1 INTRODUÇÃO
O Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP iniciou suas atividades em 1975, com o Mestrado, e o Doutorado, em 1990. Desta forma, são 50 anos de história (Portal do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, 2025).
Participei um pouco desta história. Quando eu fiz meu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no período de 1998 a 2002, a escolha deste Programa foi justamente pelo fato de Paulo Freire ter sido professor e pesquisador neste Programa de 1980 a 1997, durante 17 anos, e o Programa manter vivo o pensamento freireano, seja por meio de disciplinas, pelas práticas dos docentes e, principalmente, por meio da Cátedra Paulo Freire, criada em 1998 e implementada em 1999, a qual constitui um espaço de estudos e pesquisas sobre o pensamento educacional de Paulo Freire.
Como doutoranda do Programa de Pós-Graduação, participei da disciplina da Cátedra Paulo Freire, que se apresentava no componente curricular como disciplina optativa, em dois períodos: no segundo semestre de 1998, ministrada pela professora Ana Maria Freire; e no primeiro semestre de 1999, pelo professor Miguel Arroyo. Na Cátedra, aprofundei os estudos freireanos e publiquei em livros alguns destes estudos. Além da Cátedra, Freire sempre se fez presente em debate de questões educacionais nas disciplinas, o que me oportunizou dialogar com a ética de Freire e a ética da libertação de Enrique Dussel, bem como aprofundar este diálogo por meio do doutorado sanduíche, no México, com o filósofo Enrique Dussel e, sobretudo, na minha tese. Destaco, ainda, a Rede Freireana de Pesquisadores criada pela professora Ana Saul, que tem um vínculo com a Cátedra Paulo Freire, que vem mantendo o legado Paulo Freire por meio de pesquisas com pesquisadores de diferentes regiões do país, incluindo assessoria internacional.
É importante ressaltar que a Revista e-Curriculum foi criada em 2005 e apresenta como escopo:
estimular a publicação, difundir estudos e pesquisas e elevar a qualidade da produção científica na área da educação, nos âmbitos nacional e internacional, com uma perspectiva crítica e emancipatória, comprometida com a superação de todo tipo de desigualdade e opressão, com particular interesse na subárea de Currículo (Portal da Revista e-Curriculum, 2025).
Em seu escopo, é destacado o princípio de uma educação crítica e emancipatória e engajada politicamente com a superação das desigualdades e opressões sociais. E, ao referendar a concepção crítica, evidencia estar alinhada ao legado freireano do Programa.
Neste artigo, o objetivo é analisar a contribuição do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) para os estudos freireanos.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, contendo levantamento, no portal do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, de informações sobre o Programa; e, no portal de Revista da PUC-SP, sobre as produções referentes ao pensamento educacional de Paulo Freire na e-Curriculum. O estudo conta, ainda, com narrativas autobiográficas na minha vivência como doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação: currículo da PUC-SP, tendo por base registros de aulas, relatórios, plano de ensino, entre outros.
O artigo está estruturado em três seções: na primeira, a introdução, apresento o objetivo e a metodologia do estudo; na segunda, teço algumas reflexões sobre o Programa de Pós-Graduação em Educação: currículo e o seu legado Freireano; na terceira, identifico a presença de Paulo Freire nas produções da Revista e-Curriculum e, na quarta, elaboro as minhas considerações finais sobre o estudo realizado.
2 O PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: CURRÍCULO E O LEGADO FREIREANO
Uma das principais ações do legado freireano no Programa de Pós-Graduação em Educação: currículo da PUC-SP foi a criação da Cátedra Paulo Freire; e tive a oportunidade e a alegria de participar de suas atividades iniciais, no ano de 1998, momento em que a professora Ana Maria Freire foi convidada para ministrar a disciplina. E, no ano seguinte, houve a participação do professor Miguel Arroyo.
A professora Ana Saul explica em relação à criação da Cátedra Paulo Freire:
A Cátedra vem sendo compreendida como um espaço singular para o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre e a partir da obra de Paulo Freire, focalizando as suas repercussões teóricas e práticas na Educação e a sua potencialidade de fecundar novos pensamentos. Os estudos sobre Paulo Freire, nesse espaço, visam a estudar criticamente o seu pensamento para compreendê-lo e reinventá-lo. Reinventar o legado freireano significa, na Cátedra Paulo Freire, fazer uma releitura crítica da obra do autor cuidando, no entanto, de não descaracterizar as suas propostas fundamentais, tendo em vista discuti-las frente aos novos desafios do mundo atual. E, sobretudo, construir e sistematizar uma práxis coerente com os princípios fundamentais da obra freireana (Saul, 2012, p. 4-5).
No ano de 1998, o tema foi “Paulo Freire: 30 anos da Pedagogia do Oprimido”. A disciplina realizou estudos dos livros Pedagogia do Oprimido, Educação como Prática de Liberdade e Pedagogia da Esperança, viabilizando o debate de algumas categorias Freireanas, entre as quais o diálogo, a problematização, o inédito viável e o esperançar, entre outras, bem como esclareceu algumas questões em torno do pensamento de Paulo Freire, como a alfabetização, tendo sido trabalhada no desenvolvimento da disciplina uma abordagem histórica.
