Introdução
“Nasci menino, nasci menina” e quem define esse nascimento é a sociedade e o tempo no qual estamos inseridos, olhamos assim para o órgão genital para sermos enquadrados como homem ou mulher (Coradini, 2022, p. 15). Esse enquadramento é fundamentado na premissa de que os órgãos genitais categorizam os indivíduos dentro do padrão binário de identidade de gênero; isto é, masculino e feminino. Butler (2024), em seu livro Quem tem medo do gênero?, destaca que, em vez de considerar o gênero a versão cultural ou social do sexo biológico, deveríamos perguntar se o gênero funciona como o quadro referencial que tende a estabelecer os sexos dentro de esquemas classificatórios específicos. Em 2015, Butler afirmou que a cada pessoa é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras. Louro (2000) corrobora esse entendimento afirmando que as possibilidades da sexualidade – das formas de expressar os desejos e prazeres – também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas. É possível então afirmar que nesse funcionamento ocorre o esquema de poder observado pela estruturação masculino e feminino.
Para Butler2(2019), às vezes, esquecem que “o” corpo vem em gêneros, justamente como implica a pergunta “Qual é o seu gênero?” (Butler, 2021, p. 28), atualizada pela autora para “Qual dos gêneros?” (Butler, 2024, p. 195). O corpo, nesse caso, é apresentado como superfície e cenário de uma inscrição cultural (Foucault, 1977, apud Butler, 2021, p. 224): “o corpo é a superfície inscrita pelos acontecimentos”. Os atos, gestos e desejos são substâncias produzidas na superfície do corpo, que se conecta ao mundo externo, performatizando. De acordo com Butler (2021, p. 235), esses atos, gestos e atuações “são performativos, no sentido de que a essência ou identidade que por outro lado pretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreos e outros meios discursivos”.
Ao analisar o discurso enquanto instrumento de poder, Foucault (1996) percebe que na sociedade existem certos processos de interdição discursiva, frutos das relações de poder que permeiam o meio social. Campos e York (2024) afirmam que, quando os discursos que reverberam em torno do imaginário social a respeito da travesti e das travestilidades são tensionados, percebe-se sempre um não lugar ou um lugar de subalternização e marginalização. Logo, a travesti sempre estará reduzida discursivamente à figura de uma pessoa marginalizada, das ruas e na prostituição compulsória, pois é esse o lugar que o sistema as coloca.
Campos e York (2024) destacam ainda que, a partir da lógica da intelectualidade hegemônica silenciadora, os saberes subalternizados, segundo o pensamento de Spivak (2014), sofrem com um processo de silenciamento, o que resulta no apagamento e na inviabilização epistemológica dos saberes subalternos. Desse modo, grupos historicamente subalternizados são silenciados em seus saberes e vivências, reduzidos a seres não pensantes, atravessados por estruturas que os silenciam em distintos sentidos. Assim, a travesti, enquanto parte de um grupo subalterno, sofre um processo de silenciamento epistemológico, pelo qual seus saberes e intelectualidade são reduzidos ao vácuo.
Para sintetizar, é possível entender que as travestilidades passam por um processo que York (2020) define como “trans-epistemicídio”; isto é, a aniquilação dos conhecimentos e saberes através da dominação político-ideológica. Assim, ao associar esse conceito ao gênero, percebe-se que, para as pessoas trans, o que acontece pode ser interpretado, efetivamente, como um trans-epistemicídio, que é precisamente o processo de extinção dos saberes, vivências, histórias e experiências desses indivíduos.
De acordo com York, Oliveira e Benevides (2020, p. 2), compreende-se travesti nos dizeres:
A respeito da palavra travesti, há uma potente significação, por vezes torpe, do verbo “travestir”. Seja “travestir” na tentativa posta que em dado momento vincula à sujeira, à doença, a marginal, a maleficência disfarçada, falseada, não genuína. Para nós, por sua vez, a palavra se vincula à luta, à resistência, à dignidade e a uma potencialidade política e contestatória.
Para Campos e York (2024), entretanto, nós “existimos e resistimos e existimos porque resistimos. É sob essa lógica que a travestilidade é necessariamente potência e resistência. É impossível ser travesti no Brasil, país que mais mata essa população no mundo por 15 anos consecutivos, sem resistir”. Não há escolha, não há opção. Estar viva sendo travesti é, em si, uma resistência epistemológica. Trans-epistemológica.
Florence Belladonna Travesti e Joyce Alves afirmam que pensar o significado de um corpo cuja identidade de gênero desvia-se de suas expectativas iniciais no nascimento é compreender como um sistema de representação captura essa existência e as coloca diante de uma monstruosidade assustadora, inclusive para elas mesmas, que são desumanizadas diante da cisgeneridade (Travesti; Alves, 2023). Isso porque a cisgeneridade nunca esteve preocupada com o tom das acusações maldosas contra elas, nem como isso poderia reverberar em suas vidas. Pelo contrário, os tentáculos cisgêneros sempre desejaram veementemente suas tomadas de poder.
Foi a partir desse lugar de encontro com o silenciamento dos corpos trans/travestis na ciência que a subversão, a reviravolta epistemológica e a “sabotagem epistêmica”, como afirma Vergueiro (2015), se concretizaram enquanto processo de anunciação e denúncia na pesquisa. Conforme destacam Benevides e Lee (2018), os corpos trans/travestis são objeto de curiosidade científica, mas não de autoridade de saber, sendo vistos como ininteligíveis para a pesquisa ou para a construção do saber. Passos (2022) ensina que corpos travestilizados são necessariamente pedagógicos, porque a história deste país é também a história das travestis e de sua resistência, e, novamente, tem-se a travesti como potência.
Este trabalho ocorre, em parte, durante a pandemia de COVID-19, momento em que os corpos e corpas habitam a internet em sua potência de vida, organizando-se a partir da ruptura da presencialidade. Vivenciou-se na pandemia o maior aprendizado sobre cibercultura, que, como assinala Santos (2014, 2019), é a cultura contemporânea que revoluciona a comunicação, a produção e a circulação em rede de informações e conhecimentos na interface cidade-ciberespaço.
Foi nessa cena sociotécnica da contemporaneidade que constatamos um fenômeno no Instagram denominado de “emergência das epistemologias e autorias trans/travestis da rede”. Essas mulheres, cientistas, professoras, intelectuais, estavam habitando a rede com autoria epistemológica, afirmando e demarcando seu lugar na ciência, formando-se e formando os outros e articulando uma ecologia de saberes multirreferenciais, éticos, estéticos e políticos. Nesse sentido, compreendeu-se que era necessário lançar mão da observação e etnografar todo esse processo, com uma postura para além da posição de pesquisadores, mas como parceiros, aliados e cientistas.
Ao situar o dilema no campo do pensamento da autoria, com uma investigação concentrada na rede social Instagram, buscou-se compreender como mulheres trans/travestis autorizavam e construíam suas autorias na rede, saberes vivos, formativos e plurais na cibercultura.
