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Inter-Ação

versión impresa ISSN 0101-7136versión On-line ISSN 1981-8416

Rev. Inter-Ação vol.48 no.1 Goiânia ene./apr 2023  Epub 24-Jun-2023

https://doi.org/10.5216/ia.v47i3.72290 

Artigo

Estágio supervisionado e ensino de filosofia: compreensões a partir de entrevistas com licenciandos1

SUPERVISED INTERNSHIP AND PHILOSOPHY TEACHING: COMPREHENSION FROM INTERVIEWS WITH PRE-SERVICE TEACHING UNDERGRADUATE STUDENTS

PRÁCTICAS SUPERVISADAS Y ENSEÑANZA DE FILOSOFÍA: COMPRENSIONES A PARTIR DE ENTREVISTAS CON ESTUDIANTES UNIVERSITÁRIOS

Fábio Antonio Gabriel1 
http://orcid.org/0000-0002-4990-4102

Ana Lúcia Pereira2 
http://orcid.org/0000-0003-0970-260X

1Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), Jacarezinho, Paraná, Brasil

2Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Ponta Grossa, Paraná, Brasil


Resumo

Neste artigo, o objetivo foi investigar as percepções de licenciandos do curso de Filosofia acerca da concepção de Filosofia, seu ensino e o estágio supervisionado. Os sujeitos participantes da pesquisa foram 20 licenciandos, que, na ocasião da coleta de dados, encontravam-se no terceiro ano de Filosofia e já haviam concluído o Estágio Supervisionado I desse curso. Os dados foram coletados mediante entrevistas semiestruturadas e foram organizados e analisados por meio da Análise Textual Discursiva. Com a utilização do software Atlas Ti, emergiram duas categorias e cinco subcategorias, relacionadas à percepção dos licenciandos a respeito da Filosofia e seu ensino. Os resultados apontam no sentido de uma percepção da importância do estágio supervisionado na formação do futuro professor e de que é relevante a compreensão da Filosofia como problematizadora da existência, não circunscrita ao enciclopedismo, que restringe o conhecimento filosófico tão somente à memorização de sistemas filosóficos.

Palavras-chave Estágio Supervisionado; Experiência Filosófica; Ensino de Filosofia

Abstract

In this article, the objective was to investigate the perceptions of Philosophy pre-service teaching undergraduate students about the concept of Philosophy, its teaching and the supervised internship. The subjects who participated in the research were 20 students, who, at the time of data collection, were in the fifth semester of Philosophy and had already completed the Supervised Internship I of this course. Data were collected through semi-structured interviews and were organized and analyzed through the Textual Discursive Analysis. With the use of the Atlas Ti software, two categories and five subcategories emerged, related to the undergraduate students’ perception of Philosophy and its teaching. The results point towards a perception of the importance of the supervised internship in the education of the future teacher and that the understanding of Philosophy as a problematizer of existence and not limited to the encyclopedism that restricts philosophical knowledge only to the memorization of philosophical systems is relevant.

Keywords Supervised Internship; Philosophical Experience; Philosophy Teaching

Resumen

En este artículo, el objetivo fue investigar las percepciones de los estudiantes del curso de Filosofia sobre la concepción de Filosofía, su enseñanza y las prácticas supervisadas. Los sujetos participantes de la investigación fueron 20 estudiantes, que en el momento de la recolección de datos, se encontraban en el tercer año de Filosofía y ya habían concluido las Prácticas Supervisadas I de ese curso. Los datos fueron recolectados mediante entrevistas semiestructuradas y fueron organizados y analizados por medio del Análisis Textual Discursivo. Con la utilización del software Atlas Tisurgieron dos categorías y cinco subcategorías, relacionadas con la percepción de los estudiantes al respecto de la Filosofía y su enseñanza. Los resultados apuntan para una percepción de la importancia de las prácticas supervisadas en la formación del futuro profesor y de que es relevante la comprensión de la Filosofía como problematizadora de la existencia y no circunscripta al enciclopedismo que restringe el conocimiento filosófico solamente a la memorización de sistemas filosóficos.

Palabras clave Prácticas Supervisadas; Experiencia Filosófica; Enseñanza de Filosofía

Introdução

O estágio supervisionado constitui-se em um importante momento da formação de futuros professores. Assim sendo, neste texto, destacamos particularmente o estágio supervisionado em Filosofia e buscamos problematizá-lo filosoficamente para evidenciar o exercício nessa formação. Partimos do pressuposto de que o professor de Filosofia é convidado a mediar com seus alunos do Ensino Médio uma experiência filosófica, de modo a relacionar a Filosofia ao cotidiano de cada um.

Nesse sentido, este estudo foi desenvolvido com a contribuição de 20 licenciandos de Filosofia da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), que concederam entrevistas, cujo enfoque foi a compreensão da Filosofia, o correspondente ensino e a relevância do estágio supervisionado na formação de futuros professores. O estágio supervisionado, quando meramente burocrático, não auxilia no desenvolvimento profissional porque se limita a cumprir atividades para uma aprovação ao final do curso. Todavia, quando o estágio supervisionado dá aos licenciandos a oportunidade de vivenciarem a realidade em sala de aula e ensaiarem formas didáticas de ensinar Filosofia, temos um novo cenário, muito mais producente e muito mais benéfico para a constituição identitária do futuro professor de Filosofia.

Nossa investigação organiza-se centrada na seguinte questão: qual a percepção de licenciandos sobre a Filosofia e seu ensino e como entendem a contribuição do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores dessa disciplina? A presente investigação justifica-se pela importância do estágio supervisionado como um momento particular de articulação entre o aspecto teórico e prático da formação em referência. Partimos do pressuposto de que teoria e prática devam estar vinculadas e que, juntas, integram a formação de futuros professores. O presente artigo é o recorte de uma pesquisa de Doutorado que desenvolvemos na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG); no entanto, no Doutorado, não aprofundamos uma análise sobre os dizeres dos licenciandos, o que ora realizamos.

