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Revista Estudos Feministas

versión impresa ISSN 0104-026Xversión On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.30 no.3 Florianópolis  2022  Epub 01-Sep-2022

https://doi.org/10.1590/1806-9584-2022v30n381202 

Artigos

O lugar do corpo. Masculinidades Trans e a materialidade corporal do género

The place of the body. Trans Masculinities and the bodily materiality of gender

El lugar del cuerpo. Masculinidades Trans y la materialidad corporal del género

1Universidade de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, Lisboa, Portugal. 1600-189 - instituto.ciencias.sociais@ics.ulisboa.pt

2Iscte Instituto Universitário de Lisboa, Departamento de Sociologia, Lisboa, Portugal. 1649-026 - secretariado.espp@iscte-iul.pt


Resumo:

As histórias de vida de pessoas trans-masculinas, embora diversificadas, demonstram que a construção da masculinidade não pode ser entendida fora dos efeitos materiais produzidos no e pelo corpo, dentro de uma ordem de género erigida sobre a masculinidade hegemónica. Confrontados com a centralidade dada ao corpo por indivíduos trans-masculinos em Portugal e no Reino Unido, exploramos as ligações entre masculinidade, incorporação e a materialidade corporal do género. Seguindo Raewyn Connell (1995, p. 56), quando afirma a inevitabilidade do corpo na construção da masculinidade, desenvolvemos duas linhas de argumentação. Primeiro, sugerimos que a reconfiguração das premissas conceptuais da masculinidade, como lugar, prática e efeito, é um passo fundamental para entender as possibilidades de se fazer masculinidade. Segundo, defendemos que a masculinidade é, sobretudo, um efeito de práticas corporais reflexivas.

Palavras-chave: Masculinidades trans; práticas corporais; materialidade; género; masculinidade

Abstract:

The life stories of trans-masculine individuals, though diverse, demonstrate that the construction of masculinity cannot be understood outside the material effects produced in and by the body, within a gender order erected on hegemonic masculinity. Confronted with the centrality given to the body by trans-masculine individuals in Portugal and the UK, we explore the links between masculinity, embodiment and the bodily materiality of gender. Following Raewyn Connell (1995, p. 56) when she asserts the inevitability of the body in the construction of masculinity, we develop two lines of argument. First, we suggest that reconfiguring the conceptual premises of masculinity as place, practice and effect is a key step in understanding the possibilities of doing masculinity. Second, we argue that masculinity is, above all, an effect of reflexive bodily practices.

Keywords: Trans Masculinities; Body Practices; Materiality; Gender; Masculinity

Resumen:

Las historias de vida de individuos trans-masculinos, aunque diversas, demuestran que la construcción de la masculinidad no puede entenderse fuera de los efectos materiales producidos en y por el cuerpo, dentro de un orden de género erigido sobre la masculinidad hegemónica. Frente a la centralidad otorgada al cuerpo por los individuos trans-masculinos en Portugal y en el Reino Unido, exploramos los vínculos entre la masculinidad, la corporeidad y la materialidad corporal del género. Siguiendo a Raewyn Connell (1995, p. 56) cuando afirma la inevitabilidad del cuerpo en la construcción de la masculinidad, desarrollamos dos líneas de argumentación. En primer lugar, sugerimos que reconfigurar las premisas conceptuales de la masculinidad como lugar, práctica y efecto es un paso clave para entender las posibilidades de hacer masculinidad. En segundo lugar, sostenemos que la masculinidad es principalmente un efecto de las prácticas corporales reflexivas.

Palabras clave: Masculinidades trans; prácticas corporales; materialidad; género; masculinidad

Introdução

Nos últimos anos, uma atenção crescente tem sido dada às masculinidades trans, que se tornam cada vez mais tema de debate (Sally HINES, 2002; Salvador VIDAL-ORTIZ, 2008). O fazer das masculinidades trans torna-se assim um ponto focal a partir do qual podemos compreender os obstáculos e constrangimentos que os indivíduos trans-masculinos1 enfrentam, quer se enfatize a contingência (Evelyn BLACKWOOD, 2009), a contextualidade e o hibridismo (Miriam J. ABELSON, 2019), ou o desconforto (Sofia ABOIM, Pedro VASCONCELOS; Sara MERLINI, 2018), entre outros aspectos. Além de ganharem destaque, as masculinidades trans também não escapam às lutas da interpretação política em torno da desigualdade de género e dominação masculina. Estudos recentes retrataram-nas quer como simultaneamente hegemónicas e não-hegemónicas, quer como não correspondendo a nenhuma dessas categorizações (Jason CROMWELL, 1999; VIDAL-ORTIZ, 2002; Henry RUBIN, 2003; Jamison GREEN, 2005; Kristen SCHILT; Catherine CONNELL, 2007), já que ser trans não é sinónimo de nenhum estilo particular de masculinidade.

Independentemente de toda a pluralidade das masculinidades trans, retratada por exemplo em Holly Devor (1997), Rubin (2003), Vidal-Ortiz (2002) e Green (2005) ou Simone Ávila (2014) e Camilo Braz e Érica Renata de Souza, (2016), existe ainda uma escassez de pesquisas e teorizações. As conexões conceptuais entre estudos críticos da masculinidade e masculinidades trans são ainda relativamente embrionárias (Lucas GOTTZÉN; Wibke STRAUBE, 2016; Mara Viveros VIGOYA, 2018). Procuramos, assim, contribuir para diminuir essa lacuna, esforçando-nos em retratar a pluralidade das masculinidades trans, ao mesmo tempo que evidenciamos como estas formas aparentemente subalternas de “fazer masculinidade” (Raewyn CONNELL, 1995) iluminam os modos através dos quais toda a masculinidade (trans ou não) é incorporada e feita.

Com base num trabalho de campo com indivíduos trans-masculinos em Portugal e no Reino Unido, seguimos duas linhas de argumentação.

Em primeiro lugar, as masculinidades trans são discutidas como prática, lugar e efeito. Seguindo a proposta de Connell, argumentamos que a reconfiguração das premissas conceptuais da masculinidade é um passo fundamental para entender as incorporações trans e, até, as possibilidades de fazer masculinidade sem homens (ABOIM, 2016). Argumentamos a favor de uma análise sociológica das masculinidades trans como um conjunto de práticas que têm a capacidade, enquanto efeito, de alterar o lugar de dado indivíduo na ordem de género. Nesse sentido, a masculinidade pode ser feita sem que um corpo pré-existente, estereotipicamente masculino, a albergue.

Em segundo lugar, afirmamos que as masculinidades trans (ou mesmo a masculinidade no geral) não podem ser entendidas sem ter em conta a materialidade dos corpos. Trazendo velhos debates para a discussão, compartilhamos a visão de que o corpo é um significante fundamental da masculinidade. Mau grado a relevância da dimensão discursiva na afirmação da identidade de género, enfatizar a importância da materialidade corporal é central. Ainda que a existência corporal do sujeito gendrificado apenas se complete quando investida de significado (conforme enfatizado por Judith BUTLER, 1990 e 1993), o corpo é mais do que uma realidade que apenas se materializa através da repetição performativa de actos discursivos. Butler (1990, p. 11) disse-nos que o género: “...não é para a cultura como o sexo é para a natureza; género é também o meio discursivo/cultural pelo qual a ‘natureza sexuada’, um ‘sexo natural’ é produzido e estabelecido como ‘pré-discursivo’, ‘anterior à cultura’”. O género (e a masculinidade) resultariam assim mais de uma enunciação discursiva do que como uma realidade material em si mesma. Pelo contrário, evitando reduções quer discursivas, quer materiais, consideramos que os corpos gendrificados ganham forma através de práticas sociais que produzem efeitos materiais com grau de autonomia relativa face à significação normativa. Todos os corpos têm uma realidade material, mesmo quando mal interpretados ou rejeitados (Irene Costera MEIJER; Baukje PRINS, 1998). Em vez de reduzido a uma tela preenchida com significados culturais, o corpo enquanto corpus material - no duplo sentido de uma coleção de escritos e de uma massa corporal - desempenha um papel central.

