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Artigo • Prát. Educ., Mem. Oralidades 7 • 2025 • DOI: https://doi.org/10.47149/pemo.v7.e13099

As marcas da educação na obra O Diário de Vovô Pedro (1912-1986)

Práticas Educativas, Memórias e Oralidades

versão On-line ISSN 2675-519X

Rev.Pemo vol.7  Fortaleza  2025  Epub 15-Maio-2025

https://doi.org/10.47149/pemo.v7.e13099 

ARTIGO

As marcas da educação na obra O Diário de Vovô Pedro (1912-1986)

Charliton José dos Santos Machadoi 

Professor Titular da Universidade Federal da Paraíba. Pós-doutor em Educação (Coimbra/Portugal) e em História e Filosofia da Educação (Unicamp). Doutor em Educação (UFRN) e Mestre em Sociologia (UFPB). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq Nível 1C.

, administração do projeto, primeira escrita, obtenção de financiamento, análise formal, validação
http://orcid.org/0000-0002-4768-8725; lattes: 2036729143677618

Maria Lúcia da Silva Nunesii 

Professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba. Pesquisadora associada à Sociedade Brasileira de História da Educação e membro do Histedbr-PB. Doutora em Educação (UFRN).

, primeira escrita, investigação, conceituação, validação
http://orcid.org/0000-0001-9316-1281; lattes: 3488638146623774

Vanusa Nascimento Sabino Nevesiii 

Doutora em Educação pela Universidade Federal da Paraíba, mestra em Gestão de Organizações Aprendentes (UFPB), enfermeira e advogada.

, escrita, revisão, edição, metodologia
http://orcid.org/0000-0001-6163-1699; lattes: 9207875628192963

iUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil. E-mail: charliontonlara@yahoo.com.br

iiUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil. E-mail: mlsnunesml@gmail.com

iiiUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil. E-mail: pbvanusa@gmail.com


Resumo

O objetivo deste estudo foi compreender as marcas da educação presentes na escrita autobiográfica do diário pessoal do ex-prefeito cuiteense Pedro Simões Pimenta, escrito entre os anos de 1912 e 1986. Trata-se de uma pesquisa autobiográfica, amparada na nova história cultural. Os dados foram obtidos no diário pessoal do autobiografado, publicado sob o título de O Diário de Vovô Pedro. O estudo se concentrou em três perspectivas principais: quem escreve, o que escreve e a relação da escrita com a educação. Evidenciou-se que Pedro Simões Pimenta, nascido em 1896 e falecido em 1989, embora estivesse inserido em um contexto privilegiado para a sua época, experienciou uma alfabetização difícil. Como prefeito de Cuité, na Paraíba, priorizou a educação de seus munícipes, construiu escolas e nomeou professoras. Conclui-se que o diário pessoal, como egodocumento, é uma fonte profícua para a elucidação da trajetória de vida, formação, profissionalização, portando de importância histórica e educacional.

Palavras-chave: Fontes Históricas; História da Educação; Trajetória de Vida

Abstract

The aim of this study was to understand the marks of education present in the autobiographical writing of the personal diary of the former mayor of Cuité, Pedro Simões Pimenta, written between the years 1912 and 1986. This is autobiographical research, supported by the new cultural history. The data were obtained from the personal diary of the autobiographer, published under the title O Diário de Vovô Pedro (Grandpa Pedro's Diary). The study focused on three main perspectives: who writes, what is written, and the relationship of writing with education. It was evidenced that Pedro Simões Pimenta, born in 1896 and deceased in 1989, although inserted in a privileged context for his time, experienced a difficult literacy process. As mayor of Cuité, in Paraíba, he prioritized the education of his constituents, built schools, and appointed teachers. It is concluded that the personal diary, as an egodocument, is a fruitful source for elucidating life trajectory, education, professionalization, thus holding educational historical importance.

Keywords: Historical Sources; History of Education; Life Trajectory

1 Introdução

Desde os anos de 1960, pesquisadores das ciências sociais e, principalmente, historiadores, têm se debruçado sobre novas fontes de investigação no universo da cultura, em um movimento de valorização das múltiplas atividades práticas e representações, possibilitando, desse modo, compreender as maneiras de pensar e agir dos sujeitos em outras épocas e contextos (Machado; Nunes; Vasconcelos, 2018).

Essa nova perspectiva, segundo Schwarcz (2009), indica que outros tipos de fontes passaram a ser acessadas, no cenário da denominada “revolução documental” na pesquisa histórica, com o que ficou conhecido como o “retorno do sujeito” após a hegemonia das concepções estruturalistas, sobretudo na segunda metade do século XX, ampliando-se, a partir de brechas, outras possibilidades de leituras da realidade social, cultural e política. Destarte, a palavra “documento” passou a ter sentido lato, não se restringindo às fontes da história tradicional-político-militar, como preconizava o positivismo até o início do século XX (Machado; Nunes; Vasconcelos, 2018). Expandiu-se, dessa forma, a concepção de documento para tudo aquilo que o ser humano produziu em seu tempo, ou seja, é o resultado de todas as atividades humanas, conscientes ou não.

