Introdução
O entendimento de anatomia humana é fundamental para a formação do profissional de saúde, como o enfermeiro, o médico, o nutricionista, entre outros. Sabe-se que a anatomia faz parte de uma das ciências médicas mais antigas do mundo e é utilizada para compreender as estruturas macroscópicas do corpo humano. Nesse sentido, estudar essa disciplina possibilita entender como as estruturas corporais estão organizadas e suas particularidades (Colares et al., 2019).
Dentre os diversos sistemas corporais abordados na anatomia humana, o estudo das estruturas morfológicas do sistema reprodutor masculino e feminino é crucial para o profissional de enfermagem, dado o papel do enfermeiro na educação em saúde sexual e planejamento reprodutivo (Franze et al., 2019). Assim, o conhecimento da anatomia do sistema reprodutor contribui para que o enfermeiro oriente e cuide dos pacientes, implementando estratégias no âmbito assistencial e educacional para melhorar a atenção à saúde reprodutiva e sexual (Teodoro et al., 2020).
A saúde reprodutiva e sexual constitui direitos que compõem um dos pilares de manutenção da saúde pública no Brasil, sendo garantidos pela constituição federal, que torna obrigatória a garantia do planejamento familiar e reprodutivo em toda a rede de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) (Pacheco et al., 2020). Uma forma de valorização desses direitos é a promoção da educação em saúde, que potencializa o cuidado de enfermagem, promovendo atividades educativas ao paciente e proporcionando uma maior qualidade de vida (Costa et al., 2020).
Tendo em vista que a disciplina de anatomia é tipicamente abordada de forma separada do tema de saúde sexual durante o curso de enfermagem, não se conhece a percepção do discente de enfermagem acerca da associação de tais temas. A disciplina de anatomia humana, particularmente a anatomia do sistema reprodutor, é estudada pelos discentes nos períodos iniciais (ciclo básico do curso) da graduação, enquanto a saúde sexual é abordada nos períodos mais avançados do curso (ciclo clínico). Sendo assim, não é conhecido se os estudantes associam os temas anatomia do sistema reprodutor e saúde sexual, dada a importância do conhecimento da anatomia para compreender aspectos clínicos de forma mais especializada. Portanto, o objetivo deste estudo foi avaliar o impacto do conteúdo de anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino sobre o conhecimento de saúde sexual de discentes do curso de enfermagem. A hipótese do estudo foi que os discentes teriam a percepção de que o conhecimento da anatomia do sistema reprodutor é importante para abordar temas de saúde sexual para a população alvo dos enfermeiros.
Metodologia
Aspectos éticos
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Multidisciplinar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAAE: 66957023.7.0000.5699) e seguiu as normas éticas de pesquisa envolvendo seres humanos contidas na Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes foram plenamente informados sobre a natureza e o propósito da investigação e forneceram consentimento por escrito para participar.
Participantes do estudo
Os participantes do estudo foram discentes do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os critérios de inclusão foram: (i) idade igual ou superior a 18 anos; (ii) estar efetivamente matriculado na universidade e cursando as disciplinas; (iii) não estar inserido em projetos de pesquisa ou extensão que envolvam o assunto do presente estudo (anatomia do sistema reprodutor e saúde sexual); e (iv) já ter cursado a disciplina de anatomia dos sistemas reprodutores masculino e feminino. O critério de exclusão foi não responder a todos os itens da escala.
Tipo de estudo
Realizou-se uma pesquisa de natureza qualitativa, descritiva e exploratória. As pesquisas qualitativas se preocupam com um nível de realidade que não pode ser quantificado, aprofundando-se no mundo das ações e relações humanas, permitindo conhecer o que discorrem os indivíduos sobre suas experiências de vida (Minayo, 1992). Esse tipo de investigação requer abertura, flexibilidade, capacidade de observação e de interação com o grupo de investigadores e com os atores sociais envolvidos (Minayo, 1993). O estudo descritivo ajuda a compreender a realidade estudada, pois objetiva aprofundar o entendimento a respeito de determinada realidade, relatando com exatidão os fatos e fenômenos daquilo que se investiga. Já a pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema da pesquisa, com vistas a torná-lo explícito, envolvendo entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o objeto investigado; a partir dos dados coletados nas entrevistas, procedeu-se a uma análise dos exemplos que estimulam a compreensão da temática (Gil, 2002).
