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Cadernos de Pesquisa
versão impressa ISSN 0100-1574versão On-line ISSN 1980-5314
Cad. Pesqui. vol.55 São Paulo 2025 Epub 03-Jul-2025
https://doi.org/10.1590/1980531411324
ARTIGOS
FORJAR A IDENTIDADE DE CIDADÃO: ANÁLISE DE LE TOUR DE LA FRANCE PAR DEUX ENFANTS
IUniversité Toulouse - Jean Jaurès (UT2J), Toulouse, França;
O artigo analisa a retórica pedagógica do manual Le Tour de la France par deux enfants [Viagem de duas crianças pela França] como uma ferramenta pedagógica de subjetivação, visando a forjar a identidade e a consciência de cidadão dos jovens franceses. O método de pesquisa baseia-se em uma análise crítica do conteúdo de várias edições da obra, identificando as esferas de pertencimento das representações sociais e as imagens morais veiculadas. Os resultados mostram que o manual inculca valores republicanos, como liberdade, igualdade e fraternidade, ao mesmo tempo que estimula a autonomia e a agência dos alunos. Em conclusão, ao utilizar a retórica pedagógica da subjetivação, a obra contribui para a integração dos jovens à comunidade nacional e para sua emancipação social.
Palavras-Chave: EDUCAÇÃO MORAL; EDUCAÇÃO PARA CIDADANIA; IDENTIDADE NACIONAL
L’article analyse la rhétorique pédagogique du manuel Le Tour de la France par deux enfants comme un outil pédagogique de subjectivation, visant à forger l’identité et la conscience citoyenne des jeunes Français. La méthode de recherche repose sur une analyse critique du contenu de plusieurs éditions de l’ouvrage, qui identifie les sphères d’appartenance des représentations sociales et les images morales véhiculées. Les résultats montrent que le manuel inculque des valeurs républicaines telles que la liberté, l’égalité et la fraternité, tout en favorisant l’autonomie et l’agentivité des élèves. En conclusion, en utilisant la rhétorique pédagogique de subjectivation, l’ouvrage contribue à l’intégration des jeunes dans la communauté nationale et à leur émancipation sociale.
Key words: ÉDUCATION MORALE; ÉDUCATION À LA CITOYENNETÉ; IDENTITÉ NATIONALE
This article analyzes the pedagogical rhetoric of the book Le Tour de la France par deux enfants as a pedagogical tool for subjectivation, aimed at forging the identity and civic consciousness of young French citizens. The research methodology is based on a critical analysis of the content of various editions of the book, identifying the spheres of belonging within social representations and the moral imagery conveyed. The findings indicate that the book promotes republican values such as liberty, equality, and fraternity while also fostering students’ autonomy and agency. In conclusion, by employing the pedagogical rhetoric of subjectivation, the book contributes both to the integration of young individuals into the national community and to their social emancipation.
Key words: MORAL EDUCATION; CITIZENSHIP EDUCATION; NATIONAL IDENTITY
El artículo analiza la retórica pedagógica del manual Le Tour de la France par deux enfants como una herramienta pedagógica de subjetivación, visando forjar la identidad y la conciencia ciudadana de los jóvenes franceses. El método de investigación se basa en un análisis crítico del contenido de varias ediciones de la obra, identificando los ámbitos de pertenencia de las representaciones sociales y las imágenes morales transmitidas. Los resultados muestran que el manual inculca valores republicanos, como la libertad, la igualdad y la fraternidad, al tiempo que estimula la autonomía y la agencia de los estudiantes. En conclusión, al utilizar la retórica pedagógica de la subjetivación, la obra contribuye para la integración de los jóvenes a la comunidad nacional y para su emancipación social.
Palabras-clave: EDUCACIÓN MORAL; EDUCACIÓN CIUDADANA; IDENTIDAD NACIONAL
EM 1877, AUGUSTINE FOUILLéE PUBLICOU, SOB O PSEUDôNIMO DE GIORDANO BRUNO, O manual (Dancel, 2009), livro de leitura instrutiva1 mais conhecido na França (Cabanel, 2007). Trata-se da obra Le Tour de la France par deux enfants [Viagem de duas crianças pela França] (daqui em diante Le Tour), uma narrativa que apresenta duas crianças órfãs. Elas descobrem, durante sua viagem, o patrimônio nacional francês. Ao mesmo tempo percurso geográfico e rememoração de momentos-chave da história da França, Le Tour serviu como livro de leitura instrutiva a várias gerações. Com reedições de mais de oito milhões de exemplares, ao longo do tempo o manual passou por ajustes ligados à sua forma e ao seu conteúdo (Dancel, 2009), refletindo a evolução da moral republicana.
Este romance escolar marcou profundamente o ensino primário da Terceira República na França. Polivalente, servindo ao mesmo tempo para o aprendizado da leitura, escrita, história, geografia e moral (Verdelhan-Bourgade et al., 2007), o manual teve um papel importante na formação cidadã e na aculturação das jovens gerações ao ideal republicano (Roger, 2007). Com essa potente ferramenta pedagógica de subjetivação (Durpaire & Mabilon-Bonfils, 2014), a obra faz os jovens leitores descobrirem a França e seu patrimônio (Marcoin, 1992), possibilitando moldar a identidade (Baubérot-Vincent, 2017; Biagioli, 2021) e a consciência de cidadãos dos alunos.
Le Tour foi objeto de inúmeras pesquisas em educação. Foi analisado como romance escolar e considerado uma ferramenta pedagógica de construção da identidade nacional durante a Terceira República (Baena, 2024; Strachan, 2004). Visava a forjar uma nova identidade por meio da educação das jovens gerações e propunha uma conciliação entre os valores republicanos e religiosos, assim como entre as identidades regionais e nacionais (Strachan, 2004). Algumas pesquisas destacam a coexistência, em Le Tour, de narrativas românticas, religiosas e modernistas da nação (Strachan, 2004) e questionam as interpretações anteriores, que assimilavam a intenção do autor a uma visão política (Wirth, 2007) republicana e modernizadora.
A publicação da obra no contexto político do pós-guerra de 1870, com a perda da Alsácia- -Lorena (Picq, 2021; Wirth, 2007), a inscreve em uma vontade política de consolidar a unidade nacional (Baubérot-Vincent, 2017; Biagioli, 2021) pela propagação dos valores republicanos. Regularmente reeditado e atualizado conforme a evolução dos programas educacionais (Biagioli, 2021), Le Tour foi adaptado às evoluções da sociedade francesa. Ele incorporou regularmente os avanços científicos e refletiu as mudanças sociais, por exemplo a laicização (Nora, 2005; Offenstadt, 2011; Michel, 2014) progressiva do ensino.
