A Dimensão do Sensível na Educação
A dimensão do sensível coloca-nos diante de uma estética voltada para a experiência do educar agenciada às afecções do corpo em que a nossa sensibilidade é convidada a expandir-se. Uma sensibilidade presente em nossa corporeidade que possibilita que ela seja experimentação, ou seja, construímos um mundo para dar sentido à nossa existência. Assim, produzir sentido enquanto experiência do sensível não é uma atividade puramente cognitiva ou intelectual, circunscreve numa relação de potências entre corpos e afetos, de sentir a vida em sua capacidade de afetar e ser afetado.
Uma educação voltada para a dimensão do sensível torna-se imprescindível nos dias atuais, porque possibilita que as pessoas busquem construir outros modos de vida, uma estética da existência (Foucault, 2007) ou a arte de viver, um modo de fazer da vida uma obra de arte. Trata-se de um princípio ético, estético e político que pode orientar as escolas públicas brasileiras na construção de saberes e práticas articuladas com situações reais do cotidiano, substituindo a educação marcada pelos conhecimentos técnicos e metódicos, repetitivos e padronizados, por modos inventivos e diferenciais, que operam movidos pelos afetos e afecções com iniciativas de escolas e docentes que desejam construir uma estética da sensibilidade, da partilha do mundo comum (Rancière, 2005) no processo educativo.
Quando Rancière (2005, p. 15) pensa na partilha do sensível, como o “sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência do comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas”, destaca, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Partilha implica tanto a participação em um “comum” quanto um “lugar de disputas” por esse comum que reafirma a função de construir um espaço coletivo.
Estar atento a esses sinais pode trazer mais sentido à existência de cada um, aos saberes do corpo, à vida expressiva. Na educação da sensibilidade, o corpo é fundamental como campo existencial na qual abrange o conhecimento inteligível, que diz respeito a como o mundo é pensado por nós, e o saber sensível, que seria como o nosso corpo conhece o mundo (Duarte Jr, 2001).
Nesse sentido, este artigo busca problematizar como a temática da educação do sensível foi evidenciada nas práticas discursivas expressas nos artigos publicados na revista Educação & Realidade em um período de cinco anos (2019 a 2023). Tomamos como afirmação que, nessa revista, a dimensão do sensível aparece como experiência ética e estética, potencializada na inventividade dos encontros, na arte das experimentações, nas práticas de liberdade e nos modos possíveis de vida.
Trata-se, portanto, de uma pesquisa de abordagem documental-bibliográfica, que tomou como objeto de estudo um total de 329 artigos publicados na revista Educação & Realidade, dentro do recorte temporal 2019-2023. Sendo 80 artigos no volume 44 (2019); 63 no volume 45 (2020); 64 no volume 46 (2021); 57 no volume 47 (2022); 65 no volume 48 (2023). Inicialmente, realizamos a leitura dos resumos de todos os artigos. Daí, selecionamos os que pareciam abordar a temática de uma educação do sensível, totalizando 30 artigos. Posteriormente, realizamos a leitura destes na íntegra, descartando 09 artigos que se distanciaram de algum modo do objetivo aqui proposto. Então, ao final, realizamos um trabalho buscando compor com 21 artigos. Apontamos que, nesse conjunto de artigos, o dossiê Sandra Mara Corazza: uma vida… (2022), evidencia fortemente a força do sensível em uma vida lançada aos afetos e aos modos que remetem uma bonita existência.
Na tessitura com a dimensão do sensível, o quadro a seguir apresenta três blocos de sensações que se conectam e que movem as forças desses artigos.
Tabela 1 Artigos selecionados por blocos de sensações – Revista Educação & Realidade (2019-2023)
| BLOCOS DE SENSAÇÕES | Nº DE ARTIGOS: 21 |
|---|---|
| A dimensão do sensível na docência, nos currículos e na formação de professores/as | 09 |
| Experiências educativas sensíveis: outros modos de experimentar a vida | 05 |
| Atravessamentos do sensível compondo a existência | 07 |
Fonte: Revista Educação & Realidade.
Por meio desses três blocos que se conectam uns aos outros, buscamos compor um conjunto de enunciados sobre educação do sensível nos diferentes modos de experimentar, pensar, sentir as potências do corpo e, afetadas pelos atravessamentos do sensível no encontro com esses artigos, levantamos algumas questões: o que esse movimento nos provoca a pensar no âmbito de uma educação do sensível que se lança à possibilidade de outros modos de ser e estar no mundo? O que pode uma educação da sensibilidade reverberar em nossas vidas, em nossas experimentações curriculares, em nossas escolas?
Reiteramos que esse texto compõe a pesquisa “O discurso da comunidade acadêmico-científica sobre educação da sensibilidade social nas diretrizes curriculares”, financiada pelo CNPq, coordenada pela professora Janete Magalhães Carvalho, que tem como objetivo analisar a produção acadêmico-científica publicada em periódicos classificados no Qualis Capes Educação, nos estratos superiores A1 e A2, convergentes com a dimensão do sensível.
A Força do Sensível na Docência, nos Currículos e na Formação de Professores/as
Entre os 21 artigos analisados, 9 destacam a força do sensível, especialmente, em modos diferenciais de existir na docência, nos currículos e na formação de professores/as, por colocar em evidência encontros e aprendizagens que se desdobram em linhas de afetos e afecções entre os corpos, como também nos movimentos que criam outros possíveis modos de pensar e existir pela experiência, pelo encontro e pelo acontecimento.
Nessa composição, desejamos argumentar que a força do sensível presente nos artigos selecionados envolve a produção de afetos como potência para pensar a docência, os currículos e os processos formativos, no sentido de problematizar os clichês criados para as escolas e, assim, liberar a vida onde ela é prisioneira para que outras e novas imagens de educação sejam inventadas.
Portanto, esses textos mostram aproximações a uma educação do sensível ao efetuarem movimentos expansivos e inventivos nos modos de pensar e fazer a educação, produzindo imagens que nos tocam e nos afetam por outras línguas. Assim, as produções potencializam novos encontros, outros sentidos para os currículos, para as docências e para as pesquisas, criando movimentos de formação, uma vez que articulam modos de educar não institucionalizados.
Na força sensível de uma vida lançada aos devires e afetos, o encontro com a edição 47, publicada em 2022, que trata do dossiê Sandra Mara Corazza: uma vida..., revela uma explosão de afetos. Uma composição de dez textos voltados aos movimentos dos quais Corazza se ocupou: a pesquisa, a docência e a orientação acadêmica, assim como as abordagens teóricas de sua trajetória intelectual. Um dossiê intrigante que nos desafia e mexe com nossas certezas, trazendo-nos, nas artes da escrita dos integrantes desse dossiê, sensibilidades de um modo de existir que nos afeta como potência de vida. Desses textos, selecionamos cinco que reverberam uma força sensível de uma vida bonita em homenagem à presença-ausência de Sandra.
Para além desse dossiê, encontramos mais quatro textos – dois na edição 44 (2019), um na edição 47 (2022), um na edição 48 (2023) –, que reverberam a força do sensível na formação de professores, que inclui o currículo e a docência.