Desenho do estudo
A pesquisa foi realizada em uma universidade pública de enfermagem localizada no Estado do Rio de Janeiro. Na graduação dessa instituição, existem 43 professores para desenvolver um curso de enfermagem de 5.850 horas, organizado na perspectiva de áreas da profissão, na tentativa de romper com a fragmentação dos saberes e do cuidado ao ser humano. O curso é organizado em dez períodos letivos, cada um com 20 a 40 estudantes em média, grande parte dos quais do sexo feminino.
Para avaliar o conhecimento dos universitários, foi construída uma escala com fundamentação teórica a fim de compreender a associação entre o conhecimento de anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino e saúde sexual. Dessa forma, foram identificados os elementos-chave (anatomia do sistema reprodutor e saúde sexual) desse fenômeno no público selecionado, com base na literatura científica (Pacheco et al., 2020). Após revisão da literatura sobre os temas a serem abordados (anatomia e saúde sexual), os itens da escala foram formulados e avaliados pela equipe de pesquisa. Cada item da escala foi elaborado a fim de identificar a percepção do aluno sobre a relação entre o conteúdo de anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino e saúde sexual.
Em sequência, procedeu-se à validação dos itens da escala, o que é um processo importante durante a elaboração de instrumentos com o objetivo de medir e associar conceitos abstratos a parâmetros mensuráveis (Hencklein et al., 2022). Sendo assim, quatro especialistas na temática do presente estudo foram convidados para atuarem como juízes dos itens da escala. Para isso, os juízes foram informados sobre os objetivos e a definição constitutiva do estudo. Com base nessas informações, foi solicitado que os juízes avaliassem cada item da escala de acordo com a presença ou ausência de critérios de clareza, pertinência e relevância. Em relação à clareza, os juízes avaliaram o grau de clareza e compreensibilidade da sentença; quanto à pertinência, se é relevante para o instrumento; e quanto à relevância, se representa o construto/comportamento que se pretende medir. Os juízes atribuíram um valor de 1 a 5 para cada faceta (clareza, pertinência e relevância), onde 5 equivalia a totalmente adequado e 1 a não adequado. Por fim, os juízes poderiam indicar se havia necessidade de modificações de algum item da escala. A soma dos valores adquiridos de cada juiz foi utilizada para calcular o coeficiente de validade de conteúdo (CVC) para cada faceta, corrigido pelo viés (número de juízes), de acordo com Hernandez-Nieto (2002). Todos os itens foram considerados aceitáveis, tendo em vista que em todas as facetas foram encontrados escores acima de 0,80. O CVC total da escala foi de 0,98 para clareza, 0,97 para pertinência e 0,98 para relevância.
Resultados
Nesta pesquisa, participaram 97 estudantes de Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Campus Macaé, cursando entre o 3° e 10° período, sendo 82,5% do gênero feminino e 16,5% do gênero masculino. Foi observado que a maior parte dos participantes do estudo tinha idade entre 18 e 24 anos (69%), e uma menor parte, entre 25 e 34 anos (30%), conforme observado na tabela 1.
Tabela 1 Dados demográficos dos 97 participantes do estudo
| Idade | N | % |
|---|---|---|
| 18-24 | 67 | 69 |
| 25-34 | 29 | 30 |
| 35 ou mais | 1 | 1 |
| Prefiro não dizer | 0 | 0 |
| Gênero | ||
| Feminino | 80 | 82,5 |
| Masculino | 16 | 16,5 |
| Prefiro não dizer | 1 | 1 |
Fonte: Elaborada pelas autoras e pelo autor.
A escala inicialmente foi criada com dez itens, porém, após avaliação dos juízes, foi sugerida a retirada de um item da escala, pois apresentava similaridade com o item subsequente. Os pesquisadores do presente estudo concordaram com a sugestão, e, dessa forma, a escala foi composta por nove itens objetivos, contendo três alternativas: Sim, Não e Prefiro não responder, para expor o perfil de conhecimento dos estudantes sobre a temática do estudo. Além disso, perguntas adicionais foram elaboradas em complemento
a determinados itens, a fim de melhor compreender o assunto do estudo. Sendo assim, a tabela 2 demonstra os resultados obtidos para cada item da escala. Os resultados são reportados em porcentagem.