Com essa obra, o autor propôs uma abordagem pedagógica (Cabanel, 2007) inovadora, baseada na identificação dos jovens leitores com os personagens principais (Bruno, 1895, p. ii), André e Julien. Esse método assegura a transmissão dos saberes ao suscitar interesse e envolvimento (Vergnioux, 2010) emocional dos alunos. Ele os torna atores de um percurso iniciático e acompanha o surgimento do sujeito atuante (Bohleber, 2014) na transmissão de conhecimentos e de valores (Watrelot, 1999; Cabanel, 2010).
Verdadeira abordagem pedagógica, Le Tour foi analisado como espelho da sociedade francesa da época, refletindo suas aspirações (Marcoin, 1992), contradições (Valette & Wahl, 1985; Falaize, 2020) e transformações (Michel, 2014). A obra apresenta uma visão idealizada da nação, celebrando o progresso, a educação e o trabalho como pilares da memória (Roger, 2007) e da grandiosidade nacionais (Picq, 2021). Participa, assim, da construção de uma memória coletiva (Offenstadt, 2011) e de um sentimento de pertencimento (Durpaire & Mabilon-Bonfils, 2014) nacional (Nora, 1984), ao mesmo tempo promovendo certa concepção da cidadania republicana (Picq, 2021).
Indissoluvelmente ligado ao ensino primário, o manual articula o texto com imagens, documentos, explicações e lendas (Verdelhan-Bourgade et al., 2007), com o objetivo de formar a nova geração. O texto servia para a leitura instrutiva (Spaëth, 2018), ao passo que as imagens, os documentos, explicações e lendas serviam de exemplo concreto (Cabanel, 2010), explicação e ilustração (Dancel, 2009; Verdelhan-Bourgade et al., 2007) para as afirmações. No início, reflexo da riqueza cultural francesa (Michel, 2014), postulamos que esse manual utiliza uma retórica pedagógica de subjetivação que desencadeia nos leitores um processo de subjetivação (Jodelet, 2015). Portanto contribui para construção da identidade (Lebrun, 1993a, 1993b; Baubérot-Vincent, 2017; Cabanel, 2010; Amalvi, 2011; Valette & Wahl, 1985) dos alunos da República, levando-os a agir como sujeitos (González Rey, 2005).
Le Tour foi analisado como romance de formação da Terceira República (Ozouf, 1984; Dancel, 2009; Cabanel, 2007). Esses trabalhos identificaram a existência de vários Tours, favorecidos pelo contexto educacional da Europa do século XIX (Cabanel, 2007). Outras pesquisas analisaram como a obra introduziu um discurso geográfico (Mièvre, 1987) e cartográfico republicano entre milhões de alunos franceses (Olson, 2011). Além dos aspectos referentes à moral laica (Denis & Kahn, 2003), a edição de 1905, que incluía mapas, é particularmente interessante a esse respeito. Ela mostra uma tensão entre a narrativa, que apresenta a organização administrativa em departamentos - então recente -, enquanto a cartografia das cidades (Watrelot, 1999) dava destaque às antigas províncias (Olson, 2011). Essas formas contraditórias de cartografia ao longo de Le Tour sublinham sua complexidade como texto pedagógico e narrativo (Baena, 2024). O livro conheceu um sucesso considerável durante várias décadas e foi objeto de quatro adaptações cinematográficas e televisivas entre 1924 e 1980 (Garin, 2016). Essas adaptações modificaram o conteúdo do manual para corresponder aos projetos dos diretores, alterando ao mesmo tempo os aspectos romanescos e o conteúdo pedagógico (Garin, 2015, 2016). Resgatado, Le Tour passou por adaptações em um contexto colonial (Chivallon, 2012), da Indochina à África Ocidental francesa (Baena, 2024). Essa perspectiva transnacional oferece uma abordagem dialética da análise espacial desse relato literário complexo. Todas essas pesquisas mostram que Le Tour não é uma mera ferramenta educativa republicana, mas tem múltiplas dimensões - pedagógica, literária, cartográfica, identitária.
Um objeto de pesquisa inédito: A retórica pedagógica de Le Tour de la France par deux enfants como ferramenta pedagógica de subjetivação
Neste trabalho, analisamos Le Tour como retórica pedagógica que propicia a subjetivação do aluno, ou seja, coloca o sujeito em condições de construir sentido (Ungureanu, 2014) e facilita a formação do sujeito-cidadão autônomo. Em nossa perspectiva a retórica pedagógica é uma forma particular de retórica narrativa (Clot, 2008) que autoriza uma representação mental dos elementos da narração. Essas representações são socialmente (González Rey, 2005) e subjetivamente (Jodelet, 2015) estabelecidas, e representam um vínculo de memória com a história (Ricoeur, 2014). Apoiamo-nos nas pesquisas apresentadas na parte introdutória para afirmar que o manual possibilitou inculcar nos alunos um conjunto de valores (Wirth, 2007), comportamentos e conhecimentos (Marcoin, 1992) considerados essenciais para sua integração na comunidade nacional. Le Tour oferece, assim, uma estrutura narrativa propícia ao aprendizado da moral republicana (Offenstadt, 2011), à descoberta do patrimônio nacional e à assimilação dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Ele promove a identificação das esferas de pertencimento das representações sociais (Jodelet, 2015, p. 324). Por meio da análise das esferas subjetivas, intersubjetivas e transubjetivas (Jodelet, 2008), este estudo propõe analisar os mecanismos pelos quais Le Tour serviu de ferramenta pedagógica de subjetivação (Durpaire & Mabilon-Bonfils, 2014). Examinaremos como essa obra contribuiu para forjar a identidade e a consciência de cidadãos dos jovens franceses, ao mesmo tempo que incorporava as evoluções sociais, políticas e culturais de sua época.
Nossa análise se apoia na retórica pedagógica que estabelece “relações dialógicas entre a criança, os outros e o mundo dos objetos” (Jovchelovitch & Orfali, 2005, p. 6, tradução nossa), possibilitando a ela a elaboração de um processo representacional. O método escolhido se baseia na “leitura crítica do conteúdo” (Seffner et al., 2014, p. 8, tradução nossa) do manual, mediante a identificação e análise das esferas de pertencimento das representações sociais. Evidenciamos as estratégias narrativas e pedagógicas utilizadas para transmitir os valores republicanos e construir um sentimento de pertencimento nacional.
