1 PRIMEIRAS PALAVRAS
Neste texto apresento uma narrativa autobiográfica na qual destaco alguns momentos especiais de minha trajetória no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP que, no ano de 2025, completa 50 anos formando pesquisadores em Educação.
Atuar no Programa de Educação: Currículo, na linha de pesquisa Políticas Públicas, Reformas Educacionais e Curriculares, desde sua criação, possibilitou-me participar efetivamente da rica trajetória deste Programa. Selecionar os momentos mais relevantes para uma análise, no espaço deste texto, constituiu-se em desafio, dado que foram muitos os momentos significativos. Decidi selecionar três desses momentos que, para mim, tiveram um sentido especial e que marcaram profundamente a vida do Programa.
O primeiro momento diz respeito à Avaliação do Programa, que conduzi entre 1985 e 1988. O segundo, é a presença de Paulo Freire no Programa, pelo período de 17 anos. E o terceiro, a criação e o desenvolvimento da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP que completa, agora, 27 anos.
2 A AVALIAÇÃO DO PROGRAMA: UMA PROPOSTA EMANCIPATÓRIA
Em 1975, o Professor Joel Martins, então Coordenador da Comissão Geral de Pós-Graduação da PUC-SP, convidou-me para assumir aulas no recém-criado Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo3 Aceitei o desafio e passei a atuar na Pós-Graduação. Em 1980, ingressei no doutorado, no Programa de Psicologia da Educação, buscando aprofundar minha formação como pesquisadora.
Em minha tese, orientada pela Dra. Maria Amélia Azevedo, intitulada Avaliação emancipatória: uma proposta democrática para reformulação de um curso de pós-graduação, construí e coloquei em prática um novo paradigma de avaliação, a partir dos conceitos de conscientização e emancipação, de Paulo Freire.
Essa pesquisa, com abordagem crítica, tornou-se possível dado o contexto de "abertura política" que se instalava no Brasil. Na banca de defesa de minha tese, pude ter a presença de Paulo Freire, como examinador de meu trabalho.
O paradigma da Avaliação Emancipatória opõe-se a modelos autoritários de avaliação educacional e foi efetivamente implementado no Programa de Pós-Graduação Educação: Currículo, no bojo de minha pesquisa. Essa abordagem apoia-se em uma matriz "praxiológica" com intenção de descrever, analisar e criticar a realidade, para transformá-la. Seus objetivos principais são "iluminar o caminho da transformação" e trabalhar para que os participantes envolvidos no contexto, objeto da avaliação, possam se tornar "autodeterminados". Essa proposta tem se mostrado um referencial valioso para a avaliação de programas educacionais, sociais e políticas públicas.
Como descrevi em um capítulo que registra os 50 anos do Programa de Psicologia da Educação da PUC-SP, esse paradigma de avaliação tem inspirado inúmeras pesquisas, figurando em dissertações e teses, em diferentes áreas do conhecimento. Na área da Educação, tem integrado a proposta de sistemas públicos de ensino que fazem opção pela Educação democrática, inserindo-se, pois, na pauta de programas de formação de educadores de diferentes níveis de ensino.
Artigos sobre a Avaliação Emancipatória figuram na pauta de periódicos nacionais e internacionais, com especial destaque para aqueles que circulam em países da América Latina.
Este paradigma foi amplamente discutido em âmbito nacional, na reunião anual da Associação Nacional de Pós Graduação em Educação (ANPEd), em 1987, e essa discussão estimulou a criação de uma comissão de docentes, em nível nacional, que elaborou uma proposta de avaliação para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), órgão do Ministério da Educação, como forma de aprimorar a sistemática de avaliação da Pós-Graduação brasileira, respondendo às críticas que se apresentavam, naquele momento (Saul, 2019, p. 41).
O livro resultante de minha tese, publicado em 1ª edição em 1988, constitui obra clássica na área de Avaliação Educacional, sendo constantemente recomendado em bibliografias de cursos de graduação, pós-graduação e concursos para educadores.