O conjunto de artigos que compõem os acontecimentos da exuberante vida-obra-pensamento de Corazza, no qual nos dedicamos aqui, se traduz em múltiplas reverberações de um modo transcriador de existir na docência, uma didática-artista de seu ofício ético e político. Nesse sentido, pensamos com os textos: que afetos essa composição de vida nos atravessa? Que efeitos esse movimento expansivo de vida provoca em nosso corpo? De que modo esses afetos que reverberam nesses textos nos potencializam?
O artigo Um modo de existir na docência, de Angélica Vier Munhoz (2022), evidencia o legado de Corazza no que diz respeito à sua vida docente, tomando-a como um modo de existir transcriador no mundo e, sobretudo, na docência. A partir de traços constitutivos da vida-obra corazziana: a criação de conceitos, as gestualidades, os movimentos de pensamento nas aulas, as marcas deixadas por seu pensamento naqueles que por ela passou, a autora pontua que Corazza constituiu sua docência como uma força sensível. Uma força de existir afirmada nas fabulações, descobertas, sensibilidades imagens, músicas, gostos, estados d’alma, afetos, em modos inéditos de ser e fazer em meio a um espaço comum, e não apenas a determinadas práticas de ensinar e aprender.
A força do sensível emerge no movimento de se experimentar a si mesmo no trabalho vivo do pensamento, liberando as formas de representação, os clichês e o lugar identitário do professor, trazendo a potência de mais vida na docência. Uma força docente que subsiste na criação, nas vibrações, nas afecções, nos desejos, nos gestos menores vividos no encontro com outros corpos.
Nesse sentido, A orientação acadêmica como espaço de mais-vida, produzido por Julio Aquino (2022), prospecta o legado da professora no tocante à sua atuação como orientadora de trabalhos de pós-graduação. O artigo articula manifestações de Corazza como orientadora e de seus/suas orientandos/as a partir da pesquisa arquivística de teses e dissertações, colocando em cena a efetuação de movimentos expansivos de pensar e de fazer a pesquisa educacional com a invenção de modos de existência compositivos, um solo operativo nas práticas de orientação.
Percebemos, a partir do encontro com o texto, uma força sensível nas manifestações proferidas por Corazza nas defesas de seus orientandos/as e no “Bando de Orientação e Pesquisa”, como modos compositivos e distributivos de vida entre os corpos, gestos que provocam alegria na experiência da orientação. Essas sensibilidades nos afetam em seus modos poéticos de escrita e no espírito livre da prática da orientação.
Do mesmo modo, seus/as orientandos/as expressam sentimentos de gratidão à Sandra, afirmando a sensibilidade na experiência de viverem juntos, na escrita provocativa, na força da amizade, na coragem, na alegria dos encontros e na dor da despedida, na paixão pela curiosidade, no ensinar artista da docência, da pesquisa e da orientação, na vivência coletiva, potência de existirem juntos por determinado intervalo de tempo.
Nessa vida cruzada a tantas outras vidas, homenagear o legado de Sandra revela-se uma experiência no âmbito do sensível, uma matéria impossível de ser esgotada no tocante às suas intensidades, aos acontecimentos, afetos e afecções. Certamente, uma vida vibra, e Corazza deixou em aberto, na criação de suas pegadas, no legado de seus escritos, a força do sensível na arte de seu pensamento, na vitalidade de seu corpo, na alegria, nos afetos, nas provocações, sensações, reverberações. Atravessada por muitos pensadores, fabulou conceitos, sacolejou o pensamento educacional brasileiro, compôs neologismos, criou problemas, inventou gestos, modos poéticos que provocam inquietações, humores, desafios em muitos e muitos outros.
Assim, Marlucy Alves Paraíso (2022), em Currículo e seus dizeres, fazeres e quereres: vontade de potência de uma professora?, traça um bonito mapa do currículo conforme concebido, escrito, conceituado e divulgado por Corazza em sua produção intensa das atividades do GT Currículo da ANPEd. Trata-se de um documento vivo em que Paraíso incorpora algumas sensações despertadas por suas apresentações, quando as assistiu. Sensações que evidenciam que Corazza amou o que fez em seu professorar: os acontecimentos, seus trabalhos, o conversar e o confabular, o pensar alto e rápido, os burburinhos, as objeções, a emoção, os afetos. Sensações dos corpos que se mexiam de um lado para o outro, produzindo muitos incômodos, perguntas que tocavam o corpo, convocações que convidavam a sair do lugar cômodo, do currículo moderno que precisava ser mexido, revisto, revirado (Paraíso, 2022).
Essas sensações referem-se às composições que Corazza produziu e explorou no campo curricular. Por isso, Paraíso, despertada pelo encontro com o corpo, o afeto, a fala, afirma que as produções de Corazza buscam a existência de uma ética-política combativa daquilo que já foi dito no campo do currículo, da didática e da formação de professores para produzir sentidos outros para a educação. Sentidos nos quais “fez a linguagem do currículo gaguejar, torceu as palavras, transformou substantivos e sujeitos em verbos, verbos em locuções, juntou palavras inusitadas transformando-as em conceitos” (Paraíso, 2022, p. 15).
Paraíso (2022) destaca fortemente o desejo de criação de Corazza ao afirmar que ela fazia a vida movimentar continuamente e que gostava muito de experimentar: “[...] mudava o tempo todo: mudava o seu material de estudo, suas ferramentas teóricas, seu método de trabalho, sua escrita, sua leitura, seu pensamento, suas pesquisas” (p.15). Sempre com desejo de interrogar, problematizar os currículos do presente, para daí criar o novo.
Pensamos, com a autora, que na produção de toda a obra corazziana perpassa a atividade poética. Esse poetizar significa inventar, fabricar, criar sentidos inéditos nos currículos para que não fique paralisado. Isso demanda um/a professor/a com vontade de potência, um professor/a preocupado/a com os currículos-menores (Paraíso, 2022).
Assim, Corazza “atrela currículo com a potência de um professorar que cria” (Paraíso, 2022, p. 03), que movimenta e produz no campo do currículo, ao seu modo, um espaço de criação na educação. Percebemos, então, a partir de Paraíso, que Corazza fez sua aposta no/a docente criador/a, que desconstrói, desaprende, rompe o já feito para que um currículo possa se revitalizar na força de transformação e criação que a educação tanto necessita. É nos currículos-menores que se pode fazer a experimentação, a criação, nos contornos de outras improvisações, outras linguagens, nos modos de um/a professor/a que se movimenta, desfaz, refaz, inventa.
Assumindo um estilo investigativo de estudos sobre os atos de criação em pedagogia, o texto Tocar o futuro em seu lado de cá: Tradução em Sandra Mara Corazza, de Cristiano Bedin da Costa (2022), traz a escrileitura – uma das noções-chave oferecidas por Corazza – para afirmar a docência como didática-artista, um espaço-tempo que afasta-se da lei do significado e instaura uma variação contínua da tradição.
O texto traz a noção de tradução transcriadora como um entre-lugar de apropriação na geografia do pensamento de Corazza, explorando-a como tarefa de uma vida de professora sempre em via de fazer-se pelo presente da criação. Um saber-fazer docente chamado didática-artista que se constitui como um ofício tradutório, uma operação em busca de uma teoria, de encontros com matérias de arte, ciência e pensamento. A tradução como um desdobramento crítico da escrileitura, um modo transcriador de ler e reescrever elementos científicos, filosóficos, artísticos, na língua curricular e didática.