Tabela 2 Itens da escala utilizada para avaliação da percepção do estudante de enfermagem acerca da associação entre anatomia dos sistemas reprodutor e saúde sexual
| Itens | Respostas | ||
|---|---|---|---|
| Sim | Não | Prefiro não responder | |
| Você teve algum contato com a anatomia do sistema reprodutor antes da graduação? | 67,0% | 33% | - |
| 1.1 Em relação à pergunta anterior, se sua resposta foi sim, responda: Onde você teve contato com a anatomia e qual foi o meio de contato com a anatomia (livros, eventos, etc.)? | N/A | ||
| Você acha que o conhecimento de anatomia do sistema reprodutor foi importante para entender sobre saúde sexual? | 97,9% | 1,0% | 1,0% |
| Você mudou alguma atitude em termos de saúde sexual após estudar anatomia do sistema reprodutor? | 55,7% | 37,1% | 7,2% |
| 3.1 Justifique sua resposta à pergunta anterior, em poucas palavras. | N/A | ||
| Você já pesquisou sobre assuntos relacionados à saúde sexual? | 89,7% | 10,3% | - |
| 4.1 Em relação à pergunta anterior, se sua resposta foi sim, responda: Qual assunto dentro da saúde sexual te motivou a estudar sobre esse tema? | N/A | ||
| Você acha que a fonte onde você busca informações sobre saúde sexual fornece informações confiáveis? | 85,6% | 13,4% | 13,4% |
| 5.1 Em relação à pergunta anterior, quais as principais fontes você utiliza para buscar conhecimento sobre saúde sexual? | N/A | ||
| Você já orientou alguém sobre saúde sexual? | 95,9% | 4,1% | - |
| 6.1 Em relação à pergunta anterior, se sua resposta foi sim, qual pessoa você orientou? | N/A | ||
| Você acha que o enfermeiro, de modo geral, é um profissional capacitado para orientar a população sobre saúde sexual? | 97,9% | 2,1% | - |
| 7.1 Justifique sua resposta à pergunta anterior, em poucas palavras. | N/A | ||
| Com base no seu conhecimento de anatomia do sistema reprodutor, você se considera apto para falar sobre saúde sexual com um paciente? | 87,6% | 9,3% | 3,1% |
| Você acha que o conhecimento prévio de anatomia do sistema reprodutor influencia a conduta do enfermeiro ao orientar um paciente sobre questões sexuais e/ou reprodutiva? | 95,9% | 3,1% | 1,0% |
| 9.1 Em relação à pergunta anterior, se sua resposta foi sim, como você acha que o conhecimento prévio da anatomia influencia a conduta do enfermeiro na orientação sobre questões sexuais? | N/A | ||
N/A = Não se aplica
Fonte: elaborada pelas autoras e pelo autor.
No item 1, você teve algum contato com a anatomia do sistema reprodutor antes da graduação? foram obtidas 67% das respostas para Sim e 33% para Não. Aos alunos que responderam Sim, foi perguntado onde se obteve o contato e qual foi o meio desse contato (item 1.1). Os participantes responderam que o principal meio de contato com a anatomia ocorreu por meio de aulas durante o ensino médio, utilizando livros didáticos.
Na sequência, para o item 2, você acha que o conhecimento de anatomia do sistema reprodutor foi importante para entender sobre saúde sexual? 97,7% responderam que Sim, 1% Não e 1% Prefiro Não responder.
No item 3, você mudou alguma atitude em termos de saúde sexual após estudar anatomia do sistema reprodutor? 55,7% responderam que Sim, enquanto 37,1% responderam que Não e 7,2% preferiram não responder. Como complemento do item 3, foi solicitado que os participantes justificassem sua resposta (item 3.1). Grande parte dos que responderam ter mudado de atitude em termos de saúde sexual justificou mudança de hábito com relação à higiene íntima, controle do ciclo menstrual e planejamento reprodutivo.