Os corpos podem então ser melhor compreendidos como o efeito de práticas corporais adoptadas por sujeitos “sempre à partida”2 no espaço social (Pierre BOURDIEU, 1977; CONNELL, 1995; Brian TURNER, 2008; Sherry ORTNER, 2006). Portanto, na medida em que a masculinidade como efeito pode produzir um novo lugar, uma nova posição social a partir da qual se faz a masculinidade, as práticas corporais tornam-se, assim, centrais. Seguindo os contributos da teoria da prática, tentamos, por meio das práticas corporais, evitar a oposição entre definições estritamente citacionais de performance e de reducionismo materialista dos processos sociais e de género. Ambas dimensões são centrais para renovar a triangulação conceptual da masculinidade como lugar, prática e efeito.

Na secção que se segue, discutimos a conceptualização de masculinidade de Connell. Seguidamente, apresentamos uma definição de prática corporal como ferramenta teórica que melhor permite analisar os processos individuais de mudança de lugar/posição na ordem de género. O nosso argumento é ilustrado através da exploração de histórias de vida trans-masculinas e, ao dar conta da diversidade empírica e das estratégias plurais para fazer masculinidade, mostrar-se-á a centralidade e importância dos corpos e dos processos de incorporação.

Masculinidade como prática: uma mudança de lugar

A conceptualização de Connell da masculinidade hegemónica apresentou uma definição canónica de masculinidade como:

simultaneamente um lugar nas relações de género, as práticas pelas quais homens e mulheres se relacionam com esse lugar do género e os efeitos destas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura (CONNELL, 1995, p. 71).

Desta perspectiva, a masculinidade pode certamente ser definida como, simultaneamente, prática, lugar e efeito. Os indivíduos incorporam a masculinidade a partir de um determinado lugar, encenam a masculinidade à medida que é incorporada e vivem com os efeitos da masculinidade que contribuem para produzir e reproduzir. Os efeitos estão relacionados com realidades sociais micro e macroestruturais, incluindo, a nível pessoal, a experiência corporal e a subjetividade. Embora Connell nunca tenha estabelecido qualquer relação causal linear entre prática, lugar e efeito, a verdade é que a sua formulação se presta a interpretações das quais algum tipo de conexão causal pode ser inferido, mesmo que erroneamente. Não só estamos incertos acerca de como definir o significado e o alcance do ‘lugar’, como também o seu peso potencial na definição de masculinidade pode ser problemático e determinista. Tais dilemas teóricos podem, mesmo que involuntariamente, prender-nos quer a um biologicismo, quer a um determinismo estrutural, quando não aos dois.

De facto, um problema principal tornado evidente em preocupações teóricas com a colagem excessiva entre homens e masculinidades reside nos esforços para distinguir um do outro (Jeff HEARN, 2004). Enquanto uma conceptualização baseada na prática é capaz de evitar reduzir a masculinidade ao discurso, ela deixa-nos com alguns problemas importantes para resolução. A proposição de que masculinidade é o que os homens fazem pode promover uma sobreposição entre masculinidade e homens (ou feminilidade e mulheres). A potencial fusão da categoria homens (ou mesmo machos biológicos) com a masculinidade pode gerar reificação e reducionismo, correndo o risco de cair no que Connell (1987) classificou criticamente como categorialismo. Em vez de pluralidade, o perigo seria - como na teoria dos papéis sexuais e em abordagens essencialistas semelhantes - de colocar machos/homens e fêmeas/mulheres numa oposição binária, reduzindo as possibilidades de redefinição dos homens e das masculinidades (e das mulheres e feminilidades). E isto porque existe a tentação de interpretar os homens (o lugar categorial masculino) como a posição a partir do qual a prática é produzida. Somos então forçados a refletir sobre dois problemas inter-relacionados. O primeiro diz respeito à definição do que é um homem. O segundo, até que ponto a masculinidade é autónoma da categoria dos homens.

Nesse sentido, Jack Halberstam (1998) apresentou uma perspectiva que dissocia os homens da masculinidade, na medida em que é possível fazer a masculinidade sem os homens. Efetivamente, Halberstam argumenta que a masculinidade é mais complexa e até transgressora quando não emana do corpo estereotipicamente masculino. Do mesmo modo, Ávila (2014), aponta como masculinidades sem pénis são necessariamente desestabilizadoras, não só das definições hegemónicas de masculinidade, mas da própria naturalização institucional do género. Em vez disso, a masculinidade feminina - encontrada numa variedade de mulheres, das lésbicas butch e marias-rapaz a drag kings - não é puramente um apêndice estranho às configurações dominantes de género. O trabalho de Halberstam ajuda-nos a entender a autonomia simbólica da masculinidade, como estando disponível para todos. Da mesma forma, quando Connell e Messerschmidt (2005) reconhecem que as “mulheres burguesas profissionais” hoje em dia se estão a apropriar da masculinidade, a distinção entre homens e masculinidades é patente. O que permanece incerto são, no entanto, as ligações entre corpos, incorporações e performances. Ou, em outras palavras, entre dimensões materiais e discursivas da masculinidade.

A maioria dos esforços para superar a confusão entre homens e masculinidades deixou por abordar, o papel dos corpos e sua conceptualização. Teorização esclarecedora foi desenvolvida por abordagens pós-estruturalistas (Stephen WHITEHEAD, 2002) que definem a masculinidade como uma prática discursiva (Margaret WETHERELL; Nigel EDLEY, 1999), perseguida por um sujeito masculino através do “envolvimento constante em práticas discursivas de significação que sugerem masculinidade” (WHITEHEAD, 2002, p. 210). Nesta perspectiva, os corpos teriam pouca centralidade e a masculinidade seria essencialmente um discurso realizado por sujeitos indefinidos. Se adequado para compreender uma dimensão central das masculinidades trans (e masculinidades em geral), esta perspectiva oferece-nos poucas ferramentas para entender as experiências corporais de indivíduos trans-masculinos (por exemplo, Jay PROSSER, 1998). Pelo contrário, se os “corpos, de facto, importam” (CONNELL, 1995, p. 51), a possibilidade de conceptualizar a masculinidade está dependente da consideração das experiências corporais como práticas constitutivas que têm a capacidade de afetar, e não apenas de serem o efeito. Uma formulação deste tipo implica retratar a experiência corporal, não apenas como afetada pela prática, mas como prática em si mesma. Como Connell sugeriu, afirmando a agência dos corpos, “nos limites das categorias de género, os corpos podem viajar por si mesmos” (CONNELL 1995, p. 59). Como objetos e agentes da prática em simultâneo, os corpos devem ser conceptualizados através de padrões de práticas corporais reflexivas que emergem da conexão de estruturas individuais e sociais para formar vidas (masculinas) e o mundo social. Apesar da ênfase na reflexividade e em contraste com a ênfase do construtivismo social no simbólico, a formulação de Connell está próxima da noção de práticas corporais de Turner (2008) ou da conceptualização de Bourdieu (1977) do habitus como um conjunto de disposições corporais duradouras (porque incorporadas).

