Apresentação
Esta entrevista foi realizada no âmbito das comemorações de 50 anos da revista Educação e Pesquisa e organizada pelos editores-chefes atuais: Lúcia Helena Sasseron e Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio.
A entrevistada é a professora Marília Pinto de Carvalho, que foi docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) de 1989 até 2015, quando se aposentou e passou a ser professora sênior. Graduada em História, a professora desenvolveu suas pesquisas de mestrado e doutorado abordando educação e relações de gênero, temas de seus estudos ao longo de toda sua trajetória. Como professora da FEUSP, Marília teve e tem presença constante na editoria de Educação e Pesquisa: foi editora-chefe entre 2004 e 2006; e editora-assistente entre 1998 e 2004, função que voltou a ocupar, ininterruptamente, desde 2009.
Editoriais assinados por Marília são memórias de sua estadia na revista e, ao mesmo tempo, registros de fatos importantes da história deste periódico. Como é possível acompanhar na entrevista, Marília iniciou sua trajetória no periódico em um momento de transição: passava-se de Revista da Faculdade de Educação para Educação e Pesquisa, mudança em que não apenas o título foi alterado, mas também a própria concepção da revista como periódico que publica pesquisas em educação independentemente da afiliação institucional dos autores. Isso fica evidente no editorial do volume 26, número 1, em que Belmira Oliveira Bueno, Marília Pinto de Carvalho e Julio Groppa Aquino apresentam o “[...] primeiro número de Educação e Pesquisa, publicação que dá continuidade à Revista da Faculdade de Educação da USP”, e informam a intenção da comissão editorial em reestruturar a revista:
[...] de modo a acentuar ainda mais seu caráter de divulgadora da produção científica na área educacional em geral, sem se restringir a temáticas específicas nem à afiliação institucional dos autores, em consonância com o papel de ponta da própria FEUSP no contexto da pesquisa educacional no país. (Bueno; Carvalho; Aquino, 1999, p. 7).
Em editorial do volume 27, número 2, os editores reafirmam esse compromisso e expõem a convicção da comissão de que “[...] a circulação ampla das ideias é a base para a realização da crítica e do debate indispensáveis à qualidade da pesquisa” (Bueno; Carvalho; Aquino, 2001, p. 205).
Ao anunciar seu afastamento da editoria em 2006, Marília expôs aos leitores de Educação e Pesquisa grandes conquistas editoriais, dentre as quais se destacam a periodicidade regular de três números anuais e a classificação da revista como “[...] Internacional A no Qualis da CAPES na área de Educação”, frisando o compromisso em “[...] demonstrar fartamente que não privilegia grupos ou instituições, linhas de pensamento ou afiliações no campo teórico, pautando sempre a aprovação de textos exclusivamente pela qualidade do material que nos é enviado” (Carvalho, 2006, p. 219-220), em uma clara exposição de sua preocupação resistente em expandir os âmbitos da pesquisa sem desconsiderar a qualidade do que se publica.
Ao retornar à comissão, no editorial do volume 36, número 1, em parceria com a editora Cláudia Vianna, Marília relata o início do uso da plataforma SciELO Submission como sistema para gerenciar a submissão, o recebimento e a tramitação de manuscritos e expõe sua percepção do que isso pode representar para o processo editorial, por permitir agilidade e por ser um processo, “[...] ao mesmo tempo, mais transparente de seleção dos textos a nós enviados, o que poderá beneficiar não apenas os autores, mas a qualidade editorial de Educação e Pesquisa” (Vianna; Carvalho, 2010, p. 201).
Todos que trabalham com Marília na editoria reconhecem seu extremo zelo pelos artigos, o que se evidencia seja na atenção à comunicação com autores e pareceristas, seja no cuidado constante com os leitores da revista e com a interação que venham a ter com o que publicamos.
É possível dizer que a trajetória de Educação e Pesquisa sempre teve a presença inteligente, criteriosa e humana da professora Marília. Neste momento de comemoração, conversamos com a professora e pudemos conhecer um pouco mais de suas percepções sobre os diferentes desafios da editoria de um periódico, especialmente em situações de mudanças internas, advindas da própria forma de conceber a revista, e externas, que revelam movimentos nacionais para a ampliação do alcance de periódicos científicos.