Ana Maria Freire, ao debater a alfabetização no Brasil, ressalta sobre o Relatório do II Congresso Nacional, escrito por Paulo Freire, em julho 1958:
No relatório ele começa a contextualizar a necessidade de uma análise da educação voltada para a realidade regional, a questão importante é o resgate do ser humano inserido no mundo como corpo consciente, a dialogicidade também está presente. Aponta uma educação voltada para o trabalho que leve a uma reflexão crítica, no sentido de uma educação voltada para esse contexto de mudança. Educação numa perspectiva de criticidade. Fala da educação de adultos (o Congresso era de educação de adultos) que não pode ser reduzido a um simples trabalho de alfabetização ou de suplementação; ele começa a falar de um trabalho não “para” o povo, mas “com” o povo. Critica o assistencialismo que era característico da educação de adultos. Ele começa apontar uma nova concepção de educação. A visão humanista e de educação participativa. Já aflora os principais conceitos: conscientização, dialogação, colaboração, decisão, debate, contexto, análise da realidade, diálogo (que ele chamava no momento de dialogação). Tem alguns termos que a gente vê “disposições mentais”, depois “socialidade”, tem alguns termos que a gente não usa mais hoje, mas a gente sabe que estão presentes hoje (Ana Freire, Cátedra Paulo Freire - Aula 17/08/98).
A culminância desta disciplina foi a minha participação na organização do livro “A Pedagogia da Libertação em Paulo Freire” com a professora Ana Maria Freire, contendo os trabalhos realizados no primeiro curso da Cátedra Paulo Freire, incluindo meu intitulado “A experiência educativa popular Freireana do PROALTO”. Livro que foi publicado pela UNESP, em 2001.
Em 1999, o tema foi “Paulo Freire: as matrizes pedagógicas contemporâneas, história e processo”. Miguel Arroyo trouxe para reflexão a humanização na educação de Paulo Freire, apontando questões existenciais no campo educacional. Trabalhou com as matrizes do pensamento pedagógico freireano, tendo como foco a pessoa e sua condição humana, nas dimensões éticas e políticas, bem como o currículo na perspectiva de Paulo Freire.
Na reflexão sobre a humanização na pedagogia freireana, Arroyo questiona:
Mas por que Paulo nunca perdeu a esperança? Porque sempre colocou no centro educativo os sujeitos. Se você olha as estruturas de poder, econômicas, inclusive as ideologias, que muitas vezes são objetivadas como se fossem estruturas. O Neoliberalismo. O que resta? Só quando se percebe que isso faz parte do processo educativo. Mas não anulam, por mais drásticas e alienantes que seja e essa é a crença de Paulo, que por mais alienantes que sejam as estruturas não conseguem eliminar as virtualidades dos sujeitos. Por quê? Porque Paulo entende que todo processo educativo é processo de pessoas e dá para se acreditar nelas, por isso se acredita no ato educativo (Cátedra Paulo Freire - Aula de 25/03/99).
A Cátedra, após a participação destes dois educadores externos à PUC-SP, passou a ser coordenada pela professora Ana Saul, que além de ministrar a disciplina, vem realizando seminários denominados de “Diálogos na Cátedra Paulo Freire”, trazendo tantos convidados docentes externos à PUC/SP, assim como ampliou o acesso a estudantes de toda a Universidade, com vistas a ampliar o conhecimento do pensamento educacional de Paulo Freire (Portal Cátedra Paulo Freire, 2025).
Pela minha participação na Cátedra Paulo Freire, a professora Ana Saul me convidou a escrever um artigo, intitulado “O ato de perguntar na pedagogia freireana”, que foi publicado no livro “Paulo Freire e a formação de educadores: múltiplos olhares”, pela editora Articulação Universidade/Escola, organizado por ela, em 2000.
Destaco entre as disciplinas, Currículo, Moral e Ética, ministrada pelo professor Alípio Casali, e Multiculturalismo e Interculturalismo, ministrada pelos professores Alípio Casali e Mário Sérgio Cortella, por meio das quais a turma teve acesso à ética da libertação de Enrique Dussel e ao diálogo com a ética de Paulo Freire no campo educacional, bem como se realizaram estudos sobre a educação multicultural e a ética nos Parâmetros Curriculares. Debates que me motivaram a incluir em minha tese a questão da ética, tendo por referência Enrique Dussel em diálogo com a educação de Paulo Freire.
Na minha tese, intitulada “Saberes, representações e imaginários na construção do saber-fazer educativo de professores/as da educação especial”, orientada pelo professor Alípio Casali, debato, entre outras questões, a Ética da Libertação e a problemática da “diferença” e da exclusão social das pessoas com necessidades especiais, constituindo a arquitetônica da Ética de Dussel o arcabouço de organização da tese. No desenvolvimento da tese, dialogo com a educação de Paulo Freire tanto em aspectos epistemológicos quanto éticos e humanizadores. A tese foi publicada parcialmente no livro “Saberes, imaginários e representações na educação especial: a problemática ética da «diferença» e da exclusão social”, pela editora Vozes, em 2004.
Após o término do doutorado, ingressei, em 2011, na Rede Freireana de Pesquisadores, a convite da professora Ana Saul, que coordena a Rede e que faz parte do movimento do Programa para manter a memória de Paulo Freire.
Na carta-convite enviada aos pesquisadores, a professora Ana Saul (2011, p. 1) informa a aprovação, no CNPq, da pesquisa cujo objetivo é analisar a presença de Paulo Freire em redes públicas de ensino no Brasil e expressa a intenção de investigar e reinventar o legado freireano:
Meus amigos, agora podemos partir da intenção, para a ação! Reitero e formalizo aqui o meu convite a vocês para integrar essa pesquisa e, desde já, lhes agradeço pelo empenho em concretizar, coletivamente, o sonho de construção de uma rede de pesquisadores com a intenção de investigar a reinvenção do legado freireano, na educação pública. Poderemos, assim, subsidiar gestores públicos para o desenvolvimento de uma educação com qualidade social, pautada em princípios crítico-emancipatórios.
