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Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702On-line version ISSN 1678-4634

Educ. Pesqui. vol.50  São Paulo  2024  Epub Nov 07, 2024

https://doi.org/10.1590/s1678-4634202450276324por 

ARTIGOS

Percepções de estudantes do ensino superior sobre um processo educativo mediado por contação de histórias

Mirelly da Silva Barros1 

Mirelly da Silva Barros é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal de Pernambuco e enfermeira pediátrica.


http://orcid.org/0000-0002-5205-0144

Adélia Karla Falcão Soares1 

Adélia Karla Falcão Soares é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco e enfermeira pediátrica.


http://orcid.org/0000-0003-2030-4207

Jeanine Porto Brondani2 

Jeanine Porto Brondani é docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Maranhão e enfermeira pediátrica.


http://orcid.org/0000-0002-3061-4199

Cláudia Marina Tavares De Araújo1 

Cláudia Marina Tavares de Araújo é docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal de Pernambuco e fonoaudióloga.


http://orcid.org/0000-0002-4478-1027

Joseph Dimas De Oliveira3 

Joseph Dimas De Oliveira é docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Regional do Cariri, enfermeiro pediátrico e ludoterapeuta.


http://orcid.org/0000-0001-8105-4286

Gabriela Cunha Schechtman Sette1 

Gabriela Cunha Schechtman Sette é docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco e enfermeira.


http://orcid.org/0000-0002-7200-8381

Daniela Tavares Gontijo1 

Daniela Tavares Gontijo é docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal de Pernambuco e terapeuta ocupacional.


http://orcid.org/0000-0002-2117-0143

Maria Wanderleya de Lavor Coriolano-Marinus1 

Maria Wanderleya de Lavor Coriolano-Marinus é docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal de Pernambuco e enfermeira.


http://orcid.org/0000-0001-7531-2605

1-Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PE, Brasil

2-Universidade Federal do Maranhão. São Luís, MA, Brasil

3-Universidade Regional do Cariri, Crato. CE, Brasil


Resumo

O objetivo do estudo é analisar as percepções de estudantes do ensino superior sobre um processo educativo com foco na primeira infância, mediado pela contação de histórias em uma abordagem interprofissional. A metodologia adotada foi o estudo de caso único, do tipo avaliativo. Participaram estudantes de graduação de uma universidade pública no Nordeste do Brasil. Os dados foram coproduzidos a partir de um processo educativo, interprofissional, em formato híbrido, mediado por histórias infantis, chamado Naveghi. As atividades incluíram encontros on-line na plataforma Google Meet ® e atividades práticas presenciais em espaços comunitários de cuidado às crianças e famílias. Os instrumentos de coleta de dados foram: 1) carta de interesses individuais; 2) formulário inicial e final; 3) narrativas e produções ao longo dos encontros teóricos e práticos; 4) portfólio individual e 5) grupo focal avaliativo. A análise de dados foi realizada com categorização a partir do referencial de Vygotsky. Os estudantes destacaram elementos afetivos e conhecimentos sobre suas infâncias, ampliaram competências relacionadas ao cuidado com a criança e família, como a comunicação e escuta qualificada em ações conjuntas e interprofissionais com mediação da contação de histórias. A contação de histórias mostrou-se uma potencial ferramenta para o processo de ensino-aprendizagem com estudantes do ensino superior, com integração de afetos e emoções. A abordagem favoreceu a colaboração interprofissional e a reflexão de conhecimentos teóricos e práticos para consolidação de práticas relacionadas ao cuidado com crianças e famílias, a partir de aspectos estéticos e emocionais.

Palavras-chave Literatura infantil; Educação interprofissional; Ensino superior; Criança; Pré-Escolar

Abstract

This study aimed to analyze higher education students’ perceptions about an educational process focused on early childhood, mediated by storytelling in an interprofessional approach. The methodology adopted was a single case study of the evaluative type. Undergraduate students from a public university in northeastern Brazil participated. The data were co-produced from an interprofessional educational process, in a hybrid format, mediated by children’s stories, called Naveghi. The activities included online meetings on Google Meet® and in-person practical activities in community spaces for caring for children and families. The data collection instruments were: 1) individual interest letter; 2) initial and final forms; 3) narratives and productions throughout the theoretical and practical meetings; 4) individual portfolio; and 5) evaluative focus group. Data analysis was performed with categorization based on Vygotsky’s framework. Students highlighted emotional elements and knowledge about their childhoods, and expanded their skills related to child and family care, such as communication and qualified listening in joint and interprofessional actions mediated by storytelling. Storytelling proved to be a potential tool for the teaching-learning process with undergraduate students, with the integration of affections and emotions. The approach favored interprofessional collaboration and the reflection of theoretical and practical knowledge to consolidate practices related to child and family care based on aesthetic and emotional aspects.

Keywords Children’s literature; Interprofessional education; Higher education; Children; Preschool

Introdução

O processo formativo é um meio que contribui para ampliar e desenvolver conhecimentos a respeito de determinada temática. Todo conhecimento percorre por caminhos individuais e coletivos, que permeiam o desejo e a necessidade de aprender no processo de busca pelo conhecimento (Vygotsky, 1991 ). A partir dessa perspectiva, torna-se relevante a análise de processos formativos com base nas percepções dos estudantes.