Em relação ao item 4, você já pesquisou sobre assuntos relacionados à saúde sexual? e ao item 5, você acha que a fonte onde você busca informações sobre saúde sexual fornece informações confiáveis? ambos obtiveram resultados semelhantes, com 89,7% e 85,6% de respostas para Sim, respectivamente. Ao buscar justificativa para o item 4 (item 4.1), notou-se que assuntos relacionados a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) foram mais pesquisados. Em complemento ao item 5, foi questionado (item 5.1) sobre as fontes de conhecimento que os participantes tipicamente utilizam para pesquisa. A maior parte dos estudantes utiliza livros (42,9%), internet (sites governamentais e artigos científicos - 28,6%), profissionais da saúde (23,8%) e professores (4,8%) como fontes de pesquisa.
No item 6, você já orientou alguém sobre saúde sexual? 95,9% dos participantes responderam que Sim. No item 6.1, caso o item 6 fosse positivo, foi questionado: Qual pessoa você orientou? Foi reportado que a maioria das pessoas orientadas pelos estudantes são membros da família, cônjuges, pacientes e amigos próximos.
Para o item 7, você acha que o enfermeiro, de modo geral, é um profissional capacitado para orientar a população sobre saúde sexual? 97,9% das respostas foram positivas e 2,1% foram negativas. Ao solicitar uma justificativa (item 7.1), notou-se as seguintes pontuações mais prevalentes: "o enfermeiro é capacitado devido ao amplo conhecimento sobre saúde sexual e anatomia, disponibilizado durante a graduação"; "o enfermeiro é capacitado por ser um profissional da saúde habilitado para realizar educação em saúde" e; "o enfermeiro é capacitado para orientação, pois faz parte da assistência de enfermagem".
No item 8, com base no seu conhecimento de anatomia do sistema reprodutor, você se considera apto para falar sobre saúde sexual com um paciente? e no item 9, você acha que o conhecimento prévio de anatomia do sistema reprodutor influencia a conduta do enfermeiro ao orientar um paciente sobre questões sexuais e/ou reprodutivas? houve elevado grau de concordância, com 87,6% e 95,9%, respectivamente. Em relação ao item 9, foi questionado (item 9.1): Se sua resposta foi Sim, como você acha que o conhecimento prévio da anatomia influencia a conduta do enfermeiro na orientação sobre questões sexuais? Foi observado que a maioria das respostas pontuou os seguintes aspectos: "influência ao prover maior autonomia e conhecimento científico"; "influência na didática [mais clareza para orientar] da orientação dada aos pacientes"; "influência ao realizar procedimentos invasivos como cateterismo vesical e exame Papanicolau", e; "influência na orientação sobre higiene íntima".
Discussão
O presente estudo teve o objetivo de avaliar a percepção do estudante universitário sobre a relação entre o conteúdo de anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino e saúde sexual, temas abordados durante o curso de graduação em enfermagem. Foi elaborada uma escala contendo nove itens para entender a relação entre o conteúdo de anatomia do sistema reprodutor (estudado nos primeiros períodos de graduação) e saúde sexual.
Sendo assim, o estudo buscou compreender se os estudantes já haviam tido contato com o conteúdo da anatomia do sistema reprodutor antes da graduação (item 1). Foi observado que 67% dos estudantes já tinham tido contato com a anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino antes da graduação, ocorrendo este fato durante o ensino médio, por meio de livros didáticos. Apenas três participantes estudaram o sistema reprodutor durante outros cursos profissionalizantes na área da saúde. Corroborando nossos achados, um estudo recente investigou o impacto de metodologias ativas para o ensino de anatomia do sistema reprodutor feminino entre estudantes do ensino médio (Morin; Lüdke, 2019). Foi observado que os estudantes que passaram por essa metodologia ativa tiveram o conhecimento facilitado com respeito ao conteúdo em questão, associando-o a práticas da vida diária e autocuidado (Morin; Lüdke, 2019). Nossos achados reforçam que o conteúdo de anatomia humana tem início durante o ensino básico, permitindo uma experiência com a anatomia antes mesmo do ingresso na universidade (Morin; Lüdke, 2019). Esse fato é importante numa perspectiva de saúde sexual, pois, de acordo com o item 2 da escala aplicada no presente estudo, 97% dos estudantes concordam que o conhecimento de anatomia do sistema reprodutor foi importante para entender sobre saúde sexual. Portanto, considerando que o ensino da anatomia se inicia durante o ensino básico, isso pode ser um fator positivo para cuidados relacionados à saúde sexual. Embora 67% dos participantes desse estudo já tivessem contato com a anatomia durante o ensino básico, esse fato parece não ter influenciado a percepção dos alunos acerca da importância do conhecimento da anatomia do sistema reprodutor para entender sobre saúde sexual (ver itens 1 e 2).