No entanto, para estabelecer o corpo como um dispositivo central para a feitura de masculinidades (no sentido de Candace WEST e Don H. ZIMMERMAN, 1987), precisamos revisitar a definição de masculinidade de Connell. Na nossa reinterpretação, posicionamos ‘o lugar’ como um efeito. Neste sentido, os indivíduos - nascidos ou não com uma biologia que possa ser entendida como masculina - podem praticar (‘fazer’) masculinidade enquanto incorporam os efeitos dessa mesma prática. Nesta formulação, o fazer e seus efeitos criam os lugares. Se invertermos as conexões conceptuais previamente definidas e notarmos que os sujeitos têm a capacidade de transformar o lugar que lhe foi atribuído, resistindo a classificações e imposições de género, encontramos uma formulação que enfatiza as práticas corporais e a agência dos sujeitos. Afinal, os corpos são simultaneamente lugares individuais e sociais, que podem, por meio da prática, experienciar e realizar transformações que, por sua vez, alteram o local a partir do qual a masculinidade é incorporada e praticada. Um sujeito masculino não é um macho biológico nem um sujeito desincorporado. Tornar-se masculino, ou mesmo homem, resulta de práticas corporais, entendidas como flexíveis e variáveis, que permitem mudar o próprio corpo e a experiência corporal ao longo do tempo (PROSSER, 1998), mas que nunca são totalmente independentes da materialidade desse corpo, individual e socialmente. Como nos mostrou Sherry Ortner (2006), a teoria da prática não precisa se concentrar apenas na reprodução societal. Pode ir além e entender os indivíduos como actores engajados em relações de poder (“jogos sérios”) destinadas a acções de resistência e transformação social.

Portanto, para indivíduos trans-masculinos, os percursos e transições de género produzem um lugar transformado e um posicionamento diferente, o que implica, como discutido acima, reconfigurar a definição de Connell e evitar interpretações causais erróneas ao analisar as ligações co-constitutivas entre lugar social, prática e efeito. Argumentamos que é através de práticas corporais que a incorporação é produzida e capaz de gerar uma mudança de lugar social dentro da ordem de género. Afinal, as práticas corporais envolvem intervenções físicas no corpo, processos de nomeação através do discurso e formas de representação. Os padrões das práticas corporais reflexivas (CONNELL, 1995, p. 61) implicam trabalho no corpo (TURNER, 2008, p. 159) e através do corpo, num sentido mais próximo ao da teoria da prática de Bourdieu, ainda que revisitada para conter agência e poder, como proposto por Ortner (2006).

Embora corpo e prática sejam conceitos complexos, contestados e ilusórios (Kathleen LENNON, 2019), acreditamos que as práticas corporais são heurísticas e úteis se formos capazes de evitar qualquer forma de reducionismo, quer seja o biologicismo dos corpos supostamente pré-sociais, quer o determinismo estrutural de autómatos. Também acreditamos que Butler está certa ao falar da materialização dos corpos como resultante da “prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia” (BUTLER, 1993, p. 15). No entanto, a materialidade excede as normas reguladoras, na medida em que os corpos não existem apenas através de normas e citações repetidas. Argumentamos que devemos vincular processos de materialização (que admitem desconexão entre corpos sexuados e corpos genderizados) à teoria da prática, reconciliando o corpo agencial com o corpo controlado. O corpo não é um destino final, preso numa posição pré-determinada, nem um significante flutuante e desprendido. Entre os polos, o espaço para re-significar o género e a masculinidade está aberto à resistência. No entanto, tais reformulações não são alcançadas apenas por meio de práticas discursivas, mas, antes de mais, trazendo para a discussão o corpo como local de e para a materialidade do género. Na nossa visão, práticas corporais e práticas discursivas não podem nem devem ser desligadas. Conseguimos ultrapassar potenciais reducionismos, aliando noções de discurso e performatividade a uma teoria da prática revisitada e agencial.

Masculinidades trans no campo

A nossa análise baseia-se nas perplexidades conceptuais levantadas pelas histórias de vida e percursos de transição de pessoas trans que se identificam como homens trans ou como indivíduos masculinos ao longo de todo o espectro das masculinidades trans. Trinta e uma entrevistas aprofundadas foram realizadas em Portugal (14) e no Reino Unido (17) entre 2016 e 2017. Estas entrevistas fazem parte de um estudo comparativo mais amplo da vida das pessoas trans e dos seus quadros jurídicos e institucionais em cinco países europeus - Portugal, Reino Unido, França, Suécia e Países Baixos. O enfoque no Reino Unido e Portugal reflecte uma decisão prática sustentada pelo maior número de participantes trans-masculinos nos conjuntos de dados portugueses e britânicos. De facto, as duas amostras trans-masculinas apresentam bastantes pontos comuns, apesar das diferenças entre países. Embora o Reino Unido tenha uma história de grupos de apoio transgénero desde os anos 70, seguidos por grupos de activistas politicamente organizados desde os anos 90 (como é o caso da Press for Change), o activismo trans só se tornou relevante em Portugal nos anos 2000. No entanto, o ritmo da mudança foi rápido, como ficou evidente com a aprovação de uma nova lei de identidade de género em 2018 (Lei 38/2018 de 7 de Agosto). Portugal foi, de facto, o décimo primeiro país do mundo a aplicar um procedimento legal de reconhecimento da identidade de género baseado na autodeterminação, que permite a separação entre os protocolos médicos e os direitos legais. Este foi um resultado algo surpreendente se compararmos Portugal com outros países que, tais como o Reino Unido, têm uma história mais forte de debates e realizações no que diz respeito ao reconhecimento da diversidade de género. No entanto, o direito de se identificar legalmente com uma categoria de género auto-eleita sem ter de preencher quaisquer requisitos ainda não foi aprovado no Reino Unido.

Nos dois países, amostras de conveniência foram construídas com o objetivo de exibir a diversidade de trajetórias e modos de auto-definição reunidos sob o guarda-chuva trans-masculino. No entanto, mesmo que não possamos alegar conhecer todas os percursos de trans-masculinidade, nem comparar países de maneira linear, consideramos, não obstante, que fomos capazes de atingir o nosso objetivo inicial e, até mesmo, uma saturação considerável dos processos mais comuns.

Embora a auto-identificação com a masculinidade tenha sido fundamental para traçar a linha entre indivíduos trans-masculinos e outras performances e identidades trans, a pluralidade de trans-masculinidades é comum a ambos os países. Nas nossas amostras, a maioria dos participantes autodefiniu-se como homem/masculino ou como homem trans/trans-masculino, mesmo que a última identificação seja mais comum entre os participantes britânicos (12 em 17). Entre os participantes portugueses, mais auto-definem-se apenas como homens (5 em 14). No entanto, enquanto a maioria dos participantes se identifica como homem trans ou como homem, alguns definem-se explicitamente como indivíduos masculinos não-binários, quer se destaque a identificação genderqueer, híbrida ou genderfluid (quatro participantes no Reino Unido e cinco em Portugal). Independentemente da auto-identificação atual, apenas raramente uma só definição foi suficiente para dar conta da identidade de género ao longo das suas vidas. Categorias como cross-dresser, drag-king ou lésbica foram frequentemente associadas a estágios anteriores da vida, como já verificado por Guilherme Almeida (2012), Ávila (2014) ou Braz (2016) para a realidade brasileira.

