Introdução
Ao abordarmos a formação de professores para a Educação Infantil, deparamo-nos com a complexidade da organização do espaço e da prática pedagógica com crianças pequenas. Tal complexidade constitui-se, também, em um desafio para o campo da Pedagogia, a fim de possibilitar que esse professor possa tornar-se um profissional atento e sensível às particularidades do sujeito criança.
Dentre essas particularidades, ressaltamos a importância do reconhecimento da criança como um sujeito corporal que brinca, se movimenta e aprende sobre o mundo a partir das relações entre culturas, da exploração dos espaços e das interações com outros sujeitos, superando o controle e o governamento do corpo/movimento e do brincar (Foucault, 2007).
Os estudos de Camargo (2011) apontam que, mesmo que as professoras reconheçam o brincar como algo importante para as crianças, ao aproximar o cotidiano das instituições de Educação Infantil ao acompanhamento das práticas desenvolvidas durante o acompanhamento de estágio de docência, observa-se a limitação dos espaços, a regulação dos tempos e dos recursos, deixando esse brincar para um “tempo que sobra” ou uma prática recorrente denominada “brincar livre”.
Quanto a esse brincar livre, enfatizamos que a crítica recai sobre a inexistência de um planejamento que contemple o tempo/espaço de brincar, a ausência de recursos que enriqueçam o brincar, o distanciamento do adulto nas brincadeiras e construções das crianças, a restrição das interações entre crianças, crianças e espaços, crianças e objetos/brinquedos, dentre outras ações (Arroyo; Silva, 2012; Fortuna, 2011).
Considerando o brincar como um espaço da inteireza, da experimentação do corpo/movimento1, da imaginação e das interações com sujeitos e espaços, indagamo-nos sobre o processo formativo dos professores de crianças, definindo como lócus o curso de Pedagogia. Assim, visamos, neste artigo, analisar a produção acadêmica oriunda de Programas de Pós-Graduação em Educação sobre o brincar, o corpo e o movimento na formação de professores de Educação Infantil, com o objetivo de verificar como o tema é abordado nos espaços de formação, em específico no curso de Pedagogia, a partir de um estudo do tipo estado do conhecimento, tendo como recorte temporal os anos de 2006 a 2016.
Compreendemos o estado do conhecimento, na perspectiva de Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021, p. 34), “[...] como a construção e a compreensão do campo científico de um determinado tema num determinado espaço” com a intenção de delimitar a presença do novo na produção acadêmica, aqui delimitado como campo da Educação, em um contexto de pesquisas de Mestrado e Doutorado. Para as autoras, é importante a “[...] identificação, registro, categorização que possibilitem a reflexão e síntese sobre a produção científica de uma temática específica, em uma determinada área, em um determinado espaço de tempo” (Morosini; Kohls-Santos; Bittencourt, 2021, p. 23).
Quanto ao recorte temporal estabelecido, este se justifica pela publicação da Resolução nº 1, de 15 de maio de 2006, do Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno (CNE/CP), que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licenciatura, e a possibilidade de análise das publicações decorridos dez anos dessa Resolução (Brasil, 2006). Tal resolução destaca, em ser art. 3º, a formação para a docência e a pluralidade de conhecimentos teórico-práticos para o exercício da profissão:
Art. 3º O estudante de Pedagogia trabalhará com um repertório de informações e habilidades composto por pluralidade de conhecimentos teóricos e práticos, cuja consolidação será proporcionada no exercício da profissão, fundamentando-se em princípios de interdisciplinaridade, contextualização, democratização, pertinência e relevância social, ética e sensibilidade afetiva e estética (Brasil, 2006, p. 11)
A Resolução CNE/CP nº 1/2006 representou um marco importante ao destacar a importância do brincar, do corpo e do movimento na formação de professores de Educação Infantil, ao passo em que ressalta o estudo de teorias e metodologias pedagógicas e a abordagem de diferentes códigos e linguagens utilizadas por crianças, demarcando um espaço para o corpo, o movimento e o brincar, compreendido como linguagem e expressão.
Para a organização dos achados da pesquisa, recorremos aos três passos de organização de dados, denominados por Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021) como bibliografia anotada, bibliografia sistematizada e reescrita, a fim de mapearmos a quantidade de produções e analisarmos aspectos qualitativos dos estudos/das produções.
Assim, apresentamos o estado do conhecimento e desdobramos a escrita em categorias emergentes dos dados/estudos, tratando das temáticas centrais das pesquisas, demarcando as instituições de vínculo do pesquisador e dados como a formação inicial dos pesquisadores, que nos permitam identificar a origem dos problemas de pesquisa, delineando, também, o referencial teórico que sustenta as pesquisas no campo do brincar, corpo e movimento na Educação Infantil.
A criança, o brincar e o movimento nas pesquisas sobre formação de professores
A partir do objeto do estudo “brincar e o corpo em movimento na formação de professores para a Educação Infantil”, entendemos que uma pesquisa do tipo estado do conhecimento nos permite reconhecer a produção acadêmica, delimitar os principais desafios no contexto formativo e apontar possibilidades de ação na qualidade de formadores, bem como demarcar temas possíveis de novos estudos.
Já nos anos de 1990, a pesquisa de Kishimoto (1999) ressaltou que têm se desenvolvido relevantes estudos na área de formação de professores e da Educação Infantil, com considerável aumento da produção após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996 -, pois a infância, a criança e os espaços de Educação Infantil ganham maior visibilidade nas pesquisas, tanto em âmbito pedagógico quanto político, nos programas de pós-graduação e pesquisa em todo o país.
