Transbordando linhas em narrativas de vida
A arte… As bordas.
Por aí se vê, no dicionário, que essa palavra que falava de bordura passou a evocar o próprio navio. Subir a bordo, é o que se diz. Resta o mar, que seria o fora.
E resta indagar se a obra de arte não puxou ao peixe voador, àquele fora cuja natureza não é idêntica à que nos é conferida pela domesticação simbólica, e que nos embarca no que pode ser denominado a história. Se o peixe voador parece extravagante, nada impede de pensar que, apesar da incessante calafetagem, o fora transpira, e o que vem fazer essa poça que reflete o rosto de quem olha e faz-se de espelho, sem sê-lo. Diz-se que o mar espelha, embora ninguém se veja nele
(Deligny, 2015, p. 147).
Deligny (2015) nos movimenta diante das narrativas e encontros fabulatórios em que bebês descortinam descobertas comunicantes e as transbordam para além do navio ao mar, percorrendo currículos que penetram as linhas retilíneas e as rasgam em errâncias, transgredindo as amarras duras de fios que tentam aprisionar seus corpos e docilizá-los. Foucault (2004) também nos provoca problematizar os movimentos autômatos que tantas vezes os fazem de carimbos corpóreos estéreis (Figura 1)2, desprovidos, por vezes, de múltiplas invenções que acabam por movimentar modos curriculares endurecidos junto à Educação Infantil.
Nesse movimento, empreendem uma força que, segundo Foucault (1995), faz surgir a resistência, pois ela se instituiu onde o poder intenta em se estabelecer. Com isso forcejam estereótipos estáticos distantes e díspares de um pensamento fabulatório a narrar suas experiências de vida, no qual esse último se faz desejante em múltiplos possíveis e problematiza modos outros, na medida em que os bebês3 experienciam movimentos de invenção e resistência em suas ações do cotidiano, produzindo alegrias no corpo (Lapoujade, 2015). Logo, Silva (2020, p. 3) nos convoca aos infindáveis modos de revolucionar:
Des/obedecer, des/dobrar, insurgir diante dessa parafernália de códigos e normatizações não é tarefa simples. São as linhas de fugas, criadas pelos fluxos de forças e intensidades coletivas, que possibilitam as revoltas, os deslocamentos, os processos de resistências e, por fim, as inventividades e artistagens cotidianas.
Nesses rompimentos, explodem afetos com uma vida que pulsa narrativas em seus cotidianos permeados de encontros e multiplicidades comunicantes, para além do que ousamos supor, em composições que conversam e expressam uma linguagem na qual os bebês transbordam suas singularidades em meio ao distanciamento de um sujeito isolado. Segundo Benjamin (1994), o ato de narrar não ocorre pelos moldes que se distanciam das experiências de vida cotidiana, por urgências desnecessárias em comunicar, desfavorecendo as narrativas como experiências, mas sim entremeado à vida.
Desse modo, enredamo-nos por essas considerações iniciais em uma pesquisa com bebês por meio da qual objetivamos percorrer seus processos inventivos de comunicação, que deambulam em currículos não visibilizados na Educação Infantil, camuflados em uma aparente inexistência, mas permeados por manifestações corporais e por palavras não ditas que narram novos mundos aprendentes e transbordantes.
Pronunciamos acerca da problematização dos movimentos de uma pedagogia tarefeira que forceja modos automatizados de uma educação plataformizada, formatada, que insiste em carimbar mãos e pés de bebês em suas supostas produções nos territórios da Educação Infantil, ou mesmo intencionam aprisioná-los em “pacotes educativos” adquiridos, sob o argumento de incluí-los no contexto atual de um universo digital. Essas ações intentam anular seus saberes-fazeres inventivos, como se acrescentar olhos formatados e outros artefatos estereotipados, ou até mesmo expô-los ao uso antecipado de telas4 (Figura 2), pudesse compor uma criação infantil. Desse modo, empreendem abafar suas narrativas diversas.