A construção da subjetividade como quadro conceitual de análise
O quadro conceitual de nossa pesquisa é constituído pela abordagem da construção da subjetividade (Jodelet, 2008) e pela abordagem da teoria psicossocial de representação (Jodelet, 2015, p. 325). A análise de Le Tour nos possibilita identificar os recursos narrativos utilizados para promover o aparecimento do sujeito ativo e pensante. Essa retórica facilita a identificação dos alunos da Terceira República com os personagens que afirmam sua legitimidade de sujeito atuante (Bohleber, 2014), como atores capazes de construir sua própria realidade. Essa retórica os incita a participar ativamente da construção do sentido que eles dão a seu próprio percurso no caminho para a subjetivação (Durpaire & Mabilon-Bonfils, 2014). Nossa grade de análise de conteúdo toma por base os elementos retóricos e narrativos correspondentes aos elementos de construção da subjetividade.
Portanto a análise de conteúdo se apoiará no conceito de sujeito, tal como concebido por González Rey (2005). Ele se distingue dos conceitos anteriores por três atributos que em nossa pesquisa se tornam chaves de análise: a tomada de distância do sujeito em relação aos determinismos sociais, a conscientização sobre seu próprio lugar na sociedade e a liberdade de agir.
Para além da evolução conceitual refletida pela mudança mais ampla na compreensão sociológica do indivíduo, evidenciamos esses atributos da subjetividade com vista a determinar em que a retórica pedagógica de Le Tour promove a subjetivação. Ela passa de uma visão mais determinista a uma abordagem que reconhece mais a autonomia e a complexidade do sujeito humano. Nossa análise se empenha em demonstrar que Le Tour foi uma ferramenta pedagógica de subjetivação dos jovens franceses da Terceira República. Essa abordagem traz implicações à educação. Pela leitura de Le Tour, o aluno era convidado a descobrir trajetórias e perspectivas individuais diversas que o estimulavam ao reconhecimento, ao respeito pela diversidade e às projeções pessoais em um universo social possível.
Metodologia de pesquisa
Para esta análise, constituímos um corpus de cinco edições sucessivas da obra2 (Bruno, 1877, 1878, 1884, 1895, 1905), publicadas durante um período crucial da história do sistema educacional francês. Realizamos uma comparação textual possibilitada pelo software Word, função “Comparar documentos”. Depois dessa comparação, selecionamos para as citações no texto as versões de 1895 e 1905.
Indicações do corpus na análise
Para facilitar a leitura, na parte de análises, indicaremos entre parênteses apenas a página do excerto, sem indicar ano de edição e autor. Assim, o leitor é convidado a ler Bruno (1895, p. 132), quando está escrito. As referências estão incluídas na bibliografia em ordem alfabética, segundo a 7a edição das normas APA.
Método de análise
Utilizamos o método de estudos das marcas recorrentes no modo de narrar a história (Seffner et al., 2014, p. 8). Antes de tudo, constituímos uma primeira grade ligando as “esferas de pertencimento das representações sociais” de Denise Jodelet (2008, p. 37, tradução nossa) ao conteúdo educativo abordado em Le Tour e à “teoria do sujeito” elaborada por González Rey (2005). A esfera transubjetiva reflete o sistema das relações sociais veiculadas pelos valores; estes se manifestam em um espaço social e público. Em contrapartida, a esfera intersubjetiva é identificada nas estruturas sociais em pauta na narrativa de Le Tour, pois todo indivíduo assume seu lugar de sujeito em um contexto inter-relacional simbólico. Vinculamos a esfera subjetiva à agência que evidencia a capacidade do sujeito de agir de modo autônomo, pois o pensamento subjetivo não é apartado da realidade (Jodelet, 2015).
Do ponto de vista dos analisadores, na retórica de Le Tour, identificamos:
A esfera transubjetiva, entendida como sistema das relações sociais estabelecidas, pelas quais os analisadores são representados pelos valores republicanos liberdade, fraternidade e igualdade, pela instrução/educação, pela aprendizagem da história, pelo conhecimento das figuras identitárias, do país e sua riqueza.
A esfera intersubjetiva, cuja análise evidencia as representações das estruturas sociais nas quais as duas crianças estão incluídas, mas ao mesmo tempo precisam agir para aí serem reconhecidas como sujeitos atuantes: os pais, a família, a pátria, a língua e o patrimônio cultural.
A esfera subjetiva como espaço íntimo de reflexão que define a agência do sujeito e cujos operadores retóricos principais são a dessacralização da moral, a escola como ambiente emancipador, o professor como representante de uma moral positivista, a viagem como meio de agir e as descobertas científicas como vetor das novas oportunidades oferecidas ao sujeito atuante.
Essa grade de leitura nos permitiu analisar os elementos de Le Tour que veiculam representações sociais (Jodelet, 2015). Identificamos os dispositivos retóricos dessa ferramenta pedagógica complexa que possibilitou a subjetivização (Jodelet, 2015) dos alunos da Terceira República pela mobilização das representações sociais (Jodelet, 2008) que permitem a ascensão do ser humano a um status subjetivo (González Rey, 2005).
Le Tour de la France par deux enfants, sistema de representações sociais complexo que enfatiza as esferas de pertencimento do Sujeito leitor
1o Liberdade, determinismo social e esfera transubjetiva em Le Tour. Os valores morais
O relato apresenta dois jovens órfãos alsacianos que percorrem a França, o que simboliza uma forma de libertação das imposições sociais e geográficas. De fato, os personagens se desvencilham de sua condição inicial (órfãos em uma região francesa anexada pela Alemanha). Empreendem uma viagem ao longo da qual descobrirão a totalidade do território nacional para assumir seu pertencimento nacional.
Nesse relato de viagem, os valores não são explicados por si só; são introduzidos em situações concretas (p. 11). Por exemplo, para compreender o conceito de liberdade (p. 136), evoca-se a imagem dos gauleses, povo livre e insubmisso. A liberdade não é concebida como um valor em si, mas associada ao dever para com a pátria. A ideia transmitida era a de que os personagens evocados eram livres por mérito próprio. Quanto aos outros dois valores republicanos, igualdade (p. 269) e fraternidade (p. 143), eles sempre vêm acompanhados de imagens simbólicas ou ilustrações eloquentes ligadas à qualidade de cidadão ou aos vínculos tecidos por ocasião de encontros. A família é associada à pátria, “uma pátria, uma casa, uma família” (p. 305, tradução nossa), e se torna um valor que ao mesmo tempo designa fraternidade e igualdade em direitos e deveres.