No entanto, as discussões acerca do brincar e suas relações com o corpo/movimento ainda são limitadas no tocante à formação de professores (Camargo; Dornelles, 2023), no levantamento realizado e apresentado neste texto, e ainda mais esparsas quando definimos como lócus o curso de Pedagogia, como demonstraremos no decorrer da análise. Os estudos desenvolvidos por Camargo (2011, 2018) indicam que o brincar frequentemente é abordado como uma atividade da criança, natural e “livre”, apontando a necessidade de discussões aprofundadas sobre as relações desse adulto no brincar, nas experimentações corporais e de movimento que estão envolvidas no cenário/prática de brincar. Recorremos, então, ao levantamento dos estudos realizados para averiguarmos como as pesquisas abordam o brincar, corpo/movimento.
Identificamos 16 estudos a partir dos descritores “brincar, corpo, Educação Infantil”: sete pesquisas foram realizadas por pesquisadores formados em Educação Física; um estudo de um pesquisador formado em Psicologia; oito estudos realizados por professores/pedagogos, sem menção à formação de professores nos títulos e resumos.
Para que alcancemos uma prática diferenciada, a criança por inteiro, um brincar prazeroso, um corpo que aprende e ensina à medida que brinca, precisamos que esses temas integrem pesquisas, discussões, formação (inicial e continuada), para que, ao compreender infância, criança, brincar, corpo e movimento livre de amarras e regras, possamos, então, redimensionar os fazeres e saberes das instituições de Educação Infantil.
Justificamos que o recorte temporal, 2006 a 2016, estabelece um espaço de dez anos, após a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia2 (DCNP) - Resolução nº 1/2006 (Brasil, 2006) -, que promove a reestruturação dos cursos no intuito de contemplar particularidades da docência na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, para tecermos análises sobre as perspectivas de formação e o impacto delas (ou não) nas pesquisas sobre a formação de professores e o brincar, corpo e movimento na Educação Infantil.
Ao discutir aspectos da formação de professores para a Educação Infantil, Drumond (2016, p. 52-53) destaca:
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Pedagogia - DCNP - (Brasil, 2006), o curso de Pedagogia deve formar docentes para atuar na primeira etapa da Educação Básica, a Educação Infantil, e na primeira fase do Ensino Fundamental, do 1º ao 5º ano. Assim, as universidades teriam que assumir o desafio de repensar os seus projetos curriculares, propor cursos que formem professores(as) de crianças de 0 a 5 anos e de 6 a 10 anos, com a especificidade da creche, da pré-escola, e dos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Ainda sobre a demarcação temporal do estudo, o ano de 2015 é marcado pela publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada dos Profissionais do Magistério da Educação Básica (DCNFPEB) - Parecer no 2, de 9 de junho de 2015 - que, em seu art. 2º, reitera a formação de professores para o exercício da docência (Brasil, 2015).
Quanto à abordagem da docência contida nas DCNFPEB, Dourado (2011) afirma que é fundamental o rompimento com propostas de formação amparadas apenas no saber fazer, tanto quanto das que primam unicamente pela teoria, ignorando a importância da prática pedagógica e do estágio. Esses elementos nos instigam a investigar e analisar como brincar, corpo e movimento podem constituir-se em um campo de estudo, reflexão e prática contextualizada.
No intuito de capturarmos as pesquisas e reflexões quanto à formação de professores para a Educação Infantil, em uma perspectiva de entendimento da criança, do brincar e do corpo em movimento, buscamos identificar o que se tem dito (os percursos) e pensado sobre a temática da formação de professores para a Educação Infantil no campo da Pedagogia. Constituímos, assim, o estado do conhecimento como
[...] identificação, registro, categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo, congregando periódicos, teses, dissertações e livros sobre uma temática específica. Uma característica a destacar é a sua contribuição para a presença do novo na monografia (Morosini; Fernandes, 2014, p. 155)
Com o compromisso ético da construção de conhecimentos e a identificação do novo, do diferencial do estudo, realizamos o levantamento de pesquisas (dissertações e teses) em algumas bases de dados relevantes para a pesquisa nacional, como o Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).
Em tempo, destacamos a preocupação com a abordagem generalista de formação que compõe as DCNFPEB, cujas reflexões podem ser aprofundadas por meio dos estudos de Carvalho (2011). Esclarecemos, no entanto, que aqui buscamos pensar caminhos para a formação de professores de Educação Infantil, mesmo diante da estrutura posta pelas DCNP.
Para sistematizar o levantamento de pesquisas, estabelecemos como descritores: formação de professores, pedagogia, criança, brincar, corpo e movimento, delimitando como critério de busca a presença desses termos nos títulos das pesquisas. Fomos refinando as buscas ao longo do processo; não obtendo muitos registros, retomamos o rastreio, incluindo termos afins e/ou suprimindo outros, com o objetivo de localizar pesquisas desenvolvidas dentro da mesma temática.
Os estudos realizados: autoria e espaços de pesquisa
Ancoradas nos dados de uma busca preliminar, previamente organizados, seguindo a bibliografia anotada e a bibliografia sistematizada, descritas por Morosini, Kohls-Santos e Bittencourt (2021), realizamos a leitura flutuante dos resumos e das considerações finais dos estudos, a fim de delimitar os trabalhos que contribuem para a compreensão do brincar, corpo/movimento na formação de professores.
Quanto à seleção dos textos, visamos identificar em que espaços formativos estão localizados/vinculados os pesquisadores/autores, no intuito de verificarmos questões/objetivos que impulsionam a realização das pesquisas.
Demarcamos a importância de reconhecermos os interlocutores dos estudos, seus espaços de fala e ação. Assim, apresentamos os estudos considerados de maior relevância, filtrados pela presença dos descritores no título, em cada busca realizada, organizados em ordem alfabética pelo sobrenome do autor ou autora, com dados da instituição de vínculo da pesquisa e o ano de realização.
Dentre os trabalhos encontrados, a partir da pesquisa pelos termos “Formação de professores” e “Brincar - Educação Infantil”, listamos sete estudos cujas abordagens remetem a temáticas que tratam de um brincar amplo, formativo, com olhar direcionado às diferenças, o brincar que humaniza e produz cultura (Quadro 1).
