacional Comum
Curricular
Porto e Porto 2018
9 Plano de texto e produção escrita: a construção composicional de gêneros na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) Oliveira e Queiroz 2020
10 O Ensino-aprendizagem de Língua Inglesa, o brincar e as relações com a Base Nacional Comum Curricular Delboni e Vendramini-Zanella 2020
11 Base Nacional Comum Curricular: um olhar sobre a ação docente, sua formação e o ensino da língua
materna
Oliveira, Parisotto e Messias 2019
12 Recursos educacionais abertos nas aulas de língua inglesa: Criação de atividades alinhadas à Base Nacional Comum Curricular Mello e Boscarioli 2019
13 Os gêneros orais na penúltima versão da Base Nacional Comum Curricular: implicações para o ensino Jacob, Diolina e Bueno 2018
14 Base Nacional Comum Curricular: aproximações entre língua portuguesa e tecnologias para aprendizagem Coelho, Costa e
Azevedo
2020
15 A Base Nacional Comum Curricular e a formação de professores de língua inglesa: desafios e
possibilidades
Fistarol, Fischer e Wenderlich 2019
16 Representações de letramento na BNCC para o Ensino
Fundamental nos componentes curriculares Língua Portuguesa e Língua Inglesa
Brum e Fuzer 2019

Fonte: Elaborado pelas autoras, com base nos dados do Portal de Periódicos da CAPES (2023)

Para a análise dos resultados, inicialmente, os pontos trazidos pelos artigos foram divididos em duas categorias: aqueles que são favoráveis à BNCC e os que são desfavoráveis, todos com indicação dos autores e dos anos de publicação dos artigos. Em seguida, os principais pontos abordados pelos artigos serão discutidos em três subitens: falta de autonomia docente; a formação para o mercado de trabalho e o pragmatismo; e a perspectiva de ensino centrada no texto. Nesses subitens, serão trazidos tanto os pontos positivos quanto os negativos, mostrando as concordâncias e discordâncias entre os pesquisadores. A análise dos dados se baseia na Análise de Conteúdo de Bardin (2011), que utiliza técnicas de classificação dos elementos significantes de um texto para testar as hipóteses do pesquisador. Neste caso, foram classificadas as principais posições positivas e negativas elencadas pelos autores ao longo dos textos.

ANÁLISES E RESULTADOS

Nesta seção se apresentam os principais resultados obtidos a partir da leitura dos artigos selecionados, por meio de um quadro que indica os autores, o ano de publicação do trabalho, seus objetivos e suas principais conclusões, bem como o posicionamento crítico dos autores a respeito do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC, à luz dos resultados encontrados e do referencial teórico exposto.