As idades dos participantes variam entre os 23 e os 55 anos no Reino Unido e entre os 19 e os 58 anos em Portugal. No entanto, a maioria dos participantes portugueses está na casa dos 20 (6) e 30 anos (4). No Reino Unido, nove participantes têm 40 anos ou mais e apenas quatro ainda estão na casa dos vinte. O perfil de idades diferente é bem refletido na duração dos processos de transição (de acordo com a descrição de cada pessoa de quando começou a fazer a transição). De facto, a maioria dos participantes britânicos iniciou suas jornadas de transição há mais de dez anos. Apenas dois indivíduos estão nos primeiros três anos desde que começaram a transição. Por outro lado, entre os participantes portugueses, muitos ainda estão nos primeiros anos do percurso de transição, com apenas quatro a afirmarem que o processo foi iniciado mais de dez anos antes. No entanto, a maioria (10) alterou legalmente os seus documentos de identificação e passou por modificações corporais, nomeadamente terapia hormonal com testosterona (11). No Reino Unido, quinze indivíduos mudaram de nome legalmente, dos quais apenas seis obtiveram um Certificado de Reconhecimento de Género (GRC).3 A maioria também teve algum grau de modificação corporal, com quinze participantes a levarem a cabo terapia hormonal.

Os participantes britânicos têm níveis mais altos de escolaridade, com quinze com um diploma universitário. Entre os portugueses, sete concluíram apenas o ensino básico ou secundário. Nos dois países, a maioria dos participantes está empregada. Na amostra britânica, um dos entrevistados não é nacional britânico e alguns mudam-se frequentemente dentro do Reino Unido. No caso de Portugal, dois dos entrevistados não são nacionais portugueses e alguns vivem ou já viveram em outros países, como França, Reino Unido ou países da Escandinávia. Três são afrodescendentes e percepcionados como tal: um no Reino Unido e dois em Portugal.

Fazendo masculinidades trans: práticas corporais

Das nossas amostras de indivíduos trans-masculinos selecionamos casos que retratam quatro processos exemplares na construção da masculinidade através de práticas corporais. Em todos os casos, tornar-se masculino ou homem implica lidar com o corpo, incorporar a masculinidade e expressar-se através do corpo. É sempre através do corpo que a masculinidade se torna um significante.

Práticas corporais envolvem diferentes padrões de prática reflexiva. Práticas materiais envolvem intervenções físicas no corpo (sejam realizadas por médicos especialistas ou auto-administradas) e formas de representação (aparência, vestuário, hexis). Práticas discursivas envolvem processos de nomeação e classificação compartilhados e reconhecidos cultural ou socialmente por outras pessoas, sejam legais (documentos de identificação estatais) ou identidade de género auto-definida (i.e., definida pelo próprio indivíduo). Esta formulação assente na conexão entre identidade de género, nomeação, aparência corporal e representação, permite entender como a masculinidade é incorporada e feita por aqueles que se identificam com rótulos trans-masculinos.

Embora a pluralidade seja uma característica das nossas amostras, a maioria dos indivíduos trans-masculinos compartilha o desejo de um corpo masculinizado, sejam quais forem as técnicas para o alcançar (sobre a multiplicidade dessas técnicas e individualidade dos corpos trans masculinos ver SOUZA, 2020). Se um pénis nem sempre é necessário ou desejado, uma aparência masculinizada parece ser fundamental. Apenas dois indivíduos trans-masculinos recusaram a ideia de se submeter a tratamentos de hormonização, mamoplastias ou qualquer outra forma de intervenção médica. A maioria queria ser percebida corporalmente como homem ou masculino. Mesmo que os ideais de masculinidade hegemónica fossem deixados de lado e contestados por muitos indivíduos, para a maioria, a desconexão da feminilidade era inequívoca. Uma certa forma de “genitália moral” (Harold GARFINKEL, 1967, p. 127) ou “genitália cultural” (Suzanne J. KESSLER; Wendy MCKENNA, 1978) - isto é, a genitália que se presume que dado indivíduo tenha com base na sua performance pública - parece não ser incompatível com a desgenitalização do género, embora nem a imagética machista nem a genderqueer sejam dominantes. Enquanto a masculinidade como ideologia pode ter implicações bem diferentes (Mike DONALDSON, 1993), ser/tornar-se homem/masculino acaba por ser moldado através da materialidade do corpo como efeito de uma aspiração de transformação corporal e social.

Considerando a diversidade de práticas corporais materiais e discursivas relatadas pelos participantes da pesquisa, optamos por retratar quatro padrões de práticas corporais. Os padrões que identificamos - ou as suas designações (semelhantes às de Richard EKINS; Dave KING, 2006)4 - não são uma tipologia fixa. Seguem pressupostos metodológicos de inspiração weberiana, no sentido em que se ajustam ao estudo dos fenómenos da vida social na sua individualidade. Aproximam-se também da noção de ideal-tipo, uma vez que se baseiam na seleção de aspectos da vida dos diferentes sujeitos transmasculinos relevantes, para entender as suas práticas corporais e não numa reconstrução da totalidade das suas trajectórias. Ao longo do processo de transição, as práticas corporais podem mudar e, muitas vezes, os indivíduos envolvem-se em estratégias diferentes, quer seja ao longo do tempo, quer quando confrontados com diferentes espaços e situações sociais. Os quatro padrões ilustram, no entanto, a centralidade do corpo e do processo de incorporação, apesar das diferentes mobilizações estratégicas.

Nas próximas subsecções, exploramos brevemente as práticas corporais começando com a ‘metamorfose’, onde o corpo é visto pelos próprios como um revelador da masculinidade interior. Deve refletir a coerência material-discursiva, sendo a masculinidade corporal fundamental para revelar o sentido de si dos indivíduos. Nas práticas de ‘aproximação’, a masculinização corporal permanece muito importante mas, ao contrário da tendência anterior, a mudança corporal é percebida como enfrentando limites externos (tecnologia médica) e internos, que afetam o eu. Abraçar o passado como mulher e ambiguidade corporal são elementos relevantes e desejados. Nas práticas de ‘contestação’, o desejo de masculinização corporal coexiste com a encenação contextual da hexis da masculinidade e um discurso não-binário. A masculinidade deve ser reinventada fora dos cânones tóxicos da masculinidade hegemónica. Finalmente, uma minoria de indivíduos faz masculinidade através de estratégias de ‘redefinição’. Como não há grandes transformações/intervenções físicas, os corpos têm de ser lidos através do discurso, geralmente em louvor à masculinidade não-binária butch. Tais redefinições de masculinidade não teriam efeito, no entanto, sem a materialidade dos corpos, mesmo pela sua aparente desconsideração.

Metamorfose

A metamorfose, talvez o padrão mais estável ao longo do percurso da vida, refere-se a homens trans que se encaixam e se identificam de forma mais aproximada à categorização médica da transexualidade.5 Normalmente, os indivíduos estão em processos de tratamento tendo em vista uma transição corporal “completa”, incluindo cirurgia genital, desejando migrar de um género (designado feminino ao nascimento) para o outro polo. Muitas vezes declarando que nasceram no “corpo errado,” a ênfase é colocada na transformação do corpo como um meio de se tornarem homens capazes de serem reconhecidos publicamente como tal, independentemente dos anos previamente vividos num corpo percebido como feminino. Até certo ponto, ainda existe uma genitalização do género, mesmo que isso seja uma simplificação excessiva. Como Jonathan Ames (2005) observou, embora a trajetória transexual seja uma busca pelo género ‘correto’, é também uma trajetória pela identidade e individualidade. De facto, muitos indivíduos misturam discursos diferentes, embora o constructo médico permaneça presente.