A obra também apresenta inúmeros exemplos de personagens provenientes de meios modestos e que tiveram êxito graças a seu trabalho e à educação. Por exemplo, evocam-se figuras como Cujas,3 David,4 Colbert5 e Dupuytren,6 “filhos de pobres” (p. 132, tradução nossa) que se tornaram personalidades emblemáticas. Essa representação incentiva os jovens leitores a acreditarem em sua capacidade de superar sua condição social original.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade como pilares da educação republicana, meio concreto de escapar de uma ordem social estabelecida
No relato, a Liberdade é apresentada como intrinsecamente ligada ao dever para com a pátria e ao mérito (p. 37) pessoal. Ela é ilustrada com figuras históricas como Bertrand Duguesclin7 (p. 236) ou Ambroise Paré8 (p. 240), que encarnam o ideal de cidadãos que marcaram a história do país. A viagem dos dois jovens órfãos alsacianos pela França também simboliza uma forma de libertação das imposições sociais e geográficas, permitindo-lhes escapar de sua condição inicial. Descobertas pelas duas crianças ao longo da viagem (p. 295), as instituições (p. 61) são vistas como garantidoras da liberdade e como expressão material da existência da República, derradeiro símbolo de liberdade. Tais imagens estimulam o sentimento de pertencimento social.
A Fraternidade é veiculada ao mesmo tempo pelos laços familiares e pelo aprendizado na escola. A unidade fraterna é encarnada pelos dois protagonistas, André e Julien, que se ajudam mutuamente e compartilham conhecimentos durante seu périplo. Contudo, em Le Tour, a fraternidade se estende à escala nacional, em que todos os cidadãos são apresentados como “filhos de uma mesma pátria” (p. 13, tradução nossa) que devem se amar e se apoiar mutuamente. O simbolismo dos irmãos (p. 70) ilustra esse valor e apresenta maneiras concretas de agir. A unidade fraterna é explicada por André quando se dirige nestes termos ao irmão: “caminhemos sempre de mãos dadas, unidos por um mesmo amor por nossos pais, por nossa pátria” (p. 9, tradução nossa). Com essas palavras ele ilustra e assume seu papel de irmão mais velho, instruindo (p. 18) e dando o exemplo (p. 45). O irmão mais velho também é quem ensina, transmite o saber e, na ausência dos pais, cuida do irmão menor e o protege (p. 20 e 26).
A escola republicana é apresentada como o principal vetor de igualdade entre os cidadãos. Ela oferece a cada um, independentemente da origem social, a possibilidade de se instruir e agir na sociedade. A educação é vista como uma ferramenta de emancipação (p. 17), que permite a todos desenvolverem seus talentos (p. 83) e superarem sua condição social de origem. É na escola que todos os ensinamentos são transmitidos. A escola e a palavra dos professores criam uma nova ordem social. Vários exemplos apoiam essa confiança no poder da instrução. A maioria das grandes figuras tem origem no povo (p. 132). Graças ao ensino recebido na escola, elas conseguiram se tornar figuras emblemáticas de sua região e do país. A repetição dessa imagem é tão frequente que, no fim de Le Tour, o jovem está persuadido disto: nenhuma descoberta, nenhum grande homem teria sido conhecido e reconhecido se não tivesse recebido instrução.
Aprendizagem da história e o papel das figuras identitárias
A história é apresentada como um elemento importante. Ao longo de sua viagem, os dois irmãos descobrem a história da França, aprendendo não apenas os fatos históricos, mas também experimentando os sentimentos associados a cada acontecimento. A escola republicana transmite a mesma visão do país e da história, as crianças tinham acesso à mesma educação. A aprendizagem da história não é neutra, ela não relata apenas os fatos históricos fixados geograficamente, mas também os sentimentos associados ao acontecimento. Com Le Tour, o sentimento de pertencimento nacional nasce com as imagens, os símbolos e o espaço nacional percorrido pelos dois órfãos.
Na viagem, as duas crianças percebem que o conhecimento do país inteiro não é possível sem a ajuda de um livro de geografia (p. 94). Como na lição de coisas (Denis & Kahn, 2006), na falta da exploração do objeto geográfico em si, com base em suas leituras Julien consegue descrever a cidade de Grenoble (p. 176). Cada descoberta, cada leitura é uma oportunidade de conhecer, de aprender um pouco mais sobre seu país. Quando atravessam as cidades, as duas crianças aprendem a geografia e a história local, ao mesmo tempo contemplando uma maneira de se referir aos acontecimentos. Por exemplo, quando eles passam por Orleans, aprendem a história de Joana d’Arc (p. 57), mas também a da desventurada cidade. As figuras históricas desempenham um papel importante nessa construção identitária (p. iv). Os exemplos servem para inspirar os jovens leitores e lhes mostrar que eles também podem ter êxito, e talvez se tornar famosos, graças à educação e ao trabalho.
Libertação dos determinismos sociais
A narrativa incentiva consideravelmente o leitor a incorporar a ideia de sua própria emancipação em relação aos determinismos sociais. A instrução é amplamente valorizada para isso. A educação é apresentada como o principal meio de ascender socialmente. Em Franche-Comté, o pastor comunal faz toda a comunidade se beneficiar: ele cuida dos animais da aldeia e libera o tempo das crianças para que possam ir à escola e se instruir (p. 78). A escola e as aulas para adultos fazem parte do símbolo de autossuperação pelo ensino e aprendizagem da ciência. A escola dá a chance de se emancipar (p. 286) e torna-se uma garantia de igualdade entre os cidadãos. Amar a República, amar seu país, é aprender na escola, inventar nas fábricas, criar riqueza para a França. Por conseguinte, a escola torna-se um símbolo poderoso, sua representação social é identificada à emancipação.
Nesse contexto, o professor torna-se um segundo pai (p. 276), o porta-voz da República (p. 62). Preocupado em garantir a educação de todos, de manhã ele dá aulas para crianças (p. 43) e à noite, para os adultos (p. 44). Cada cidadão tem uma oportunidade de aprender e de se aperfeiçoar. Portanto a escola é percebida como símbolo da cidadania absoluta, meio concreto de superar o determinismo social. A narrativa enfatiza mais o mérito individual (p. 37) do que a origem social. Os grandes homens são admirados por sua capacidade (p. 203), seu trabalho (p. 211) e sua virtude (p. 250), não por sua origem.