Na esteira dessas novas ideias, Machado, Nunes e Lacet (2022) indicam que um documento se torna relevante a partir da análise que se faz dele, da formulação de um problema e do cuidado com o manejo das ferramentas empregadas para responder a ele, e não necessariamente de um tipo exclusivo da fonte adotada em uma pesquisa. Enfim, para os referidos autores, “[...] as fontes só adquirem significado histórico através das questões que o pesquisador formula a partir de uma problemática da investigação [...] é nesse momento que as fontes adquirem uma dimensão inteligível” (Machado; Nunes; Lacet, 2022, p. 409).

No caso do diário pessoal, considerado um egodocumento por excelência (Britto; Corradi, 2018), cabe ressaltar que tal prática cultural já havia alcançado relevância no século XVIII, em decorrência da emergência do cidadão moderno e da valorização da escrita de si na sociedade ocidental. Mas foi no citado ambiente renovado da pesquisa historiográfica, a partir da segunda metade do século XX, que este artefato passou a ser concebido como fonte de pesquisa, dado o crescente interesse dos estudiosos das ciências humanas e sociais (Pinheiro, 2017).

De natureza autobibliográfica, os egodocumentos procedem de arquivos pessoais e exalam a personalidade e a intimidade do autor. O diário pessoal, na qualidade de egodocumento, situa a vida de alguém dentro do seu contexto histórico (Britto; Corradi, 2018). Para os estudiosos, principalmente os historiadores da “Terceira Geração dos Annales”, o diário pessoal ou íntimo é concebido como produto da sociedade moderna, o que possibilita ao pesquisador, entre outras questões, conhecer a cultura letrada e os modos característicos de o sujeito narrar uma época, no registro de uma memória individual articulada com a experiência coletiva (Pinheiro, 2017).

Assim, mesmo se constituindo em uma escrita autorreferencial, essa fonte possibilita conhecer dimensões mais abrangentes da sociedade no tempo-espaço e em uma perspectiva cronológica nem sempre linear, pois os diários como fontes revelam a oportunidade de pesquisar a fundo as representações cotidianas do que se passa na esfera política e social de uma época, entendendo que “cada memória pessoal pode ser vista e estudada como uma perspectiva da memória coletiva” (Welk, 2013, p. 35).

Ainda sobre essa questão, Pinheiro insiste que:

[...] o diário enquanto fonte, constitui-se um campo aberto para a história [...] permite refletir sobre as modalidades da linguagem usada, os modos característicos de narrar de uma determinada época, os tipos de apropriação da língua, as relações entre oralidade e escrita formal, os diferentes graus de alfabetização, ação etc. (Pinheiro, 2017, p. 17).

É o exemplo da autobiografia do ex-prefeito cuiteense, analisada neste texto. O autor, durante 74 anos, exercitou a tarefa de registrar memórias do que considerou como sendo relevantes em sua trajetória de vida, em diferentes espaços e tempos, revisitando muito daquilo que estava destinado ao esquecimento. Emblemático o episódio político particular, o qual Pimenta cuidou de anotar em 25 de agosto de 1950: “A ala feminina do Partido Social Democrático (PSD) de Nova Floresta veio visitar Cuité e foi agredida pela ala feminina do partido adversário. Mais um absurdo cometido pela União Democrática Nacional (UDN), que não soube receber as visitantes” (Pimenta, 1986, p. 46).

Essa anotação de Pimenta exprime uma inquietação pessoal do ex-prefeito cuiteense com a beligerância política local, situada em uma conjuntura estadual mais ampla do acirramento eleitoral na Paraíba entre as forças representadas pelos grupos do argemirismo (UDN) e americismo (PSD) pelo comando do poder e que, por fim, se transformou em uma guerra sem precedentes na história política do estado, com impactos e conflitos em diversos municípios (Carneiro, 2011).

O paradigma destacado de um registro político e, no caso particular, de um acontecimento marcado por conflitos, constituiu-se em um exercício pessoal de Pimenta em selecionar memórias “quentes”, com datas precisas, apontamentos e anotações, sobre tudo o que julgou como necessário de ser lembrado na dimensão da sua experiência individual e cotidiana de uma época.

Todavia, o diário pessoal não pode ser tomado como um produto acabado, ou um estatuto de uma verdade individual, mas como o “[...] resultado do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro - voluntária ou involuntariamente - determinada imagem de si próprias” (Le Goff, 1996, p. 548). Sendo assim, a escrita autobiográfica presente no diário pessoal impõe ao pesquisador refletir sobre as efetivas condições de sua produção, considerando a sociedade, a cultura e o contexto.

Desse modo, mesmo se constituindo em uma escrita de si, produto de um sujeito que narra e põe a tônica na sua vida pessoal (Lejeune, 2003) em forma de rememoração ou testemunho, a escrita diarista de viés autobiográfico não escapa da perspectiva de “imposição” ou “defesa” de uma verdade oriunda de uma experiência individual sobre o passado (Rago, 2013), como desvela Pedro Simões Pimenta em seus escritos ao justificar a produção do seu diário pessoal ao longo de 74 anos: “[...] meu ideal sempre foi falar a verdade” (Pimenta, 1986, p. 22).

Por fim, adverte Rago (2013), cabe ao pesquisador, em posse desse tipo de documento, não esperar dessa prática discursiva cultural a reconstituição exata do ocorrido no passado, mas como uma leitura do individual sobre os processos históricos coletivos vividos e suas possibilidades de interpretação de uma dada realidade histórica.