A propósito, o item 3 buscou compreender a mudança de atitude em termos de saúde sexual após estudar a anatomia do sistema reprodutor. A maior parte dos estudantes (55,7%) reportou mudanças de atitude, sendo elas mudanças na higiene íntima (item 3.1). Esse achado é relevante, tendo em vista que a maioria dos participantes desse estudo foi composta por mulheres (82,5%). Esse assunto tem sido de interesse da comunidade científica, pois têm sido elaborados instrumentos para conscientizar a população feminina acerca da higiene íntima (Cézar et al., 2019). Por exemplo, Cézar et al. (2019) elaboraram um instrumento visual a fim de conscientizar a população feminina sobre higiene íntima, oferecendo esse conhecimento como uma maneira de prevenir patologias associadas a práticas de higiene íntima ineficientes. Os autores reportaram que muitas mulheres possuem conhecimento insuficiente sobre o assunto abordado e reforçaram a ideia de que a prática de promoção à saúde da mulher deveria ser mais acessível. Embora a maior parte dos participantes desse estudo seja do sexo feminino, o que poderia influenciar nossos achados, um estudo anterior mostrou que homens também possuem certa conscientização sobre higiene íntima para manter a saúde do sistema reprodutor (Edielson et al., 2020).
O presente estudo também observou que 89,7% dos estudantes reportaram já terem pesquisado assuntos relacionados à saúde sexual (item 4) e 85,6% dos estudantes relataram buscar informações sobre saúde sexual em fontes confiáveis (livros, artigos científicos, professores, etc.) (item 5). Foi observado que grande parte dos assuntos que os estudantes buscam está relacionada a ISTs (item 4.1). Interessantemente, uma revisão integrativa de literatura buscou investigar o conhecimento e atitude de acadêmicos de cursos da saúde sobre ISTs (Pereira et al., 2021). Os autores evidenciaram que, apesar dos discentes terem um conhecimento satisfatório sobre ISTs, eles ainda possuem atitudes displicentes ao continuar praticando relações sexuais desprotegidas (Pereira et al., 2021). Este fato pode indicar que ainda há uma lacuna entre o ato de conhecer sobre algo (ex.: ISTs) e ter atitudes coerentes com respeito à saúde sexual.
A maior parte dos estudantes (95,9%) relatou já ter orientado alguém sobre saúde sexual, sendo a maior parte da população orientada por eles composta por membros da família e pacientes (item 6.1), com os quais os discentes tinham contato durante os estágios e/ou aulas práticas em unidades básicas de saúde e hospitais. Nesse sentido, um estudo qualitativo realizado com a finalidade de identificar o conhecimento e ações de autocuidado tomadas por estudantes de graduação em enfermagem de uma Universidade Federal do Sul do Brasil demonstrou que a dissipação de conhecimento sobre ISTs influencia não somente o autocuidado, mas também a promoção à saúde (Pétry et al., 2018). Nesse contexto, 97,9% dos participantes da pesquisa informaram achar que o enfermeiro é um profissional capacitado para orientar a população sobre saúde sexual (item 7), justificado pelo fato de o enfermeiro ter um amplo conhecimento do tema, sendo este adquirido durante o curso de graduação (item 7.1). Em sentido semelhante, um estudo qualitativo exploratório demonstrou que os acadêmicos aparentam entender sobre contracepção e prevenção de ISTs, bem como compreendem que esse conhecimento é fundamental para uma saúde sexual satisfatória (Pétry et al., 2018). Em contrapartida, Sales et al. (2016) detectaram comportamento de risco sexual (mau uso de preservativos e pouco conhecimento sobre ISTs) em estudantes da área da saúde. Esses fatos apontam a importância da inclusão de debates sobre saúde sexual nas instituições de ensino superior, principalmente em cursos direcionados à saúde.