Quadro 1 Pesquisas: “Formação de professores” e “Brincar - Educação Infantil”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| CÂMARA, Tereza Cristina Bernardo da. Corporeidade e humanescência na fonte dos saberes da vida: a formação de professores que valoriza o ser | 2005 | Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| CORRÊA, Renata Cleiton Piacesi. “Vamos brincar?”: continuidades e rupturas nas práticas curriculares da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental | 2011 | Universidade do Vale do Itajaí (Univali) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| LEITE, Ana Maria. Caixa de brinquedos e brincadeiras: uma aliada na construção de atitude lúdica para a ressignificação da prática pedagógica do movimento na Educação Infantil | 2010 | Universidade de São Paulo (USP) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| MARQUES, Circe Mara. Experiência com bonecas anormais no Curso de Pedagogia: construindo modos de ser professora | 2013 | Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tese de Doutorado |
Pedagogia |
| PEÇANHA, Silvia de Moura. As concepções sobre o brincar na Educação Infantil e as práticas educativas: múltiplos olhares | 2011 | Centro Universitário La Salle (Unilasalle) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| SANTOS, Larissa Aparecida Trindade dos. O brinquedo na Educação Infantil como promotor das culturas da infância e humanização | 2010 | Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) Dissertação de Mestrado | Educação Física |
| SILVA, José Ricardo. A brincadeira na Educação Infantil: uma experiência de pesquisa e intervenção | 2012 | Unesp Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| CARDOSO, Michelle Duarte Rios. E os bebês na creche...brincam? O brincar dos bebês em interação com as professoras | 2016 | Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
Após a leitura flutuante dos resumos dos estudos listados no Quadro 1, destacamos, para este estado do conhecimento, a relevância da abordagem de Corrêa (2011), que, com um olhar sensível, se direciona ao brincar no tocante à transição para o Ensino Fundamental, o que se mostra necessário à medida que tratamos de respeito à criança. A pesquisa de Leite (2010) nos remete à atividade lúdica e ao movimento em uma perspectiva que rompe com o brincar pelo brincar, o esparramar brinquedos, abrindo possibilidades para a exploração do movimento da criança. A tese de Marques (2013) nos aproxima de uma valiosa experiência envolvendo bonecas “anormais”, com a intenção de repensar conceitos, tratar de inclusão, de diversidade, de superação e humanização das relações, do reconhecimento dos corpos e das possibilidades do brincar e dos brinquedos entre crianças e professoras e crianças.
A seleção desses estudos justifica-se pela identificação de elementos que agregam o brincar e o corpo/movimento ao campo da Pedagogia e da formação de professores, após a leitura dos resumos e das palavras-chave.
Em nova pesquisa, inserimos como descritores os termos: “criança”, “brincar”, “Educação Infantil”, obtendo como resultado sete estudos, listados no Quadro 2:
Quadro 2 Pesquisas: “Criança”, “brincar” e “Educação Infantil”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| CÔRTES, Diolira Maria. Brincar - vem: a criança surda na Educação Infantil e o despertar das mãos | 2012 | Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Dissertação de Mestrado | Educação Artística |
| DUARTE, Camila Tanure. Relações educativas o brincar na Educação Infantil e no Ensino Fundamental: construção de identidades e autonomia em crianças | 2015 | Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Dissertação de Mestrado | Pedagogia |
| LOPES, Conceição Aparecida Oliveira. O brincar e a criança com deficiência física na Educação Infantil: o que pensam as crianças e suas professoras | 2012 | UFRN Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| RIVERO, Andréa Simões. O brincar e a constituição social das crianças e de suas infâncias em contexto de Educação Infantil | 2015 | Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Tese de Doutorado |
Pedagogia |
| SANTOS, Sandro Vinicius Sales dos. A gente vem brincar, colorir e até fazer atividade: a perspectiva das crianças sobre a experiência de frequentar uma instituição de Educação Infantil | 2013 | Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| SANT’ANNA, Maria Madalena Moraes. Formação continuada em serviço para professores da Educação Infantil sobre o brincar | 2016 | Unesp Tese de Doutorado |
Terapia Ocupacional |
| SUZUKI, Flavia dos Reis Penteado. O brincar para crianças de zero a seis anos: Legislação educacional nacional e a proposta curricular do município de Maringá/PR | 2016 | Universidade Estadual de Maringá (UEM) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
A pesquisa pelos termos “criança”, “brincar” e “Educação Infantil” nos apresentou 16 estudos, e verificamos diversas abordagens sobre o brincar que perpassam a aprendizagem, a afetividade e a arte. As pesquisas listadas e apresentadas no Quadro 2 apontam uma maior valorização da temática “corpo”, em que vemos estudos tratando de dança, da corporeidade, do movimento, da formação corporal de professores, da linguagem corporal, dentre outros, que ressaltam a importância de tratar da criança de forma completa dentro da instituição de Educação Infantil.
Apuramos, nesses estudos, contribuições importantes sobre o brincar na Educação Infantil, à medida que tratam da criança no brincar, superando aspectos de direcionamento do brincar e da relação “brincar para ensinar”, que fortemente marcam a história da formação de professores, amparados em uma perspectiva advinda da Psicologia.
Há um movimento emergente de tratar a criança como criança, sua cultura e o que ela tem a dizer sobre o mundo. Os estudos de Santos (2013) e Rivero (2015) nos remetem à criança social, participativa, produtora de conhecimento e cultura. Outro traço importante constatado é a abordagem da relação brincar-inclusão nos escritos de Côrtes (2012) e Lopes (2012), que nos remetem a uma escola aberta, de relações respeitosas e amorosas.
Refinando a pesquisa, com a intenção de localizarmos estudos que abordem corpo e movimento, realizamos duas buscas distintas: inicialmente com os descritores “brincar”, “corpo”, “Educação Infantil”, destacando, no Quadro 3, 16 estudos.