Com a perspectiva de propor, naquele momento da vida do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, uma sistemática de avaliação que pudesse de fato responder aos propósitos de aperfeiçoamento do curso e que, portanto, contemplasse valores, foco e método que não estavam sendo considerados pela avaliação externa realizada pela Capes, professores e alunos assumiram o desafio de experienciar uma nova sistemática de autoavaliação do Programa: a avaliação emancipatória , por mim construída e coordenada.
Conforme registrado no livro resultante de minha pesquisa, em seu prefácio, escrito por Maria Amélia Azevedo:
[...] o novo paradigma foi criado de forma contrastante. Isto é, suas características principais - em termos de "enfoque, definição, objetivos, implicações, limitações, contribuições e papel do avaliador"- foram discutidas à luz das características de outros modelos contemporâneos de avaliação de currículo.
[...] a autora assegura ao leitor a possibilidade de compreender que a geração de um paradigma é um processo cumulativo de produção de conhecimentos em nível de teoria de avaliação educacional (Azevedo, 2006, p. 9).
Destaque-se que:
A concepção de conscientização, conforme definida por Paulo Freire, constituiu-se em uma ideia geradora fundamental para a construção deste paradigma, pelo entendimento de que o processo de conscientização é a mola mestra de uma pedagogia emancipadora (Saul, 2008, p. 21).
De acordo com Freire (1980, p. 26-27):
A conscientização é [...] um teste de realidade. Quanto mais conscientização, mais se 'des-vela' a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo. Por esta mesma razão, a conscientização não consiste em "estar frente à realidade" assumindo uma posição falsamente intelectual. A conscientização não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato ação-reflexão. Esta unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens. Por isso mesmo, a conscientização é um compromisso histórico. É também consciência histórica: é inserção crítica na histórica, implica que os homens assumam o papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece [...] A conscientização não está baseada sobre a consciência de um lado, e o mundo de outro; por outra parte, não pretende uma separação. Ao contrário, está baseada na relação consciência-mundo.
Nessa mesma linha de pensamento, considera-se que:
O suporte epistemológico desta abordagem expressa-se por um processo dialógico que deve ser entendido como "encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo"(Freire, 1978, p. 93). Todavia, esse diálogo a que Freire se refere requer um pensamento crítico e é também capaz de gerar um pensamento crítico. Esse diálogo é, na proposta de Freire, condição para a comunicação, e esta, condição para uma verdadeira educação (Saul, 2008, p. 22).
Na construção do paradigma da avaliação emancipatória, foram considerados também os conceitos de emancipação, decisão democrática, transformação e crítica educativa. Igualmente tiveram destaque, nessa abordagem, emprestados de Brandão (1981), os seguintes pressupostos metodológicos: antidogmatismo, autenticidade e compromisso, restituição sistemática, ritmo/equilíbrio da ação-reflexão.
Três momentos caracterizam esta avaliação: a descrição da realidade (o programa que está sendo focalizado), a análise crítica e a criação coletiva; estes momentos não são estanques; por vezes se interpenetram constituindo-se em etapas de um mesmo e articulado movimento.
Os procedimentos de avaliação previstos por este paradigma, que se localiza dentre aqueles de abordagem qualitativa, caracterizam-se por métodos dialógicos e participantes; predominam o uso de entrevistas livres, debates, análise de depoimentos, observação participante e análise documental. Não são desprezados os dados quantitativos, mas a ótica de análise é eminentemente qualitativa (Saul, 2010, n.p.).
