Apresentação
Foi a então editora-chefe Rosângela Gavioli Prieto que anunciou, no estilo direto pelo qual a conhecemos, que a partir do primeiro número do ano de 2017 (v. 43), a revista Educação e Pesquisa deixaria definitivamente de ser impressa, inaugurando “[...] sua publicação apenas na versão on-line” (Prieto, 2017, p. 7). As tiragens dos números impressos da revista – de 1.200 exemplares entre 2000 e 2003, e de 1.000 exemplares entre 2004 e 20132 – foram reduzidas para 800 exemplares em 2014 e 600 exemplares em 2015, chegando a 400 exemplares no último número do volume 42, em 2016.3 A redução da demanda pelos fascículos impressos, aliada às dificuldades logísticas para impressão, transporte e distribuição dos exemplares e à própria evolução dos formatos digitais e da leitura em tela, levou a revista, em 2017, à publicação exclusivamente digital, mas ainda dividida em quatro números anuais.
As mudanças se aprofundariam no ano seguinte, quando Rosângela Prieto e Emerson de Pietri (2018) documentaram, logo na abertura do editorial do volume 44, que a revista, além de exclusivamente online, também deixaria de ser publicada com periodicidade trimestral e aderiria a um formato de publicação contínua, tendência seguida pela maior parte das publicações científicas desde aquela época (Scielo, 2019). A dupla de editores-chefes sublinhava a “[...] agilidade que esse modo de organização [fluxo contínuo] possibilita. A publicação de um texto com editoração finalizada não precisa mais aguardar o momento do trimestre [...] em que está previsto o lançamento de um novo número do periódico” (Prieto; Pietri, 2018, p. 1).
Entre as vantagens do formato de volume único, os editores apontavam a possibilidade de um monitoramento mais adequado do fluxo editorial, ensejando maiores internacionalização da revista e equanimidade na proporção de autores/as por regiões do país, bem como favorecendo a disseminação dos textos publicados. O volume de artigos a cada ano também cresceu significativamente a partir da publicação contínua. A média anual de artigos publicados pela revista entre 2018 e 2024 mais que dobrou em relação ao período 2010-2017, em que ela vinha mantendo periodicidade trimestral4. Por outro lado, os editores reconheciam as dificuldades – dada a “imprevisibilidade das submissões” – para “[...] estabelecer previamente conjuntos que possam acondicionar manuscritos que se aproximem em seus temas e ou objetos” (Prieto; Pietri, 2018, p. 1), o que veio a dar origem às atuais Seções Temáticas da revista. Outro desafio seria o provisionamento financeiro dos custos editoriais do periódico, que deixaria de ser realizado a partir de planejamento orçamentário baseado em custos fixos de produção e passaria a ser aquilatado por “[...] estimativas da quantidade de serviços necessários para a publicação futura de artigos, muitas vezes pautadas nas médias de publicação anteriores” (Prieto; Pietri, 2018, p. 2-3).
Para a equipe editorial, o desafio maior dessa mudança estrutural na forma de produzir Educação e Pesquisa seria o de manter a já consolidada trajetória da revista de difusão do conhecimento educacional com elevado rigor científico e relevância social. A entrevista com Rosângela Prieto, editora-chefe da revista entre outubro de 2016 e outubro de 2018, percorre esse período de grandes transformações.
A entrevistada é professora do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação (EDA) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) desde 1997. Desde a graduação em Pedagogia, passando pelo mestrado e pelo doutorado, Rosângela vem se dedicando aos estudos no campo hoje conhecido como Educação Especial, com pesquisas concentradas nas políticas públicas com orientação inclusiva. Nos últimos dez anos, seu foco esteve especificamente nas políticas para o financiamento da educação especial no Brasil.
Rosângela coordenou o Grupo de Trabalho Educação Especial (GT 15) da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) (2013-2015) e a Rede de Pesquisadoras e Pesquisadores sobre Financiamento da Educação Especial (Rede Fineesp) (2019-2023). Atual vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial (ABPEE), integra a Comissão Assessora em Educação Especial e Atendimento Especializado em Exames e Avaliações da Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Comissão Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (CNEEPEI) do Ministério da Educação.