Todas as cientistas trans/travestis que forem citadas neste texto serão apresentadas com seus nomes completos, mesmo que isso se oponha ao que normatiza a ABNT, pois atos como esses se tornam políticos e visam subverter a ciência com legitimidade, rompendo com o trans-epistemicídio, noção teorizada por York (2020). O principal propósito deste estudo foi elucidar o conteúdo produzido por essas cientistas nas redes, a maneira como construíam suas autorias e epistemologias – todas cunhadas com um rigor científico de alta qualidade. No entanto, a acessibilidade e disponibilidade de suas produções dentro da universidade são escassas, silenciadas, mascaradas e, quando possível, alocadas em espaços que habitam as temáticas de gênero e sexualidades.
O artigo encontra-se estruturado em quatro seções: na primeira, serão apresentados o dilema da pesquisa e os aspectos metodológicos. Na segunda, será apresentada a etnografia on-line com os registros das observações do Instagram de Sara Wagner York. Na terceira, serão trazidas as análises e discussão dos dados; e, por fim, nas considerações finais, destacaremos ao leitor a relevância deste trabalho.
Etnografia on-line no Instagram: a importância das narrativas que operam no digital
De acordo com Okada e Santos (2005), o ato de pesquisar se constrói a partir da inquietação e de questionamentos sobre a realidade, procurando respostas sempre temporárias, pois, no contato com elas, novas inquietações se engendram conduzindo o pesquisador à busca incessante de novas respostas e explicações. Para Santos (2014, 2019), pesquisar na cibercultura é atuar como praticante cultural produzindo dados em rede.
A etnografia, oriunda da Antropologia, foi criada como uma forma de estudo cultural por meio de uma imersão profunda no campo estudado. Decorrente dessa metodologia, a etnografia virtual é um ramo que se propõe a acompanhar espaços virtuais de interação e comunicação mediados por computadores (Colacique, 2018). Nesse sentido, Hine (2000) afirma que a etnografia virtual, conhecida também como webnografia, ciberantropologia, netnografia e etnografia digital, entre outras denominações, estuda as práticas sociais na internet e o significado delas para os participantes. Ao bricolar com o conceito de Hine (2000) de etnografia virtual, Lewis (2016) aponta que ainda existem divergências quanto à utilização do termo; portanto, nesta pesquisa optou-se por utilizar o termo “etnografia on-line”.
De acordo com Kozinets (2006), a netnografia funciona como um multimétodo; ou seja, os métodos escolhidos dependem das questões de pesquisa consideradas e dos pontos fortes do pesquisador. Ainda de acordo com Konizets (2006, p. 132):
A investigação netnográfica realizada por Langer e Beckman (2005), com Askegaard, que envolvia quadros de avisos on-line, e-mail, entrevistas pessoais e literatura e pesquisa de arquivo de mídia, é um bom exemplo do tipo de método multimídia, multifacetado estudo que caracteriza etnografia e netnografia. Tudo o que pode ser necessário para que uma investigação seja netnográfica (e que, por exemplo, diferencie um pesquisa usada como parte de uma netnografia de uma pesquisa on-line que não era) é que os dados, a coleta deve ser analisada para entender os consumidores da comunidade e cultura on-line, os contextos em que estão inseridos, e não que a análise seja conduzida de forma que a retire do contexto e apresente os consumidores ou suas práticas como representantes mais gerais de um grupo mais amplo ou fenômeno mais universalizado.
Em atenção aos avisos on-line, conforme mencionam Langer e Beckman (2005), durante a etnografia on-line, observou-se que a praticante acompanhada durante esta pesquisa habitava o Instagram com muita frequência, então foi estabelecida uma rotina ritualizada de atividades da rede. O Instagram foi criado por Kevin Systrom e pelo brasileiro Mike Krieger, em 2010, e, em poucos meses, a rede social se tornou um dos aplicativos mais promissores da App Store. Atualmente, a rede conta com aproximadamente 2 bilhões de usuários ativos mensais, sendo umas das redes sociais mais acessadas do mundo. De acordo com o histórico da rede Instagram, inicialmente a sua interface fez muito sucesso, pois previa a publicação de imagens proporcionalmente quadradas e com uma seleção restrita de filtros artísticos e clássicos. Após o lançamento, o Instagram atingiu o auge da App Store em menos de 24 horas, despertando imediatamente a atenção de outros públicos, que se dividiam entre o Facebook e o Snapchat.
Para tanto, optou-se por etnografar a Sara Wagner York no Instagram em decorrência da dimensionalidade que a sua imagem estava atingindo na rede, principalmente no que tange a visualizações e seguidores. Para Morris e Murray (2018), a cultura dos aplicativos é a expressão mais visível da plataformização da sociedade, visto a sua superfície e a interface de agenciamento dos usuários em nome da eficiência. Lemos (2021) afirma que essa vida pelos dados ou vida dos dados (life of data) coloca na ponta do sistema o usuário excitado para se manter atento, vinculado e engajado, na lógica da dataficação. Além de conceitos como “rede de computadores” ou “sociedade em rede”, a metáfora da rede é proeminente nos estudos de internet, principalmente por enfatizar a capacidade sociotécnica de perfis formalizarem suas conexões por meio de funcionalidades como seguir, curtir e compartilhar.
Lemos (2021) destaca que, no atual estado da cultura digital, vivencia-se uma profunda e global dataficação da vida. Segundo o autor, a fase de digitalização da cultura digital, iniciada na segunda metade do século XX, está atualmente sendo absorvida pela dataficação. Ainda segundo Lemos (2021), esse é um processo de tradução da vida em dados digitais, rastreáveis, quantificáveis, analisáveis e performativos.
No transcurso da etnografia on-line de Sara Wagner York, foi possível perceber a forma produtiva como a cientista se apropriava da rede, deixando, em seus espaços de interlocução com os seguidores, rastros de suas narrativas, que impactam e produzem um movimento formativo, multimodal e processual a partir da sua comunicação. Sofia Fávero, em Por uma ética pajubariana: a potência epistemológica das travestis intelectuais, discute justamente sobre a mudança de posição de pesquisadas para pesquisadoras e o reflexo disso nas produções científicas. Nessa obra, a autora chama atenção inclusive para a importância da internet no surgimento dessa nova geração, dizendo que “[...] não para afirmar uma ingênua ideia de democratização no acesso à internet, como se de fato tal mecanismo estivesse disponível para todos, mas para considerar essa variável na profusão de debates sobre transexualidade, travestilidade e transgeneridades na web” (Fávero, 2020, p. 4); quer dizer, de como as travestis vêm se apropriando dos espaços que podem ser ocupados por elas para fazer acontecer essa “pesquisa de si”.