Essa Rede envolve pesquisadores de diferentes regiões do Brasil e vem realizando estudos sobre a presença de Paulo Freire nas redes públicas e nas políticas e práticas educacionais na atualidade, por meio dos seguintes projetos: “o pensamento de Paulo Freire na educação brasileira: análise de sistemas públicos de ensino a partir da década de 90” (2011-2012); “Paulo Freire na atualidade: legado e reinvenção - análise de sistemas públicos de educação a partir dos anos 1990” (2012-2016); e “o pensamento de Paulo Freire na atualidade: análise de políticas e práticas” (2017-atual).
A intenção em realizar essas pesquisas, conforme a professora Ana Saul (2011), é adensar a massa crítica de informações sobre a influência e reinvenção do pensamento de Paulo Freire, com vistas a subsidiar a criação/recriação de políticas e práticas educativas, nos sistemas de ensino, em especial ao currículo, na perspectiva crítico-emancipadora. Pesquisas, cujos resultados viabilizam a realização de eventos e publicações.
Assim, a Cátedra Paulo Freire, a Rede de Pesquisadores freireanos e as disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Educação: currículo não só vem mantendo o legado de Paulo Freire como contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas no âmbito do mestrado e doutorado que trabalhem o pensamento educacional de Paulo Freire, debatendo temas de relevância socioeducacional e abrindo diálogo com outros autores, como Dussel. Além disso, o Programa contribuiu para que eu fizesse um doutorado sanduíche no México, aprofundando a sua ética da libertação.
O Programa, então, vem mantendo princípios e práticas freireanas, mantendo vivo o pensamento de Paulo Freire, bem como debatendo questões contemporâneas, aprofundando estudos e teóricos que contribuem com a consolidação da pedagogia crítica e humanista defendida por Paulo Freire.
3 A PRESENÇA DE PAULO FREIRE NAS PRODUÇÕES DA REVISTA e-CURRICULUM
A Revista e-Curriculum, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, também vem contribuindo para manter o legado do pensamento de Paulo Freire.
Para identificar essa contribuição, realizei estudo das produções freireanas publicadas na Revista e-Curriculum, analisando os artigos sobre a educação de Paulo Freire publicados no período de 2007 a 2025, visando a identificar os anos de maior produção; as instituições dos pesquisadores, suas regiões e nacionalidades e as temáticas da educação freireana.
No levantamento dos artigos sobre a educação de Paulo Freire, utilizei, inicialmente, dois descritores: educação freireana e Paulo Freire. Com o primeiro, não foi constatada nenhuma produção; porém, com o segundo, foram detectados cerca de 78 artigos, dos quais, depois de serem avaliados o título, resumo e palavras-chave, foram selecionados 73, que continham indicadores de terem temáticas freireanas no título ou mencionassem no resumo e nas palavras-chave o nome de Paulo Freire.
O levantamento das produções apontou a existência de estudos freireanos de 2007 a 2025, sendo que os anos de 2018, 2016 e 2011 foram os que tiveram o maior número de produção. É importante destacar que, em 2018, foi realizado dossiê sobre os 50 anos da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire; e, em 2011, publicada uma edição especial de aniversário de Paulo Freire, o que justifica o número significativo de artigos nestes anos. Alguns anos não tiveram artigos freireanos publicados: 2015, 2010 e 2009, conforme o tabela 1, a seguir.
Tabela 1 Quantidade de artigos freireanos por ano
| Ano | Quantidade |
|---|---|
| 2025 | 01 |
| 2024 | 02 |
| 2023 | 02 |
| 2022 | 01 |
| 2021 | 03 |
| 2020 | 01 |
| 2019 | 03 |
| 2018 | 18 |
| 2017 | 04 |
| 2016 | 14 |
| 2014 | 05 |
| 2013 | 02 |
| 2012 | 03 |
| 2011 | 12 |
| 2008 | 01 |
| 2007 | 01 |
Fonte: Portal de Revistas da PUC-SP. Elaboração da autora, 2025.
Os/as autores/as que pesquisam sobre o pensamento educacional de Paulo Freire são oriundos/as, em sua maioria, de universidades públicas, tendo sido identificadas na Região Norte 04 (quatro) universidades: Universidade do Estado do Pará - UEPA; Universidade do Estado do Amazonas - UEA; Universidade Federal do Amazonas - UFAM e Universidade Federal do Pará - UFPA.
No Nordeste, foram encontradas 10 (dez) Universidades, o Instituto Federal do Sertão Pernambucano e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC-PE. As Universidades são: Universidade Federal da Bahia (UFBA); Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC); Universidade Federal de Alagoas (UFAL); Universidade de Pernambuco (UPE); Universidade Federal de Sergipe (UFS); Universidade Estadual do Ceará (UECE); Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); Universidade Para Todos (UPT) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Do Centro-Oeste, foram levantadas apenas duas universidades: Universidade Católica Dom Bosco - UCDB e Universidade Federal de Goiás - UFG.
Do Sudeste, os/as autores/as fazem parte de 13 Universidades: Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO); Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR); Universidade Brasil (UB); Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RIO); Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Universidade Católica de Santos (UNISANTOS); Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG); Universidade Estácio de Sá (UNESA); Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Paulo Freire (IPF), Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ e Colégio Liceu Santista.