Esta breve definição aplica-se bastante bem aos casos de Daniel (26, afro-português, licenciado, pintor e decorador) e Brian (36, britânico, licenciado, empregado comercial). Daniel corresponde à definição médica canónica de transexualidade e desde criança sentiu-se preso no corpo errado, termo patologizante, apesar de contestado na própria medicina, como evidenciam as alterações das classificações médicas levadas a cabo pela Organização Mundial de Saúde (nomeadamente com a aprovação do CID-11). Como Daniel conta, o seu diagnóstico foi rápido e sem problemas, tal como a hormonização e mamoplastia. Daniel sente que o médico que o acompanha compreendeu a urgência da sua situação e procurou agilizar os procedimentos clínicos. Tendo agora conseguido uma aparência corporal percebida como masculina e apresentando uma barba visível e uma voz mais grave, o seu principal problema é a falta de um pénis, que substitui usando uma prótese. Para ele, a masculinidade total será alcançada quando a cirurgia genital for concluída. Ele define-se como homem, deixando de lado o termo “transexual”, que encara como uma condição médica temporária a ser corrigida. Embora Brian não use o termo transexual, posiciona-se de maneira muito semelhante. Tal como Daniel, Brian quer ser “one of the guys”. Como diz:

Mesmo estando mais à vontade agora, ainda tenho aquela questão em que adoraria ser apenas mais um dos homens (...) Nunca digo que costumava ser mulher porque acho que nunca fui mulher. Costumo dizer que houve um erro quando nasci e nasci com um corpo biologicamente feminino, mas sempre soube que devia ter sido um homem. Eu devia ter nascido homem, mas não nasci, por isso passei o resto da minha vida a tentar corrigir isso.

Seguido por médicos desde os 18 anos, tinha 21 anos quando iniciou o processo de transição corporal. Nos últimos 8 ou 9 anos, realizou cerca de 20 operações e, apesar das complicações cirúrgicas, Brian persiste em tentar alcançar a última fase de uma faloplastia - a inserção cirúrgica de um dispositivo de ereção. Para Brian, concluir a sua transição corporal e ser percebido como um “homem hetero” levá-lo-á finalmente “ao nível de confiança e estado de se sentir confortável.

Quando inquiridos acerca da masculinidade, tudo o que importa para Brian ou Daniel é adquirir um corpo masculino que pudesse ser visto como genuinamente masculino e sexualmente funcional. A masculinidade é equiparada à masculinidade corporal num sentido muito forte e rígido. O que sentem em falta não pode ser resolvido por nenhuma estratégia performativa, mas apenas por uma reconstrução do próprio corpo. Sem masculinidade corporal estereotípica, o percurso em direção à masculinidade perde o rumo. Contudo, a masculinidade permanece difusa e permeada por uma infinidade de referências e estilos normativos. Certamente, os ganhos da masculinidade são bem-vindos - serem vistos como homens dá-lhes acesso a uma parte do dividendo patriarcal (CONNELL, 1995; SCHILT, 2010). Eles sentem-se fortalecidos pela masculinidade, mas sem uma metamorfose corporal completa, a transição para se tornarem homens não é sentida como completa.

Aproximação

No segundo padrão, os indivíduos valorizam significativamente a masculinização corporal, mas unem o passado como mulher e a descoberta da masculinidade ao longo do percurso de transformação corporal. Entrelaçam também as categorias do apparatus médico e as do ativismo queer (Anna CORWIN, 2017), misturando, portanto, ideias sobre a auto-categorização não binária do género e o pensamento binário médico canónico. De facto, como apontado por Matilde da Costa Morais Soares (2020), a construção da masculinidade trans implica sempre negociações tensas com os padrões da masculinidade hegemónica institucionalmente impostos, nomeadamente médicos e psico-patologizantes; em sentido semelhante já Ávila (2014) tinha identificado este processo de dupla ancoragem. Muitos indivíduos trans-masculinos usam a palavra transexual e transgénero de forma intercambiável (mais no caso português), mas demonstram respeito pela medicina trans como recurso para conforto e orientação.

Um caso exemplar é o de António (26, português, licenciado, life-coach). Tendo iniciado o seu processo de transição antes da autodeterminação legal da identidade de género em Portugal e considerando que diagnósticos continuam a ser necessários para aceder a intervenções médicas quer no sistema público quer no privado, António tem estado a tentar obter o diagnóstico de disforia de género (ainda em vigor em Portugal e no Reino Unido), ao longo dos últimos cinco anos. Como diz o próprio, ele é um “nove em dez” na sua própria percepção do que significa tornar-se num homem. Sempre se sentiu desconfortável como mulher, embora não estivesse completamente certo da sua condição ou dos seus desejos. Como indivíduo bissexual dividido entre conhecimento médico e formulações queer de identidade, teve dificuldade em fazer sentido de si mesmo. Iniciou a hormonização, passo que o deixou extremamente orgulhoso da sua transformação física. Cada pelo no seu corpo “é uma vitória” e diz que a masculinidade está “a crescer”. Um pénis não é obrigatório, pois a masculinidade não depende tanto da masculinidade corporal total estereotípica, mas o vestuário masculino é essencial e tem uma mastectomia planeada para o futuro próximo. António não é como os homens trans referidos anteriormente. Ele não deseja esquecer ou negar o seu passado como mulher, mas como se sente mais próximo da masculinidade, sente ser necessária uma certa masculinidade corporal. Para lá do corpo, a masculinidade parece ser um tópico obscuro. António refere explicitamente que saberá o que isso significa quando o seu corpo se transformar mais. Segundo ele, o corpo fará o seu papel e ensiná-lo-á a ser homem. Sente-se como um, quer ser visto como um, mas no final de contas não sabe “o que é realmente um homem.” Recusando estereótipos, aguarda a revelação através do corpo.

Para Richard (43, britânico, licenciado, artista e performer), a masculinidade também será aprendida através de práticas corporais. É através da prática que a realização da identidade de género surge. Como observa, lembrando-se da fase inicial da sua transição: “Lembro-me de chegar ao trabalho e pensar que conseguia andar como um homem, e que era tão diferente de andar como uma mulher.” No entanto, embora Richard sinta que um certo grau de masculinização é necessário, abraça o facto de se sentir diferente de um homem cisgénero como uma realidade corporal e social positiva, mas inequívoca. Como Richard elucida:

Enfatizo sempre que sou um homem trans, se se tirasse o trans eu sentiria que tinha perdido alguma coisa. Inicialmente, eu costumava dizer “sim, sou homem, como qualquer outro homem”, mas não sou. Eu não cresci como os homens cis cresceram. Eu não tenho o mesmo corpo que um homem cis. O trans é parte de mim. Isso torna a vida um bocado mais complicada, mas também um bocado mais especial.

Para muitos, ser interpretado como masculino através do corpo e do discurso é importante, embora às vezes desconfortável se for sentida muita pressão para a conformidade social. A masculinidade é aprendida à medida que o corpo muda lentamente e só pode ser levada a cabo nessa mesma medida.