Para além de romper com as questões políticas que se apresentam na democracia do acesso à internet, é fundamental considerar a importância da cibercultura quando se buscaavançar nas questões de liberdade e, principalmente, adentrar em debates que não são mobilizados e difundidos pelas mídias de massa, como a transexualidade, a travestilidade e transgeneridades na web. “E não somente virtualmente” (Fávero, 2020, p. 5). Esta pesquisa, de algum modo, possibilita a visibilidade do crescente número de publicações autorais de pessoas trans e travestis. Portanto, lida-se aqui com uma representatividade aliada que articula saberes para dizer que as pessoas trans e travestis estão se deslocando para um novo viés, subversivo, insurgente, desobediente, que é posicionar os corpos pesquisados na condição de pesquisadores, notoriamente uma das maiores cláusulas para a ruptura com a universidade cis-heteropatriarcal.
“Uma travesti da/na Educação”: com licença, apresento-lhes Sara Wagner York
Optou-se por extrair do currículo Lattes uma breve introdução acadêmica de Sara Wagner York, ou Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior. Deficiente visual, pai, avó e alguém que se apresenta como uma travesti da/na Educação – em razão da decisão judicial (de 2017) que concede o direito ao uso de um nome feminino, mas não a readequação de gênero.
Sara é mestra em Educação (Geni/ProPEd/UERJ – com bolsa CNPq), especialista em Gênero e Sexualidades (Clam/Instituto de Medicina Social/UERJ – com bolsa da própria instituição) e especialista em Orientação Escolar, Supervisão Escolar e Inspeção Escolar (ISV). Também é graduada em Letras – Literatura Inglesa (Licenciatura/Unesa), Pedagogia (Licenciatura/UERJ) e Letras Vernáculas e Literaturas Brasileiras, Portuguesas e Africanas em Língua Portuguesa (Licenciatura/Unesa). Formada em jornalismo (Unesa/2021-2023), é considerada a primeira âncora do jornalismo brasileiro através da mídia (pós-TV) Brasil 247. É professora mediadora na disciplina de Informática em Educação no curso de Pedagogia/Ensino a Distância na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Atualmente, é doutoranda em Educação pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ (Geni/ProPEd/UERJ – com bolsa CNPq) e sua pesquisa investiga desigualdades e a diferença, a laicidade e o backlash e a bio/necropolítica e as identidades como estruturas determinantes para a exclusão/inclusão travesti/trans no contexto homo-conversador-nacionalista brasileiro, além de pesquisar, traduzir e escrever sobre trans-epistemologias (e o corpo intersexo) na Educação.
No início dos estudos sobre as pessoas que seriam etno(queer)grafadas, Sara foi uma das primeiras a ser escolhida, por dois motivos: a parceria desenvolvida junto ao GPDOC e sua representatividade para os debates dentro e fora da universidade sobre as mulheres travestis e pessoas transexuais. Sara se apresenta no Instagram como “[...] educadora, travesti, pai, avó e PcD”. Em suas entrevistas, apresentações e textos, sempre se posiciona como “travesti da/na educação”, porque, de acordo com York (2020, p. 3), “[...] educar e trabalhar com as dinâmicas da educação eu já faço há muito tempo”.
De acordo York, Oliveira e Benevides (2020), ao contrário do imaginário do senso comum, ser uma travesti é o reconhecimento de um outro corpo possível, legítimo, além daquele normatizado. A respeito da palavra travesti:
[...] Uma palavra feminina, um substantivo feminino e nunca um verbo que sujeita e infere. Corriqueiramente, e de forma equivocada, pessoas cisgêneras utilizam a palavra travesti enquanto verbo com desinência de tempo passado, para atribuições de cunho pejorativo, como na frase, “o político, fulano de tal, estava travestido de aliado”. Travestido, judiado, denegrido e tantas outras formas que a língua adere à norma ao passo que pune. Quem determina os limites possíveis de se existir enquanto travesti e ter uma experiência de vida que surge impregnada de estigmas e tabus, violência, invisibilidade e negação de espaços?
(York; Oliveira; Benevides, 2020, p. 2).
É a constituição de uma identidade real (quando apresenta materialmente seu corpo), social (quando transita entre os espaços) e política (quando reivindica direitos – de fato e de direito). E de que forma a educação atravessa Sara Wagner York? Em uma entrevista concedida ao professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e cientista político Daniel Tojeira Cara, Sara afirma:
Acho que eu tinha quatorze ou quinze anos, eu já dava aula de ‘Baby Class’.Quem tem filho e criança bem sabe, ‘Baby Classes’ são as aulas iniciais de Ballet Clássico para as crianças. Então eu já era professora nesse momento. Mais tarde eu fui trabalhar com montagem coreográfica, cheguei a ter formação de Ballet Clássico e Jazz
(Cara; York, 2020, p. 4).
Nesse aspecto, Sara reafirma o momento em que se percebeu professora:
Fui dançar e já era Sara, já usava salto, mas tinha ainda a possibilidade de estar fluindo o que chamaria de “um corpo gay”, por exemplo. E é justamente nesse momento que eu acho que eu vou entender que eu era uma professora, sendo coreógrafa, trabalhando profissionalmente ainda com um grupo incidente um texto do Chico Buarque, que é “O meu Guri”, com um texto do Zé Nuaidi, que é um musical do Chico Buarque, e isso em noventa e dois
(Cara; York, 2020, p. 4).
A fala de Sara se concatena com o que retrata Ribeiro (2020, p. 64): “[...] o falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas a poder existir”. Quando se fala sobre o direito a uma existência digna e à voz, fala-se de um lugar social (Ribeiro, 2020). Todas as experiências e vivências abjetas relatadas por Sara lhe permitiram romper com os entraves cis-heteronormativos que a distanciavam de um lugar de direito como professora. Travestilizar a educação é cobrar caro a reparação histórica de corpos silenciados e retirados da cena social, por não caberem dentro da caixa do perfil socialmente aceito.
York (2020, p. 17) reafirma o seu posicionamento enquanto travesti:
Porque que eu estou dizendo que eu sou travesti, Daniel? Seria muito fácil eu dizer que sou uma professora trans. Eu sou uma mulher trans, ou eu só sou uma mulher. Poderia fazer isso, a partir da Lei de 2018, que permite retificação documental. Mas a gente ‘aciona’ a travesti, justamente porque a palavra travesti, a mulheres que ainda estão sendo jogadas ao trabalho sexual e não tem nenhum problema em uma pessoa em decidir por trabalhar com a venda da sua “hortaliça”, do seu conhecimento, que é o que a gente faz, nós somos professores e nós vendemos conhecimento ou alguém querer vender o corpo, pra mim, tudo faz sentido.
Ainda de acordo com York (2020, p. 122), o que torna um lugar nosso?