Em relação à Região Sul, foram encontradas 12 (doze) Universidades: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC); Universidade Federal da Pampa (UNIPAMPA); Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Universidade Federal do Rio Grande (FURG); Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade Federal de Pelotas (UFPel); Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó); Universidade de Taubaté (UNITAU); Centro Universitário La Salle (UNILASALLE) e a Rede de Ensino Básico do Rio Grande do Sul.
Identifiquei, ainda, a publicação de pesquisadores de 04 (quatro) universidades internacionais, sendo duas de Portugal: Universidade do Minho e Universidade de Coimbra; e duas dos Estados Unidos: McMaster University e University of Wisconsin; e do Conselho de Educação de Adultos da América Latina (CEAAL)
Desta forma, temos autores/as de 47 instituições brasileiras e de 05 internacionais publicando na e-Curriculum. Há, portanto, representatividade de todas as regiões do país, porém o maior número de universidade está nas regiões Sudeste e Sul, seguida do Nordeste e Norte. O menor número é do Centro-Oeste.
Em relação aos 73 estudos sobre o pensamento educacional de Paulo Freire, categorizei 07 (sete) temáticas, conforme o quadro 1, a seguir.
Quadro 1 Temáticas do pensamento educacional de Paulo Freire
| Temáticas do pensamento educacional de Paulo Freire | Nº artigos |
|---|---|
| Políticas, teorias e práticas educacionais freireanas | 19 |
| Currículo | 17 |
| História de vida e obras de Paulo Freire | 13 |
| Campo conceitual freireano | 08 |
| Educação popular freireana | 07 |
| Fundamentos teórico-metodológicos freireanos da pesquisa e da educação | 06 |
| Paulo Freire em diálogo com intelectuais | 03 |
Fonte: Elaboração da autora, 2025.
O que essas temáticas apontam sobre os estudos freireanos?
a) Currículo
Em torno do currículo, os debates de 17 (dezessete) artigos centram em questões que perpassam por categorias freireanas, como a Interdisciplinaridade e o diálogo, bem como movimentos e práticas curriculares.
Silva e Carvalho (2024) analisam o lugar que a interdisciplinaridade ocupa no pensamento freireano e as relações que existem entre a concepção libertadora de Paulo Freire e as categorias de interdisciplinaridade, organizadas por Ivani Fazenda. Trazem para reflexão o currículo dialógico freireano como elemento essencial ao processo de humanização, que atrelado à interdisciplinaridade, contribui para a formação do pensamento crítico-reflexivo e para o processo de emancipação social-política-histórica-ética.
Hippler e Silva (2021) também trazem para estudo o diálogo freireano no currículo de Ciências proposto pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em 2019, buscando identificar se existe relação com a concepção adotada na gestão de Freire nesta mesma Secretaria, no período de 1989-1992.
Furlan e Silva (2017) utilizam o diálogo de Paulo Freire, a emancipação de Adorno e a ética de Dussel para compreender a concepção de educação que moldura a proposta curricular do Estado de São Paulo para o Ensino de Ciências e se ela está de acordo com princípios ético-críticos freireanos.
O movimento de reorientação curricular teve destaque em três artigos:
Valle e Santos (2018) debatem o Movimento de Reorientação Curricular proposto pelo educador Paulo Freire enquanto esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.
Dias e Oliveira (2014) estudam a reorientação curricular freireana na educação de jovens e adultos da Escola Cabana, na cidade de Belém-Pará.
Delizoicov, Mulinari e Delizoicov (2014) analisam dissertações sobre Movimentos de Reorientação Curricular (MRC) baseados na concepção freireana de educação e defendidas em programas de pós-graduação de universidades da Região Sul do Brasil.
Dois artigos chamam atenção para a relevância e o legado de Paulo Freire no campo curricular no Brasil e outro no âmbito internacional.
Zanardi e Ribeiro (2018) buscam explicar como se mantém vivo o legado de Paulo Freire no campo do currículo, tendo por base o levantamento da produção de artigos científicos sobre o currículo, no período de 2006-2016.
Saul (2016), por meio de pesquisa da Cátedra Paulo Freire da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), investiga a materialidade e a reinvenção do legado freireano, na atualidade brasileira, em espaços públicos de educação, tendo por base os eixos da pedagogia freireana que balizaram a política educacional da gestão Paulo Freire, em São Paulo (1989-1992), dentre os quais, o currículo.
Marcondes (2018) reflete sobre como Paulo Freire influenciou o contexto internacional nos estudos curriculares, pelo fato de a Pedagogia do Oprimido ter sido publicada em língua inglesa 50 anos atrás.
A concepção e as práticas curriculares também estão presentes nos estudos freireanos.
Saul e Saul (2018) apresentam reflexões críticas sobre o conceito de currículo, por meio de uma trama conceitual construída a partir de referenciais da Pedagogia do Oprimido, com vistas a contribuir ao ensino e a pesquisa, no campo curricular.
Saul e Silva (2014) trazem para reflexão a matriz de pensamento de Paulo Freire como um crivo de denúncia-anúncio de concepções e práticas curriculares. A denúncia é referente a saberes e práticas curriculares que emanam da tradição eurocêntrica e o anúncio na perspectiva de construção de um currículo crítico emancipatório freireano.
Zanardi (2013) discute práticas curriculares comprometidas com uma educação intercultural, relacionando a interculturalidade e a Pedagogia do Oprimido, por meio da exposição do cotidiano de uma escola fundamental da periferia de uma grande metrópole alemã.