As necessidades de saúde integrais e complexas que envolvem a primeira infância solicitam uma articulação que contemple a perspectiva interdisciplinar e intersetorial desde a formação universitária (Lemos; Magiolino; Silva, 2022 ; RNPI, 2020 ). Entretanto, na formação superior em saúde ainda predomina o processo de ensino-aprendizagem baseado na transmissão de conhecimentos e a fragmentação de saberes, em espaços individuais de cada profissão, com pouca integração entre pares e distante de contextos reais (Lacerda; Santos, 2018 ).

Ambientes que permitem o desenvolvimento de uma aprendizagem transdisciplinar no ensino superior podem melhorar o atendimento das necessidades humanas, a partir de profissionais capazes de interagir em suas diferentes profissões. Suas ações devem ter um objetivo comum: a resolução dos problemas complexos da sociedade (Caron et al ., 2023 ).

Na realidade brasileira do ensino superior, há também o distanciamento dos estudantes durante o processo de formação, embora no contexto profissional a atuação em equipe seja uma realidade. Essa realidade de distanciamento entre os cursos faz com que os futuros profissionais tenham dificuldade em atuar de forma interprofissional (em ações e práticas colaborativas e conjuntas) em planos e projetos, o que pode dificultar construções integradas e participativas (Batista, 2012 ; Hong; Shaffer, 2015 ).

Apesar de existir nas bases curriculares a estrutura necessária para otimização de um processo de ensino e aprendizagem interprofissional, ainda é preciso avançar quanto ao uso de ferramentas e ações práticas que tornem essa vivência mais consistente e ampliada no ensino superior (De Mazzi et al ., 2023 ). O ensino interprofissional surge enquanto alternativa para favorecer a integração profissional durante a formação, visando o fortalecimento dos processos de trabalho a partir de relações colaborativas, tendo em vista que permite a integração de diferentes cursos e profissões, considerando os diversos saberes e as interseções de cuidado (Barbosa et al ., 2021 ; Silva Leal et al ., 2021 ).

Os processos de ensino-aprendizagem que contemplam a arte, a estética e a criatividade podem contribuir para processos de ensino-aprendizagem horizontais e colaborativos, pois favorecem o uso de ferramentas alternativas para aprender e ensinar (Vygotsky, 2010 ; Silva; Schor; Gallian, 2021 ).

No processo de ensino-aprendizagem sob o olhar de Vygotsky ( 2010 ), o professor não é observado como fonte unitária do saber. O professor deve atuar como mediador nesse processo, com valorização das potencialidades dos contextos cotidianos e da sociointeração no processo de construção/uso de conhecimentos.

Desse modo, a contação de histórias na sala de aula oferece oportunidades para incorporar elementos artísticos, estéticos, narrativos, de formação de identidade criativa e de escrita. Essa característica autêntica da contação de histórias favorece o processo de ensino e aprendizagem, direcionando a atenção dos estudantes para novas compreensões e observação de diferentes cenários e fatos, favorecendo a construção de significados e reflexões sobre o modo de agir e ser profissional (O’Byrne et al ., 2018 ).

Este estudo partiu do pressuposto de que a contação de histórias/literatura infantil poderia ser uma ferramenta estética para a construção de saberes, habilidades práticas e reflexão de estudantes do ensino superior sobre a primeira infância. O uso de histórias da literatura infantil para aprimorar conhecimentos e habilidades práticas no ensino superior a partir de intervenções colaborativas e interprofissionais em formato híbrido foi desenvolvido com a perspectiva de agregar elementos relacionais com conhecimentos sólidos e práticos sobre o desenvolvimento na primeira infância.

O objetivo do presente estudo foi analisar as percepções de estudantes do ensino superior sobre um processo educativo com foco na primeira infância, mediado pela contação de histórias em uma abordagem interprofissional.

Descrição do processo educativo

O processo educativo Histórias e saberes: o desvelar de olhares para a primeira infância , navegando para os caminhos possíveis-Naveghi foi desenvolvido como um projeto de extensão e pesquisa em formato híbrido em uma universidade pública do Brasil durante o contexto da pandemia da Covid-19.

O Naveghi é a junção entre as palavras navegar e histórias , somos um projeto de extensão vinculado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e criamos o @naveghi para otimizar o nome do nosso projeto no contexto das redes sociais. O processo educativo mencionado anteriormente possuía enquanto objetivo desenvolver conhecimentos e habilidades práticas sobre a atuação de estudantes de graduação do ensino superior em Educação e Saúde com crianças na primeira infância, por meio da contação de histórias/literatura infantil. Participaram do projeto estudantes vinculados a diferentes cursos e áreas do conhecimento: cursos de Enfermagem, Letras, Medicina, Terapia Ocupacional e uma equipe de professores/profissionais colaboradores.

Do ponto de vista teórico, usamos Vygotsky ( 2010 ) enquanto fundamentação pedagógica para direcionar os encaminhamentos do processo educativo, de maneira colaborativa e interacional entre diferentes estudantes, considerando os interesses/necessidades e os afetos/emoções relacionadas ao processo de aprendizagem. O processo educativo fundamentou-se na educação de sentimentos e na educação estética mediada através da contação de histórias/literatura infantil.