Ao analisar o paradigma da avaliação emancipatória, no bojo de outras abordagens, foi possível dizer que:
[...] o paradigma da avaliação emancipatória está alinhado com o tipo de avaliação que Daniel Stufflebeam4 denominou “avaliação centrada no objetivo transformador” que contempla abordagens de agenda social e de defesa de direitos. Tais abordagens têm intencionalidades de geração de mudança social. As avaliações, nessa perspectiva, comprometem-se com o “direito à informação” para os participantes dos programas que estão sendo avaliados e demais públicos interessados. O acesso à informação é uma condição de partilha de poder e, portanto, uma oportunidade de fortalecimento dos participantes, tanto para a compreensão e julgamento do programa como para a participação na tomada de decisões. Em pesquisas avaliativas conduzidas com essas abordagens, tanto a perspectiva dos participantes como a dos profissionais avaliadores ganham relevo no julgamento dos programas. Desta forma, proporciona-se o engajamento democrático dos participantes do programa no levantamento e interpretação dos achados das avaliações. Essas são avaliações que utilizam, geralmente, uma orientação qualitativa.
No dizer de Stufflebeam, essas abordagens vêm se destacando no campo da avaliação de programas, marcadamente apoiadas em princípios democráticos, de equidade e justiça social (Saul, 2019, p. 40).
Essa nova práxis de autoavaliação do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP teve destaque no contexto da pós-graduação brasileira.
Como resultante dessa experiência de autoavaliação, foram reafirmadas as seguintes diretrizes para o Programa Educação: Currículo da PUC-SP:
criticidade frente à realidade educacional brasileira;
comprometimento com o estudo e a investigação dos problemas educacionais relevantes (em nível nacional e regional);
compromisso com a transformação da realidade educacional;
aprimoramento do trabalho, visando a um avanço da área, tanto em nível do conhecimento como da metodologia;
integração entre docência e pesquisa;
ampliação dos níveis de decisão no Programa;
participação responsável de professores e alunos (Saul, 2006).
Percebe-se, desde aí, a marca forte de compromisso e inserção social do Programa que refletia a intensidade do ambiente acadêmico, cultural e político da PUC-SP.
3 A PRESENÇA DE PAULO FREIRE NO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO: CURRÍCULO DA PUC-SP
Paulo Freire (1921-1997) é reconhecidamente um dos pensadores mais importantes da história da Pedagogia, em todo o mundo, por ser autor de uma pedagogia crítica que tem compromisso com a libertação das classes oprimidas, mediante um trabalho de conscientização. Embora seja conhecido como sendo criador de um “método de alfabetização de adultos”, a sua obra tem contribuições que se estendem para todo o campo da educação. Pelo seu trabalho de alfabetização de adultos, considerado subversivo, no período da ditadura cívico-militar no Brasil, foi perseguido e obrigado a viver no exílio.
Em 1980, com a assinatura da Lei da Anistia, quando pode retornar ao Brasil, Freire foi recebido pela PUC-SP, depois de um exílio de 16 anos. Recebê-lo e aplaudi-lo no Teatro da Universidade Católica, o Tuca, junto a uma grande multidão, foi uma experiência de extremo significado e orgulho, especialmente, para os docentes e alunos dessa universidade.
Aceitando o convite de Dom Paulo Evaristo Arns, grão chanceler da PUC-SP, Freire passou a integrar o corpo docente dessa instituição de ensino, como docente e pesquisador.
A atualidade do pensamento de Paulo Freire vem sendo atestada pela multiplicidade de experiências que se desenvolvem, tomando o seu pensamento como referência, em diferentes áreas do conhecimento, ao redor do mundo. A crescente publicação das obras de Paulo Freire, em dezenas de idiomas, a ampliação de fóruns, cátedras e centros de pesquisa criados para pesquisar e debater o legado freireano são indicações da grande vitalidade do seu pensamento (Saul, 2006a, n.p.).
3.1 O que aprendi com Paulo Freire
Farei aqui uma breve síntese do que aprendi com Paulo Freire, no período de 17 anos partilhados com ele em minha trajetória profissional, registrando, inclusive, algumas memórias do cotidiano, por ter privado de sua convivência e amizade.
