1 INTRODUÇÃO
Há diferentes estudos que abordam a infância como uma construção histórica, cultural (ARIÈS, 1981; HEYWOOD, 2004; NARODOWSKI, 1998; STEARNS, 2006), e em evolução (DORNELLES, 2005; POSTMAN, 2002) discutindo, sob diferentes pontos de vista, como vêm ocorrendo avanços na história social das crianças e das infâncias, que levaram a criança, outrora “invisível”, a ser vista hoje como sujeito de direitos, capaz de opinar, de atuar politicamente, de participar na sociedade a qual pertence. Avanços também relacionados aos seus modos múltiplos de ser e de estar na sociedade – ou seja, a percepção de “infâncias” (SARMENTO, 2007; SARMENTO; MARCHI, 2008). Superando a concepção de infant, “aquele que não fala”, passando a ser vista como sujeito capaz, completo, competente e em constante formação, cuja voz deve ser ouvida no que se refere às questões que lhe dizem respeito.
Nesse sentido, despontam estudos que buscam ouvir as crianças sobre questões que envolvem sua vida cotidiana, entre eles, os aspectos relacionados à sua educação, concebendo-as como “[...] sujeitos ativos de direitos nos processos educativos que as envolvem” (FERNANDES, 2015, p. 40). Ainda segundo a referida autora, “[...] para discutir a educação das crianças, elas deverão ser envolvidas no processo, tal como deve ser considerada e analisada com cuidados epistemológicos significativos, a forma como entendemos este sujeito-criança” (FERNANDES, 2015, p. 24). Cabe esclarecer que neste trabalho a criança é concebida como sujeito ativo, competente, capaz de opinar e intervir no meio em que vive; “[...] um sujeito concreto que integra uma categoria geracional; uma construção social que, com o passar do tempo, se transforma [...]” (RODRIGUES; BORGES; SILVA, 2014, p. 271).
Diante de tal premissa, ressalta-se que, para que o processo de escuta da criança aconteça, é preciso que os adultos responsáveis por estas crianças - sejam professores, gestores da escola, ou familiares - estejam capacitados para ouvi-las, que conheçam suas diferentes formas de expressão e suas diferentes linguagens. Conforme ensina Cruz (2008, p. 77), é imprescindível adotar a concepção de criança competente, “[...] ressaltando as suas possibilidades de estabelecer relações e levantar hipóteses explicativas, bem como de se comunicar, de argumentar, de pensar e refletir, de criar e manter vínculos interpessoais, enfim de produzir saberes e culturas”. Além disto, é fundamental que estejam dispostos a escutá-las e considerar suas falas na organização das atividades a elas destinadas.
Entendendo a importância da escuta da criança nos processos educativos, para a produção deste artigo, buscamos referências nos estudos do tipo estado do conhecimento, pois entendemos que a produção do conhecimento científico é marcada por diferentes influências: local e instituição de origem; perspectiva epistemológica adotada; instrumentos teórico-metodológicos selecionados etc. Isto porque, como salienta Bourdieu (1983, p. 122, destaques no original): “[...] universo ‘puro’ da mais ‘pura’ ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes se revestem de formas específicas”.
Assim, a partir da tarefa de mapear as pesquisas realizadas em Programas de Pós- graduação em Educação que escutaram crianças – para construir a revisão bibliográfica que faz parte da pesquisa de mestrado em andamento intitulada “O que pensam as crianças assentadas sobre o papel do professor de educação infantil do campo: ou sobre o direito da participação política dos pequenos”, em desenvolvimento junto ao Programa de Pós- graduação em Educação, Mestrado em Educação Social, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus Pantanal (PPGE-UFMS-CPAN)– o presente texto tem como propósito apresentar e discutir os diferentes enfoques e perspectivas em que foram realizadas as pesquisas com crianças, na área da educação, adotando estratégias de um estudo do tipo estado do conhecimento.
Teixeira (2006, p. 60) define os estudos de estado do conhecimento como “[...] um instrumento que busca a compreensão do conhecimento sobre determinado tema, em um período de tempo específico, e, consequentemente, sua sistematização e análise”. Entendemos que ele se difere da revisão bibliográfica na qualidade de seus objetivos, tendo em vista que vai além da simples organização das informações obtidas, pois intenta realizar uma compreensão crítica dos achados teórico-metodológicos, indicando tendências, recorrências e ausências (VOSGERAU; ROMANOWSKI, 2014).