Assim, a didática-artista vive e adquire mais vida em transcriação, condição que faz de seu dever-traduzir um compromisso ético e político de diferenciar. Pensamos que assumir o ato de traduzir em aula, no currículo e na docência, trata-se de uma questão de pensamento e criação, um modo de potencializar o próprio ofício. Traduzir como um modo poético e transcriador de estudo, pesquisa e ensino como ocasiões para o deslocamento do sentido em movimentos de aberturas a outras possibilidades de encontros. Encontros que se quer intensivos, inventivos, sobretudo coletivos.
Aquino e Costa (2022), no artigo Fragmentos de uma vida ante os olhos de morte, apresentam o dossiê Sandra Mara Corazza: uma vida... O texto traz acontecimentos dessa exuberante vida em que os/as integrantes deste dossiê se debruçaram. Esses acontecimentos são operados a partir da montagem de alguns excertos biográficos subtraídos dos escritos da homenageada, que trazem as marcas de um fazer presente, de um viver-junto por cada uma das mãos que escreveram esse dossiê. Um compartilhamento coletivo de afetos, sentimentos, sensibilidades, emoções, desejos, pensamentos, força nas articulações entre a vida e a obra de Corazza.
Nesse conjunto de excertos biográficos que os autores traçam, eles trazem memórias da vida de Corazza; a cronologia; o falar dela como uma multiplicidade em si, um modo em afetos; a ascendência dessa vida; os estudos; o banco da escola; a fabulação, a escrita, a docência, as obras, a presença, a resposta.
Desse modo, fazem uma contextualização em dois blocos temáticos que compõem o dossiê: o primeiro voltado às instâncias empíricas que Sandra se ocupou: a docência, a pesquisa e a orientação acadêmica; o segundo referente ao pensamento teórico abordado em sua trajetória intelectual: infância, didática, currículo, escrileitura e tradução.
A montagem desse conjunto de excertos biográficos da homenageada revela uma condição de afetos daqueles/as que com ela compartilharam nesse dossiê, nessa uma vida de professora que nos toca na busca por algum sentido. Assim, o texto evidencia o vitalismo do pensamento de Corazza, revelando uma experiência rara, uma matéria impossível de ser esgotada no tocante às suas intensidades.
Essa condição de produção de afetos opera movimentos expansivos de pensar e fazer educação na invenção de modos de existência potencializados pelas experimentações inventivas, nas quais exprimem vidas, expondo um compromisso com a docência, o currículo, a formação e a escola.
Nesse sentido, vamos trazer outros quatro artigos publicados nesse recorte temporal que não estão contidos no dossiê Sandra Mara Corazza: uma vida..., mas que também reverberam a força do sensível na docência, no currículo e na formação de professores/as, potencializando outros encontros.
No artigo Existir é ordinário: mapas de resistências nos currículos e na docência, Alexandra Garcia e Allan Rodrigues (2019) mapeiam movimentos de resistência do público e do comum em práticas cotidianas a partir de narrativas docentes e discentes. O trabalho parte de resultados de pesquisas realizadas pelo grupo entre os anos de 2015 e 2017 quanto à produção dos currículos e à formação docente, tendo por objetivo discutir movimentos de resistência na educação pública e a presença de sentidos de comum (Negri, 2001) que emergem em práticas tecidas nos cotidianos.
Nessa composição, sentimos a afirmação da vida na potência de criação nos currículos e na docência como um modo de existir inventivo, através de narrativas das práticas docentes e de discentes recolhidas nessa pesquisa, que se apresenta como uma experiência ética, estética e política que atua na dimensão do sensível.
O texto trabalha com o sentido de comum pela visão de Negri, percebendo que a constituição do comum se dá nas escolas como um ato de existir no e com o coletivo. Os autores apontam que o comum, para Negri (2001, p. 106), “[…] é a ontologia considerada do ponto de vista da paixão, da força que agita e constitui o mundo [...]”. Nesse sentido, o comum refere-se a uma produção da própria vida, um modo de resistência por meio da prática de lutas por liberdade, um modo de existir em sociedade como condição e produção dos modos de ser e viver, e não à produção material de bens. Desse modo, estabelecem um diálogo no campo da filosofia da diferença e dos estudos do cotidiano, apontando que as práticas de pesquisa estão articuladas ao desenvolvimento de ações integradas de formação que trabalham em uma perspectiva dialógica e compartilhada na produção de saberes.
Diante disso, afirmamos com os autores que os modos de resistência não se produzem, necessariamente, como respostas às lógicas hegemônicas, mas se fazem nos modos de existência do comum em movimentos de produção dos currículos como invenção, como práticaspolíticas investidas de sentidos e constituídas na diversidade de saberes circulantes nas escolas.
Nessa perspectiva, Rosimeri Oliveira Dias e Eduardo Antonio De Pontes Costa (2022), no artigo Modos autogestionários e pistas investigativas na formação de professores, discutem a importância das linhas de pensamento ou modos autogestionários tecidos nos espaços escolares, na relação entre as práticas de pesquisa e o campo da formação inventiva junto aos professores da Educação Básica, buscando potencializar resistências e modos contra hegemônicos que singularizam modos de formar professores. Assim, toma os processos formativos em uma posição micropolítica, uma vez que problematiza e desvia de práticas macropolíticas.
Opera-se um modo de pesquisa produtor de pensamento para o campo da formação de professores, fazendo criar ações produtoras de relações e efeitos de força potencializados nos encontros coletivos em um plano de afecção. Os autores afirmam que há conceitos-operadores, ético-estético-políticos, que sustentam o trabalho teórico e empírico, para pensar sobre o que se produz nas práticas de formação. Tais conceitos-operadores questionam o domínio da noção de sujeito produzido pela cena dicotômica cartesiana, gerando pistas investigativas criadas por gestos, práticas, saberes, na experiência de formar professores e professoras pela perspectiva da invenção.
Desse modo, consideram que formação inventiva e experiência posicionam-se a favor de práticas de desnaturalização em processos formativos abertos à invenção de si e de mundos. É bom ressaltar que um dos grandes desafios de uma formação inventiva de professores (Dias, 2012) é manter vivo um campo problemático.
Percebemos que tanto o artigo Existir é ordinário: mapas de resistências nos currículos e na docência (Garcia; Rodrigues, 2019) quanto o artigo Modos autogestionários e pistas investigativas na formação de professores (Dias; Costa, 2022) discutem movimentos de resistência tecidos nos espaços escolares. Assim, toma os processos educacionais em uma posição micropolítica, operando um modo inventivo potencializado por ações coletivas no plano de uma educação da sensibilidade no campo curricular e no âmbito da formação docente.
Como invenção de modos outros de existência, Fernanda Rossi e Mônica Caldas Ehrenberg (2023), analisam, no artigo Corpo, yoga e formação continuada de professoras: exériencias e sensibilizações, a potencialidade das experiências corporais com yoga na formação continuada para as ressignificações de professoras da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental de uma cidade do interior paulista.