Quadro 2 Posicionamentos e críticas dos pesquisadores 

Autores(as) e ano Objetivo(s) do estudo Principais posições
favoráveis à BNCC
Principais
posições desfavoráveis à BNCC
1 Oliveira e
Fraguas
(2022)
Analisar concepções sobre a formação do
leitor literário nas
quatro versões da BNCC.
A Educação Literária na BNCC é inserida
no campo artístico-
literário e considerase as
potencialidades
transformadoras e humanizadoras do texto literário.
A literatura é vista como um conhecimento a ser adquirido nos anos escolares, o que vai na contramão da leitura por fruição e da formação de
leitores por meio da exploração de textos diversos, escolhidos pelo
próprio educando. A BNCC adota um discurso ambíguo ao tratar da
literatura, misturando essas duas visões do ensino desse componente curricular.
2 Nascimento e
Moretto
(2022)
Analisar o texto introdutório
referente ao eixo oralidade
disponível na
seguinte seção do
documento BNCC:
Etapa do ensino fundame ntal -item 4.1 Área de linguagens -
item 4.1.1 Língua
Portuguesa
A BNCC coloca o texto no centro das aulas de língua. A BNCC gera adesão imposta pela verticalização das propostas e prioriza
aspectos normativos da língua, dando pouca ênfase ao uso, produção e
circulação dos textos. Segundo as
autoras, o documento é um projeto
neoliberal que resultará em formação
insuficiente e mão de obra barata. Além disso, sustentam que as propostas para
o eixo de oralidade não consideram que
nem todos os estudantes têm acesso à
Internet, tampouco as condições econômicas e estruturais das escolas públicas.
3 Sousa e
Nascimento
(2023)
Refletir acerca de como a BNCC interpreta e
constrói sentidos no que se refere
ao tratamento do
componente social crítico em aulas de
Inglês do ensino bá sico, com ênfase
nos anos finais do
Ensino Fundamental.
Os autores reconhecem a
importância de
reconhecer o inglês
como língua franca e desmistificar o falante ideal.
Os autores afirmam que a BNCC é passível de críticas devido ao seu
caráter centralizador e unificador de um sujeito padronizado, que é
insuficiente. Consideram desvinculada da realidade a exigência de que os professores de inglês tenham
conhecimento da diversidade da língua.
Além disso, criticam o critério de inteligibilidade proposto pela BNCC,
uma vez que não estabelece como se distinguir o que é compreensível e o que é incompreensível.
4 Sousa (2023) Discutir a relevância da BNCC
como documento
oficial;
correlacionar asdiscussões na
BNCC comaspráticasdeensinoe
aprendizagem de
Língua Portuguesa na formação dos
falantes da língua; compreender como a BNCC
discute um
currículooficialàluzda
aprendizagem, comunicação e
interação por meio da língua materna.
Para o autor, a BNCC almeja criar um
currículo inclusivo, que atenda às
necessidades de
aprendizagem dos
alunos dos diversos
brasis existentes.
Suas reflexões conseguem
organizar modelos
de conhecimento, emancipar a
participação dos
falantes e levá-los a se expressarem nas
práticas discursivas através de um trabalho de letramento reconstruído.
5 Storto, Costa-
Maciel e
Magalhães
(2023)
Analisar a presença dos gêneros orais
da esfera científica na BNCC destinada ao Ensino Fundamental (1º ao 9º ano).
Os autores reconhecem o
potencial da BNCC para trabalhar
sistematicamen-te o campo científico ao longo da Educação Básica.
Conforme a análise dos autores, a oralidade é menos presente que a escrita na BNCC, um pressuposto
sustentado por uma visão errônea de
língua. Além disso, a pouca diversidade
dos gêneros textuais orais não favorece a compreensão dos estudantes do que é a pesquisa científica nem os permite se engajarem em práticas de pesquisa.
6 Pietri (2021) Observar as proposições
curriculares oficiais para o ensino de
língua portuguesa na escolarização
básica em função
das condições políticas,
econômicas e
ideológicas em que os documentos foram produzidos.
O autor argumenta que a BNCC foi criada em um período de ideologia neoliberal. Na concepção do
documento, o professor não tem
autonomia para escolher o que ensinar
nem a finalidade do ensino, apenas os seus meios. Da perspectiva do
educando, o pesquisador defende que as competências da BNCC impedem a atuação crítica, a produção e partilha
de ideias, entre outras práticas. Através da análise dos verbos presentes nas
competências e habilidades, o autor as define como utilitaristas.
7 Rosso e Fontes (2021) Esclarecer se e de que forma a BNCC aborda os temas
bilinguismo, leitura
em L2 e estratégias de leitura no corpo
Como pontos
positivos, as autoras citam a perspectiva
interacionista, o uso
das estratégias de leitura para o
As pesquisadoras explicam que há pouca menção ao desenvolvimento de
L2 através de mídias digitais e as competências a serem desenvolvidas não consideram a singularidade dos alunos. Além disso, há ambiguidades e
do documento. desenvolvimento da leitura proficiente
em língua inglesa e o trabalho com a habilidade de
identificar a
intencionalidade da propaganda no nono ano.
inconsistências que prejudicam o
entendimento das propostas da BNCC.
A Base adere a uma concepção que
desconsidera o caráter complexo da leitura ao ensinar as estratégias de leitura skimming e scanning.
8 Porto e Porto (2018) Discutir uma recente orientação do MEC para o ensino
fundamental
brasileiro; avaliar a
perspectiva sobre a literatura
constante no documento.
As autoras explicam que a BNCC não é inovadora nem capaz de trazer uma
educação de maior qualidade, visto que dá continuidade a outros documentos
educacionais. Apesar de reconhecerem a necessidade de abordar os gêneros
textuais digitais, criticam o trabalho com tecnologias proposto pelo
documento, uma vez que isso reforça a
ideia de que a educação precisa ser útil para o mercado. Para as autoras, a ausência da literatura como