As sensações de pertencimento, como mostro em minha própria trajetória enquanto criança trans, sozinha e imigrante. Encontrar pontos de pertencimento pode corroborar tanto nas aquisições de autonomia, quanto no empoderamento reforçado pelas informações do mundo sobre um corpo trans – paralaxe trans.
A partir desse lugar de pertencimento de York, iniciou-se um trabalho que se dava no fluxo diário de acompanhar, analisar e registrar como essa travesti se autorizava no Instagram e em rede. No Instagram de Sara, conforme os dados da época da pesquisa, verificou-se um constante aumento de seguidores e uma estabilidade em quantidade de publicações, visto que Sara se mobilizava em publicações temporárias como stories e reels.

Fonte: Dados extraídos no processo da pesquisa, em 2022 do perfil de Sara York no Instagram (@sarawagneryork).
Figura 2 Usuários e publicações.
Com uma presença muito intensa e ativista no Instagram, Sara estabelece contato com as mais diversas formas de comunicação, se apresentando em vídeos, reels, stories e no desenho visual da sua rede e articulando todas as possibilidades de interação, assim como o impulsionamento dos parceiros. De acordo com Lévy (1999), é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo. Nesse contexto, Sara virtualiza-se; ou seja, se permite, na rede, errar, planejar, simular, subjetivar e projetar, compreendendo que todas as suas virtualizações podem ou não acontecer em ato, mas estarão registradas nos rastros de sua existência na internet.
Com uma dissertação denominada “Tia, você é homem? Trans da/na educação: Des(a)fiando e ocupando os “cistemas” de pós-graduação”, Sara virtualiza em ato ao discutir o impacto do acesso e da permanência de pessoas trans e travestis nos programas de pós-graduação stricto sensu nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas por meio das chamadas cotas trans/travestis (York, 2020).
A partir dos desafios encontrados nos espaços acadêmicos, em que a hegemonia se perfaz sob a ótica de pessoas binárias, brancas e cisgêneras, Sara explode com a linha abissal, que, de acordo com Santos (2019), centraliza-se nas lutas contra a dominação, implicando contextos institucionais e pedagógicos, e a consequente distinção entre exclusões sociais abissais e não abissais, devendo ser, assim, objeto de permanente reflexão.
Para Angie Lima Santos Barbosa, travesti, e Lori Araújo Delarue dos Santos (Barbosa; Santos, 2023), pessoa não-binária agênero, ambas integrantes da Rede Trans UERJ e graduandas em p(cis)cologia na UERJ, desde que a cruel realidade de “exclusão” da população trans/travesti das instituições de ensino se tornou um debate público de crescente visibilidade e relevância, a “inclusão” se tornou parte do nosso vocabulário político. Para as pesquisadoras:
Os discursos dominantes de inclusão e diversidade nos espaços acadêmicos, no entanto, raramente se propõem a questionar as lógicas fundamentais de agressão sistêmica das instituições que nos incluem. Dessa forma, os corpos de pessoas trans e travestis universitárias, doutoras e docentes se tornam ‘telas sobre as quais o mito da meritocracia se projeta’ (Spade, 2010, p. 80). Muito se pode dizer sobre o que a univer(cis)dade tem a oferecer para as pessoas trans e travestis. A partir das conquistas como as de Luma Andrade, primeira travesti no Brasil a se tornar doutora em 2012 (apenas em 2012!), das muitas travestis docentes e educadoras como Megg Rayara Gomes, Sara Wagner York, Jaqueline Gomes de Jesus, Isadora Ravena, Dani Balbi, entre outras; do doutorado honoris causa de João Nery em 2018 (UFMT) e de Keila Simpson em 2022 (UERJ), e o doutorado de Vicente Tchalian, o primeiro homem trans a conquistar o título em 2021 (curiosamente, também na UFMT), a univer(cis)dade pode reconhecer que as pessoas trans/travestis têm muito a ensinar. A mensagem dos movimentos sociais é clara: temos muito a ensinar, mas nada sobre nós será feito sem nós. (York, Oliveira & Benevides, 2020). Não podemos desacreditar o interesse genuíno da univer(cis)dade de aprender conosco e sobre nós. No entanto, o desejo — ainda mais importante! — de desaprender as próprias lógicas de poder e violência ainda não parece fazer parte desses projetos de inclusão
(Barbosa; Santos, 2023, p. 1).
Nessa busca por transcender essa linha abissal que opera a existência humana na universidade entre aqueles que têm acesso e os que procuram e tentam acessar, a divisão se estabelece em uma questão que Santos (2007, p. 71) denomina “o outro lado da linha”, que desaparece como realidade, torna-se inexistente e se produz como inexistente, pois “inexistência significa não existir sob qualquer modo de ser relevante ou compreensível” (Santos, 2007, p. 72).
Sara Wagner York mobiliza saberes e se constitui como epistemologia dentro dos campos acadêmicos, rompendo com a inexistência e apresentando a grandeza e a importância da sua existência dentro daquelas salas repletas de corpos hegemônicos.
A docente sempre se articula entre o on-line e suas vivências no território, justamente porque compreende a potência de poder estar presente e se fazer presente nas mais diversas direções do mundo. A autoria de Sara ecoa “tesão”, palavra que, de acordo com Freire (1987), pode ser usada com centenas de significados, mas todos basicamente ligados a três coisas: prazer, alegria e beleza. Sara Wagner York é prazer, é alegria, é beleza, é educadora, é travesti, é pai, é avó, ela é o que quiser, e nessa etno(queer)grafia as autorizações de Sara podem ser definidas como Autoria Trans-Multirreferencial, bricolando com o que Kincheloe (2006) denomina de blue knowledge3; ou seja, a constituição de uma epistemologia implicada e criativa.

Fonte: Dados extraídos no processo da pesquisa, em 2021-2022 do perfil de Sara York no Instagram (@sarawagneryork).
Figura 3 Prints das conferências e palestras publicada no Instagram.
A multirreferencialidade, segundo Macedo, Galeffi e Pimentel (2009), se configura como uma epistemologia da pluralidade que, criticando os sistemas que se querem monorreferenciais, convoca olhares diversos para compreender situações e objetos complexos, por meio de operações dialógicas e dialéticas, dialogando com o desenho de uma epistemologia construída por Sara dentro da universidade e contextualizando a importância dos fluxos circunstanciais da cibercultura, que permitem diariamente a sua integração com outros espaços de diálogo, de formação; um campo multirreferencial de experiências, que não impedem a “experiência do acontecimento” (Macedo, 2016).
A visibilidade de Sara Wagner York sobrevoou os mais diversos espaços sociais, dimensão que talvez Sara não esperasse alcançar. No entanto, de acordo com Haraway (1994), alguns lugares dentro da própria academia podem não considerar como úteis os ditos acontecimentos.
