Introdução
Compreender o comportamento social do ser humano sempre foi algo relativo, pois demanda um olhar holístico acerca dos fenômenos relacionais proporcionados pela inserção do homem nas práticas de interação. No entanto, com o advento da globalização, isso tem se tornado cada vez mais complexo, já que a tecnologia tem causado impactos cada vez mais notórios no comportamento humano.
As redes sociais, portanto, têm sido exemplos pertinentes a esta discussão (D’Escoffier, 2022; Nóbrega et al., 2019), fazendo despertar questionamentos acerca das mudanças de identidades culturais (Hall, 2006), que se tornam dúvidas complexas, frente ao que se tem vivenciado sobre os reflexos que as mudanças tecnológicas podem propiciar em todos os âmbitos na sociedade, em que observamos questões referentes a autorrepresentação e as demandas na inserção de território (Canevacci, 2015). Nesse viés, os argumentos de Hall (2006, p. 67) baseados nos pressupostos de Anthony McGrew (1992), sinalizam que se trata de uma dinâmica de globalização e a “globalização se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado”.
Por isso, este artigo tem como objetivo discutir acerca do papel das mídias digitais e das redes sociais no processo de socialização do homem pós-moderno, que segundo Bauman (2001, 2008), a partir da significação que faz do ser humano do século vigente, traz imbuído um sentimento de instabilidade. Compreendemos que o mundo digital acaba por criar um universo paralelo, onde as relações humanas acontecem de maneira idealizada e cada vez mais longe da realidade do mundo concreto. Logo, a pós-modernidade, vista como os dias atuais, define um homem pautado em valores voláteis, a depender de demandas externas a ele, o que o torna vulnerável às influências dos domínios sociais que frequenta.
Partindo desse pressuposto, torna-se pertinente, então, a seguinte problemática de pesquisa: quais impactos as redes sociais têm causado no processo de socialização do homem pós-moderno?
Para que essa pergunta pudesse ser respondida, a fundamentação teórica conta com trabalhos sobre tecnologia e mídias digitais (Abreu; Dias; Oliveira, 2024; Bomfim; Biondo; Maia, 2024; Carvalho, 2016; Kim; Chock, 2015; Vieira Pinto, 2005a, 2005b), associados às pesquisas sobre os reflexos sociais de uma sociedade líquida (Bauman, 2001, 2008; Durso; Arruda, 2022). Entendemos que o referido diálogo teórico tenha sido importante para o avanço das discussões que operam neste universo temático.
Apresentamos também discussões pautadas nas autorrepresentações, construídas em narrativas contadas por meio das redes sociais, que estabelece a preocupação quanto a aceitação e pertencimento (Hall, 2006) e que nos conduz na tentativa de compreender como essas vozes são mobilizadas e ressignificadas a partir dos eixos narrativos (Bakhtin 1997; Ew et al., 2018; McLuhan, 1964).
Esperamos que este trabalho possa render desdobramentos futuros, de modo a garantir momentos vindouros de interlocução. Isso porque o referido tema nos exige um olhar atento e constante, já que nos ajuda a entender a atual conjuntura social em que estamos inseridos.
Tecnologia e mídias digitais na modernidade líquida
Nesta seção, apresentamos uma discussão teórica acerca do papel das mídias digitais no contexto da modernidade líquida. Para isso, compreendemos o mundo digital como uma esfera genuinamente movediça, em que as imagens são construídas a partir da preocupação do “outro”.
A relação entre tecnologia e mídias digitais tem sido problematizada largamente no atual cenário acadêmico. Compreender os efeitos sociais provocados a partir dessa articulação tem sido objeto de interesse de várias áreas do saber humano, tais como Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas (Abreu; Dias; Oliveira, 2024; Bomfim; Biondo; Maia, 2024).
Nesse sentido, torna-se pertinente problematizarmos esta relação, considerando-a como um fenômeno instável. Isso porque a tecnologia apresenta-se como uma ferramenta social e, portanto, acompanha as transformações das demandas relacionais as quais proporciona (Abreu; Dias; Oliveira, 2024; Bomfim; Biondo; Maia, 2024; Carvalho, 2016).
Portanto, entender o papel da tecnologia hoje nos demanda mobilizar conhecimentos sociológicos que versam sobre a chamada “modernidade líquida”, termos de Bauman (2001, 2008).