A aula de Filosofia como laboratório do pensamento e oficina de conceitos

Compreendemos a aula de Filosofia não como transmissão de conteúdos filosóficos engessados, que não podem ser questionados, mas, sim, como experiência filosófica. Nesse sentido, exporemos, nesta seção, a aula de Filosofia como laboratório do pensamento e oficina de conceitos. Tal entendimento relaciona-se diretamente à valorização da aula de Filosofia como espaço da experiência, de forma a utilizar conceitos sem que o mero enciclopedismo e o descritivismo de sistemas filosóficos prevaleçam.

Gabriel, Pereira e Alves (2020) defendem que a Filosofia entendida como criação conceitual remete aos filósofos Deleuze e Guattari (2010), cuja interpretação filosófica entende a história da Filosofia como a arte do retrato. Em tal entendimento, exercitar-se a estudar a história da Filosofia não consiste em uma atitude de se repetir tão simplesmente o que foi dito pelos filósofos. Muito mais do que isso, a história da Filosofia consiste na oportunidade de se criar o novo em um processo de experiência da aula de Filosofia como espaço laboratorial de conceitos (GABRIEL; PEREIRA; ALVES, 2020).

Ensinar Filosofia, segundo Gallo (2012), não é uma imposição ao aprendizado, mas um convite ao exercício filosófico de experimentação da aula de Filosofia como laboratório do pensamento:

Na aula de filosofia, é mais do que necessário romper com a visão tradicional de aula – já tão criticada, mas dificilmente abandonada –, de um espaço de transmissão de conhecimentos. Ela precisa ser um espaço no qual os alunos não sejam meros espectadores, mas sim ativos, produtores, criadores. Ela precisa, ainda, ser um espaço em que se tome contato com o “sentimento de ignorância”, do qual fala Rancière e que já citamos aqui, como abertura de possibilidade para se fazer seu próprio percurso. [...]. Assim, é necessário que os estudantes tenham contato, de forma ativa e criativa, com a diversidade de filosofias ao longo da história, pois ela será a matéria prima para qualquer produção possível (GALLO, 2012, p. 93, grifo do autor).

Assim como defendemos a aula como espaço para a vivência da experiência filosófica, entendemos que a aula de Filosofia não pode ser espaço apenas de recepção de conteúdos filosóficos que o estudante deva memorizar, mas, sim, como já defendemos anteriormente, espaço de vivência do conceito, da experimentação da vivência filosófica, da criação de conceitos.

Gabriel, Pereira e Alves (2020) dissertam sobre Carrilho (1987), que defende a superação da visão da Filosofia em uma perspectiva escolástica essencialista, baseada em definições a serem memorizadas. Nesse contexto, o papel do professor de Filosofia é ressignificado. Para Gabriel, Pereira e Alves (2020):

Nessa perspectiva da aula como laboratório conceitual, surge o papel do professor-filósofo, não como um especialista profissional de Filosofia, mas como alguém que se coloca no ambiente da prática do filosofar. É um provocador do pensamento, alguém que cria condições para que os alunos filosofem. Nosso pressuposto é de que o profissional só se constitui como professor-filósofo, se na sua licenciatura, ele tiver vivenciado uma experiência do filosofar (GABRIEL; PEREIRA; ALVES, 2020, p. 7).

Assim, a formação inicial de professores de Filosofia é significativa pela possibilidade de uma experiência conceitual que oferecerá condições aos futuros professores de mediarem experiências filosóficas aos futuros alunos, quando atuarem em sala de aula no Ensino Médio. E, de modo particular, o estágio supervisionado pode contribuir no processo de formação inicial, no sentido de oferecer condições para que os futuros professores não sejam apenas apresentadores de doutrinas filosóficas a serem memorizadas pelos estudantes, mas sejam provocadores do pensamento.

Na próxima seção, tratamos do estágio supervisionado em Filosofia e suas especificidades como forma de contribuir para a formação inicial dos futuros professores dessa disciplina.

O estágio supervisionado em Filosofia: vivência da futura condição de professor

Nesta seção, procuramos aprofundar reflexões a respeito do estágio supervisionado em Filosofia. Inicialmente, tecemos considerações acerca de sua relevância na formação dos futuros professores e, na sequência, dissertamos sobre o que entendemos ser específico nessa área.

Pimenta (2012) apresenta-nos a importância de superarmos uma visão dicotomizada entre teoria e prática. Inconcebível, na visão da autora, a continuidade de uma análise que entenda o estágio supervisionado como uma atividade prática distanciada da formação teórica. A autora defende uma visão que alcance o panorama integral do processo formativo (PIMENTA, 2012). Assim, é preciso compreender a atividade formativa das licenciaturas como um processo integral que supere dicotomias as quais não ofereçam contribuição para um preparo harmonioso dos futuros professores.

Piconez (2015) nos apresenta a situação em que os professores dos cursos de licenciatura, por vezes, não se sentem responsáveis pela formação integral de professores e, consequentemente, entendem que o compromisso com o bom êxito do estágio supervisionado limita-se à questão de ser uma preocupação dos professores da disciplina de Prática de Ensino. A referida autora também defende que é preciso valer-se de uma visão integral sobre a disciplina Prática de Ensino, entendendo-a como um componente teórico-prático, “[...] isto é, possui uma dimensão ideal, teórica, subjetiva, articulada com diferentes posturas educacionais, e uma dimensão real, material, social e prática, própria do contexto da escola brasileira” (PICONEZ, 2015, p. 23). Segundo a autora:

A aproximação da realidade possibilitada pelo Estágio Supervisionado e a prática da reflexão sobre essa realidade têm se dado numa solidariedade que se propaga para os demais componentes curriculares do curso, apesar de continuar sendo um mecanismo de ajuste legal usado para solucionar ou acobertar a defasagem existente entre conhecimentos teóricos e atividade prática. Em suma, nada de teoria no vazio: nada de empirismo desconexo. São as duas obrigações de unidade que revelam a estreita e rigorosa síntese da teoria com a prática e que só se pode exprimir por sentido bidirecional, através da relação dialógica. Essa unidade situa-se no centro em que a teoria é determinada pelo conhecimento preciso da prática e no qual, em contrapartida, a teoria determina com mais rigor sua experiência (PICONEZ, 2015, p. 23).