Contestação

No padrão de prática corporal de contestação, a masculinidade não é apenas aprendida através do corpo com um certo grau de ambiguidade, mas sempre associada a fortes visões críticas sobre processos de normalização do género. Indivíduos trans-masculinos expressam auto-identificações queer e esperam transcender a dicotomia do género a fim de reconstruir o significado da masculinidade longe do padrão “tóxico” hegemónico que sentem ser imposto pelas normas sociais e ainda dominante nos padrões médicos, numa procura por masculinidades alternativas (como refere SOARES, 2020). Como Derek (27, britânico, diploma universitário, assistente social) menciona:

Muitas vezes pergunto-me se se vivesse num mundo em que fosse capaz de ser tratado como homem sem mudar o meu corpo, se eu me teria dado a esse trabalho. Eu odiava o meu peito, mas acho que só o odiava porque me marcava socialmente como mulher. Em que as pessoas olhavam para mim e ficavam indecisas, geralmente começavam a classificar-me como homem, depois viam o meu peito e reavaliavam...

Transgredir o género pode não ser uma tarefa fácil para alguns, mesmo quando atingem um grau de hibridização corporal. De facto, mesmo que muitos se auto-definam como não-binários, uma parte significativa submete-se a processos de masculinização corporal, que podem criar situações, muitas vezes descritas como desconfortáveis, de “passar” aos olhos de outros - uma expressão que usamos apenas em replicação das vozes dos participantes. De facto, estes homens trans recusam liminarmente qualquer ideia de engano malévolo ou farsa (Talia Mae BETTCHER, 2007).

Diniz (27, português, estudante universitário) define-se como um indivíduo não-binário genderqueer FtM, de orientação “pansexual”. Afiliado ao ativismo queer, é um membro de uma organização LGBTIQ+ dedicada à crítica da ordem de género binária. Por isso, ele recusa todas as formas de convencionalismo de género e categorias binárias. No entanto, apesar de sua posição crítica e engajamento político, procurou obter um diagnóstico médico que lhe permitisse aceder a tratamentos de masculinização: hormonização e mamoplastia. Como seria de esperar, a contradição entre o seu posicionamento ideológico e os requisitos do aparato médico dificultou a adaptação de Diniz aos padrões médicos de diagnóstico e cuidados de saúde transexuais/transgénero. Antes de iniciar procedimentos médicos em Portugal, passou algum tempo num país escandinavo mas, desapontado com o sistema médico que aí encontrou - nomeadamente pelo desajuste entre as temporalidades institucionais e as pessoais, como bem analisou Braz (2017) - migrou para a Bélgica, onde obteve um diagnóstico que finalmente lhe permitiu mudar o seu nome legal. Diniz reconhece que se sente mais como homem e quer realizar mais modificações corporais. Se um pénis não é obrigatório, uma aparência masculina, ainda assim, é importante.

Na mesma linha, Ayden (34 anos, britânico, mestrado, trabalhador por conta própria), não rejeita veementemente a “via cirúrgica.” Ayden acha que, provavelmente, não precisará de cirurgia de reatribuição genital, já que as hormonas e a cirurgia ao peito foram suficientes para fazê-lo mais feliz. O sentimento de discrepância corporal acabou após o início da hormonização, e agora o seu corpo “é só funcional para aquilo que eu quero que seja funcional, faz o trabalho dele e sinto-me bem.” De facto, declarando que nunca será totalmente masculino, Ayden explica:

O meu corpo reflete a minha identidade. É uma mistura, se alguém me visse sem roupa, é claramente uma mistura e isso reflete aquilo que eu sinto. Não tenho nenhum problema com ele relativamente ao seu propósito biológico original, da gravidez, se quiserem. Eu não o vejo dessa forma, não me afeta dessa forma.

Tentando equilibrar e conciliar identidades FtM e o cânone queer, Diniz e Ayden têm dificuldade em construir uma identidade de género não-binária e tentam justificar as suas escolhas como não-convencionais em termos de género, no geral, e de masculinidade, em particular. Para eles, a masculinidade é vivida longe de qualquer conotação hegemónica. No entanto, curiosamente, ambos aparentam estar bastante conscientes dos privilégios da masculinidade e não os recusam. Afirmam reflexivamente os ganhos estruturais de se ser homem como profundamente enraizados no mero facto de se parecerem estereotipicamente com um. Mais uma vez, e contra primeiras impressões, o corpo ganha ascendência, mesmo que Ayden e Diniz sintam algum desconforto com isso. Como Ayden indica, a “identidade não é permanente.” Mesmo que tenha flutuado e flutue ainda dentro da “esfera do masculino”, é importante construir um corpo que represente uma mistura e se ajuste ao contexto, com um grau de maleabilidade para ser mais masculino ou híbrido, conforme conveniente, num processo semelhante aos esquemas de visibilidade e ocultação identificados por Braz (2018). Desta maneira, o corpo não se habitua a conter “demasiada masculinidade”. Antes, o corpo é interpretado como um local de resistência e contestação contra todas as formas de normalização. Tornar-se fisicamente mais masculino envolve resistência à “masculinidade sexista” e envolvimento na transformação do género. Afinal, para muitos, as estratégias de contestação são uma maneira de evitar reproduzir a “masculinidade tóxica”, que sentem ser seu dever desafiar e transformar. O seu corpo deve demonstrar esta contradição fundamental: o desejo de masculinidade corporal acompanhado pela recusa da masculinidade hegemónica.

Redefinição

Finalmente, alguns indivíduos trans-masculinos incorporam a masculinidade através da redefinição do vínculo convencional entre corpo material e discurso, entre aspecto físico e género. A ausência de transformações físicas e, por vezes, até de uma hexis corporal masculinizada, tende a romper com “os termos políticos que visam estabelecer uma identidade segura ou coerente e são perturbados por este fracasso da performatividade discursiva em estabelecer final e totalmente a identidade a que se refere” (BUTLER, 1993, p. 210).

Concordando com Butler, a desestabilização das regulamentações normativas de género, bem como corporais, aparece como um fracasso em produzir significados socialmente interpretáveis e geralmente gera exclusão e abjecção, como também verificou Souza (2020). No entanto, em vez de apenas performatividade discursiva, as práticas corporais são fundamentais. Afinal, é através da desconexão que ocorrem atos de redefinição, independentemente de potenciais interpretações erróneas.

De facto, apesar da visibilidade recente de géneros não-binários, a interpretação errónea é comum. Para os nossos participantes é também uma arma contra o binarismo de género e restrição normativa da masculinidade ao corpo biológico estereotipicamente masculino. Como todos concordam, o género não se refere ao corpo, embora o corpo material sirva o propósito de retratar uma (des)identificação pretendida.

O caso de Lee (44, português, ensino universitário, artista) é exemplar. Lee identifica-se como não-binário e gender fluid, embora prefira usar pronomes masculinos e tenha recentemente mudado o seu género legal para masculino. Lee também se identifica com o espectro masculino do género. Como declara:

Eu não sou um homem, não sou um macho. Mas sou ainda menos feminino, nunca fui uma rapariga, uma mulher. Sou definitivamente mais masculino, tenho uma masculinidade de que gosto, que é mais eu. Sou gender fluid e varia muito, mas às vezes sinto-me mesmo masculino e nunca feminino. Sei que isto é só um estereótipo, e é por isso que acho que tenho o meu próprio género e preciso de o expressar. É por isso que uso pronomes masculinos. As pessoas não entendem, mas essa é a minha maneira de também tentar mudar as coisas, é por isso que eu insisto. Isso causa-me muitos problemas, mas tenho que o fazer.