Diante dessa conjuntura, objetiva-se compreender as marcas da educação presentes na escrita autobiográfica do diário pessoal do ex-prefeito cuiteense Pedro Simões Pimenta, redigido entre os anos de 1912 e 1986, de maneira a questionar como a educação se apresenta na escrita autobiográfica do diário pessoal dele. Com o mote de elucidar esse problema de pesquisa e alcançar o objetivo formulado, desenvolveu-se uma investigação consoante detalhado no próximo seguimento.

O estudo, ao incursionar em uma abordagem autobiográfica e considerar o diário pessoal como um espaço privilegiado de registros e apontamentos da escrita ou testemunho do próprio sujeito sobre si, tendo como referência central a sua trajetória existencial na forma de narrar o que foi experienciado ao longo de 74 anos, constitui-se em uma fonte de pesquisa fundamental à compreensão de questões de sua época e espaço, bem como das práticas de seu tempo.

O texto se estrutura em quatro seções: 1) apresenta-se a temática, o problema, o objetivo e a relevância do estudo; 2) especifica-se a opção metodológica; 3) reflete-se sobre os resultados e discussão segundo o prisma de quem escreve (o autobiografado), o que escreve (seu diário) e o comprometimento do autobiografa com a educação; 4) tecem-se considerações não terminativas, que retomam ao problema de pesquisa, sintetizam os resultados mais seminais e apontam as limitações da pesquisa e sugestões para estudos futuros.

2 Metodologia

A pesquisa é do tipo autobiográfica (Fialho; Santos; Sales, 2019), ancora-se na corrente teórico-metodológica nova história cultural (Burke, 1992) e elege como fonte histórica um egodocumento (Britto; Corradi, 2018), O Diário de Vovô Pedro (Pimenta, 1986).

A apropriação da autobiografia deve-se ao fato de ser a escrita da própria vida, diferindo dos estudos biográficos apenas em razão de quem a realizou (Fialho; Santos; Sales, 2019). Na autobiografia, com liberdade de pensamento, o próprio sujeito narra as circunstâncias de seu percurso em várias dimensões, incluindo a educativa (Costa; Holanda, 2021). Ou seja, embora os resultados acadêmicos-científicos e sociais se assemelhem, nas pesquisas biográficas, um terceiro pesquisador reconstitui, interpreta e publica a trajetória de vida de outrem.

Os estudos autobiográficos são particularmente proveitosos para a História da Educação, pois, com reflexividade crítica, ampliam a leitura do mundo e permitem a identificação de trajetórias ofuscadas (Costa; Holanda, 2021; Fialho; Machado; Neves, 2021; Neves; Machado, 2024; Peixoto; Sales, 2023), configurando-se em uma fonte que ultrapassa os limites pessoais e penetra no fenômeno educativo e em suas interseções com outros aspectos sociais (Silva, 2021).

A nova história cultural, ao eleger as fontes não oficiais como dignas da atenção historiográfica (Burke, 1992) e possibilitar o entrecruzamento com outras fontes (Neves, 2021), coaduna-se com os egodocumentos, uma vez que estes, inobstante desprovidos da chancela oficial institucional, materializam o eu (ego) do seu autor, permitindo ao historiador lançar luz sobre fatos que estavam na penumbra da História (Britto; Corradi, 2018).

A coleta dos dados ocorreu a partir da leitura do diário do Pedro Simões Pimenta, cujos manuscritos foram datilografados e publicados como obra autoral em 1º de agosto de 1986, com o título O Diário de Vovô Pedro, pela Editora União Artes Gráficas, em João Pessoa, estado da Paraíba. O seu lançamento ocorreu no cenário de celebração dos 90 anos do autobiografado.

Essa publicação contou com a coordenação, a revisão e o prefácio de Marisa da Luz Alverga, que foi educadora e autora de diversas obras poéticas que integram a enciclopédia da literatura brasileira, editada pelo MEC, e o Dicionário Literário da Paraíba, editado pelo Conselho Estadual de Cultura, bem como da 1ª Antologia de Poetas e Escritores Brasileiros. Marisa da Luz Alverga é filiada à União Brasileira de Escritores e a academias de poesia em diversos estados, além de membro correspondente de várias academias culturais, inclusive no exterior.

Para os fins de análise, foram selecionados, no referido diário perscrutado, trechos de memórias acerca da experiência da própria formação escolar de Pedro Simões Pimenta, bem como o que o autor diarista compreende e registra como sendo seu legado ou compromisso em prol da educação, ao longo da trajetória como representante político regional.

3 Resultados e Discussão

3.1 Vovô Pedro: quem é o sujeito que escreve?

Pedro Simões Pimenta nasceu no sítio Malhada da Cruz, território de Cuité, no dia 1º de agosto de 1896, no advento da República. Era filho de Joaquim Simões Fernandes Pimenta e Josefa Constância das Mercês. Os pais tiveram vinte filhos, tendo “vingado” apenas sete: João, Mariana, Ana Amélia, Cândida, Maria Cesária, Veneranda e Pedro (Pimenta, 1986).