O acontecimento não é jogo-jogado. Acontecimento é jogo-jogante, vida-vivente. O acontecimento nunca é uma série ou um caso, um derivado de algo, uma causalidade previsível O acontecimento não é uma promessa, uma esmola, um pedaço de algo qualquer. Não é algo qualquer, não o poderia ser, pois acontecimento não é nada como isso ou aquilo, como objeto à mão para usufruto de consumidores. Acontecimento não é representação. Ele não representa nada e ninguém. O acontecimento simplesmente acontece. Mas sempre acontece para alguém que deixa acontecer. Alguém que responde pelo nome próprio e que é apropriado
(Galeffi, 2016, p. 13).
De acordo com Galeffi (2016, p.13), “o acontecimento acontece para alguém que deixa acontecer”, e, assim, a itinerância epistemológica de Sara acontece na universidade, na escola, nos hospitais, nos congressos, nas associações, nos grupos de pesquisa, na música, na dança, em acontecimentos que se complementam. Conforme Macedo (2016, p. 13), “[...] os acontecimentos são improváveis, interferem e são inelimináveis na experiência humana”.
No dia 15 de outubro de 2021, Sara Wagner York se tornou a primeira mulher trans, politicamente travesti, âncora de um programa jornalístico, no canal TV2474, dentro do programa Giro das 11, ao lado do jornalista Mauro Lopes, seu idealizador. Destaca Sara Wagner York:
Hoje, quando iniciei o ‘Giro das 11’, programa ancorado pelo jornalista Mauro Lopes, seu também idealizador nestes mais de quatro anos de TV247, pensei que estivesse fazendo um grande trabalho, mas só tive real noção da grandeza ao ler em várias mídias que eu era a primeira travesti a ancorar um programa jornalístico. Eu, Sara Wagner York, travesti e pessoa com deficiência visual, estava fazendo história
(York, 2021, online).

Fonte: Dados extraídos durante o processo da pesquisa em 2021 do Canal 247 no Youtube.
Figura 4 Banner do quadro “Sextou com Sara”.
A autoria trans-multirreferencial de Sara Wagner York e a intelectualidade que lhe permite transitar nos mais diversos lugares, se posicionando e articulando a sua representatividade, lhe possibilitou acessar um lugar cis-heteronormativo antes intocável. De acordo com Ardoino (2012), por exemplo, a experiência mais extrema, às vezes a mais cruel, mas, provavelmente, a mais enriquecedora que podemos ter da heterogeneidade é a que nos é imposta por meio do encontro com o outro, enquanto limite do nosso desejo, do nosso poder e da nossa ambição.
O “rigor outro” nas autorias construídas por Sara lhe permitiu, por meio da sua polivalência criadora (Macedo, 2016) e toda sua implicação multirreferencial com as questões sociais, para além da sua militância como travesti, se perceber constantemente implicada e mobilizada a mudar os espaços que, de certa forma, não consentiam com a sua entrada.
Ao etnografar a presença de Sara no Instagram e nas integrações com outras redes, é perceptível a sua intensa mobilização/engajamento, não permitindo a diminuição do seu campo de reflexão, que atravessa muitos espaços de conhecimento; ou seja, Sara se estabelece na “sobreimplicação” (Macedo; Galeffi; Pimentel, 2009), sem transformação das suas pautas em tão somente militância, indo além e se interligando às mais diversas epistemologias. De acordo com (Macedo, Galeffi e Pimentel (2009, p. 122), em geral, “a sobreimplicação cria ativismo”.
O ativismo multirreferencial visto nas ações de Sara sobre o mundo se constrói, primeiramente, a partir das observações das narrativas e histórias de vida e formação, uma experiência que sai dos trilhos do sistema e balança diversos polos – o que Macedo (2016) chama de inclinar-se, retomar, incomodar-se, ensimesmar-se, refletir, e que, na busca da compreensão valorada, se faz fazendo-se, criando o acontecimento. Nesse encontro das autorias multirreferenciais de Sara, a experiência se desloca, vibra, institui e realiza o acontecer.
O blogue do Canal 247 destaca que Sara significa “representação é sobre estar nos espaços e representatividade é sobre decidir com e sobre eles”.
A marca da primeira pessoa a fazer, tecer ou criar postos deve ser comemorada sempre, mas para parte da população brasileira as ‘primeiridades’ sempre chegam de forma inovadora, corroborando com o apagamento daquelas que estavam na caminhada. A ‘primeiridade’ em grupos trans, travestis, PcD e/ou negres, por exemplo, acompanha a retórica que beira o primitivismo, aquele primeiro como base de uma estrutura maior. A ‘representatividade’ não apenas busca significar uma representação política junto aos interesses de determinado grupo, pessoas ou coletivo, mas busca a sua participação em espaços de decisão com poder para mudar rotas e para estabelecer (novos) sentidos
(York, 2021).
York e Sepulveda (2022, p. 9) destaca que a “representatividade não apenas busca significar uma representação política junto aos interesses de determinados grupos, pessoas ou coletivo, mas a sua participação em espaços de decisão com poder para mudar rotas e para estabelecer (novos) sentidos”.
Fala-se nesta pesquisa em “mudar uma estrutura por dentro”. De acordo com o Canal 247, algumas mulheres trans, homens trans e travestis já circulam pelos canais ditos oficiais e na TV aberta, trazendo consigo a tão falada representação. Na área da comunicação, algumas mulheres trans jornalistas têm feito trabalhos voltados ao entretenimento, como Lisa Gomes e Leonora Aquila. Entretanto, a prioridade da TV 247, segundo seus idealizadores, é a informação. Apesar de ter uma abordagem interativa e dialógica, a pós-TV 247 — como nomeia Mauro Lopes — tem por objetivo informar e contextualizar sua audiência sobre assuntos que tocam a população e que, sobretudo, desaparecem na grande mídia.
A pessoa queer não pode mais assumir o desconforto da ambiguidade, dos “entrelugares”, do “indecidível” (Louro, 2000, p. 7), e Sara “explode” no sentido de estabelecer a sua presença nesse lugar e não mais no “entre”. Para contextualizar o silenciamento do entre na existência de Sara, destaca-se a sua fala na estreia do quadro “Sextou com Sara”, no programa Giro das 11:
Tive o prazer de receber, na minha estreia como âncora, o ex-deputado Wadih Damous, comentando o cenário político atual; Silvany Euclênio, do Pensar Africanamente; Regina Facchini, da Revista Pagu/Unicamp; o jornalista Victor Viana, CEO da mídia Prensa de Babel; e, por fim, Sérgio Luís Baptista da Silva, professor na UFRJ e líder do Laboratório de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Raça (GE-SER)
(York, 2021).
É nesses atrasos civilizatórios que a autoria de Sara adentra, bagunça tudo e ordena a diversidade e nos quais ela se estabelece enquanto intelectual. Os contatos e acordos entre humanos não podem ser medidos por sua sexualidade, orientação e cor, mas pela capacidade de mobilizar os saberes que lhes foram permitidos acessar no transcorrer das vivências e experiências formativas.