ENTREVISTA
Lúcia Helena Sasseron: Professora Marília, muito obrigada por aceitar nosso convite para esta entrevista, como parte das comemorações dos 50 anos da Educação e Pesquisa. A senhora faz parte desta história desde 1998, tendo sido editora-chefe entre 2004 e 2006, e ficado afastada da editoria apenas por um período de três anos, entre 2006 e 2009. Poderia, por favor, contar um pouco sobre sua experiência como editora-assistente a partir de 1998, exatamente o ano em que a Revista da Faculdade de Educação se tornou Educação e Pesquisa?
Marília Pinto de Carvalho: Sim, eu entrei na primeira equipe: Julio [Groppa Aquino], Belmira [Bueno] e eu. Em 1998, segundo semestre, devia ser por volta de outubro, a professora Myriam Krasilchik, que era então a diretora da FEUSP, nos chamou na sala dela individualmente – Julio, Belmira e eu –, propondo que assumíssemos a revista que vinha sendo publicada como Revista da Faculdade de Educação, mas que estava parada, muito sem fôlego, com atraso em publicação. Nós três topamos, formamos uma equipe e buscamos atualizar a revista, que, à época, era publicada apenas em papel. Havíamos acabado de receber um convite do SciELO para ingressar na versão digital. Então, nós tínhamos já desde o início uma versão digital, assim que a revista surgiu como Educação e Pesquisa. Publicamos ainda um volume como Revista da Faculdade de Educação, com os poucos artigos que restavam lá, mas que já haviam sido selecionados. Levamos à gráfica para fechar aquele ano e tentar começar, já em 1999, com o novo nome, com a revista reestruturada. E eu acho que essa trajetória, de a revista vir da Revista da Faculdade de Educação, com o espírito de publicar trabalhos dos professores da Faculdade, marcou muito nosso trabalho. Diria que marcou a primeira década toda da Educação e Pesquisa, porque precisamos realizar uma mudança cultural na imagem da revista, institucional, dentro da Faculdade, entre pessoas que não acreditavam muito na revista por supor que ela promovia privilégios, no sentido de os editores publicarem apenas os próprios textos. Era uma crítica abafada, presente nos corredores da Faculdade, mas fora dela também. As pessoas não submetiam artigos porque aquela era a revista da FEUSP, era percebida como endógena. E de fato era.
Sobre isso, eu me lembro de uma história, não sei se verdadeira: dizem que, em Roma, em um determinado período, havia fofoca sobre traições da mulher de Júlio César. Questionada por ele, ela diz que nada faz, ao que ele retruca que não bastaria não fazer, mas também seria necessário aparentar que não faz. Então, por mais que avaliássemos todos os artigos com todo cuidado e tentássemos fazer a coisa mais ética possível, a imagem da revista não era essa. As pessoas achavam que era tudo combinado, na chapa branca. E isso fez com que tivéssemos um rigor muito grande em termos de avaliação. Houve até uma situação em que uma professora muito conhecida, já na época uma referência na área, tinha sido convidada para escrever um texto para um dossiê, que fazíamos em quase todos os números. O artigo que ela submeteu foi avaliado e ela chegou a ligar para Belmira questionando se textos de convidados também eram avaliados. Nós introduzimos isso porque até hoje tem casos, em outras revistas, em que se é artigo convidado, se é uma pessoa mais importante, o texto não passa por avaliação e é publicado. Começamos até a brincar que se o Papa submetesse um artigo, seria encaminhado para avaliação. Precisávamos garantir essa seriedade e fazer a fama de que o trabalho era sério. Acho que, em termos de política editorial, uma das coisas mais marcantes nesse período foi mudar a imagem da revista a partir do rigor na avaliação. Não sabemos muito sobre como estava a revista antes desse período. Então, naqueles primeiros anos, precisamos organizar toda essa parte mais burocrática, garantindo o funcionamento da revista. Nós tínhamos uma única funcionária, que também assumia outras tarefas da Biblioteca. Lembro também que chegamos a ter pareceres escritos à mão. Lembro de o professor Celso Beisiegel nos entregar um parecer em papel, escrito a lápis. Nas reuniões, colocávamos no meio da mesa a pilha de artigos e de pareceres, e todo mundo lia junto: os três editores, depois os seis. Pegávamos o artigo, líamos o parecer e resolvíamos ali na reunião. Não havia nenhum mecanismo mais ágil para nada. Precisamos criar nossas próprias formas de funcionamento editorial. Apenas em 2010 passamos a usar o Submission, do SciELO. Nesse momento, a revista já contava com a Anna Cecília [de Paula Cruz] como secretária e depois também com o Aguinaldo [da Silva], que primam pela eficiência e pela gentileza. Também tivemos a ajuda do Wilson Gambeta, que foi funcionário da revista, contratado por uma verba externa advinda da pós-graduação. Foi ele quem praticamente nos ensinou a usar o Submission, porque não dominávamos nada. Wilson tinha trabalhado em editoras convencionais, acho que até de livro didático; estudou o Submission, aprendeu a usá-lo e ensinou a equipe toda. Devagar fomos nos acostumando e isso trouxe uma grande agilidade para o processo. Imaginam ficar lendo parecer durante a reunião? Era um trabalho que não avançava. Mas também não recebíamos tantos artigos como recebemos hoje.