Quando ainda tinha seis anos de idade, mudou-se com a família para Nova Cruz, cidade no estado do Rio Grande do Norte. Segundo ele, a mudança se deu porque o pai, o senhor Joaquim Simões Fernandes Pimenta, “havia comprado uma propriedade por 700.000 réis e aos doze anos dei início a minha carreira de trabalhador” (Pimenta, 1986, p. 19).

Por tradição no trabalho no campo desde cedo, ao longo dos anos, foi adquirindo grandes extensões de terras e se consolidando como importante produtor rural. Sobre as lembranças dessa época, o político assim registrou em seu diário:

A memória leva-me à casa grande. Na sala principal havia um tijolo feito por meu pai e que eu, com seis anos de idade, pus o pé e ali ficou a marca. Meu pai achou graça e sentou o tijolo, como um troféu a ser exibido aos visitantes (Pimenta, 1986, p. 20).

Pedro Simões Pimenta foi alfabetizado aos nove anos pela madrasta de sua mãe, a senhora Josefa Alves Frazão, formação que continuou de forma precária até os dezoito anos, quando residiu em Araruna, interior da Paraíba e, finalmente, aprendeu a ler, escrever e contar.

Em 05 de setembro de 1923, casou-se com a prima Francisca Olindina, e dessa união nasceram os filhos: Maria, em 19 de julho de 1924; Geraldo, em 8 de julho de 1928; Rivaldo, em 2 de agosto de 1929; Francisca, em 25 de julho de 1933; José Simões, em 18 de outubro de 1934 e Honorina, em 30 de setembro de 1938.

Em sua trajetória entre o Rio Grande do Norte e Paraíba, Pedro Simões Pimenta reconhece que teve uma história vitoriosa, pois, segundo ele, foi quase tudo na vida: “vaqueiro, zelador de cemitério, comerciante, criador de gado, gerente de cooperativa agropecuária, 1º suplente de juiz de direito, presidente do PSD, vereador e prefeito” (Pimenta, 1986, p. 21).

Em homenagem aos 90 anos, realizada no dia 1º de agosto de 1986, em Cuité, junto com a família, decidiu publicar o seu diário pessoal, contendo, segundo ele, alegrias, vitórias e algumas dores, “que também fazem parte da vida” (Pimenta, 1986, p. 36).

Pedro Simões Pimenta faleceu em sua residência, na Praça Barão do Rio Branco, número 393, em Cuité, aos 92 anos de idade, no dia 25 de abril de 1989, de insuficiência respiratória, tendo recebido da população cuiteense inúmeras homenagens pelo reconhecimento público do seu legado.

O seu nome denomina alguns espaços urbanos em Cuité: rua, parque de vaquejada, campo de aviação e, mais recentemente, a barragem de Japi, em uma “homenagem justa” àquele que a idealizou (Araújo, 2022). Em 1989, no governo estadual de Wilson Braga, uma rua da capital paraibana também recebeu o nome do político cuiteense.

3.2 O Diário de Vovô Pedro

O diário pessoal de Pedro Simões Pimenta tornou-se público em 1º de agosto de 1986, por ocasião da celebração dos 90 anos do ex-prefeito cuiteense.

Pelo título, espera-se que o livro contemple as vivências de um homem na função de avô; memórias e histórias com seus netos. Todavia, não são narrativas com esse teor que o livro aborda. No diário, estão registrados acontecimentos diversos, de conteúdos de cunho ora mais pessoal, ora mais público, considerados importantes pelo autor ao longo de sua trajetória. Compreende-se, então, que o título foi atribuído relacionando-se muito mais ao tempo de sua publicação, quando seu autor já se encontra em idade madura - período em que é comum a experiência de convívio com os netos - do que aos eventos narrados por seu autor. Por outro lado, pode ter havido nitidamente uma intenção de quais memórias sobre si o avô Pedro Simões Pimenta gostaria que os netos preservassem e divulgassem, garantindo assim a autoimagem que ele construiu.

Segundo Artières (1998), o diário íntimo é um dos artefatos usados para arquivar a própria vida, no qual registramos alguns acontecimentos e omitimos outros, com a possibilidade de revisão, fazendo cortes ou acréscimos. A publicação desses registros diários transformando-os em uma autobiografia - considerada “a prática mais acabada desse arquivamento” - é o momento de seleção de acontecimentos e ordenação da narrativa, quando se define “o sentido que desejamos dar as nossas vidas” (Artières, 1998, p. 11).

Além disso, ao ser vertido para livro, o diário passou por revisão e recebeu acréscimos, como os comentários de familiares, que contemplam a opinião também dos filhos e das filhas e dos netos e das netas, enfatizando seus sentimentos em relação às vivências com o avô. A presença desses familiares na organização do texto em sua versão para publicação, inserindo pequenos textos narrativos/opinativos sobre o autor, provavelmente, influenciou na escolha do título e possibilitou a ratificação da imagem almejada por Pedro Simões Pimenta para a posteridade.

A citada obra contém 87 páginas e traz na capa uma arte gráfica de Elias dos Santos, que é bastante representativa da relação de Pimenta com os verdes anos da vida rural, como destaca em seu diário: “Sinto saudades do campo. Tudo ali era paz, suavidade, um eterno convite à tranquilidade” (Pimenta, 1986, p. 24).