Quadro 3 Pesquisas: “Brincar”, “corpo” e “Educação Infantil”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| ASSARITTI, Dolores Setuval. A educação do corpo das crianças na escola em narrativas do cotidiano | 2015 | Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| AZEVEDO, Ildilene Leal de. Acolhendo corporeidades: o sentido do corpo para crianças de um abrigo institucional do município de Belém |
2011 | Universidade Federal do Pará (UFPA) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| CAMARGO, Daiana. Um olhar sobre o educador da infância: o espaço do brincar corporal na prática pedagógica | 2011 | Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| CAMPOS, Daíse Ondina de. Brincadeira e linguagem escrita na Educação Infantil: uma relação apreendida a partir do fazer pedagógico do professor | 2015 | UFSC Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| DIAS, Lara Simone. Infâncias nas brincadeiras: um estudo em creche pública e em creche privada de Campinas | 2005 | Unicamp Dissertação de Mestrado |
Psicologia |
| LIMA, Fabiana Cristina de. A percepção do corpo para a criança nos momentos escolares: um estudo sobre o brincar e o estudar infantil | 2011 | Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| LIMA, Ruth Regina Melo. Dança: linguagem do corpo na Educação Infantil | 2010 | UFRN Dissertação de mestrado |
Pedagogia |
| MACÊDO, Lenilda Cordeiro de. A infância resiste à pré-escola? | 2014 | Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Tese de Doutorado |
Pedagogia |
| MACIEL, Rochele Rita Andreazza. Experiência pedagógica pela linguagem poética e corporal | 2011 | Universidade de Caxias do Sul (UCS) Dissertação de Mestrado |
Educação Física e Pedagogia |
| MADALÓZ, Rodrigo Jose. Educação estética com educadoras: uma proposta de intervenção a partir de vivências corporais | 2011 | Universidade de Passo Fundo (UPF) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| MONTEIRO, Tatiane Lopes. A comunicação da criança sobre suas aprendizagens na pedagogia de projetos: em foco o corpo em movimento |
2012 | Universidade Federal do Paraná (UFPR) Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| SILVA, Osvaldo Luiz da. O corpo do educador da Educação Infantil lido como uma “literatura menor” | 2012 | Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| SILVA, Eliane Gomes da. Movimento e Educação Infantil: uma pesquisa-ação na perspectiva semiótica |
2012 | USP Tese de Doutorado |
Educação Física |
| SOUZA, Letícia Rodrigues de. O brinquedo na Educação Infantil: algumas reflexões do uso do brinquedo à luz da sociedade disciplinar foucaultiana | 2014 | Unesp Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| TRISTÃO, Andre Delazari. Infância e socialização: um estudo sobre a educação do corpo nos momentos do parque em uma creche | 2012 | UFSC Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| WILLMS, Elni Elisa. Escrevivendo: uma fenomenologia Rosiana do brincar | 2013 | USP Tese de Doutorado |
Pedagogia |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
Destacamos os escritos de Camargo (2011), Madalóz (2011), Silva, O. L. da (2012), Romano (2015), Guirra (2009), Roriz (2014), Iza (2008) e Lombardi (2011), nos quais encontramos, além da abordagem ao brincar e/ou do corpo, a menção ao professor da Educação Infantil. Esse professor é entendido como peça fundamental ao tratarmos do corpo da criança pequena.
Ao recorrermos aos descritores “Corpo; criança; infantil”, resultaram 22 estudos, elencados no Quadro 4.
Quadro 4 Pesquisas: “Corpo; criança; infantil”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| ALMEIDA, Fernanda de Souza. Que dança é essa? uma proposta para a Educação Infantil | 2013 | Unesp Dissertação de Mestrado |
Educação Física e Pedagogia |
| BARBOSA, Mirtes Lia Pereira. Práticas escolares: aprendizagem e normalização dos corpos | 2006 | UFRGS Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| BEBER, Irene Carrillo Romero. As experiências do corpo em movimento das crianças pequenas: reflexões para a pedagogia da infância | 2014 | UFRGS Tese de Doutorado |
Educação Física |
| BRUSTOLIN, Gisela Maria. Aspectos da educação do corpo no currículo de Pedagogia | 2009 | Unicamp Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| BUSS-SIMÃO, Márcia. Infância, corpo e educação na produção científica brasileira (1997-2003) | 2007 | UFSC Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| CAON, Paulina Maria. Desvelando corpos na escola - experiências corporais e estéticas no convívio com crianças, adolescentes e professores | 2015 | USP Tese de doutorado |
Artes Cênicas |
| CARVALHO, Rodrigo S. de. Educação Infantil: práticas escolares e o disciplinamento dos corpos | 2005 | UFRGS Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| GUIRRA, Frederico Jorge Saad. Mediação da professora generalista no trabalho corporal na Educação Infantil | 2009 | Unicamp Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| IZA, Dijnane Fernanda Vedovatto. As concepções de corpo e movimento de professoras nas práticas educativas: significado e sentido de atividades de brincadeiras na Educação Infantil | 2008 | UFSCar Tese de Doutorado |
Educação Física |
| JULIASZ, Paula Cristiane Strina. Tempo, espaço e corpo na representação espacial: contribuições para a Educação Infantil | 2012 | Unesp Dissertação de Mestrado |
Geografia |
| LOMBARDI, Lucia Maria Salgado dos Santos. Formação corporal de professoras de bebês: contribuições da pedagogia do teatro | 2011 | USP Tese de Doutorado |
Educação Artística |
| MACHADO, Sheila da Silva. “Vivo ou morto?”: o corpo na escola sob olhares de crianças | 2014 | Universidade de Brasília (UnB) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| MARINHO, Helena Saldanha. Educando na vida com a dança: corporeidade e movimento | 2005 | Universidade Federal Fluminense (UFF) Dissertação de Mestrado |
não informado |