Por uma ótica distorcida, somos forçados a nos afetar apenas pelas produções estéticas que convencionalmente o olho adultizado está decalcado em enxergar: uma produção, algumas vezes, empobrecida das “artistagens” comunicantes que deixam de irradiar saberes criacionais em caminhos percorridos por suas descobertas e inventividades.
Nessas barreiras, os bebês percorrem currículos encarcerados em contenções que, em diversas ocasiões, tendem a atender uma estética estereotipada, abafando, de certo modo, seus saberes-fazeres. Ainda assim, eles encontram veios e estrondam fronteiras estanques para inundar lugares em que habita sua comunicação, por meio de rasgos penetrantes de uma cultura dos bebês, luzindo os feixes de suas produções.
Nos encarceramentos curriculares, os bebês são lançados a uma proteção vazia e opaca em que “[...] só encontra a forma tênue do limite, e onde ela não tem para além nem prolongamento a não ser no frenesi que a rompe” (Foucault, 2009, p. 28), fazendo explodir modos outros em que eles expandam suas experiências inventivas:
[...] considerando-se o saber como problema, pensar é ver e falar, mas pensar se faz no entremeio, no interstício ou na disjunção do ver e do falar. É, a cada vez, inventar o entrelaçamento, lançar uma flecha de um contra o alvo do outro, fazer brilhar um clarão de luz nas palavras, fazer ouvir um grito nas coisas visíveis
(Deleuze, 2005, p. 124).
Sendo então nos entremeios em que as forças deslizam muitos possíveis, caminhamos para arriscar emitir supostas narrativas pelos sons audíveis das palavras não ditas pelos bebês. Em meio aos encontros e afetos, transbordamos a potência do devir-bebê que carrega consigo algo de novidade nos movimentos aprendentes. Tais movimentos se constituem constância em suas trajetórias errantes, produzindo aprendizagens inventivas longe das amarras curriculares que tentam conter seus corpos nos caminhos traçados em meio aos cotidianos e acontecimentos.
Consideramos a cartografia como metodologia desta pesquisa, pois nos desenha durante os acontecimentos do percurso com os bebês, movimentando-nos pelos ajuntamentos inéditos em cada encontro que habita um território existencial, em que nos afetamos e fazemos parte, sem distanciamentos durante o processo (Passos; Kastrup; Escóssia, 2009).
Atravessamos currículos que deambulam, vagueando à procura despretensiosa do que está por vir, de algo que traga a descoberta do novo junto aos tempos e espaços percorridos entre “corpos sem órgãos” (Deleuze; Guattari, 2012) de bebês, que transgridem seu funcionamento por meio de uma narrativa sinuosa, emaranhada e sem estratos. Essa linguagem afirma uma vida em que a comunicação acontece em fluxos de corpos desterritorializados, atravessados por linhas que escapam aos normatismos que, por vezes, insistem em ditar seus efluentes por onde escoam feixes comunicantes.
Para que os tempos junto aos bebês não se retenham ao aprisionamento dos ponteiros de um relógio ou mesmo aos modos encaixotados de softwares em telas, nas quais eles experimentem apenas a passividade, lançamo-nos aos possíveis naquilo que nos afeta, requerendo ações que não cabem na temporalidade que corre (Larrosa Bondía, 2002); ou ainda, para que os espaços não padeçam de métricas que engaiolam mapas, mas sim que percorram espacialidades porosas, dinâmicas e disformes, apresentadas por Thrift (2006), possibilitando rompimentos diversos, apostamos na força das experimentações dos/com os bebês que afirmam modos singulares e múltiplos de se comunicar, cartografados no cotidiano de suas descobertas, descritas adiante em aberturas para reverberar com os que se ajuntam ao texto.
