Introdução
As crianças, que por muito tempo foram negligenciadas pela sociedade, agora são destacadas pelos pesquisadores da infância como produtoras de culturas e protagonistas de suas práticas, constituindo assim as diversas infâncias. Apresentamos um recorte de uma pesquisa qualitativa, etnográfica com crianças e narrativa, tendo este artigo como tema as infâncias e as brincadeiras de faz de conta. Essas infâncias, muitas vezes invisibilizadas pela sociedade, através de pesquisas da área da sociologia da infância e da pedagogia, vêm sendo valorizadas, e, brincadeiras que são percebidas como meio propulsor do protagonismo infantil.
A concepção de criança presente na pesquisa compreende-a como “[...] um ser social, enraizado num tempo e num espaço que tem, portanto, uma história, uma geografia [...]” (Beltrame, 2021, p. 68): crianças que, durante o brincar de faz de conta, interpretam a realidade em que vivenciam e constroem conceitos e culturas. As diversas linguagens que elas utilizam durante as suas vivências e brincadeiras, ao serem ouvidas pelos adultos, possibilitam compreender as construções e reproduções interpretativas que elas realizam.
Ao refletirem sobre a linguagem das crianças e o brincar de faz de conta, Marchi e Evangelista afirmam que
A linguagem é uma das bases das culturas infantis devido ao desenvolvimento e à aquisição dos códigos simbólicos (interpretados e reproduzidos criativamente), sendo no espaço doméstico e na escola que as crianças primordialmente as desenvolvem, através do faz de conta, ou jogo sócio dramático, que corresponde à releitura interpretativa de episódios das rotinas culturais (Marchi; Evangelista, 2023, p. 12).
Considerando que “[...] a partir da interação social, da qual a linguagem é a expressão, é que a criança constrói sua própria individualidade” (Salva e Beltrame, 2022, p. 154), elaboramos discussões acerca de dados empíricos e referenciais teóricos, tendo como objetivo enfatizar o brincar de faz de conta como propulsor do protagonismo infantil, refletindo sobre as interações realizadas pelas crianças de uma turma de Pré-escola B de uma escola pública e seus pares. Acreditamos, portanto, “[...] que é nas diferentes relações do mundo à sua volta que a criança se constrói como ser social, histórico e cultural” (Salva, Beltrame, 2022, p. 156).
Neste artigo o primeiro ponto de reflexão busca trazer à visibilidade a pesquisa com crianças, que, embora tenha crescido nos últimos anos no Brasil, ainda é um tema que tem muitos aspectos que precisam ser pensados. Escutar as crianças ainda é um exercício necessário que exige talvez uma mudança de paradigma.
Não faz sentido a pesquisa com crianças se o paradigma segue sendo aquele em que o que os adultos fazem e dizem é mais valorizado do que aquilo que as crianças fazem e dizem. Nesse sentido, olhar, escutar e estar atento, ainda que seja fundamental, não é suficiente se não formos capazes de levar a sério a perspectiva das crianças (Salva, 2024, p. 100).
Por essa razão, dedica-se parte do artigo e pensar à metodologia da pesquisa com crianças.
Seguimos com detalhamento acerca da metodologia desenvolvida no contexto da investigação. O próximo item relata e analisa os episódios de interações e brincadeiras das crianças e por fim as considerações finais.
A pesquisa com crianças e suas possibilidades
O envolvimento das crianças nas pesquisas tem início na área da psicologia do desenvolvimento, quando os pesquisadores tomavam as crianças como objetos de pesquisa. Na década de 1970, Hardman (1974) propôs a Antropologia das Crianças, em que as informantes do mundo social das crianças fossem as próprias crianças, estudadas por direitos próprios e não como futuros adultos (James, 2019). Por volta de 1980 são alavancados ainda os estudos da infância a partir do olhar do historiador Philippe Ariès e, a partir de então, os estudos da Sociologia da Infância (Corsaro, 2005; 2011) e a Pedagogia da Infância (Faria, 2011; Faria; Prado, 2005).