| MORUZZI, Andrea Braga A pedagogização do sexo da criança: do corpo ao dispositivo da infância | 2012 | UFSCar Tese de Doutorado |
Pedagogia |
| OLIVEIRA, Nara Rejane Cruz de. Corpo e movimento na Educação Infantil: concepções e saberes docentes que permeiam as práticas cotidianas | 2010 | USP Tese de Doutorado |
Educação Física |
| RICHTER, Ana Cristina. Sobre a presença de uma pedagogia do corpo na educação da infância | 2005 | UFSC Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| ROMANO, Érica Carolina. Concepções e corporeidades docentes na Educação Infantil | 2015 | Unesp Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| RORIZ, Marlaina Fernandes. A Educação Infantil e a linguagem corporal: que lugar ocupa o corpo do professor nesse processo? | 2014 | UFMG Dissertação de Mestrado |
Dança |
| SILVA, Eliane Gomes da. Movimento e Educação Infantil: uma pesquisa-ação na perspectiva semiótica | 2012 | USP Tese de Doutorado |
Pedagogia |
| SIQUEIRA, Isabelle Borges. As manifestações corporais na Educação Infantil: um estudo sobre o corpo da criança na escola | 2014 | UnB Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| BUSS-SIMÃO, Márcia. Relações sociais em um contexto de Educação Infantil: um olhar sobre a dimensão corporal na perspectiva de crianças pequenas | 2012 | UFSC Tese de Doutorado |
Educação Física |
| VIEIRA, Rosana Mancini. Educação do corpo e de gênero na Educação Infantil: uma análise da produção de conhecimento na área da educação | 2016 | Unicamp Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
A pesquisa de Silva, E. G. da (2012) atende aos descritores de dois dos quadros organizados, sendo mencionada no Quadro 3 - Pesquisas: “brincar”, “corpo” e “Educação Infantil” - e no Quadro 4 - Pesquisas: corpo; criança; infantil - devido à amplitude do tema de estudo. Ressaltamos que o envolvimento das professoras durante a pesquisa permitiu a reflexão quanto à expressão infantil:
[...] as experiências sensíveis/significativas às crianças, buscou-se criar para as professoras oportunidades de reflexão sobre a qualidade (princípios e concepções) das práticas pedagógicas, de modo a efetivamente incluir as crianças como partícipes de um processo pedagógico entendido como relações comunicativas (Silva, E. G. da, 2012, p. 6).
Quanto à pesquisa pelos descritores “corpo; criança; infantil”, observamos a relação dos escritos com a prática. Muitas das pesquisas encontradas emergem de situações do cotidiano da Educação Infantil, no intuito de investigar relações criança-brincar, criança, corpo, brincar-corpo, e as análises remetem à importância da formação para as práticas que envolvem a criança.
Nos estudos de Lombardi (2011) e Beber (2014), podemos verificar uma abordagem significativa quanto à educação de crianças bem pequenas (bebês), em um movimento de superação do cuidar assistencialista, ao qual já nos referimos, e a apresentação e discussão de dados de pesquisa que tratam de um cuidar-educar pautado em uma ação estruturada, de qualidade e que vai ao encontro das necessidades e das possibilidades de crianças dessa faixa etária.
Pensando na relação corpo e movimento, realizamos a pesquisa no banco de teses e dissertações, agora com o termo “movimento da criança”, para a qual tivemos como resultado três estudos, apresentados no Quadro 5.
Quadro 5 Pesquisas: “Movimento da criança”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| BERLEZE, Danieli Jacobi. O brincar-e-se-movimentar e a linguagem da criança | 2016 | Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| MONTEIRO, Tatiane Lopes. A comunicação da criança sobre suas aprendizagens na pedagogia de projetos: em foco o corpo em movimento | 2012 | UFPR Dissertação de Mestrado |
Educação Física e Pedagogia |
| SIMON, Heloisa dos Santos. O brincar-e-se-movimentar e a imaginação da criança | 2013 | UFSC Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
Ressaltamos que foram poucos os registros de estudos sobre o “movimento da criança”, como apresentados no Quadro 5. À medida que agrupamos os termos de busca, verificamos a pequena produção científica quando se trata de criança, corpo e brincar no espaço de formação de professores, o que nos reafirma a importância de tratar das especificidades do brincar e do corpo em movimento na Pedagogia, como destaca o estudo de Camargo (2011).
Considerando o campo da pesquisa, o curso de Pedagogia, uma nova busca por pesquisas foi realizada, agora com os descritores “Pedagogia; criança; brincar; movimento”, da qual resultaram seis pesquisas, conforme mostra o Quadro 6.
Quadro 6 Pesquisas: “Pedagogia; criança; brincar; movimento”
| Autor(a) e título | Ano | Instituição/ nível |
Formação inicial do(a) pesquisador(a) |
|---|---|---|---|
| CABALLERO, Raphael Maciel da Silva. Pedagogia das vivências corporais: educação em saúde e culturas de corpo e movimento | 2015 | UFRGS Tese de Doutorado |
Fisioterapia e Educação Física |
| ANDRADE FILHO, Nelson Figueiredo de. Experiências de movimento corporal de crianças no quotidiano da Educação Infantil | 2011 | Unicamp Tese de Doutorado |
Educação Física |
| FREITAS, Amanda Fonseca Soares. Corpo, movimento e linguagem: em busca do conhecimento na escola de Educação Infantil | 2008 | Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| MONTEIRO, Tatiane Lopes. A comunicação da criança sobre suas aprendizagens na pedagogia de projetos: em foco o corpo em movimento | 2012 | UFPR Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
| REZENDE, Deise de Oliveira. O brincar livre de crianças na brinquedoteca: análise da frequência de ações motoras, tipos de brinquedos, brincadeiras e interações sociais | 2012 | USP Dissertação de Mestrado |
Educação Física |
| CLARA, Cristiane Aparecida Woytichoski de Santa. A prática pedagógica dos professores da Educação Infantil do Município de Ponta Grossa-PR: uma análise sobre o corpo em movimento | 2013 | UEPG Dissertação de Mestrado |
Pedagogia |
Fonte: Elaborado pela autora a partir das bases de dados.