A obra, rica em memórias, pensamentos, poemas e imagens, é delimitada no recorte temporal entre os anos de 1912 e 1986, data que marca o aniversário dos 90 anos do político. Ela foi publicada em uma solenidade que reuniu familiares, amigos próximos e convidados.

Fonte: Pimenta, 1986.

Imagem 1 Capa do livro O Diário de Vovô Pedro  

Já na contracapa aparece como sendo uma escrita de cunho “autobiográfico”. Tem como revisora, coordenadora e prefaciadora a educadora e escritora paraibana Marisa da Luz Alverga. Segundo a referida prefaciadora, O Diário de Vovô Pedro publicado em formato de obra constitui-se em uma página de cunho literário (Alverga, 1986).

Na página de abertura, há uma fotografia do autor ainda da época em que governou a cidade de Cuité, no início dos anos de 19501, e um poema2 que marcou a sua trajetória.

Fonte: Pimenta, 1986, p. 2.

Imagem 2 Página de abertura do livro O Diário de Vovô Pedro  

A obra divide-se em seis partes: prefácio, comentários de familiares, biografia, prólogo, reminiscências e diário político, sendo dedicada à esposa, Francisca Olindina Simões, falecida em 28 de dezembro de 1967, e aos filhos, netos e bisnetos.

Em um esforço de síntese sobre a obra que narra a sua própria trajetória, o autor afirma: “a minha estória é igual a tantas outras [...] registrei dia-a-dia, pacientemente, todos os acontecimentos que marcaram os meus noventa anos de existência [...] e desse registro nasceu o livro que ora lhes ofereço” (Pimenta, 1986, p. 23-24).

Por fim, o autor destaca o porquê da publicação do seu diário pessoal construído ao longo de 74 anos: “meus filhos decidiram publicar o meu diário e de repente me fiz escritor” (Pimenta, 1986, p. 85). Pedro Simões Pimenta conclui a obra de memórias com versos que são saudosistas e representativos de uma escrita de cunho autobiográfico, balizada por lembranças que lhe marcaram a vida, já reconhecendo o peso do tempo, na dimensão dos seus 90 anos:

Hoje sinto fugir-me a mocidade

Como a espuma desce a correnteza

E que vai me levando a tristeza

A velhice, a canseira, a saudade

(Pimenta, 1986, p. 85).

Os versos refletem o lamento pela mocidade perdida e apontam para as condições concretas do sujeito no tempo presente, com a consciência de que a ação possível é lembrar, no momento em que a vida lhe escapa irreversivelmente.

3.2 A Educação em O Diário de Vovô Pedro

No prefácio da obra O Diário de Vovô Pedro, Alverga afirma reconhecer que Pedro Simões Pimenta:

[...] não tem anel de doutor no dedo, nem diploma. A faculdade que cursou foi a escola da vida e aí, sim, formou-se com distinção, tirando nota dez, com louvor, em todas as matérias, que se resumem numa única disciplina, a vida (Alverga, 1986, p. 12).

Com essa observação, a prefaciadora inicia a apresentação da obra como uma espécie de justificativa, por compreender que as práticas de escrita convencionalmente foram delegadas aos sujeitos “bem” escolarizados, detentores de um saber institucionalizado e “superior”, por conseguinte, sendo estes os únicos portadores de uma condição ou status do domínio de uma cultura letrada.

A criação no universo rural, como era comum, impunha aos filhos trabalharem desde cedo na roça com os pais, algo que não seria diferente com Pedro Simões Pimenta no seu tradicional núcleo familiar. Não à toa, confessa ter começado sua aprendizagem na lida com a terra, enfrentando adversidades, dificuldades e sofrimentos.

O pai, Joaquim Simões Fernandes Pimenta, nas palavras do filho, apesar da dura vida cotidiana no campo para prover as condições da família, “era o único homem na região que sabia ler e escrever. Aprendera com os padres [...] era dotado de uma força física excepcional. Inteligente e trabalhador” (Pimenta, 1986, p. 19).

Todavia, apesar do exaustivo e rotineiro trabalho no campo, o autor revela em seu diário que, ao contrário de muitos, com apoio da família, ele teve o privilégio de ser escolarizado em momentos de muita dificuldade educacional:

Aos nove anos ingressei numa escola particular em Malhada da Cruz e foi ali onde aprendi a ler com D Josefa Alves Frazão, a minha primeira professora [...] Aos dezoito anos fui residir em casa de uma comadre do meu pai [...], em Calabouço, município de Araruna, para estudar. A escola distava seis quilômetros [...] percurso que fazíamos todos os dias [...] O nosso professor, de nome Brandão, era um moço esguio, de cor parda, tinha uma personalidade muito forte, porém de pouca cultura, mas ensinou-me tudo que sabia e ainda hoje reverencio a sua memória (Pimenta, 1986, p. 21).

O acesso à formação e ao letramento em uma “escola residencial”, mesmo em condições precárias, como era comum à época, por si só já o diferenciava dos seus demais contemporâneos que viviam no campo em condições adversas. Pois, segundo Pimenta, nessa época “não se conhecia conforto, escola não existia” (Pimenta, 1986, p. 20).