Em Le Tour, os exemplos escolhidos ressaltam o papel do povo (p. 118) na constituição da história. Figuras lendárias como Vercingetórix9 (p. 134) e Joana d’Arc (p. 271), ou pessoas simples, os filhos de padeiro Drouot le Sage10 (p. 58) e marechal Lobeau11 (p. 59), o filho de criados Claude Lorrain12 (p. 58) são evocados por sua importância para a história local e a do país. O labor e o desejo de ser útil ao país unem esses nomes e os homenageiam com sua inscrição na memória da nação. Os reis, ao contrário, são apresentados como caprichosos (p. 108), indiferentes à miséria do povo, que fogem diante do inimigo e afogam a vergonha da invasão nos prazeres (p. 139) e nas festas (p. 59). A decadência parece ser a principal característica de seus hábitos no covarde abandono (p. 139) de seus deveres. O dever (pp. i, 6, 276) para com a pátria é apresentado como um meio de se transcender (p. 19) e de agir na sociedade (p. 41), independentemente de sua origem. O patriotismo é visto como motor de ascensão social.
Le Tour apresenta um modelo republicano no qual a educação e o mérito pessoal são os principais vetores de mobilidade social. Ele inventiva o jovem leitor a acreditar em sua capacidade de superar sua condição de origem, a trabalhar e contribuir ativamente para a riqueza (pp. 137, 204) e o progresso da nação (pp. ii, 87, 90), transcendendo, assim, os determinismos sociais pela instrução, pelo trabalho e pelo mérito.
2o Interiorização das referências sociais e esfera intersubjetiva em Le Tour (legado)
A família
A fim de respeitar a promessa que fizeram ao pai, sinal de dignidade (p. 234), os dois irmãos deixam a Alsácia ocupada e partem para a França em busca do tio. A apresentação dos dois personagens dá início à intriga da narrativa. Apesar de sua idade, as crianças agem e expressam sua escolha de continuar sendo francesas (p. 9). A retórica do texto apresenta a cidadania como manifestação voluntária e não adquirida por nascimento. Em seu périplo, sua determinação esbarra na legislação estrangeira (p. 11) e no medo do desconhecido (p. 23). A viagem torna-se, então, um caminho iniciático durante o qual os jovens aprenderão a elaborar juízos e desenvolverão seu apego à identidade nacional. Assim a França se define como um sistema complexo, territorial, cultural e comunitário.
A família, frágil, está ausente, mas representa simbolicamente uma fonte de apoio afetivo e moral (p. 39) para os dois irmãos. Sua relação fraternal é destacada como um modelo de solidariedade e apoio mútuo. Depois da perda dos pais, André e Julien são a única família um do outro. Essa unidade fraterna os torna indivisíveis; ela se fortalece ainda mais pela decisão de respeitar o desejo do pai e de cumprir o dever para com a pátria. A família é, então, percebida como um microssistema da nação, em que os valores de fraternidade e igualdade são sentidos e vividos no cotidiano.
Os pais
Apesar da ausência, os pais têm um papel simbólico importante na narrativa. Sua memória e seus desejos constituem o legado moral das crianças. O dever para com o pai é sublimado no amor pela pátria, sendo a terra natal (p. 36) percebida como o vínculo concreto com os pais falecidos. O amor pela terra natal encarna o amor pelos pais. A terra que acolhe os pais falecidos é símbolo dos laços familiares (p. 64). Na retórica de Le Tour, a imagem da orfandade é multiplicada. Como os dois irmãos, uma criança, companheira de viagem - Jean-Joseph -, também é órfã. As crianças expressam o amor filial respeitando os desejos dos pais, o que as motivam a empreender a viagem pela França. Esse vínculo com os pais reforça, portanto, seu apego à terra natal e a seus valores, simbolizando assim a continuidade dos vínculos familiares e nacionais.
Os amigos
Os amigos que fazem durante a viagem (pp. 40, 94, 112) desempenham um papel essencial na construção da nova família ampliada dos dois órfãos (p. 162). Essas relações de amizade se baseiam na ajuda mútua e na solidariedade, valores-chave republicanos. Personagens como o senhor Gertal (p. 73) e a senhora Gertrude (p. 37) se tornam figuras benevolentes e protetoras para as crianças. Por meio dessas interações, os jovens leitores aprendem a importância da fraternidade e da ajuda mútua, incorporando esses comportamentos à sua própria vida. As relações que se tecem entre os habitantes de um mesmo país definem a pátria como comunidade à qual se pertence ou à qual se sente pertencer. O sentimento de pertencimento é acompanhado pelo sentimento de dever para com essa comunidade. Em sua viagem, os órfãos fazem amigos construindo uma nova família escolhida e ampliada (p. 138). A dimensão comunitária alimenta nos dois personagens o sentimento de pertencimento nacional pelo encontro de amigos, parentes e vizinhos.
A pátria e os vínculos sociais
Seguindo as recomendações de seus primeiros anfitriões (pp. 12, 15, 26, 38), os dois irmãos eram obrigados a se hospedar na casa de franceses. Assim, o pertencimento nacional se concretiza pela representação de uma rede de relações baseadas nos laços de sangue, de vizinhança e de amizade. Os jovens leitores, por sua vez, são estimulados a assimilar esse comportamento de ajuda mútua comunitária: “quando encontrarem um filho da França em perigo, vocês o ajudarão como eu os ajudo agora” (p. 14, tradução nossa). Assim, a manifestação do amor pela pátria se concretiza em uma ação identificável: “vocês terão feito pela pátria o que fazemos por ela atualmente” (p. 19, tradução nossa).
Depois da perda do pai e do dever de deixar o vilarejo, os órfãos atuam para continuarem sendo filhos da França, seja qual for a dificuldade que precisem enfrentar para isso (p. 10). Sob o signo do sofrimento e fora do âmbito familiar, eles se tornam conscientes de sua fragilidade e começam a procurar ajuda em um espaço nacional em plena transformação. Longe de casa, os dois irmãos iniciam seu caminho de busca identitária em um contexto definido pela guerra. Sua atitude patriótica transparece: “os habitantes que quisessem continuar sendo franceses eram obrigados a deixar sua cidade natal” (p. 9, tradução nossa).
A pátria é apresentada como sistema complexo de relações entre os cidadãos de um mesmo país. O sentimento de pertencimento é reforçado pelo dever patriótico (p. 108) para com essa comunidade nacional. Os dois irmãos descobrem as regiões francesas, suas tradições e sua história e tomam consciência da unidade nacional. A pátria também é associada aos valores republicanos - liberdade, igualdade e fraternidade -, valores mobilizados e interiorizados pelos jovens leitores graças às experiências dos dois órfãos.