No transcorrer do artigo, transitaremos por encontros e buscas junto aos bebês, que trazem consigo a potência dos infindáveis modos de narrar junto ao universo da Educação Infantil em meio às experiências cotidianas vivenciadas por eles. Em sua primeira parte, alçaremos voos para escapar por veios em que as não palavras correm para se fazer comunicantes junto a currículos que (des)viam. Em seguida, nos encontraremos com um arco-íris em pequenas mãos, que transbordam o esvaziamento das palavras em descobertas coloridas, transgredindo a docilização de seus corpos. Esse movimento fez parte de uma experimentação cotidiana com os bebês e as tintas, por meio do manuseio desse material em processos inventivos. Prosseguiremos nossos encontros através dos arco-íris que espiralam bebeversações5 por meio de narrativas de ditos não dizíveis que tanto comunicam. Nesse segundo movimento, os bebês entraram em relação com uma experimentação junto às bacias com água e outros utensílios. Mergulharemos, então, numa explosão de palavras, que não ousa concluir, apesar de se apresentar pró-forma, para entremear Corpos sem Órgãos, empreendendo modos que escapam a estágios endurecidos na comunicação dos bebês. Nessa experimentação, eles se encontraram com alguns artefatos relacionados a uma proposta que envolveu ninhos e pássaros artesanais. Nela, a menina experimentou possibilidades com as palavras diante do encontro com a novidade. Sigamos, portanto, problematizando entre indagações junto aos caminhos.
Quais possibilidades narrativas as não palavras reverberam junto aos saberes e fazeres dos bebês longe das formatações cotidianas?
A voz faltante
Certo, existe a voz e, se nos fiarmos apenas no som, existe a via.
A via é feita para o ir, enquanto a voz parece feita para o falar.
Poder-se-ia pensar, portanto, que houve a voz, graças à qual o falar adveio.
Da mesma maneira, haveria a via, e tudo o que resta é ir aonde ela conduz.
Seguir a via traçada está, portanto, ao alcance do ser mais humilde.
[...]
A via é traço? Se for, esse traço, é preciso tomá-lo. Bem sabemos, no entanto, que o obrigatório convida à esquiva: daí a liberdade
(Deligny, 2015, p. 211).
Com essa pergunta e tantas outras que orbitam nosso universo com os bebês, surgem percursos junto a eles com as impossibilidades de um plano duro e pré-estabelecido. Apenas nos convidam às asas do peixe voador que passeia cartografando pelo extraordinário inaudito do que podem os corpos dos bebês junto às suas fabulações, como explosões em policromias matizadas pelas invencionices que só eles podem comunicar, sem que as palavras se façam as únicas a reverberar outros mundos possíveis.
Diante disso, Deligny (2015) nos coloca em indagações acerca de uma não palavra, uma certa ausência de voz cognoscível aos ouvidos e corpos adultizados, que aparenta não comunicar. No entanto, ele nos acende a fagulha por um outro olhar, quando nos lançamos aos encontros com os bebês e nos dedicamos aos efeitos surgentes desses ajuntamentos. Passamos a auscultar seus sinais em vias que (des)viam da comunicação tantas vezes esperada de maneira padronizada. São meios pelos quais os bebês encontram frestas em que pulsam achados insólitos e neles nos enredamos em uma trama de conversações comunicantes, que nos força para fora das malhas de um poder que, em algumas vezes, insiste em estereotipá-los em uma doçura superficializante e, assim, alcançamos modos de rachar as palavras (Deleuze, 2013) por meio de suas comunicações inauditas.
Movimentamos currículos desviantes que encontram nos ajuntamentos com os bebês modos outros de respirar além do ambiente calafetado pelos afetos que insistem em não ouvir no corpo o que eles dizem sobre suas descobertas. Desejamos currículos por redes de conversações que enovelem e concebam “[...] a questão de que a conversação não acontece sem ser criada e sustentada pela participação ativa, assim como as conversações e as ações ocorrem atravessando diferentes protagonistas localizados em esferas interpenetradas da ação educativa curricular [...]” (Carvalho, 2019).
Arriscamo-nos em dizer que as conversações narradas por e com os bebês se transmutam em bebeversações, nas quais olhares, gestos, encontros, silêncios e curiosidades comunicam exuberantemente movimentos aprendentes que pulsam em arco-íris policromados por uma multiplicidade inventiva.