Poucas são as linhas de um texto para dizer do muito que aprendi com Paulo Freire. Costumo sintetizar a minha vivência de trabalho com Freire, enquanto professor e gestor de uma rede pública de educação, como um grande aprendizado de política, de teoria e de prática. Porém, mais do que esse aprendizado, o privilégio de aprender lições de vida com um educador que surpreendia, especialmente pela sua coerência.
Paulo Freire foi professor da PUC-SP, no Programa de Pós-Graduação: Educação: Currículo, depois de sua volta do exílio, pelo período de 17 anos (1980-1997). Tive a grande felicidade de partilhar com ele, por quase duas décadas, o espaço da sala de aula, dirigindo os seminários das terças-feiras à tarde e, por isso, posso testemunhar a coerência entre o seu “fazer docente”, originado de sua reflexão sobre sua prática, do diálogo constante que manteve com educadores e educandos de diferentes países do mundo, e suas proposições político pedagógicas.
Passei a trabalhar com Paulo Freire em 1980, convidado que foi pela PUC- SP, para ministrar aulas no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo (Saul, 2013, p. 54).
Dentre ações que buscaram a melhoria da qualidade do trabalho com os alunos, o Programa propôs, em sua estrutura didática, seminários que seriam dirigidos por mais de um professor. Paulo Freire e eu fomos incumbidos de coordenar um deles5.
Tínhamos um contato semanal em sala de aula, partilhando a docência; nós nos encontrávamos, também, em reuniões do Programa e em momentos de planejamento dos seminários.
Para o planejamento semestral desses seminários, Paulo Freire costumava me convidar para um almoço ou um café em sua casa; depois “partíamos”, como dizia ele, para discutir e elaborar o planejamento.
Ele procurava sempre ouvir o que eu estava pensando em relação ao trabalho do semestre; dialogávamos bastante e então chegávamos às propostas. Fazia questão de ressaltar que os nossos desejos, os nossos sonhos de professores seriam confrontados com os sonhos dos alunos e por isso propunha que a primeira coisa que faríamos em sala de aula seria discutir a proposta de trabalho dos seminários. Considerávamos, para a elaboração do plano, as expectativas dos alunos, as possibilidades de tratamento da temática e as avaliações dos semestres anteriores feitas pelos participantes do seminário. Procurávamos nesses encontros preparatórios dialogar sobre os nossos desejos, os nossos sonhos, de professores.
Esses diálogos com Paulo Freire sempre foram muito produtivos, ricos e fraternos.
No primeiro dia de aula, ele se preocupava inicialmente em ouvir os alunos para que as suas necessidades e expectativas estivessem contempladas na proposta de trabalho a ser desenvolvida no semestre. Isso era feito numa sala de aula arrumada em círculo, ambiente propício ao diálogo, onde todos os participantes podiam se ver face a face e onde Paulo Freire podia “tocar” alguns dos participantes da roda, que estavam a sua direita ou a sua esquerda, colocando delicadamente a mão sobre seus ombros. Fazia isso, em alguns momentos, num gesto muito espontâneo, como se quisesse ser melhor entendido ou, ainda, para chamar o seu interlocutor à participação. Quem conviveu com Paulo Freire e teve a oportunidade de estar mais perto dele, seguramente, vai se lembrar da expressividade dos seus gestos. Ele era um homem que falava com as mãos.
Na condução do trabalho de sala de aula, Paulo Freire fazia questão de estimular os alunos a falar sobre seus projetos, ainda que estes não estivessem detalhados ou totalmente claros. A partir desse relato, ou intenções de pesquisa, passava-se a um segundo momento em que se trabalhava com as diferentes temáticas, encontrando-se os eixos importantes e os “fios comuns” entre os projetos. De um modo recorrente, nas análises, surgiam, com prioridade, os conceitos de justiça social, poder, liberdade, democracia, utopia, ética, construção do conhecimento, compromisso social, formação do educador, educação como ato político, leitura da realidade, valores do ser humano (Saul, 2019, p. 34-35).
