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Cadernos de Pesquisa

versão impressa ISSN 0100-1574

Cad. Pesqui. vol.44 no.153 São Paulo jul./set. 2014

https://doi.org/10.1590/198053140020 

Outros Temas

Fúlvia Rosemberg (1942-2014)


Desde que a Fúlvia se foi, há menos de um mês, recebo pedidos para dizer algumas palavras sobre ela, nos diversos encontros que têm ocorrido. Até agora eu não tinha conseguido fazer isso, mas hoje vou enfrentar esse desafio pela primeira vez.

Antes de conhecê-la, ouvia falar dela, primeiro no Ginásio Experimental da Lapa, o GEPE 1, como alguém que fazia parte de uma misteriosa equipe A, com a qual eu nunca me encontrei. Depois, já na Fundação Carlos Chagas, nos anos 70, onde eu era uma assistente de pesquisa na equipe da psicóloga Ana Maria Poppovic, seu nome surgiu como mais uma pesquisadora sênior que ia chegar ao Brasil, com um charmoso doutorado francês. Embora um pouco mais velha que ela, eu fazia parte, junto de Elba, Guiomar, Nara, Yara, do grupo de asssitentes das pesquisadoras doutoras que chefiavam os projetos de pesquisa. Nós ainda não tínhamos nos titulado, mas apenas iniciado nossos cursos de pós-graduação.

Logo que chegou, Fúlvia montou uma equipe para trabalhar na área que a interessava mais no momento, que era a crítica da literatura infantil. Feminista, chegava com uma bagagem intelectual ainda pouco conhecida entre nós, com os primeiros ecos das políticas da diferença, que aqui mal arranhavam as denúncias das desigualdades sociais. Era como se Maio de 68 chegasse à FCC pela voz de Fúlvia. Os demais pesquisadores, talvez com a exceção de Bernardete Gatti, tinham uma formação com maior influência norte-americana.

Minha ligação com o feminismo era pessoal e nada profissional: eu também tinha vivido dois anos em Berkeley, Califórnia, na efervescência dos movimentos de contracultura e, na volta ao Brasil, participava de um dos chamados "grupos de reflexão" em São Paulo. Se bem me lembro, o primeiro projeto de que eu participei convidada pela Fúlvia, junto com a Elba, foi a Bibliografia Anotada sobre a Mulher Brasileira; naqueles anos ainda não se usava a categoria gênero.

Naquele momento começou a se formar na Carlos Chagas um grupo sobre a condição da mulher, com a liderança da Carmen Barroso. Visto com desconfiança por alguns pesquisadores, esse grupo se ampliou, congregando diversas acadêmicas de diferentes áreas e instituições, que se reuniam em seminários realizados na casa do bairro de Pinheiros onde, naqueles anos, funcionava o Departamento de Pesquisas Educacionais. Muitas de minhas companheiras do grupo informal de fora da FCC também começaram a participar dessas atividades; o grupo de estudos "sobre a mulher" tornava-se famoso no pedaço.

Um fato marcante para o início de uma colaboração mais próxima entre mim e Fúlvia foi a participação da equipe da FCC na Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Mulher, no Congresso Nacional, em pleno governo militar. Depois de muita discussão, resolvemos aceitar o convite do senador Nelson Carneiro: Carmem falaria sobre a área do trabalho; Fúlvia, sobre literatura infantil; Guiomar, sobre educação; e "você, Maria, vai falar sobre creche". Eu tinha trabalhado em pesquisas sobre crianças de pré-escola, na equipe de Ana Maria Poppovic, e, mesmo sem saber nada sobre creches, tive de pôr mãos à obra e preparar meu depoimento.