Estamos entendendo a “modernidade líquida” como o atual cenário social, caracterizado pelas instabilidades das relações humanas. Essa efemeridade é transposta a todas as relações sociais, sejam elas relacionadas aos atores humanos ou aos atores não humanos4 (Bauman, 2001, 2008).
A Figura 1 ilustra o movimento interdisciplinar ao qual nos referimos. Em tempo, a ideia de “interdisciplinaridade” que mobilizamos neste trabalho converge com a proposta por Fazenda (2008) e Lima (2008), quando afirmam que o movimento interdisciplinar é caracterizado pela mobilização de diferentes saberes teóricos na construção do conhecimento. Logo, a interdisciplinaridade tem, em sua essência, natureza dialógica.

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Figura 1 Movimentos interdisciplinares entre tecnologia digital e modernidade líquida.
A Figura 1 representa o movimento interdisciplinar compreendido entre “tecnologia digital” e “modernidade líquida”. É possível perceber que o direcionamento das setas indica e propõe um olhar cíclico, o que comprova a natureza indissociável entre os dois.
Dos estudos sobre tecnologia digital, nossa discussão será pautada nas redes sociais e os seus impactos no comportamento humano. Dessa forma, compreender a influência das redes sociais no mundo contemporâneo nos convida a pensar sobre questões voltadas ao ethos, uma vez que a existência do “eu” passa a ser uma consequência do “outro” (Bourdieu, 2001).
A tecnologia digital assume característica basilar no contexto da modernidade líquida, especialmente porque corrobora para uma sociedade cada vez mais efêmera no que compete ao comportamento e sentimento do homem. Em outros termos, a tecnologia parece mediar relações que tendem a se caracterizar pelo teor instantâneo, o que muito contribui para o aceleramento das tomadas de decisão, bem como para a brevidade das emoções, o que passa a ser representado pelo ethos.
Entendemos o ethos como um fenômeno que aponta o comportamento humano como algo complexo, que se constitui a partir daquilo que o “eu” deseja construir no imaginário do “outro”. Em outros termos, significa dizer que se trata da preocupação do “eu” e causar uma determinada ideia comportamental na concepção do “outro” (Bourdieu, 2001).
A tecnologia digital reverbera a transformação social, uma vez que as redes sociais proporcionam um engajamento massivo de relações, porém, na maior parte das vezes, vazias e efêmeras, ou seja, líquidas. Logo, é possível afirmar que as redes sociais, na conjuntura do mundo pós-moderno, aproximam as pessoas a partir de um ethos criado digitalmente que, nem sempre, reflete a realidade de grande parte das narrativas contadas no mundo digital (Bauman, 2001, 2008; Durso; Arruda, 2022).
Mundo digital que trouxe a temática da discussão sobre a modernidade líquida, onde são problematizadas as discussões acerca da inconstância do comportamento do homem, caracterizando-o como ser líquido. Dessa forma, para entendermos o comportamento humano é essencial observar o entorno em que ele atua, uma vez que isso é fator basilar para as transformações de postura e de concepção do mundo em si (Bauman, 2001, 2008; Durso; Arruda, 2022).
A natureza líquida das relações sociais pensadas por Bauman (2001, 2008) é materializada, no mundo atual, pelo uso massivo da tecnologia digital como articuladora da interação humana. Isso porque, com o advento da globalização, grande parte das decisões são tomadas por meio do uso tecnológico, o que também possibilita o distanciamento social entre as pessoas.
Para tanto, é necessário compreender também que a tecnologia digital, mais precisamente as redes sociais, colaboram para a efemeridade da atual sociedade, uma vez que, no mundo digital, as coisas acontecem de maneira bastante célere (Abreu; Dias; Oliveira, 2024; Bomfim; Biondo; Maia, 2024; Carvalho, 2016; Kim; Chock, 2015).
Partindo desse pressuposto, é pertinente afirmar que as redes sociais materializam a dita “modernidade líquida”, já que é a manifestação concreta da brevidade das coisas, das relações e dos ethos. Logo, passa a servir como uma espécie de termômetro social, considerando as narrativas constantemente socializadas nas postagens nas redes sociais (Bourdieu, 2001).
Em síntese, é importante problematizarmos as relações sociais no escopo de uma sociedade líquida. Nesse sentido, compreendemos que a tecnologia digital pontua a maneira com a qual as coisas acontecem e, por isso, acaba mediando situações de interação que tendem a ser falseadas se considerarmos que se tratam de relances de uma determinada rotina.