Nessa direção, Romanowski e Ens (2006, p. 39) entendem que os estudos “[...] que objetivam a sistematização da produção numa determinada área do conhecimento já se tornaram imprescindíveis para apreender a amplitude do que vem sendo produzido”. As autoras ressaltam ainda que:
Esses estudos são justificados por possibilitarem uma visão geral do que vem sendo produzido na área e uma ordenação que permite aos interessados em perceberem a evolução das pesquisas na área, bem como suas características e foco, além de identificar as lacunas ainda existentes.
(ROMANOWSKI; ENS, 2006, p. 41).
Dessa forma, o presente texto foi organizado na busca por examinar os temas abordados nas pesquisas já realizadas que envolveram a escuta de crianças, sendo os dados obtidos organizados a fim de identificar os seguintes elementos: título; autor; ano; programa/universidade; região de predominância dos estudos; objetivo geral; objetivos específicos; objeto (o que discute); metodologia (tipo de estudo, forma de análise, instrumento, sujeito/lócus); referencial teórico; e contribuições da discussão. No subtítulo a seguir apresentamos o caminho percorrido, além da análise dos dados obtidos.
2 PEQUENO CENÁRIO DOS ESTUDOS COM CRIANÇAS NO CONTEXTO BRASILEIRO
O levantamento bibliográfico foi realizado via internet, através da consulta ao banco de dados da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Para realizar o mapeamento e a seleção dos trabalhos não foi delimitado um período de tempo por considerarmos este um novo campo de estudo; sendo adotados 26 descritores, pensados por uma lógica de aproximação que permitisse levantar todos os trabalhos que estavam ligados/relacionados à escuta da criança, bem como os que se remetiam à Educação Infantil do campo. A opção de busca pelos trabalhos foi a avançada, na qual os descritores foram utilizados sozinhos e cruzados. Nas buscas foi encontrado um total de 17.903 títulos, como apresentado a seguir na Tabela 1:
Tabela 1 Quantitativo de Teses e Dissertações encontradas por palavras-chave
| DESCRITORES | QUANTIDADE |
|---|---|
| Educação Infantil x Pesquisa com criança | 3.013 |
| Educação Infantil x Estudos com crianças | 2.920 |
| Educação do campo x Pesquisa com criança | 2.583 |
| Educação do campo x Estudos com crianças | 2.397 |
| Educação no/do campo x Protagonismo infantil | 101 |
| Educação do campo x Escuta da criança | 121 |
| Educação do campo x Participação infantil | 261 |
| Educação do campo x Ouvir crianças | 75 |
| Educação Infantil x Protagonismo infantil | 195 |
| Educação Infantil x Participação infantil | 694 |
| Educação Infantil x Escuta da criança | 157 |
| Educação Infantil do campo x Escuta da criança | 65 |
| Educação Infantil no/do campo x Escuta da criança | 65 |
| Educação Infantil x Ouvir crianças | 103 |
| Educação Infantil no/do campo x Ouvir crianças | 35 |
| Educação Infantil no/do campo x Pesquisa com criança | 1.159 |
| Educação Infantil no/do campo x Estudo com criança | 1.048 |
| Educação Infantil no/do campo x Protagonismo infantil | 101 |
| Educação Infantil no/do campo x Participação infantil | 268 |
| Educação Infantil no/do campo x Fala da criança | 160 |
| Educação Infantil x Fala da criança | 379 |
| Educação do campo x Fala da criança | 159 |
| Educação Infantil do campo x Crianças assentadas | 23 |
| Educação Infantil x Crianças assentadas | 39 |
| Educação no/do campo x Crianças assentadas | 60 |
| Educação Infantil no/do Campo | 1.728 |
| TOTAL | 17.903 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados na BDTD.
A segunda seleção foi realizada com a leitura dos títulos dos trabalhos, considerando todos aqueles que ouviam crianças, independente do tema abordado. Após excluir os títulos que se repetiam, restaram 423 trabalhos cuja proposta incluía ouvir as crianças, ainda que não considerassem apenas as vozes infantis.
