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Revista e-Curriculum

On-line version ISSN 1809-3876

e-Curriculum vol.23  São Paulo  2025  Epub Feb 02, 2026

https://doi.org/10.23925/1809-3876.2025v23e74235 

Edição Comemorativa: 50 Anos do Programa Educação: Currículo (PUC-SP) e 20 Anos da Revista e-Curriculum

50 anos de Resistência (1975-2025)

50 years of Resistance (1975-2025)

50 años de Resistencia (1975-2025)

Ana Maria Sauli 
http://orcid.org/0000-0002-0114-444X

Antonio Chizzottiii 
http://orcid.org/0000-0002-2752-2330

Branca Jurema Ponceiii 
http://orcid.org/0000-0001-9959-2680

Wagner Barbosa de Lima Palanchiv 
http://orcid.org/0000-0001-9473-407X

Juliana Fonseca de Oliveira Neriv 
http://orcid.org/0000-0002-8104-2629

i Doutora em Educação, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora titular da PUC/SP, atuando nos Programas de Pós-Graduação em Educação: Currículo e no Mestrado Profissional: Formação de Formadores. Coordenadora da Cátedra Paulo Freire desta Instituição. E-mail: anasaul@uol.com.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-0114-444X.

ii Doutor em Educação. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação - Currículo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, SP. E-mail: anchizo@pucsp.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-2752-2330.

iii Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Programa de Estudos Pós-Graduação em Educação: Currículo. Líder do Grupo de Educação e Pesquisas em Justiça Curricular (GEPEJUC). E-mail: tresponces@gmail.com - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-9959-2680.

iv Pós-Doutor em Políticas Públicas e Desenvolvimento Curricular pela Unesp. Doutor e Mestre em Educação Matemática pela PUC-SP. Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC - SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). E-mail: wagnerpalanch@gmail.com - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-9473-407X.

v Pós-doutoranda em Educação na UFRGS. Professora do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo da PUC-SP e do Mestrado Profissional Práticas Docentes no Ensino Fundamental da Unimes. E-mail: projuliana@yahoo.com.br - ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-8104-2629.


Resumo

Os docentes que integram a Linha de Pesquisa Políticas públicas, reformas educacionais e curriculares são os autores do texto “50 anos de resistência (1975-2025)” que celebra este aniversário do Programa de Pós-Graduação em Educação Currículo da PUC-SP. O artigo destaca o papel histórico da primeira Linha de Pesquisa criada pelo Programa. Esta consolidou-se como núcleo crítico de investigação sobre questões estruturais das políticas públicas com foco no Estado, no currículo, em reformas educacionais e em práticas democráticas. Enfrentou e enfrenta a mercantilização da educação, o avanço das reformas neoliberais, a padronização curricular e, mais recentemente, o processo de plataformização do ensino. Sustentada pelo legado freireano, reafirma a educação como prática emancipadora, defendendo a autonomia docente, a justiça social e o currículo crítico. A agenda atual da Linha envolve fortalecer redes de pesquisa, analisar políticas contemporâneas e propor alternativas que preservem o caráter público, democrático e humanizador da educação.

Palavras-chave: políticas públicas de educação; reformas educacionais e curriculares; justiça social; currículo crítico emancipatório; pensamento de Paulo Freire

Abstract

The faculty members who constitute the Research Line Public Policies, Educational and Curricular Reforms are the authors of the article “50 Years of Resistance (1975-2025)”, which commemorates the anniversary of the Graduate Program in Education: Curriculum at PUC-SP. The article highlights the historical role of the first Research Line established by the Program. Over time, it has consolidated itself as a critical core of investigation into the structural issues of public policies, with a focus on the State, curriculum, educational reforms, and democratic practices. It has confronted-and continues to confront-the commodification of education, the advance of neoliberal reforms, curricular standardization, and, more recently, the process of platformization of education. Grounded in the Freirean legacy, the Research Line reaffirms education as an emancipatory practice, advocating for teacher autonomy, social justice, and a critical curriculum. Its current agenda involves strengthening research networks, analyzing contemporary policies, and proposing alternatives that preserve the public, democratic, and humanizing character of education.