Um arco-íris nas mãos
O bebê se lança a manusear a materialidade ofertada pelas tintas e suas texturas6.
Nesse percurso experimenta cada uma delas e se encontra com as sensações que seu corpo desfruta.
De repente, um arco-íris nas mãos!
Ele se vira para mostrar o novo achado e se encanta com o inédito expresso no corpo em que as palavras se tornam (des)necessárias (Figura 3).
Esse movimento fez parte de uma experimentação cotidiana com os bebês e as tintas, por meio do manuseio desse material em processos inventivos. Com esses artefatos puderam vivenciar experiências, sem que as palavras se tornassem necessárias para transbordar suas alegrias diante das descobertas com a mistura das cores.
Por meio dos encontros corpóreos, os bebês esvaziam as palavras que não se fazem primordiais em se constituir pronunciamentos orais. Diante de entreolhares e pequenas mãos, eles colorem os gestos com cores indescritíveis, apenas sentidas nos afetos fascinantes das descobertas do novo, impensado anteriormente.
Talvez ousássemos dizer essa coloração sobre uma cor prata reluzente, que derrete feito metal no calor do acolhimento, tomando cada gesto de uma intensidade multimisturada, digna apanhadora de saberes e fazeres púrpuros, pois revela, em suas nuances, as paixões efetuadas nos fortuitos encontros.
Quem sabe um novo estudo com os bebês e as cores? Algo que se desprenda dos afazeres de uma paleta didática, tão estratificante quanto quando a docência se presta a caminhar pela ordem segmentada das cores primárias até suas misturas mais que automatizadas, à espera do novo desbotado pelos caminhos já tão pisoteados… como se esse fosse o único caminho ao mar por ser navegado.
Transbordemos! Pois falamos de um estudo com os bebês que se desloca pelo inesperado variegado, encontrado longe da palidez colorífica, numa multiplicidade de azuis esverdeados, que se tornam surpreendentes diante do alaranjado encontro das descobertas alegres. Longe dos pincéis que demarcam uma espessura exclusiva do traço, fia caminhos opacos, em que a transgressão se apresenta diretamente relacionada ao limite, ou seja, à sua transposição. É “[...] aí, na tênue espessura da linha, que se manifesta o fulgor de sua passagem [...]” (Foucault, 2009, p. 32) e é também nessa linha fronteiriça que a docência, em alguns momentos, traça linhas duras que intentam aprisionar a expansão dos bebês em suas experimentações.
Dizemos de uma docência que muitas vezes é atravessada por uma força que empreende capturar os bebês pelo subjugo de uma suposta incapacidade de realizarem algo, pelo que os falta. Mas aludimos nossos olhares justamente pelas lacunas que promovem tantas possibilidades inventivas de os bebês se comunicarem por linguagens tão bradantes, como palavras inauditas expressas na corporeidade que tanto fala.
Nesse fluxo, os corpos dos bebês fazem funcionar um deslocamento em que suas narrativas constituídas por palavras não ditas, muitas vezes, são arrastadas por olhares e mãos que percorrem os objetos a descobri-los. Neles traçam topografias inventivas que rompem os espaços retilineamente pontuados, apontando “[...] a linha de espuma do que é possível atingir exatamente sobre a areia do silêncio” (Foucault, 2009, p. 28) que surge entre os vazios na quietude dos encontros bebeversados por balbucios e gesticulações.
Acaso sejam os encontros coloridos que inspiram palavras, ousamos dizer sobre o que experimentam os bebês em seus ajuntamentos com outros novos mundos possíveis. Esses policromáticos encontros porventura tornam-se suspeitos ideais transmutados em réus, em meio às oitivas docentes que buscam um caminho reto, apático e cinzento, de quem os julga saber algo. Nesse caminho-prisão, utilizam-se dos apequenados corpos para preencher expectativas adultizadas de uma produção em que se espera uma estética normatizada pelas infindáveis reproduções tarefeiras numa pedagogia muda e plataformizada, apesar do excesso de palavras, que não possui algo a dizer acerca do que podem os bebês. Ou talvez, ditem o que eles podem, impondo muralhas contentoras em suas inventividades.