componente curricular obrigatório é um impedimento para que os
estudantes tenham acesso a um
conjunto de conhecimentos essenciais e indispensáveis. As pesquisadoras
demonstram que a cultura digital é privilegiada enquanto a literatura é
pouco discutida, pois o documento não a menciona claramente, tampouco os
seus gêneros textuais ou a importância da apreciação literária para a formação cidadã.
9 Oliveira e
Queiroz
(2020)
Investigar a abordagem do elemento
construção
composicional/
plano de texto na
BNCC de Língua
Portuguesa dos
Anos Finais do
Ensino
Fundamental, com foco na produção escrita.
Os autores identificam na BNCC a perspectiva enunciativo-discursiva e o dialogismo, de forma que o texto assume centralidade no ensino
(consideração suas condições de produção). A BNCC adota como fases de produção de um texto: o
planejamento, a elaboração, a revisão, a reescrita e a avaliação. Para os
investigadores, o plano de texto pode garantir que o processo de produção
de texto seja mais efetivo, contudo, é
preciso que a BNCC o indique como um recurso esquemático organizacional para a escrita.
10 Delboni e
Vendramini-
Zanella
(2020)
Compreender
comoobrincar
podeorientaro desenvolvimento
As autoras identificam nas competências da BNCC para o eixo curricular de Língua Inglesa a
possibilidade de incluir brincadeiras que
do ensino-
aprendizagem de
língua inglesa e promover o
interesse dos
alunos por essa disciplina,
partindo-se das
propostas de ensino-
aprendizagem de língua inglesa
elaboradas por alunos-professores
aumentem a compreensão dos
educandos sobre o mundo globalizado e o seu interesse por uma língua estrangeira.
11 Oliveira,
Parisotto e
Messias
(2019)
BNCC: um olhar sobre a ação
docente, sua
formação e o
ensino da língua materna.
Para os autores, a BNCC não é inovadora, pois suas discussões e
proposições já foram abordadas em
outros documentos educacionais. Além disso, associam as competências e
habilidades à lógica de mercado, visto
que valorizam o saber fazer e o dever. Ainda assim, veem de forma positiva as perspectivas discursivo-enunciativas do
documento, bem como o destaque aos textos multimidiáticos e multissemióticos.
12 Mello e
Boscarioli
(2019)
Propor atividades alinhadas à BNCC, utilizando as
tecnologias digitais
de informação e
comunicação, objetivando
demonstrar que
esses recursos usados nos
laboratórios de informática da
escola podem ser promissores ao
ensino de língua inglesa, fazendo
reflexões sobre o uso, criação e
compartilhamento de recursos
educacionais
abertos (REA),
como incentivo à
autoria, autonomia e colaboração
Os autores destacam a
importância das
competências da
BNCC referentes aos seguintes aspectos:
a interpretação de diversos gêneros
textuais, a interação entre leitor e autor,
a autoria do aluno, a concepção de
escrita como prática social, o
conhecimento
linguístico de forma prática, reflexivae contextualizada e a abordagem do
inglês como língua
franca. A partir das competências
expostas no
documento, propõe recursos
entre alunos e
professores.
educacionais a
serem utilizados nas aulas de Língua Inglesa.
13 Jacob, Diolina e Bueno
(2018)
Discutir os conteúdos
configuradosnape-
núltimaversão da BaseNacional
ComumCurricularde2017,
particularmente,
aquelesreferentesaotrabalho proposto com os gêneros orais no
ensino de Língua
Portuguesa nos anos finais do Ensino
Fundamental.
Conforme as autoras, os princípios assumidos pela BNCC distanciam-se da
perspectiva democráticaeinclusivacurricularfreiriana, foram elaborados com a participação de uma pequena
parte da sociedade, o que impossibilita a problematização da práxis pelos profissionais da educação. As
estudiosas também questionam a formação integral proposta
concomitantemente com a noção de que é suficiente que o educando
consiga aplicar o que aprendeu.
Ademais, criticam a ausência de citação de gêneros textuais orais na penúltima versão da BNCC, visto que um trabalho efetivo com eles contribui para a formação cidadã. Por último,
problematizam a caracterização
generalizada dada à oralidade, como se ela não se alterasse a depender do contexto comunicativo.
14 Coelho, Costa e Azevedo
(2020)
Refletir sobre o componente curricular de
Língua Portuguesa na proposta da BNCC.
Para os autores, a
BNCC não propõe um currículo fixo e imutável, mas sim
que dialogue com a diversidade local e
regional. O eixo de
Linguagens no
Ensino Fundamental é centrado na
interação com o
texto, privilegiando
a alfabetização e os
multiletramentos.
Outros pontos positivos percebidos
pelos pesquisadores são o caráter
multicultural do documento e a
ênfase concedida à cultura digital.
15 Fistarol,
Fischer e
Wenderlich
(2019)
Analisar a última versão da
BNCC (Brasil, 2017) quanto à formação
Frente à BNCC, os autores afirmam que é preciso haver novos programas de
de professores de língua inglesa na
Educação Básica.
formação
continuada de
professores, visto
que novos saberes, práticas e
procedimentos são exigidos. A BNCC
inclui no currículo escolar o
desenvolvimento
socioemocional do estudante e a
interdisciplinaridade.
O inglês é tratado como língua franca e as 5 habilidades
discursivas são integradas,
auxiliando na ampliação do
repertório
linguístico e cultural dos estudantes.
16 Brum e Fuzer (2019) Investigar representações
deletramento construídas
na BNCC para o Ensino
Fundamental nos componentes
curriculares Língua Portuguesa e
Língua Inglesa da área de
Linguagens.
A BNCC propõe um letramento crítico,
como forma de se posicionar em
diferentes esferas sociais. Também
considera relevante que as tecnologias sejam usadas com
frequência nas aulas
de Língua Inglesa.
Além disso, promove a
diversidade cultural
e de práticas sociais, com o intuito de
educar para o
respeito às
diferenças e para o
uso de diferentes
linguagens de acordo com o contexto.