Com os avanços nos estudos das infâncias e das crianças, vão surgindo novas concepções de crianças, que necessitam ser valorizadas. A sociologia da infância,
Ao reconhecer e visibilizar as vozes das crianças, faz surgir novos conceitos e abordagens metodológicas que passam a ser realizadas com crianças (com a sua participação plena ou indireta) e não mais somente sobre elas. Os estudos passam a levar em conta a capacidade de ação das crianças (Marchi; Evangelista. 2023, p. 5).
Brostolin, ao iniciar a apresentação de seus estudos, afirma que
A interlocução que a Sociologia da Infância tem mobilizado com outras áreas de estudo tem sido fundamental para compreender a infância vivida pelas crianças a partir delas mesmas, como única condição para dar conta das complexidades que se revelam em seus mundos de vida na contemporaneidade. (Brostolin, 2023, p. 2).
Construindo reflexões, Corsaro (2011, p. 16) destaca que “As crianças são agentes ativos que constroem suas próprias culturas e contribuem para a produção do mundo adulto; e a infância é uma forma estrutural ou parte da sociedade.” Podemos encontrar ainda, estudos mais recentes que vem de encontro à compreensão de crianças aqui defendida, destacando que “[...] as crianças possuem características próprias à sua etapa de desenvolvimento, o que não as torna menos competentes e ou incapazes enquanto atores sociais, mas as configuram um grupo singular e, ao mesmo, tempo plural”. (Brostolin, 2023, p. 8).
Esta nova perspectiva coloca a criança como representante individual de uma categoria geracional e habitante do espaço, entendida como ator social competente, razão que a torna contribuinte legítima e participante das pesquisas: Infância, o espaço social ou espaço estrutural da sociedade (Qvortrup, 2005). Porém as maneiras com as quais as crianças ocupam os espaços sociais são diversas, razão pela qual é preciso entender a infância no plural, conceito que nos ajuda a compreender modos diversos do viver das crianças (James, 2019).
As novas concepções de crianças e infâncias sugerem, portanto, a pesquisa com crianças, as crianças enquanto sujeitos participantes da pesquisa e a visibilidade da infância em sua pluralidade. Caímos, enquanto pesquisadores, no equívoco de utilizar o termo dar voz às crianças para referenciar a necessidade de visibilizá-las. James nos leva a refletir quando afirma que
Dar voz às crianças não é simplesmente ou apenas deixar as crianças falarem; trata-se de explorar a contribuição única que as perspectivas das crianças podem proporcionar à nossa compreensão e teorização acerca do mundo social (James, 2019, p. 221).
Afinal, as crianças possuem sua própria voz e seu direito de fala, o que precisamos, enquanto pesquisadores e adultos que convivem diariamente com crianças, é exercitar a escuta atenta, sensível, o que “envolve o cuidado, a atenção e não apenas ouvir no sentido sensorial” (Brostolin, 2023, p. 8), ou seja, escutar as crianças e tudo o que as suas várias formas de linguagem tem a nos dizer. Corsaro (2011, p. 40) mais uma vez nos faz refletir quando destaca que “Precisamos considerar as crianças como parte de um grupo social que tem um lugar na estrutura social mais ampla.” E quem melhor do que as próprias crianças para falar sobre a cultura delas, sobre a infância? A pesquisa com crianças se faz então cada vez mais urgente e necessária.
Enquanto participam da sociedade, as crianças também a interpretam e recriam. Corsaro (2011) apresenta a reprodução interpretativa, termo que carrega consigo a ideia de que as crianças contribuem para a produção das culturas, não apenas internalizando o mundo que as cerca mas também o recriando de forma inovadora e criativa. Segundo o autor
A reprodução interpretativa encara a integração das crianças em suas culturas como reprodutiva, em vez de linear. [...] As crianças não se limitam a imitar ou internalizar o mundo em torno delas. Elas se esforçam para interpretar ou dar sentido a sua cultura e a participarem dela. Na tentativa de atribuir sentido ao mundo adulto, as crianças passam a produzir coletivamente seus próprios mundos e culturas de pares (Corsaro, 2011, p. 36).