Assumimos parte dessa culpa historicamente decalcada em nós, mas preferimos denominar uma participação no furto de palavras, pois, apesar do exposto, utilizamos vocábulos para percorrer um arco-íris colorido pelos bebês em seus trajetos brincantes, na busca não dita por um pote de tesouro dourado em seu suposto fim.
Ocorre que os arco-íris não são arcos, mas sim círculos que nos remetem a um eterno retorno (Deleuze, 2021), produzindo diferenças coloridas em si que não alcançam o mesmo em um pote precioso. Sendo assim, não é possível caminhar sobre moldes repetidos em uma docência que se preocupa em margear as possibilidades da elaboração infantil e suas invenções.
Essa multiplicidade colorífica não se efetua em uma unicidade dourada, mas na diferença rizomática de uma multiplicidade de cores em que percorrem os bebês e suas descobertas em meio aos acontecimentos. Para Deleuze (2012, p. 135), o acontecimento “[...] é uma vibração com uma infinidade de harmônicos ou de submúltiplos, tal como uma onda sonora, uma onda luminosa, ou mesmo uma parte de espaço cada vez menor ao longo de uma duração cada vez menor”. Portanto, é inviável atravessar essa passagem a esperar o encontro de apenas um pote e se considerar riqueza. Afinal, não estamos falando de preciosidades quantitativas. Percorremos, sim, por entre aquelas que habitam as multiplicidades nômades aprendentes.
Espiralando arco-íris múltiplos
Quando as telas explodem no corpo
O que dizer, senão: exuberância?!
É um dos múltiplos caminhos que as tintas têm
de serem outras além de colorir
Transformam-se nos corpos dos bebês
em sons, cheiros e texturas
Novos encontros
Somos afetados pelos corpos, que junto a nós, cartógrafos em campo, nos dizem acerca de outros mundos possíveis que bebeversam conosco, comunicando uma vida bonita por vir em cada acontecimento, para além de formatações e plataformas ditas educativas. São modos outros de manifestar narrativas de ditos não dizíveis, que reverberam em camadas diversas, complexificando os saberes dos bebês e todos que se encontram nesse enredo. São modos tramados por forças que ultrapassam a régua do olho adultizado, em muitas situações, somente capaz de medir à sua altura e desconsidera por vezes o mundo que transita para além de seus olhos. Esse mundo existe, mas necessita de encontros pelas diferenças produzidas entre as bebeversações não ditas, mas tão comunicantes em vias multiplicadas pelos ajuntamentos inéditos de suas descobertas.
Afinal, seria a linguagem dos bebês um modo de transgredir no rasgar das bordas de um currículo delimitante?
Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso.
No começo achei que aqueles homens não batiam bem.
Porque ficavam ali sentados na terra o dia inteiro escovando osso.
Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos.
E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor.
E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão.
Logo pensei de escovar palavras.
Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos.
Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras.
Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas.
Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma
(Barros, 2018, p. 17).
Portanto, não é uma questão de preencher vazios, pois eles constituem os encontros dos/com os bebês em narrativas compostas por palavras não ditas, que transbordam os verbetes convencionais, transgredindo a linguagem não palavreada para expandir modos outros de se comunicar. Talvez eles possuam um condão de “escovar as palavras” de modo que elas nem ao menos precisem ser pronunciadas, ressoando no corpo ondas comunicantes que se alastram pelo entorno.
Segundo Foucault (2009), a linguagem nasce quase que em sua completude onde a transgressão atinge seu espaço, remetendo-nos a transitar pelas frestas comunicantes dos bebês, produzidas por algo que “falta” e transpõe limites. São esses supostos “vazios” que se constituem em singularidades em sua linguagem, sem que remetamos a eles modos padronizados de comunicar, apenas agindo “[...] no próprio vazio da ausência de sua linguagem, lá onde precisamente as palavras lhe faltam” (Foucault, 2009, p. 36), talvez porque já venham sendo escovadas a bom modo pela vida que pulsa nos encontros dos/com os bebês.