Autorrepresentação na construção narrativa: o silenciamento do “eu” a partir do vozeamento do “outro”
Considerando o papel, em termos, da mediação das relações, assumido pelas redes sociais, em que pese a mobilização das vozes, o objetivo desta seção é apresentar algumas discussões teóricas acerca das autorrepresentações construídas em narrativas contadas no mundo digital. A ideia é entender como essas vozes são mobilizadas e ressignificadas a partir dos eixos narrativos. Canevacci (2015, p. 16) destaca que,
O conceito-chave de ‘autorrepresentação’ se afirma nas culturas digitais além da lógica dicotômica. Nessa perspectiva, o pesquisador etnógrafo está legitimado para interpretar o outro que mora nos interstícios metropolitanos – por meio de comunicação dialógica, escrituras polifônicas, composições performáticas – apenas quando está disponível para se deixar interpretar ‘pelo outro’. Esta dialógica e este desafio apresentam uma epistemologia ‘transitiva’ da representação.
Tendo por referência a citação de Canevacci (2015), compreendemos que o processo torna-se uma inserção de território e demanda, considerando o contexto de referência que é a autorrepresentação, o aflorar da necessidade de se representar, na busca pela inserção desse determinado território. E também nos provoca a compreensão das narrativas que são estabelecidas, em um movimento de (re)significação a partir da significação coletiva, estabelecendo em certa medida uma relação de poder.
Dissemos isso porque àquele que determina a narrativa nesse movimento de (re)significação, assim o faz para legitimar, a partir da sua dimensão individual, a sua concepção. A significação de si, na relação da concepção e dimensão pessoal são enunciados das narrativas, atividade que se impõe em um movimento dialético, ou seja, narra-se na expectativa de que esses enunciados possam então o significar.
Assim, essa dimensão de poder não é diferente da defendida por Bourdieu (2001), já que para esse teórico, o poder faz referência à capacidade que o indivíduo tem de impor a sua vontade em relação aos outros. E, tendo o olhar para o contexto das redes sociais, compreendemos que o poder não só se materializa em cenários relativos a autoridades governamentais ou policiais, é possível perceber que ele (poder) é construído socialmente e reproduzido por meio das relações de “dominação” e “subordinação” presentes nos espaços midiáticos.
Podemos assim, considerando o contexto das redes sociais, fazer uma relação com o poder definido de capital simbólico descrito por Bourdieu (2001), sobre isso, e a relação que faremos, está nesse universo da manutenção do poder, que envolve o prestígio, a reputação e a legitimidade de uma pessoa ou grupo, e é isso que a maioria busca quando se propõe fazer parte do contexto das redes sociais. E para além disso, Bourdieu (2001) destaca ainda que o poder também está vinculado ao capital social, ou seja, às redes de relações e alianças que uma pessoa possui e que podem ser mobilizadas em seu benefício.
E, a partir desses aspectos compreendemos que o poder não é simplesmente uma questão de controle sobre os recursos materiais, mas está intrinsecamente ligado às relações do poder simbólico e social que permeiam a sociedade e moldam as interações entre os indivíduos. Esse seria um modo de autorrepresentação, mas não é esse movimento que se estabelece quando falamos do mundo digital, porque nesse “mundo” o que torna possível são as narrativas representativas, convergindo com as autorrepresentações coletivas.
E, considerando o contexto histórico na atualidade, é inquestionável o grande avanço das tecnologias em todos os campos do saber, bem como facilidades de acesso às informações, tornando o mundo verdadeiramente globalizado, o que faz com que essa era seja conhecida como a sociedade da informação.
Esses “modos” de informação impuseram mudanças nas narrativas, assim como aconteceu em outras revoluções históricas, como o advento da imprensa, e nesse momento histórico de revolução tecnológica, ela (narrativa) torna-se um pouco fragilizada se levarmos em consideração que a transparência dos fatos narrados não é no campo da própria narrativa, mas àquela que vai “atender” ao que o outro espera, ou quer ouvir/ver.
O que nos faz refletir que, como todas as transformações ocorridas na sociedade, sejam elas, econômicas, políticas, sociais ou culturais e que demandaram mudanças de paradigmas e estruturais, resultaram em pontos positivos e outros nem tanto. Em se tratando do avanço tecnológico, facilmente observamos a rapidez com que informações são propagadas, verdadeiras ou não, e que demonstra que se manter no anonimato não é mais possível.