A língua
A língua francesa constitui integralmente um elemento de unidade nacional. É graças ao domínio da língua que as duas crianças podem realizar a viagem. Não há comunicação sem compreensão. As crianças têm essa experiência quando visitam uma fazenda em Dauphiné (p. 165), onde os habitantes falam com eles no dialeto local. O impasse é superado graças a uma ex-professora, figura materna, que faz a conexão linguística.
Na narrativa, o francês é um elemento de unidade e igualdade. As crianças vivenciam a diversidade linguística ao visitarem regiões em que se fala o dialeto local, mas compreendem a importância da língua francesa como meio de comunicação e de unidade nacional. A língua é percebida como uma ferramenta indispensável para realizar a viagem e se integrar à comunidade nacional. A aprendizagem do francês é, pois, valorizada como condição necessária à unidade e à compreensão mútua dos cidadãos.
A cultura nacional como legado das estruturas sociais existentes e componente da esfera intersubjetiva
Tomar consciência e interiorizar
A cultura é apresentada como um legado vivo das estruturas sociais existentes. As crianças descobrem as riquezas culturais da França por meio de suas histórias, músicas e tradições locais. Esses elementos culturais são incorporados a seu cotidiano, fortalecendo o sentimento de pertencimento a uma comunidade nacional. A cultura popular, baseada na hospitalidade e na ajuda mútua (p. 26), é valorizada, enfatizando a importância das relações intersubjetivas na construção da identidade nacional. Os jovens leitores são incentivados a valorizar e perpetuar esse legado cultural em sua própria vida.
Na narrativa, o patrimônio cultural toma forma ao mesmo tempo que a viagem das crianças, que escutam as histórias contadas por seus anfitriões. Constituída de histórias particulares, a cultura francesa encontra suas ilustrações na experiência dos personagens. Por todos os lugares que passam, as crianças encontram traços da história nacional. Uma das anfitriãs lhes contava sua história enquanto debulhava feijões (p. 40), e as crianças não perdiam nenhuma de suas palavras. Assim a história se encontra viva e enraizada na vida real. A cultura vivida, o savoir-vivre francês são materializados na troca, hospitalidade e ajuda mútua. O tema da hospitalidade, da ajuda, define as relações culturais. As crianças se mostram laboriosas, corajosas e ajudam em todas as circunstâncias.
A viagem das duas crianças pela França lhes permite descobrir a diversidade do país, suas regiões, tradições, história e cultura. Esse percurso geográfico e cultural propicia aos jovens leitores tomar consciência da unidade nacional na diversidade. Essa apresentação possibilita aos alunos interiorizar as estruturas sociais e políticas de seu país. Por meio dos encontros e das experiências dos personagens, o livro aborda questões sociais sensíveis, como a embriaguez (p. 68) e a pobreza (p. 249). Esses temas permitem que os jovens leitores tomem consciência das problemáticas sociais e reflitam sobre seu papel de sujeitos atuantes.
3o Agência e esfera subjetiva em Le Tour (liberdade de agir)
Liberdade de decisão e de ação
A narrativa destaca a autonomia e a capacidade de ação dos dois jovens protagonistas. Mesmo sendo crianças, eles tomam decisões, enfrentam dificuldades e encontram soluções sozinhos, encarnando, assim, a noção de agência. O livro valoriza o trabalho, o esforço e a iniciativa pessoal (pp. 37, 106, 157). Apresenta inúmeros exemplos de personagens que, por sua ação e determinação, contribuíram para o progresso da nação. Essa representação estimula os jovens leitores a se perceberem como potenciais atores da mudança social.
A obra enfatiza a importância da instrução e da aprendizagem durante toda a vida. Mostra como os conhecimentos adquiridos possibilitam aos personagens fazer escolhas esclarecidas e agir de maneira autônoma em diversas situações. As crianças percorrem um mundo que se oferece a elas e lhes oferece diversas oportunidades de agir.
Dessacralização da moral
Le Tour se inscreve em um contexto de laicização do ensino, marcado sobretudo pela Lei Duruy de 1867. Essa lei permitiu a contratação de professores laicos para escolas públicas e desvinculou a moral republicana da autoridade da Igreja. A dessacralização da moral se manifesta de várias maneiras na obra. O professor laico torna-se figura central capaz de ensinar uma moral a um só tempo cristã e republicana sem ser coagido por uma ordem religiosa. A moral é sobretudo apresentada como científica, baseada em fatos reais e situações concretas, e não em dogmas religiosos. A palavra “Deus” desaparece progressivamente das edições sucessivas, substituída por uma crença humanista no poder humano.
A identidade da escola se transforma para se confundir com a do professor laico, que, na maioria das vezes, vive nos locais destinados ao ensino (Vial, 1981). Encarregado de dar aulas de moral, a um só tempo cristã e republicana, o professor laico não é obrigado por nenhuma ordem religiosa a ensinar uma moral específica. As aulas de moral podiam, portanto, acontecer em qualquer circunstância, como o método da lição de coisas indicava. Por conseguinte, cada momento do dia podia ser usado para a aprendizagem da moral, ainda mais porque os professores podiam incorporá-la aos outros cursos e estabelecer, assim, uma moral científica.
É nesse contexto que ocorre o desaparecimento da palavra Deus, na versão de 1889 de Le Tour, ao mesmo tempo que a introdução do humanismo como crença no poder do homem. Na continuidade da nova crença no humano, várias descobertas científicas ilustram como a humanidade age contra os males (p. 301). O homem e sua instrução tornam-se, portanto, valores que dão sentido à vida, e a escola é concebida como seu principal vetor de transmissão. Nesse novo mundo dessacralizado, a moral científica é enfatizada. Essa abordagem dá aos jovens leitores chaves para desenvolver uma reflexão moral autônoma, mais baseada na razão e na observação do que nas crenças religiosas.
Emancipação pela instrução e pela educação
O estilo utilizado, as aventuras dos personagens faziam as crianças pensarem em viagens e desterro (Cabanel, 2007, pp. 143-146). Os alunos se projetavam nas aventuras dos personagens e se identificavam com os pequenos franceses na descoberta de seu país. Em todas as edições, os alunos eram instados a se comportar como bons patriotas, como os dois personagens. Sentia-se, ao ouvi-los, que sua vontade de jovens indivíduos estava comprometida, do fundo do coração, a cumprir sua promessa.