A transgressão não está ligada a um limite permeado por dicotomias retilíneas como o “proibido” e o “permitido”, mas sim “[...] está ligada a ele por uma relação em espiral que nenhuma simples infração pode extinguir” (Foucault, 2009, p. 33).
O que nos movimenta é a fugacidade que se propaga com a transgressão, que não é estática, visto que os limites se movimentam e deambulam. Esse fato nos impele a cartografar movimentos multiplicados em labirintos espiralados, errantes e rizomáticos que nos conduzem aos infindáveis modos como os bebês vivenciam experiências e, entremeados a elas, se comunicam em ondas que se movimentam por diversos sopros provenientes de ventos nômades, arrebatando nosso caminho-pesquisa que busca entrar em relação com os bebês e suas linguagens coloridas por uma multiplicidade dobrada e desdobrada de feitios diferentes: “O múltiplo é não só o que tem muitas partes, mas o que é dobrado de muitas maneiras” (Deleuze, 2012, p. 14).
Então, em um segundo movimento, os bebês entraram em relação com uma experimentação junto às bacias com água e outros utensílios. Diante do cenário, um deles se aproximou lentamente, comunicando com o corpo a intenção de participar daquele acontecimento, sem lançar mão das palavras. Os corpos se fizeram comunicação mútua quando o grupo demonstrou o interesse no encontro brincante.
Desse modo, pé ante pé, deslocamo-nos pelas estradas não ditas em que pedimos licença com o corpo para entrar em relação com um universo bebeversado no qual nos afetamos por nossos pontos de vista, ainda que eles não bastem – e nem devam bastar – para ousar preencher lacunas com as quais deparamos.
Segundo Deleuze (2012, p. 45), “[...] não é o ponto de vista, mas aquilo que ocupa o ponto de vista e sem o qual o ponto de vista não seria”, não se constituindo uma plenitude retilínea, mas afetando-nos em algo que nos move e reverbera linhas diversas de fuga que escapam de olhares uníssonos sobre/com a comunicação dos bebês para que não busquemos interpretá-los estanquemente em seus modos de se comunicar, e sim que sejamos afetados com os encontros não palavreados (Figura 4).
Vivenciando experiências junto à bacia com água
Um momento que se inicia em dupla
Em dado instante, surge uma solicitação corporal
Posso entrar na brincadeira?
Entre olhares e gestos com as mãos,
dizem sobre uma permissão
Então os três passam a brincar
Afinal, palavreiam os bebês?
Ou bebeversam?!
Transitamos pelas frestas lacunares em que habita uma certa angústia dada à falta das palavras, mas é justamente por meio desse absentismo que nos afetamos pelas possibilidades dos encontros com os bebês: onde menos se espera, onde se supõem vazios estéreis…
Mas é localizadamente aí, nos não-lugares, que transmutamos possibilidades de ouvir o que os bebês nos narram, visto que são espaços por onde deambulam currículos errantes e repletos de profusões coloríficas de uma comunicação que transcende aos ouvidos, que rompe as barreiras do som, penetrando nos corpos que se contagiam pelos ajuntamentos cotidianos.
(In)conclusões: quando as palavras explodem em movimentos que reverberam linguagens sem cessar
No encontro da pequena com os pássaros (Figura 5)
Tudo se fez ninho,
se fez ovo,
se abriu passarinho
E então nasceram asas
Palavras aladas que sobrevoam o lugar
E explodem em plumagens encantadas
Mas o que é feito das bebeversações?
Ora! Se transcriam em aves!
Junto às novas composições da menina
Passam a ser bando,
matilha
Coletivo que pulsa.
Nessa experimentação, os bebês se encontraram com alguns artefatos relacionados a uma proposta que envolveu ninhos e pássaros artesanais. Eis que a menina experimentou possibilidades com as primeiras palavras ditas, diante do encontro com a novidade.