Em meio à sua longa trajetória como professora e pesquisadora, com atividades na FEUSP que também incluíram a chefia do EDA (2009-2012) e a presidência da Comissão de Graduação (2018-2022), Rosângela integrou durante cinco anos a Comissão Editorial de Educação e Pesquisa. Foi editora-assistente (2013-2016) e editora-chefe (2016-2018), posto primeiro dividido com a professora Cláudia Pereira Vianna, do EDA, entre outubro de 2016 e junho de 2017; e, na sequência, com o professor Emerson de Pietri, do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada (EDM), até outubro de 20185.
Gravada no marco das comemorações do cinquentenário de Educação e Pesquisa, a entrevista6 examina as transformações da revista no período em que Rosângela Prieto atuou como editora-chefe: a transição do impresso para publicação exclusivamente online e em fluxo contínuo; a ampliação da Comissão Editorial, com a chegada de editores/as-assistentes externos/as à FEUSP; a adoção de estratégias para o aumento do número de artigos de autoras/es das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte; a intensificação das discussões sobre a ética na pesquisa e a definição de critérios para a recusa inicial (desk review) de artigos sem qualidade científica ou sem aderência ao escopo temático da revista. Legados inquestionáveis nas práticas de Educação e Pesquisa.
Entrevista
Fernando Cássio: Eu tenho aqui um levantamento das pessoas que ocuparam as editorias-assistentes e as editorias-chefes de Educação e Pesquisa. Vejo que, em 2013, você já participava da revista como editora-assistente; e aí, em 2017, você assume, junto com o Emerson de Pietri, como editora-chefe. E então há uma série de acontecimentos que marcam esse período da revista. Eu queria lhe ouvir um pouco sobre isso. Que leitura você faz desse momento e da sua passagem pela posição de editora?
Rosângela Gavioli Prieto: Bom, eu vou começar primeiro agradecendo a sensibilidade e a gentileza de resgatar um histórico a partir da equipe de editores, a Comissão Editorial. Trabalhamos na FEUSP com uma dupla de editores-chefes, mas sabemos que uma revista funciona desde o secretariado até o envolvimento de todo mundo, inclusive as e os pareceristas externos. Enfim, todas as pessoas que colaboram e quem de fato escreve e nos contempla com as suas produções. Acho que 50 anos é uma data que não podia ser desprezada. Então, parabenizo também a iniciativa da revista de construir – ou reconstruir – um pouco desse histórico.
Vou começar com uma observação que, na verdade, era uma percepção anterior à minha entrada na revista e é uma percepção posterior, ou seja, do momento em que eu saio da revista. Isso é uma questão mais para deixar registrada. Eu acho que a revista e a FEUSP têm uma comunicação bastante restrita, têm muito pouca permeabilidade. É interessante quando você está dentro da revista, você vive aquele universo intensamente. Aí, quando você sai, a impressão é de que você tem que se perguntar: “A revista existe?”. Não que ela não tenha a sua importância, mas é como se [a revista e a FEUSP] fossem instâncias distintas. Isso sempre aconteceu. Não é desta gestão, da anterior ou de qualquer outra. É algo histórico. E fico pensando, às vezes, em como trabalhar isso. Porque é uma contribuição tão interessante para a sociedade e para nós, que somos pessoas que dependem de publicação e tudo mais. E acho que é importante principalmente para a sociedade, como um todo. Esse é o primeiro registro que quero deixar neste início de conversa. Segundo: você pontua 2017, quando eu assumo a editoria na dupla com o Emerson [de Pietri], mas eu fiz dupla antes com a Cláudia Vianna. Estou dizendo isso só porque, na verdade, eu fiquei um período com a Cláudia nessa função. Aí terminou o mandato dela, eu continuei, e foi o Emerson o meu grande parceiro no segundo momento. Mas eu queria deixar registrada a importância também do quanto eu pude dividir com a Cláudia Vianna. Não só com ela, mas com todas as outras pessoas que compuseram a Comissão Editorial.