Marcos Sidnei Pagotto-Euzebio: Professora Marília, pode nos contar um pouco de sua experiência como editora-chefe da Educação e Pesquisa?
Marília: A experiência na gestão como editora-chefe, para mim, foi uma continuidade do que já vinha fazendo como editora-assistente. Tínhamos só um editor-chefe e a equipe – se não me engano, ali em 2004 ela era composta por seis pessoas. Nessa época, todas as pessoas da comissão editorial eram docentes da Faculdade de Educação, e o número de seis editores tem relação com a intenção de estabelecer proporcionalidade entre representantes dos três diferentes departamentos da FEUSP. Durante o período em que fui editora-chefe, contando com todo o preparo anterior, passamos a publicar três números da revista por ano, e esses números saíam impressos. Haver três números publicados por ano mostra um avanço importante no trabalho editorial, já que é evidência de que estávamos recebendo muitos artigos e precisávamos dar vazão a eles. Poucos anos depois passamos a publicar quatro números por ano, até o momento em que deixamos de publicar a revista em papel. Mas durante a minha gestão ainda era publicada assim, e eu diria até que o foco principal ainda era a revista em papel. Não fazia ainda parte da cultura do campo educacional ter uma revista ou várias revistas só em formato digital. Esse formato estava começando naquele período. Nós estávamos ainda no papel. E, na verdade, eu peguei como editora-chefe uma situação já bem mais tranquila do que as anteriores. Acredito que o Julio e a Belmira têm muitas histórias para contar também, mas o início da revista na nova fase foi, assim, tirado do zero, praticamente. Durante alguns anos, nosso esforço foi montar um conselho editorial internacional, fazer um novo projeto gráfico. Mudamos o nome da revista e isso foi votado na congregação. Houve debates de qual era o melhor nome. Era preciso fazer a revista ser conhecida para as pessoas começarem a mandar artigos, porque a proposta era outra enquanto ela foi Revista da Faculdade de Educação. Mas isso tudo aconteceu anteriormente, e menciono só para situar que, quando assumo como editora-chefe, a situação já está bem mais tranquila. Já tínhamos uma secretaria organizada, tínhamos cópias para todo tipo de carta: carta de recusa, carta de aceite... Ainda não usávamos o SciELO Submission. Então, foi tudo nós que inventamos: os pareceres, as regras, abrir o site, atualizar o site. Não tinha nada feito, mas, quando eu chego, já está bem mais tranquilo, essas coisas estão encaminhadas. Não foi uma gestão difícil, não. Foi muito fluida, com colegas muito bons que ajudaram em tudo. Foi bem interessante.
Lúcia: Marília, quero voltar à quantidade de textos recebidos. Hoje em dia, a Educação e Pesquisa é reconhecida e essa reputação existe graças ao trabalho das pessoas que estiveram na editoria nos anos passados. Mas, considerando o que você nos contou, anteriormente a revista não gozava de uma reputação ampla, o que, imagino, poderia impactar o recebimento de textos. Como foi esse processo naqueles primeiros anos de Educação e Pesquisa? Imagino que vocês tinham que recrutar textos em eventos, em contato com as pessoas.
Marília: Fizemos muito isso. Éramos poucos – três, depois seis –, mas fazíamos isso. Íamos para a ANPED, assistíamos a um trabalho que julgávamos interessante e já íamos conversar com quem o apresentou, sugerindo que o encaminhasse à revista. Também levávamos exemplares para vender nos congressos todos: ANPOCS, ENDIPE, ANPAE. Em todo evento em que íamos, levávamos exemplares e fazíamos campanha. Percebo que até hoje outras editoras fazem isso. Já recebi e-mail de editoras de revista dizendo terem visto um trabalho em evento e que gostariam que enviasse o estudo para elas. Então fizemos isso, ao mesmo tempo em que buscamos compor o conselho editorial com autores já consagrados; brasileiros ou colegas estrangeiros, convidando também essas pessoas a submeterem textos para a Educação e Pesquisa e a indicarem a revista a seus conhecidos. Era uma forma de solicitar ajuda ao conselho e buscar ter publicações de pessoas estrangeiras. E tivemos muita colaboração, com certeza. Por exemplo, nos primeiros números da revista como Educação e Pesquisa você vai encontrar um artigo do António Nóvoa sobre a prática docente, um outro da Christine Josso sobre histórias de vida, ou do Gilles Brougére sobre a brincadeira. Mas não era fácil.