Feldmann e Silva (2018) estudam alternativas curriculares para a formação de professores alfabetizadores de jovens, adultos e idosos, na diversidade étnica amazônica, tendo como referência uma prática docente extensionista desenvolvida na Tríplice Fronteira Brasil-Peru-Colômbia-Sudoeste do Amazonas sob a ótica dos sujeitos e gestores públicos, no período de 2003 a 2010.
Conceição, Schneider e Soeira (2019), com base na Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, discutem sobre o currículo e prática pedagógica, a partir da análise acerca da política educacional pautada na constituição do currículo enquanto defesa da integração do conhecimento científico e da experiência.
Abensur (2013) analisa a construção curricular na perspectiva freireana na cidade de Diadema São Paulo.
Saul e Silva (2011) analisam a contribuição de Freire para as políticas de currículo, no Brasil, a partir da década de 90, cuja referência é a política da Secretaria Municipal de São Paulo, no período em que Paulo Freire assumiu, como secretário, a pasta da Educação.
Gadotti (2011) relembra momentos da convivência, estabelecendo com Paulo Freire um diálogo, na forma de cartas, comentando e analisando a sua contribuição ao paradigma da educação, o qual fundamenta uma visão de currículo.
b) Políticas, teorias e práticas educacionais freireanas
Na temática políticas, teorias e práticas educacionais freireanas, os 19 (dezenove) estudos versam sobre a dimensão política do pensamento de Paulo Freire, programas, gestão, concepção de educação, formação de professores e questões referentes à educação escolar.
Giroux (2016) debate sobre a dimensão política no pensamento de Paulo Freire, destacando que, em um momento em que a memória está sendo apagada e a relevância política da educação é afastada pelo abraço da linguagem da medição e da quantificação, é importante lembrar o legado e a obra de Paulo Freire.
Apple (2016) dialoga com Paulo Freire sobre políticas e práticas educacionais emancipatórias e antirracistas, questiona a “cultura do silêncio” em que vivemos nas escolas e aponta para uma crítica não apenas aos efeitos raciais sobre os mercados e padrões culturais, mas também para as formas criativas utilizadas por movimentos neoliberais e neoconservadores, que mantém o discurso de neutralidade política, visando a tornar a educação mais eficiente e eficaz.
Oliveira e Santos (2016) apresentam resultados de duas pesquisas sobre a presença de Paulo Freire em Programas de Alfabetização de Jovens e Adultos de Redes Municipais de Ensino do Estado do Pará, realizadas pelo Núcleo de Educação Popular Paulo Freire (NEP) da Universidade do Estado do Pará, em parceria com a Cátedra Paulo Freire da Universidade Católica de São Paulo.
A gestão democrática no âmbito da escola é debatida por Hage e Pereira (2016). Os autores analisam os processos de gestão democrática e suas estratégias de organização e mobilização para a construção de um projeto popular de educação pública no município de Cametá, no Estado do Pará.
Apple (2011) conecta uma série de argumentos-chave do trabalho de Paulo Freire com as teorias recentes que têm cada vez mais causado impacto na educação crítica.
Figueiredo (2016), à luz do pensamento educacional de Paulo Freire, debate a Pedagogia dos Contextos de Aprendizagem, buscando clarificar os principais conceitos, teorias e práticas.
Lima, Santos e Solino (2024) analisam a práxis criadora e reflexiva na elaboração de um Projeto Político Pedagógico (PPP) pautado na perspectiva freireana, sendo utilizado como recurso metodológico os temas geradores.
Aguiar (2021) traz para debate, com base na Pedagogia do Oprimido de Freire, a educação libertadora versus a educação bancária, denunciando o processo de opressão instituído até hoje, na escola pública brasileira, sendo proposta como anúncio de superação das condições de desumanização, a Educação como Prática da Liberdade.
Mutz e Katz (2019) descrevem os embates dos discursos sobre o professor e o educador, questionando acerca de seus efeitos sobre as identidades docentes, que cada vez mais são alvo de intensas investidas de poder.
Pavan (2018) traz o pensamento de Paulo Freire para interlocução com outros autores, a fim de analisar o contexto educacional brasileiro, bem como as potencialidades do pensamento freireano na construção de caminhos alternativos à educação hegemônica, submetida à lógica do mercado vigente nas escolas brasileiras.
Braga e Fagundes (2017) anunciam ações e relações que contribuem para a construção de uma didática humanizadora freireana na Educação Básica e Superior, via práticas pedagógicas participativas.
Porto e Lima (2016) pesquisaram sobre a formação de educadores/as, a partir da produção das dissertações e teses que apresentassem maior contribuição de Paulo Freire à formação de educadores/as.
Guedes e Leitão (2016) analisam a prática pedagógica docente na perspectiva crítica freireana em que o processo educativo é influenciado pelos seus sujeitos e contextos.
Zanardi (2016) apresenta o potencial que a teoria freireana tem para o desenvolvimento de uma escola em tempo integral, estabelecida sobre o paradigma de uma educação integral, que possibilite a articulação entre os saberes, de forma crítica e dialógica.
Aguiar (2016) debate sobre a Progressão Escolar e Ciclos de Aprendizagem, numa perspectiva freireana, tendo por base um estado de conhecimento, por meio do qual amplia e atualiza o balanço dos estudos já realizados sobre essa temática.
Ramacciotti, Carvalho e Rocha (2012) refletem sobre a possibilidade de uma formação online inspirada na pedagogia freireana.
