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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.31 no.3 Florianópolis  2023  Epub 17-Set-2023

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2023v31n395590 

Resenhas

Nietzsche, um redpill extemporâneo

Nietzsche, an extemporaneous redpill

Nietzsche, un redpill extemporáneo

1Universidade de Passo Fundo, Curso de Filosofia, Programa de Pós-Graduação em Letras, Passo Fundo, RS. 99052-900 - filosofia@upf.br

MARTON, Scarlett. Nietzsche e as mulheres: figuras, imagens e tipos femininos. ., Belo Horizonte: Autêntica, 2022.


Traçaremos aqui um breve comentário ao livro Nietzsche e as Mulheres: Figuras, imagens e tipos femininos, de Scarlett Marton, publicado no ano de 2022 pela Editora Autêntica de Belo Horizonte. A autora é Professora Titular da disciplina de Filosofia Contemporânea na Universidade de São Paulo e conta com diversas obras sobre a filosofia de Nietzsche publicadas tanto no Brasil quanto na França. Fundadora do Grupo de Estudos Nietzsche e dos Cadernos Nietzsche, bem como do GT Nietzsche junto à Anpof, integra comitês científicos internacionais sobre a filosofia nietzschiana como o HyperNietzsche, bem como o conselho editorial de importantes publicações sobre o pensamento deste autor, como Nietzsche-Studien e Monographien und Texte zur Nietzsche-Forschung.

O tema geral do livro é, como seu título já anuncia, a relação entre a filosofia de Friedrich Nietzsche e as mulheres, embora essa dimensão, das mulheres, careça de uma contextualização mais detalhada. A intenção da autora, conforme anunciado aqui já na introdução, não é de traçar uma biografia do autor em relação às mulheres com quem cresceu ou conviveu, para mostrar a maneira como o filósofo tratava as mulheres. Tampouco se constitui em uma reflexão feminista sobre o pensamento de Nietzsche. A proposta do livro é tematizar o papel da mulher como personagem, como ideia, como imagem e como metáfora cultural dentro da obra de Nietzsche, superando uma inicial sensação de que este pensador não haveria tematizado a questão do feminino de forma organizada e coerente em seus escritos. “Neste livro, defendo a tese de que suas considerações sobre as mulheres não tem um lugar marginal em sua obra; elas não se reduzem a preferências pessoais e, menos ainda, a desvios eventuais. Bem ao contrário, inscrevem-se em sua empresa filosófica” (Scarlet MARTON, 2022, p. 15). Assim, ao longo de seis capítulos organizados conforme tipologias de mulheres - emancipadas, mães e solteironas; esposas e concubinas; artistas e atrizes; metafóricas como a sabedoria, a vida e a eternidade; feministas e dogmáticas; escritoras e intelectuais - a autora vai nos guiando pela filosofia de Nietzsche com amplitude e domínio, pontuadas por episódios de sua biografia e, obviamente, pelos trechos de seus escritos nos quais ele textualmente se dedica a pensar o papel cultural do feminino, tanto concreta quanto simbolicamente, no desenvolvimento do pensamento filosófico ocidental.

Logo na introdução já temos uma aproximação ao tema, onde será contextualizada a discussão internacional sobre a relação entre Nietzsche e as mulheres, mormente em relação ao uso de seu pensamento por algumas pesquisadoras e sua recepção, tanto negativa quanto positiva, pelo movimento feminista ao longo do século XX e em diante. O primeiro capítulo, “Algumas mulheres: emancipadas, mães, solteironas”, recupera a importância do corpo na filosofia de Nietzsche para que se possa falar de uma psicologia do humano. E, se o corpo influencia o pensamento, aí justamente reside a importância de definir neste contexto o que é e como pensa o corpo feminino, tanto no uso do termo Frau (mulher) - geralmente usado para se referir a mulheres casadas ou donas de casa - quanto no mais amplo e neste contexto não pejorativo Weib (fêmea). Aqui igualmente aparecem no texto as primeiras referências a mulheres que se sabe, na perspectiva biográfica do filósofo, terem tido importância em sua vida, como sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, Lou Salomé e Cosima Wagner, entre as mais conhecidas, bem como menos conhecidas, como Malwida von Meysenburg, entre outras. Em “Certas mulheres: esposas e concubinas”, temos uma análise do tema em Humano Demasiado Humano, especialmente o capítulo “A mulher e a criança”. Em sua caracterização da oposição inconciliável entre a submissão e o espírito livre, Nietzsche identifica as mulheres e as crianças, estas em função da educação, como incapazes do exercício de um espírito livre e, por consequência, aparece aqui a impossibilidade de conciliação entre este espírito livre e o casamento. Este estaria de antemão condenado porque tem como sua base a idealização e como objetivo a dominação, uma vez que: “Não é porque as mulheres têm o intuito de cultivar o amor que dele constroem imagens idealizadas, mas é porque querem exercer o poder sobre os homens” (MARTON, 2022, p. 62). Isso implica a consideração do casamento uma relação de disputa de poderes assim como qualquer outra relação humana, e que teria mais chance de sucesso se, ao invés de basear-se em uma relação amorosa, se baseasse em uma relação de amizade, como uma longa conversa que duraria uma vida.