Do ponto de vista operacional, o processo educativo considerou os princípios pedagógicos de Bloom (Ferraz; Belhot, 2010 ) ao estabelecer como 1) objetivos cognitivos: compreender conceitos relacionados à primeira infância; refletir sobre a infância na perspectiva individual e social, a partir de narrativas pessoais; refletir através das histórias infantis sobre a primeira infância na atualidade; 2) objetivos afetivos: apreender expectativas e experiências de crianças na infância, a partir de distintas situações cotidianas; exercer a empatia e estratégias de cuidado à criança, pais e famílias no contexto dos serviços de saúde e no âmbito social; refletir sobre a sua infância com o propósito de trazer contribuições no cuidado às crianças em contexto de vulnerabilidade.

O processo formativo mediado pela contação de histórias tinha a intencionalidade de mobilizar nos estudantes participantes a apreensão e compreensão sobre suas vivências e a compreensão de aspectos que permeiam a infância de crianças em diferentes contextos na atualidade. Além disso, o compartilhamento de narrativas e vivências em grupo contribuiu para que os estudantes refletissem sobre o seu modo de ser, sentir, criar e imaginar.

Os encontros teórico-síncronos foram organizados em cinco temas. Esses encontros aconteceram uma vez por semana, com duração média de 60 a 90 minutos cada, sempre mediados pela contação de diferentes histórias infantis, no período de setembro de 2021 a março de 2022. Todos os encontros síncronos foram realizados através da plataforma Google Meet .

Os livros de Oliver Jeffers foram os mais trabalhados devido às narrativas mobilizarem aspectos reflexivos sobre a infância e a relação criança-cuidadores; além disso, os livros do autor possuem aspectos imagéticos ricos para possibilitar a discussão entre pares.

O Quadro 1 apresenta os encontros e estratégias educativas, incluindo os livros infantis trabalhados.

Quadro 1 - Descrição dos temas, livros e estratégias utilizadas no processo educativo, Recife, 2022 

Tema Livro Ano de publicação Resumo da história do livro Estratégias de ensino-aprendizagem
Reflexões sobre a infância individual/de si O coração e a garrafa Autor: Oliver Jeffers 2012 O livro descreve a trajetória de uma menina que se admirava com o mundo e seus encantamentos, até que em certo momento da vida precisou guardar seu coração em uma garrafa para que ele ficasse seguro. Posteriormente, quando ela cresceu, percebeu que precisava do seu coração, e apenas uma criança foi capaz de ajudá-la. - Tenda do Conto: compartilhamento individual de um objeto significativo a partir de uma narrativa pessoal da infância
- Avaliação oral
- Portfólio individual
- Reflexão sobre a infância de si
Conceitos e reflexões sobre o desenvolvimento da criança

Aqui estamos nós: notas sobre como de viver no planeta Terra

Autor: Oliver Jeffers

2017 O livro foi escrito pelo autor para o seu filho recém-nascido e apresenta uma diversidade de temáticas que a criança precisará saber para viver no planeta Terra. A obra descreve o universo e sua imensidão, o planeta Terra e sua diversidade, as pessoas e os animais, terras e mares. - Exposição dialogada
- Problematização
- Avaliação oral
- Portfólio individual
- Reflexão sobre o papel da comunidade no desenvolvimento infantil
- Reflexão sobre parentalidade e redes de apoio
Conceitos e reflexões sobre o desenvolvimento da criança As pequenas alegrias Autora: Maynara Abreu 2020 O livro aborda a rotina do pequeno esquilo Duque em um dia do seu cotidiano na floresta. A obra descreve as pequenas alegrias que o cercam e o encontram, orientando os seus amigos para os detalhes e para as belezas da vida. - Reflexão sobre a beleza e a estética no cotidiano
As diferentes áreas na primeira infância A arca de ninguém Autora: Ana Catalbiano 2019 O livro narra a história de Noé e suas dificuldades para convencer os animais a entrarem na arca. A narrativa mostra alguns problemas que ocorreram durante a realização dessa tarefa devido às dificuldades relacionais entre os diferentes animais e a necessidade de se integrarem para salvarem-se do fatídico dilúvio. - Seminário com especialistas: terapeuta ocupacional e arquiteta
- Avaliação oral
- Portfólio individual
- Reflexão sobre as diferentes profissões que atuam na promoção da primeira infância
Introdução à contação de histórias I A menina do livro Autor: Oliver Jeffers 2018 O livro descreve a viagem pelo mundo fantástico das possibilidades e descobertas mediadas pelos livros e aventuras pelos caminhos dos sonhos e da imaginação. - Exposição dialogada
- Problematização
- Avaliação oral
- Portfólio individual
- Reflexão sobre a contação de histórias na infância e meios para favorecer a imaginação/criatividade durante a primeira infância
Pensando a resolução de problemas para a primeira infância –cocriação

O que vamos construir: planos para um futuro comum

Autor: Oliver Jeffers

2021 O livro descreve a história de um pai e uma filha que viajam por um mundo de aventuras, procurando maneiras de construir coisas e memórias, com intuito de tornar o futuro um lugar possível para viver. - Apresentação da ideação dos grupos
- Discussão coletiva
- Avaliação oral
- Portfólio individual
- Reflexão e construção de intervenções para o fortalecimento da primeira infância

Fonte:Os autores, 2021.