Durante os sete meses, de outubro de 2021 a maio de 2022, em que esteve à frente do “Sextou com Sara”, no programa Giro das 11, Sara se estabeleceu enquanto jornalista, apresentadora, mediadora, debatedora, pesquisadora e intelectual, com uma honestidade epistemológica que permitiu, para além da sua visibilidade, ceder espaços a aliados, militantes e ativistas que diariamente constroem epistemologias multirreferenciais com Sara, sensibilizando a sociedade com as narrativas desses corpos.
Dentro da amplitude do conhecimento de Sara Wagner York, disposto em várias formas de autoria no ciberespaço e na cidade, e dialogando com a presença multirreferencial de seu corpo nos espaços dominantes e de constituição binária, Sara direciona a reflexão sobre a “pesquisa travesti”. Em um dos seus posts, sobre quando foi homenageada pela Adur-RJ, Sara afirma que “não é porque sou travesti que preciso obrigatoriamente pesquisar gênero e sexualidade. [...] é como se as minhas compreensões tivessem outras pessoas para falar por elas, e aí não é necessário que eu fale” (York, 2022a, online)5.
A partir desse posicionamento de Sara, é possível perceber que não se trata de uma questão sobre o “lugar de fala”, mas sobre um sistema que estabelece um chancelamento, em que a autonomia intelectual possibilita falar sobre um tema específico e não sobre outros. O “Sextando com Sara” permitiu que, por meio da intelectualidade plural de Sara, outros assuntos que não estão apenas na linearidade “gênero e sexualidade” entrassem em pauta.
Em decorrência de toda essa representatividade e da autoria trans-multirreferencial de Sara Wagner York, ela estreou, no dia 27 de maio de 2022, o Programa de Travesti, no qual transmite, todas as sextas-feiras do mês, com o tema “Eleições e novos agentes da cultura”, um programa inteiramente dela, com o seu corpo sendo o regente de todo o espaço e das articulações. No programa de estreia, Sara abordou temas referentes às questões educacionais e culturais da semana, recebendo o sociólogo e ex-secretário de Educação Cesar Callegari; o teatrólogo e pedagogo Djalma Thürler; a educadora social, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e mulher travesti Keila Simpson e a sargento da Marinha, ativista, articuladora política da Antra e mulher travesti Bruna Benevides. Atualmente, o vídeo de estreia de Sara conta com mais de 6.900 visualizações.
De acordo com York (2022b, online)6, “[...] se o cismundo não se atualizar, ele será deixado nas sombras da história da ignorância. O mundo está evoluindo e abraça aquelas/us/es que evoluem com ele!”. É importante dialogar com a fala de Sara, pois o Programa de Travesti está sendo transmitido por um portal brasileiro de notícias e análises políticas, com uma linha editorial identificada com a esquerda política. A palavra “travesti”, que se destaca no nome do programa, infelizmente ainda precisa ser constantemente articulada perante as (des)informações da cisgeneridade. Em contraponto a essa percepção, destaca-se uma fala apresentada em 22 de agosto de 2022, por Megg Rayara Gomes Oliveira, em seu Instagram, em que ela afirma que as experiências de travestis, mulheres e homens trans continuam sendo utilizadas para reforçar e atualizar discursos e posturas transfóbicas e racistas, inclusive por muitas pessoas que se dizem aliadas. Megg detalha que, ao insistir em determinadas perguntas e comentários, a cisgeneridade hetero-branco-centrada é tratada como natural e não como construção social.
Portanto, é necessário compreender que os processos que envolvem as “descobertas” e “transições” (Oliveira, 2020) fazem parte das experiências das pessoas como um todo e não apenas das experiências de travestis, mulheres e homens trans.

Fonte: Dados extraídos durante o processo de pesquisa do Canal 247 no YouTube (Programa de Travesti [...], 2022).
Figura 5 Lançamento do Programa de Travesti.
Nesse sentido, além de o Programa de Travesti ser um espaço construído e protagonizado por um corpo inteligível e político, sua resistência em rede oportuniza ainda mais a visibilidade, a representatividade e o combate a qualquer tipo de discriminação. Cabe destacar ainda, que Sara é uma pesquisadora, professora e intelectual com grande fluxo de produções científicas, conforme apresenta seu currículo Lattes; porém, entre todas as suas produções – que precisam ocupar as salas de aulas – destaca-se Manifestações textuais (insubmissas) travestis, conhecida como “Manifesto Travesti”, escrita em parceria com Megg Rayara Gomes Oliveira, travesti e professora adjunta da UFPR, e com Bruna Benevides, travesti e primeira mulher trans da Marinha do Brasil.
Quando nos aproximamos da própria ideia de um manifesto, encontramos algumas definições aproximativas, como, por exemplo: 1) ser uma declaração trazida a público; 2) ser uma declaração solene de um partido, um grupo religioso, ou, ainda, de artistas; 3) possuir relações de bens para efeitos fiscais; 4) documento que não pode ser contestado ou oculto; 5) adjetivo para aquilo que se revela por sua evidência. Nestas definições que podemos localizar de forma mais ou menos elaborada, em diversos dicionários encontramos elementos políticos, religiosos e artísticos, mas, também, elementos jurídicos, legais e burocráticos
(York; Oliveira; Benevides, 2020, p. 2).
Segundo York, Oliveira e Benevides (2020, p. 8), “[...] pessoas gozam de privilégios e conquistas que as distanciam da realidade das travestis”. Essas histórias, em sua maioria, são negligenciadas e silenciadas nos espaços sociais. Assim, através do Manifesto Travesti, Giro das 11, Sextou com Sara, Programa de Travesti e de inúmeras publicações, pesquisas, dissertações de mestrado e teses de doutorado, bem como em salas de aula regulares e escolas, a presença do corpo de Sara Wagner York desafia os lugares binários de enunciação, desmistificando e constantemente rompendo com a posição de subalternização.
Conforme York (2018, p. 16) expressou, “[...] nos transformaram em apenas um corpo a ser estudado ou simplesmente nos mataram”. Sara Wagner York é uma mulher travesti e “pesquisadora do asfalto”, transcende todas as normas dos (cis)temas heteronormativos e binários, assim como as abjeções impostas pela sociedade que a viu nascer e que a todo o momento permite a sua aniquilação.
Cabe destacar que, de acordo com o dossiê “Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2023”, divulgado pela Antra:
Em relação aos dados absolutos dos últimos 7 anos, produzidos entre os anos de 2017 e 2023, período em que a ANTRA passa a fazer essa pesquisa, conseguimos mapear um total de 1057 (um mil e cinquenta e sete) assassinatos de pessoas trans, travestis e pessoas não binárias brasileiras. Sendo 145 assassinatos em 2023 e 131 casos em 2022; 140 casos em 2021; 175 casos em 2020; 124 casos em 2019; 163 casos em 2018 e; 179 casos em 2017 (o ano com o maior número de assassinatos de pessoas trans na série histórica). O que representa uma média de 151 assassinatos por ano e 13 casos por mês
(Benevides, 2024, p. 43).