A presença de Paulo Freire nas aulas sempre foi muito apreciada, marcante e significativa. Na aula, a sua atuação era sutil. Embora estivesse ciente de que suas palavras tinham um papel importante, ele, com humildade genuína, raramente iniciava a conversa. Assim, Paulo Freire exercitava um dos saberes que mencionou em seu último livro como essenciais para a educação: "saber ouvir." Ele escutava a todos com atenção e respeito, sentindo-se à vontade para intervir quando achasse necessário ou quando alguém do grupo se dirigia a ele. Nesses instantes, podíamos ouvir sua voz suave que, no entanto, expressava uma postura firme, incentivando a reflexão sobre os desafios que apresentava, em busca de uma análise crítica do mundo, defendendo a ética do ser humano e lutando pelos oprimidos.
Os encontros com Paulo Freire sempre foram reflexivos, interessantes, fraternos e surpreendentes. Era admirável a sua clareza de análise do mundo! Inquieto e instigante, buscava a coerência entre sua prática e os seus escritos, mostrando-se indignado com as injustiças sociais. Revelava constantemente, coragem, humildade e esperança.
A grande oportunidade que tive de conviver e aprender com Paulo Freire, na Universidade, ampliou-se e se aprofundou quando fui por ele convidada para dirigir a reorientação curricular da Secretaria Municipal de Educação do Município de São Paulo6 e coordenar o programa de formação permanente dos/as educadores/as. Trabalhar na equipe de Paulo Freire, Secretário da Educação foi uma experiência inusitada (Saul, 2012, n.p.).
A presença de Paulo Freire no Programa tem inspirado professores e alunos. Nas ações de docência e de pesquisa, são valorizados e recriados princípios básicos do pensamento de Paulo Freire, tais como: participação, diálogo, emancipação, solidariedade e justiça social. Marcadamente, é possível encontrar tais referências permeando as pesquisas dos alunos. No período 1982 a 20257, no Repositório PUC-SP (https://sapientia.pucsp.br/), estão registradas 618 Dissertações, sendo que 338 delas (54,7%), denotam a presença de referenciais freireanos. No tocante às Teses, das 524, constatou-se que 267 delas (50,95%), reportam-se ao pensamento de Paulo Freire.
4 A CÁTEDRA PAULO FREIRE DA PUC-SP
Paulo Freire é um dos principais expoentes da pedagogia crítica. Sua obra inspira práticas educativas que defendem a emancipação dos sujeitos, o diálogo e a educação como prática da liberdade.
Embora seja conhecido como sendo o criador de um ‘método de alfabetização de adultos’, a sua obra tem contribuições que se estendem para todo o campo da educação. Pelo seu trabalho de alfabetização de adultos, considerado subversivo, no período da ditadura militar no Brasil, foi perseguido e obrigado a viver no exílio durante 16 anos.
A atualidade do pensamento de Paulo Freire vem sendo atestada pela multiplicidade de experiências que se desenvolvem tomando o seu pensamento como referência, em diferentes áreas do conhecimento, ao redor do mundo. A crescente publicação das obras de Paulo Freire em dezenas de idiomas, a ampliação de fóruns, cátedras e centros de pesquisa, criados para pesquisar e debater o legado freireano, são indicações da grande vitalidade do seu pensamento.
Tal projeção confere ao conjunto de suas produções, o caráter de uma obra universal (Saul; Silva, 2011, p. 1).
No Brasil, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) tornou-se um importante centro de estudos e difusão de suas ideias, especialmente com a criação, no 2º semestre de 1998, da Cátedra Paulo Freire, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo. Este espaço acadêmico, coordenado por mim, promove estudos e pesquisas voltados à compreensão e recriação do pensamento freireano em contextos contemporâneos.
Seis livros já foram produzidos pela Cátedra Paulo Freire da PUC-SP, com a colaboração de professores e alunos. Esses livros foram reeditados e estão presentes nas bibliotecas de escolas públicas, além de serem frequentemente incluídos na bibliografia de concursos para educadores. É importante ressaltar que o livro Paulo Freire e a formação de educadores - múltiplos olhares foi lançado também no México e na Espanha.