Mas vamos lá. Primeiro, o aprendizado é um processo, e é essencial você ser assistente de edição; isso oferece a percepção de vários aspectos necessários à revista. Tem duas marcas do período em que eu estava como editora que eu não sei se vocês levantaram. Eu sou uma pessoa que gosta de trabalhar com dados. E uma das primeiras coisas que eu lembro é de ter me sentado com a Anna [Cecília de Paula Cruz] e com [José] Aguinaldo [da Silva] [da atual equipe técnica de Educação e Pesquisa] e perguntado: “Nós estamos falando tanto de métricas, mas onde estão os dados da revista?”. Eu me referia a dados quantitativos, para nutrir as análises qualitativas.
Então teve naquela época – nem sei se isso permaneceu – um momento de investimento exatamente na produção de dados. Ou seja: quantos artigos chegavam, quantos eram recusados, quantos eram aceitos, quanto tempo levava até a publicação, de onde eram os artigos, o que havia de internacional, o que havia de nacional... Daí trazíamos para a reunião coletiva e discutíamos o quanto ainda estávamos centrados no Sudeste – a região com maior produção –, depois no Sul, e o quanto tínhamos que investir em ações para ter maior representatividade regional. A preocupação era criar indicadores para definir objetivos e metas e ficar menos reféns das métricas de avaliação externas à revista. Com os dados, entre outras atuações, a segunda ação priorizada pela Comissão Editorial foi realizar uma série de investimentos de contato direto com os programas de pós-graduação das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para tentar fazer com que essas localidades enviassem mais artigos para que pudéssemos ter uma distribuição regional mais equitativa7.
Então, primeiro criar, sistematizar e analisar dados; depois, decidir que intervenções fazer a partir dos dados. E aí tentávamos trabalhar com aquilo que a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] valorizava, mas principalmente entendendo como é que poderíamos – sem nos rendermos a uma lógica meramente quantitativa – manter o [Qualis] A1 da revista. Esse é sempre o nosso grande desafio: a cada avaliação, ficamos naquela expectativa da divulgação do resultado da avaliação da Capes.
A segunda alteração significativa na revista durante a gestão da Comissão Editorial que eu representei na dupla de editoras/es-chefes foi a ampliação da composição da Comissão para membros e membras de fora da FEUSP e da USP. O aumento contínuo do número de artigos submetidos ao periódico já estava ultrapassando os limites individuais de cada editora ou editor-assistente há tempos, e isso vinha sendo confirmado pelos dados de que dispúnhamos. Então, a Comissão aprovou convidar outras e outros profissionais para assumir a assistência de edição8.
A última intervenção que, para mim, foi fundamental refere-se à decisão e à implantação da publicação contínua e online da revista. No âmbito das gestões anteriores da Comissão, ao menos desde quando assumi o trabalho como editora-assistente, já existiam reflexões sobre deixar de publicar a revista no formato impresso. E eu, quando entrei, lembro de ter pensado assim: “Não é possível, nesse mundo, continuarmos produzindo revista e gastando dinheiro com impressão, correio etc., quando as pessoas estão utilizando cada vez menos esse formato e temos tantos desafios com o seu financiamento”.
E aí eu propus para a Diretoria [da FEUSP] o investimento nisso. Lembro que eu fui para uma reunião da ANPEd [Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação] e lá eu fui conversar com Antonio [Carlos] Amorim [professor da Unicamp] sobre que experiências eles estavam tendo no âmbito da Comissão Editorial da revista da ANPEd [Revista Brasileira de Educação]. Voltei de lá convencidíssima de que esse formato era recomendável para a Educação e Pesquisa. As discussões no âmbito da Comissão Editorial resultaram na decisão de adotar a publicação online e contínua. Sobre as outras questões – ter dossiê, ter seções temáticas –, tudo isso já existia e estava muito bem consolidado na revista. Mas faltava assumir e implantar essas alterações.