Nesse cenário, insiste Pimenta, “tudo era difícil [...] os meios de comunicação eram remotos. Não havia estradas e o transporte que se dispunha era o carro de boi ou o lombo de um cavalo” (Pimenta, 1986, p. 24). Embora o autobiografado se refira às adversidades de sua escolarização ainda no início do século XX, Nunes, Machado e Sousa (2021) constataram que esse cenário inóspito persistiu ainda por décadas. Haja vista que no estado da Paraíba o analfabetismo imperava, sobremodo em meio às classes menos abastadas, o que era agravado pela precariedade da rede escolar e escassez de professores qualificados.

Porém, devido ao fato de ter tido a oportunidade de cursar o primário, por conseguinte, sabendo ler, escrever e contar, Pedro Simões Pimenta conseguiu acessar espaços de poder no campo e na cidade, como ele mesmo reconhece, ao afirmar sobre sua ascensão na carreira de vereador em 19373, suplente de juiz em 1945 e prefeito eleito e empossado em 1951, quando à época ainda era vedado aos indivíduos sem escolaridade o exercício desses diretos políticos.

A valorização pela educação fez o autor registrar, ainda aos 38 anos de idade, um fato relevante ocorrido em 1934, que foi a fundação por iniciativa própria de uma instituição de ensino nos espaços de sua propriedade, em Malhada da Cruz:

[...] uma Escola Particular em Malhada da cruz e D. Vicência foi a primeira professora, residente em Araruna e que depois foi substituída por Domiciano Alves de Queiroz, que morava em Cuité (Pimenta, 1986, p. 27).

A escolha pela criação de uma instituição de ensino das primeiras letras em Malhada da Cruz pode ser justificada por ser o seu lugar de origem, onde residia a família Simões Pimenta, mas também por se constituir em um espaço geográfico considerável. Nessa época, segundo Pereira Sobrinho (2008), muitos residentes naquela região rural do Curimataú não tinham qualquer contato com a sede do distrito ou nem mesmo conheciam o centro urbano de Cuité, ficando, assim, totalmente excluídos das escassas políticas públicas. Sobre essa questão, Pinheiro também reforça que, na Paraíba dos anos 30 do século XX, “a escolarização no meio rural era dificultada pelas precárias condições de vida dos grupos sociais subalternos, localizados nas zonas rurais” (Pinheiro, 2023, p. 70).

Como vereador eleito em 16 de junho de 1937, Pedro Simões Pimenta passou a transitar no meio político e estabelecer contatos com lideranças regionais influentes do poder social e econômico. No seu diário, são transcritas algumas das missivas recebidas em resposta aos seus pleitos. É o exemplo da carta recebida do então deputado estadual Pedro de Almeida, em 21 de outubro de 1946, em atendimento a um pleito educacional:

Avise à Diretoria do Grupo Escolar daí, para cobrar os Boletins das Professoras do Ensino de Adultos a fazer a remessa para o respectivo pagamento. Sem isso não se paga [...] Abraços do amigo Pedro de Almeida (Pimenta, 1986, p. 36).

A epístola supõe sua interlocução como representante político, atuando para destravar questões de ordem burocrática que impediam o recebimento dos vencimentos das professoras da cidade empenhadas na alfabetização de adultos.

Em outro momento, já investido da condição de prefeito constitucional, eleito em 12 de agosto de 1951, Pedro Simões Pimenta anota no seu diário algumas obras ao longo da sua gestão e, entre estas, destaca duas iniciativas voltadas exclusivamente à educação municipal: “a construção de um Grupo Escolar na localidade Telha [...] e o auxílio para a escola dos estudantes em João Pessoa” (Pimenta, 1986, p. 52).

Também anota no diário algumas visitas visando à implementação de instituições escolares em espaços mais distantes da sede do município, como destacou em 05 de fevereiro de 1953, ao afirmar que foi à Serra do Damião para manter entendimento sobre “a construção de Grupos Rurais naquela zona” (Pimenta, 1986, p. 55).

Ressalte-se que, durante os anos de 1950, na cidade Cuité, existia apenas uma instituição escolar em funcionamento em seu núcleo urbano, como resultado da lenta passagem das escolas residenciais isoladas para o “moderno” modelo de grupo escolar criado em 1943 na cidade (Lima; Pereira Sobrinho; Araújo, 2020). A construção de uma instituição escolar na zona rural contribuía para minorar as desigualdades de acesso ao ensino público.

Em seu diário, a educação também se faz presente nas demandas apresentadas em algumas audiências institucionais do prefeito cuiteense com o governador paraibano José Américo de Almeida4.

Em 1951, Pedro Simões Pimenta registrou no diário dois destes encontros. Em 15 de janeiro, o político anotou: “Visitei o governador José Américo de Almeida em Campina Grande na casa de Luiz Mota [...] combinamos a conclusão do Grupo Escolar de Cuité. Tudo ficou resolvido” (Pimenta, 1986, p. 48).

Em 30 de setembro do mesmo ano, dessa vez em visita ao governador na capital da Paraíba, Pimenta anotou:

Tratamos de assunto do município de Cuité [...] e falamos da nomeação de três professoras para o Grupo Escolar de Cuité, tendo sido lembrado o nome de Maria Anita Coelho, o da filha de Manoel Furtado e o da filha de Bezinho [...] Todos os pleitos foram atendidos (Pimenta, 1986, p. 53).

Fonte: Museu do Homem do Curimataú.