Lúcia: Professora Marília, além das iniciativas mencionadas sobre a presença das pessoas da editoria nos eventos científicos, como se dava a divulgação dos números da Educação e Pesquisa?
Marília: Era o mais artesanal possível. Nós levávamos um monte de exemplares na mala, dávamos um jeito de montar uma banquinha na porta das atividades mais importantes, da assembleia ou das reuniões com os pesquisadores reconhecidos, e ficávamos vendendo a revista. Por vezes, levávamos algum funcionário ou funcionária para nos ajudar nisso. Se não, tínhamos que deixar a reunião para ficar vendendo a revista ou pelo menos divulgando. Na época, tínhamos um sistema de assinatura. Hoje em dia, nem nos lembramos disso. Quando eu era editora-chefe, isso chegou a ser questionado. Lembro de receber uma crítica advinda da Tesouraria da Faculdade, porque estávamos gastando muito com correio. Precisei me reunir com o pessoal da Tesouraria e explicar que, na verdade, a grande maioria dessas assinaturas era permuta. Se fôssemos pagar todas aquelas assinaturas estrangeiras, que eram super caras, gastaríamos muito mais do que as taxas de correio para enviar exemplares – dois por ano à época – para aquelas instituições. Era um sistema que hoje já nem existe mais. E à medida que a Educação e Pesquisa foi se tornando digital e gratuita, esse sistema desmoronou: tínhamos assinaturas institucionais de universidades estrangeiras, de revistas estrangeiras, principalmente, mas também as revistas nacionais, além de assinaturas pessoais, de professores que assinavam a revista. Era tudo muito precário. Em algumas ocasiões, fazíamos vendas do tipo liquidação, porque sobravam muitos exemplares impressos. E para não restarem exemplares ociosos, em eventos como a Calourada oferecíamos exemplares de graça ou a R$1,00, porque nem tínhamos onde guardar. Era o artesanato do artesanato.
Marcos: Professora Marília, levando em conta a menção ao momento de passagem da Educação e Pesquisa em formato impresso para a versão online, como a senhora percebe os impactos na recepção ou na capilaridade da revista e nas práticas de leitura?
Marília: Acho que aumentou muito a visibilidade, a possibilidade de acesso. Não tenha dúvida. Facilitou muito para nós, principalmente quando começamos a fazer o volume contínuo, o que implica não demorar tanto a publicação de um texto. Mas muda completamente a relação do leitor com a revista. Sinto falta, por exemplo – mas acho que é água passada, não vai voltar mesmo –, de que cada número tinha uma cara própria. Procurávamos agrupar artigos de submissão por fluxo contínuo com artigos de dossiê, e fazíamos entrevista relacionada ao tema do dossiê. Então, tinha um trabalho editorial quase que de um livro para cada número da revista. Acho que hoje ninguém procura o volume organizado. A busca se dá pelos buscadores digitais e o que aparecer é lido. Isso, por um lado, aumenta muito a possibilidade de um texto ser lido por pessoas que nunca ouviram falar da revista, mas que procuram por um determinado tema e encontram artigos da Educação e Pesquisa. Deixa de ser uma busca pela revista e passa a ser uma busca por temas, o que vai levando as pessoas para artigos específicos.
Marcos: Perfeito. E essa mudança, com o tempo, tem impacto para a publicação também, certo? Se bem entendi, eram dois volumes por ano; logo, em tese, haveria mais tempo para compor esse volume, o que seria inviável, pelo menos com o número de pessoas envolvidas na elaboração da revista, quando você tem publicações quadrimestrais ou trimestrais e, agora, em fluxo contínuo. Seria impensável, talvez.