Visibilizar as infâncias e as crianças e escutá-las nas pesquisas se faz, portanto, urgente. Porém como selecionar cenas, palavras e frases que apresentem o ponto de vista das crianças e não o do adulto/pesquisador? Qvortrup (2005) assinala a preocupação em a infância assumir o papel de uma categoria dominada pelo mundo dos adultos. Ao realizarem a pesquisa, os informantes são os adultos, os quais selecionam as falas das crianças e as cenas a serem apresentadas durante a pesquisa. Hendrick (2005) apresenta a problematização a respeito do adultismo quando destaca que a maioria dos documentos que falam sobre as crianças foram e são escritos por adultos. Além disso, o autor discute a necessidade de dar autoria as vozes das crianças, permitindo que elas questionem a opinião dos adultos, especialmente em se tratando de assuntos pertinentes às infâncias. Segundo o autor
As crianças estão em desvantagem inerente quando falam conosco e tentam apresentar-se como actores conscientes de si mesmas. Só quando a mentalidade do adultismo for superada, será possível ouvir um conjunto mais autêntico e, provavelmente, mais inquietante das vozes – porque haverá certamente muitas ocasiões em que as crianças contestam e contradizem as nossas visões (Hendrick, 2005, p. 48).
Há diferentes possibilidades metodológicas para a pesquisa com crianças, através das quais se busca a valorização das crianças, das infâncias e das culturas que elas constroem na sociedade. Buscamos apresentar um recorte da pesquisa qualitativa de perspectiva etnográfica com crianças e narrativa, que contou com a participação de vinte crianças de uma turma de Pré-escola B de uma escola pública, enfatizando o brincar de faz de conta como propulsor do protagonismo infantil. A seguir apresentamos a metodologia da pesquisa realizada e a contribuição das crianças escolhida para a construção deste artigo.
Metodologia
A pesquisa qualitativa etnográfica com crianças e narrativa foi realizada em uma escola da educação infantil pública. Foram convidadas a participar da pesquisa vinte crianças de uma turma de Pré-escola B, uma vez que contava com apenas duas pessoas adultas, e a relação de convivência entre as crianças e a pesquisadora se dava há alguns anos. Entende-se a necessidade de distanciamento para realizar uma pesquisa, no entanto, no caso da pesquisa realizada e que origina este artigo, a própria metodologia exigia proximidade para a produção de dados empíricos e o distanciamento pode ser construído a partir de interpretação e análise de dados. É, portanto, um exercício constante de aproximação e de distanciamento, exigindo vigilância contínua do pesquisador.
Realizar a pesquisa com crianças, exige considerar os sujeitos e os direitos sociais que lhe cabem. Brostolin reforça que,
A Sociologia da Infância, ao assumir que as crianças são atores sociais plenos, competentes na formulação de interpretações sobre os seus mundos de vida e reveladoras das realidades sociais em que se inserem, considera as metodologias participativas com crianças como um recurso metodológico importante, no sentido de atribuir aos mais jovens o estatuto de sujeitos de conhecimento e não de simples objeto, instituindo formas colaborativas de construção do conhecimento nas ciências sociais que se articulam com modos de produção do saber empenhadas na transformação social e na extensão dos direitos sociais. (Brostolin, 2023, p. 3)
Realizar pesquisa com crianças envolve, como discutido anteriormente, assumi-las enquanto sujeitos ativos, participativos e protagonistas. Por ser uma metodologia em que o pesquisador se insere no campo de pesquisa por mais tempo e convive com os sujeitos, a etnografia se fez bastante interessante para a pesquisa com crianças desenvolvida pela pesquisadora, uma vez que já havia vínculo entre ela e as crianças, e o tempo de permanência e relações permitiu. Jenks (2005) defende que, apesar de a etnografia não ser um método de seu interesse, ele é bastante adequado à pesquisa com crianças, uma vez que “É permitido as crianças tomarem parte” da pesquisa. Segundo Corsaro,
Entre as principais vantagens da etnografia, estão: 1) seu poder descritivo; 2) sua capacidade de incorporar a forma, a função e o contexto do comportamento de grupos sociais específicos aos dados; 3) sua captura de dados (em notas de campo e/ou por meio de gravação em áudio ou vídeo) para a análise apurada repetida (Corsaro, 2009, pp. 83-84).