A não invisibilidade está associada também as facilidades de acesso as redes sociais, e tal fato traz à tona outro problema, a preocupação com a aceitação e a busca desenfreada pelo pertencimento, esses são aspectos que na observação do contexto são materializados e significados como um dos poderes midiáticos. Visto que, do jeito com que as redes sociais estão inseridas na vida cotidiana, ela substitui as formas de relações coletivas sejam na família, no trabalho e/ou no contexto de lazer, incidindo na leitura de que o maior dos poderes midiáticos é o de mediar a ação do homem com o meio.
Os aspectos relativos à preocupação com a aceitação e o pertencimento nesse contexto midiático apresenta uma dualidade, ou seja, se estabelece a partir de um conceito individual da percepção de si, para a busca de uma representação da identidade coletiva, o que em certa medida podemos caracterizar como uma crise de identidades. Vamos nos fundamentar em Dubar (2009) para tratar sobre esse assunto, guardadas as devidas proporções entre o que esse autor discute a temática que nos propomos a escrever que são as redes sociais. Um dos aspectos em convergência está na compreensão de que a crise de identidade surge quando se detecta discrepância entre as percepções da autoidentificação em relação a percepção do outro ou quando se tem uma ruptura ou conflito significativo nas narrativas construídas pela pessoa sobre si mesma.
A partir desse pressuposto, um dos caminhos para restaurar a compreensão sobre a identidade, em termos de superar essa crise, está centrado em reconhecer as discrepâncias entre a identidade para si e a identidade para o outro, trata-se assim de um processo de renegociação e reconstrução das narrativas de identidade, em que permite um processo em que as pessoas possam integrar as experiências e a redefinição de suas identidades de maneira coerente. Isso se dá na percepção sobre as interações sociais que compõem as experiências de vida.
Sobre esse assunto, crise de identidades, para Hall (2006), trata-se do fenômeno de descentração, de fragmentação da identidade moderna, a esse respeito o autor comenta que:
Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento-descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos - constitui uma ‘crise de identidade’ para o indivíduo
(Hall, 2006, p. 9).
Importa salientar nesse momento que o sujeito inserido nessa sociedade em reestruturação, resultado dessa revolução tecnológica da qual faz parte o contexto das mídias sociais, transita entre seu “[...] núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem” (Hall, 2006, p. 11).
Falar desse sujeito é entender esse novo perfil de homem, o homem pós-moderno, que se re/configura nessa nova sociedade em um movimento de duplo deslocamento, que tem que entender a provisoriedade das conexões, ao mesmo tempo em que busca estabelecer a sua identidade.
Segundo Hall (2006), a conceitualização do homem pós-moderno está imbricada nessa compreensão da complexidade da experiência humana, definida a partir de seu status social, balizado em consumo de bens e serviços, na maioria das vezes, um modo de ser ditado pelas redes sociais que transformam os estilos de vida e de expressão cultural configurando uma cultura pós-moderna.
Fluída e fragmentada, a sociedade pós-moderna impõe que ele (homem pós-moderno) esteja constantemente navegando por uma multiplicidade de realidades, influenciadas por um mundo em constante transformação, onde a distinção entre realidade e a representação dela são cada vez mais tênues, tendo como principal interlocutor a tecnologia.
De acordo com Vieira Pinto (2005a, 2005b), a tecnologia é a capacidade humana de transformar a natureza e a si mesmo, nesse sentido então não deve ser compreendida somente como um conjunto de ferramentas ou máquinas. Ele entende a tecnologia como um fenômeno social e cultural, inseparável da história e da prática humana. Defende que a tecnologia é a expressão da inteligência humana, que se estabelece como um resultado das buscas humanas em resolver problemas, enquanto expressões de suas necessidades.
Das reflexões que estabelece em suas publicações, Vieira Pinto (2005a, 2005b) sinaliza o papel de consumidor que o homem assume. Nesse sentido, importante notar que diferente do que poderia se pensar sobre o papel da tecnologia em ajudar na resolução das necessidades humanas, ela em decorrência do modo em que está sendo usada, passa a projetar uma realidade, e a partir do que se vê em termos de globalização, o modo de ser/estar na sociedade, que é ditado pelo próprio homem, configurando o contexto de dominação amplamente debatido por Vieira Pinto (2005a, 2005b) em seus livros, assim, “[...] o conceito de ‘era tecnológica’ do ponto de vista de Vieira (2005) é considerado um conceito ideológico, expressando a dominação de determinados grupos, onde a cultura do consumo dirigido é justificada por metáforas [...]” (Tonin et al., 2022, p. 363).