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do Portal de Periódicos da CAPES (2023)

FALTA DE AUTONOMIA DOCENTE

Como pontos positivos encontrados, Nascimento e Moretto (2022) explicam que até a década de 1980 o ensino de Língua Portuguesa esteve marcado pela gramática normativa, até que estudos das últimas décadas começaram a questionar a qualidade dessa metodologia. Isso promoveu que o ensino da disciplina tivesse um enfoque maior na leitura, na escrita e na compreensão. Todavia, as pesquisadoras afirmam que a verticalização das propostas da BNCC, bem como a organização dos seus itens gerou uma gramatização dos eixos de uso, ao passo que as práticas relacionadas ao uso, à produção e à circulação de textos foram negligenciadas. Ainda segundo Nascimento e Moretto, o processo de criação da BNCC, que se deu em um momento político conturbado e contou com a participação de fundações filantrópicas, se caracteriza pela tendência neoliberal e se assemelha com a privatização, visto que exige, cobra e controla o que será ensinado.

Já quanto aos aspectos negativos, percebe-se o incômodo de muitos pesquisadores da área de Letras quanto a não sentirem que têm autonomia na sua atuação docente (Jacob; Diolina; Bueno, 2018; Nascimento; Moretto, 2022; Pietri, 2021; Sousa, 2023), o que é causado pelo caráter normativo da BNCC e pelo pequeno número de pessoas que teve o direito de contribuir com a escrita do documento. Essa questão é apontada especialmente pelos artigos que buscavam abordar o contexto histórico em que o documento foi escrito (Jacob; Diolina; Bueno, 2018; Nascimento; Moretto, 2022; Pietri, 2021).

Da mesma maneira, Pietri (2021, p. 5) argumenta que o documento responde aos interesses político-econômicos predominantes no momento da sua elaboração, relembrando que se tratava de um período de "alternância abrupta entre condições discursivas e ideológicas concorrentes". Oliveira, Parisotto e Messias (2019) complementam sinalizando que a Base determina certos conhecimentos em detrimento de outros, o que serve a um projeto de dominação da elite e impede a autonomia dos envolvidos na educação. Tratando disso, Jacob, Diolina e Bueno (2018) defendem que a voz das empresas privadas foi privilegiada na última versão da BNCC, enquanto os profissionais da educação sofreram desprestígio e serão obrigados a adequar sua ação às prescrições da Base.