Tais resultados nos indicam um número reduzido de estudos do tipo tese e dissertação que tenham como tema/objeto de pesquisa a relação com o movimento da criança ou movimento na ação pedagógica. Ao utilizarmos os descritores “Formação - pedagogia - criança - brincar - corpo”, não obtivemos resultados de estudos com relação direta à temática desta pesquisa, visto que aparecia um ou outro termo, de forma dispersa, o que pode indicar uma ausência de articulação entre as possibilidades do brincar e suas dimensões corporais.
É importante destacarmos que, embora muitas pesquisas estejam vinculadas a Programas de Pesquisa em Educação, ao buscarmos dados sobre os autores-pesquisadores3, verificamos que, dos 58 pesquisadores listados, 25 apresentam formação inicial na área da Educação Física4, três possuem graduação em Licenciatura em Pedagogia e Educação Física, um desses pesquisadores é formado em Fisioterapia e Educação Física, além de pesquisadores com formação em Terapia Ocupacional, Dança, Educação Artística, Artes Cênicas e Geografia. Isso nos aponta que o entendimento do corpo e do movimento, vinculados ao brincar, em sua maioria, não se origina da área da Pedagogia.
Apuramos, também, que dois pesquisadores possuem o curso de graduação tanto em Pedagogia quanto em Educação Física, o que nos leva a considerar a busca pela complementariedade da formação para encontrar, na Pedagogia, as discussões da particularidade da criança/infância e/ou, na Educação Física, o aprofundamento dos conhecimentos sobre o corpo e as dimensões do movimento em suas diversas modalidades. Podemos inferir a existência de um movimento de egressos de cursos de Educação Física dedicando-se ao aprofundamento em temas referentes às crianças, seus corpos e suas necessidades, em uma perspectiva de superação de uma educação cartesiana, enquanto na Pedagogia temas como o corpo e o movimento ainda são pouco explorados e/ou desvinculados de aspectos como o brincar e a arte.
Quanto ao mapeamento das instituições sede das pesquisas, optamos por um filtro englobando os Programas de Pós-Graduação em Educação e, também, em Educação Física, tendo em vista a utilização de descritores como corpo e movimento. Averiguamos que o maior número de estudos desenvolvidos está vinculado à UFSC, sendo seis no Programa de Pós-Graduação em Educação e um trabalho no Programa de Pós-Graduação em Educação Física.
Verificamos que, mesmo com a formação inicial de muitos dos pesquisadores, os estudos subsequentes, em sua maioria, foram realizados em Programas de Pós-Graduação em Educação. É possível pensar que uma das justificativas dessa aproximação com a Educação aconteça devido à proximidade dos pesquisadores orientadores com as discussões acerca da infância/criança, da Educação Infantil e do brincar.
Ao realizarmos a leitura dos resumos e a apuração das referências que estruturam as pesquisas mapeadas, pudemos elencar quais os teóricos e pesquisadores que sustentam os estudos, como apresentado no Quadro 7.
Quadro 7 Pesquisas - Formação de professores e a articulação entre brincar, corpo e movimento da criança
| Ano | Autor - título | Palavras-chave | Referencial teórico5 |
|---|---|---|---|
| 2008 | FREITAS, Amanda Fonseca Soares. Corpo, movimento e linguagem: em busca do conhecimento na escola de Educação Infantil |
Corpo; movimento; linguagem; criança; Educação Infantil; Educação Física. | Bakhtin (2006); Bracht (1992, 1997a, 1999); Daolio (1995); Kramer (1998, 2002a, 2003), Sarmento (2005). |
| 2009 | BRUSTOLIN, Gisela Maria. Aspectos da educação do corpo no currículo de Pedagogia |
Corpo; educação; currículo; pedagogia. | Bracht (1999); Fontana (2000); Rago (2007); Sayão (2002); Soares (2001, 2004); Vaz (2002). |
| 2010 | OLIVEIRA, Nara Rejane Cruz de. Corpo e movimento na Educação Infantil: concepções e saberes docentes que permeiam as práticas cotidianas |
Corpo; movimento; Educação Infantil. | Bracth (1997b); Brotto (1999); Daolio (2003, 2004); Faria (1994, 1999); Faria e Melo (2005); Galvão (1992, 1995), Garanhani (1998, 2004); Kramer (1995). |
| 2011 | BERWANGER, Fabiola. Os saberes do movimento do corpo na Educação Infantil: o contexto da formação de professores nas licenciaturas em Pedagogia em Curitiba-Paraná |
Formação de professores; Educação Infantil; saberes do movimento do corpo infantil | Gatti e Barreto (2009); Marcelo García (1999, 2009); Imbernón (2009); Barbosa (2009); Kramer (2002b, 2006); Oliveira-Formosinho (2002); Sayão (2000, 2002); Garanhani (2004, 2005, 2010). |
Fonte: Elaborado pela autora a partir dos dados da pesquisa.
Para a análise do material deste estado do conhecimento, optamos pela elaboração de categorias, seguindo as premissas de Bardin (2011), sendo:
● “Formação de professores para a abordagem do corpo e movimento na Educação Infantil”, agrupando trabalhos que investigam como a formação inicial de professores, especialmente no curso de Pedagogia, aborda a temática do corpo e movimento na Educação Infantil.
● “Corpo e movimento como linguagem na Educação Infantil”, elencando estudos que exploram o corpo e o movimento como formas de linguagem e expressão da criança na Educação Infantil.
● “Saberes docentes sobre corpo e movimento na Educação Infantil”, apresentando estudos que investigam as concepções, saberes e práticas de professores de Educação Infantil em relação ao corpo e movimento.
Reconhecendo os desafios de legitimarmos os espaços para a formação de professores para as crianças, na perspectiva do brincar, corpo e movimento, com processos articulados à pesquisa em educação e à produção de conhecimentos, debruçamo-nos a analisar os estudos que compõem o levantamento.