Keywords: educational public policies; educational and curricular reforms; social justice; critical emancipatory curriculum; Paulo Freire’s thought

Resumen

Los docentes que integran la Línea de Investigación Políticas públicas, reformas educativas y curriculares son los autores del texto “50 años de resistencia (1975-2025)”, que conmemora este aniversario del Programa de Posgrado en Educación: Currículo de la PUC-SP. El artículo destaca el papel histórico de la primera Línea de Investigación creada por el Programa, la cual se ha consolidado como un núcleo crítico de indagación sobre las cuestiones estructurales de las políticas públicas, con énfasis en el Estado, el currículo, las reformas educativas y las prácticas democráticas. A lo largo de su trayectoria, ha enfrentado -y continúa enfrentando- la mercantilización de la educación, el avance de las reformas neoliberales, la estandarización curricular y, más recientemente, el proceso de plataformización de la enseñanza. Sustentada en el legado freireano, la Línea reafirma la educación como una práctica emancipadora, defendiendo la autonomía docente, la justicia social y el currículo crítico. Su agenda actual incluye el fortalecimiento de redes de investigación, el análisis de políticas contemporáneas y la formulación de alternativas que preserven el carácter público, democrático y humanizador de la educación.

Palabras clave: políticas públicas de educación; reformas educativas y curriculares; justicia social; currículo crítico emancipador; pensamiento de Paulo Freire

1 INTRODUÇÃO

Celebrar os cinquenta anos do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo (CED) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) é reconhecer uma trajetória marcada pelo compromisso ético, político e epistemológico com a educação pública, democrática e socialmente referenciada.

Criado em 1975, em um contexto de autoritarismo político e de censura intelectual, o Programa firmou-se como um espaço de resistência e de produção crítica do conhecimento educacional, especialmente no campo do currículo, da formação docente e das políticas públicas. Sua história entrelaça-se à própria consolidação da pós-graduação em Educação no Brasil, sendo referência pioneira não apenas por sua longevidade, mas pela densidade teórica e pelo engajamento social que caracterizam sua produção científica

Nesse contexto de meio século de existência, revisitar a trajetória da Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares significa recuperar uma dimensão central da história do Programa e de sua contribuição ao campo educacional brasileiro. Desde sua criação, essa Linha tem se configurado como um núcleo estratégico de investigação e intervenção crítica, voltado à análise das políticas públicas educacionais em suas múltiplas escalas - nacional, regional e local - e em suas intersecções com os processos de reforma curricular e de gestão democrática da educação.

Reunindo pesquisadoras e pesquisadores de diferentes gerações, a Linha consolidou um espaço de produção teórica que articula o legado freireano e as reflexões contemporâneas sobre o papel do Estado, do mercado e dos movimentos sociais na configuração das políticas educacionais.

A trajetória da Linha de Pesquisa é marcada por uma postura de resistência intelectual e política frente às tentativas de mercantilização da educação e de padronização curricular impostas por reformas neoliberais. Seus estudos contribuem para compreender as dinâmicas de disputa em torno do direito à educação, da valorização do magistério e da democratização das práticas pedagógicas, reconhecendo o currículo como espaço de poder, de cultura e de emancipação. Os trabalhos desenvolvidos têm produzido diagnósticos, análises e proposições que subsidiam políticas públicas mais justas e inclusivas, ao mesmo tempo em que formam pesquisadores comprometidos com a defesa da escola pública e com a construção de uma sociedade mais equitativa.

O presente artigo tem como objetivo dar visibilidade às contribuições científicas e políticas da Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares no âmbito dos cinquenta anos do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP. Busca-se evidenciar a relevância das investigações realizadas por esse coletivo acadêmico na interpretação crítica das reformas e políticas educacionais brasileiras, bem como refletir sobre os desafios contemporâneos que se colocam para o campo da Educação.

2 PERCURSO HISTÓRICO E FUNDAMENTOS TEÓRICO-POLÍTICOS DA LINHA

Ao revisitar a trajetória do Programa, pretende-se destacar o papel da Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares na consolidação de uma perspectiva teórica e metodológica comprometida com a justiça social, com a formação crítica de educadores e com a defesa de um currículo emancipador. Foi a primeira Linha do Programa.

Em tempos de incerteza e de ataques à educação pública, revisitar essa história é também afirmar a potência transformadora da universidade e do conhecimento crítico como práticas de resistência e esperança.

Essa Linha integra o movimento histórico de consolidação de uma perspectiva crítica e comprometida com a transformação social da educação brasileira. Ela nasce e se fortalece no seio de um Programa que, desde sua criação em 1975, firmou-se como espaço de resistência intelectual durante o regime militar, reunindo pesquisadoras e pesquisadores que buscavam compreender o currículo e as políticas educacionais não como instrumentos neutros, mas como campos de disputa e de poder. Sua constituição está intrinsecamente vinculada à própria história da educação crítica no Brasil e ao papel pioneiro da PUC-SP na construção de um pensamento educacional engajado, ético e politicamente orientado.