A abertura e a discussão temática inicial de cada encontro eram mediadas pela contação de histórias, seguida de apresentação dialogada com especialistas (enfermeiros, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, arquiteto, graduado em letras).

Como recurso auxiliar, a pesquisadora principal narrou, editou e disponibilizou narrações dos livros infantis na plataforma Google Classroom . Os vídeos foram previamente gravados e editados, sendo disponibilizados em até 48 horas antes dos encontros.

As atividades práticas aconteceram em espaços de cuidado às crianças e famílias (duas bibliotecas comunitárias, uma enfermaria pediátrica, uma emergência pediátrica). Nas primeiras visitas os estudantes observaram os espaços, conversaram com crianças, famílias e profissionais.

Após o primeiro contato, os estudantes foram organizados em três grupos, com quatro participantes, tutorados pelas pesquisadoras. Os grupos escolheram um dos espaços visitados, selecionaram materiais, livros e recursos para realizarem a segunda visita, apresentando uma história em uma sessão coletiva a partir da cocriação do grupo.

Método

Pesquisa qualitativa, a partir do desenho Estudo de Caso, com interpretação teórica fundamentada em Vygotsky.

Tipo de estudo

Estudo de caso, único, do tipo avaliativo. O caso em questão é um processo educativo sobre primeira infância com contação de histórias como estratégia de ensino-aprendizagem com estudantes do ensino superior – Naveghi.

Local

O processo educativo foi realizado em formato híbrido em uma universidade pública no Nordeste do Brasil. As atividades teóricas aconteceram em Ambiente Virtual de Aprendizagem ( Google Classroom , Google Meet e WhatsApp ), devido às normas de distanciamento social vigentes para contenção da pandemia da Covid-19 no ano de 2021. As atividades práticas foram presenciais, aconteceram no período de dezembro de 2021 a março de 2022, em contextos com crianças e famílias (bibliotecas comunitárias, emergência pediátrica e enfermaria pediátrica). As normas vigentes para a contenção da Covid-19 foram respeitadas, com uso de máscaras, álcool em gel e pequenos grupos.

Participantes

O recrutamento dos estudantes de diferentes cursos do ensino superior aconteceu por meio de mídias sociais ( Instagram e WhatsApp ) no período de julho a setembro de 2021, com preenchimento de formulário via Google Forms . O formulário continha o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para a participação no processo educativo e na pesquisa. Os estudantes interessados pertenciam aos cursos de graduação em Enfermagem, Medicina, Terapia Ocupacional e Letras. A amostra foi composta por onze participantes e todos concluíram as atividades propostas.

Instrumentos de coleta de dados

As múltiplas fontes de evidência para a coleta de dados seguiram as diretrizes de estudos de casos avaliativos de Yin ( 2015 ).

A coleta de dados ocorreu entre os meses de setembro de 2021 a março de 2022, de forma paralela e simultânea ao processo educativo.

Os instrumentos de coleta de dados foram:

1) Carta de interesses: os estudantes narraram de forma individual uma carta na qual expuseram os interesses, motivações e expectativas.

2) Formulários inicial e final: o inicial permitiu a sondagem sobre conhecimentos e experiências prévias dos graduandos a respeito da sua infância e sobre temáticas relacionadas à primeira infância; e, ao término, o formulário final avaliou a articulação entre conhecimentos prévios e adquiridos ao longo do processo educativo.

3) Observação participante com registros da pesquisadora principal: as observações, reflexões e comentários feitos pela pesquisadora foram registrados em um diário de campo com impressões sobre cada encontro.

4) Transcrições dos encontros síncronos: todos os encontros virtuais, via plataforma Google Meet , foram gravados e, posteriormente, transcritos. Esse material foi revisado e contribuiu para codificações sobre sentimentos, pensamentos e reflexões dos participantes.

5) Portfólio individual: os estudantes escreveram um portfólio individual durante o processo educativo, com registros sobre as atividades realizadas, sentimentos e conhecimentos. Os estudantes foram orientados a descrever aspectos significativos sobre as atividades teóricas e práticas, incluindo a cocriação nas atividades do grupo.

6) Grupo focal: o grupo focal avaliativo teve a proposta de compreender, a partir dos participantes, a avaliação do processo educativo e a contribuição para o seu processo de ensino-aprendizagem nos aspectos individuais e em grupo, com foco na contação de histórias e na primeira infância. Foram realizados dois grupos, para contemplar a disponibilidade dos participantes. Cada grupo durou em média de 85 a 90 minutos. Os grupos aconteceram ao ar livre devido o contexto da pandemia da Covid-19. O ambiente foi preparado com mantas quadriculadas sobre a grama. Os participantes foram convidados a descreverem como se sentiram diante da realização das atividades teóricas e práticas, questionou-se sobre o papel de suas profissões no cuidado à primeira infância e como se deu a articulação interprofissional entre os grupos.

Os demais questionamentos envolveram o papel da contação de histórias durante a realização das intervenções nos contextos práticos e, por fim, abordou-se o papel da contação de histórias durante a mediação no processo educativo e durante as intervenções, enfatizando-se sobre fortalezas, dificuldades, fragilidades e frutos durante o processo educativo.