No terceiro capítulo, “Diversas mulheres: artistas e atrizes”, a autora percorre majoritariamente o texto de Nietzsche A Gaia Ciência para estabelecer uma relação entre o perspectivismo em termos de teoria do conhecimento e as mulheres em sua arte de dissimulação social. Ao estabelecer aí a realidade como um feixe de interpretações, Nietzsche denuncia como o conhecimento humano é uma forma de colocar toda uma estrutura de discursos por sobre a natureza, dissimulando esta última e, por assim dizer, suavizando-a para torná-la mais palatável, mais esteticamente agradável, ainda que enganadora. E o mesmo ocorre, neste contexto, com a mulher, a qual, de acordo com o autor, se desenvolve como uma mestra na arte de fingir e esconder aquilo que a natureza lhe deu de repugnante para apresentar-se apenas como a idealização conceitual que o homem faz dela no seio da cultura. Por esta razão as mulheres seriam artistas e atrizes, pois precisariam o tempo todo construir a si mesmas conforme o ardil que é a imagem que os homens constroem delas, em uma relação de fingimento que é, ao mesmo tempo, malícia e arte. Na sequência temos o quarto capítulo, “Outras mulheres: a sabedoria, a vida e a eternidade”, no qual, a partir de Zaratustra, entre outros textos, são abordadas as metáforas conceituais que ganham no pensamento de Nietzsche a imagem de mulher. “É em Assim falava Zaratustra que se revela com clareza o descompasso entre as personificações femininas de entidades abstratas e as mulheres humanas, demasiadamente humanas” (MARTON, 2022, p. 103). Assim, se percorrem diversos trechos do mais poético texto de Nietzsche para demonstrar como este formulou imagens do feminino para dar conta de concepções abstratas e conceituais como a vida, a eternidade, a sabedoria e a verdade.

No quinto capítulo da obra, “Aquelas mulheres: feministas e dogmáticas”, por meio da análise de uma sequência de parágrafos de Para além de bem e mal Scarlett Marton nos guia para o argumento de Nietzsche de que haveria uma idiossincrasia na exigência de emancipação das mulheres: admitindo todo e qualquer processo de desenvolvimento como algo baseado em uma estrutura fundamentalmente orgânica, Nietzsche considera incompatível que a mulher como gênero biológico possa definir o que deve ser a mulher como conceito cultural, uma vez que esta universalização do conceito de mulher seria um retorno indesejado ao pensamento metafísico, à busca das essências, em uma fusão argumentativa de crítica filosófica e conservadorismo de gênero: “[...] ainda que lance mão do feminino para atacar a filosofia dogmática, ainda que dele se sirva com propósitos estratégicos, a imagem da mulher, que deixa transparecer nessa sequência de parágrafos de Para além de bem e mal, é, sem dúvida, das mais tradicionais” (MARTON, 2022, p. 151). Por fim, no sexto e último capítulo, chamado “Raras mulheres: escritoras e intelectuais”, a autora vai mostrar como Nietzsche associa, nos seus textos dos anos finais, a exigência de emancipação feminina com o pensamento niilista e com a décadence de sua época, pautada nas exigências de igualdade oriundas do cristianismo através dos ideais iluministas. Neste contexto é que Nietzsche fica tão intrigado, ou mesmo incomodado, com as mulheres que escrevem e que se manifestam publicamente - Madame Roland, Madame de Staël e George Sand, por exemplo -, abrindo mão, segundo ele, daquilo que mais particularmente lhes diferencia dos homens, a existência estética e corporal em oposição à hipertrofia racional da consciência à qual estão submetidos os homens modernos:

Aqui, impõe-se isenção - e justiça. Tudo indica que, ao aplaudir a supressão dos direitos das mulheres, o filósofo assume posições em defesa da sociedade patriarcal. Ciente do processo de dominação imposto à mulher, com ele parece pôr-se de acordo. Conhecedor de sua história milenar, com ele parece compactuar (MARTON, 2022, p. 188).

Percebe-se, portanto, que o tema do feminino não foi ignorado por Nietzsche, pois, como ficou demonstrado, Nietzsche não era indiferente em relação às mulheres e ao feminino, tendo tematizado o seu estatuto de gênero em diversas passagens importantes de vários de seus livros. Muitas vezes ambivalente em relação às mulheres reais, positivo em relação às mulheres conceituais, o filósofo se mostrou abertamente negativo em relação à emancipação feminina como um todo. Conclusivamente, se em filosofia Nietzsche era um extemporâneo, um homem do porvir, em relação às assimetrias de gênero ele foi definitivamente um homem de seu tempo.

A obra em tela é obviamente bem escrita e bastante ampla em relação à filosofia de Nietzsche, não deixando dúvida alguma a respeito do exímio domínio da autora sobre a filosofia nietzschiana e a competência com a qual são articulados conceitos e analisados os textos. Uma impressão errônea que pode ser dada pelo título é que será feita uma vasta discussão sobre a filosofia de Nietzsche e a maneira como ela poderia se articular com os estudos de gênero contemporâneos, o que não apenas não é a intenção da obra como é justamente aquilo que a autora evita fazer, inclusive para fugir da possível moralização tão odiada por Nietzsche em relação a estas discussões em nosso contexto pós-moderno. “Mas tampouco desejei julgar o indivíduo Nietzsche, condená-lo ou eventualmente absolvê-lo. Assim é que renunciei a estabelecer um diálogo entre o seu pensamento e os estudos feministas” (MARTON, 2022, p. 197). Isso faz com que os principais beneficiados pelo texto sejam aqueles interessados mais na filosofia de Nietzsche e alguns aspectos de sua biografia do que especificamente aqueles que estejam buscando no filósofo algum subsídio ou alguma discussão dentro dos estudos de gênero, seja em relação ao feminismo em especial, seja em relação à recente machosfera virtual que tem se desenvolvido e da qual o filósofo em questão parece ter sido um precursor ou visionário, seja mesmo em relação aos estudos de gênero de forma mais ampla e séria. Mas mesmo nesta especificidade restritiva, de ser uma obra sobre a maneira como as mulheres aparecem nos textos do filósofo alemão, o livro, oriundo de uma vasta e sistemática pesquisa, carrega sua indiscutível importância no cenário dos estudos sobre Nietzsche

Referência

MARTON, Scarlett. Nietzsche e as mulheres: figuras, imagens e tipos femininos. Belo Horizonte: Autêntica, 2022 [ Links ]

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: FIANCO, Francisco. “Nietzsche, um redpill extemporâneo”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 31, n. 3, e95590, 2023.

Financiamento: Não se aplica.

Consentimento de uso de imagem: Não se aplica.

Aprovação de comitê de ética em pesquisa: Não se aplica.

Recebido: 21 de Julho de 2023; Revisado: 14 de Setembro de 2023; Aceito: 16 de Setembro de 2023

Francisco Fianco (fcofianco@upf.br, fcofianco@gmail.com) possui graduação e mestrado em Filosofia pela UNISINOS, doutorado em Filosofia pela UFMG e Especialização em Psicanálise pela FAAP de São Paulo. Atualmente, é professor do PPG-Letras na Universidade de Passo Fundo, dos cursos de Filosofia, Artes e Moda e da Área de Ética e Conhecimento, atuando principalmente nos seguintes temas: Estética e Filosofia da Arte, Filosofia e Literatura, Nietzsche e Filosofia Contemporânea, Filosofia e Psicanálise

Contribuição de autoria: Não se aplica

Conflito de interesses: Não se aplica

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