Percebemos na citação em tela o quão rica é a experiência do estágio supervisionado na esfera das licenciaturas, tendo em vista que permite essa interação com a realidade da comunidade escolar. Carneiro e Silva (2020) entendem que necessitamos de mais estudos na área específica da Filosofia, que haja mais dedicação ao pensar a formação dos professores dessa disciplina e, de modo particular, sobre o estágio supervisionado. Isso decorre do fato, segundo os referidos autores, de que a maioria dos estudos sobre estágio supervisionado se concentra na área de Pedagogia.

O estágio supervisionado constitui-se como lócus em que os licenciandos têm a oportunidade de pensar, de questionar e de refletir sobre as metodologias de ensino de Filosofia. Trata-se do momento de cada licenciando pensar na sua condição de futuro professor dessa disciplina (CARNEIRO; SILVA, 2020). Nesse sentido, afirmam os autores:

É preciso que o estagiário do curso de Filosofia compreenda o seu papel de educador e como tal, um de professor reflexivo, ou seja, aquele que também reflete sobre sua própria prática. Importante se faz o reconhecimento da contribuição da perspectiva da reflexão no exercício do magistério para a valorização da profissão docente, dos saberes dos professores, do trabalho coletivo destes e das escolas, enquanto espaço de formação contínua (CARNEIRO; SILVA, 2020, p. 12).

Assim, entendemos o estágio supervisionado em Filosofia como forma de reflexão sobre a própria prática; constitui-se como consolidação da concepção identitária do futuro professor no exercício da sua atividade como docente. Por ser curricular, o estágio supervisionado é uma atividade obrigatória para todo futuro professor, mas somos convidados a motivar os licenciandos para que o realizem não apenas como uma experiência burocrática, mas como formação para o exercício da docência.

A sala de aula de Filosofia pode ser organizada de tal forma que garanta uma interação entre professor e estudantes para a reflexão filosófica. Nesse contexto, o estágio supervisionado pode possibilitar a experiência filosófica (GABRIEL; PEREIRA; SOUZA, 2017). Após refletirmos sobre a questão do estágio supervisionado em Filosofia, na próxima seção, dissertamos sobre a metodologia da pesquisa.

Metodologia

A pesquisa foi de natureza qualitativa por valorizar mais os procedimentos e as próprias etapas do que os dados matemáticos (BOGDAN; BIKLEN, 1994). O papel do pesquisador ganha uma centralidade na pesquisa qualitativa por ser aquele que interpreta os dados à luz dos referenciais teóricos (BOGDAN; BIKLEN, 1994). Nesse sentido, Esteban (2010) esclarece:

A pesquisa qualitativa é uma atividade sistemática orientada à compreensão em profundidade de fenômenos educativos e sociais, à transformação de práticas e cenários socioeducativos, à tomada de decisões e também ao descobrimento e desenvolvimento de um corpo organizado de conhecimentos (ESTEBAN, 2010, p. 127).

As entrevistas ocorreram no final de 2018, com 20 licenciandos do 3º ano do curso de Filosofia da UENP, realizadas na biblioteca do Centro de Ciências Humanas e Educação. Adotaram-se todos os procedimentos éticos de pesquisa, iniciando-se pela aprovação do Comitê de Ética da UEPG, dando-se sequência com todo o zelo ético em todas as etapas da pesquisa: respeitar o direito dos participantes em não aceitarem ser entrevistados; o zelo pelo sigilo da identidade dos participantes, além de não expor os participantes a riscos desnecessários. Entendemos que esses procedimentos éticos são fundamentais para garantir que os participantes não sejam lesados de alguma forma (BROOKS; TE RIELE; MAGUIRE, 2017).

Os dados foram analisados com auxílio do software Atlas Ti, que permitiu a separação do corpus dos dados em fragmentos, analisados por meio da metodologia da Análise Textual Discursiva. A categorização, realizada com o auxílio do software Atlas Ti, integra os procedimentos de análise qualitativa e consiste em uma das etapas da Análise Textual Discursiva (MORAES; GALIAZZI, 2011). Ressaltamos que as categorias não são estabelecidas de forma automática, mas, sim, fazem parte da atitude da análise do pesquisador diante dos dados qualitativos (MORAES; GALIAZZI, 2011). Vale apontar a definição de Análise Textual Discursiva proposta por seus idealizadores:

A análise textual discursiva corresponde a uma metodologia de análise de dados e informações de natureza qualitativa com a finalidade de produzir novas compreensões sobre os fenômenos e discursos. Insere-se entre os extremos da análise tradicional e a análise de discurso, representando um movimento interpretativo de caráter hemernêutico (MORAES; GALIAZZI, 2011, p. 7).

Como ponto de partida, como já afirmamos, temos a seguinte questão de pesquisa: Qual a percepção dos licenciandos sobre a Filosofia, seu ensino e como entendem a contribuição do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores dessa disciplina? Para respondê-la, ao analisarmos e organizarmos os nossos dados, buscamos identificar as unidades de análise norteando-nos por esses dois eixos principais: Filosofia e seu ensino e contribuição do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores de Filosofia. Embora não tenha sido nossa intenção inicial determiná-los como categorias, pensamos ser pertinente essa organização, após a análise do corpus e da construção das categorias. Optamos, portanto, por destacar esses dois eixos como categorias principais e buscamos identificar as subcategorias que emergiram de cada uma delas, conforme mostra o Quadro 1.

Quadro 1 Organização das categorias e subcategorias 

Categorias Subcategorias
Categoria 1 – Percepções sobre a Filosofia e seu ensino Subcategoria 1a – Concepção de ser bom professor de filosofia
Subcategoria 1b – Aula como experiência filosófica
Categoria 2 – Contribuição do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores de Filosofia Subcategoria 2a – O que representa o estágio supervisionado de Filosofia
Subcategoria 2b – Função do professor que acolhe estagiários
Subcategoria 2c – O que é isto, Filosofia?