Marília: Durante um período, a Educação e Pesquisa existiu em papel e online, ainda sem ser volume contínuo, havendo quatro números por ano. Até aí foi possível manter um pouco daquela lógica, mas naquele momento já recebíamos um número muito alto de textos. Estávamos sentindo falta de lugar para publicar os textos, para não acumular bons artigos sem poder publicá-los rapidamente. Realmente fica pesado quando não é fluxo contínuo. E é mais demorado também. Acho que o fluxo contínuo também é melhor para os autores, apesar de ainda termos um longo período até a publicação, mais do que anteriormente. De toda forma, o nosso trabalho ficou mais técnico nos tempos atuais. Antes éramos mais propositivos, seja organizando o número da revista em torno de duas ou três questões, seja propondo e organizando os dossiês (que nós mesmos organizávamos). Propúnhamos entrevistas, traduções, homenagens, números especiais... Enfim, tínhamos mais liberdade na organização dos números em papel.
Lúcia: Professora Marília, você tem destacado bastante o leitor. Nosso trabalho na editoria costuma ser mais diretamente ligado às pessoas autoras. Pessoalmente, trabalhando com você já há um certo tempo na Educação e Pesquisa, percebo que você é uma editora que tem um cuidado não apenas com a relação com os autores, mas também voltado para quem vai receber o texto: os leitores. Um exemplo disso é sua preocupação constante com o título dos textos, o que é um indício de atenção a quem pode procurar e se interessar por um dado artigo. Nem sempre esse cuidado é explicitado nas atividades editoriais, uma vez que nos tornamos mais responsivos às demandas externas advindas, por exemplo, da Capes ou do SciELO. Você revela esse outro caminho necessário e importantíssimo para a revista. Poderia, por favor, falar um pouco sobre isso, sobre essa sua relação com os textos de modo geral?
Marília: Talvez isso tenha alguma relação com a minha própria história. Ainda durante a graduação, eu participava do jornal Em Tempo, que era da corrente Democracia Socialista do Partido dos Trabalhadores (PT). Fazíamos ali um trabalho super amador, mas que já estava voltado para isso: o que escrevemos tem que ser entendido, tem que ser interessante. Talvez tenha relação com isso. Acho que o início de meu trabalho na revista foi em um período em que o nível de exigência – como a que o SciELO nos traz hoje, sobre ciência aberta, prazos e ética – era outro. Nós fomos convidados a entrar no SciELO. Ainda não havia ali revistas da área de educação. Acredito que convidaram alguns periódicos de universidades importantes. A revista estava parada, mas logo em 1999, quando a professora Myriam teve a iniciativa de reformular a comissão editorial, já começamos a enviar o material para o SciELO. Em todo caso, como tínhamos muito menos pressões externas, como as que você mencionou, penso que podíamos prestar mais atenção nisto: o que chama atenção, como se organiza a revista, como o leitor vai chegar até ela. Afinal de contas, esse é o nosso objetivo. Se não focamos nisso, só atendemos às exigências superiores e a tendência é perder até os leitores. Mas temos muito pouca informação sobre esses aspectos. É tudo meio intuitivo. Suponho que tenhamos leitores não só na academia, mas também entre os profissionais da educação em geral, mesmo da educação básica; estes não são o núcleo dos nossos leitores, mas estão presentes também. E como é muita gente, faz diferença. Compare, por exemplo, com uma revista da área de matemática, que não tem um público tão forte, tão extenso que justifique falar para além da academia. No caso da educação, e particularmente da nossa revista, eu tenho certeza de que nosso público não se fecha nisso. Na minha experiência pessoal, por exemplo: tem um artigo meu na nossa revista que é muito lido, muito acessado. Foi bibliografia de um concurso da Secretaria Municipal de Educação aqui de São Paulo e, na sequência, deve ter caído em outros por aí também. Então é um artigo super acessado, e isso não acontece dentro da academia, mas para fazer a prova. E cá entre nós, só uma brincadeirinha: já me mostraram a pergunta que caiu na prova e eu errei a resposta. Enfim, isso acontece. Minhas ex-alunas estavam prestando concurso e tal e elas vieram e falaram: “Ah, caiu seu artigo tal, que estava na bibliografia”. Enfim, eu acredito que venha disso. Estou pensando aqui com você. Muito obrigada pelos elogios. Mas acho que, sim, vamos aprendendo esses focos.
Marcos: Professora Marília, a senhora já falou de vários desafios que foram vivenciados nesse período. A senhora poderia destacar os grandes problemas enfrentados em sua gestão?