Imagem 3 Visita do prefeito Pedro Simões e aliados do PSD ao então governador José Américo de Almeida no Palácio da Redenção em 1951 

Evidencia-se que o gestor municipal, além de apresentar um pleito educacional visando a atender familiares dos correligionários, buscava ao mesmo tempo favorecer o Grupo Escolar André Vidal de Negreiros com novas docentes profissionais para suprir as crescentes demandas da escolarização primária regional. A citada instituição viria se transformar “num equipamento de referência educacional” (Lima; Pereira Sobrinho; Araújo, 2020, p. 193).

Segundo Machado, Nunes e Lacet (2021), a citada instituição foi inaugurada durante a gestão do interventor federal, Rui Carneiro5, pelo decreto n° 337 de 22 de dezembro de 1942 e pelo decreto nº 52 publicado em Diário Oficial no dia de 23 de dezembro de 1942, mas só ocorreu o seu efetivo reconhecimento legal no ano de 1943. Nesse momento, era a única instituição para atender a cidade e demais distritos.

Ao contrário dos ditames patriarcais que determinavam a invisibilidade feminina na Paraíba do século XX (Machado et al., 2023), em 16 de janeiro de 1953, Pedro Simões Pimenta fez questão de registrar no diário a presença das mulheres que naquele momento exerciam atividades educacionais no Grupo Escolar André Vidal de Negreiros, muitas já em processo de formação no Curso Normal Regional do Instituto América: “Maria Anita Coelho, Nautília Furtado, Nailda Rocha, Noêmia Campos, Mirtes Venâncio, Maria das Mercês, Ismália Fonseca (Inspetora de alunos), Maria Lica Macedo (Servente), Camélia Pessoa, Eliza Macedo, Maria José” (Pimenta, 1986, p. 56). Nessa lista de docentes, constavam alguns dos nomes indicados em seu pleito ao governador José Américo de Almeida.

Sobre o Instituto América, Machado e Nunes (2019, p. 30) relatam que:

teve uma vida efêmera na formação escolar da cidade. Criado em 1952, funcionou até final do ano de 1970, quando cedeu seu espaço para a implantação do Colégio Estadual de Cuité - CEC no ano letivo de 1971, que depois foi denominado de Colégio Estadual Orlando Venâncio dos Santos, e hoje se chama Escola Cidadã Integral Estadual de Ensino Médio Orlando Venâncio dos Santos.

No último ano do seu governo, Pedro Simões Pimenta anotou em 07 de junho de 1955 a visita do governador José Américo de Almeida a Cuité, com a missão institucional de inaugurar a nova sede do Grupo Escolar André Vidal de Negreiros, um marco importante no final da sua gestão e uma luta histórica da população, que aguardava desde 1943 uma moderna estrutura para funcionamento da referida instituição de ensino:

O governador José Américo, com sua comitiva, inclusive seu irmão Augusto de Almeida, prefeito da cidade de Guarabira, fizeram uma visita a Cuité e foram meus hóspedes. O governador inaugurou o Grupo Vidal de Negreiros e foi feita a aposição do seu retrato no salão da prefeitura (Pimenta, 1986, p. 57).

O novo prédio inaugurado tinha mais de 600 metros quadrados, com área coberta, quatro amplas salas de aula, dependências administrativas, espaço de recreação, cozinha e uma residência anexa para professores (Lima; Pereira Sobrino; Araújo, 2020).

Mesmo que a instituição tenha tido total aporte financeiro em sua edificação advindo dos governos estadual e federal ao longo de mais de uma década, Pedro Simões Pimenta buscava identificar em sua memória essa operosa realização como uma conquista e êxito que marcou sua gestão em prol da educação regional, em particular, devido às relações de aliança e amizade estabelecidas com o então governador paraibano José Américo de Almeida.

É importante enfatizar que a relação de amizade e compromisso de Pedro Simões Pimenta com o autor de A Bagaceira se manteve viva, mesmo após o encerramento dos seus mandatos como gestores públicos. Não à toa, Pimenta sempre que podia visitava o imortal escritor paraibano em sua residência, em Tambaú, como relata a memorialista Maria de Lourdes Lemos Luna: “O Curimataú assinalava, de vez em quando, sua presença nas pessoas de Pedro Simões (Cuité), José Diniz (Barra de Santa Rosa), Eugênio Vasconcelos (Picuí) e Sizenando Monteiro (Cubati)” (Luna, 1994, p. 119).

Já afastado das funções na vida pública, Pedro Simões Pimenta anotou e celebrou em 10 de março de 1971 a inauguração do Colégio Estadual de Cuité, mas sem esquecer que a referida obra, mesmo tendo sido entregue durante a gestão do governador Ernâni Sátiro6, era um pleito do aliado e antecessor João Agripino Maia7.

Fonte: Museu do Homem do Curimataú.

Imagem 4 Governador Ernani Sátiro e a prefeita Neuza Bezerra na inauguração do Colégio Estadual de Cuité, em 10 de março de 1971 

A reivindicação por uma escola com o nível de formação ginasial uniu toda a classe política cuiteense. Assim, por ocasião dos festejos de celebração do bicentenário, em 1968, foi levado esse pleito ao governador João Agripino, que se encontrava participando das atividades na cidade.