É claro que as comissões que assumiram a gestão da revista depois foram fazendo mais ajustes e aperfeiçoamentos. Mas essas são as questões que marcaram aquela gestão e que foram significativas para mim enquanto tomadas de decisão à frente da revista. Porque, naquele momento, era tornar a decisão exequível, inclusive porque significaria economizar gastos.
Fernando: De fato, o que temos no nosso levantamento do período são o marco do fim da versão impressa, o início da publicação contínua e a política para ampliar as publicações de autores de outras regiões. Mas tem alguns pontos sobre os quais eu gostaria de lhe ouvir um pouco, Rosângela: as políticas antiplágio, a questão da ética na pesquisa, a entrada do press release – entre 2015 e 2017 – e uma outra política iniciada na sua época como editora, que é a recusa inicial dos artigos que não têm qualidade mínima ou que estão fora do escopo da revista. Isso nos ajuda muito, especificamente num certo respeito aos pareceristas, no sentido de não enviarmos para avaliação textos que já sabemos que vão ser recusados.
Rosângela: Você sabe o que eu dizia na época? O primeiro papel da equipe editorial, após a triagem do atendimento ao formato realizada pela secretaria da revista (medida de combate ao plágio, inclusive), é o da seleção referente ao tema, à compatibilidade com o mote do periódico, à qualidade acadêmica e à contribuição social. O primeiro papel, que é o de triagem, é da secretaria: avaliar se tem plágio ou não, com ferramentas específicas. E eu acho que a ferramenta nunca tem sido suficiente. Acho que se deve investir continuamente na formação de quem está na secretaria, para que se apossem do conhecimento de outras ferramentas que não sejam só o Ithenticate da Turnitin [software verificador de plágio e de uso de inteligência artificial], mas outras coisas que possam contribuir na realização dessa tarefa, inclusive a inteligência artificial em prol da descoberta do plágio. É interessante investir na recomendação de cursos e de contatos com secretarias de outros periódicos para ampliar o conhecimento de outras ferramentas.
Acho que tem uma segunda discussão que é a do autoplágio, que considero não estar claramente definida. Penso que o assunto passa por uma questão de ética também, porque se eu continuo afirmando, teoricamente, um dado conjunto de ideias, não dá para eu me despir dele assim. O que eu tenho é que ter ética para dizer: “Essa foi uma publicação minha de um certo momento de desenvolvimento de minhas ideias sobre o tema”. Acho inclusive um desrespeito à construção do conhecimento de uma/um pesquisadora/or, que tem o direito inclusive de manifestar suas mais atuais discordâncias e justificar a sua alteração de posição. Eu acho que poderíamos fazer mais esse exercício. Trabalhamos, por vezes, tentando negar a verdade absoluta, mas pregando a verdade absoluta. Então, quando você está falando do plágio, do autoplágio e, agora, da inteligência artificial, eu vejo como um caminho promissor o investimento na discussão sobre ética na publicação, porque esse é um grande problema. Como é que você faz quando você usa a inteligência artificial? Declare. Declare qual pergunta você fez e o quê e como você está usando as informações. Qual é o problema de uma inteligência artificial fazer pesquisa para você, por exemplo, sobre publicações relacionadas ao tema da pesquisa, melhorando aquilo que o Google já faz e que é amplamente usado? Bem, essas são apenas algumas das perguntas que podemos e devemos nos fazer.
Fernando: Hoje a revista tem um termo para isso, para a pessoa declarar os usos da inteligência artificial. E temos hoje uma terceira razão para a recusa inicial de um manuscrito9, que é o uso indiscriminado ou não declarado da inteligência artificial.
Rosângela: De novo, é uma questão ética, percebe? [A inteligência artificial] consegue fazer em menos de dez minutos o levantamento de x textos, consegue fazer o resumo... Só que, se você não leu o texto, você pode confiar no resumo feito? Porque ela vai fazer em cinco minutos. Eu tenho brigado com o ChatGPT. Ele registra umas bobagens e eu continuo a conversa dizendo: “Eu acho que você está errado”. E explicito os motivos. Mas também me parece que é preciso conhecer mais o potencial da inteligência artificial, inclusive para fundamentar melhor as críticas quanto aos seus limites e potencialidades.