Lee insiste em redefinir a masculinidade principalmente como uma variedade de identificações e performances de género que são vistas como diferentes da feminilidade, mesmo se compatíveis com uma anatomia de aparência convencional feminina. Lee não se submeteu a nenhum procedimento hormonal ou cirúrgico e apresenta-se, frequentemente, com roupas femininas convencionais. Sem maquilhagem ou vestidos cor-de-rosa, mas jeans e suéter combinados com cabelo longo preso num rabo-de-cavalo completam a sua apresentação. Para Lee, a identificação de género enquadra-se no espectro da masculinidade, embora a masculinidade pareça ser difícil de definir fora do que considera ser o cânone da masculinidade hegemónica hétero-patriarcal. Se a masculinidade pode ser concebida como híbrida e fluida, ela pode ser ainda melhor manifestada através de um corpo socialmente não-conforme. Como observa Lee, “as mamas são apenas um pedaço de carne, mais nada! E o meu género não é um pedaço de carne.” Dividido entre reinventar uma nova masculinidade, que é, no entanto, sentida como interior a si mesmo, e a des-genderização da masculinidade, Lee descreve a micro-violência diária de ser confundido com uma mulher quer como uma experiência negativa quer como efeito da ruptura que ele espera produzir contra a normalização. Como Lee descreve:

É violento e inicialmente senti-me deprimido e humilhado. Mas agora tento usar isso para um propósito melhor. As pessoas estão adormecidas e precisam ser chocadas, ser confrontadas. É claro que, às vezes, tenho medo, por exemplo, às vezes nem vou à casa-de-banho dos homens, mesmo com o meu Cartão de Cidadão para provar que sou legalmente homem e tenho esse direito, mas algo de mau pode acontecer, eu sei. Depende, mas às vezes eu vou e não me importo com os olhares e quando eles mandam bocas. Temos que agitar as coisas, e as pessoas não se vão esquecer…

Para London (44, britânico, educação universitária, desempregado), uma pessoa não-binária com experiência trans-masculina, o género também é tanto pessoal como político. London relembra experiências iniciais de desconforto com a sua forma corporal de aparência publicamente legível como feminina em várias circunstâncias sociais, desde interações diárias a ambientes de trabalho e até de ativismo trans. London relembra, evocando um evento numa organização trans-masculina:

Eu estava muito ciente do desconforto na T [organização ativista trans-masculina] com o meu peito, o que dificilmente viria de algum problema meu, por isso estava a reagir a alguma coisa que percepcionei, algo que era excludente. Foi bastante perturbador e fiquei um bocado zangado, magoado, irritado, senti vontade de dizer “como é que se atrevem!”

Como Lee, London está decidido a mudar os estereótipos de género e a redefinir tanto a masculinidade como a trans-masculinidade.

Se não falarmos sobre o que significa ser homem, não podemos deixar de adoptar os disparates e estereótipos. Vamos buscar ao mundo cisgénero, ao mundo gay e depois… a forma como tratamos as mulheres, tudo se tornará horrivelmente distorcido. Há provas disso, provavelmente tanto do mundo LGBT quanto do mundo cisgénero e de como estamos a percepcionar as mulheres cis e trans.

Redefinir o género e a masculinidade implica transformar a ordem de género, e isso só pode ser alcançado rompendo com a aparente estabilidade do binarismo de género. Nesse sentido, London afirma:

A fluidez é um problema enorme e também as pessoas sentirem-se confortáveis com a fluidez e as mudanças e não verem isso como “oh, estás confuso e ainda não te decidiste”. Há anos que penso intermitentemente em retirar o meu peito e noutras coisas, quer dizer, não é mau que estejam lá, mas também seria bom que eles não estivessem, mas eu não o faria, porque não estou remotamente interessado nisso e isso é ótimo porque eu já não me preocupo com isso, é-me indiferente. Também é aquela coisa de ser humano, todos a tentar chegar àquela coisa de ficar bem consigo mesmo.

Curiosamente, a redefinição implica aparentes contradições. Renomear o género parece menos eficaz quando os laços normativos que impõem uma conexão entre práticas corporais materiais e discursivas são rompidos. Para Lee e London, mudar a masculinidade não é suficiente se o binário de género geral permanecer intocado. Romper com a ordem do género implica abraçar a contradição que surge quando os corpos materiais parecem estar em desacordo com a identificação de género.

Conclusão

Em estreita conversa com pesquisas recentes, o nosso estudo demonstra também que as masculinidades trans são significativamente plurais e não estão especialmente associadas a nenhum estilo particular de masculinidade. Em geral, a masculinidade é tão múltipla que parece despojada de uma definição ou conteúdo ideológico claros, ao ponto de ser extremamente difícil entender como identidades individuais de género se relacionam com construções hegemónicas de masculinidade (Carrie PAECHTER, 2006). De facto, a procura de traços persistentes que possam definir a masculinidade parece ser um exercício estéril, independentemente da persistência de normas reguladoras que sustentam o binarismo de género. Não obstante, o terreno parece mais fértil quando inquirimos acerca do ‘fazer’ da masculinidade.

Certamente, como procurámos demonstrar, quando não naturalizado como emanando do estereotípico corpo biológico masculino, o que define masculinidade pode tornar-se mais claro. No entanto, a masculinidade não pode ser entendida sem ter em conta a materialidade dos corpos, independentemente da sua diversidade e transformações. Em última análise, quando os significados da masculinidade são cada vez mais difusos e mutáveis, o corpo resiste como o ponto focal da performatividade de género, seja ela auto-reconhecida ou percebida por outros. Neste sentido, práticas discursivas não podem ser dialeticamente separadas da materialidade do corpo. Os indivíduos trans-masculinos nas nossas amostras britânica e portuguesa incorporam a masculinidade de várias maneiras através de diferentes padrões de práticas corporais. No entanto, se traços comuns que construiriam algum tipo de masculinidade comum se perdem para as diferentes significações da masculinidade, o corpo permanece central. Para aqueles que procuram uma metamorfose, o corpo deve espelhar o seu verdadeiro género subjetivo. Para aqueles que procuram aproximação, a masculinidade é aprendida através do corpo. Para aqueles que contestam a masculinidade hegemónica, o corpo deve manter um certo grau de ambiguidade como lembrete do passado feminino. Para aqueles investidos na redefinição da masculinidade e da ordem de género, o corpo deve revelar a ruptura entre uma identificação discursiva e uma forma corporal não-normativa. Afinal, o corpo é o portador e o agente da masculinidade, que não poderia ser tornado inteligível sem ser reconhecido, seja pelos próprios indivíduos ou por outros, de uma forma material, através de práticas corporais.

Incorporar e encenar a masculinidade pode assumir formas variadas, mas, sejam quais forem, é através dos corpos que a masculinidade ganha uma forma palpável e se torna mais do que um mero discurso desincorporado. A iterabilidade citacional Derridiana, que Butler toma como elemento chave para a sua teoria da performatividade, não pode ser eficaz se rejeitarmos todas as dimensões materiais do corpo, sem obviamente cair em qualquer forma de essencialismo ou desconsiderar as contribuições de Connell. Como enfatiza Mara Viveros Vigoya (2018), o corpo é simultaneamente agente e objecto, constituindo um elemento central das práticas da masculinidade.