Tendo por referência as colocações feitas, visualizamos um paralelo entre esse conflito “eu real” ou “realidade real” e as narrativas então “impostas” pelas redes sociais. Já que estamos lidando, quando falamos de redes sociais, do mundo pessoal e aquele que queremos deixar público, onde se estabelece as metáforas, ou em certa medida uma tática, em termos de endereçamento entre o Eu e o Outro.
Nesse sistema de endereçamento vemos constituído os processos discursivos e como se dão os enunciados, que são em certa forma regulados por aquilo que já está convencionado (pelo público que o legitima) nas redes sociais, em outras palavras, “[...] a constituição de um senso de si (self) ocorre no contexto das interações discursivas, nas quais os sujeitos aprimoram estratégias retóricas que darão suporte para esta constante construção dos itinerários pessoais” (Ew et al., 2018, p. 2).
Voltamos então a questão do pertencimento, e o faremos a partir de alguns pressupostos em que estabelece a relação entre o autor e o personagem defendidos por Bakhtin (1997) e as discussões sobre o meio e a mensagem defendidos por McLuhan (1964).
Bakhtin (1997, p. 27) anuncia
O herói revelará muitos disfarces, máscaras aleatórias, gestos falsos, atos inesperados que dependem das reações emotivo-volitivas do autor; ele terá de abrir um caminho através do caos dessas reações para desembocar em sua autêntica postura de valores e para que o rosto da personagem se estabilize, por fim, em um todo necessário. Quantos véus, que escondem a face do ser mais próximo, não precisamos, do mesmo modo, levantar, véus depositados nele pelas casualidades de nossas reações, de nosso relacionamento com ele e pelas situações da vida, para ver-lhe o rosto em sua verdade e seu todo.
Com base nesse fragmento, entendemos que as narrativas que se estabelecem nas redes sociais, por meio daquele que encobre “véus”, pode apresentar um “ar ficcional”, em que o sujeito que narra quer se constituir na dinâmica discursiva em um contexto de memória individual e coletiva, em um movimento, entre o autor-pessoa e o autor-criador, conforme descrito por Bakhtin (1997).
Nesse movimento entre o autor-pessoa e o autor-criador reside o processo dialógico entre o Eu e o Outro, segundo Ew et al. (2018, p. 2): “Essas esferas comunicacionais, Eu-Outro, são compreendidas como subjetivantes – nas quais se estabelece contextualmente uma noção de Eu a partir do Outro, assim como uma noção do Outro a partir do que se compreende como Eu”, e ele complementa que,
Esse processo é interpretado por Tajfel (1981) como profundamente vinculado à noção de pertencimento, em que identificar-se com um grupo ou situação significaria categorizar, diferenciar os de dentro (nós) dos de fora (eles). Nesse estabelecimento de redes de pertencimento e sociabilidade, as enunciações elaboradas põem em pauta a sua capacidade de se posicionar como autores numa articulação de discursos sociais
(Ew et al., 2018, p. 2).
Essa relação comunica, utilizando a linguagem das redes sociais, aquilo que o autor na sua posição enunciativa quer que aconteça que é a audiência. E ela é materializada em função do que importa ao emissor (autor) que é chegar ao destinatário, e segundo Bakhtin (1997), esse elo de comunicação entre autor e audiência, assim o são, por meio da relação comunicativa, dialógicas de complementaridade e continuidade. Nesse caso, no universo midiático, estabelece-se um fim objetivo da premissa dialógica de interação e pertencimento.
Nesse processo de pertencimento da construção das narrativas é importante compreender que não existe a dissociação entre o emissor e o destinatário, assim, a narrativa presente nas publicações das redes sociais não pode ser vista como separada do sujeito que consome e o que produz. Nesse sentido, estabelece-se um novo modo de conceber as narrativas, que outrora era vista como dois movimentos distintos, mas na atualidade, consumida pelo desejo de pertencimento, vai se dar no momento em que o sujeito ao tentar se incluir passa a ser a informação, ou seja, ele é a informação, esse trânsito de mão-dupla, para Canevacci (2015, p. 17) é “[...] uma virada epistemológica surge como efeito do fenômeno da autorrepresentação, que altera profundamente os métodos e os paradigmas”.