Fernando: Eu brigo também.
Rosângela: Vamos retomar um assunto: eu não experimentei o press release. Eu estou falando que não experimentei porque isso já era uma discussão presente lá quando eu estava como editora-chefe. Acho que não me sobrou fôlego para fazer também essa discussão. E acho que eu fiquei com muita dúvida sobre o press release, e continuo com ela. Não sei qual é a experiência de vocês. Quando eu sou convidada para ler um artigo que está em press release, eu não tenho feito esse investimento, confesso a você. Então, acabo por confirmar o que eu achava, que [o artigo] pode não estar sendo colocado para a discussão pública porque poucas pessoas talvez estejam dialogando com a produção. E até onde eu conheço, depois que [o artigo] foi para o press release, se não foi bem aceito, não é publicado e você não publica em lugar nenhum. Eu não sei se todas as revistas estão assim, mas algumas eu sei que têm essas regras. E aí eu acho que não é um aprimoramento do material de forma a acolher tais possíveis contribuições.
Fernando: Houve muitos projetos no sentido de promover uma circulação dos artigos para um público mais amplo usando a estratégia do press release. Hoje a revista usa o press release para divulgação no blog SciELO em Perspectiva – Humanas10, e ele sai junto com o artigo, não é antecipado. Mas eu percebo que quando eu produzo um press release de uma nota técnica de política educacional que estamos lançando, isso circula muito mais.
Rosângela: Eventos na nossa área, que apostamos, durante uma época, que seriam um bom espaço para a divulgação dos nossos trabalhos em andamento, para submeter a escrutínio público, a um debate mais qualificado, também não têm acontecido. Porque a não validade [dos eventos] no nosso currículo leva a uma diminuição das submissões. Incentivamos as e os orientandas/os a fazer esse papel.
Não sei se consegui responder ao que você tinha me perguntado, pois em alguns assuntos eu não tenho experiência, como o caso do press release, e acho que a questão do autoplágio precisa ser mais debatida e problematizada. Já com relação ao plágio, eu acho que a Educação e Pesquisa sempre foi muito cuidadosa com a triagem, sempre podendo aprimorar os procedimentos.
Fernando: Quero fazer uma última pergunta sobre aquele período de 2017 a 2020, de falta de verba do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] e da Capes – naquela época do governo Temer, de austeridade fiscal. Eu entendo que, uma vez que você tem uma falta de verba externa, a revista naturalmente deve se voltar para dentro e ir buscar o diálogo com a FEUSP. Isso não está escrito aqui, mas é algo que eu estou depreendendo com base no que você comentou e gostaria de ouvir mais sobre.
Rosângela: Acho que não mudou nada, Fernando. Claro, eu estou fora da revista. Você vai ser o meu parceiro de diálogo. Nós dependíamos daqueles editais. Hoje eu acompanho um pouco, porque estou vice-presidente da ABPEE [Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial], que tem a RBEE [Revista Brasileira de Educação Especial], e nós discutimos isso no âmbito da diretoria: Quanto conseguiu de verba? Quanto não conseguiu? O que é que faz? Eu vejo RBEE fazendo a mesma discussão, na dependência da resposta do edital. Nós ainda temos um problema: somos filiados a uma associação. A revista é da associação e não de uma instituição de educação superior. Então, ou temos muitas/os associadas/os – e dinheiro para subsidiar a revista – ou não. E aí é isso o que acontece enquanto não sai uma resposta positiva do edital: a associação procura ter sempre uma reserva de fundos para a revista. Então, ficamos na mesma dependência de recursos desses editais.