A narrativa é construída utilizando a comparação como recurso retórico para ressaltar a semelhança com a vida real. As duas crianças emigraram como tantos outros alsacianos e lorenos, encontram personagens que lhes dão conselhos como um “segundo pai”, e suas aventuras são entendidas como se tivéssemos viajado com eles. A identificação com os dois personagens é ainda mais natural porque as situações descritas se colocam no registro familiar realçado por essas comparações. A utilização desse livro transcendia o universo escolar, pois ele era muito apreciado tanto pelos jovens como por suas famílias (Cabanel, 2007). Le Tour apresenta a instrução e a educação como vetores essenciais de emancipação individual e social. Assim, a escola republicana é assimilada a uma garantia de igualdade entre os cidadãos, oferecendo a cada um a possibilidade de ascender socialmente. A aprendizagem é valorizada em todas as idades, com cursos noturnos para os adultos, enfatizando a importância da educação durante a vida inteira. Essa representação social do papel emancipador da escola incentiva os jovens leitores a verem a educação como um meio de superar sua condição social de origem e agirem ativamente para se tornar membro da sociedade.
As descobertas científicas como horizonte de liberdade
Le Tour dá grande importância aos avanços científicos, apresentados como fonte de progresso e de libertação para a humanidade (p. 241). As descobertas de Pasteur são destacadas por sua capacidade de salvar a humanidade de doenças até então fatais. A obra enfatiza a importância da associação e da colaboração nas descobertas científicas, como no caso da invenção da fotografia por Niepce e Daguerre (p. 105). Os progressos científicos são motivo de orgulho nacional, estimulando o sentimento de pertencimento e de compromisso como Sujeito atuante no seio da comunidade.
Respeitando os programas educacionais em vigor, o livro de Augustin Fouillé torna-se inevitável para o ensino primário. Os professores o utilizam porque as aprendizagens fundamentais nele se realizam ao mesmo tempo que a educação moral do cidadão. Além disso, as atualizações regulares, o número de habitantes de diversas cidades (p. 158) e as unidades de medida (p. 213) fazem dele uma enciclopédia acessível. Essa abordagem estimula os jovens leitores a verem a ciência como um meio de agir para construir seu próprio futuro, ampliar seus horizontes e contribuir para o bem-estar coletivo.
O país, sua riqueza e as oportunidades econômicas
A narrativa apresenta a França como um país rico de oportunidades, onde cada cidadão, pela atividade e pelas economias (p. 154), pode contribuir para a prosperidade nacional. A viagem dos dois protagonistas lhes possibilita descobrir a diversidade e riqueza do país, tanto no plano geográfico quanto no industrial (pp. 243, 264). O trabalho e a indústria são apresentados como fonte de progresso e riqueza nacional, motivando os personagens a se envolverem na vida econômica do país (p. 61). Os monumentos (pp. 179, 197) são descritos como provas da grandiosidade nacional, incitando os jovens leitores a se identificarem com esse legado e desejarem contribuir para tanto.
Nessa obra, a escola é, portanto, o vetor principal do desenvolvimento científico que estimula o sentimento de orgulho nacional e a mobilização econômica da geração jovem. Destacam-se as grandes descobertas (pp. 205, 250, 274) francesas, que honram a França, sobretudo quando adotadas em outros países (p. 274). Além disso, as crianças aprendem que essas descobertas não seriam possíveis sem a instrução ofertada pela escola e sem a associação de várias pessoas. Por exemplo, ao falar da descoberta dos princípios da fotografia, as crianças compreendem os benefícios da associação econômica. A união faz a força, nenhum dos dois inventores teria conseguido descobrir a fotografia sozinho (p. 105).
A Figura 1 liga os elementos da retórica narrativa às esferas transubjetiva, intersubjetiva e subjetiva das representações sociais veiculadas por Le Tour.

Fonte: Elaboração da autora, com base em Clot (2015), Ungureanu (2014) e González Rey (2005).
Notas: 1. Jodelet (2015). 2. González Rey (2005).
Figura 1 Estruturação da retórica pedagógica para a criação de sentido em função das esferas e estruturas sociais
Liberdade de decisão e de ação
Le Tour destaca a autonomia e a capacidade de ação dos indivíduos, sua capacidade de agir como Sujeitos, ilustrando assim a agência do cidadão. Os dois jovens protagonistas, André e Julien, dão mostra de uma grande autonomia durante toda a viagem, tomando decisões e encontrando sozinhos soluções diante das dificuldades enfrentadas. A narrativa valoriza o trabalho, o esforço e a iniciativa pessoal, apresentando inúmeros exemplos de personagens que contribuíram para o progresso da nação com sua ação e determinação. É enfatizada a importância da instrução e da aprendizagem ao longo da vida inteira, mostrando como os conhecimentos adquiridos permitem aos personagens fazer escolhas esclarecidas e agir de maneira autônoma em diversas situações.
Le Tour oferece uma representação da sociedade francesa que incentiva os jovens leitores a se perceberem como atores livres e responsáveis, capazes de contribuir ativamente para o progresso do país. A obra realça a dessacralização da moral, a emancipação pela educação, as descobertas científicas e as oportunidades oferecidas pelo país. Ela constrói uma esfera subjetiva de representação social que valoriza a agência do cidadão e sua capacidade de agir livremente para o bem comum.
A identidade nacional em Le Tour como representação social
Por meio dos dois personagens, os alunos da República descobrem a história da construção de sua identidade, colocando sua personalidade entre a vontade de afirmar sua unicidade e a necessidade de partilhar os mesmos bens materiais e culturais da nação (Calindere, 2010, p. 40). A identidade nacional é, então, ao mesmo tempo uma imagem e um sentimento. As crianças descobrem o preexistente, a história, os lugares, as pessoas; reagem e interagem vivenciando sentimentos de apego. Mas a identidade nacional é uma soma de símbolos mais ou menos explícitos, mais ou menos visíveis. Com Le Tour de Augustine Fouillé, pudemos revelar a parte visível desses símbolos que serve para a construção da identidade e da memória nacionais.
A memória alimenta e fortalece o sentimento de pertencimento nacional e o sentimento de identidade. Adquirida por nascimento, a identidade nacional também é um sentimento integralmente criado na interação com os outros e com os símbolos nacionais. Esses últimos têm a função de demarcar a história e o espaço com fatos dignos de respeito e suscetíveis de colocar em evidência o sentimento de orgulho nacional. Para essa obra, os símbolos unem as pessoas em um contexto sociocultural comum que tem a função de integração na comunidade e o respeito às regras preestabelecidas.