Esses resultados vão ao encontro dos pressupostos teóricos de Silvas e Giovendi (2022), que postulam que o currículo escolar deve ser elaborado de forma democrática. Pode-se supor que o documento teria sido mais bem aceito entre os profissionais da educação se eles pudessem ter contribuído mais com a sua criação e manifestado as necessidades específicas do seu contexto de ensino. Ainda assim, resta a dificuldade da imposição de um currículo único para todo o Brasil, que engessa a educação e desconsidera a identidade dos diferentes sujeitos presentes nela.

Por outro lado, Rosso e Fontes (2021) manifestam a divergência dos profissionais da área nesse assunto ao argumentarem que a BNCC já está sendo implantada em várias instituições, por isso é irrelevante levantar questionamentos acerca dela. Ademais, afirmam que o documento não inibe a flexibilidade curricular entre as instituições de ensino. Contudo, expõem que as competências a serem atingidas não consideram as singularidades dos estudantes.

Delboni e Vendramini-Zanella (2020) reconhecem a necessidade da autonomia docente na elaboração de aulas, mas não tecem críticas à Base nesse quesito. De acordo com Fistarol, Fischer e Wenderlich (2019, p. 345), com o ensino por competências, os conteúdos "deixam de orientar as ações educativas e passam a auxiliar os estudantes no processo de apropriação das competências e habilidades que contribuam para superação das dificuldades que podem surgir em suas vidas". Adicionalmente, opinam que o docente terá um papel importante ao implantar as competências da Base, assim como autonomia para selecionar os recursos pedagógicos necessários para atingi-las.

A FORMAÇÃO PARA O MERCADO DE TRABALHO E O PRAGMATISMO

Enquanto isso, os artigos que propunham recursos ou abordagens pedagógicas alinhados à BNCC não manifestaram pontos negativos referentes a ela nem questionaram as visões de professor e de educação contidas nela. São eles: Coelho, Costa e Azevedo (2020); Delboni e Vendramini-Zanella (2020); Mello e Boscarioli (2019); e Oliveira e Queiroz (2020). Neste grupo, os autores elogiam a valorização da cultura digital e a multiculturalidade do documento. Tais pesquisadores parecem estar alinhados ao pensamento de Zabala e Arnau (2010), que veem o ensino por competências como inovador.

Delboni e Vendramini-Zanella (2020) desenvolvem uma sequência didática fundamentada na BNCC, a qual percebem como um documento que recomenda trabalhos interdisciplinares ou de fruição estética de gênero para ampliar as práticas leitoras da língua inglesa. As autoras também consideram que a Base é multicultural, plurilíngue e promotora de atividades que inserem o estudante no mundo globalizado.

Percebeu-se que os autores desse grupo não entendem a formação para o mercado de trabalho como utilitarista, ao contrário, Delboni e Vendramini-Zanella (2020) inclusive propõem brincadeiras nas aulas de inglês para crianças do Ensino Fundamental - Anos Iniciais que envolvem o mundo do trabalho, com o objetivo de familiarizá-las com o tema e levá-las a compreender como o inglês pode auxiliá-las nesse meio. Para as autoras, as competências da BNCC contribuem para que os estudantes encontrem seu lugar no mundo de trabalho de forma crítica. Portanto, expõem apenas pontos positivos da BNCC.

Essa prática pedagógica vai ao encontro do pensamento de Santos e Mesquida (2014), pois evidencia que o ensino por competências é excessivamente voltado para a adaptação ao mercado de trabalho, como se a criança não pudesse mobilizar os conhecimentos estudados em outras áreas de sua vida e como se, dentre elas, a área profissional fosse a mais importante. Ademais, ressalto que a noção de criticidade das pesquisadoras contrasta com a de Paulo Freire, para quem a criticidade passa pela tomada de consciência sobre o status quo, e não a simples adaptação a ele (Freire, 1987).