A partir daí, com apoio de uma dotação da Fundação Ford, que cobria diversos projetos na ainda chamada "área de mulher", começou nossa parceria. Com a generosidade de sempre, Fúlvia me convidou a coordenar junto com ela o projeto sobre creches. Na realidade, esse projeto funcionava como um guarda-chuva, que abrigava diversas iniciativas que se desenvolviam na intersecção entre a assessoria aos movimentos sociais, que surgiam com força na passagem para os anos 80, e a pesquisa. A partir das primeiras eleições diretas para governador, eu participava também do Conselho da Condição Feminina, recém-criado, e diversas coisas se somavam de todos os lados: o jornal Mulherio, que Fúlvia coordenava, os cursos com pesquisadores estrangeiros, convidados por ela, que deram origem ao livro Creches e Pré-escolas no Hemisfério Norte, a Comissão Especial de Inquérito - CEI - sobre creches na Câmara Municipal de São Paulo, a assessoria à prefeitura de Belo Horizonte, onde conhecemos e trabalhamos com Rita Coelho e Ângela Barreto, além de Lívia Vieira, que já conhecíamos - projeto esse que deu origem aos Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças. A iniciativa de buscar recursos era sempre de Fúlvia, por exemplo, conseguindo um financiamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Inep - para reconstruir a história do movimento de luta por creches de São Paulo.

A imagem que fica para mim desse período é de uma colaboração que permitia que ligássemos fios puxados de todos os lados para os quais nos levavam o tema das creches, um tema ainda considerado um forasteiro no campo da educação. Esses fios eram diferentes, no caso de nós duas, mas sempre acabavam se somando e fazendo frutificar, de diversas maneiras, o nosso trabalho. Isso fazia com que nem sempre nós duas fizéssemos as mesmas coisas ao mesmo tempo, mas que, de alguma maneira, a gente acabasse compondo um território comum a partir de atividades diferentes. Uma vez ela me disse: nossa colaboração funciona em douceur, usando a expressão francesa.

É importante ressaltar que durante esse tempo, que correspondeu mais ou menos aos anos 80 e 90, Fúlvia fazia muitas outras coisas e dedicava-se a outros temas, fazendo prova de sua imensa capacidade de trabalho. Junto com Regina Pahim, desenvolvia projetos sobre as relações raciais, um campo de estudos também pioneiro, nas interfaces com a educação e os movimentos sociais. Lá atrás, nos trabalhos sobre a literatura infantil, Fúlvia já lançara seu olhar perscrutador e inquieto sobre os preconceitos de raça e de gênero que se manifestavam nos livros infantis. Agora, esse olhar abrangia outros fenômenos sociais e influenciava também nossos estudos sobre a creche: a pobreza e a educação para os pobres confundem-se em nosso país com a pertinência racial, como ela mostrou muito bem em trabalhos posteriores.

Ao aceitar o enorme desafio de coordenar o Programa de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford, que chegou ao Brasil nos anos 2000, Fúlvia mais uma vez me chamou a participar com ela de sua coordenação. Quando eu relutei, pois não me julgava preparada para tratar de ações afirmativas no campo das relações étnico-raciais, ela alegou que minha experiência na presidência da Anped por quatro anos poderia ajudar a montar uma metodologia que fortalecesse os candidatos nas seleções para os cursos de pós-graduação em diversas áreas, como proposto pelo programa. Fúlvia dedicou-se intensamente, como tudo o que ela fazia, mas talvez em um grau ainda maior, a esse programa. Eu tive uma participação maior no início e depois somente nas seleções anuais; aprendi muito, com ela e com os componentes das comissões, naqueles dias de debates, entrevistas e decisões difíceis.

Mesmo assim, ela não abandonou o tema da creche, sendo reconhecida como uma das pessoas chave da área, aquelas que são convocadas nos momentos em que conquistas são ameaçadas de retrocesso, tendo sempre uma resposta pronta e contundente para dar. Nos intervalos, seus e-mails com sugestões de leitura, suas citações críticas sobre alguma coisa que escrevi, suas conversas nos corredores e intervalos de reuniões, nunca deixaram de me acompanhar.

E não vão deixar de me acompanhar, mesmo de agora em diante. Tal qual o Grilo Falante da história, sua voz instigante, crítica, vai continuar a me seguir, sei que vai: essa voz já ficou embutida dentro de mim, junto com seu sorrisinho provocador, mas sempre muito amigo.

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