Fonte: Elaborado pelos autores.

Resultados e discussões

Conforme destacamos no Quadro 1, a partir da organização e da análise dos dados, identificamos duas categorias com as respectivas subcategorias. A seguir, apresentamos alguns exemplos de fala dos licenciandos como evidência das características de cada uma das categorias.

Categoria 1 – Percepções sobre a Filosofia e seu ensino

A categoria 1 reúne a percepção dos licenciandos sobre Filosofia e seu ensino e foi subdividida em duas subcategorias: Subcategoria 1a – Concepção de ser bom professor de Filosofia; e Subcategoria 1b – Aula como experiência filosófica.

✓ Subcategoria 1a – Concepção de ser bom professor de Filosofia

A subcategoria 1a trata da percepção dos licenciandos sobre concepção de Filosofia, seu ensino e estágio supervisionado, com a concepção de ser bom professor de Filosofia, conforme podemos observar nos exemplos de falas dos licenciandos, que seguem:

Acadêmica 1 – (00:19) Ah, eu acredito que é assim: ter conhecimento dos conceitos, do conteúdo, e, assim, conseguir transmitir para o aluno da maneira mais clara possível, para que ele conheça a forma conceitual, né, o conteúdo que a gente tem que transmitir para eles, mas de uma forma que eles consigam entender, compreender, da melhor forma. (Entrevista concedida em: 1 jan. 2017).

Acadêmico 13 – (00:37) Eu pretendo ser professor de Filosofia. Eu acredito que o bom professor de Filosofia deve trabalhar com os conceitos de Filosofia, não somente com o aspecto histórico da Filosofia, o que acaba acontecendo muitas vezes. Eu percebi isso no meu Estágio. No meu Estágio, eu percebi que os professores trabalham com a Filosofia num âmbito da história da Filosofia, contando a história. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmico 15 – (00:29) Então, professor de Filosofia para mim, como eu já pauto Nietzsche, eu já não penso no professor de Filosofia conteudístico, sabe, que pauta a história da Filosofia e tal. Eu estou ali no Estágio obrigatório, enquanto os alunos estão com o livro didático, que é ralo para caramba, que é tudo mastigado mesmo pra eles... (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmica 18 – (01:16) Eu acho assim que, para ser um bom professor de Filosofia, não basta só ser um professor que mande conceitos, que aplique teorias, mas um professor que gere em você um impacto, em relação à vida, não só com os livros ou com a didática, mas, sim, com a vida. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmica 20 – (00:57) O bom...um bom professor, uma boa professora, na minha visão, seria aquele que trouxesse o interesse do aluno para a Filosofia, que usasse métodos diferenciados para ensinar Filosofia, que pudesse passar ao aluno um modo diferente, não só leituras, leituras e leituras, mas mostrar que a Filosofia...porque os alunos consideram chato ficar estudando no Ensino Médio pelas experiências que eu tive, mas não uma coisa assim maçante, mas uma coisa diferenciada para os alunos. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Como vimos, para a Acadêmica 1, a capacidade didática para explicar os conceitos é fundamental. Já para o Acadêmico 13, a Filosofia vai muito além da história da Filosofia, é uma produção conceitual. Nesse sentido, Gallo (2012, p. 116, grifo do autor) afirma que “[...] um ensino de filosofia que não abra espaço para que os estudantes façam suas próprias experiências, encontrem e experimentem seus próprios problemas não será um ensino ativo que convide ao aprendizado – de fato – da filosofia”. Nessa perspectiva, entendemos que o estágio supervisionado necessita proporcionar ao licenciando exercitar-se na realização de diversas metodologias com o objetivo de privilegiar a aprendizagem dos seus futuros alunos.

Na mesma linha de raciocínio, para o Acadêmico 15, o bom professor é aquele que se distancia do conteudismo. Também para o Acadêmico 18, o bom professor de Filosofia não se constitui apenas como conhecedor de conteúdos, ele deve ser alguém capaz de gerar um impacto na existência do estudante. E, ainda, para a Acadêmica 20, a leitura conteudista, sem nenhuma relação com o cotidiano, leva os alunos ao tédio e à desmotivação. Nesse sentido, entendemos que essas características, criticadas pelos acadêmicos que se opõem ao bom professor de Filosofi, a podem ser entendidas na literatura sobre ensino de Filosofia como “enciclopedismo” e caracteriza-se pelo ensino de Filosofia que não se relaciona com a existência dos estudantes. Nos dizeres de Gallo (2012):

Um ensino de filosofia que se coloque no âmbito de uma transmissão enciclopédica, ou no âmbito de um trato profissional e comercial do conceito, relega ao estudante ao papel de coadjuvante, de receptor da transmissão, sem motivá-lo a fazer ele mesmo o movimento do pensamento (GALLO, 2012, p. 116).

Assim, faz-se necessária uma boa vivência do estágio supervisionado para que o licenciando possa dispor de condições para mediar um ensino de Filosofia no Ensino Médio como experiência filosófica, distanciando-se do mero enciclopedismo. A próxima subcategoria apresenta a aula como experiência filosófica, cujo conteúdo poderá nos ajudar a compreender com mais profundidade a questão da experiência filosófica.

✓ Subcategoria 1b – Aula como experiência filosófica

A subcategoria 1b diz respeito ao entendimento dos acadêmicos de uma aula como experiência filosófica, conforme podemos perceber nos excertos que seguem:

Acadêmica 2 – (14:10) Primeira coisa é o questionamento dos professores. O professor do Ensino Superior chega e fala, ele traz a apostila, ele lê um parágrafo, por exemplo, e pergunta para você, pergunta para o outro, ele instiga você a pensar. Quando alguém faz uma pergunta para você e você não tem a resposta, isso é como se mexesse com alguma coisa dentro da sua cabeça, você quisesse aprender a resposta, você quer descobrir a resposta, então eu acho que a Filosofia faz isso. (Entrevista concedida em 1 jul. 2017).