Tecendo reflexões sobre as categorias de análise
Na categoria “Formação de professores para a abordagem do corpo e movimento na Educação Infantil”, agrupamos dois estudos:
● “Aspectos da educação do corpo no currículo de Pedagogia”, de Gisela Maria Brustolin (2009), dissertação desenvolvida sob a orientação de Silvia Cristina Franco Amaral, no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação Física da Unicamp. Esse estudo examina os aspectos da educação do corpo presentes nos currículos dos cursos de Pedagogia, buscando entender como os futuros professores são preparados para lidar com o corpo das crianças e com o seu próprio corpo na prática docente.
● “Os saberes do movimento do corpo na Educação Infantil: o contexto da formação de professores nas licenciaturas em Pedagogia em Curitiba-Paraná”, dissertação de autoria de Fabiola Berwanger (2011), orientada pela Prof.a Dra. Marynelma Camargo Garanhani, defendida no ano de 2011, no Programa de Pós-Graduação da UFPR. O estudo investigou como os saberes sobre o movimento do corpo são abordados na formação de professores de Educação Infantil em cursos de Pedagogia, analisando as disciplinas, as concepções de movimento, os objetivos, as metodologias e as fontes de saberes.
Nessa categoria, verificamos a escassez de pesquisas na área da Pedagogia. As fontes consultadas pelas pesquisadoras indicam que há um número limitado de estudos sobre a abordagem do corpo e movimento na formação inicial de professores de Educação Infantil, particularmente no curso de Pedagogia. A maioria das pesquisas sobre o tema é realizada por pesquisadores com formação inicial em Educação Física, o que sugere uma lacuna na produção de conhecimento na área da Pedagogia.
Compreendemos como fundamental que a formação inicial de professores, especialmente em Pedagogia, aborde as especificidades do brincar, corpo e movimento para a Educação Infantil, considerando a criança como um sujeito integral. Os estudos apontam também a necessidade de superação da visão fragmentada do corpo e do brincar na formação de professores, integrando esses elementos de forma crítica e reflexiva.
Na categoria “Corpo e movimento como linguagem na Educação Infantil”, incluímos um estudo:
● “Corpo, movimento e linguagem: em busca do conhecimento na escola de Educação Infantil”, de Amanda Fonseca Soares Freitas (2008), dissertação desenvolvida sob a orientação da Prof.a Dra. Anna Maria Salgueiro Caldeira, no Programa de Pós-Graduação da PUC Minas. O estudo analisou como as crianças utilizam o corpo e o movimento como formas de linguagem para expressar seus pensamentos e suas emoções durante as práticas pedagógicas na Educação Infantil.
Nessa categoria, os estudos exploram o corpo e o movimento como formas de linguagem e expressão da criança na Educação Infantil. As crianças se comunicam e interagem com o mundo por meio de seus corpos, utilizando gestos, movimentos, expressões faciais e corporais. As pesquisas indicam como fundamental que os professores reconheçam e valorizem a linguagem corporal das crianças, criando oportunidades para que elas se expressem e se comuniquem por meio do movimento. As fontes analisadas nos estudos sugerem que a Educação Física na Educação Infantil também seja compreendida como uma forma de linguagem, indo além da mera aprendizagem de habilidades motoras.
Os estudos que compõem a categoria “Saberes docentes sobre corpo e movimento na Educação Infantil” são os seguintes:
● “Corpo e movimento na Educação Infantil: concepções e saberes docentes que permeiam as práticas cotidianas”, tese de Nara Rejane Cruz de Oliveira (2010), orientada pela Prof.a Dra. Zilma Ramos de Oliveira, desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da USP. O estudo investigou as concepções de corpo e movimento que orientam as práticas pedagógicas de professores de Educação Infantil, analisando a relação entre essas práticas e as experiências corporais anteriores dos professores.
● “Um olhar sobre o educador da infância: o espaço do brincar corporal na prática pedagógica”, dissertação de Mestrado de Daiana Camargo (2011), orientada pela Prof.a Dra. Silvia Christina Madrid, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UEPG. O trabalho analisou a ação pedagógica do educador em relação ao brincar corporal, considerando aspectos do corpo e movimento.
Ambas as pesquisas revelam que os professores enfrentam dificuldades em pensar o movimento em sua totalidade e em aplicar esse conhecimento na prática pedagógica. As fontes apontam para a reprodução de práticas corporais baseadas nas experiências pessoais dos professores durante a infância, o que pode resultar em uma abordagem limitada do tema.
Outro apontamento dos estudos é a formação de professores, considerada essencial, pois fornece subsídios para que eles desenvolvam uma compreensão crítica sobre o corpo e o movimento. Isso possibilita a construção de práticas pedagógicas significativas e adequadas às necessidades das crianças. Além disso, a formação deve estimular a reflexão dos professores sobre suas próprias concepções e práticas relacionadas ao corpo e movimento, promovendo uma atuação mais consciente e consistente.
Os dados resultantes do levantamento evidenciam a necessidade de ampliação das pesquisas sobre a criança na qualidade de sujeito que é corpo/movimento. Dentre os estudos que ressaltam a potência do brincar e os que, em sua especificidade, olham para as dimensões corporais e de movimento, verificamos que o tema ainda é distante das abordagens formativas no campo da Pedagogia, como discutiremos a seguir.
Pudemos verificar que o brincar é um objeto de estudo frequente nas pesquisas que tratam da criança, com aporte teórico diverso, passando por referenciais provenientes da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Educação Física e da Antropologia, possibilitando diferentes olhares e compreensões sobre a prática do brincar. Buscamos elencar trabalhos com abordagens diferenciadas, que nos mostrassem um movimento de superação do brincar unicamente como meio de ensino ou terapia, como há muito se verificava em estudos e práticas amparadas unicamente nos fundamentos da Psicologia.