As autoras refletem sobre o corpo no contexto da formação docente e evidenciam que as experiências corporais, “como o fio condutor do processo formativo”, contribuem para a diluição das fronteiras “entre o vivido e o ensinado, entre o cognitivo e o sensível” (Rossi; Ehrenberg, 2023, p. 20), potencializando às professoras uma expansão da compreensão de si e da relação com o outro, de modo a reverberar na formação pessoal e profissional docente. Compreendem que a formação se configura como um elemento multidimensional que não se esgota nas questões acadêmico-científicas, mas incide nas percepções sensoriais, nos gestos e expressões de afetos.
Nesse sentido, o corpo e as experiências corporais com yoga são problematizados como atitude existencial e condição da construção de conhecimentos na formação docente. Tendo em vista uma perspectiva sensível, que expressa o corpo em sua totalidade, potencializando a expansão do reconhecimento de si no mundo e de sua relação com o outro.
Pensamos que as reflexões construídas perpassam as ressignificações da corporalidade, tomando-a como coletividade no ato de afetar-se, pelo sentir, pelas emoções do corpo. Trata-se de expandir a formação docente com uma ideia que busca romper a fragmentação corpo e intelecto na docência, operando movimentos expansivos à prática de uma educação desterritorializada, rizomática, no exercício de uma ação criadora.
Na perspectiva de militância em torno de uma educação menor, Fernando Bonadia de Oliveira (2019), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), no artigo A prática espinosana de uma educação menor, afirma que, no século XVII, o filósofo Espinosa já havia constituído um modo não institucionalizado de educar em sua atividade docente: uma educação menor, ou seja, um jeito rizomático de pensar e fazer educação em seu tempo e espaço.
Essa noção de educação menor desenvolvida por Gallo (2007), no início do século XXI, mobiliza diversas dimensões da prática educativa, despertando debates no campo educacional que se contrapõem às linhas tradicionais de pensamento pedagógico. Assim,Oliveira (2019) pontua, a partir de Gallo (2007), que uma educação menor resiste, afronta, vaza, não segue regras, mas cria outros modos possíveis de existir pela experiência, pela micropolítica do acontecimento. Ela é produzida à margem da educação maior controlada pelo Estado e pelas instituições, típicas dos grandes planos de educação formatados em documentos oficiais.
A análise do autor não deixa dúvidas de que Espinosa praticou, a seu modo, uma educação alheia ao que se passa nas grandes academias, efetivando “ramificações políticas em nome de um projeto coletivo de defesa contra as investidas dos supersticiosos e preconceituosos” (Oliveira, 2019, p. 11). Não podemos esquecer que a pressão social e política por parte da Igreja e do Estado era intensa naquela época, mas, não obstante o contexto adverso, ele criou sua pequena rede e inscreveu seu nome entre aqueles que se dispuseram a praticar uma educação revolucionária comum à voz da minoria. Nesse sentido,Oliveira (2019) ressalta um valor coletivo na prática de Espinosa. Não vemos um manual a ser oferecido para os alunos, mas uma obra – a Ética – sendo construída com os discípulos, o que nos cabe pensar, contrariamente à educação maior, a abertura de ramificações outras que se estabelecem nos agenciamentos coletivos de um educador/a militante, nos modos inventivos que se fazem nas experiências educacionais em meio à macropolítica que nos cerca.
Esse conjunto de artigos compõe um mosaico das múltiplas aproximações com a arte de criar outros possíveis nos currículos, na docência, nos processos formativos, nas escolas públicas, na força do sensível e nos estudos da Filosofia da Diferença. Assim, esses textos nos ajudaram a pensar na importância de enredar em nossos processos educacionais uma educação da sensibilidade aberta ao mundo, à vida, às experiências educativas. Ora, experimentar modos que engendram alegria, inventar outros mundos mais desejantes, mais atraentes aos nossos pensamentos, às nossas aprendizagens, emergem afetos e sensações produzidas por práticas de liberdade; contudo, constitui como um desafio na produção da educação, do currículo, da docência, da pesquisa, da formação de professores/as.
Colocamo-nos à espreita de modos menores para a educação, de acontecimentos éticos num constante exercício de produção de multiplicidades, que provocam deslocamentos nos modos de ser e fazer majoritários, que buscam enquadrar as experimentações curriculares.
Experimentações Educativas Sensíveis: outros modos de experimentar a vida
Em meio ao movimento de leitura e seleção dos artigos para esta composição, encontramo-nos atravessadas por práticas discursivas que tencionavam o nosso pensamento para uma dimensão específica e peculiar. Diferentemente da coleção de artigos sobre Sandra Corazza, encontramos publicados em anos e volumes diferentes, nesse recorte temporal, um conjunto de textos que instaura uma urgência de se pensar e agir na construção de relações outras com a educação em ciências da natureza nos espaços educativos, especialmente o ensino de biologia e ciências, e a relação com a natureza e os modos como essas dimensões habitam as escolas.
Uma força que nos afetou pela sensibilidade e relação dada à vida nos currículos de ciências naturais pela arte de potencializar bons encontros com a natureza, os seres, as crianças, as pessoas, pelo modo de afetar e serem por elas afetadas, fazendo emergir, nesse conjunto de artigos, esse bloco de sensações, o que nos aponta para um novo afeto, para outras relações de vivências e sentimentos entre a vida, a natureza, as crianças, a escola.
Percebemos e argumentamos neste movimento. Junto às forças que pedem passagens e fazem intensificar a vida daqueles que experimentam os múltiplos modos de habitar as escolas e o mundo pela sensibilidade, pela vitalidade, pela alegria constituída por meio de ensinagens e aprendizagens na educação e nas ciências da natureza. Desse modo, a vivência sensível e estética atravessa relações entre pessoas e seres naturais, assim como evidencia Léa Tiriba e Christiana Cabicieri Profice (2019) no artigo Crianças da Natureza: vivências, saberes e pertencimento, a importância da natureza para o desenvolvimento e o bem-estar de crianças de etnias indígenas e não indígenas, trazendo reflexões de como as crianças vivenciam a biofilia em função da presença dos ambientes e dos seres naturais em seu contexto sócio-ecológico e no desenvolvimento biopsicossocial.
Trata-se de uma pesquisa de viés exploratório, realizada junto a grupos de crianças de etnia Tupinambá de Olivença, habitantes do litoral sul da Bahia; de etnia Mura, habitantes do Amazonas; e de crianças não indígenas, de uma escola católica privada no bairro Queens, em Nova Iorque. Essas autoras, baseadas na perspectiva espinosana, em que “os seres são modos de expressão da natureza que afetam e que são afetados; que vivem em estado de conexão com outros modos e que se potencializam nesse estado de conexão” (p. 6), entendem que tudo se constitui a partir da natureza, sendo os humanos seres da natureza e da cultura.
O conceito de biofilia que fundamenta as reflexões das autoras se baseia em Edward Wilson (1984), concebendo “como uma condição humana que faz as pessoas se sentirem afiliadas à natureza e que induz à busca de relação com os demais seres vivos e processos naturais” (2019, p. 8) e afirmando que o contexto sócio-histórico e a cultura podem promover ou inibí-la: comunidades que vivem em interação cotidiana com seres vivos e processos da natureza têm mais oportunidades de promoção da biofilia do que aquelas que se situam em contextos urbanos, onde os ambientes naturais são mais raros. Assim, entre as crianças indígenas, a natureza é o seu próprio contexto de vida, dado que as comunidades indígenas extraem diretamente dela seu sustento. Entre as crianças de Nova Iorque, “a natureza é vista como lugar, no qual a humanidade não está e como vítima da ação humana que, segundo elas, deveria ser menos destrutiva e mais cuidadora” (2019, p. 15).