Acadêmica 3 – (07:42) A gente até fez uma aula no estágio, a gente fez sobre o Mito da Caverna. A gente pegou a teoria, leu um fragmento para eles da obra e depois passamos uma charge do Piteco, que já é bem conhecida até, e, a partir daí a gente começou a trabalhar com eles sobre a manipulação da Mídia; como que o Mito da caverna de Platão, que os homens estavam lá presos, a gente ainda permanece, e a gente foi tentando clarear a ideia deles sobre isso. E eles perceberam; eles próprios depois dessa aula, você podia notar a diferença, porque eles ficaram bem mais críticos. Até o professor deu um trabalho pra eles de como as propagandas nos enganam, e eles pegaram aquelas propagandas e começaram a falar realmente aquilo que é na verdade, não aceitando mais aquilo. Então, acho tem que ter uma metodologia diferente, debate discussão. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmico 4 – (08:41) Eu acho que não. Eu acho que a Filosofia muda o nosso agir mesmo. No momento que você lê determinado filósofo e entende que o que ele tá querendo dizer, você muda seu pensamento sobre sua vida, não acho que é só teoria. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmico 7 – (07:47) Eu tenho comigo que a aula de Filosofia no Ensino Médio precisa, antes de tudo, ser impactante, procurar quebrar os paradigmas que até então esses alunos têm, principalmente porque eles se encontram numa fase de transição de adolescência em que começa, a meu ver, a haver já um enraizamento do que eles pensarão no futuro e isso eles formarão aquilo que eles carregam até então. Acho que precisa haver uma maneira de abrir novos horizontes pra eles e pensar a vida de uma maneira diferente, de uma maneira eminentemente filosófica, ou seja, que não seja permitida a crença numa verdade absoluta, plena e incorruptível. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmica 11 – (06:21) É, na verdade, é assim, sempre estar inovando é difícil, né, mas tem que tentar fugir um pouco só das leituras, acho que o debate principalmente, nossa, contribui demais para as aulas de Filosofia; ajuda a acrescentar ou a gente analisar mais as opiniões da gente, ver se é aquilo mesmo, pesquisar mais. Então eu acho que debate é fundamental assim nas aulas, não só as leituras. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmica 18 – (13:05) Primeiramente, eu acho assim, no Ensino Médio é difícil você prender a atenção do aluno, então trazer algo da sociedade, algo do meio que eles vivem, dentro do conteúdo, pra trazer algo da realidade pra dentro do conteúdo e questionar acerca: “Ah, o que você entende por isso?”. O que eu tenho visto bastante e gera muito resultado em sala de aula, porque eles ficam todos assim querendo saber o porquê daquilo, o porquê daquilo outro. Então, trazer algo da realidade pra eles ajuda nesse processo de reflexão, de pensar. Então, acho que seria isso. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

A Acadêmica 2 destaca o questionamento e o diálogo na aula de Filosofia como pressuposto de um ensino como experiência filosófica. A Acadêmica 3 acena para a importância de uma metodologia diferenciada no ensino de Filosofia, que instigue o pensar. Por sua vez, os dizeres do Acadêmico 4 são exemplificadores do quanto a leitura de um filósofo pode modificar a existência de um estudante de Filosofia, do modo de seu agir. Nessa mesma perspectiva, o Acadêmico 7 entende que as aulas no Ensino Médio devem quebrar paradigmas e dogmatismos.

As visões apresentadas por esses acadêmicos apontam no sentido de a experiência filosófica relacionar-se à compreensão da aula de Filosofia como laboratório conceitual. Gabriel, Pereira e Alves (2020) entendem que o professor de Filosofia só terá condições de mediar uma experiência no Ensino Médio se já na licenciatura ele tiver vivenciado uma experiência filosófica.

Os dizeres das Acadêmicas 11 e 18 caminham no sentido, também, de uma aula como experiência filosófica, na medida em que destacam a relação entre o que é ensinado e o cotidiano. Nesse contexto, na perspectiva de aula como experiência filosófica e como laboratório conceitual, “[...] surge o papel do professor filósofo, não como um especialista profissional de Filosofia, mas como alguém que se coloca no ambiente da prática do filosofar” (GABRIEL; PEREIRA; ALVES, 2020, p. 7). Passamos, então, à segunda categoria e aos dizeres dos entrevistados.

Categoria 2 – Contribuição do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores de Filosofia

A categoria 2 reúne a percepção dos licenciandos sobre as contribuições do estágio supervisionado de Filosofia na formação de futuros professores de Filosofia e organiza-se em três subcategorias: Subcategoria 2a – O que representa o estágio supervisionado de Filosofia; Subcategoria 2b – Função do professor que acolhe estagiários, e Subcategoria 2c – O que é isto, Filosofia?

Passamos a apresentar a subcategoria 2a.

✓ Subcategoria 2a – O que representa o estágio supervisionado de Filosofia

A subcategoria 2a reúne a percepção dos licenciandos sobre o que representa o estágio supervisionado de Filosofia, conforme evidenciam os exemplos de falas dos licenciandos a seguir:

Acadêmica 2 – (06:40) Sim, na verdade, o Estágio Supervisionado ajuda muito. Ele auxilia bastante. Enquanto a gente é aluno do Ensino Médio, a gente tem uma visão sobre aula, sobre o conteúdo; quando você tá lá observando o professor e a sala de aula como futuro professor, é totalmente diferente, você analisa a abordagem do professor, a didática, a metodologia, você analisa os perfis dos alunos, porque, na verdade, o aluno não é só um indivíduo que tá ali para aprender; tem uns que têm mais problemas; você percebe que são mais acanhados; outros com déficit de atenção – é uma questão muito importante na educação. Eu acho que sim, é um conteúdo a ser estudado, e a ser aperfeiçoado, entende? Eu acho que colocar mais recurso no Estágio Supervisionado, a gente não ficar só na observação. Nesse terceiro ano, no meu caso, é só observação; a regência começa no quarto ano. Eu acho que tinha...ah bom...tentando mais a respeito eu acho. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmico 3 – (04:32) É muito importante. Para mim, foi muito importante, principalmente, porque eu nunca trabalhei na área da Educação. Há muitos alunos que fazem estágio, né, na Prefeitura e tal; eu não, então foi meu primeiro contato e, para mim, foi bastante positivo, foi muito importante, porque você passa a enxergar a realidade da escola, porque na teoria é totalmente diferente, mas na prática... (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmico 7 – (02:53) É o primeiro passo, e eu acho que é necessário que, nesse Estágio, nós possamos pegar aquilo que é bom e utilizar, e ver aquilo que é ruim pra tentar fazer diferente. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmico 12 – (03:15) Ah eu acho que o Estágio Supervisionado é necessário, porque...que nem...quando eu ficava na sala de aula, eu ficava como aluno, então nunca fui pra uma sala de aula pra assistir, pra prestar atenção como que o professor faz pra dar aula, porque alguns alunos prestam atenção na aula, mas outros não, e aqueles que não prestam atenção é muito mais difícil ensinar, é difícil você cativar um aluno, você dá...as aulas de Filosofia são poucas, então você conhece muito pouco sobre o aluno, pra você cativar aquele aluno é difícil. Enquanto você está no Estágio, você vê o professor dando aula, você aprende...tipo você chegar no dia “Ah, eu lembro como que aquele professor fez pra cativar determinado aluno”, que era mais ou menos parecido, digamos quando eu estiver dando aula, que é parecido com esse, você aprende alguma coisa; ou até mesmo como ensinar o aluno, passar o conteúdo. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmico 14 – (02:05) Bom, na minha percepção, o Estágio é super importante. Por quê? Porque na Faculdade a gente aprende tudo na teoria, como ensinar, como tratar o aluno problema. Nas didáticas, a gente aprende mais ou menos como dar aula, como encarar determinado problema, sabe, e chega lá na sala é completamente diferente. Lá é um punhado de alunos, cada um com seu objetivo diferente, ninguém é igual a ninguém, é tudo diferente. E essa teoria que você aprende na Faculdade dificilmente você vai conseguir implementar ela, achando que é daquele jeito; então você vai ter de aprender um novo jeito de trabalhar, né. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Os dizeres da Acadêmica 2 apontam para o sentido da contribuição do estágio supervisionado na formação de futuros professores de Filosofia, na medida em que possibilita um novo olhar para a realidade da educação no Ensino Médio, que é o local de atuação dos professores de Filosofia. Ela ressalta, ainda, a necessidade de mudanças para que no 3º ano não se restrinja à observação das aulas apenas e os acadêmicos disponham de atividades de maior interatividade com a turma. Por sua vez, o Acadêmico 3 relatou que o estágio colaborou em seu aprimoramento, porque permitiu um contato com a realidade do Ensino Médio. Já o Acadêmico 7 percebe que o estágio supervisionado deve filtrar os aspectos positivos da prática do professor que acolhe estagiários, uma vez que tal contato permite adequada assimilação de conhecimentos para o futuro professor. Em outra perspectiva, o Acadêmico 12 salienta o estágio supervisionado para consolidar entendimentos didáticos e relacionais com os alunos que contribuirão para o próprio desenvolvimento profissional docente. Por fim, os dizeres do Acadêmico 14 evidenciam uma visão um tanto quanto dicotomizada sobre o estágio supervisionado na relação entre teoria e prática, mas ressalta o estágio supervisionado como exercício da prática e do contato com a realidade que contribuirá para a futura atuação docente.

Gabriel, Pereira e Souza (2017) apontam para a relevância do estágio supervisionado, tendo em vista que investigações acerca da temática abrem espaço para reflexões sobre a formação inicial de professores de Filosofia. Como percebemos nas falas dos acadêmicos, há unanimidade quando se referem à necessidade do estágio supervisionado em sua formação como futuros professores. Gabriel, Pereira e Souza (2017) e Gabriel, Pereira e Alves (2020) entendem que o estágio supervisionado pode ser também um momento de experiência filosófica e de pesquisa sobre a própria prática, para que se forme um professor filósofo que disponha de condições para que a aula de Filosofia se constitua como laboratório conceitual. Para Carneiro e Silva (2020),

[...] concebemos a aproximação do filosofar com a docência, no sentido de que acreditamos no filosofar como acontecimento indeterminado e não no ensino que prevê o acontecido e o resultado da aprendizagem do aluno. Tal afirmação tem sua fundamentação nas palavras de Tardif e Lessard (2007) ao afirmarem a existência de outros fatores que contribuem para essa indeterminação, vinculados à complexidade dos contextos (CARNEIRO: SILVA, 2020, p. 11).

Assim, nesta subcategoria, chancela-se a unanimidade em reconhecer o estágio supervisionado na formação de professores, haja vista os dizeres dos acadêmicos e o endosso da literatura acadêmica referenciada. Passamos, então, para a próxima subcategoria.

✓ Subcategoria 2b – Função do professor que acolhe estagiários

A subcategoria 2b revela as percepções dos licenciandos sobre a função do professor que acolhe estagiários, conforme evidenciam os exemplos de fala dos licenciandos a seguir:

Acadêmica 1 – (09:15) Ah é fundamental, né, porque é como eu disse, se o professor não tivesse me dado espaço, eu jamais teria tido esse contato com os alunos e os próprios alunos não teriam pegado esse gosto que até então não tinha sido despertado neles, né. Então, assim, pra gente que é estagiário, é fundamental eles darem espaço para a gente poder, né.... (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmica 5 – (08:39) Total! Porque, no caso, eu tô tendo uma professora muito boa, que me acolheu super bem, mas se você chegar lá e o professor não querer você na aula dele, já é algo que não estimula você tanto a procurar mais informações, até mesmo a não ser um professor de Filosofia, porque você vai meio que se espelhar nele. Então é essencial o papel dele, como professor. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmica 8 – (06:23) Tudo depende do professor que tá lá. Da vontade do professor, da disponibilidade do professor, do interesse do professor. Como eu disse, depende de quem tá lá... mas, se ele quiser, a coisa flui, flui sim. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

Acadêmico 13 – (09:33) Não sei se o papel do professor que acolhe estagiários... acho que o mais importante do estágio é isso, é o professor te acolher, o professor fazer um convite pra você. Falar assim: “Você quer dar esse tema, quer explicar esse tema?”. Acho que isso é muito importante, porque quebra de dentro de você aquele medo, medo de dar aula, medo de interagir com os alunos, e isso é muito importante. (Entrevista concedida em: 2 jul. 2017).