Na década de 1990, aquela que foi a primeira Linha de CED consolida-se como um dos eixos estruturantes do próprio Programa em um contexto de redemocratização do Brasil e de ampliação dos debates sobre o papel do Estado, da escola e do currículo na formação cidadã.

Foi nesse período que se intensificaram as pesquisas voltadas à análise das políticas públicas e das reformas educacionais implementadas pelos poderes públicos, especialmente aquelas ligadas à descentralização, à gestão democrática, à autonomia escolar e à elaboração de diretrizes curriculares nacionais.

Inspirada pelos princípios da pedagogia freireana e pelas abordagens críticas do currículo, a linha assumiu o desafio de articular teoria e prática, reflexão e intervenção, promovendo um diálogo permanente entre universidade, escola e sociedade civil.

O compromisso com uma concepção de currículo crítico, participativo e emancipador constitui o núcleo teórico-político da Linha. Entende-se o currículo como uma construção histórica e cultural, atravessada por relações de poder e por disputas em torno do conhecimento socialmente legítimo. Nessa perspectiva, educar é um ato político, e o currículo não pode ser reduzido a um conjunto de conteúdo ou a prescrições técnicas. Ele é, antes, um espaço de diálogo, de problematização e de construção coletiva do saber.

A Linha, portanto, defende uma visão de currículo que reconhece os sujeitos - professores, estudantes e comunidades - como protagonistas do processo educativo, valorizando suas experiências, linguagens, saberes e culturas.

Esse compromisso ético e democrático orienta a atuação da Linha em diferentes dimensões. Do ponto de vista teórico, seus estudos dialogam com as correntes críticas da sociologia e da filosofia da educação, incorporando contribuições de autores como Michael Apple, Wayne Au e Luís Armando Gandin (2011, 2024), Henry Giroux (1986), Antonio Nóvoa (2023), Carlos Alberto Torres (2014), Cristian Laval (2019), Juan Carlos Tedesco (2012), Stephen Ball e Jefferson Mainardes (2024), Gaudêncio Frigotto (1995), Gimeno Sacristán (2013), Luiz Carlos de Freitas (2009), entre outros, sem perder de vista a centralidade do pensamento freireano.

Politicamente, a Linha tem se posicionado de forma vigilante e propositiva diante das reformas educacionais que, em muitos momentos da história recente, buscaram subordinar a educação a lógicas de mercado, a políticas de avaliação padronizada e a currículos prescritos de forma vertical.

Ao articular o estudo das políticas públicas educacionais com a análise das reformas curriculares, a linha constrói um campo de investigação atento às contradições e disputas políticas que atravessam o sistema educacional brasileiro. Seus pesquisadores e pesquisadoras analisam criticamente as relações entre Estado, sociedade e educação, problematizando a tensão entre políticas de controle e projetos emancipatórios. Esse olhar crítico tem permitido compreender como as políticas curriculares, muitas vezes apresentadas sob o discurso da inovação e da qualidade, podem também reforçar desigualdades, homogeneizar saberes e silenciar vozes historicamente marginalizadas.

Ao mesmo tempo, a Linha tem buscado identificar e valorizar experiências contra-hegemônicas, práticas pedagógicas e políticas públicas que afirmam o direito à educação de qualidade social, inclusiva e transformadora. As pesquisas desenvolvidas nesse espaço teórico-político assumem a educação como campo de disputa simbólica e material, em que se confrontam projetos societários distintos: de um lado, os que reduzem o conhecimento e o currículo a instrumentos de adaptação ao mercado; de outro, aqueles que os compreendem como práticas de libertação e de construção da cidadania crítica.

Nas duas últimas décadas, a Linha Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares ampliou seu escopo de atuação, acompanhando as transformações sociais, políticas e culturais do país e respondendo a novos desafios postos à educação pública. As discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), as reformas do Ensino Médio, as políticas de avaliação em larga escala e os impactos da globalização neoliberal tornaram-se objetos de estudo centrais, analisados sempre a partir de uma perspectiva crítica e contextualizada.

A Linha tem dialogado com temas emergentes, como a diversidade cultural, a inclusão, as epistemologias do Sul e as políticas de formação docente, reafirmando o compromisso com uma educação plural, democrática e socialmente justa.

Assim, o percurso histórico da Linha revela um compromisso contínuo com a produção de conhecimento crítico e com a defesa de políticas públicas comprometidas com a equidade, a justiça social e a emancipação humana. Mais do que um espaço acadêmico, essa Linha se configura como um coletivo político e ético que, ao longo de cinco décadas, tem contribuído para a construção de uma educação capaz de questionar as estruturas de dominação e de afirmar o direito de todos e todas à aprendizagem e à dignidade.