Essa pesquisa aponta que, as crianças indígenas, durante o acompanhamento das atividades escolares ao ar livre, expressam o conhecimento da biodiversidade local e manifestam apego e pertencimento ao território. Sendo que ambientes naturais são os espaços das vivências cotidianas dessas crianças, uma vez sujeitas do conhecimento tradicional local passado entre as gerações. Em sentido oposto, as crianças residentes no contexto urbano de Nova Iorque revelaram um limitado conhecimento da flora e da fauna local. Contudo, apesar desse desconhecimento do mundo natural tão distante de suas vivências, as crianças americanas se revelaram conscientes tanto dos problemas ambientais, como dos reflexos da escassez de natureza em sua saúde e bem-estar.
Podemos pensar com as autoras, a partir desta composição, que o conceito de biofilia se articula e está presente nas sensibilidades que atravessam e estabelecem relações entre pessoas e seres naturais, fazendo emergir práticas sensíveis de que, para estes sujeitos, a natureza é a própria vida.
Trazendo outros modos existenciais de vida, o artigo Educação ambiental pós-crítica como possibilidade para práticas educativas mais sensíveis (2021), de Valéria Ghisloti Iared (UFPR), Lakshmi Juliane Vallim Hofstatter (IF Baiano), Ariane Di Tullio (São Carlos/SP) e Haydée Torres de Oliveira (UFSCar), discute a relevância da sensibilidade para a criação de vínculos afetivos nas temáticas ambientais entre diferentes grupos de pessoas. Os argumentos foram construídos a partir da análise de conteúdo de três pesquisas de doutorado.
A primeira pesquisa, realizada por meio das técnicas de entrevistas e de grupos focais, investigou o processo de formação e a criação das identidades de professoras do ensino básico da Prefeitura Municipal de São Carlos/SP como educadoras ambientais, buscando trazer os seus aspectos sensíveis que contribuíram para essa formação na ótica das próprias professoras. A segunda pesquisa se deu por meio de entrevistas semiestruturadas e caminhadas no Cerrado com grupos de pessoas que tinham um histórico de envolvimento afetivo em relação ao Cerrado, objetivando compreender a formação dos valores estéticos e éticos no bioma Cerrado. A terceira pesquisa ocorreu na cidade de Salvador e trabalhou a importância das vivências ambientais urbanas, a criação de elos afetivos entre as pessoas e os lugares e o desdobramento do que foi vivido na infância em relação à natureza, objetivando compreender como se dá a relação humana com a biodiversidade no contexto urbano e quais são os caminhos percorridos e vividos por pessoas que possuem vínculos afetivos com a natureza urbana.
Os diálogos entre as três pesquisas refletem sobre a potencialidade da dimensão sensível nas atividades educativas no campo da educação ambiental, que tem por horizonte a construção de sociedades sustentáveis. Os resultados apresentaram dados que permitiram reflexões convergentes: vivências na natureza durante a infância; vivências e vinculações afetivas aos lugares e momentos; experiência estética/sensorial no meio ambiente. As autoras argumentam a relevância de uma virada ontológica na pesquisa e no aprofundamento de estudos que investiguem a interface entre as novas epistemologias ecológicas e a educação ambiental.
Desse modo, os resultados apontam que a vivência com a natureza em áreas verdes urbanas e naturais na infância é importante na formação de vínculos afetivos, assim como na formação estética, ética e política das pessoas, evidenciando que a experiência estética sensorial no meio ambiente, a vivência das professoras, e a alegria de trabalhar com a educação ambiental são aspectos da sensibilidade bastante presentes no processo educativo.
Pensamos que a escola, para além da dimensão cognitiva do processo de ensino-aprendizagem, precisa ocupar o currículo com a potencialidade da dimensão do sensível nas práticas em educação. Assim, José Luís Schifino Ferraro (2019), a partir de teorizações de distintos autores da filosofia da diferença, no ensaio O Conceito de Vida: uma discussão à luz da Educação traz uma aproximação epistemológica possível para o conceito de vida no entrecruzamento da filosofia e das ciências biológicas com práticas que advém do campo da educação, buscando compreender sua potência e seus efeitos no interior de um discurso que antes de pretender ser científico, é filosófico.
Entendemos com o autor, no interior do currículo escolar, que há vida que escape à organização tradicional da Biologia a partir das Ciências Biológicas, ou seja, a Biologia enquanto disciplina escolar pode ser atravessada pelas distintas perspectivas das Ciências Biológicas. Trata-se de uma saída que remete à importância da vida como elemento central no campo das Ciências.
Nesse sentido, o tratamento dado à vida no currículo da disciplina de Biologia potencializa a própria vida. Contudo, Ferraro (2019) pontua que “o currículo da disciplina de Biologia oferece o discurso biológico como forma de conhecimento oficial e válido, portanto, cientificamente chancelado sobre a vida” (p. 7). Historicamente o currículo tem dado conta da vida a partir de uma dimensão binária que “ocorre um considerável número de erros conceituais restringindo a determinados grupos processos específicos” (p. 8).
Pensar naquilo que escapa à organização do discurso biológico expresso pelo currículo revela que a disciplina de Biologia não deve seguir silenciando a vida, continuar deixando de lado a perspectiva de um corpo potente em detrimento de um corpo simplesmente fisiológico. A problematização no interior dessa disciplina seria, talvez, pensar como tratar a vida e sua potência, oferecendo outros modos de relacionar-se com o mundo, constituindo novas perspectivas éticas, outras formas de verdade do que a vida é ou pode devir.
Dessa maneira, a sensibilidade como uma experimentação que é social, não só estética e artística, possibilita aproximações que levam as práticas discursivas a questões que ampliam conceituações e vivências, especialmente na escola. Assim, o artigo Modos de Habitar o Mundo: uma educação em ciências com/em meio à/pela vida, de Tiago Amaral Sales, Fernanda Monteiro Rigue e Alice Copetti Dalmaso (2023), se lança às sensibilidades que se manifestam nas ensinagens e afetos com a educação em ciências da natureza. Os autores usam de uma escrita-oficina, um tanto livre e fabulatória, para provocar o pensamento acerca dos atravessamentos que abrem caminhos para a multiplicidade, as complexidades do ser e do mundo, dialogando e se inspirando na concepção deleuziana para estruturar argumentos e defender apostas que afirmam a vida.
O texto tenciona a reflexão sobre um conhecimento de ciências que não seja legislador e limitador de pensamentos (p. 3), reconhecendo que o processo educativo possui potencialidades que permitem a surgência de afecções em diferentes tempos, espaços e sujeitos, abrindo condições para se pensar dimensões da educação, como a docência, por exemplo. As contribuições de Fernand Deligny atravessam a composição discursiva no intuito de intensificar o papel do educador, neste artigo, como um criador de circunstâncias (p. 8) favoráveis à frutificação de espaços de criação na educação em ciências da natureza.