Campos (2007) analisa as diversas tendências que prevaleceram nas escolas brasileiras, tendo como destaque o pensamento educacional de Paulo Freire, que oferece uma contribuição muito importante e original, em especial para as políticas públicas educacionais.
Voltas, Júnior e Saul (2023) relatam a trajetória de vida de duas educadoras nacionalmente reconhecidas por suas produções e práticas fundamentadas pela proposta de Paulo Freire, buscando identificar como o pensamento freireano inspira mudança de práticas, na direção da humanização.
Santiago e Batista Neto (2011) evidenciam princípios e práticas de formação de professores na perspectiva da pedagogia Paulo Freire. A formação é abordada como campo específico da área da educação, constituída pelas dimensões da formação inicial e continuada, entendida como um continuum e estruturada por concepções, princípios, estilos e práticas.
c) História de vida e obras de Paulo Freire
Identifiquei 02 (dois) artigos que tratavam sobre a história de vida de Paulo Freire e 11 (onze) produções com o foco para as suas principais obras, entre as quais a Pedagogia do Oprimido e a Pedagogia da Autonomia.
O artigo de Lima (2012) estabelece reflexões sobre a história de vida de Paulo Freire, tendo por base o livro “Leitura de Paulo Freire: uma história de vida”, da autoria de Ana Maria Araújo Freire (2006).
Cortella (2011) compartilha com os leitores a sua convivência com Paulo Freire, descreve o seu percurso peculiar, pontuando e comentando dados de sua biografia visando a compreender por que o legado de Paulo Freire é um pensamento clássico e atual. Destaca que Paulo Freire é um clássico, no sentido de ele não ter perda de irrigação de sua atualidade. Ao final, registra sua saudade de Paulo Freire, considerado por ele uma pessoa encantadora.
Maders e Barcelos (2019) fazem uma reflexão sobre a contribuição e a atualidade, para a educação brasileira, do clássico Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire.
Shor (2018) analisa a Pedagogia do Oprimido, como um influente livro de Freire, nascido para a esperança e a democracia. Explica que, proibida no Brasil, essa obra seria lida por milhões de pessoas em todo o mundo. A obra emerge de um movimento democrático crescente no Brasil, na década de 1950.
Na entrevista, concedida à Margarete Sampaio e Maurício Fagundes, Carlos Rodrigues Brandão (2018) faz um relato histórico, trazendo elementos que antecederam e processos que constituíram Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.
Pitano, Streck e Moretti (2018) analisam a Pedagogia do Oprimido, buscando compreender as tramas, as articulações e os movimentos do pensamento político e pedagógico de Paulo Freire.
Giovedi, Silva e Amaral (2018) debatem sobre a possibilidade de se afirmar a existência de uma Didática Freireana, ou seja, de uma Didática Crítico-Libertadora tendo como referencial de estudo a Pedagogia do Oprimido.
Santiago, Batista Neto e Guedes (2018) evidenciam, na Pedagogia do Oprimido, a práxis político-pedagógica de Paulo Freire, a partir da noção inicial do seu trabalho no campo da educação, obra que foi dando corpo à sua e marcando a sua história de vida. Destacam que o contexto de criação da Pedagogia do Oprimido ganha relevo, marca a historicidade da obra e que o gênero literário é marcadamente ressaltado, assim como traduz o compromisso freireano como projeto sócio-político-pedagógico que anunciou, de forma planetária, a práxis freireana.
Oliveira e Campos de Sá (2018) estabelecem um diálogo entre o livro Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, e o trabalho com narrativas docentes em pesquisas nos cotidianos, entendendo que ambos são capazes de contribuir para mostrar as múltiplas facetas da vida e de uso da palavra, possibilitando fazer uma leitura ampla e atual do livro de Freire e de seu potencial emancipatório.
Cortesão (2018) explica ser a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire obra de um pensador, corajoso, lúcido, criativo e educador militante, cujo texto explicita opções políticas que o estruturam. Destaca a qualidade e os efeitos sociais e educativos que esta obra desencadeou em nível internacional, suscitando o interesse de se tentar desvendar algumas das condições que permitiram a sua produção.
Lima (2011) propõe como possível pista de leitura o livro Pedagogia da Autonomia, de Freire (1997), e, ainda, como possível eixo temático central ao pensamento do autor a ideia de que a sua obra pode, globalmente, ser interpretada como uma crítica veemente à educação indecisa. Considera que o livro Pedagogia da Autonomia poderia ter sido intitulado Pedagogia da Decisão, versando sobre os saberes necessários à prática da educação como deliberação individual e coletiva, por parte de educadores, e, também, de educandos em processo de construção da sua própria autonomia.
Lima, Monteiro e Asinelli-Luz (2018) debatem a infância e a Cultura da Paz na perspectiva do livro Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire (1970), trazendo contribuições relevantes para as concepções educativas e sociais.
Streck (2011) analisa a contribuição da obra de Paulo Freire no contexto do atual panorama pedagógico. Visa a identificar algumas tendências das práticas educativas, apresentando cinco razões pelas quais o diálogo com a obra de Paulo Freire é ainda relevante. Na conclusão indica, a partir da própria obra de Paulo Freire, algumas observações sobre a maneira de ler sua obra.
d) Campo conceitual freireano
Os 08 (oito) artigos apresentam estudos sobre diferentes campos conceituais freireanos, buscando explicá-los ou aplicá-los em debates teóricos e relativos a práticas educacionais. Entre as categorias mencionadas, destaco: situação-limite, ato-limite, inédito-viável, condição humana, liberdade, diálogo, esperança, práxis, conscientização e cultura.