Com o intuito de mensurar os trabalhos que ouviram crianças acerca da Educação fizemos uma terceira seleção e, até essa etapa, foram incluídos tanto os trabalhos com crianças da Educação Infantil, quanto do Ensino Fundamental, sendo selecionadas 119 pesquisas.
Considerando que essa foi também a fase de revisão bibliográfica da investigação que pretende ouvir crianças da pré-escola, fizemos novamente a leitura dos resumos a fim de selecionar apenas os trabalhos realizados com as crianças em idade pré-escolar (de quatro a cinco anos e 11 meses). Assim, utilizando esse critério, após a exclusão dos títulos que se repetiam, foram selecionados 20 trabalhos na BDTD.
Tendo em vista que a investigação da qual se origina este artigo faz parte do PPGE- UFMS-CPAN e que não encontramos nas buscas realizadas na BDTD nenhum trabalho proveniente dele, decidimos verificar em seu sítio eletrônico se havia pesquisas realizadas que atendessem nossos critérios de seleção.
Assim, foram encontrados 11 trabalhos com estudos na área de Educação Infantil (vale ressaltar que foram disponibilizados no sítio eletrônico do programa, apenas trabalhos realizados a partir do ano de 2011). Desses, selecionamos seis dissertações que se aproximavam, de alguma forma, do objeto de estudo desta pesquisa, quer seja por ouvirem crianças ou por discutirem a Educação Infantil em assentamentos rurais. Dessa forma, ao término da seleção dos trabalhos encontramos um total de 26 pesquisas selecionadas, 20 na BDTD e seis no sítio eletrônico do PPGE-UFMS-CPAN, cujos títulos são apresentados no Quadro 1.
Quadro 1 Títulos dos trabalhos selecionados e fonte de onde foram encontrados
| TÍTULOS DOS TRABALHOS | FONTE |
|---|---|
| A gente tem que falar para crescer: possibilidades e desafios do trabalho pedagógico mediante a escuta das narrativas infantis | BDTD |
| As concepções das crianças sobre as características de uma boa professora de educação infantil |
BDTD |
| Desenho narrativo na pré-escola: as crianças e seus pensamentos coloridos | BDTD |
| Educação infantil na escola do campo: o que as crianças nos sinalizam sobre este contexto | BDTD |
| Espaços, práticas e interações na educação infantil: o que dizem as crianças | BDTD |
| Falas e imagens: a escola de educação infantil na perspectiva das crianças | BDTD |
| Narrativas infantis e processo formativo: estudo sobre as significações de crianças sobre suas experiências na educação infantil |
BDTD |
| O que as crianças da pré-escola revelam acerca das práticas pedagógicas que experienciam no contexto de uma escola de educação infantil |
BDTD |
| O que você descobriu sobre a gente? A escola de educação infantil do campo a partir do olhar das crianças |
BDTD |
| Olhares de crianças sobre a escola de educação infantil: o que dizem e mostram sobre a escola? | BDTD |
| Qualidade na Educação Infantil: o olhar da criança sobre a pré-escola | BDTD |
| A rotina da pré-escola na visão das professoras, das crianças e de suas famílias | BDTD |
| O que pensa a criança pequena sobre a escola infantil? | BDTD |
| O protagonismo das crianças nas práticas educativas da Educação Infantil: investigando com as crianças da pré-escola |
BDTD |
| A escola é da diretora: a gestão de uma pré-escola municipal sob o olhar das crianças | BDTD |
| A roda de conversa na Educação Infantil: análise de seus aspectos formativos com crianças de três a cinco anos |
BDTD |
| O lugar da fala da criança na ação docente em instituições de educação infantil | BDTD |
| “Tia, deixa eu falar!” Os sentidos atribuídos por crianças da pré-escola à roda de conversa em um centro de educação infantil do município de Fortaleza |
BDTD |
| A organização do espaço na educação infantil e o desenvolvimento integral da criança: sentimentos e ações em turmas de pré-escola |
BDTD |
| A infância no espaço tempo da pré-escola obrigatória: o dizer infantil, experiência e aprenderes fazeres que atravessam o cotidiano das crianças |
BDTD |
| “Todo mundo tá feliz?” As percepções das crianças sobre a educação infantil nas pesquisas científicas brasileiras |
PPGE/CPAN |
| A ciranda dos jogos e brincadeiras nas falas das crianças ribeirinhas | PPGE/CPAN |
| A apropriação da cultura escrita na educação da criança pequena: desafios e possibilidades de uma prática docente |
PPGE/CPAN |
| Educação infantil: dos direitos legais à prática cotidiana em um CEI da rede pública municipal de Corumbá-MS |
PPGE/CPAN |
| Do letramento à formação de atitude leitora e produtora de texto por meio dos gêneros textuais: uma prática possível na educação infantil? |
PPGE/CPAN |
| Educação infantil do campo: mais respeito nossas crianças têm direito | PPGE/CPAN |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
Destacamos que, entre as 26 pesquisas selecionadas, 20 trabalhos são dissertações de mestrado e seis são teses de doutorado, conforme apresentado no Gráfico 1, indicando um certo predomínio de estudos realizados em um espaço menor de tempo.

Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados encontrados.
Gráfico 1 Percentual de teses e dissertações encontradas
O passo seguinte foi a organização dos dados a fim de identificar os seguintes elementos: ano de defesa; programa/universidade; objetivo geral; objetivos específicos; objeto (o que discute); metodologia (tipo de estudo, forma de análise, instrumento, sujeito/lócus); referencial teórico; e contribuições/discussão.
A análise preliminar dos dados encontrados indica que a escuta das crianças nas pesquisas sobre a Educação Infantil no Brasil tem início em 2005, mantendo o número de um trabalho por ano até 2012. A partir de 2013, há um pequeno aumento nas pesquisas com crianças, com exceção do ano de 2014, que também teve apenas um trabalho publicado. Os anos com mais pesquisas realizadas com crianças foram 2016 e 2017, com quatro trabalhos realizados em cada ano. Após esse período novamente diminuiu o número das pesquisas que ouviram crianças, com um total de3 trabalhos em 2018 e 2 em 2019, como pode ser observado na Tabela 2, na qual é apresentada a distribuição temporal dos trabalhos encontrados nas fontes pesquisadas:
Tabela 2 Distribuição temporal das Teses e Dissertações
| ANO | QUANTIDADE | % |
|---|---|---|
| 2005 | 1 | 4 |
| 2006 | 1 | 4 |
| 2007 | 1 | 4 |
| 2008 | 1 | 4 |
| 2009 | 1 | 4 |
| 2010 | 1 | 4 |
| 2011 | 1 | 4 |
| 2012 | 1 | 4 |
| 2013 | 2 | 8 |
| 2014 | 1 | 4 |
| 2015 | 2 | 8 |
| 2016 | 4 | 16 |
| 2017 | 4 | 16 |
| 2018 | 3 | 12 |
| 2019 | 2 | 8 |
| TOTAL | 26 | 100 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
Esses dados indicam que, apesar de estar acontecendo pesquisas com crianças, a quantidade de trabalhos que buscam ouvi-las sobre a Educação Infantil ainda é pouco significativa.
Na Tabela 3 apresentamos os Programas de Pós-graduação de onde se originaram os trabalhos encontrados, bem como a quantidade encontrada em cada um deles. A maioria pertence ao PPGE-UFMS-CPAN, com 24%. Seguido do Programa de Pós-graduação, Mestrado em Educação Brasileira, da Universidade Federal Ceará, com 16% dos trabalhos. Em terceiro lugar aparece o Programa de Pós-graduação, Mestrado em Educação, da Universidade Federal de Santa Maria, com 12% das investigações. Em seguida, aparece o Programa de Pós-graduação, Mestrado em Educação, da Universidade Federal de São Carlos, com 8% das pesquisas. Os demais programas produziram 4% das pesquisas.