A etnografia possibilitou à pesquisadora fazer uso de diversos métodos para construção de dados, como o diário de campo, o qual contemplou registros da pesquisadora e poderia contemplar registros das próprias crianças; a fotografia e filmagem, que possibilitaram a captura das diversas formas de linguagem das crianças; e conversas informais, nas quais foi relevante solicitar o auxílio das crianças para que, enquanto pesquisadora adulta, pudesse compreender suas interpretações.
O diário de campo foi organizado em duas faces, sendo que na primeira foram realizados os registros durante o convívio com as crianças e a segunda foi utilizada para a realização de reflexões e conexões com conceitos elaborados anteriormente por autores. Podemos então afirmar que a pesquisa se deu de maneira empírica, uma vez que algumas das categorias de análise foram construídas no decorrer da pesquisa a partir das expressões das crianças.
Colombo (2016) destaca a importância da realização da reflexividade, especialmente durante a pesquisa com crianças, uma vez que ela é vista pelo autor como uma forma de interrogar-se sobre as próprias ações e sobre os métodos utilizados na pesquisa para compreender a realidade e para inserir-se nela. Segundo o autor “[...] um trabalho constante de autorreflexão e análise permite ao autor apresentar-se como capaz de ir além das aparências, não para recontar a si mesmo, mas para destacar o que a maioria dos seus leitores não querem, ou não são capazes de ver”. (Colombo, 2016, p. 18).
Christensen e James (2005, p. XVII) defendem ainda que “A reflexividade é não somente comum ao discurso e à prática dos investigadores, mas também uma estância adoptada pelas crianças que participam na investigação.” Faz-se pertinente destacar o que as crianças pensam sobre a importância da presença e participação da pesquisadora em seu dia a dia, realizando as suas interpretações sobre o papel da adulta no cotidiano, que não é professora.
A pesquisadora conviveu com as crianças da turma por vezes algumas horas, por vezes o turno todo, num período aproximado de três meses, iniciando as inserções no mês de outubro e permanecendo com a turma até o último dia letivo, no mês de dezembro. Durante esse período, as crianças passaram por um processo de aceitação da pesquisadora enquanto tal, uma vez que já era parte da equipe gestora da escola. Houve também um processo de ressignificação do papel da então pesquisadora, uma vez que atuava como coordenadora pedagógica na escola em que a pesquisa foi realizada, porém fez-se necessário mudar de papel e ampliar o olhar nos momentos em que estava buscando compreender as infâncias e as crianças.
A pesquisadora se tornava, como afirma Corsaro (2011), uma adulta atípica, já que deixava de cumprir o seu papel perante a escola como coordenadora, em alguns momentos não sendo vista pelas crianças como professora nem criança. Percebe-se a aceitação das crianças, especialmente quando convidam a pesquisadora a participar de suas brincadeiras, ou quando explicam as brincadeiras de modo que ela possa compreender as construções realizadas.
Pesquisar exige compromisso ético e relação de confiança, principalmente em pesquisas com crianças. A ética na pesquisa parte da área da saúde, porém atualmente as pesquisas sociais também têm elaborado seus próprios documentos de assentimento de participação na pesquisa. Desta forma, após autorizações da mantenedora e da escola, foram realizados termos de aceite de participação na pesquisa com as crianças.
As crianças durante muito tempo foram, e podemos considerar que talvez ainda sejam, negligenciadas nas pesquisas. Suas vontades nem sempre são respeitadas, uma vez que se considera a necessidade de um(a) maior de idade responsável por essa criança. Considerando as concepções de criança apresentadas e defendidas acima, compreende-se que havia a necessidade de as crianças decidirem se desejavam participar da pesquisa. Para tal foi realizada uma roda de conversa com elas, na qual elas compreenderam o que estaria acontecendo nos meses seguintes e, por meio de representações e símbolos, optaram por participar ou não da pesquisa. Depois o documento foi encaminhado aos/às responsáveis.
Além dos documentos escritos, houve outras formas de identificar e compreender o interesse ou não das crianças na pesquisa, principalmente em se tratando de crianças bem pequenas (Corsaro, 2011). Devemos considerar que as crianças fazem uso de várias linguagens para se expressar. O afastamento, silenciamento ou constrangimento apresentado pelo sujeito pode ser uma forma de demonstrar o não interesse na participação na pesquisa.