Marília: Marcos, volto na mesma linha de pensamento: não consigo separar especificamente aqueles dois anos em que fui editora-chefe dos anos anteriores em que eu já estava na revista. O primeiro grande desafio foi montar toda a infraestrutura da revista, mas as coisas foram simultâneas. Você só resolve uma coisa junto com a outra. Tem histórias, por exemplo, de a Belmira entrar na gráfica e puxar o papel da máquina, porque a impressão estava atrasada há quase um mês. Tivemos as aventuras mais variadas que vocês possam imaginar. Não tinha verba, não tinha infraestrutura, não tinha nada. Sabíamos que estávamos inventando. Isso foi um desafio nesses anos todos. Outros dois desafios, que acho que já comentei também: um deles tem relação com os esforços para construir uma imagem da revista, o que levamos muitos anos para realmente conseguir; e o outro, que está relacionado a isso, é a questão da avaliação, de começar a aprender a pedir os pareceres, a pedir pareceres para tudo, a entender como lidar com os pareceristas e com os autores. O processo de avaliação, acho, foi um desafio muito grande para nós. Não era a cultura da área. No século passado, não se avaliava, não tinha tanto parecer para tudo, era bem mais complicado. Acho que tem uma história bonita, que vale a pena mencionar, sobre essa seriedade da nossa avaliação. Eu já não era editora-chefe, era a Cláudia Vianna. Estávamos organizando um dossiê que foi proposto por colegas de um outro estado, resultado de um seminário que haviam organizado. Um dos textos era de uma pesquisadora bastante conhecida que havia participado do evento. Durante a leitura de seu texto, percebíamos que ele parecia ser a transcrição de uma fala. Da forma como estava escrito, não dava para entender sobre o que era o texto. Mas ele mencionava toda a trajetória de pesquisa da autora, e por isso, mesmo sem consultar de quem era a autoria, sabíamos que o texto era dela, mas não havia condição de publicá-lo da forma como estava. Então conversamos com as pessoas que estavam organizando o dossiê e elaboramos um parecer informando que era perceptível que o texto resultava de anos de pesquisa, mas que talvez tivesse sido a transcrição de uma fala e que, na forma como apresentado, era confuso. Recomendamos que se focasse em alguns aspectos. Selecionamos alguns temas e o artigo acabou sendo retirado da avaliação. Ficamos preocupadas, já era que uma pessoa importante da área estava ajudando no dossiê. Não se passaram dois dias, nossa secretária recebeu um telefonema daquela pesquisadora, a autora do texto, querendo falar com a Cláudia, que era a editora-chefe. Ficamos ainda mais preocupadas. Quando conseguimos falar com ela, ela disse: “Eu estou ligando porque eu já achava muito interessante e sério o trabalho de vocês, e essa resposta que vocês deram para aquele artigo que as meninas enviaram, que não fui eu que escrevi, só me fez valorizar ainda mais o trabalho de vocês. Quero dar os parabéns”. Aquele foi um momento em que pensamos: “Bom, estamos fazendo a coisa da maneira certa”. Era a equipe toda. Eu estava acompanhando o dossiê como editora-assistente, não era editora-chefe, mas nós todas sentimos que aquilo era o fruto de anos de trabalho, de pedir parecer até para o texto do Papa.
Lúcia: Eu me recordo dessa situação, Marília.
Marília: Você já estava na revista, não estava?
Lúcia: Eu era editora-assistente. Deve ter sido em 2014 ou 2015.
Marília: É, sim. Foi mais para a frente, né? Vejam quantos anos para termos essa resposta. É claro que é uma resposta que não é comum, já que as pessoas poderiam pensar tudo isso, mas nem se preocuparem em nos falar.
Lúcia: Marília, ainda sobre esse tema, como sua estadia na revista é longeva – e que bom para a revista que ela seja longeva –, queria retomar a questão dos pareceres, porque nesse levantamento que temos feito junto à secretaria, para a comemoração dos 50 anos, percebemos alguns momentos em que houve atenção especial para o formulário de resposta dos pareceristas. Entendo que isso imprime marcas muito fortes nos textos que estão sendo avaliados, mas também na própria expectativa das pessoas quando submetem um texto para a Educação e Pesquisa. Você pode falar um pouco sobre essa mudança, se ela é efetivamente perceptível ou em que medida seria perceptível?