O espaço foi edificado na estrutura doada pelo Instituto América, após algumas negociações. Segundo Lima, Pereira Sobrinho e Araújo (2020, p. 198), o Colégio Estadual de Cuité “teve como primeiro diretor o advogado paraibano Roosevelt Vita e, como secretária, a funcionária Maria José Dantas”. Convergiu de forma satisfatória com esse período a implantação seguinte da Lei 5.692/1971, em 11 de agosto, abolindo o famigerado Exame de Admissão e viabilizando, portanto, a expansão desse nível de ensino ofertado na referida instituição de ensino em Cuité.

4 Considerações finais

Esta pesquisa inquiriu: como a educação se apresenta na escrita autobiográfica do diário pessoal de Pedro Simões Pimenta? Com o escopo de compreender as marcas da educação presentes na escrita autobiográfica do diário pessoal do ex-prefeito cuiteense Pedro Simões Pimenta, que o escreveu entre os anos de 1912 e 1986.

A obra O Diário de Vovô Pedro permitiu uma incursão analítica em torno da narrativa autobiográfica do ex-prefeito Pedro Simões Pimenta nas anotações com datações precisas sobre experiências do vivido no âmbito individual e coletivo, em distintos momentos e espaços, ao longo de 74 anos.

A publicação dos manuscritos íntimos, o diário pessoal, um egodocumento, em formato de livro, lançado em 1º de agosto de 1986, veiculou para um público mais amplo da região uma memória que antes era estritamente pessoal e desconhecida. Com isso, passou-se a conhecer Pedro Simões Pimenta para além da trajetória política ou do imperativo de poder econômico sobre grandes extensões de terras. Ou seja, como um sujeito preocupado em registrar fatos diversos, Pimenta deixou para as gerações seguintes impressões e testemunhos do que viveu, em especial, na sua terra natal, Cuité.

E, na especificidade proposta desta pesquisa, identificou-se, no conjunto dessa narrativa autobiográfica, algumas marcas da educação que mereceram notas e apontamentos de Pedro Simões Pimenta, em distintos momentos na sua longeva trajetória, “no contexto de uma história cultural dos registros de si” (Castro; Lemos, 2009, p. 10).

A educação é lembrada em seu diário, desde os difíceis anos da sua alfabetização primária, quando aos nove anos, ao tempo em que iniciava com o pai o trabalho no campo e começava o processo de alfabetização, com Josefa Alves Frazão, madrasta de sua mãe. Formação escolar que continuou em Araruna, consolidando o desafio de aprender a ler, escrever e contar, um indiscutível privilégio naquele contexto.

Na vida adulta, em diferentes espaços e tempos distintos da sua atuação, como cidadão e, principalmente, representante do seu povo, Pedro Simões Pimenta demonstrou em seus registros e anotações preocupações em atender demandas por educação em sua terra, desde a construção de escolas, passando pela reivindicação de nomeações de professoras, em épocas de total descaso com a política pública.

As memórias, mesmo individuais, transitam pelo coletivo e trazem-no à tona; assim, o diário de Pedro Simões Pimenta, transformado em livro, aponta para outros sujeitos que, contemporâneos seus, também constituíram a educação no município de Cuité, embora a tenham vivenciado de modo distinto e pessoal. Os nomes de professoras que o memorialista citou confirmam a relevância daquelas na educação, e são pistas importantes que podem contribuir para a realização de outras pesquisas.

Por ser uma pesquisa autobiográfica, singular, não se recomendam generalizações. Todavia, a educação se faz presente em O Diário de Vovô Pedro, de forma a contribuir para a preservação da história e da memória da educação. Para estudos futuros, apresentam-se egodocumentos, como cartas e diários pessoas, qualificados como fontes eloquentes para a História da Educação Brasileira.

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Como citar este artigo (ABNT): MACHADO, Charliton José dos Santos; NUNES, Maria Lúcia da Silva; NEVES, Vanusa Nascimento Sabino. As marcas da educação na obra O Diário De Vovô Pedro (1912-1986). Rev. Pemo, Fortaleza, v. 7, e13099, 2025. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/revpemo/article/view/13099

1Pedro Simões Pimenta foi o segundo prefeito eleito de Cuité, após o advento da Segunda República e governou a cidade entre os anos de 1951 e 1955.

2Quem diz que nunca chorou / Querendo bem é mentira / Querendo bem de verdade / Chora, soluça e suspira.

3Foi eleito vereador em 16 de junho de 1937, tendo recebido 470 votos.

4Almeida (1887-1980) foi escritor e político brasileiro. Sua obra A Bagaceira deu início à “Geração Regionalista do Nordeste”. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 27 de outubro de 1966, ocupando a cadeira nº 38. Líder regional na Revolução de 30, foi por duas vezes ministro nos governos Vargas, além de senador e governador da Paraíba.

5Rui Carneiro foi deputado federal, senador e interventor federal na Paraíba durante o Estado Novo.

6Foi deputado, escritor e governador da Paraíba.

7Foi deputado, ministro, senador e governador paraibano.

HISTÓRICO

Recebido: 15 de Maio de 2024; Aceito: 29 de Julho de 2024; Publicado: 10 de Janeiro de 2025

Editora responsável:

Genifer Andrade.

Especialistas ad hoc:

Victor Hugo de Oliveira Henrique e Cristiani Bereta da Silva.

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