Barbosa (2014, p. 241, grifo do autor) defende que “[...] uma investigação com crianças somente se justifica se aporta algo importante (e bom) PARA as crianças, se melhora a qualidade de suas vidas, se abre novos espaços para ser e viver”. Nessa perspectiva, a pesquisa traz as crianças como protagonistas, sendo apresentado a seguir um dos episódios vividos com elas, o qual irá possibilitar as discussões pertinentes às infâncias.
A construção dos dados e suas análises se deu encruzilhando caminhos sob a luz da reflexividade e da pesquisa narrativa de forma interpretativa. Corrêa (2018) constrói, durante sua pesquisa, o encruzilhar de caminhos, compreendendo a função da pesquisadora perante o grupo com o qual a pesquisa é construída,
Como parte do grupo que percorre o caminho, coube ser, mais que escriba destas narrativas e experiências, alguém que as pensa, analisa-as, interpreta-as, mas não sob uma ótica de ‘verdades ou certezas’. A interpretação será fundamentada no vivido, nas experiências formativas, encruzilhando caminhos que se entrecruzam, entrelaçam-se, tornam-se encruzilhadas que trazem e levam para novos, iguais ou diferentes caminhos (Corrêa, 2018, p. 69).
Encruzilhando caminhos, portanto, refletimos e dialogamos com os registros do diário de campo, fotografias, vídeos, falas das crianças e aportes de autores de modo a construir a pesquisa. Em seguida apresentamos um recorte da pesquisa, visando enfatizar o brincar de faz de conta como propulsor do protagonismo infantil.
“Não é pra entrar ainda, a gente tá limpando cara!”
As crianças são integradoras de grupos sociais e, através das interações e brincadeiras, interpretam a realidade na qual estão inseridas e protagonizam a sua história, produzindo assim suas próprias culturas. Optamos assim em contemplar os momentos de brincadeiras das crianças de modo a ressaltar a relevância delas para o desenvolvimento e produção de cultura das infâncias e por perceber, no decorrer da pesquisa, que as brincadeiras são propulsoras do protagonismo infantil.
Na escola em que a pesquisa foi realizada, é possível perceber que as crianças e as infâncias são valorizadas, não buscando a antecipação das etapas subsequentes à Educação Infantil e buscando estar em consonância com o disposto na Base Nacional Comum Curricular quando fica definida a indissociabilidade entre cuidar e educar na Educação Infantil:
A concepção que vincula educar e cuidar, entendendo o cuidado como algo indissociável do processo educativo. Nesse contexto, as creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à educação familiar – especialmente quando se trata da educação dos bebês e das crianças bem pequenas, que envolve aprendizagens muito próximas aos dois contextos (familiar e escolar), como a socialização, a autonomia e a comunicação (Brasil, 2017, p. 36).
Os espaços externos são constantemente explorados pelas crianças nos contextos de educação das infâncias. Estávamos em um dos espaços externos da escola, uma das pracinhas. Porém as crianças pediam para a professora para jogar bola devendo, para tal, ir a outro espaço, o que é mais amplo e tem menos brinquedos fixos. A professora concorda com a troca e, juntamente com as crianças, vamos à pracinha superior. Esse espaço conta com uma área de areia fofa, a qual tem alguns brinquedos que podem ser movimentados pelas crianças; uma área superior de concreto a que é comumente denominada palco; e uma casinha de alvenaria com alguns móveis de madeira em seu interior – mesa com cadeiras e balcão com pia – e alguns instrumentos de cozinha em plástico. Um espaço que foi construído e planejado para ampliar as possibilidades de exploração a serem realizadas pelas crianças.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2009) evidenciam a relevância das interações e brincadeiras como eixos estruturantes para as práticas educativas na Educação Infantil, destacando a criança enquanto construtora de seu processo educativo, apresentando-a enquanto
Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura (Brasil, 2010, p. 12).
Ao chegar na área superior, Maurício pergunta à professora se pode buscar uma vassoura. Ela autoriza, mesmo sem saber o que a criança deseja com a vassoura. Ele vai até a área de serviço e solicita uma vassoura para as colaboradoras da escola. Quando volta, começa a limpar a casinha que é utilizada pelas crianças e percebe a necessidade de uma pá para juntar a sujeira. Retorna até a área de serviço, solicitando agora a pá. Ao voltar à área externa inicia o processo de limpeza:
- A gente tá limpando a casinha, tá uma bagunça! - diz Maurício.