Para tanto, o referido dossiê (Benevides, 2024) apresenta que, no comparativo entre os anos de 2022 e 2023, foi percebido um aumento de 10,7% no número de assassinatos de pessoas trans, passando de 131 em 2022 para 145 em 2023 – mesmo período em que o país observou uma queda de 5,7% nos assassinatos gerais da população. Nesse sentido, o dossiê destaca o fato de o Brasil figurar novamente como o país que mais consome pornografia trans nas plataformas de conteúdo adulto e como o que mais assassinou pessoas trans pelo 15º ano consecutivo (Benevides, 2024). A política estatal de subnotificação da violência lgbtifóbica foi mantida.
Resistindo em rede e com autoria
No processo de construção desta pesquisa, etnografou-se o cotidiano de quatro praticantes culturais no Instagram: Professora Doutora Alessandra Primo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Professora Doutora Joyce Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Professora Mestra e Doutoranda Sara Wagner York, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e a ativista e primeira mulher trans da Marinha do Brasil, Bruna Benevides.
Especificamente para este artigo, optou-se por trazer a etnografia de Sara Wagner York, destacando a sua importância na cena LGBTQIA+, assim como seu incansável trabalho e militância perante os direitos de pessoas trans. Nesse processo, destaca-se a importância da sensibilidade e atenção, que, de acordo com Larrosa (2002), são elementos fundamentais para que pesquisador e sujeitos se aproximem da experiência. Juntamente com esses elementos, estabeleceu-se um olhar cuidadoso na voz digital que se apresentava por meio das publicações dos praticantes, compreendendo, assim, a importância de “transformar o ouvir” (Macedo, 2016) em uma “escuta sensível”. A metodologia da escuta sensível propõe a promoção da consciência sobre as situações de opressão, assim como advoga uma postura consciente do pesquisador na relação com o sujeito de pesquisa, seja para avaliar sua posição diante desse ou para ouvi-lo com muita atenção (Barbier, 2002).
Sara Wagner York, no ano de 2022, possuía 2.865 publicações em sua rede social Instagram, sendo aproximadamente 280 vídeos reels, além de ser seguida por 8.938 pessoas e de estar seguindo 2.806. Vale ressaltar que, no início do mapeamento, Sara contava com 2.533 publicações e 5.423 seguidores. De acordo com a métrica do Instagram, em menos de um ano, o número de seguidores de Sara aumentou em 80% e ela manteve uma média constante de publicações, que evoluíram cerca de 20%. Em 2024, Sara Wagner York contava com 3.144 publicações, 21,5 mil seguidores e seguia 3.701 pessoas, tendo triplicado seu número de seguidores. Toda essa ascensão comprova a magnitude e importância de Sara para os espaços nos quais ela habita e resiste.
A bio do Instagram – redução de biografia – de Sara Wagner York conta com informações que estabelecem um contato imediato com o público que acessa o seu perfil, principalmente quando ela destaca “educadora, travesti, pai, avó e PcD”, pois são condições que não correspondem ao espectro da cisgeneridade e que, de alguma forma, despertam o interesse de um público que nunca teve contato com a autoria dela. Os usuários podem ter acesso a um conjunto de informações sobre Sara em seu linktree: <https://linktr.ee/sarawagneryork>.
Cabe destacar que, no ano de 2023, Sara foi convidade pela University of Pittsburgh’s Center for Latin American Studies a estabelecer uma vivência no programa de internacionalização da ciência da Instituição, assim como a lecionar, ensinar, aprender e trocar experiências de vida e formação tão necessárias para a sua formação e dos outros. No dia 6 de setembro de 2023, em uma palestra na Universidade de Pittsburgh cujo tema foi From rights of opacity to presence printed out, Sara presenteou seus seguidores com um diário on-line em seu Instagram.
Dos direitos básicos dos quais algumas pessoas são excluídas na totalidade, existe um grupo que é constantemente retirado dos espaços de visibilidade, decisão e escolha. Quando falamos sobre o direito a opacidade estamos falando sobre a possibilidade de ir para além de não sermos invisíveis sermos sujeitos de direito de fato. Essa aula de hoje, na Universidade de Pittsburgh foi sobre o direito de ter a presença impressa como marco legítimo em todos os espaços pelos quais passamos. Não basta ser a primeira se não quer sentirmos a continuidade! Eu já falei com muitas culturas e grupos em diferentes países como cabeleireira, como artista, mas é a primeira vez que faço uma aula toda em inglês. Ser respeitada como professora E cientista tem um sabor de trabalho feito e também de muito mais a se fazer! (York, 2023, online)7.
Percebeu-se, nessa análise da rede, que um dos principais pontos de produção de informações está no conteúdo, elemento analítico mais valioso na rede de Sara Wagner York. As postagens, concentradas em stories, são grande fonte de captação de público, uma vez que, por ficarem disponíveis por um tempo determinado, eles se renovam diariamente. Normalmente, Sara apresenta uma média de 10 stories diários, divididos entre suas outras redes e o WhatsApp, os quais sofrem atualizações constantes conforme a rotina de suas atividades. De acordo com informações do Instagram Analytics, os stories são um tipo de conteúdo pouco valorizado ou mal utilizado, mas que, na verdade, podem trazer informações de grande valor. De alguma forma, essa funcionalidade permite ao usuário estreitar o relacionamento com o seu público, por se tratar de um conteúdo temporário. Para muitos usuários, os stories funcionam como os bastidores das atividades diárias.
Em uma rotina de atividades profissionais, Sara Wagner York intercala suas publicações com seus momentos de atividades de lazer, permitindo ao seu público sentir-se com ela, percebendo-a para além do seu protagonismo. Atualmente, Sara Wagner York tem construído uma narrativa importante de publicações que são regidas por um determinado padrão estético, composto por, no máximo, sete linhas, respeitando uma lógica temporal, normalmente com dois posts por semana, trazendo seu posicionamento e sua reflexão sobre determinado tema que esteja em pauta naquela semana. Então, ao acessar o Instagram de Sara Wagner York, navegando pelas fotografias, o usuário se depara com essas publicações alternadas que permitem direcionar a atenção do visitante ou seguidor para o que Sara quer apresentar ao público naquele momento.
O Instagram permite que os usuários da rede desenvolvam estratégias digitais que estejam vinculadas às funcionalidades disponíveis na plataforma e que dialoguem com um público específico, permitindo o estabelecimento de um processo mais assertivo do trabalho desenvolvido. O campo da linha temporal de stories de Sara Wagner York poderia ser mais bem aproveitado se os stories mais importantes e com maior fluxo de visualizações fossem disponibilizados no campo de destaques, construindo uma continuidade das atividades que são desenvolvidas e ficando disponíveis para o acesso a qualquer momento por seu público. Cabe salientar que, quando o usuário vincula os stories a esse campo de destaques, a publicação retoma um caráter de arquivo, tornando-se um histórico para consultas e acessos futuros.