Muitos estudos acadêmicos têm se baseado no pensamento de Paulo Freire. O portal da Capes lista aproximadamente 2000 dissertações e teses que utilizaram o referencial freireano em suas pesquisas. Dessas produções, 75% pertencem ao campo das Ciências Humanas, com um foco maior em Educação.
Estudos recentes mostram um aumento no interesse em analisar e investigar a obra de Freire em diversos contextos e regiões. Oliveira e Santos (2018) indicam que existem Institutos, Grupos de Pesquisa e Cátedras Paulo Freire em vários países da América Latina, com a maior parte deles localizada no Brasil. Além da América Latina, registram-se Cátedras e Institutos dedicados ao estudo do pensamento de Paulo Freire, em nações europeias e nos Estados Unidos.
No estudo recente de Paulo e Tessaro (2022), foram identificados 46 grupos de pesquisa, registrados no Diretório de Pesquisa do CNPq, localizados por meio da palavra-chave "Paulo Freire". Em relação às Cátedras, elas têm sido vistas como locais privilegiados para a pesquisa e a reinvenção do legado do educador recifense. Nesses contextos, é esperado que os conceitos da obra freireana sejam entendidos nas dimensões teórico-práticas e ético-políticas, em conexão com questões atuais, oferecendo suporte para a análise crítica de diversas realidades, com a intenção de transformá-las.
Quatro edições da pesquisa Paulo Freire na atualidade, foram desenvolvidas no âmbito da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP. Essa pesquisa incluiu mestrandos e doutorandos e, por ser uma pesquisa em rede, contou com uma equipe de 28 professores-pesquisadores de 20 universidades brasileiras, sediadas em 12 estados da federação. Essas edições foram apoiadas pelo CNPq, o que permitiu promover intercâmbio nacional e internacional, e gerar publicações de artigos e livros. Atualmente, um novo projeto de pesquisa, sediado na Cátedra segue vigente, aprovado no Edital de Bolsa de Produtividade Acadêmica do CNPq, coordenado por mim. Essa nova pesquisa, intitulada Paulo Freire hoje: currículo e formação de educadores em Cátedras e Grupos de Pesquisa, planejada para o período de três anos, foi iniciada em agosto de 2025.
A relevância desta pesquisa em andamento situa-se no impacto transformador das ideias freireanas, que continuam a inspirar práticas pedagógicas e políticas educacionais em todo o mundo. Nesse sentido, investigar a atualidade e a reinvenção da obra de Freire nas Cátedras e Grupos de Pesquisa brasileiros e internacionais é compreender como princípios - como diálogo, conscientização e autonomia - respondem aos desafios da educação em tempos de crise democrática e de retrocessos sociais. A pesquisa busca identificar de que modo tais espaços contribuem para a consolidação de uma educação humanizadora, democrática e socialmente comprometida, articulando teoria, prática e ética no currículo e na formação docente.
4.1 Divulgação da Cátedra nas redes sociais
Criada em 11 de abril de 2015, a página do Facebook intitulada Rede Freireana de Pesquisadores, na categoria “Educação”, tem por objetivo divulgar eventos e produções acadêmicas sobre o pensamento de Paulo Freire e a influência de sua pedagogia na atualidade.
Trata-se de uma ação que envolve 4 administradores na página do Facebook da Rede Freireana de Pesquisadores com permissão para publicar conteúdo - com ética e responsabilidade - pertinente ao que se propõe à página em questão: divulgação de eventos e produções sobre e a partir do pensamento de Paulo Freire.
No ano de 2024, a página do Facebook da Rede Freireana de Pesquisadores registrou 15 publicações, das quais 14 fizeram referência à Cátedra Paulo Freire da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E, no ano de 2025, a mesma registrou um total de 14 publicações. Desse montante, 11 publicações fizeram menção à Cátedra Paulo Freire da PUC-SP.