No marco dos cinquenta anos do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, a Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares reafirma sua missão de pensar criticamente o presente e de projetar, pela via da educação, horizontes de esperança e de transformação social na direção de um mundo mais justo, igualitário e feliz.

3 DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS E AGENDA POLÍTICO-CIENTÍFICA DA LINHA

Nas duas primeiras décadas do século XXI, o campo educacional brasileiro tem sido profundamente impactado por processos de reconfiguração política e econômica que alteram o papel do Estado, a natureza das políticas públicas e o sentido social da educação.

As reformas de orientação neoliberal, a plataformização e a financeirização do ensino vêm produzindo um cenário de precarização, controle e mercantilização da escola pública, impondo novos desafios à reflexão crítica e ao compromisso político da Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP.

As políticas neoliberais - sustentadas pelo ideário da eficiência, da competitividade e da responsabilização individual - têm promovido a erosão de concepções democráticas de educação. A lógica empresarial aplicada ao campo educacional reduz o “currículo” a indicadores de desempenho e a competências mensuráveis, distorcendo as dimensões ética, política e cultural da formação humana. Sob o discurso da “modernização” e da “inovação”, multiplicam-se dispositivos de controle, avaliação padronizada e ranqueamento das escolas, intensificando desigualdades e fragmentando o trabalho docente. Essa tendência, marcada pela substituição de políticas públicas estruturantes por programas gerenciais de curto prazo, desafia a Linha a aprofundar análises que revelem os mecanismos de poder e exclusão subjacentes a essas reformas.

Um fenômeno particularmente preocupante é o da plataformização da educação, que transforma o processo educativo em mercadoria digitalizada. Grandes conglomerados tecnológicos e financeiros passaram a disputar o campo educacional, mediando a aprendizagem por meio de plataformas privadas que coletam, processam e comercializam dados de estudantes e professores. Essa lógica de vigilância e controle, travestida de inovação pedagógica, reconfigura as relações de ensino-aprendizagem, fragiliza a autonomia docente e transfere a centralidade do currículo para algoritmos e métricas de desempenho. A financeirização da educação, por sua vez, consolida a presença de fundos de investimento e empresas multinacionais que exploram o ensino como nicho de rentabilidade, substituindo o direito à educação por um modelo de “consumo educacional”.

Diante desse cenário, torna-se urgente o fortalecimento de uma agenda político-científica que reafirme a educação como bem público, direito social e prática emancipadora. A Linha de Pesquisa de Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares tem o desafio de aprofundar estudos que articulem as dimensões estruturais das políticas públicas às práticas curriculares concretas, evidenciando como as desigualdades sociais, raciais, linguísticas e territoriais se expressam e se reproduzem nas escolas. Essa articulação entre política e currículo é fundamental para compreender e enfrentar as múltiplas formas de violência simbólica, exclusão e retrocesso democrático que se intensificam no presente.

O avanço de discursos autoritários, negacionistas e conservadores sobre a educação - que questionam o pensamento crítico, o pluralismo e os direitos humanos - tem colocado em risco conquistas históricas da democracia brasileira. Frente a esse contexto, a Linha assume o compromisso de sustentar e reinventar os princípios freireanos que a inspiram desde sua constituição: o diálogo, a conscientização, a esperança, a práxis e a humanização. Reafirmar o legado de Paulo Freire hoje é, mais do que nunca, um ato de resistência política e epistemológica. É recusar a educação bancária e tecnocrática que se pretende impor e defender a escola como espaço de produção de sentido, de cultura e de libertação.

A reinvenção do legado freireano implica reinterpretar seus fundamentos à luz dos desafios contemporâneos. Em tempos de desinformação e intolerância, o diálogo crítico e amoroso proposto por Freire torna-se um instrumento potente de reconstrução democrática. Em um mundo marcado pela interconectividade digital e pela desigualdade informacional, é necessário reinventar práticas pedagógicas que resgatem a dimensão coletiva e ética da aprendizagem, combatendo a desumanização promovida pela cultura algorítmica.

A Linha de Pesquisa de Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares propõe-se a estudar como políticas públicas podem contrapor-se às tendências de controle e padronização, de modo a promover um currículo vivo, inclusivo e plural, que acolha as diversidades e fortaleça a autonomia das escolas e dos sujeitos.