Buarque e Carvalho (2025), por meio das categorias representação, situação-limite e ato-limite, analisaram a relação entre palavra, realidade e ideologia, tendo em vista a apresentação desta última, ao mesmo tempo, como falsa consciência da realidade e como visão de mundo de um povo.
Souza e Carvalho (2018) analisaram discursos de professores sobre suas práticas à luz de categorias freireanas, como situação-limite, ato-limite e inédito viável.
Corte Real (2018) problematiza o tema: educação, condição humana e liberdade no pensamento freireano. Levanta o autor a hipótese da existência de uma ontologia - visão de ser humano - na obra do autor, necessária para o projeto de mundo, presente na concepção de educação como prática da liberdade de Paulo Freire.
Ferreira, Santos e Souza (2014) analisam categorias relacionadas à ideia de educação e transformação no pensamento de Paulo Freire.
Casali (2012) faz uma releitura da obra de Paulo Freire do ponto de vista da sua apropriação da linguagem como educador. Destaca o autor a notável variedade e a pertinência no uso que Freire faz das mais diversas linguagens para realizar a ação educativa, em teoria e prática, enfatizando sua familiaridade com quase todos os gêneros de texto, sempre visando à melhor comunicação com seu público.
Szymanski (2011) reflete sobre o diálogo freireano, que orienta escolhas metodológicas e teóricas de um trabalho de pesquisa intervenção que vem sendo realizado há quase duas décadas em um bairro da periferia de São Paulo.
Fávero (2011) aponta a relevância do princípio de libertação defendido por Freire e suas categorias fundamentais: esperança, práxis, conscientização, cultura e diálogo. Destaca a dimensão ética da pedagogia de Paulo Freire que lhe confere intensa atualidade e distinguida importância, podendo ser designada como uma pedagogia do direito à educação.
Pesce, Bruno e Hessel (2023) trabalham com os seguintes campos conceituais do pensamento de Paulo Freire: proposta educacional, cultura digital e decolonialidade. No ensaio, deflagram as contradições inerentes às mídias digitais, aos modos como a sociedade moderna vem se organizando, e apontam que as mídias digitais têm sido perversamente cooptadas pelo ideário neoliberal.
e) Fundamentos teórico-metodológicos freireanos da pesquisa e da educação
Os 02 (dois) estudos focam em pesquisas sobre o pensamento de Paulo Freire e 04 (quatro) sobre os fundamentos teórico-metodológicos freireanos que subsidiam pesquisas e práticas educacionais.
Santos Paulo e Tessaro (2022) analisam a presença de Paulo Freire nos grupos de pesquisa cadastrados no Diretório de Grupos do CNPq, vinculados à área da Educação, buscando identificar os fundamentos teórico-metodológicos freireanos nas pesquisas em educação.
Oliveira, Mota Neto e Hage (2011) analisam a presença de Paulo Freire nos Grupos de Pesquisa cadastrados no Diretório de Grupos do CNPq, tomando como base de estudo a descrição dos grupos que investigam sobre a Educação Freireana e suas linhas de investigação.
Ramos (2021) realiza leitura da Pedagogia do Oprimido a partir da cena epistolográfica constituída no universo dos livros-carta de Paulo Freire e tecida em uma pesquisa-formação orientada pela leitura-escrita de cartas pedagógicas. O estudo coletivo, realizado com 30 professores/as em formação em uma universidade pública mineira, teve por base Freire na escrita de cartas-resposta como instrumento para “escuta” do encontro entre suas vozes.
Saul e Saul (2017) colocam em evidência a investigação temática, um método de pesquisa e construção de conhecimento contra-hegemônico, criado por Freire, que contribui de forma original para o campo das ciências humanas e sociais.
Saul e Giovedi (2016) apresentam os fundamentos teórico-metodológicos da pedagogia de Paulo Freire para investigar e desenvolver a formação de educadores. Explicam que foi criado um desenho de investigação, com a inspiração da pesquisa-ação, para problematizar e analisar situações-limite vivenciadas pelos participantes, em suas realidades profissionais, tendo em vista a elaboração de propostas que pudessem contribuir para compreender criticamente e superar tais situações.
Santiago e Batista Neto (2016) analisam como os referenciais freireanos têm contribuído para ampliar a pesquisa em educação no trato de objetos de investigação, categorias analíticas e processos metodológicos, com repercussões sobre a formação e a prática pedagógica. Destacam que essa presença teórico-epistemológico-metodológica mostra o vigor e a atualidade do pensamento freireano.
f) Paulo Freire em diálogo com intelectuais
Identifiquei três artigos que estabelecem diálogo de Paulo Freire com intelectuais de outros campos de conhecimento, como Castoriadis, Marcuse e Milton Santos, em torno de conceitos freireanos e de questões educacionais.
Rodrigues e Oliveira (2020) analisam a educação como projeto de poder, refletindo criticamente sobre a construção da “fabricação social” e a possibilidade de sua desconstrução à luz do conceito de autonomia de Cornelius Castoriadis e de Paulo Freire.
Demartini e Silva (2016) articulam a concepção educacional de Freire com a visão de sexualidade emancipatória de Herbert Marcuse, compreendida como subsídio para a construção curricular libertadora, na tentativa de superar limites observados na prática convencional da Educação Sexual no ensino de Ciências.