A Acadêmica 1 considera fundamental o papel do professor que acolhe estagiários, principalmente quando abre espaço para que o estagiário participe da aula não apenas como ouvinte, mas como professor, de modo a possibilitar uma interação entre os estagiários e os alunos. Já a Acadêmica 5, ressalta a acolhida no processo de estágio supervisionado, destacando sua experiência positiva, que muito contribuiu na sua formação. A Acadêmica 8 evidencia que o professor que acolhe estagiários é um instrumento fundamental para o bom êxito do estágio, uma vez que tudo depende de uma atitude cordial a eficiente em relação aos estagiários. Por sua vez, o Acadêmico 13 aponta a grande importância do professor que acolhe estagiários, sobretudo aquele que delega contribuições para os acadêmicos realizarem e, assim, valorizam a presença dos estagiários ao oferecer-lhes a oportunidade de exercitar a prática em sala de aula.

Pimenta (2012, p. 137) defende que “[...] o estágio é um componente do currículo que não se configura como uma disciplina, mas como atividade”. Trata-se, na visão da autora, de uma atividade que insere os acadêmicos no campo da futura atuação como professor. Nesse contexto, evidencia-se a significância do papel do professor que acolhe estagiários e que lhes oferece uma visão integral entre teoria e prática. Esse é um professor que pode ser entendido como um formador, tanto quanto os professores da universidade. Os dizeres dos acadêmicos endossam essa afirmação, na medida em que, considerando a acolhida e o acompanhamento do estágio supervisionado pelo professor regente nos colégios, sentem-se inseridos como participantes ativos no processo de formação das futuras gerações de professores.

Nesse contexto, Oliveira (2011) destaca a parceria entre a universidade e a escola no processo do estágio supervisionado, considerando que, quanto mais próximas ambas as instituições se encontrarem, mais propícias as condições de atuação como um espaço formativo profícuo para os formandos. E, nessa parceria, parece-nos ser fundamental a interação entre o professor da prática de ensino e o professor que acolhe estagiários. Seria desejável um contato constante na medida do possível, para que o professor de prática de ensino estivesse inteirado da realidade dos colégios para os quais estão sendo enviados os estagiários e, assim, pudessem orientar as atitudes dos estagiários com base na realidade das diversas situações concretas dos colégios que os acolhem. Passemos à subcategoria 2c, em busca de refletir sobre o que é Filosofia.

✓ Subcategoria 2c – O que é isto, filosofia?

A subcategoria 2c reúne a percepção dos licenciandos sobre o que é Filosofia, conforme evidenciam os exemplos das falas dos licenciandos que seguem:

Acadêmica 2 – (00:18) Olha, eu acho que a Filosofia é uma arte e uma ciência que busca conhecer tudo, a respeito do homem, como indivíduo, como ser perante o mundo, né, na sociedade; e todo o restante e tudo que está em volta dele, que ele pode ver, sentir e, até mesmo, que ele pode não ver, como no caso da metafísica, que é o estudo da metafísica. Eu acredito, como já vi Filosofia no Ensino Médio, ela não seja abordada da maneira correta no Ensino Médio, pelo menos não foi pra mim. Eu acho que o estudante passa a conhecer realmente a Filosofia no Ensino Superior, que foi o que aconteceu comigo. Eu gostava porque eu tinha uma professora, né, boa; e eu lia também a respeito, mas eu acho que a verdadeira Filosofia é a partir do Ensino Superior. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmica 3 – (00:16) Filosofia é uma disciplina que faz você se despertar, se conhecer novamente. Ela particularmente me mudou bastante, me fez ver o mundo de uma forma bem diferente. Acho que é isso, ela tem uma função de despertar. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmico 6 – (00:11) Então, pra mim, a Filosofia tem um caráter emancipador do pensamento. Ela te dá possibilidades através do estudo enciclopédico dos livros, você conseguir uma autonomia na forma de pensar, entende? Só que essa autonomia não necessariamente significa que você vai pensar tudo e da forma que você bem entender, senão você acabaria caindo no senso comum, num pensamento simplista. Ao contrário, ela te dá uma autonomia, só que uma autonomia onde você consegue pensar sobre diversos tipos de assunto de forma bem lógica e estruturada, com argumentação lógica e, me fugiu a palavra... mas, enfim, ela te dá esse caráter emancipatório, sabe. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmica 8 – (00:12) Filosofia, eu entendo que a Filosofia é um ramo do saber analítico, tal como as Ciências Naturais, as Ciências Sociais, a Matemática e a Semiótica. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

Acadêmica 9 – (00:42) Eu acho que a Filosofia, como muita gente pensa, né, primeiramente, acho que é só pensar, mas pensar todo mundo é capaz de fazer isso. Se fosse realmente só pensar, acho que não seria necessário ter um curso de Filosofia, não existiria isso. Então eu acho que é muito mais do que pensar. Pensar sem um método, sem um embasamento, conceitos. Apesar de que os conceitos são criações também. Pensar sem isso, pra mim, acho que é um completo devaneio, sem ter um contexto geral sobre o que se pensa, sobre como se pensa, porque, ao longo da história, existem vários métodos de se pensar sobre o mesmo assunto. Então, pra mim, não é só pensar. Muita gente acredita que é. Acho que é mais uma reflexão sobre tudo que nós mesmos construímos, que é justamente o foco da Filosofia contemporânea; é pensar sobre tudo o que já foi construído, de que maneira isso foi traçando esses caminhos pra chegar no que a gente é hoje. Acho que mais ou menos isso. (Entrevista concedida em: 1 jul. 2017).