Isso é o resultado da produção coletiva existente nas redes sociais, que pode ser caracterizada como uma aldeia global5, em que você está vendo e está sendo visto.
O susto da percepção! Num meio ambiente de informação elétrica, as maiorias não podem mais ser contidas – ignoradas. Muita gente sabe demais sobre cada um. Nosso novo ambiente compele à participação e ao engajamento. Hoje em dia estamos irrevogavelmente envolvidos com, e responsáveis por, cada um dos outros.
(McLuhan, 1964, p. 52).
Tal fato pode ser compreendido em dois movimentos, tanto de forma literal, quanto na simbólica. Quando falamos do literal, no contexto das redes sociais, o papel do sujeito no que se refere ao pertencimento, está relacionado a geração de informações – vídeos, fotos, post’s – que tem como objetivo alimentar um algoritmo. Já quando se fala na simbólica, ela se contextualiza na compreensão de que se abre mão da privacidade para poder acessar o que antes era privado do outro, em outras palavras, no desejo de tornar o outro público, o sujeito tem que se tornar público também.
Entender nesse contexto, o pertencimento da construção de narrativas, só ocorre a partir do entendimento de que tudo na atualidade – público e privado –, nas redes sociais é um todo, um cenário referenciado como aldeia global. A esse respeito Canevacci (2015, p. 18) desta que, “[...] o público – que era somente espectador – vem agora a ser ‘espect-ator’, isto é, não só participa, mas também é ator-nos-espaços. Isso significa esse tipo de coparticipação desenvolve uma espécie de atitude performática nos públicos. O ‘espect-ator’ performático não é mais passivo [...]”.
Em uma compreensão dualista entre indivíduo/sociedade, configura-se um movimento de complementariedade, segundo Hall (2006), entre o “eu” e o sistema social. E, nesse sentido, tendo por referências os pressupostos de McLuhan (1964), esse processo se dá em virtude da evolução que ocorreu na mídia, e essa evolução percebemos na rapidez com que os conteúdos são apresentados e com isso ela – redes sociais –, assim como os conteúdos nela expostos, são moldados à pessoa que o consome. Esse modo de ser estabelece a “mudança” do público, que deixa de ser passivo e passa a ter voz, assim o que antes era configurado como via de mão única, ou seja, produtor de conteúdo, o que “detinha” essa voz, que era o emissor da mensagem, começa também a ter a função de escuta no contexto.
Nessa configuração das redes sociais é que se estabelece a comunicação ativa, ou seja, o público (a audiência) têm também a possibilidade, e assim o faz, de opinar, de interagir, em todas as modalidades compreendidas de interação, ou seja, o fato de parar de seguir ou os modos de cancelamentos (usando a linguagem da atualidade nas redes sociais) são exemplos concretos dessa interação.
A resposta dessa interação condiciona com que o emissor passe a escutar sua audiência, assim se configura uma tríade (Figura 2) em que a informação, o meio utilizado e a realidade composta entre o “Eu” e o “Outro” se tornam um só conteúdo. Retomamos, tendo por referência essas argumentações apresentadas, as ideias defendidas por McLuhan (1964), que diz que enquanto espectadores, nós temos que mudar nossa compreensão e não mais nos fixarmos na posição de que meio, mensagem e contexto são separados. Em outras palavras, esse teórico estabelece que a forma com que você comunica é também a mensagem, para ele o meio é a mensagem, nesse sentido, do lugar onde se fala, muda, molda e significa aquilo que se fala.
Ao observamos a tríade a partir de McLuhan (1964) compreendemos que os elementos que ela compõe, se materializam como que extensões de sentidos humanos, pensar nessa extensão a partir da defesa do autor é compreender como elas (as extensões) se transformam na maneira como experimentamos o “eu” e o “outro” e altera a forma como nos conectamos com os outros e como percebemos nossa própria identidade. De acordo com McLuhan (1964) estar inserido hoje nesse cenário caracterizado como aldeia global, faz com que o “eu” seja constantemente confrontado com o “outro”, com uma diversidade de culturas, ideias e experiências que antes não estavam tão facilmente acessíveis. Isso pode enriquecer a compreensão do “eu”, mas também pode criar conflitos e desafios na definição de identidade.