Marília: Lúcia, na verdade, isso foi uma das coisas que fomos criando. Sempre em modificação também, talvez não com a frequência que devesse, mas com o formulário já bastante alterado. E foram épocas em que tivemos preocupação de fazer textos, formulários e cartas básicas para tudo, para não ficar apenas sob a responsabilidade da secretaria dizer o sim ou o não, pedir o parecer. Então, para tudo tinha carta: carta para pedir parecer, carta para isso, carta para aquilo, que revisávamos regularmente. Em termos de mudanças que isso pode ter trazido, acho que é um movimento que não é só nosso. Como eu dizia, no período inicial, lá em 1998, 1999, no começo da transição da revista para Educação e Pesquisa, essa cultura de avaliação no campo educacional ainda era muito frágil. Não existiam esses mecanismos. Acho que, à medida que isso vai se consolidando, vamos fazendo esse movimento, influenciando, a partir dos próprios pareceres, as escolhas dos autores, os recortes que vão fazer, se vão mandar para a Educação e Pesquisa ou não. Procuramos sempre marcar uma política editorial que não tivesse restrições nem ideológicas, nem de corrente. Se o artigo fosse bom, ele era publicado, ainda que discordássemos das ideias. Acho que isso foi tornando as pessoas mais atentas. Não tinha pensado por esse lado, mas acho que há esse movimento, sim, até porque acho que os artigos submetidos são de dois grupos diferentes. Tem aqueles textos que são submissões de qualquer coisa: os autores precisam, por exemplo, ter submetido um artigo para fazer a qualificação na pós-graduação. Esse mecanismo gera a submissão de trabalhos ainda muito iniciais. Mas, por outro lado, há as pessoas sérias e que já têm experiência, que estão produzindo bons trabalhos; elas passaram a confiar na revista, na medida em que elas próprias também são pareceristas e veem como o texto é avaliado. Acho que esse respeito que temos conseguido, tanto de autores como de pareceristas, aumenta a qualidade da revista. Sem dúvida.
Marcos: Marília, quais contribuições a senhora pensa ter deixado para a revista?
Marília: Eu juro para vocês que até pensei nisso. Mas tenho dificuldade de saber o que é proveniente dos dois anos em que fui editora-chefe e o que aconteceu antes disso. Minha trajetória se uniu à da revista e eu considero tudo como parte dela. Mesmo em relação àqueles anos em que não estive na comissão editorial, nem na editoria-chefe, eu sinto que eu sempre estava lá, sempre me senti muito ligada à revista.
Marcos: É compreensível. Em um percurso tão dedicado à revista, é difícil destacar algo específico. Acho que a grande contribuição, e talvez a Lúcia concorde comigo, é a presença da senhora na revista. Acho que esta é uma enorme contribuição: o fato de ainda hoje a senhora participar conosco.
Lúcia: A revista está fazendo 50 anos, Marília, e você está conosco há 25 anos.
Marília: Metade...
Marcos: É, verdade.
Lúcia: É um grande privilégio poder conviver com você na editoria.
Marília: Eu fico muito feliz de estar ajudando em alguma coisa. Às vezes eu falo a partir da memória mesmo, já que não temos tudo registrado, por mais cuidadosas que sejam as atas. E é muito papel. Então, às vezes dá para lembrar dos motivos pelos quais tomamos tal decisão, para onde estávamos indo. Acho isso importante. E acho que as pessoas podem se perguntar por que eu continuo por tanto tempo na revista. Acho que tem dois fatores. Um é porque eu sou assim mesmo na vida: a certa altura eu mudei para a casa onde eu moro até hoje; há 30 anos fui trabalhar na USP e me aposentei pela USP; estou casada com a mesma pessoa há 35 anos. Enfim, as minhas coisas têm um pouco dessa característica. E o outro fator não é um segredo, porque eu já expus isso até por escrito, em um editorial: em 1998 – eu nunca esqueço desse ano –, quando a Myriam nos convidou, meu pai tinha falecido há dois meses, e meu pai foi editor da Revista Brasileira de Estudos Políticos2 a vida inteira. E era mais artesanal do que a nossa. Imaginem, comparando com hoje: ele levava para casa os exemplares impressos da revista e tinha um esquema de carimbo com o nome dos assinantes; ele juntava a criançada (eu sou a caçula de oito irmãos) para ficar pregando selo, amarrando os pacotes etc. E aquela era a revista. Assim a chamamos a vida inteira: “Onde o pai está?”; “Está na revista”; “Ele trouxe a revista”. É algo que faz muito parte da minha vida também. É como um círculo, um reencontro. Desde criança eu gosto de revista. E a Rebep foi uma das primeiras revistas da área de humanas, tem longevidade. Ela existe até hoje na Faculdade de Direito da UFMG, e era a menina dos olhos do meu pai. Ele estava aposentado e ia para a Escola de Direito para ficar na sala da revista, que era praticamente a sala dele. Eram outros tempos, mas é bem divertida para mim essa continuidade3.