Uma das principais características de seu perfil no Instagram está no caráter interativo que Sara Wagner York mantém junto aos comentários em suas publicações, procurando responder a todos que se propõem a estabelecer um contato com ela. Navegando pela sua rede, percebe-se também que Sara Wagner York tem explorado a construção de vídeos educativos e que são disponibilizados em seu feed com publicação fixa, permitindo, assim, um maior contato com o público, justamente porque ela possui uma oratória simples e muito compreensível.
Em um dos seus vídeos mais vistos no Instagram no ano de 2022, Sara fala sobre o Genderbread Person, também conhecido como o Boneco Biscoito, de forma sólida, e acessível e formativa em apenas 1’28’’, justamente respeitando a pluralidade do seu público, sobre o “Por que o boneco pedagógico com menções sobre sexo, gênero, expressão de gênero e orientação sexual não é mais usado?”. Esse vídeo, além de estar entre os mais curtidos de Sara, também está entre os mais comentados.
Em seguida, ela disponibilizou um vídeo apresentando uma explicação e, consequentemente, uma atualização sobre o que se denomina de “sexo biológico”. Sara Wagner York é extremamente pontual nas suas explicações, o que permite que qualquer indivíduo, independente da sua formação, tenha acesso ao conteúdo e, consequentemente, se forme com as produções autorais de Sara Wagner York. Nesse vídeo, por exemplo, existem vários comentários de suas seguidoras que corroboram com a contextualização:
Querida! Como é importante essa sua disponibilidade para tornar tudo tão mais compreensível! Muito grata por todos os posts que vc faz! Aprendemos demais contigo e vamos nos atualizando!
(Seguidora).
Portanto, é nesse lugar de fala (Ribeiro, 2020) que Sara Wagner York se posiciona para articular com o seu público assuntos diversos, em especial, gênero e sexualidade, porque sempre foram questões tratadas como um tabu dentro da universidade. A partir dessa brecha, Sara percebeu que, por meio do seu “falar simples”, sua mensagem chegava a qualquer um que a estivesse ouvindo. É nesse diálogo entre Sara Wagner York, seu Instagram e seu público, que a formação acontece, se constituindo em um ciclo contínuo: Sara forma pessoas que, a partir da ambiência formativa desenvolvida por ela, irão formar outras pessoas e, em um movimento de disseminação mediado pelo artefato construído por Sara no digital, será estabelecida uma rede educativa, que, como afirma Santos (2014, p. 31), “são espaços plurais de aprendizagem”.
A autoria de Sara Wagner York se faz em seus contextos de formação presencial e no digital. No Instagram, Sara se apropria de funcionalidades tecnológicas para levar aos seus seguidores conteúdos que são, de certa forma, considerados “tabus sociais”. Denomina-se essa autoria de “Autoria Trans-Multirreferencial”, pois a sua intelectualidade conversa e se conecta com as mais diferentes redes de conhecimentos, formais e informais. Portanto, no processo de formação em rede, Sara Wagner York se forma e forma os seus seguidores, a partir do seu corpo inteligível, potente e resistente.
Considerações Finais
Este artigo tem como propósito a disseminação da pesquisa e a exaltação das mulheres trans/travestis às quais diariamente é negado o direito da existência. Trata-se de uma homenagem a todas essas cientistas que produzem conhecimento das mais diversas formas e maneiras, mas que buscam socialmente o respeito à existência de seus corpos. Para além da homenagem às praticantes da pesquisa, precisamos, como dever de justiça, destacar tantas mulheres trans/travestis que estão habitando a universidade e resistindo perante uma ciência abjeta. Que subam os panos, o show vai começar! apresento-lhes Alê Primo (UFRGS), Adriana Sales (Unesp), Alícia Krüger (UEPG), Amara Moira (Unicamp), Ariane Senna (UFBA), Bia Bagagli (Unicamp), Brune Coelho Brandão (UFJF), Dani Balbi (UFRJ), Emilly Mel Fernandes (UFRN), Fran Demétrios (UFRB, in memoriam), Gabrielle Weber (USP), Jaqueline Gomes de Jesus (IFRJ), Joyce Alves (UFRRJ), Leticia Carolina Nascimento (UFPI), Maria Zanela (UFSC), Marini Bataglin (UFRGS), Leilane Assunção (UFRN), Megg Rayara Gomes Oliveira (UFPR), Rebecka de França (UFRN), Sara Wagner York (UERJ), Sofia Fávero (UFRGS), Sophia Starosa (UFRGS), Viviane Vergueiro (UFBA), Luma Andrade (Unilab) e inúmeras outras que já vêm usando as estratégias do cistema para produção de novas realidades para essas corpas. Essas autoras fazem parte de um movimento de ocupação do espaço acadêmico por travestis e pessoas trans, por décadas relegadas a objetos de pesquisa em trabalhos de pessoas cisgêneras heterossexuais e brancas e agora assumindo o papel de pesquisadoras e intelectuais, a partir de suas próprias experiências e visões (Ortiz, 2023).
Corrobora-se com Isis Lenoah Ortiz, mestra em Educação pela UFPR, e Megg Rayara Gomes de Oliveira, professora da UFPR e orientadora, que apresentaram ao Brasil uma dissertação politizada e de direitos intitulada “De cobaias a pesquisadoras: trajetos insubordinados de intelectuais travestis e transexuais”, em que destacam a trajetória do corpo travesti no espaço acadêmico e científico. Para as pesquisadoras, o marco do início desse movimento no Brasil e um símbolo da presença e produção na academia é a defesa de doutorado de Luma Nogueira Andrade, em 2012, primeira travesti doutora no Brasil e hoje professora adjunta da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e diretora do Instituto de Humanidades. A tese, intitulada “Travestis na escola: assujeitamento e resistência à ordem normativa” traz uma nova perspectiva para os trabalhos que se propõem a abordar questões relacionadas à população de travestis e de mulheres trans, principalmente por se tratar de um estudo produzido por uma pesquisadora travesti.
Alimentados pela construção de uma pesquisa enquanto resistência e homenagem a cientistas e pesquisadoras trans/travestis, é importante mobilizar estudos futuros com muito afinco, citando e referenciando epistemologias travestis, compreendendo-as com um campo multirreferencial de debates que vão além das questões que direcionam o gênero e a sexualidade. A essas narrativas de vida dá-se o nome de “vozes digitais”. Também conhecidas como brados, falas, palavras, rumores, barulhos, berros, boatos, clamores e conselhos, as vozes em conjunto se constituem em representatividade (Coradini, 2022). O ciberespaço é online, digital e travesti.