No último item da escala, 95,9% dos estudantes concordaram que o conhecimento prévio de anatomia do sistema reprodutor influencia a conduta do enfermeiro ao orientar um paciente sobre questões sexuais e/ou reprodutivas. Esse achado sugere que o estudante de enfermagem reconhece a importância do conhecimento de anatomia do sistema reprodutor para orientar a população sobre saúde sexual. Santos e Peixoto (2022) reportaram que os enfermeiros desempenham um papel importante na educação dos pacientes sobre saúde reprodutiva, contracepção, ISTs, gravidez e parto. Dessa forma, para realizar a função de educação de forma eficaz, os estudantes/profissionais precisam compreender a anatomia, particularmente do sistema reprodutor, para intervir com ações relacionadas à educação em saúde sexual nos pacientes de maneira clara e acessível.
O conhecimento detalhado das estruturas e órgãos é fundamental para que os enfermeiros compreendam como os sistemas corporais funcionam e como as diferentes partes se relacionam, assim como para identificar e diagnosticar problemas de saúde relacionados ao sistema reprodutor masculino e feminino (Gomes et al., 2019). Nossos achados reforçam que os estudantes reconhecem a importância do conhecimento da anatomia do sistema reprodutor para atuarem em educação em saúde sexual (item 9). Tendo em vista que a grade curricular do curso de enfermagem da instituição na qual este estudo foi realizado não debate os temas em conjunto, o próprio estudante é o responsável por associar as áreas de conhecimento (anatomia e saúde sexual). Cabe salientar que há a possibilidade de o estudante não associar essas áreas de conhecimento durante a graduação devido à grande demanda de estudos de outros conteúdos da grade curricular, o que pode comprometer a formação profissional. Portanto, os achados deste estudo contribuem para a conscientização dos professores universitários de que pode ser necessária a inclusão de debates durante o curso de enfermagem, a fim de instruir os estudantes acerca dos temas de forma conjunta, atuando com professores de diferentes áreas (anatomia humana e saúde sexual).
Conclusão
O presente estudo reportou que universitários do curso de enfermagem compreendem que o ensino da anatomia do sistema reprodutor masculino e feminino é relevante para entender aspectos relacionados à saúde sexual. O estudo da anatomia humana é introduzido aos estudantes durante o ensino básico, sendo este um fator fundamental para que o futuro estudante universitário inicie sua compreensão sobre cuidados com a saúde sexual, a fim de prevenir doenças relacionadas ao sistema reprodutor. Assim, o estudante de enfermagem pode compreender melhor as associações entre anatomia do sistema reprodutor e saúde sexual de forma mais efetiva, tendo em vista que os assuntos já foram introduzidos durante o ensino básico.
Os estudantes de enfermagem têm a percepção de que o conhecimento de anatomia do sistema reprodutor é importante para a compreensão da saúde sexual e necessário para a atuação profissional junto ao público-alvo do enfermeiro. Os enfermeiros necessitam apresentar conhecimento sobre a saúde sexual para orientar a população acerca de hábitos de vida saudável, tais como a higiene e a realização de exames de rotina do sistema reprodutor, assim como o uso de contraceptivos. Os estudantes têm ciência da função do enfermeiro em prestar auxílio à população acerca de cuidados em saúde, principalmente relacionados à saúde sexual.
Esses achados sugerem que ações multidisciplinares podem ser conduzidas durante a graduação do curso de enfermagem para debaterem aspectos anatômicos do sistema reprodutor e saúde sexual de forma unificada, a fim de melhorar a qualificação profissional do enfermeiro. O ambiente de troca de experiência entre profissionais de diferentes áreas do conhecimento (anatomia e saúde sexual) e os estudantes é crucial para a formação do estudante de enfermagem, pois é durante esses momentos que ideias e planos de ação surgem para serem colocados em prática.