Ao término do grupo focal, foi realizado um coffee break e cada estudante recebeu um origami ( tsuru ).

Fonte: Autoria própria.

Figura 1 - Grupos focais ao ar livre. Naveghi, Recife, 2022 

O registro da coleta de evidências do grupo focal ocorreu por meio da gravação de áudio, bem como anotações no diário de campo. Foi realizada a transcrição dos dados logo após a realização dos grupos, com transferência do conteúdo para o computador.

Análise de dados

Todos os dados coletados foram transcritos e, posteriormente, submetidos a procedimentos sistemáticos para a sua organização no programa Microsoft Word . Na sequência, foram analisados a partir das etapas definidas por Gibs ( 2009 ). Os dados foram lidos pela primeira e última autora deste trabalho, com marcação dos códigos emergentes. Os códigos descritivos receberam uma análise interpretativa posterior. Na última etapa, os códigos analíticos foram categorizados a partir da fundamentação teórica de Vygotsky sobre o processo de aprendizagem.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos, sob o parecer de nº 4.402.74. Todos os participantes assinaram por meio digital o TCLE. Nesse momento, escolheram nomes de personagens de histórias infantis como codinomes.

Resultados

No perfil geral dos participantes, dez eram do sexo feminino e um do sexo masculino, totalizando onze participantes. Quanto ao contato anterior com a contação de histórias, três participantes revelaram que não tiveram contato com a contação de histórias. Com relação aos conhecimentos prévios sobre o tema primeira infância, todos relataram o contato com as crianças durante a primeira infância no contexto da formação profissional ou na rede familiar. Em relação à idade, esta variou de 19 anos a 27 anos.

Todos os estudantes cursavam suas graduações em uma universidade pública e demonstraram interesse em participar da pesquisa através de uma carta de interesse, submetida no ato da inscrição. Os participantes registraram as motivações, expectativas e inferências a respeito do projeto, assim como informações sobre sua disponibilidade de tempo para a realização das atividades propostas. Nessa carta de interesse, os participantes descreveram sobre o contato anterior com a contação de histórias. Três participantes revelaram que não tiveram contato com a contação de histórias. Quanto aos conhecimentos prévios sobre o tema primeira infância, todos relataram o contato com as crianças durante a primeira infância no contexto da formação profissional ou na rede familiar.

A análise do conjunto dos dados possibilitou a construção de duas categorias que se articulam aos objetivos do estudo, explicitadas na Figura 2 :

Source: Own authorship.

Figura 2 - Sistematização das categorias e temas emergentes a partir dos dados. Recife, 2022 

Afetos e emoções do processo educativo: compartilhando caminhos e infâncias

A intencionalidade do primeiro encontro visava a recuperação e integração de sentimentos que se relacionassem com a primeira infância, conduzindo para um melhor conhecimento de si e dos outros. Os estudantes perceberam a organização estética do encontro, e a diversidade de memórias compartilhadas permitiu a formação de novas perspectivas sobre a infância.

Esse foi um momento realmente muito lindo do encontro. Escutar cada história e compartilhar memórias foi algo bastante significativo. Com certeza, passaremos a nos enxergar com outros olhos [...] Definir o encontro em uma só palavra; foram elas: nostalgia (a que eu falei), saudade, memórias, conexões, significados, resgate, lembranças e outras. De fato, cada uma dessas palavras definem o que foi o momento de hoje, repleto de sentimentos e significados.

(Portfólio, Cachinhos Dourados).

A mediação dos encontros a partir das narrativas individuais e da literatura infantil foi percebida como oportunidade de fortalecer relações interpessoais do grupo. As ferramentas e objetos usados durante a formação trouxeram, para o contexto de aprendizagem, significados emocionais que puderam ser relacionados às brincadeiras da criança em desenvolvimento.

Muitas pessoas se emocionaram e senti que depois desses momentos, os laços emocionais foram se estreitando com todo o grupo de extensão. Além de termos um diálogo sobre a infância e do conhecimento em si.

(Portfólio, Caroline).

[...] foi muito emocionante ter esse contato de forma mais íntima com os outros integrantes da extensão, ver diversos objetos como livros, brinquedos, uma bíblia e um cobertor nos fez levar a dimensão da infância para muito além do brinquedo comercial, pois, especialmente na primeira infância, tudo é brinquedo, a imaginação é muito forte na construção do brincar e crescer [..]

(Portfólio, Lumiére).

As recordações suscitadas pelo encontro propiciaram reflexões sobre o passado, além da valorização de momentos afetivos e simples, tornando-as impulsionadoras para o autoconhecimento a partir das experiências pregressas e de uma avaliação positiva. Essas experiências prévias individuais evidenciaram-se enquanto base para a construção de novos conhecimentos sobre a primeira infância e formação de uma autoconsciência sobre si.

[...] foi impossível não retornar ao passado, ao escutar os relatos dos colegas, e relembrar de coisas que há muito tempo havíamos esquecido. Foi emocionante perceber que às vezes estamos tão ocupados com o hoje, o amanhã e esquecemos as boas lembranças e momentos que marcaram nossa trajetória até aqui.