Nesse caminho reflexivo, contexto, meio e mensagem são para ele a mesma coisa e dessa forma percebemos que o comunicador e o ouvinte começam a se perder e pode-se dizer, diluir a especificidade do papel de cada um, porque quem é ouvinte passa a ser o comunicador, o comunicador tem que ter papel de ouvinte e também os dois – comunicador e ouvinte –, se tornam a mensagem. E assim se dá o processo de união da comunicação, materializado no silenciamento do “Eu” a partir do vozeamento do “Outro”, em que não é mais possível a compreensão por parte do sujeito de qual das identidades que ele assume, são reais ou quais são fantasias, ou melhor, qual é a narrativa do eu.
E, por meio da reflexão da apresentação da identidade do sujeito, em uma tentativa para uma visão biográfica, moldada pelas “regras” das redes sociais, que “entrega” diferentes partes de nossos “eus”, que trazemos os dizeres de Marx e Engels (1973, p. 70) que afirmam,
[...] é o permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos [...] Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmancha no ar [...].
A identidade do sujeito na visão desses autores não é uma essência fixa e ela se constitui social e historicamente, considerando a defesa teórica por eles defendida acerca da percepção que o sujeito faz de si interligado as relações sociais e econômicas da qual faz parte, nos posiciona interrelação com o esvaziamento de si que se dá a partir da compreensão de que somente um momento de prazer, no pertencimento momentâneo, que o sujeito estabelece em contexto das redes sociais, será suficiente. Isso em certa medida é sujeitar-se a perder a identidade, em um movimento de mascaramento que contribui para um reconhecimento de pertencimento que não revela as contradições em que não se estabelece nem a identidade e nem o pertencimento. Não se deixar esvaziar é possível a partir da conscientização de como as redes sociais podem manipular as narrativas.
Considerações Finais
Neste trabalho, fizemos um percurso de discussão teórica em que a relação entre tecnologia digital e modernidade líquida nos ajudou a pensar no comportamento humano enquanto fenômeno instável. Dessa forma, partimos do pressuposto de que a atual conjuntura social favorece as relações humanas de maneira efêmera, o que causa contrapontos entre o “eu” e o “outro”.
A discussão revela que, ao entendermos as relações humanas como fenômenos, percebemos também que há uma preocupação com a imagem que irá ser criada nas redes sociais. Aqui, reforçamos que a presença do ethos torna-se latente, considerando que as ressignificações comportamentais refletidas nas redes sociais nem sempre refletem a veracidade das narrativas postadas, isso porque, considerando a perspectiva defendida por McLuhan existe e/ou o ambiente das redes sociais faz aflorar o narcisismo e a narcose narcisista, materializada na fixação do “eu” a partir do que se espera projetar, em termos de consumo, no “outro”. Processo que em certa medida pode distorcer a percepção de si mesmo e do “outro”, levando a um foco excessivo em como somos vistos em vez de quem realmente somos em um movimento de se ancorar em narrativas que agrade o interlocutor.
A introdução de meios de comunicação nas redes sociais modifica a relação entre o “eu” e o “outro” ao permitir um feedback instantâneo e contínuo e não uma comunicação unidirecional, já que se estabelece um diálogo constante, onde o “eu” é continuamente moldado pelas respostas do “outro”. Esse processo interativo pode levar a uma maior conscientização e adaptabilidade, mas também pode resultar em um senso de identidade fragmentado e dependente da validação externa, isso porque no contexto das redes sociais, “prender” a atenção do público é ter o domínio das âncoras narrativas, por meio de relação de proximidade, sensação de familiaridade ou conexão emocional, que tem o objetivo de agradar esteticamente e emocionalmente o outro (audiência), com vistas a buscar uma forma de pertencimento a um certo contexto, e isso tem-se percebido como resultado enquanto impacto que as redes sociais tem causado no processo de interação/socialização do homem pós-moderno.
Ressaltamos a necessidade de futuros debates sobre o referido tema, em especial relativos aos desdobramentos que os meios de comunicação de forma geral, enquanto estrutura, tem assumido na função de mediador na construção narcisista de projeção da realidade e nas construções das relações a partir desse conceito. Assim, esperamos favorecer momentos vindouros de interlocução, dado o momento social pelo qual estamos passando.















