O título desta resenha refere-se ao argumento do autor de que, para amar uma criança, é preciso oferecer a ela, primeiro, o direito de crescer sendo como é. São as trajetórias desse autor que estão reunidas e narradas por Sarita Sarue em seu livro, resenhado no texto que se segue. Esta resenha se destina à biografia do autor, e não especialmente às suas obras, objetivando, portanto, fomentar posteriores leituras e apropriações.
O primeiro capítulo do livro de Sarue apresenta o orfanato que ficava a cargo do Doutor Janusz Korczak, como as crianças o chamavam. O texto é uma adaptação do livro autobiográfico de Itzchak Belfer, aluno aprendiz do orfanato Dom Sierot, acertadamente selecionado por Sarita Sarue para apresentar sua obra e o autor. A escolha alude à obra e à trajetória de Korczak ao narrar detalhes do período expressos pelas memórias de uma criança.
O segundo capítulo apresenta Henryk Goldszmit, conhecido posteriormente por seu pseudônimo Janusz Korczak. Pediatra, escritor, jornalista e educador, nascido em Varsóvia, Polonia, em 1878, permanece desconhecido em boa parte do mundo, embora pudesse ser mais amplamente referenciado como precursor dos direitos das crianças. Os capítulos contem passagens da própria obra do autor, o que nos permite adentrar em seu universo de maneira direta. Fato é que Janusz Korczak contribui para o estabelecimento posterior de uma tradição emancipatória dos direitos das crianças como direitos de agência. O termo, para Liebel (2019), amplia uma interpretação legalista dos direitos das crianças, tutelados pelo Estado, para pensar em direitos reclamados e agenciados pelas próprias crianças como sujeitos.
Janusz Korczak estudou em escola russa elementar, sistema recheado de agressões físicas, que Sarita Sarue classifica como autoritário e punitivo. Além disso, o menino era proibido pela mãe de brincar na rua, pois ela não considerava a rua como um ambiente propício para garotos educados. Os detalhes narrados pela autora demonstram a profundidade dos entendimentos de Janusz a respeito da vida das crianças. Paralelamente ao desejo de tornar-se médico, ele escrevia textos sobre o universo infantil que foram publicados em polonês e, posteriormente, traduzidos para inglês, espanhol, francês e português. Na universidade, participou de um concurso literário como Janusz Korczak, e assim ficou conhecido por seu pseudônimo.
Suas obras traduzidas para o português são: Quando eu voltar a ser criança (2022), Como amar uma criança (1997), A sós com Deus (2007), Diário do gueto (1986) e O direito da criança ao respeito (1986). Tais publicações apresentam os pensamentos do autor sobre os direitos da criança e questões relacionadas à educação e autonomia infantis. Em seus textos, retratou encontros com as crianças pobres de Varsóvia e debateu questões sobre desigualdade e direitos. A autora dialoga com todas as obras de Korczak ao longo de sua biografia, o que a enriquece significativamente.
De acordo com a autora, Janusz endossou teorias sobre as brincadeiras ao ar livre, junto à natureza, para conferir mais saúde às crianças. Essas questões não estão apresentadas em profundidade na obra e podem ser melhor compreendidas a partir de outros detalhes narrados pela autora. O orfanato gerenciado por Janusz contava com aulas de musicalização, artesanato (atividades manuais) e ginástica. O sítio Little Rose também é apresentado como um espaço organizado no verão, onde as crianças poderiam desfrutar da natureza. Para Janusz Korczak, a vida ao ar livre auxiliava na cura das doenças e, segundo o depoimento de um dos alunos, ali, todos os dias havia jogos, esportes e excursões pelas florestas.
Por meio de congressos, as colônias de férias foram divulgadas entre a comunidade científica internacional no século XIX (DALBEN, 2014). Nessa época, as colônias eram recomendadas como uma possível medida de assistência infantil e eram adotadas por diversos países para proteger a saúde de suas crianças, como narrado por Janusz Korczak. Organizavam-se, portanto, atividades e procedimentos médico-educativos para as férias infantis (DALBEN; SOARES, 2016) ou para o tempo livre das crianças do orfanato. De modo similar, os parques infantis foram instituições implantadas na década de 1930, na cidade de São Paulo-SP, para promover a socialização de crianças em seu tempo livre, oferecendo especialmente atividades recreativas, artísticas e culturais (FERREIRA; WIGGERS, 2019). O orfanato e o sítio, apresentados na obra de Sarue, conservam similaridades com os projetos dos Parques Infantis, também reconhecidos por garantir às crianças o próprio direito à infância (FERREIRA; WIGGERS, 2019).