(Portfólio, Jasmine).

As histórias me fizeram passear por tantas infâncias bonitas e significativas, foi como viajar pela vida de uma criança através da voz de um adulto. Me lembrou a sensação de ler ‘O Pequeno Príncipe’. Palavra do dia: acolhimento (e gratidão por terem acolhido meus retalhos). Eu aprendi que conhecer as histórias de outras pessoas me ajuda a conhecer mais da minha própria história, coisas tão profundas que eu sequer sabia que estavam aqui.

(Portfólio, Princesa Jujuba).

A identificação com objetos e cenários que suscitam reações emocionais nos estudantes tornou possível o acesso de memórias e aspectos importantes no processo de ensino e aprendizagem, pois possibilitou a recuperação de sentimentos empáticos e reflexões sobre si, a partir do outro. Essa compreensão contribuiu na relação do grupo enquanto equipe e no processo de tomada de decisão profissional.

Aprendendo através da contação de histórias/literatura infantil: perspectivas da educação dos sentimentos e da educação estética

O processo de ensino-aprendizagem sobre primeira infância é complexo. A contação de histórias para mediar esse processo formativo contribuiu para despertar novos olhares e reflexões sobre a primeira infância, incluindo a relação entre pais e criança e a motivação para a aprendizagem de uma forma leve e prazerosa. Essa nova via de observação da infância utilizada foi considerada um modo inovador de aprender e ensinar:

De início, já me apaixonei pelo conceito do pai ter escrito o livro como um ‘guia’ para o próprio filho. (Portfólio, Kiara em referência ao livro Aqui estamos nós).

[...] fica muito mais fácil de absorver o conteúdo, que a gente ver, fisiologia, bioquímica, então fica muito mais fácil quando nós vemos a aplicação de uma situação do que uma forma abstrata, tanto em relação à criança como a nós adultos. [...]

(Grupo focal, Emília, em referência ao livro Aqui estamos nós).

As histórias permitiram observar múltiplos contextos, diferentes possibilidades, significados e reflexões. Os estudantes perceberam o importante papel dos cuidadores diante da aproximação dos seus filhos com as histórias orais e escritas como contribuição aos aspectos cognitivos, sociais e emocionais. Os participantes também destacaram o papel dos profissionais de saúde em incentivar e apoiar habilidades parentais.

História maravilhosa, retrata o cuidado de um pai em mostrar o mundo ao seu filho reconhecendo que ele entende muitas coisas e que vai poder expressar suas dúvidas quando aprender a falar. O livro me fez pensar em como é importante conversar com as crianças sobre as coisas do mundo, pois elas ainda têm tanto a descobrir e precisam de alguém que direcione e responda suas curiosidades.

(Portfólio, Lebre).

[...] da importância de reconhecer a criança como alguém que precisa de um cuidador que a ajude a entender as questões da vida e para que ela possa se desenvolver da melhor forma possível. Foi enfatizada a importância de um olhar para os cuidadores e que o profissional de saúde deve refletir sobre a importância de intervenções que auxiliem os pais para que possam encontrar caminhos que levem ao pleno desenvolvimento da criança, tendo muitos recursos ou não.

(Portfólio, Lebre).

Outra temática referente à primeira infância que surgiu a partir do livro Aqui estamos nós , de Oliver Jeffers, foi a exposição da criança à beleza e às circunstâncias adversas. A contextualização do livro gerou inquietações nos estudantes a respeito daquilo que se deve ensinar/expor às crianças nos seus primeiros anos de desenvolvimento:

[...] ao longo do percurso da sua vida, ela vai conhecer as coisas ruins do mundo. Então, nesse primeiro momento, é importante nós falarmos coisas só boas. O livro passa essa primeira informação para essas crianças que ainda não têm conhecimento sobre o mundo.

(Transcrições do Encontro Síncrono 02, Caroline).

[...] existem crianças que já vivem num ambiente ruim, e não têm essa oportunidade de serem apresentadas ao mundo bom. Nós podemos ver a importância do papel do cuidador nessa situação, de como ele vai passar para a criança sobre essa situação que ela está vivendo.

(Transcrições do Encontro Síncrono 02, Cachinhos dourados).

Outro aspecto destacado pelos participantes foi a necessidade de uma abordagem integral quanto aos contextos que envolvem a primeira infância, que envolvem a complexidade:

[...] diante do reconhecimento de tantos problemas que enfrentamos hoje, como a poluição ambiental, o preconceito e a violência, o pai ensina desde cedo ao filho, a importância da preservação ambiental e o respeito à diversidade. Nesse contexto, duas palavras que definem bem a história são a educação e o altruísmo. Como a história vai se desenvolvendo de um aspecto macroscópico – o universo – para o microscópico – constituição dos órgãos e tecidos humanos – deixo essa imagem dos planetas para lembrar que nem mesmo os planetas que compõem o sistema solar são iguais, imagine as pessoas.

(Portfólio, Emília).

Os participantes identificaram impressões sobre o mundo imaginário da criança para o desenvolvimento saudável. Os aspectos lúdicos foram valorizados a partir da contação de histórias enquanto ferramenta que permite a elaboração de conhecimentos sobre o mundo e sobre si mesma.