Pietri (2021) aponta fatores negativos ao ressaltar que o ensino nos moldes do neoliberalismo rejeita a concepção de sujeito como aquele que transforma o mundo por meio do seu trabalho e a substituem pela noção de que o indivíduo deve adaptar-se às condições impostas para tornar-se mais produtivo. Além disso, opina que o emprego das competências no componente curricular de Língua Portuguesa mostra que a Base deseja formar pessoas treinadas para agir produtiva e adequadamente. Oliveira e Fraguas (2022, p. 24) estão de acordo com essa afirmação, visto que acreditam que a BNCC tem uma visão instrumental da leitura, o que retira do leitor a possibilidade de "experimentar plenamente a literatura literária".

Sousa (2023, p. 74) mostra a sua discordância frente à ideia de que o objetivo principal da educação é formar indivíduos para o mercado de trabalho, pois compreende o ensino de língua como meio de ensinar os estudantes a "reconhecerem a própria história e a atuarem como protagonistas na interação possibilitada pela linguagem". Oliveira, Parisotto e Messias (2019) também notam principalmente pontos negativos na BNCC, pois afirmam que a formação hipotética de mão-de-obra faz com que o uso da língua nas aulas se torne descontextualizado, artificial e destituído de propósito comunicativo.

Na mesma linha, Porto e Porto (2018) criticam que a educação seja vista como um negócio e que os conhecimentos que ela fornece sejam todos pragmáticos e voltados para o mercado de trabalho. De acordo com os autores, o vínculo com o mundo do trabalho está intimamente ligado ao ensino por competências. Para os autores, o texto literário acaba perdendo espaço frente à relevância que a Base atribui às tecnologias e à cultura digital.

Ainda que o trabalho com os gêneros digitais seja relevante, visto que vai ao encontro dos interesses dos educandos e que há uma grande diversidade de conteúdo em língua portuguesa ou inglesa disponível na esfera digital de forma gratuita, a sua presença majoritária em relação a textos de outras áreas favorece que as aulas de língua sejam construídas em torno de um ambiente de aceleração, mudança constante e competição.

Reforçando a posição dos autores que criticam essa educação voltada ao mercado de trabalho, Lacerda e Jucá (2021, p. 126) destacam que “A instrumentalização leva o prejuízo da capacidade prática como do conhecimento teórico, pois acontece o rompimento entre a prática educativa e sua especificidade de compartilhar e edificar conhecimentos”, acrescentando que “não é suficiente manter competências técnicas se não há a compreensão das suas finalidades”.

Por isso, seria benéfico que mais gêneros literários fossem incluídos nas aulas de língua materna e estrangeira, a fim de propiciar um espaço de investigação linguística a partir de um cenário real de uso que oferece contato com um vocabulário mais amplo, figuras de linguagem, pontuação que denota diferentes sentidos ao texto etc. Adicionalmente aos avanços linguísticos, pode-se esperar que o trabalho com a literatura nas aulas de língua gere maiores trocas culturais, partilha de conhecimentos, engajamento dos estudantes e a possibilidade de escolher textos com temas que lhe interessem.

A PERSPECTIVA DE ENSINO CENTRADA NO TEXTO

Apesar das divergências políticas, vários dos artigos selecionados (Coelho; Costa; Azevedo, 2020; Mello; Boscarioli, 2019; Oliveira; Queiroz, 2020; Rosso; Fontes, 2020; Sousa; Nascimento, 2023; Storto; Costa-Maciel; Magalhães, 2023) apontam aspectos positivos da BNCC para o eixo de Linguagens e suas Tecnologias. O principal deles é sua abordagem em relação aos textos, que é chamada nos artigos de perspectiva "enunciativo-discursiva" (Coelho; Costa; Azevedo, 2020; Oliveira; Parisotto; Messias, 2019; Storto; Costa-Maciel; Magalhães, 2023), "discursiva" (Sousa, 2023), “dialógica” (Fistarol; Fischer; Wenderlich, 2019; Oliveira; Parisotto; Messias, 2019; Oliveira; Queiroz, 2020) ou “interacionista” (Oliveira; Parisotto; Messias, 2019; Rosso; Fontes, 2021). A Base, em si, não adota nenhum desses termos em sua redação; a sua aproximação com tais visões de ensino se deve principalmente ao tratamento dado ao texto e sua proposta de estudo dos diversos gêneros textuais.