Esses símbolos são constituídos em poderosos complexos simbólicos que geram adesão e solidariedade (Maure, 1996, p. 66). Entre esses complexos simbólicos, identificamos os irmãos órfãos, a mãe pátria, o irmão mais velho. Órfãos de pai e mãe, os dois irmãos alsacianos tornam-se símbolo dos alsacianos e dos lorenos. Por onde passam, criam o sentimento de apego ao suscitar a ajuda voluntária.
De profundo valor emocional, a criação de novos complexos simbólicos suscita a identidade nacional e a memória patriótica dos jovens. Seguindo dia após dia as aventuras das duas crianças, os alunos da Terceira República refletiam sobre questões identitárias: a nação, o patriotismo, o respeito ao patrimônio, o que significa ser francês, como eles podem contribuir para o engrandecimento do país.
Identidade nacional e determinismos sociais
Le Tour de la France par deux enfants se mostra uma ferramenta pedagógica complexa que promove a subjetivação do aluno e a formação do sujeito-cidadão autônomo por meio do trabalho subjetivo no processo de criação de sentido (Ungureanu, 2014) em três esferas de representações sociais mediante uma retórica pedagógica complexa.
Esfera transubjetiva - Percepção das relações sociais estabelecidas como valores
Le Tour apresenta um conjunto de valores republicanos, como liberdade, igualdade e fraternidade, encarnados na narrativa e nos personagens. A liberdade é associada ao dever para com a pátria e ao mérito pessoal, e ilustrada por figuras históricas. A fraternidade é veiculada pelos laços familiares e pela ajuda mútua entre os personagens. A igualdade é promovida pela instrução e pela escola republicana, apresentada como vetor de emancipação social.
Mais do que explicados de maneira abstrata, esses valores são integrados a ações concretas, possibilitando aos jovens leitores interiorizá-los pela identificação com os personagens e suas experiências.
Esfera intersubjetiva - Percepção das estruturas sociais como legado
Le Tour apresenta o legado cultural e social francês por meio de vários aspectos. A família, embora frágil, é retratada como uma fonte de apoio moral e um microcosmo da nação. Os amigos encontrados ao longo da viagem formam uma família ampliada, ilustrando a importância dos vínculos sociais. A pátria é mostrada como um sistema complexo de relações entre cidadãos, fortalecendo o sentimento de pertencimento nacional. A língua francesa é exposta como elemento de unidade e igualdade. A cultura popular (músicas, contos, tradições) é valorizada como expressão da identidade nacional.
Esses elementos possibilitam que os jovens leitores interiorizem as estruturas sociais existentes e desenvolvam um sentimento de pertencimento à comunidade nacional.
Esfera subjetiva - Percepção da agência como meio de agir livremente
Le Tour estimula a autonomia e a capacidade de ação dos indivíduos. Os protagonistas, apesar de serem crianças, tomam decisões e encontram soluções sozinhos diante das dificuldades. A narrativa valoriza o trabalho, o esforço e a iniciativa pessoal. A importância da instrução e da aprendizagem durante a vida inteira é enfatizada, mostrando como os conhecimentos permitem fazer escolhas esclarecidas. As descobertas científicas são apresentadas como fonte de progresso e de libertação. A França é descrita como um país que oferece inúmeras oportunidades, incitando os leitores a se envolverem ativamente na vida da nação.
Essa representação estimula os jovens leitores a se perceberem como atores capazes de agir livremente e de contribuir para o progresso do país.
Le Tour par deux enfants utiliza uma retórica pedagógica complexa que propicia a criação de sentido (Ungureanu, 2014) e a subjetivação (González Rey, 2005; Durpaire & Mabilon-Bonfils, 2014) do aluno ao agir simultaneamente nas três esferas de representações sociais (Jodelet, 2015). Ele possibilita inculcar valores, comportamentos e conhecimentos essenciais para a integração à comunidade nacional, ao mesmo tempo que incentiva a autonomia e a capacidade de ação. Ao fazer isso, a obra contribui para forjar a identidade e a consciência de cidadãos dos jovens franceses, refletindo os ideais republicanos da época e, a um só tempo, adaptando-se às evoluções sociais, políticas e culturais.
Agradecimentos
Agradecemos nossos laboratórios, que propiciaram o desenvolvimento deste trabalho de pesquisa. Structure Fédérative de recherche (SFR) de l’Institut National Supérieur du Professorat et de l’Éducation de l’Occitanie (FR),13 Education, Formation, Travail, Savoirs UT2J (EFTS - UMR) (FR),14 Centre Amiénois de Recherche en Education et Formation (Caref), UPJV (FR),15 Association Internationale de Recherche en Didactique Clinique (AIM’EDIC) (FR).
1Nota da tradução (N.T.): em francês, livre de lecture courante. Trata-se de um manual ao mesmo tempo didático e recreativo, um meio-termo entre livro didático e literatura infantil.
2Para o leitor interessado, uma versão completa da edição de 1922 está disponível gratuitamente no site Gallica da Biblioteca Nacional da França, no endereço: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5684551x
3N.T.: Jacques Cujas (1552-1590), jurisconsulto, considerado brilhante representante da escola do direito romano.
7N.T.: Bertrand Duguesclin (1320-1380), condestável da França, teve importante papel de liderança na Guerra dos Cem Anos.
9N.T.: Vercingetórix (c. 72 a.C.-46 a.C.), chefe gaulês, liderou os gauleses contra a invasão romana de Julio César.
10N.T.: Antoine Drouot (1774-1847), general chamado de le sage de la Grande Armée [o sábio do grande exército] por Napoleão.
11N.T.: Georges Mouton, conde de Lobau (1770-1838), ajudante de campo de Napoleão, comandante na Guarda Nacional de Paris, foi nomeado marechal pelo rei Luís Filipe.
12N.T.: Claude Lorrain (1600-1682), pintor e desenhista francês, passou a maior parte de sua carreira na Itália.
Disponibilidade dos dadosTodos os dados desta pesquisa se encontram on-line. Eles são informados, citados no texto e estão inseridos na lista de referências.
Como citar este artigoFillion-Quibel, I. (2025). Forjar a identidade de cidadão: Análise de Le Tour de la France par deux enfants. Cadernos de Pesquisa, 55, Artigo e11324. https://doi.org/10.1590/1980531411324_pt
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Recebido: 20 de Julho de 2024; Aceito: 17 de Fevereiro de 2025










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