Atualmente, a página conta com mais de mil seguidores, localizados nos seguintes países: Brasil (96%) e os demais 4% estão localizados em 09 países estrangeiros: Portugal, Estados Unidos da América do Norte, Argentina, Espanha, França, Itália, Moçambique, México e Chile. O alcance internacional da página do Facebook da Rede Freireana de Pesquisadores atinge a América, a Europa e a África.
Trata-se de uma página do Facebook acessada por mulheres (75,2%) acima de 18 anos. Já os homens que acessam a página perfazem 24,8% do total de seguidores, que se concentram na faixa de 35 e 54 anos.
Diante dos dados apresentados, a página da Rede Freireana de Pesquisadores mostra-se com potencial de alcance nacional e internacional na divulgação de eventos, trabalhos e pesquisas referenciadas na pedagogia de Paulo Freire.
Não estão incluídas, na página, as dissertações e teses defendidas com referenciais freireanos; essas podem ser encontradas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), mantida pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).
Complementarmente às ações de divulgação, foi criado um perfil no Instagram em junho de 2025, sob a identidade @alunos_catedrapaulofreirepucsp. O perfil, que é administrado, de forma autônoma, por discentes e egressos da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP, tem como objetivo divulgar momentos, eventos e produções acadêmicas. Até o dia 20 de outubro de 2025, o perfil contabilizava 22 publicações e 74 seguidores.
4.2 A presença da Cátedra em eventos, nos anos de 2024 e 2025
Em 2024, 12 alunos (mestrandos, doutorandos e pesquisadores de pós-doutorado) integrantes da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP submeteram trabalhos, todos aceitos, à Comissão Científica do XIII Seminário Paulo Freire/XI Encontro de Cátedras e Grupos Paulo Freire, na UFPE.
O evento reuniu pesquisadores, estudantes e educadores de todo o Brasil para aprofundar o debate sobre o legado do patrono da educação brasileira, Paulo Freire.
Os estudantes dos Programas de Pós-Graduação em Educação: Currículo (CED) e Mestrado em Educação: Formação de Formadores (FORMEP) da PUC-SP apresentaram pôsteres de suas pesquisas, contribuindo com debates sobre a educação emancipatória e o compromisso com a transformação social.
A presença ativa da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP nesse encontro reafirma o compromisso da Universidade com a formação de educadores críticos e com a construção de uma sociedade mais justa e democrática, baseada nos valores do diálogo e da humanização (Saul; Perugini, 2024, n.p.).
Também no ano de 2025, foram apresentados 10 trabalhos de participantes da Cátedra Paulo Freire da PUC-SP na 14ª edição do Seminário Paulo Freire e 12º Encontro de Cátedras e Grupos de Pesquisa, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
5 UMA PALAVRA FINAL
Carrego comigo, estimulados pelo Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, a responsabilidade e o gosto pelo trabalho na Pós-Graduação, no espaço da PUC de São Paulo e o compromisso de formar educadores-pesquisadores críticos, na sociedade brasileira. Estiveram sempre comigo, desenvolvidas, a partir desse Programa, a chama da criatividade, a ousadia, a crítica e, sobretudo, a rigorosidade na produção do conhecimento.
Atualmente, o Brasil vive um período de preocupação em relação aos ataques contra a democracia e a soberania nacional. Contudo, Freire nos convoca para enfrentamentos, destacando a importância da denúncia, da luta e da promoção de novos entendimentos. Assim, é necessário cultivar a esperança no potencial de socialização e na diversificação de processos educacionais que busquem a emancipação. Que a comunidade acadêmica da pós-graduação, que desempenha um papel fundamental na formação da história e da vida universitária, utilize sua capacidade de decisão para construir o futuro de seus cursos, unindo-se nas lutas por equidade, justiça social e melhores condições para ensino e pesquisa.