Manoel entra na casinha e imediatamente Murilo o repreende:
- Não é pra entrar ainda, a gente tá limpando cara!
- Essa casinha tá uma sujeira, nós não entramos na casinha, mas tá uma sujeira – ressalta Maurício
Maurício pega a vassoura da mão de Murilo
- Deixa que eu varro, tu não consegue.
Murilo então observa em volta e tem a ideia de pegar uma carretinha de madeira para carregar a areia retirada da casinha. Com a voz grossa ele diz:
- Enche aqui, bota aqui que eu vou descarregar.
Maurício carrega e Murilo descarrega a areia. Mais alguns meninos se aproximam e sentam-se. Maurício os vê sentados e afirma:
- Vamos pro serviço meus filhos!
Mas a professora acaba chamando as crianças para entrar, pois é hora de ir para casa. Murilo pede autorização a Maurício para guardar a vassoura e Maurício o autoriza:
- Vai lá meu filho!
Enquanto isso, Manoel faz uma pilha com as cadeiras, chama a atenção das crianças e afirma:
- Olha, eu fiz um prédio!
Os meninos então organizam a casinha, colocam os móveis de volta em seus lugares e ao sair Maurício constata:
- Só falta fechar a janela!
Murilo, por sua vez, chama a atenção do amigo:
- E a porta! Olha, não tem mais o fecho da porta!
- Ah, deixa assim… - afirma Maurício, e as crianças vão à sala de referência.
Diário de Campo, 2023.
Durante as observações realizadas com a turma e o período de convivência, muitas brincadeiras chamaram a atenção da pesquisadora, bem como foi possível perceber que nas brincadeiras as crianças possuem liberdade para protagonizar suas práticas. Beltrame (2021, p. 92), em sua pesquisa, apresenta o brincar como “[...] reflexo das relações sociais, ou seja, a criança aprende a brincar observando e interagindo com o mundo a sua volta [...]”, assim concordando com Corsaro (2011), quando defendem que, através do brincar, as crianças realizam a reprodução interpretativa da realidade, ou seja, não apenas reproduzem a realidade à qual pertencem mas também a interpretam.
Salva e Beltrame (2022, p. 152) compreendem “[...] o brincar de faz de conta como um momento de grande interação e formação das crianças, através da relação de aprendizagem e de desenvolvimento que o mesmo proporciona, quando elas estão brincando [...]”, sendo, portanto, “[...] na interação, no seu dia a dia que a criança desenvolve seus valores, seu modo de perceber o mundo, assumindo posturas diante do mundo, construindo conhecimentos sobre o mundo e sobre si” (Sueli; Beltrame, 2021, p. 154).
Maurício e Murilo certamente acompanham os seus responsáveis no desenvolvimento das atividades rotineiras e de organização em suas casas e, ao pensar em iniciar a brincadeira na casinha, se deparam com a desorganização que os incomoda. Podemos pensar que as crianças não estavam brincando na cena acima, porém, ao analisarmos os personagens interpretados, os instrumentos utilizados e a organização, percebemos que, sim, estão brincando e realizando várias interpretações.
Murilo tem a ideia de buscar uma vassoura, porém ele possui pouca habilidade para varrer o chão, tornando assim Maurício o protagonista, sendo possível perceber que ele passa a proteger o espaço interativo (Corsaro, 2011), garantindo que os demais meninos que buscam entrar na brincadeira não ocupem o seu espaço. Essa troca de papéis fica evidente quando Maurício chama as demais crianças de “meus filhos”, dando a eles papéis diferentes do seu e inferiores, ou seja, deixando explícito que ele estava no comando. Segundo Salva e Beltrame,
Para a construção do brincar é necessário que a criança assuma um papel qualquer, que ela protagonize, e que não seja ela. Sem isso não existe brincadeira de faz de conta. Assim que aparece o papel, aparece o brincar de faz de conta, e este não consiste apenas na interpretação do papel do adulto, mas também de outra criança (Salva; Beltrame, 2022, p. 92).