A menina dos livros de Oliver Jeffers e Sam Winston. A história destaca duas habilidades bastante características da infância, a criatividade e a imaginação. Eu destaco a possibilidade de desvendar mundos desconhecidos, de descobrir coisas preciosas em meio a escuridão.

(Portfólio, Emília).

Essa história me fez refletir a respeito da capacidade delas estimularem a imaginação das crianças (e até mesmo dos adultos). A leitura nos permite mais do que conhecimentos, como também a capacidade de vivenciar outras realidades por meio da nossa imaginação.

(Portfólio, Cachinhos Dourados).

Essa bela história retrata a importância do poder das palavras que estão nos livros e da criatividade das crianças. Essa junção proporciona um aprendizado na utilização de qualquer instrumento para virar um brinquedo e que qualquer local pode se tornar seu mundo de brincadeiras.

(Portfólio, Chapeuzinho Vermelho).

A habilidade dos estudantes em utilizar as informações das histórias para reelaborar novos conceitos e perceber características sobre as crianças e o seu processo de desenvolvimento, a partir da mediação dos seus pais, cuidadores e profissionais de saúde, também esteve relacionada às reflexões sobre a contação de histórias enquanto ferramenta que favorece a criatividade, a imaginação e a capacidade cognitiva das crianças.

Fazendo um elo com o processo de cuidado em Enfermagem, desenvolver a capacidade crítico-reflexiva e atentar-se para novas possibilidades de cuidado. Aliado a isso, a oportunidade de vivenciar momentos de contação de histórias permite que a criança possa brincar e viajar por todo esse cenário lúdico criado por ela mesma. Acrescenta-se ainda a contribuição dessa prática ao possibilitar que a criança busque novas formas de comunicação. Lembrando que a promoção de uma infância saudável impacta diretamente no adulto que ela virá a se tornar.

(Portfólio, Emília).

Discussão

Os principais resultados evidenciaram a importância da contação de histórias no processo educativo sobre primeira infância, favorecendo as reflexões dos estudantes sobre sentimentos, conhecimentos e habilidades práticas no cuidado às crianças e famílias.

A contação de histórias/literatura infantil é uma ferramenta que favorece as reflexões e intensifica a presença de emoções e sentimentos no processo de ensino-aprendizagem, pois os elementos estéticos, como imagens, textos e sons presentes em cada obra/livro, favorecem a contextualização das temáticas sobre a primeira infância. Adicionalmente, vivências individuais e construções em grupo ressignificam aspectos emocionais nas memórias dos estudantes, emergindo novos saberes (Vygotsky, 1999 ; 2010 ).

Em estudo reflexivo que desenvolveu um quadro teórico-conceitual que mediou o entendimento sobre o ativo nas metodologias ativas, inferiu-se que uma dimensão metodológica é determinante no processo de ensino e aprendizagem, de modo que um ensino colaborativo criativo deve mediar a problematização e a construção de sínteses de conhecimento (Alves; Teo, 2020 ).

A articulação do criativo com o coletivo, assim como o estreitamento da relação entre os conhecimentos científicos e a arte, produz um ambiente de aprendizado humanizado e permite que cada estudante seja um sujeito ativo nessa construção do conhecimento individual, que se estruturou em um meio coletivo (Alves; Teo, 2020 ).

A educação dos sentimentos é mediada pela arte, sendo também potencializada por esta. Acredita-se que, quando o processo educativo tem o objetivo de construir conhecimentos significativos com aplicabilidade, o passo inicial é estabelecer ferramentas que proporcionem a estimulação emocional do estudante (Vygotsky, 2010 ).

A contação de histórias/literatura infantil evidencia-se como ferramenta sensível para mediação do ensino e aprendizagem, pois uma possui características pedagógicas vinculadas à arte. Os pequenos recortes apresentados nas histórias tornam possíveis ampliar a percepção da vida e permitem experiências participativas e comunicativas (Conte; Cardoso, 2022 )

Resultados semelhantes foram encontrados em estudo que utilizou a literatura clássica na mediação de uma experiência didática no ensino superior na área da saúde. A literatura foi considerada uma ferramenta para ampliação da experiência da arte e o despertar lúdico no processo de ensino-aprendizagem, com destaques para a humanização na educação em contextos práticos, através da reelaboração de atitudes profissionais (Silva; Gallian; Schor, 2016 ; Silva; Schor; Gallian, 2021 ).

Essa perspectiva dialoga com os achados do presente estudo, tendo em vista que a contação de histórias/literatura infantil favoreceu o incremento de conhecimentos sobre o desenvolvimento integral das crianças na primeira infância, de tal modo que, embora o processo educativo tenha sido previamente planejado, o conteúdo trabalhado ultrapassou as temáticas pré-estabelecidas, ressignificando ações e práticas de diferentes profissões que estavam em formação.

Por ser uma ferramenta da arte, também promoveu o despertar para a beleza através de duas vias; a priori , favoreceu o aprendizado sobre a primeira infância através da arte e do lúdico; além disso, contribuiu para despertar nos estudantes a importância da presença da arte/lúdico durante o desenvolvimento na primeira infância.