Silva (2008) estabelece relação entre os pensamentos políticos de dois intelectuais brasileiros reconhecidos mundialmente, Paulo Freire e Milton Santos. Analisa as contribuições que os intelectuais deram aos estudos das ciências sociais.
g) Educação popular Freireana
A educação popular de Paulo Freire aparece em 07 (sete) artigos, por meio de temas, como a interculturalidade crítica, sexualidade, formação permanente, alfabetização, participação social, gestão democrática e práticas de educação popular, bem como de projetos e ações culturais.
Oliveira, Teixeira e Santos (2018) analisam práticas de educação popular intercultural abordando a temática sexualidade. Visam a identificar como o diálogo entre a educação popular de Paulo Freire com a educação intercultural crítica contribui para práticas educacionais sobre sexualidade.
Amaral, Giovedi e Pereira (2017) refletem sobre o processo e os resultados do trabalho de formação permanente, fundamentado na perspectiva da educação popular freireana, de educadores(as) das séries finais do Ensino Fundamental de uma escola do campo, situada na comunidade do Xuri, zona rural do município de Vila Velha/ES.
Alencar e Campos (2014) relatam a experiência do projeto “Paulo Freire Memória e Presença: preservação e democratização do acesso ao patrimônio cultural brasileiro”, financiado pela Lei Rouanet.
Crusoé e Brito (2018) apresentam o resultado de pesquisa sobre experiências formativas freireanas de jovens, no contexto do Teatro do Oprimido, no interior da Bahia. Tem como referência a Obra Pedagogia do Oprimido.
Mira e Streck (2016) relatam uma experiência com Educação de Jovens e Adultos, tendo Paulo Freire como referencial teórico, buscam verificar a implementação de uma prática pedagógica, na qual, durante dez anos, a educação popular foi assumida como política pública no governo municipal petista de Gravataí, Rio Grande do Sul.
Pontual (2011) procura resgatar algumas contribuições de Freire e outros autores do campo da Educação Popular com vistas a apontar caminhos e alternativas no sistema educacional brasileiro na atualidade. Retoma algumas ideias centrais de Freire sobre o papel da alfabetização na construção da cidadania, que foram compartilhadas no momento da criação do MOVA-SP, durante sua gestão como Secretário Municipal da Educação da cidade de São Paulo. A questão da participação social e da gestão democrática são as preocupações centrais do artigo.
Andreola, Ghiggi e Pauly (2011) retratam a memória da presença de Paulo Freire no Rio Grande do Sul e suas contribuições para a Educação Popular no Estado, desde sua primeira vinda, na década de 50, até a última, em 1996. Apresentam o movimento de alfabetização e educação popular inspirado no método Paulo Freire, fazendo referências ao Instituto de Cultura Popular, bem como às aprendizagens e reinvenções freireanas que têm acontecido no Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire, realizado no RS. A intenção é compreender o atual momento da presença de Freire no RS a partir da sua histórica presença, desde os anos 50.
O levantamento e análise dos artigos apontam que a Revista E-curriculum, ao viabilizar acesso a produções sobre a educação freireana, vem contribuindo para manter o pensamento de Paulo Freire vivo, oportunizando aos autores trabalharem não só com a temática do currículo, mas com temas relevantes mediante o contexto histórico contemporâneo.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Paulo Freire foi professor e pesquisador do Programa de Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no período de 1980 a 1997, e o Programa vem mantendo vivo o pensamento freireano, por meio de disciplinas, das práticas dos docentes, da Cátedra Paulo Freire, da Rede Freireana de Pesquisadores e da Revista e-Curriculum.
A educação de Paulo Freire é debatida nas disciplinas em diálogo com outros autores, em termos teóricos, metodológicos e em questões que envolvem políticas e práticas educacionais no contexto brasileiro e mundial, bem como as práticas dos docentes do Programa são dialógicas, afetivas e críticas.
A Cátedra Paulo Freire tem um papel fundamental neste legado, porque aprofunda os estudos sobre o pensamento educacional Freireano e amplia estes estudos, pela Rede Freireana de Pesquisadores, para diversas regiões do país, com o objetivo de não apenas conhecer a educação de Paulo Freire, mas reinventá-lo nos diferentes contextos regionais do país.
Os artigos publicados pela e-Curriculum tratam sobre a história de vida de Paulo Freire e reflexões sobre as suas obras, em especial sobre a Pedagogia do Oprimido, campo conceitual, incluindo categorias freireanas, bem como seu pensamento educacional: aspectos teóricos e metodológicos, currículo, práxis educativas, formação de professores, além da educação popular. Indicam, ainda, o diálogo entre Freire e diferentes intelectuais em torno de temas políticos e educacionais. Observei, em termos de fundamentos filosóficos, que o campo epistemológico é o mais referenciado; poucos fazem menção à dimensão ética, e apenas um destaca o aspecto ontológico do pensamento de Paulo Freire, porém não como foco principal dos estudos.
A Revista e-Curriculum, então, vinculada ao Programa, pelos artigos de temáticas freireanas que vêm publicando em sua trajetória histórica, tanto divulga essas produções, quanto mantém o pensamento Freire vivo. Na medida em que não publica apenas estudos sobre o currículo, viabiliza a ampliação de pesquisas sobre o campo conceitual freireano e de debates sobre questões educacionais contemporâneas à luz de Paulo Freire, contribuindo para manter o seu legado.
Tenho muito orgulho e felicidade de ter vivenciado um pouco dessa trajetória histórica do Programa de Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) como discente do doutorado e, posteriormente, como docente-pesquisadora em atividades de estudos da Cátedra Paulo Freire e pesquisas da Rede Freireana de Pesquisadoras e publicações na Revista e-Curriculum.