Tabela 3 Trabalhos produzidos pelos Programas de Pós-graduação
| PROGRAMAS QUE PRODUZIRAM OS TRABALHOS | QUANTIDADE | % |
|---|---|---|
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira - Mestrado da Universidade Federal do Ceará (UFCE) | 4 | 16 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFRGS) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) | 3 | 12 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado do Centro de Teologia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Vale do Taquari (UNIVATES-RS) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação, Educação Social - Mestrado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Campus Pantanal (UFMS/CPAN) | 6 | 24 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Federal da Paraíba (UFPA) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade de São Paulo (USP) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Mestrado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE-PR) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Doutorado da Universidade de São Carlos (UFSCAR) | 2 | 8 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Doutorado da Universidade Federal da Bahia (UFBA) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Doutorado da Universidade Federal do Ceará (UFCE) | 1 | 4 |
| Programa de Pós-graduação em Educação - Doutorado da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) | 1 | 4 |
| TOTAL | 26 | 100 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
Com base nas fontes pesquisadas é possível identificar que a região Nordeste é a que mais produziu pesquisas que ouviram crianças no período de 2005 a 2019, com 31% dos trabalhos encontrados. Em segundo lugar aparece a região Centro-Oeste com 27% e, em seguida, o Sudeste com 24%, enquanto a região Sul figura com 19% das investigações encontradas (ver Gráfico 2). O cenário encontrado destoa um pouco de outros estudos desse tipo, uma vez que usualmente se tem no Sudeste o maior número de produções, tendo em vista a grande concentração de Programas de Pós-graduação nesta região do país.
Buscamos também identificar nos estudos encontrados quais subtemáticas da Educação Infantil as pesquisas elegeram para ouvir as crianças. Dentre elas, as mais estudadas foram: a prática docente; a qualidade da educação; a visão das crianças sobre a Educação Infantil; e a visão das crianças sobre a Educação Infantil do campo (vale ressaltar que apenas dois trabalhos ouviram crianças provenientes do campo e nenhum deles ouviu a criança assentada). Na Tabela 4 apresentamos o quantitativo dos objetos de estudo dos trabalhos.
Tabela 4 Objetos de estudo
| OBJETO DE ESTUDO | QUANTIDADE | % |
|---|---|---|
| Práticas pedagógicas | 5 | 19 |
| Práticas pedagógicas e formação docente | 1 | 4 |
| Percepção/visão das crianças sobre a Educação Infantil | 5 | 19 |
| Percepção/visão das crianças sobre a Educação Infantil no/do campo | 2 | 8 |
| Qualidade da Educação Infantil | 2 | 8 |
| Narrativas infantis | 1 | 4 |
| Concepções de famílias assentadas sobre a creche | 1 | 4 |
| Metodologia de pesquisa com crianças | 1 | 4 |
| Brincadeiras e jogos | 1 | 4 |
| Cultura escrita na Educação Infantil | 1 | 4 |
| Letramento na Educação Infantil | 1 | 4 |
| Rotina na pré-escola | 1 | 4 |
| Protagonismo da criança | 1 | 4 |
| Gestão democrática na Educação Infantil | 1 | 4 |
| As rodas de conversa | 2 | 8 |
| TOTAL | 26 | 100 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
No que se refere aos tipos de pesquisa realizados segundo a abordagem do objeto, todas as pesquisadoras optaram pela abordagem qualitativa. Cabe então apontar a coerência de estudos que buscam ouvir crianças serem de natureza qualitativa, tendo em vista que, em essência,
A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
(MINAYO, 2002, p. 21).
Ainda sobre o enquadramento metodológico dos trabalhos encontrados, no que diz respeito às fontes de informações, nota-se que a maioria das investigações (73%) optou pela pesquisa de campo; sendo que outros 23%, além do trabalho de campo, também realizaram análise documental e apenas 4% (um estudo) optou pela pesquisa bibliográfica.
Tabela 5 Trabalhos relacionados ao tipo de estudo segundo as fontes de informação
| TIPO DE ESTUDO | QUANTIDADE | % |
|---|---|---|
| De campo | 19 | 73 |
| De campo e documental | 6 | 23 |
| Bibliográfica | 1 | 4 |
| TOTAL | 26 | 100 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
Quanto aos participantes das pesquisas, identificamos que, apesar da proposta ser a escuta da criança, dentre as 26 investigações, a maioria – um total de 17 delas – optou por também captar a fala dos adultos envolvidos no processo (sejam pais e/ou outros familiares, professores, coordenadores, gestores ou atendentes) e apenas uma pela pesquisa bibliográfica. Somente nove trabalhos optaram por ter apenas as crianças como participantes. Na Tabela 6 apresentamos as informações encontradas acerca da caracterização dos participantes das investigações analisadas.