Ressaltamos a importância de olhar para o brincar e o corpo/movimento em suas diferentes dimensões e áreas/teorias. No entanto, estruturamo-nos em escritos de Foucault (2007), que nos falam sobre os espaços que limitam, esquadrinham e controlam os corpos, dedicando-nos a pensar em um corpo livre, expressivo, em um brincar que ocorre em diferentes espaços, com diversidade de recursos e a interlocução de um adulto - não para limitar ou conduzir, mas para instigar, provocar e ampliar as possibilidades desse corpo que brinca e se movimenta.
Quanto ao corpo, os estudos que tratam do brincar frequentemente parecem ignorar o corpo que brinca. Diversas pesquisas retratam análises de práticas do brincar e do corpo em movimento, o que nos leva a pensar na formação de professores no curso de Pedagogia como sujeitos corporais/brincantes. Esse brincar emergente, como tema de pesquisa, fortalece a sua importância nas práticas pedagógicas com crianças.
As análises e as considerações presentes nos estudos de Oliveira (2010), Brustolin (2009) e Berwanger (2011) nos auxiliam a constituir um importante referencial teórico para futuras pesquisas, defendendo a indissociabilidade entre brincar, corpo e movimento, bem como a busca por novas discussões e práticas brincantes.
Por meio da pesquisa realizada sobre a produção científica brasileira relacionada ao tema da formação de professores, apuramos que é crescente o número de estudos relacionados à Educação Infantil, bem como a multiplicidade de enfoques quanto à criança pequena, com avanços significativos no entendimento da criança como ser de direitos, ser social e produtor de cultura. Esses avanços estão ancorados nos escritos da Sociologia da Infância (Sarmento, 2004, 2008; Sarmento; Pinto, 1997) e nas denominadas pedagogias participativas (Oliveira-Formosinho; Kishimoto; Pinazza, 2007), que olham a participação da criança no processo educativo:
[...] há dois modos essenciais de fazer pedagogia - o modo da transmissão e o modo da participação [...]. A pedagogia da transmissão centra-se no conhecimento que quer veicular, a pedagogia da participação centra-se nos atores que coconstroem o conhecimento participando nos processos de aprendizagem (Oliveira-Formosinho; Formosinho, 2013, p. 8).
Entendemos que uma prática participativa permite a exploração e a participação corporal, abrindo espaços para o movimento, o brincar e a experimentação dos corpos, dos objetos e dos espaços.
Se o brincar, o corpo e o movimento inquietam, geram ações diferenciadas, mobilizam pesquisas e reflexões, também verificamos nesses estudos que, embora enlaçados a práticas positivas e enriquecedoras, trazem discursos sobre carência de formação, tentativas de outras práticas pautadas em experiências pessoais, e um processo de acertos e erros. Compreendemos que as resistências quanto ao corpo, ao brincar, ao barulho e ao uso dos espaços e tempos podem ser amenizadas com um olhar diferenciado sobre a criança e o brincar nos espaços de formação de professores.
Dentre considerações e possibilidades para a pesquisa e a formação de professores
Neste artigo, demarcamos o estado do conhecimento quanto ao brincar, corpo e movimento no tocante à formação de professores para a Educação Infantil. A partir do recorte temporal e das teses e dissertações selecionadas, verificamos uma escassez de estudos que atentem à dimensão corporal e de movimento que compõe o brincar. A relevância desse tema no processo de formação inicial de professores evidencia a necessidade de aprimorar o olhar da Pedagogia para as especificidades da criança pequena, reafirmando a validade de pesquisas e práticas que se debrucem na compreensão das possibilidades do brincar, compreendendo-o como uma experiência sensível que envolve e perpassa o corpo e o movimento.
Ao analisarmos o perfil dos pesquisadores, identificamos que a maioria dos estudos sobre o tema corpo/movimento provém da área de Educação Física, com 25 dos 58 pesquisadores listados tendo formação inicial nessa área. Essa predominância sugere que o entendimento do corpo e do movimento no brincar ainda não está totalmente integrado à Pedagogia, o que pode explicar a escassez de estudos nesse campo.
Podemos inferir a existência de lacunas na formação inicial de professores. A falta de pesquisas na área da Pedagogia que abordem o corpo e o movimento como elementos intrínsecos ao brincar resulta em uma formação inicial de professores deficiente nesse aspecto. Consideramos que essa ausência ou escassez de estudos pode impactar a prática pedagógica, pois a ausência de uma base teórica e prática sólida na formação inicial reflete-se nas práticas pedagógicas, limitando as oportunidades das crianças de vivenciarem o brincar em sua plenitude. Refletimos que as resistências observadas em relação ao brincar livre, ao movimento, ao uso do espaço e à gestão do tempo podem ser reflexo dessa lacuna na formação.
O brincar, corpo e movimento na formação de professores de Educação Infantil revela-se um campo rico e promissor, que merece ser explorado por diferentes pesquisadores. A diversidade de trabalhos analisados possibilita identificar as principais lacunas das pesquisas na temática. Nesse sentido, observamos algumas necessidades: mapeamento dos cursos de formação em Pedagogia e um estudo minucioso quanto à presença/ausência do brincar vinculado à compreensão de corpo/movimento; identificação dos conceitos e das concepções de criança e infância que sustentam as propostas formativas de professores; e estudos que verifiquem as possibilidades e/ou limitações do brincar e do corpo em movimento a partir do entendimento de criança.
Defendemos a necessidade de ampliar as pesquisas no campo da Pedagogia que abordem a intersecção entre brincar, corpo e movimento na Educação Infantil, considerando a importância dessa relação para o desenvolvimento integral da criança. Para além do campo da pesquisa, apontamos a necessidade constante de reafirmar o direito da criança ao brincar, pois abordar o brincar e uma criança que é corpo e/em movimento requer a compreensão das especificidades da Educação Infantil, o redimensionamento das práticas pedagógicas e o uso/a adequação dos espaços e tempos, elementos vinculados à formação inicial e continuada de professores de crianças.