Marcos: Por fim, Marília, estando na editoria da Educação e Pesquisa há um bom tempo, como percebe as mudanças ocorridas na revista e no trabalho editorial?
Marília: Bom, nesses 25 anos, percebo muitas mudanças no período todo, desde termos mais infraestrutura hoje para trabalhar. Com certeza, apesar de todas as exigências que o SciELO nos traz, ele é o nosso SUS: possibilita que a revista esteja disponível gratuitamente. O SciELO é acesso à revista sem gastar. Há revistas internacionais que cobram até para publicar; cobram acesso. Enfim, continuarmos tendo publicação e acesso gratuito e livre, o que acho muito bom, muito importante. O fato de a revista ter se tornado totalmente digital mudou muito a cara dela e dos periódicos em geral, assim como o fato de termos o sistema Submission para organizar esse processo, considerando o número de artigos que recebemos hoje em dia. Seria impossível trabalhar na editoria se não fosse esse sistema digital. E acho que tem uma melhoria de qualidade também. Embora eu seja saudosista dos dossiês, acho que hoje publicamos artigos bons e muito bons em número maior do que conseguíamos ter há dez, vinte anos. A revista era relativamente magrinha se comparada com hoje: dois números por ano, com dez, onze artigos a cada número. Não é nada perto do nosso padrão de hoje. É um aumento grande da produção, mas acho que com qualidade. Acho que é uma revista que faz sentido para os nossos leitores, que diz coisas importantes, que abre temas que não estão sendo discutidos em outros espaços. Acho que temos avanços muito significativos.
Lúcia: Estou de acordo, professora Marília. Apesar disso, pressões externas mais atuais em relação aos tempos de tramitação e publicação afetam diretamente o trabalho da editoria e nos confrontam com expectativas de autores e leitores. Como a senhora percebe essa questão?
Marília: Estamos sempre vendo problemas e tentando resolver. São pressões e exigências de muitos lados e, em geral, não há as condições devidas para não sobrecarregar quem está trabalhando com isso, para não precisar improvisar tudo, para não precisar ficar brigando por causa de verba. Essa coisa de não podermos gastar verba que é nossa é muito revoltante. Nas licitações, há dificuldade para poder fazer as coisas. É, não dá para ficar quieto diante disso. É normal. Igual a uma professora que compra giz e imprime as coisas para as crianças. Há um limite no que podemos fazer assim.
Marcos: Acho que eram essas as perguntas que havíamos pensado fazer. Então, se quiser dizer algo a mais, fique à vontade, professora.
Marília: Eu só não posso deixar de dizer que é um orgulho muito grande estar participando dessa história, podendo colaborar. Acho que hoje tenho muitas limitações, por conta de saúde, mas esse é um espaço em que tenho conseguido sentir que tenho alguma utilidade. É muito bom, muito importante. E eu acho que a revista também me deixa muito orgulhosa, independentemente de estar nela ou não. Um orgulho de olhar essa trajetória e ver o quanto a revista se modificou, se atualizou, melhorou.
Marcos: Sem dúvida.
Marília: Temos que ficar orgulhosos mesmo, e divulgar como coisa que deu certo. Que está dando certo. Em geral, só falamos dos problemas. É claro que tem muitas pressões, tem muitas dificuldades. Não estou negando isso, não. Mas, ao lado disso, acho que temos que ficar felizes, porque está funcionando muito bem.
Lúcia: Marília, acho que a Educação e Pesquisa é quem precisa te agradecer imensamente. Não digo isso só porque estou aqui, na posição de editora-chefe; quando estive como editora-assistente, ah!, quanto aprendi com você! Não sei se você sabe disso. Você é de uma gentileza, de um cuidado, de uma responsabilidade com os autores, com os leitores, com os colegas, que é admirável. Eu aprendo e aprendi muito com vocês.
Marília: Ah, fico muito feliz, Lúcia.
Lúcia: Espero aprender mais ainda, o que é um prazer.
Marília: Imagina! Eu aprendo com vocês direto, porque hoje em dia eu estou muito desatualizada. As coisas de informática, de inteligência artificial... Eu arranho, ali, uma coisa ou outra, mas, se não for o contato com vocês, que já sabem, não dou conta, não.