Tabela 6 Participantes da investigação
| SUJEITOS | QUANTIDADE | % |
|---|---|---|
| Somente crianças | 9 | 34 |
| Crianças e professoras | 7 | 27 |
| Crianças, professoras e atendentes | 1 | 4 |
| Crianças, professoras, coordenadoras e gestoras | 2 | 8 |
| Crianças, professoras, atendentes, coordenadoras e pais/responsáveis | 1 | 4 |
| Crianças, professoras, atendentes e gestoras | 1 | 4 |
| Crianças, professoras e familiares | 2 | 8 |
| Crianças e familiares | 1 | 4 |
| Familiares | 1 | 4 |
| Estudo bibliográfico | 1 | 4 |
| TOTAL | 26 | 100 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
Dessa forma, entendemos que, embora os trabalhos selecionados indiquem a necessidade de escuta da criança, a maioria buscou outras fontes de informação complementar, como professores, coordenadores, gestores ou mesmo fontes bibliográficas e documentais. Esse fato nos permite inferir que, apesar do discurso de criança competente estar presente nas teses e dissertações, os pesquisadores ainda não tomam como suficiente a fala da criança para chegar a conclusões “científicas”. Entendemos que isso se dá pelo fato de que ainda não foi totalmente superada a concepção de criança como sujeito incompleto, incapaz, um vir a ser.
Outro fator que corrobora essa análise foram os instrumentos/técnicas de coleta dos dados utilizados nas pesquisas, centrados ou que privilegiam a forma de comunicação dos adultos. Na tabela 7 apresentamos as técnicas/instrumentos utilizadas nas pesquisas.
Tabela 7 Trabalhos de acordo com os instrumentos/técnicas de coleta de dados
| INSTRUMENTOS/TÉCNICAS UTILIZADAS | QUANTIDADE |
|---|---|
| Livro da vida | 1 |
| Histórias para completar | 2 |
| Desenho com história | 1 |
| Desenhos | 5 |
| Entrevistas individuais com crianças | 9 |
| Entrevistas individuais com adultos | 7 |
| Entrevista coletiva com crianças e adultos | 2 |
| Entrevistas coletivas com crianças | 3 |
| Entrevistas individuais com desenho com crianças | 1 |
| Observação | 10 |
| Observação participante | 5 |
| Filmagem em vídeos | 10 |
| Filmagem em vídeos pelas crianças | 1 |
| Fotografias | 9 |
| Produção fotográfica pelas crianças | 2 |
| Áudios | 1 |
| Análise documental | 6 |
| Registro em diário de campo | 9 |
| Uso de questionários com adultos | 2 |
| Roda de conversa | 1 |
| Roda de conversa com situação de faz de conta | 1 |
| Registro das narrativas infantis | 3 |
| Registro em forma de texto | 2 |
| Desenvolvimento de atividades com crianças | 2 |
| Levantamento bibliográfico | 1 |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados levantados.
É possível perceber que na maioria das vezes são os adultos que fazem os registros das observações em diários de campo, fotografias e vídeos. Nota-se que apenas dois trabalhos utilizaram fotografias produzidas pelas crianças. Os registros em vídeo também foram produzidos pelas crianças em apenas uma das pesquisas.
Assim, acreditamos que os materiais provenientes da coleta de dados, como dito anteriormente, são produzidos pelos adultos, retratando situações que eles entendem ser importantes para a pesquisa. E mesmo quando as crianças são as produtoras dos dados, a análise dos mesmos é feita a partir do olhar do adulto pesquisador. Esse cenário nos leva a reafirmar que, apesar do discurso colocar a criança como centro do processo, da ideia de criança como informante competente e sujeito de direitos, as discussões ainda são realizadas a partir de um olhar adultocêntrico. Essa questão nos indica que o apontamento de Soares (2006) - sobre o fato de que tradicionalmente as pesquisas sobre infâncias/crianças considera que estudar os contextos de socialização das crianças, ouvir outros atores e inferir os resultados a partir da perspectiva/lógica adulta seria uma forma de privilegiar estudos com crianças - é uma realidade atual.