A aposta em experiências educativas sensíveis que se fundamenta durante a argumentação dos autores busca não resultar na inoperação do pensar, mas, pelo contrário, se entrelaça na força de uma perspectiva a fim de sensibilidades que caminham em prol de tornarem férteis as possibilidades de invenção, observação, participação e percepção do mundo.
É interessante como os autores exploram a noção de casa e nos colocam a problematizar os modos educativos de se pensar o nosso contato com o meio, com as intensidades que habitam e constituem o universo. A ideia de casa que construímos nos aprisiona (p. 15), é o que eles dizem, argumentando que a relação que a educação em Ciências vem nos provocando a constituir com a natureza e os animais limita a potência do nomadismo, das transformações e vivências sensíveis, deixando cada um de nós em uma espécie de lugar singular e único possível, sem espaço para movimentos e errâncias.
De modo semelhante, Ensino de Ciências e Biologia: amores estranhos, não humanos, conversas & alianças com as plantas e outras formas de narrar a vida, artigo com autoria de Leandro Belinaso e Daniela Ripoll (2023), aposta nesse mesmo emaranhamento, na convivência, no descongelamento das existências insípidas e fixas (p. 4) que, como problematizado no artigo anterior, vêm se apresentando e estabelecendo na educação em ciências.
Pensando a biodiversidade, os eventos biológicos e a questão do ensino, os autores fazem uma construção discursiva que conversa com referenciais já existentes nas pesquisas com os modos de experienciar a sala de aula de ciências, inclusive com o escrito de Sales, Rigue e Dalmaso (2023).
Afirmando que o estabelecimento de um fato científico passa pelo desnovelo de uma teia de fios, por tramas complexas de poder-saber, de participações de inúmeros seres, coisas, fenômenos e conceitos (p. 7), reconhecemos, nessa construção de ideias, texturas sensíveis que deslocam a problematização para questões que atravessam modos de vida e, nesse encontro, afetam sujeitos e espaços. Nessa discussão é possível dialogar e provocar inquietações acerca das questões de gênero, hierarquizações, produção de sentidos dentro da educação e da vida cotidiana, fortalecendo a arte de cultivar histórias que são rizomáticas, emaranhadas, diversas.
Nesta composição, percebemos as intensidades que já vêm reverberando em corpos escolares que se expandem ao pensar outros modos de experienciar a vida, disparando inúmeras possibilidades para encantamento e produção de práticas sensíveis na educação, tocando e atribuindo novos sentidos à existência. Dessa forma, esse artigo contribui, principalmente, para a percepção de que uma educação da sensibilidade já tem sido vivida nas mais diversas condições e estéticas de escolarização e que este modo outro de pensar currículos, ciências, relações, está presente também nas discursividades que permeiam as pesquisas no campo da educação.
Alguns dos encontros oriundos do agenciamento com as publicações da revista Educação & Realidade despertaram o nosso olhar para uma linha específica que, com certeza, se aproxima e tece com os nossos estudos sobre/com a filosofia da diferença, no esforço de fortalecer a expansão do pensamento e das possibilidades de se fazer e entender a educação.
Atravessamentos do Sensível Compondo a Existência
O encontro com os sete artigos que compõem este bloco de sensações nos leva a movimentar o pensamento acerca do sensível na composição dos modos de existir, apontando-nos uma força que emerge a partir das contribuições de Michel Foucault (2007) e John Dewey (1979), especialmente. O agenciamento com essas práticas discursivas traz à tona um mundo marcado por imprevisibilidades e contingências que influem na forma como se constituem as relações cotidianas sociais, educacionais e políticas. Nesse encontro, problematizamos a nossa própria existência e a constituição de outros modos de vida, evidenciando a complexidade, os contrastes e contradições disparadores de inconsistências que modificam, sensivelmente, nossas experiências.
A composição com o artigo A Experiência no Mundo Existencial, segundo Dewey, de Leoni Maria Padilha Henning (2019), movimenta nosso pensamento para a compreensão de que esses atravessamentos de que falamos, os que inferem em/nos modos de existir, são um potencial de experiência que, para Dewey, “modifica quem a faz e por ela passa e a modificação afeta, quer o queiramos ou não, a qualidade das experiências subsequentes, pois é outra, de algum modo, a pessoa que vai passar por essas novas experiências” (Dewey 1979 apud Henning, 2019, p. 10).
Nossa argumentação em relação ao sensível com o qual articulamos se fortalece ao entendermos que esse movimento visa uma crítica aos modos de subjetivações. Em uma leitura rancieriana, tudo que há é a possibilidade de se estar aberto (Carvalho, 2022, p. 422), tornando-se sensível a esses múltiplos modos de habitar nossas existências.
A Noção de Experiência na História da Sexualidade: implicações políticas e formativas, de Santiago Pich (2021), potencializa o nosso pensar a existência por meio de provocações que tocam a construção coletiva das experiências ao evidenciar uma vida que é vivida por meio de lutas e renovações permanentes, daquela que busca e se aventura por entre continuidades. Ao pensar os atravessamentos que compõem uma existência que é contínua, refletimos sobre uma potência sensível e tocamos processos de subjetivações que hoje se estabelecem através, sobretudo, de dualismos. Pich argumenta sobre essa construção de modos de existir através da problematização das dimensões políticas, individuais e coletivas que atravessam subjetividades e, de forma engendrada, existem no campo da educação.
Com Henning (2019), dialogamos com o mundo existencial que circula e compõe a escola, pensando por que ser a experiência educativa necessária aos sujeitos, uma vez que o espaço escolar pode muito produzir por meio de microagenciamentos, daquilo que tem potencial e se expande ao se relacionar com, causando intensidades que borram e fazem emergir outros modos de se existir escola, currículo, coletivo. A experiência educativa, apostando na sensibilidade, transpassa as tentativas de captura e as potencialidades da existência chegam à nossa inteligibilidade, nos transformando em outros e constantemente subjetividades, ideias, convites.
O sensível, nessas andanças, produz forças ao fundamentar laços, afetos e afecções através dos múltiplos modos de existir. Nesse sentido, ao pensar as complexidades da existência e agenciar com a força do sensível que tem emergido entre as práticas discursivas acadêmicas, vemos, com Pich (2021), uma aproximação que tenciona “a noção de que a experiência é um modo de relação do sujeito com a vida que pressupõe um ser-afetado-do-sujeito no seu ser de sujeito, o que supõe sua transformação, a qual não tem, nunca, um destino traçado, comportando, sempre, um arriscar-se” (p. 5).
Assim, compomos com a ideia que se tem de experiência, de ser, já que essas concepções se movem de maneira a evidenciar modos de existir e produzir sujeitos e subjetivações. Tomar a existência como algo que escapa, transborda e forma por linhas de fuga significa reconhecer a condição de ser sujeito constituído por si e outros tantos, abrindo brechas para o entrelaçamento e movimentos de pesquisas com múltiplas maneiras de ser e fazer, de partilhar e compor a vida.