Oliveira, Parisotto e Messias (2019) explicam que a centralidade do texto nas aulas não é uma inovação da BNCC, mas uma continuação do que já estava estabelecido nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Por outro lado, entendem que a inclusão de gêneros multimodais e multissemióticos feita pela Base é oportuna, pois exige novos letramentos. Oliveira e Queiroz (2020) entendem que a BNCC está vinculada ao pensamento bakhtiniano, pois promove a reflexão acerca das condições de produção dos textos, bem como o diálogo entre eles. Também elogiam a inclusão das etapas do texto na BNCC, tais como as de planejamento, elaboração, revisão, reescrita e avaliação, que consideram um meio de formar estudantes que produzem textos de maneira crítica e eficiente.

Para Sousa (2023, p. 81), a BNCC preserva aos “[...] falantes da língua a função de protagonistas de suas próprias histórias, experiências, questionamentos, sonhos e anseios possibilitados pela partilha do conhecimento e dos múltiplos saberes nos contextos de aprendizagem”.

Coelho, Costa e Azevedo (2020) acrescentam que o documento é inovador porque amplia a concepção de texto, trata das tecnologias de maneira transversal e da ligação entre língua e as dimensões éticas e afetivas. A partir disso, é possível perceber que o ensino da língua por meio de textos é um dos principais pontos positivos percebidos pelos pesquisadores.

Segundo Brum e Fuzer (2019, p. 179-120), o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC é conscientizador, visto que "o letramento como diversidade cultural vai ao encontro de uma prática consciente que leve os alunos a compreenderem melhor a cultura de contextos diferentes, bem como de seu próprio". Nota-se, assim, uma concordância com o pensamento de Oliveira e Queiroz (2020) e Delboni e VendraminiZanella (2020) para quem a BNCC formaria sujeitos críticos.

Contudo, os autores citados não discutem a conscientização conforme o pensamento freiriano, para o qual a tomada de consciência da realidade não se limita ao conhecimento da realidade, mas envolve também a ação em favor da transformação social (Freire, 1987). Porto e Porto (2018), Nascimento e Moretto (2022), Pietri (2021), Sousa (2023) e Oliveira, Parisotto e Messias (2019) mostram outra perspectiva, pois argumentam que a educação proposta pela BNCC não teria intenção de formar indivíduos críticos, mas passivos e competentes para atuar no mercado de trabalho.

Todavia, Storto, Costa-Maciel e Magalhães (2023) fazem ressalvas às propostas do documento: apesar de reconhecerem a importância da centralidade do texto nas aulas de língua, argumentam que não é suficiente descrever cada gênero, mas que é preciso criar situações de pesquisa, comunicação e divulgação de textos. Os autores também criticam a pouca ênfase que a oralidade recebe na BNCC e a sua visão de que a escrita é mais importante do que a fala, explicando que os estudantes precisarão falar em situações formais e públicas, que requerem preparação e domínio linguístico.

Rosso e Fontes (2020) também são críticos em relação ao ensino de Língua Inglesa proposto pela Base, pois, segundo a sua perspectiva, o documento não é claro quanto ao desenvolvimento da segunda língua e tem uma visão reducionista da leitura. Jacob, Diolina e Bueno (2018) apontam outros problemas, em especial, a falta de diversidade de esferas comunicativas citadas, o fato de que nenhum gênero oral é objeto de ensino e a não especificação das situações comunicativas para a discursividade oral.

Enquanto isso, Sousa e Nascimento (2023) veem como benéfico que, no componente curricular de Língua Inglesa, a Base leva o aluno a perguntar-se sobre quem define o que é correto em uma língua, quem estaria incluído nessa forma correta de uso e quem seria silenciado por ela. Para os autores, esse fator auxiliará os estudantes a desenvolverem a consciência crítica. Ademais, Mello e Boscarioli (2019), Fistarol, Fischer e Wenderlich (2019) e Rosso e Fontes (2021) consideram positiva a visão da BNCC de inglês como língua franca.