Outro eixo central da agenda político-científica da Linha consiste no fortalecimento de redes de pesquisa e de interlocuções nacionais e internacionais. É preciso ampliar ainda mais os espaços de diálogo com outros programas de pós-graduação, universidades públicas e movimentos sociais, produzindo conhecimento colaborativo e socialmente referenciado. Essa ampliação não se limita à academia: trata-se de incidir efetivamente nas políticas públicas, subsidiando gestores, professores e comunidades com análises críticas e proposições que orientem práticas mais democráticas e equitativas.

O compromisso ético da Linha é o de não se encerrar em debates teóricos, mas contribuir para a transformação concreta das políticas e práticas educacionais.

A consolidação de grupos de pesquisa vinculados à Linha, com temas como currículo e democracia, políticas de formação docente, gestão escolar participativa e inclusão educacional, justiça curricular, tem permitido a construção de uma base sólida de conhecimento crítico. Contudo, diante das novas configurações da política educacional brasileira, torna-se indispensável fortalecer e expandir esses grupos, diversificando os objetos de estudo e incorporando metodologias que deem conta das complexidades contemporâneas. A análise crítica das reformas do Ensino Médio, da BNCC, dos programas de avaliação e das políticas de educação digital deve permanecer no centro das preocupações, sem perder de vista o horizonte de uma educação emancipadora.

Assim, a agenda política e científica da Linha para os próximos anos buscará combinar rigor teórico com compromisso ético-político. É preciso continuar desvelando as relações entre poder, saber e currículo, analisando como a racionalidade neoliberal tem reconfigurado subjetividades e práticas escolares. Igualmente necessário é construir alternativas - propor políticas e práticas de resistência que devolvam à educação seu sentido humano, dialógico e socialmente comprometido. A Linha reafirma a convicção de que abraça a famosa mensagem de Freire (1987), na obra Pedagogia do Oprimido - “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão” (p. 52). A produção de conhecimento é aqui tomada como coletiva, solidária e comprometida com a justiça social e curricular.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo dos anos, a Linha de Pesquisa Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares firmou-se como um espaço de produção crítica e de resistência ética no interior do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP. Sua trajetória testemunha o compromisso de gerações de pesquisadoras e pesquisadores que, na esteira do pensamento crítico, têm se dedicado a compreender e transformar a realidade educacional brasileira. Mais do que um núcleo de investigação acadêmica, a Linha constitui-se como uma comunidade política de saber, voltada à defesa intransigente da educação pública, da democracia e da dignidade humana.

Em um contexto de crescente mercantilização e padronização do ensino, a relevância da Linha torna-se ainda mais evidente. Seu papel ultrapassa a produção de conhecimento: ela é, sobretudo, um espaço de afirmação de princípios, de resistência pedagógica e de esperança ativa. Ao sustentar o diálogo entre políticas públicas e currículo, a Linha reafirma a necessidade de uma educação que reconheça a diversidade, que promova a equidade e que forme sujeitos críticos e solidários.

As considerações aqui apresentadas são também um chamado à comunidade acadêmica e educacional para que siga investindo em pesquisas críticas sobre políticas e reformas curriculares. É urgente garantir a continuidade e o fortalecimento das tradições teóricas que orientam o Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, assegurando a defesa do pensamento freireano como referência ética e política. O compromisso histórico do Programa com a justiça social e curricular exige o engajamento coletivo na luta por políticas públicas democráticas e pela reinvenção constante do sentido público da educação.

Reafirmar o legado da linha é, portanto, afirmar a necessidade de uma ciência comprometida com a vida, com a liberdade e com a humanização. Em meio aos desafios contemporâneos, a Linha Políticas Públicas e Reformas Educacionais e Curriculares continua a exercer seu papel como farol crítico e ético, mantendo viva a convicção de que educar é um ato de esperança e de transformação. Como ensinou Paulo Freire: é preciso unir a denúncia da realidade desumanizadora ao anúncio de uma realidade nova. Essa é, em última instância, a missão que tem orientado - e continuará orientando - o percurso histórico, teórico e político dessa Linha de Pesquisa, no presente e para o futuro da educação brasileira.

Os atuais docentes-pesquisadores da Linha são: a Profa. Dra. Ana Maria Saul; o Prof. Dr. Antonio Chizzotti; a Profa. Dra. Branca Jurema Ponce; o Prof. Dr. Wagner Barbosa de Lima Palanch e a Profa. Dra. Juliana Fonseca de Oliveira Neri.

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Recebido: 03 de Dezembro de 2025; Aceito: 04 de Dezembro de 2025; Publicado: 29 de Dezembro de 2025

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