Nesse sentido, é importante compreendermos que todas estas instituições são espaços e tempos de sociabilidades entre as crianças e apresentam características ambivalentes. São espaços que, em maior ou menor medida, apreendem aspectos disciplinares enquanto assinalam garantias de direito às crianças e a salvaguarda de tempos e espaços de ser e brincar. Tanto a leitura da biografia apresentada por Sarita Sarue quanto as obras de Janusz Korczak nos encorajam na elaboração de novas pesquisas orientadas para a compreensão de instituições educacionais construídas para as crianças.
A trajetória de Janusz Korczak foi alterada por mudanças estruturais na cidade de Varsóvia, que, a partir do aumento considerável de crianças abandonadas nas ruas da cidade, fruto de sua industrialização, decide buscar soluções e atendimentos a partir de novos projetos, narrados no terceiro capítulo de Sarue. Sobre isso, a autora explica as influências de Rousseau e Pestalozzi nas publicações de Janusz. Com o primeiro, Janusz Korczak aprendeu que a criança deve ser educada em liberdade. Com o segundo, aprendeu ideias de educação democrática, que foram, mais tarde, aplicadas em seu orfanato.
É nesse orfanato que Janusz Korczak implementa um projeto educacional que funcionava como uma comunidade democrática, sendo que as crianças constituíam o parlamento, o tribunal e o jornal – tudo elaborado por e para elas. As vias democráticas apareciam em instrumentos como o quadro de avisos, a caixa de cartas, a vitrine de achados e perdidos, os comitês de tutela, reuniões-debate, entre outros listados na biografia. Como já demonstrado pela literatura (LIEBEL, 2019; LIMA, 2013; NARANJO, 2001; OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2017), tais práticas tem um compromisso com o direito de participação das crianças e não são criadas para acostumá-las a práticas democráticas ou para prepará-las para a cidadania. Pelo contrário, reúnem experiências que lhes oferecem a certeza e a capacidade de influenciar seu entorno e transformar a sociedade. O orfanato, segundo Sarita Sarue, foi reconhecido pelo seu pioneirismo também ao eliminar os castigos físicos do cotidiano das crianças acolhidas na instituição.
O quarto capítulo altera uma vez mais os rumos da obra e narra os anos de ascensão do nazismo e a crescente onda de antissemitismo na Europa. São diversos novos episódios que dificultaram a carreira profissional de Janusz Korczak e suas conquistas relacionadas ao direito das crianças. O médico e educador ocupava-se, no período, com mensagens de esperanças enviadas aos jovens e às crianças pela rádio, assim como ajudando os feridos pelas ruas. Janusz Korczak seguiu com as crianças no orfanato, alternando brincadeiras ao ar livre e fugas ao porão durante os bombardeios em Varsóvia.
O orfanato foi realocado na Escola de Comércio da rua Scholdna e, posteriormente, em um espaço menor, hermeticamente fechado e isolado. A autora narra os detalhes abjetos do período, alternando-os com as convicções de Janusz Korczak sobre o cotidiano das crianças e seus direitos, como o de morrer com dignidade. Entre 1939 e 1942, esforçou-se para manter as crianças limpas, alimentadas e com saúde, mas, apesar de seus esforços, elas conviveram com uma taxa de mortalidade de 60% e todos caminharam juntos, pouco depois, rumo aos vagões que os levaram às câmaras de gás.
O último capítulo da obra consagra Janusz Korczak como um grande educador e defensor dos direitos das crianças. Suas propostas são consideradas precursoras da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, aprovada em 1959, por unanimidade, na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU). A reconstituição de sua vida, nas palavras da autora, reflete os dilemas vividos à época e envolve questões fundamentais sobre direitos da infância e participação. O capítulo final também apresenta atividades desenvolvidas pela autora com crianças, para explicar as ideias de Janusz, divulgando representações das produções elaboradas pelas próprias crianças. Com isso, a autora encerra a biografia, respeitando as propostas e incorporando os pensamentos de Janusz Korczak no próprio trabalho.
Dito isso, conhecer o trabalho de Janusz Korczak é fundamental para descobrirmos que um caminho possível para seguirmos pensando a infância e o direito à participação das crianças em instâncias que governam e regulamentam suas vidas deve ser trilhado junto às próprias crianças.