Por outro lado, das 26 pesquisas analisadas, 25 revelam a importância da escuta da criança sobre as questões que lhe dizem respeito e a competência da criança em opinar sobre tais questões; sendo que três discorrem sobre a importância e a necessidade de ouvir os pequenos com uso de diferentes linguagens, notadamente as que as crianças têm mais destreza; duas chamam a atenção para o fato de que as crianças produzem cultura; uma reforça que o brincar é inerente à criança, constitui-se uma de suas linguagens e, portanto, deve estar presente na Educação Infantil; uma ressalta a importância da escuta da criança para a qualidade da Educação Infantil e para a promoção de sua formação integral. Acerca da escola de Educação Infantil e das práticas pedagógicas, quatro trabalhos apontam a possibilidade de reinvenção das práticas pedagógicas a partir da escuta da criança; um denuncia práticas pedagógicas que não atendem às necessidades e desejos infantis; um relata a falta de relações afetivas positivas entre crianças e adultos, e discute sobre a importância dessas no espaço escolar; um discorre sobre a necessidade de interação adulto-criança de forma a contribuir para o desenvolvimento e alargamento do lugar de sua fala; um evidencia a escola como importante espaço de socialização infantil; um destaca a escola como lugar privilegiado de desenvolvimento e de aprendizagem infantil.
Ainda no que se refere à gestão da escola, um dos trabalhos analisados indica a necessidade de organizar a escola a partir do olhar, da fala e das ações das crianças; um ressalta a importância da participação da criança na gestão democrática da escola. No tocante às políticas públicas para a Educação Infantil, um dos trabalhos analisados indica as dificuldades em concretizar os avanços conquistados nas políticas públicas no que se refere às concepções, aos valores e às crenças acerca das crianças, das infâncias e da educação a elas destinadas no cotidiano da Educação Infantil; um denuncia a ausência das creches nos assentamentos e a importância da Educação Infantil no campo para as famílias assentadas. No que diz respeito às produções acadêmicas, duas pesquisas evidenciam a carência de investigações que envolvam a escuta da criança do campo sobre a Educação Infantil do Campo.
Importante destacar que durante a realização deste estudo encontramos dificuldades de acesso aos trabalhos completos, pois alguns repositórios não permitiam acessar o material na íntegra, bem como não apresentavam informações ou meios de contato com os autores das pesquisas. Outro entrave que merece destaque é a falta de rigor metodológico na apresentação/registro dos trabalhos (insuficiência de informações nos resumos apresentados; títulos de trabalhos difusos; falta de informações metodológicas), aspectos fundamentais na realização de pesquisas científicas de natureza bibliográfica. A esse respeito, André (2013, p. 96) ressalta que,
[...] não é a atribuição de um nome que estabelece o rigor metodológico da pesquisa, mas a explicitação dos passos seguidos na realização da pesquisa, ou seja, a descrição clara e pormenorizada do caminho percorrido para alcançar os objetivos, com a justificativa de cada opção feita.
Portanto, entendendo a importância dos estudos de revisão para a realização de novas pesquisas, frisamos a necessidade de que pesquisadores observem com o rigor necessário os aspectos supramencionados, a fim de contribuir para a produção do conhecimento em sua área de estudo com a relevância que se almeja.
As leituras realizadas no estudo, ao indicar a falta de trabalho com crianças assentadas, corroboram a importância de ouvi-las sobre o papel do professor de Educação Infantil do campo, a fim de pensarmos uma formação docente que atenda às necessidades infantis no contexto dos assentamentos rurais; além de elaborarmos uma proposta educativa que se adeque à realidade e à luta das comunidades assentadas, como é o objetivo da Educação do Campo. Conforme Caldart (2008, p. 71),
A Educação do Campo nasceu como mobilização/pressão de movimentos sociais por uma política educacional para comunidades camponesas: nasceu da combinação das lutas dos sem-terra pela implantação de escolas públicas nas áreas de reforma agrária com as lutas de resistência de inúmeras organizações e comunidades camponesas para não perder suas escolas, suas experiências de educação, suas comunidades, seu território, sua identidade.