Não sei como é que está acontecendo na FEUSP hoje, mas era assim que vivíamos: esperando e fazendo todos os cálculos: Quantos são os volumes? Qual é o valor? Quanto custa tudo? Qual é a verba necessária? De quanto precisamos para [manter a revista por] um ano sem o edital? De quanto é que precisamos com [os valores d]o edital vindo por inteiro, ou pela metade? Porque era esse o ajuste. E penso que é o mesmo ajuste que vocês continuam fazendo. Eu tenho a impressão de que não mudou nada. É isso também que reforçava o quão importante é a FEUSP continuar apoiando a revista ao longo desses 50 anos. Inclusive, em momentos de grande sufoco, recorríamos à FEUSP. Mas a USP poderia ter um fundo de apoio às revistas acadêmicas das unidades. Outra proposta é de a revista ter um assento na Congregação da FEUSP, com direito a voz e a expor sempre suas propostas, dificuldades, balanços.
Eu estou lembrando agora, porque você falou da questão financeira da revista. E eu tenho quase certeza, não é com você que eu vou dialogar, mas eu tenho quase certeza que a revista continua na espera constante dos editais da Capes. Mas nós já tivemos uma época em que a USP tinha um recurso para revistas. E isso fazia uma grande diferença, porque ficávamos na dependência, mas uma dependência interna de uma instância com a qual é possível dialogar mais diretamente, comunicar-se com um pouco mais de facilidade e ter mais acesso ao processo de definição dos critérios e diretrizes.
Então eu acho importante a ideia de investir na formação de quem está na secretaria da revista; proporcionar, por exemplo, viagens para que editores da revista – editores-assistentes, inclusive – possam dialogar e conhecer dinâmicas de revistas de outras instituições de ensino superior. Acho que dialogamos pouco internamente com a FEUSP e com comissões editoriais de outras revistas acadêmicas. Porque certamente há outras experiências que podem nos ajudar a caminhar. Experiências de pessoas que adotam outras regras e procedimentos, por exemplo.
Por fim, eu não sei o quanto a revista da FEUSP avançou em termos de garantia de acessibilidade para pessoas com deficiência. Essa é uma demanda muito importante.
Fernando: Sim, importante. Da entrevista também derivam certas demandas. Quer dizer, se temos problemas de facultar o acesso até mesmo para o nosso público geral, que dirá para um público com algum tipo de necessidade específica de acessibilização.
Rosângela: Então, são essas questões que eu colocaria: diálogo com a FEUSP, e da FEUSP com a revista; garantir a mão dupla.
Fernando: É interessante isso que você coloca sobre o diálogo com outras revistas científicas, porque eu tenho a impressão de que a coisa fica um pouco restrita aos fóruns de editores que a ANPEd e o SciELO promovem, por exemplo.
Rosângela: Uma interlocução que garantisse conhecer os bastidores das revistas. Se elencarmos dez itens desafiadores à revista Educação e Pesquisa, um deles é o que todas as revistas estão enfrentando: a disseminação da inteligência artificial. É preciso dialogar sobre como estão resolvendo. De que maneira estão discutindo o assunto? Estou me remetendo exatamente ao movimento de realizar uma reunião com editor-chefe de outro periódico durante a ANPEd para discutir publicação contínua e não impressa.
Fernando: E isso faz poucos anos.
Rosângela: Sim, oito anos. Naquela época, eu acho que tinha a revista da ANPEd, que estava começando11. Foi voltar de lá12, compartilhar as informações com a Comissão Editorial, analisar as implicações e decidir coletivamente pela publicação contínua e online. Avalio que foi uma conquista boa para a revista. Foi um desafio para mim.
Fernando: Todos esses marcos que você traz estão registrados como mudanças importantes no percurso de 50 anos da revista. Tem mais alguma coisa que você queira dizer?
Rosângela: Gostaria de lhe agradecer e desejar que vocês finalizem um rico registro que honre esses 50 anos, com tantas pessoas no percurso.
Fernando: Eu é que quero agradecer a você pela generosidade de interromper o seu momento pós-férias para nos dedicar um tempo.