Por fim, sem a ele chegarmos, lançamo-nos ao encontro com a explosão de palavras ditas da menina, que se entrelaçam com o emaranhado de uma tessitura perpassada, em que Deligny (2015) nos convoca à ausência das palavras pronunciadas e, ainda assim, comunicantes. Nesse tecer-traçar, nos encontramos com o arco-íris do bebê, produzido em mãos que fogem das docilizações represantes de pequenos e tão potentes corpos, em que somos remexidos por Foucault (2004, 2009). Espiralamos cores inventivas em meio às tintas que estrondam nos corpos comunicantes dos bebês e, sem a intenção de preencher vazios, seguimos transitando pelas frestas da linguagem de narrativas não palavreadas. No entanto, essa linguagem transbordou em palavras ditas no encontro com o pássaro e criou asas. Assim sendo, reavimos a trama, tecida por ajuntamentos não lineares.
Portanto, a menina bebeversou sem as palavras e cada encontro se fez entre gestos de um “corpo sem órgãos” que fala. Afinal, ele não se prende a uma organização padronizada, vinda de fora e que dita normas por onde a comunicação deve seguir. Eis que então as palavras explodiram em meio aos inéditos vividos no cotidiano... E agora, dizemos sobre uma linguagem dos bebês que se findou em meio às asas das palavras pronunciadas?
Decerto traçamos linhas de fuga que se esgueiram de caminhos arbóreos verticalizados. Acompanhar a linguagem rizomática dos bebês escapa de movimentos que seguem etapas ordenadas germinativas, como se fossem retilineamente do gesto à palavra pronunciada, considerando estágios evolutivos.
Com isso, não pretendemos tornar a linguagem dos bebês tão infértil quanto a impotência petrificada das coisas retilíneas. Buscamos navegar voos multidirecionais, que se encontram com as experiências da comunicação múltipla, potencializada pelas não palavras em encontros corpóreos, assim como balbucios palavreados, revelados conjuntamente, que não cabem em ações cotidianas endurecidas e plataformas digitais ditas educativas.
À vista disso, recorremos aos labirintos rizomáticos que nos remetem a caminhos sem cortes, plissados pelas infinitas dobras multiplicadas na linguagem dos bebês, transitando entre os ditos e inauditos dos gestos comunicantes nas relações cotidianas. As palavras, ainda que balbuciadas, não invalidam a linguagem dos bebês. Elas são as asas do pássaro que ousa empreender voos, deixando o ninho, mas podendo retornar sempre que desejar, reunindo-se ao bando para vaguear em caminhos errantes e tão singulares.
Portanto, a linguagem dos bebês perpassa um “corpo sem órgãos” em que habitam, de maneira entrelaçada, múltiplos encontros não palavreados e palavreados. Assim, nos afetamos por essa mistura que nasce em tessituras emaranhadas no que não se alcança e espera de uma comunicação dita convencional, com os diversos modos de narrar dos bebês.
Trata-se de uma imanência que não demarca o que é fora ou dentro, o que está por vir ou já ocorreu e, portanto, não nos é possível mensurar a linguagem dos bebês de modo único. Ela se encontra nas frestas inauditas e nas palavras que ganham asas do pássaro diante das descobertas inventivas que eles vivenciam por meio de suas experimentações. Essas palavras não invalidam os gestos e encontros que continuam a fazer parte da trama comunicante dos bebês.
Consideramos então ouvi-los com o corpo, um “corpo sem órgãos”, e os afetos efetivados em cada encontro, alçando voos do peixe voador que transborda a superfície dos mares para arquejar ares que possam fazê-lo respirar para além dele, para além das bordas dos que julgam ser os únicos espaços por onde transitam os bebês. Eles resistem, transgridem e transviam as entrelinhas que ousam delimitar suas forças e irrompem os limiares para expandir seus modos infindáveis de aprender, inventar e comunicar.



