Entendendo conforme relata a autora supracitada – que a Educação do Campo é fruto da mobilização/participação das famílias assentadas, comunidades sem-terra, como parte da luta pela reforma agrária com todos os aspectos que propicia condições de vida digna nos assentamentos – ressaltamos a importância da participação das crianças nas questões da vida cotidiana que lhes dizem respeito e também de sua escuta sobre a educação que lhes é destinada; pois entendemos ser fundamental “[...] reconhecer a criança como sujeito que tem direitos, desde bebê é alguém que merece ser respeitado na sua singularidade, que tem importância para a coletividade, pois é parte desse coletivo e, portanto, deve ter oportunidade de se expressar e ser compreendido”. (MOVIMENTO..., 2004, p. 41, destaque nosso).
Assim, em consonância com a proposta educativa do Movimento Sem Terra, entendemos que a pesquisa acadêmica também deve considerar as crianças como “construtoras do movimento”, como pessoas que fazem parte e atuam ativamente na vida cotidiana dos assentamentos, dentro e fora das escolas. Dessa forma, nosso desejo é que a investigação da qual se originou este levantamento de produção possa contribuir para pensarmos a necessidade de que as pesquisas científicas, diferente do que os dados evidenciaram, sejam realizadas com as crianças e não somente sobre elas.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo ora realizado aponta para a necessidade de realização de investigações que escutem crianças sobre a Educação Infantil, pois, embora haja alguns estudos a respeito, a quantidade de pesquisas dessa natureza ainda é pouco significativa. O levantamento das teses e dissertações já produzidas apontou ainda que os estudos não têm ouvido apenas as crianças, o que nos faz pensar que apesar do discurso para que a criança seja colocada como centro nos processos de investigação, ainda não foi totalmente superada a ideia de criança como um ser incompleto, um vir a ser, que precisa do adulto para falar por ela. Da mesma forma, os estudos utilizam instrumentos e técnicas de coleta de dados que, em vez de propiciar a leitura no sentido de compreender os dizeres infantis, levam a interpretações das falas infantis na perspectiva do adulto. Ainda é presente o movimento, mesmo que subjetivo, de uso de argumentos pautados nas supostas incompetências psicologicamente aferidas - de racionalidade ou maturação - das crianças (SOARES, 2006).
Outro dado que nos chamou atenção durante o levantamento bibliográfico foi que todos os trabalhos foram realizados por pesquisadoras do sexo feminino, fato que pode estar ligado aos processos de feminização e/ou feminilização do trabalho docente na Educação Infantil (YANNOULAS, 2011). Dessa forma, levantamos a hipótese de que essa vinculação, da imagem feminina atrelada à Educação Infantil, possa justificar a ausência/falta de interesse de pesquisadores do sexo masculino nos estudos acerca da educação destinada às crianças pequenas, pelo entendimento de que ela não lhe pertence.
Quanto às temáticas estudadas e os sujeitos com os quais se realizou a pesquisa, é importante salientar que dos 26 trabalhos analisados apenas dois ouviram crianças do campo, nenhum desses trabalhos ouviu crianças assentadas. Cabe também o destaque de que apenas um tinha o objetivo de ouvir crianças acerca das características do bom professor de Educação Infantil; no entanto, ele não foi realizado em contexto de Educação do Campo e também não ouviu apenas as crianças.
Entendemos que ouvir crianças assentadas, sobre o papel do professor de Educação Infantil no/do Campo, poderá contribuir significativamente para pensarmos a formação docente (inicial e continuada), de modo a atender às necessidades específicas dessas crianças e construir, junto com elas, escolas que atendam ao projeto de vida e de sociedade que defendem. Afinal, “[...] somente as escolas construídas política e pedagogicamente pelos sujeitos do campo, conseguem ter o jeito do campo, e incorporar neste jeito as formas de organização e de trabalho dos povos do campo”. (CALDART, 2003, p. 66).
Nesse sentido, esperamos que este trabalho possa contribuir para a reflexão e para a promoção da participação infantil nas decisões sobre questões que lhe dizem respeito, com a escuta sensível das falas das crianças por professores, pesquisadores e demais adultos envolvidos em seu processo educativo; a fim de construirmos uma educação com o jeito das crianças do campo, que as respeite como atores sociais e políticos, pois, assim como os adultos, são construtoras da escola e de toda a vida cotidiana no campo. Finalizamos reafirmando que a participação infantil é estratégia indispensável, uma vez que é essencial, como apontado por Soares (2006, p. 27), “[...] mudar o mundo, não só pelas crianças, mas acima de tudo com a sua participação”.