Entendendo a experiência como um modo de relação que se atrela à ideia da existência e do sensível por meio de uma estética, uma ética política que acontece no encontro entre o sujeito e o outro, potencializamos a sensibilidade em virtude desse caráter transformador do ser. O autor desloca a discussão para uma compreensão dos processos formativos e da relação entre corpo, prazer e pensamento, dimensões que, em Rancière (2010), faz-nos pensar nos entremeios das microssituações, criando e recriando ligações e produzindo novos modos de participação da/na vida ordinária. Esses processos podem constituir uma partilha do sensível que estabelece e reconfigura existências.
Com Maria Diederichsen (2019), autora do artigo Pesquisar com a Arte: ética e estética da existência, buscamos pelo sensível e nos deparamos com a arte tangenciando a existência. Agenciando com a concepção deleuziana de filosofia, Diederichsen (2019) afirma que “as linguagens artísticas oportunizam, ainda, visitar as relevantes dimensões do inconsciente, as paisagens da imaginação e algumas das mais significantes questões acerca da existência humana” (p. 4).
Pensar em atravessamentos sensíveis sem visitar os estudos que discorrem sobre estética, política e arte é quase impossível, especialmente pelo reconhecimento de que a investigação artística oportuniza espaço para outras perspectivas e modos de existir, sendo fundamental para as pesquisas que se lançam a problematizar as condições para o desenvolvimento da inteligibilidade, o pensamento crítico, e uma existência com significações. As sensibilidades que atravessam a linguagem artística não podem ser capturadas, assim como nossa existência. Uma leitura do sensível e das artes, especialmente das que operam com o corpo, possibilitam “espaços para a possibilidade de se construir novas relações com o mundo e com os outros e, talvez, de se instalar uma disposição à abertura e ao reconhecimento do que é diverso [...] Em suma, as artes do corpo obrigam a um movimento para fora de si” (Carvalho, 2022, p. 425).
A composição desses microagenciamentos alarga a percepção sobre modos de existir e torna política a poetização do pensamento para sentir o que ainda não sabemos sobre nós, sobre o outro. Existir sensível e poeticamente é estar perante o desconhecido e se permitir articular com ele. A potência da arte entra de forma a resistir à normalização da existência, se afastando dos clichês e pensando novos modos de representação do mundo.
Deleuze e Guattari (1995) colocam que o pensamento criador depende do desmantelamento da face, de um devir-clandestino, o que pode contribuir para o entendimento da existência como um devir-sensível, que brinca com o acontecimento e pode potencializá-lo. A articulação que encontramos entre os artigos que compõem esse fragmento de texto diz de forças neoliberalistas que tencionam identidades específicas, enrijecidas, esvaziadas e insensíveis, fica difícil pensar o existir vinculado à existência, de fato. Compomos com esse pensamento ao acreditar que práticas sensíveis deslocam o entendimento para um sentido que não é apolítico e nem linear, abrindo passagem para pensar existências outras.
O encontro com a escrita de Maria Elizete Guimarães Carvalho, Maria das Graças da Cruz Barbosa e Wellegton Jean Barbosa de Souza (2023), responsáveis pela discussão em Dizer ao Mundo de si na Literatura Freireana: o direito humano à palavra, possibilitou articulações entre a leitura de Freire e o estudo da sensibilidade através das aproximações com as representações coletivas sociais e suas conjunturas. O debate convida os processos de escrita para a composição dessa argumentação.
Nesse artigo, os autores afirmam que “dizer ao mundo de si significa colocar-se no mundo de forma a usufruir do direito humano de ser gente. É também assumir-se como sujeito histórico capaz de formar-se e transformar a si e às realidades em volta.” (p. 2), atribuindo sentidos à existência que provocam a composição com dimensões múltiplas, diversas, similares ao pensamento de Rancière, que parte da igualdade como princípio e assume os muitos possíveis enredamentos das relações como disparadores de ideias, de novas formas de enxergar e conversar com a realidade.
Nesse contexto, compreendemos a escrita como um atravessamento sensível que afirma as existências e, especialmente, o movimento democrático de transformação de realidades. A escola volta para a conversa e compõe com as sensibilidades ao operar, no encontro discursivo, a leitura e a escrita como pressupostos afirmativos de valoração da dignidade humana (Carvalho, Barbosa, Souza, 2023, p. 4), garantindo a potencialização do direito de dizer de si, de ser, existir.
Atrelando os estudos do sensível à perspectiva humana dos autores do artigo, acreditamos que “existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo” (Freire, 2011, p. 108 apud Carvalho, Barbosa, Souza, 2023, p.2) e que “uma politicidade sensível é assim, de saída, atribuída às grandes formas de partilha” (Rancière, 2005, p. 20). Assim, compreendemos e argumentamos que existências são atravessadas e constituídas pelo que é coletivo e constituído com ele, como o que pensa a dimensão do sensível, desconstruindo concepções de cotidianos que assujeitam e dando espaço para a vida que insurge através da palavra.
Caminhando por e com essas discursividades, também fomos afetadas pelos atravessamentos do sensível em práticas que discorrem sobre experiências na infância e na adolescência. Alguns dos artigos com os quais agenciamos, se aproximam de questões da existência que tocam as dimensões de escolarização, trabalho e lutas vivenciadas por sujeitos. Um desses escritos vai dizer, especialmente, sobre a existência de pessoas trans.
Entre o Trabalho e a Escola: cursos de vida de jovens pobres, de Ana Karina Brenner e Paulo Cesar Rodrigues Carrano (2023), carrega sensibilidades que tocam a existência de um modo muito peculiar, deslocando os afetos para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e para os novos sentidos produzidos na vida desses sujeitos a partir da experimentação desse espaçotempo. O artigo usa de narrativas para dizer sobre a importância da experiência escolar e problematiza as forças neoliberais que atuam sob a educação, roubando direitos e condições de acesso a práticas educacionais sensíveis e democráticas.
Investigando os sentidos do retorno à escola na vida de jovens da EJA, Costa (2011) salienta que o reingresso se identifica com a aposta de reconfigurar projetos de vida e sonhos adiados por circunstâncias adversas. A retomada da escolarização ganha um novo sentido para aqueles que a estão experimentando pela segunda, terceira ou mais vezes. Assim, pode-se dizer que o retorno se relaciona com os sentidos que os jovens atribuem ao seu processo de escolarização e que estão relacionados a projeções futuras e reformulações de projetos de vida
Os autores denunciam vulnerabilidades e fragilidades de nosso mundo, ao passo que demonstram, sensivelmente, como estas podem ser marcadas e transformadas por aquilo que abala nossas (in)certezas e (in)seguranças. Entendemos, em uma leitura rancieriana, de experiência, que não há como estar preparado para a repentina irrupção de um mundo até então invisível (Carvalho, 2022, p. 423). Sendo assim, vemos como necessário tornar-se sensível.
Essas novas práticas sensíveis competem não apenas à escola, mas à formação humana, pois, como evidenciamos neste bloco de sensações, é sobre existências que se fala. Aqui o pensamento se amplia e a inteligibilidade se alarga no encontro com esses escritos, sobretudo, entendendo a educação como disparadora e potencializadora de sensibilidades que nutrem, dançam e compõem muitos modos de vida.