Para Mello e Boscarioli (2019), isso mostra aos estudantes que a Língua Inglesa não pertence a um país ou a um determinado grupo de pessoas. Com isso, aprendem que não há uma língua única e que não precisam se envergonhar do seu sotaque quando falam inglês, pois o mais importante é que a comunicação se efetive. Fistarol, Fischer e Wenderlich (2019) acrescentam que a noção de inglês como língua franca possibilita o contato com culturas estrangeiras e com a língua em contextos reais de uso. Essa abordagem também promove o respeito às diferenças, evita o preconceito linguístico e permite que diversas culturas sejam discutidas nas aulas de inglês.

Da mesma forma, é interessante que a BNCC inclua a questão das variações linguísticas no português (seja nas diferentes regiões brasileiras ou nos países falantes de português). Porém, a tendência pragmática da BNCC pode prejudicar a concretização desses objetivos, visto que o documento estabelece numerosas habilidades a serem desenvolvidas e gêneros textuais a serem trabalhados, o que faz com que os conteúdos sejam trabalhados de forma superficial. Adicionalmente, não sobra tempo para que o estudante expresse seus interesses, opiniões, pesquise sobre essas diferenças linguísticas ou explore a língua estrangeira com autonomia.

Das posições analisadas em relação às três categorias trabalhadas no texto - falta de autonomia docente, formação para o mercado de trabalho e ensino centrado no texto - foi possível elaborar uma síntese, constante do Quadro 3, conforme se verá adiante.

Quadro 3 Síntese da posição dos autores estudados sobre a BNCC 

Aspectos favoráveis Aspectos desfavoráveis
-valoriza a cultura digital
-trabalha com gêneros digitais
-propicia novos letramentos
-privilegia o ensino da língua por meio de textos
-prepara para o mercado de trabalho
-inova com o ensino por competências
-permite a flexibilidade curricular
-insere o estudante no mundo globalizado
-desconsidera as singularidades dos estudantes
-atende a um projeto de dominação da elite
-impõe um currículo único no país
-afasta a literatura como componente curricular obrigatório
-impede a autonomia dos envolvidos na educação
-desprestigia os profissionais da educação
-treina pessoas sem criticidade
-adota uma visão instrumental da educação

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados do Portal de Periódicos da CAPES (2023)

Esperamos, desta forma, tornar a apresentação dos resultados mais clara e visualmente acessível aos estudiosos e pesquisadores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo tratou dos fatores positivos e negativos do eixo de Linguagens e suas Tecnologias da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na visão de pesquisadores da área de Letras, cujo objetivo geral foi analisar criticamente o eixo de Linguagens e suas Tecnologias da BNCC a partir da produção acadêmica da área de Letras. Apesar dos artigos selecionados se mostrarem favoráveis à perspectiva centrada nos textos na qual o eixo estudado se embasa, os pontos negativos, na percepção dos autores, dizem respeito aos gêneros textuais citados no documento, bem como às esferas comunicativas às quais eles pertencem ou às habilidades linguísticas que eles mobilizam. Não há concordância entre os autores quanto à capacidade da BNCC de formar estudantes críticos, o que indica as diferentes posições ideológicas desses sujeitos.

Constatou-se que as críticas dos pesquisadores da área de Letras não se reduzem ao eixo de Linguagens e suas Tecnologias, mas que se estendem à própria ideia de um documento que imponha um currículo único para todos os estudantes brasileiros, o que tolhe a sua autonomia como docentes e não considera as necessidades individuais dos seus educandos.

Como educadores, no entanto, entendemos ser necessário, não obstante as interferências da BNCC na autonomia dentro da escola e o viés instrumental evidenciado na pesquisa, que os professores busquem construir, ressignificar e implantar metodologias e estratégias que sejam adequadas a uma formação crítica, que considerem a construção histórica do conhecimento e o compromisso político para agir na realidade social. No caso do trabalho com a literatura, que sejam estimuladas maiores trocas culturais, partilha de conhecimentos e possibilidade de escolher textos com temas que interessem aos alunos. Dessa forma, professores, estudantes, escola e comunidade poderão colaborar para minimizar os efeitos de uma legislação em que a autonomia docente e a formação humana ficaram ausentes.

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Recebido: 24 de Junho de 2024; Aceito: 13 de Dezembro de 2024; Publicado: 03 de Janeiro de 2025

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