A Acadêmica 2 relata uma triste afirmação de que considera que o conhecimento do que é filosofia só pode acontecer realmente na realidade do Ensino Superior. Um professor que tenha vivenciado uma experiência filosófica na sua licenciatura dispõe de condições para mediar um conhecimento sobre o que é Filosofia no contexto do Ensino Médio. Já a Acadêmica 3 ressalta que Filosofia é uma disciplina que provoca um despertar. Nesse sentido, Filosofia seria como uma forma de se admirar o mundo, uma atitude questionadora diante da existência em busca de dar sentido à vida. Em outra perspectiva, o Acadêmico 6 entende Filosofia como propiciadora de uma emancipação. A tarefa da Filosofia seria emancipar, possibilitando uma autonomia do pensamento. Os dizeres do Acadêmico 6 remetem aos ideais do Iluminismo, principalmente na perspectiva kantiana, do sair da menoridade. Já a Acadêmica 8 entende Filosofia como um ramo do saber analítico e, nesse sentido, seria uma ciência como a Matemática e a Semiótica. Por sua vez, para a Acadêmica 9, a Filosofia seria um pensar, mas não de qualquer forma, um pensar partindo de argumentos devidamente justificados e bem articulados do ponto de vista lógico.

Tais entendimentos sobre o que é Filosofia parecem dialogar com o pensamento deleuziano da Filosofia como criação de conceitos (DELEUZE; GUATTARI, 2010). Na compreensão dos autores, a Filosofia não seria nem comunicação, nem reflexão, nem contemplação, mas, sim, criação de conceitos. Criar conceitos sempre novos seria o objeto de atividade da Filosofia. A compreensão de Deleuze e Guattari (2010) dialoga com as perspectivas apresentadas pelos licenciandos no sentido de uma Filosofia provocadora do pensamento, que instaura o plano de imanência e provoca o surgimento de novos conceitos. A partir dessa interpretação deleuziana, Gallo (2012) entende a aula de Filosofia como oficina de conceitos. Nos dizeres do autor:

A aula de filosofia, penso, precisa ser vista como uma “oficina de conceitos”. Não é uma sala de museu, conforme já disse antes, na qual se contemplam conceitos criados há muito tempo e que são vistos como meras curiosidades, mas como um local de trabalho onde os conceitos sejam ferramentas manipuláveis, como um laboratório onde se façam experiências e experimentações com os conceitos (GALLO, 2012, p. 57, grifos do autor).

Assim, entre os licenciandos, prevalece um entendimento de Filosofia como um despertar para um sentido mais profundo da existência e um caminho para a autonomia do pensamento. Nesse entendimento, percebemos a relevância dessa disciplina na formação das futuras gerações e o quão prejudicial se revela a atual conjuntura em que percebemos, em alguns estados brasileiros, a redução da carga horária de Filosofia, de Sociologia e de Artes.

Considerações finais

As entrevistas com os licenciandos evidenciaram uma compreensão de que esses estagiários entendem o estágio supervisionado como central na sua formação. Os dizeres das entrevistas apontam a compreensão do estágio supervisionado como o momento peculiar de uma experiência que possibilita uma interação entre a universidade e o campo da futura atuação dos licenciandos. Nesse sentido, o estágio supervisionado não é uma disciplina, mas uma atividade formativa (PIMENTA, 2012) e todos os envolvidos no processo de estágio devem ser considerados. Merece atenção especial o professor que acolhe os estagiários que, em nossas reflexões, consideramos como agente formador, porque participa ativamente do processo de formação dos futuros professores. Endossa nossa hipótese o fato de que os próprios licenciandos apontaram, em seus dizeres, o quanto consideram importante a presença, a acolhida e a delegação de contribuições aos estagiários.

O conceito do que seria a Filosofia é evocado pelos licenciandos como o modo de despertar para a reflexão e para a autonomia. Nessa perspectiva, apontamos, em nosso referencial teórico, a questão de uma compreensão da aula de Filosofia como laboratório conceitual e de criação de conceitos. Se na licenciatura o licenciando não vivenciar uma experiência filosófica, ele terá dificuldades em mediar uma experiência filosófica entre seus futuros alunos do Ensino Médio.

Por fim, são necessários estudos específicos sobre o estágio supervisionado em Filosofia, suas peculiaridades, bem como superar o desafio da dicotomia entre teoria e prática e entender o processo formativo dos licenciandos como um todo e não de maneira fragmentada.

Nota

1O primeiro autor deste artigo agradece a bolsa de Doutorado e recebida da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação Araucária. A segunda autora agradece a Fundação Araucária pela bolsa de produtividade em pesquisa. Artigo derivado de tese: GABRIEL, F. A. Estágio Curricular Supervisionado em Filosofia: análises a partir das percepções de licenciandos e de professores. 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2019.

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Recebido: 18 de Março de 2022; Aceito: 10 de Janeiro de 2023

Fábio Antonio Gabriel: Doutor em Educação (2019) e Mestre em Educação (2015) pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Desenvolveu estágio-doutoral em Educação também pela UEPG (2020-2021). Professor da Rede Estadual de Paraná da disciplina de Filosofia (SEED PR – NRE de Jacarezinho - Colégio Estadual Rio Branco). Professor contratado do Centro de Letras, Comunicação e Artes do campus Jacarezinho da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), atuando na área de Fundamentos e Teorias da Educação. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4990-4102 E-mail: fabioantoniogabriel@gmail.com

Ana Lúcia Pereira: Doutora em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Professora Adjunta no Departamento de Matemática e Estatística e nos Programas de Pós-Graduação em Educação e em Ensino de Ciências e Educação Matemática na UEPG. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0970-260X E-mail: anabaccon@uepg.br

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