Outro momento em que a mudança de papéis fica evidenciada é quando Murilo busca a carretinha para carregar a areia que havia sido retirada de dentro da casinha e muda a sua voz, deixando de interpretar um dos filhos para interpretar então o motorista que estava carregando a areia.
Ao brincar de papéis, a criança não somente dá sentido às suas ações físicas, como também redescobre o significado cultural da infância e do ser criança. Trata-se de uma atividade humana de construção social e conjunta de sentido que requer cumplicidade e cooperação – inclusive, para a existência da própria infância (Beltrame, 2021, p. 94).
A criança, ao interpretar papéis, produz também as suas interpretações do meio e das relações sociais, produzindo assim as culturas das infâncias.
Os cenários, as temáticas, os conteúdos, os personagens protagonizados pelas crianças nas brincadeiras de faz de conta são os que estão mais próximos a elas, a sua realidade, as suas vivências. Retrata o que vê, ouve, sente em seu dia a dia (Beltrame, 2021, p. 137).
Fica evidenciada, portanto, a importância das brincadeiras como promotoras do protagonismo infantil em espaços diversos. Percebe-se nas escolas um esvaziamento do brincar, sendo esses momentos aproveitados pelos adultos para a realização de outras demandas que não estar e ouvir as crianças. Também se tem o brincar como um momento por muitos visto como irrelevante, mas de suma importância para as crianças, as quais, enquanto brincam, realizam aqui o que há de mais sério para elas: produção de suas próprias culturas.
Considerações Finais
A pesquisa com crianças vem se fazendo cada vez mais presente na educação, possibilitando maior visibilidade e ênfase nas crianças e tornando as culturas infantis visíveis à sociedade. É necessário ampliar muito as discussões, evoluir, pesquisas são possibilitadas e metodologias tendem a ser cada vez mais aperfeiçoadas de modo a contemplar as singularidades das infâncias e das crianças.
Discussões e elaborações de documentos que possibilitem às crianças tomarem decisões quanto a sua participação nas pesquisas se fazem necessárias, uma vez que, quanto mais estudos são desenvolvidos, mais claras ficam a autonomia e autoria das crianças. Está em tempo de a sociedade reconhecer a infância e suas culturas.
A sociologia da infância vem construindo saberes pertinentes à sociedade, destacando a produção de culturas pelas crianças, especialmente nos momentos de brincadeiras livres. Crianças que compreendem a sociedade na qual estão inseridas e reproduzem ações comuns aos seu dia a dia, porém interpretando-as, modificando-as.
Durante a pesquisa que teve como objetivo analisar de que modos as práticas educativas na Educação Infantil consideram as crianças e o seu protagonismo como centro do processo pedagógico, tendo as suas próprias linguagens e expressões como elementos de análise, pode-se perceber que ainda é necessário e possível evoluir com relação à valorização das culturas infantis e ao protagonismo das crianças nos espaços de educação infantil. Muitas vezes nos pegamos falando em protagonismo, porém as crianças estão realmente protagonizando a sua história ou os adultos que convivem com elas seguem ainda emparedando-as e controlando as suas linguagens?
As crianças, enquanto brincam organizando a casinha, interpretam diferentes papeis, interagem com seus pares, controlam a entrada de novos sujeitos na brincadeira, defendendo os seus espaços de protagonismo. Considerando os estudos apresentados por Corsaro (2011), concluímos que, são momentos de grande produção de cultura das infâncias, uma vez que através das relações e interações possibilitadas pelas brincadeiras, assumindo diferentes papeis, as crianças interpretam a realidade à qual pertencem.
No decorrer desse recorte, buscamos enfatizar o brincar de faz de conta e o protagonismo infantil e devemos considerar que é no brincar que as crianças possuem maior liberdade de expressão. Podemos perceber que através do brincar de faz de conta as crianças se mostram curiosas, exploradoras, questionadoras, seguras ou inseguras. São crianças que buscam conhecer, explorar e construir culturas, interpretando e demonstrando suas interpretações diversas através das brincadeiras. Crianças que são potência e que precisam ser valorizadas.










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