A Educação de Pessoas Trans*: relatos de exclusão, abjeção e luta, de Thais Pimentel de Oliveira Xavier e Cláudia Vianna (2023), também traça linhas com os processos excludentes que provocam análises sobre relações de gênero e o direito à educação e à vida. É interessante como esses movimentos são constituídos por vestígios que não se limitam àquilo que se vê. Nesses meandros, a discussão se alonga para questões políticas e mais amplas.
Temos problematizado, especialmente dentro dos movimentos de pesquisa, o embate entre forças que operam sob a educação. É para as concepções que tendem a reduzir o sujeito e a fortalecer a manutenção de práticas desiguais e aniquiladoras das diferenças, da existência, que nos lançamos a pensar. A sensibilidade atravessa nossos discursos e nos faz enxergar sistemas pensados para negligenciar identidades, principalmente se estas pertencem àquelas vistas como minorias, como indesejáveis. Torna-se inquietante a sensação que pensar essas existências nos provoca. Precisamos de práticas (e práticas discursivas) que se voltem às existências massacradas por políticas que não dão espaço para aquilo que emerge e constitui o mundo plural em que se vive.
Chama nossa atenção a forma como o encontro com essas existências nos afeta e nos faz caminhar por essas intensidades. Xavier e Vianna (2023, p. 8) dirão que
As experiências dessas pessoas trans* na escola, além de provocarem as noções hegemônicas de gênero, também desafiam a repensar o espaço escolar e convidam pessoas cisgênero a refletirem sobre os privilégios de determinados grupos, que se configuram como desigualdade para outros.
Vemos assim, agenciando com as contribuições de Dewey, Freire, Rancière e outros estudiosos que atravessaram este movimento de pesquisa, que as diferentes perspectivas que emergem deste encontro se aproximam de forma a potencializar o pensar sensível e modos de existir. A sensibilidade compõe a existência e tem constituído as práticas discursivas de modo a visibilizar corpos de pensamentos e sujeitos.
Uma Juventude à Flor da Pele: o dilema de adolescer ou adoecer, de Edson Saggese (2021), último artigo que constitui essa temática, vai trazer à tona as sensibilidades de jovens que se veem sem alternativas para desfrutarem de suas existências e que, em meio à uma cultura de tendência à medicalização como uma tentativa de impedir o exercício das autolesões e do suicídio, são levados às práticas farmacológicas.
O estudo também reflete sobre questões que atravessam os modos de existir e o corpo e suas composições. A forma como o entendimento sobre essas dimensões tem se relacionado com os dilemas da juventude é evidenciada neste artigo. Saggese (2021) se articula com Judith Butler (2004, p. 6) para pensar que “gênero não é algo inerente ao corpo, mas uma categoria social instável, um desempenho que pode mudar com a transformação das sociedades” e que este modo de existir, como tantos outros, afeta e faz emergir diferentes concepções de coletividade.
A discussão percorre o chão da escola e fala sobre o que aqui pensamos como prática da dimensão do sensível: reconhecer que os “existires” (existir-relações, existir-encontros, existir-sensíveis) são trunfos indispensáveis para o desenvolvimento de modos de ser. O autor opera com um estudo específico de Sigmund Freud que tratava da potência do efeito da dor como estímulo externo como afecção interna sobre o eu (p. 12). Esse efeito se move em prol da diminuição da capacidade de ação do sujeito que o sofre. Numa leitura deleuziana, nos deparamos aqui com paixões tristes, que paralisam nossos corpos e roubam as possibilidades de resistências. Compor com a sensibilidade desvia nosso olhar para essas manifestações, tornando impossível pensar de modo fragmentado as dimensões do coletivo. Voltamo-nos a problematizar e pesquisar como esses “existires” se relacionam, reagem e sentem.
De tudo, a análise dos artigos que compuseram este bloco de sensações se movimenta de forma a evidenciar como questões do sensível têm atravessado as existências e tocado aquilo que percebemos como comum compartilhado, emergente da partilha do sensível. Trabalhamos com aquilo que compõe e potencializa modos de vidas, espaços e encontros. Apostar em uma prática da sensibilidade e buscar pela presença desses microafetos, microagenciamentos na dimensão acadêmica e social significa, então, perceber o potencial de ação daquilo que acreditamos mover para outros rumos, o pensamento, fazendo a nossas existências terem liberdade para a reinvenção, a criação e para os agenciamentos.
Por uma Educação Sensível
A revista Educação & Realidade vem ao longo de seus 40 anos de existência contribuindo com a divulgação da produção científica na área educacional e, assim, amplia o debate e o movimento do pensamento no campo do currículo, da formação de professores e do cotidiano das escolas.
O propósito deste texto consistiu em evidenciar a força da dimensão do sensível presente nas enunciações das práticas discursivas da revista Educação & Realidade, no período de 2019 a 2023. Esse trabalho faz parte de uma pesquisa maior que também analisa a dimensão do sensível em outros periódicos, pois acreditamos que as ideias e conceitos expressos em periódicos qualificados potencializam o debate, a problematização das políticas atuais e abre as possibilidades de novas práticas e políticas educacionais.
Nesse mapeamento cartográfico, percebemos a força do sensível atravessando o campo educacional, sobretudo o campo do currículo, da formação de professores e da didática. Como disse Deleuze e Guattari (2010) a arte conserva blocos de sensações, ou seja, um composto de perceptos e afectos. Ao entrarmos em relação com os 329 artigos selecionados para a nossa análise e cartografar a força do sensível, que transborda por meio das enunciações das práticas discursivas, realizadas em diversos lugares do Brasil, nos alegra e nos potencializa a seguir atentas aos devires que nos movimentam a inventar outros modos de fazer pesquisa em educação.
Em Ensaios do assombro, Peter Pál Pelbart (2019), nos convida a pensar como conceber a uma vida não-fascista, uma vida que escapa e dribla a modulação biopolítica. Nos textos escolhidos para compor esse artigo, fomos afetadas pelas vidas que pulverizam a partilha democrática do sensível e, nesse encontro, com a arte do sensível e com as experiências de pesquisadores e educadores vibramos com as diferentes formas de vida e de vidas sem forma que buscam viver um novo paradigma ontológico – uma ontologia operacional. Nesse movimento, importa a operação, o processo, os efeitos e não o resultado ou o produto final.
Os enunciados políticos ou literários produzem efeitos nas práticas discursivas de professores e pesquisadores e na realidade. Definem modelos, modos de fazer e regimes de intensidade sensível. Os enunciados expressos nos periódicos de maior circulação na comunidade acadêmico-científica produzem efeitos no pensamento educacional. Assim, problematizamos: que efeitos o campo das pesquisas em educação terá ao expandir a força da dimensão do sensível que jorra nos currículos e nos cotidianos das escolas? O que uma vida docente se propõe a experimentar na potência de uma educação do sensível, nas afecções do corpo, na existência de mundos singulares e comuns? Que forças sensíveis nos arrastam para uma estética da existência como ética possível para a reinvenção de nossas próprias vidas?
Provocamos, enfim, um convite para seguirmos dialogando com as potências de vidas e sensibilidades que emergem nos cotidianos existenciais, trazendo especialmente esses modos de ser e pesquisar para compor com nossas práticas discursivas e movimentos dentro e fora da educação. Nossa intenção e aposta se lançam à expansão de forças coletivas e de vida nas nossas experimentações com o mundo.










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