Noções sobre as necessidades estéticas durante a infância foram consideradas essenciais, gerando inquietações, reflexões e novas perspectivas a respeito do conhecimento de si e a infância do outro, corroborando também a ampliação de conhecimentos sobre a primeira infância a partir de diversas perspectivas profissionais (Silva; Schor; Gallian, 2021 ; Vygotsky, 2010 ).

A contação de histórias como ferramenta estética e de integração de aspectos emocionais e motivacionais mostrou-se efetiva para o engajamento e motivação dos estudantes no processo de ensino-aprendizagem. Ao mesmo tempo, foi um recurso essencial nas atividades práticas de atuação direta dos estudantes com famílias e crianças na realidade sociocultural em diferentes contextos (Hilário et al ., 2022 ; Mendelsohna et al ., 2020 ).

O caráter transdisciplinar e versátil da contação de histórias/literatura infantil permitiu que, mesmo em distintas profissões, os estudantes utilizassem essa ferramenta para favorecer o desenvolvimento e o fortalecimento de habilidades parentais e, concomitantemente, corroborou o surgimento da criatividade, imaginação e capacidade cognitiva (Hilário et al ., 2022 ; Mendelsohna et al ., 2020 ; Silva; Schor; Gallian, 2021 ).

As histórias infantis foram capazes de sensibilizar os participantes sobre o protagonismo e voz das crianças, com destaque para a capacidade da criança em sensibilizar o adulto, transformar perspectivas sobre o olhar para si e para o outro e permitir a compreensão sobre o papel das relações empáticas no contexto pessoal-profissional.

Em estudo de caso que analisou o desenvolvimento e personalidade de crianças na primeira infância e descreveu a influência do contexto escolar durante esse período, evidenciou-se a necessidade de fortalecer a formação dos profissionais, com conhecimentos sobre a disponibilidade afetiva e pedagógica dos professores para a compreensão integral do indivíduo (Lemos; Magiolino; Silva, 2022 ).

Disposições afetivas e estéticas revelam-se como potentes ferramentas para o processo pedagógico, pois envolvem os indivíduos de forma integral, reconhecendo a diversidade de fatores que influenciam o comportamento e o bem-estar de cada pessoa, sendo considerados determinantes para o processo de ensino-aprendizagem (Lemos; Magiolino; Silva, 2022 ).

As percepções sobre a contação de histórias/livros de literatura infantil enquanto estratégia de cuidado às crianças e famílias foram destacada na resolução de problemas e na promoção do desenvolvimento na primeira infância.

A compreensão sobre a primeira infância foi recordada pelos estudantes ao longo do processo educativo, através de elementos proporcionados pela educação dos sentimentos. Os elementos das histórias infantis permitiram que os estudantes acessassem conhecimentos referentes às redes de apoio, afetividade, parentalidade e disposições quanto à beleza, com apontamentos que destacaram a importância dos pequenos detalhes e da estética durante o crescimento e desenvolvimento infantil.

Esses aspectos poderão favorecer para que esses estudantes no futuro exerçam ações profissionais e interprofissionais que valorizem a infância em sua completude. A integralidade do cuidado deve superar o enfoque biológico para concepções ampliadas, seja em nível comunitário, com reconhecimento de múltiplas infâncias, seja nos processos de adoecimento.

A velha educação descrita por Vygotsky ( 2010 ) leva ao secamento do coração . Esse modelo de ensino-aprendizagem orienta para racionalização do comportamento, e viabiliza a construção de saberes sem aplicabilidade real para os contextos da vida humana, acumulando conhecimentos com utilidade mínima. Por outro lado, neste estudo corroborou-se a perspectiva educacional que foi ao encontro de vias sensíveis para a observação do mundo e das necessidades humanas, guiando-se pelo fértil terreno dos sentimentos e das emoções, aspectos evidenciados nos depoimentos dos estudantes ao longo de todo o processo educativo.

Considerações finais

A contação de histórias/literatura infantil enquanto ferramenta de ensino-aprendizagem favoreceu a formação profissional sobre a primeira infância construindo novos olhares para as necessidades dos contextos e aspectos que envolvem esse período do desenvolvimento humano.

Ademais, incrementou a formação profissional no ensino superior, pois, através de suas características que são inerentes à arte, gerou novos sentidos e uma conexão ampla de pensamentos/significados sobre o agir profissional no contexto da primeira infância.

As potencialidades estéticas corroboram o pensamento crítico-reflexivo sobre as necessidades do desenvolvimento na primeira infância, legitimando um processo de ensino-aprendizagem horizontalizado.

O uso desse instrumento no processo educativo Naveghi permitiu vislumbres do futuro, principalmente no que se refere às alternativas de práticas humanizadas e estratégias de ensino-aprendizagem que integrem elementos motivacionais, conhecimentos e habilidades práticas colaborativas na formação profissional integral no ensino superior e consequente aplicabilidade em suas práticas profissionais.

Uma das limitações do estudo foi a abordagem apenas dos estudantes, sem coleta de informações com as crianças e seus responsáveis. Destacamos que a interação entre os estudantes e cuidadores/crianças para uso da contação de histórias constitui um ponto chave a ser explorado em futuros estudos.

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Recebido: 05 de Março de 2023; Aceito: 23 de Abril de 2024; Revisado: 12 de Março de 2024

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