Afinal, os corpos são significantes primordiais e últimos da masculinidade, porque são interpretados através da lente histórica e cultural da ordem de género. Não porque o seu valor - como ‘carne’ significada - exista por si só. Porém, sem masculinidades corporais, o mero ‘fazer’ da masculinidade é insuficiente e tende a viver apenas teatralmente, fora da aparente (mas potencialmente subversiva) normalidade da vida quotidiana, como alertou Erving Goffman (1990 [1959]). Também, em linha com a teoria da prática, de Bourdieu às concepções críticas de Connell ou Ortner, não há género sem localizações sociais estruturais numa ordem de género. Ainda assim, quando um corpo - ou mesmo apenas uma hexis - é transformado, ocorre uma mudança na localização ou posição social (de género) do sujeito. É esta versão matizada do género, e particularmente da masculinidade, que pode ser desenvolvida, trazendo a trans-masculinidade para a linha de frente da análise. De certa forma, podemos argumentar que, conceptualmente, a masculinidade não precede os homens, mas ser ou tornar-se masculino implica um corpo material, no qual e com o qual podemos agir, e que é, por isso, objeto e agente simultaneamente.

Como mostram as evidências dos casos analisados, os corpos são importantes num sentido muito material. Se a masculinidade engloba um grande número de definições, a masculinidade corporal parece, apesar de todas as diferenças destacadas nas páginas anteriores, mais consensual ou mesmo convencional. Estilos e roupas variam, mas o que está ou aparenta estar por debaixo parece agir sobre a masculinidade. Ao mesmo tempo, também se pode agir com o corpo, e até reinterpretá-lo quando os indivíduos procuram desconstruir os vínculos entre masculinidade corporal convencional e masculinidade comportamental, na medida em que as percepções da diferença e dos binários de género, surgem muito mais ligadas a noções de masculinidade corporal do que de masculinidade comportamental. No entanto, cada ato de desconstrução depende do corpo para produzir ruptura e redefinição. A releitura do corpo geralmente implica trabalho corporal intensivo, como na definição de Turner (2008) das práticas corporais.

Talvez as ligações entre localização, prática e efeitos apresentados por Connell sejam imprecisas e excessivamente justapostas nalgumas interpretações. Por este motivo, também argumentamos que qualquer tentação de causalidade deve ser recusada. Além disso, sugerimos que poderá haver uma inversão conceptual desse esquema, com os corpos a serem muito mais que um efeito, mas antes, um constituinte vital da localização e, através da incorporação, as práticas podem construir a posição social, incluindo, no caso de indivíduos trans-masculinos, o local corporal. A nossa perspectiva não se enquadra numa mera versão citacional da masculinidade. Fazer masculinidade não pode ser reduzido a um texto, a uma recitação ou a um exagero performativo, conforme defendido nalgumas versões dos contributos queer. Em vez disso, jogando com o famoso título de Butler, Bodies that Matter (1993), os corpos importam não apenas porque as práticas discursivas produzem materialização, mas também porque as práticas têm uma agência material e uma forma, definindo a auto-percepção e a percepção dos outros. Caso contrário, mesmo corpos ilegíveis e abjetos não poderiam desafiar as normas reguladoras de género e obter agência política. Os corpos importam, afinal.

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1 Indivíduos trans-masculinos é um termo que adoptamos analiticamente (tal como Guilherme ALMEIDA, 2012, ao considerar que a expressão “homem trans” condensa a experiência trans masculina) para nomear todos aqueles que, de várias maneiras, desafiam a naturalidade do género como emanando da codificação sexuada dos corpos: quer se identifiquem como transexuais (femininos para masculinos), transgénero ou variantes dentro do espectro de masculinidade, como genderqueer, não-binário, gender fluid, entre outras designações (frequentemente em língua inglesa, mesmo noutros contextos linguísticos).

2Ao usar “sempre à partida”, pretendemos destacar, seguindo Butler (“always already”) e seu uso da noção de interpelação de Louis Althusser, que os indivíduos são sempre já sujeitos.

3De acordo com a Lei Britânica de Identidade de Género (Acto de Reconhecimento de Género de 2004), enquanto a alteração de documentos de identificação, como carta de condução e passaportes, implica um diagnóstico médico, a obtenção de um Certificado de Reconhecimento de Género, que permite alterar legalmente a categoria de género para todos os fins, incluindo certidões de nascimento, obriga a uma avaliação por um Painel de Reconhecimento de Género composto por uma equipa administrativa e um painel judicial composto por membros legais e médicos.

4Mesmo que o nosso foco esteja nas práticas corporais, como ferramenta teórica para compreender o fazer da masculinidade, os percursos trans de transição prestam-se a interpretações semelhantes, promovendo assim um processo de semelhança semântica. Ver igualmente as semelhanças, mas acima de tudo as diferenças, com os “grupos” apresentados por Almeida (2012).

5A disforia de género, para sermos mais exatos, é definida no DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM 5: Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th edition). Washington, DC: APA, 2014, p. 451) como a “angústia que pode acompanhar a incongruência entre o género experimentado ou exprimido de determinada pessoa e o género que lhe foi atribuído”. Espera-se que ocorram mudanças no DSM na sequência das alterações no CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) adoptadas pela Assembleia Mundial da Saúde, em junho de 2019. O termo Disforia de Género foi substituído por Incongruência de Género e é agora colocado sob o guarda-chuva das condições relacionadas com a saúde sexual.

Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista: ABOIM, Sofia; VASCONCELOS, Pedro. “O lugar do corpo. Masculinidades Trans e a materialidade corporal do género”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 30, n. 3, e81202, 2022

Financiamento: Conselho Europeu de Pesquisa (European Research Council) no âmbito do Sétimo Programa de Enquadramento da União Europeia (FP7/2007-2013) / contrato de subvenção ERC nº 615594 - Projecto TRANSRIGHTS - Cidadania de género e direitos sexuais na Europa: vidas transgénero numa perspectiva transnacional. O projecto reflete apenas as opiniões dos autores e a União Europeia não pode ser responsabilizada por qualquer uso que possa ser feito das informações nele contidas

Consentimento de uso de imagem: Não se aplica

Aprovação de comitê de ética em pesquisa: A aprovação ética foi concedida pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e pela Agência Executiva do Conselho Europeu de Pesquisa

Recebido: 07 de Maio de 2021; Revisado: 07 de Fevereiro de 2022; Aceito: 21 de Fevereiro de 2022

sofia.aboim@ics.ulisboa.pt; sofia.aboim@gmail.com

pedro.vasconcelos@iscte-iul.pt; pvasconcelosc@gmail.com

Sofia Aboim (sofia.aboim@ics.ulisboa.pt; sofia.aboim@gmail.com) é socióloga, Investigadora Auxiliar (nomeação definitiva) do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, instituição onde trabalha como docente e pesquisadora desde meados dos anos 90. Coordena presentemente o Projecto TRANSRIGHTS - Cidadania de género e direitos sexuais na Europa: vidas transgénero numa perspectiva transnacional, financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa da União Europeia

Pedro Vasconcelos (pedro.vasconcelos@iscte-iul.pt; pvasconcelosc@gmail.com) é sociólogo, Professor Associado (nomeação defintiva) do Departamento de Sociologia do Iscte Instituto Universitário de Lisboa, instituição onde trabalha como docente e pesquisador desde meados dos anos 90. É investigador sénior do Projecto TRANSRIGHTS - Cidadania de género e direitos sexuais na Europa: vidas transgénero numa perspectiva transnacional, financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa da União Europeia

Contribuição de autoria: As autoras contribuíram igualmente

Conflito de interesses: Não se aplica

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