Introdução
Este artigo apresenta resultados da pesquisa de Mestrado intitulada A práxis da tolerância como necessidade existencial nos processos educativos e na formação de educadores: contribuições de PauloFreire (Conti, 2021), construída a partir de nossas preocupações com a intensificação das diversas formas de intolerância presentes na sociedade brasileira nos últimos anos. Essas formas de intolerância se manifestam pelo preconceito racial, pela violência contra crianças, pelo feminicídio, pela homofobia, pela aporofobia, pela xenofobia, entre muitas outras. Nossa intenção não é aprofundar discussões sobre cada forma de intolerância, mas apontar para a importância de observar atenta e conscientemente o contexto social cruel que temos vivido no Brasil, o qual provoca divisão entre pessoas e grupos, gerando o extermínio de vidas.
Esse terrível problema social adentra os espaços educativos, como escolas e universidades, por meio de relações humanas que segregam, desqualificam e oprimem pessoas e grupos, de maneira física e/ou emocional, deixando sequelas psicológicas ou lesões corporais. Se não houver um trabalho educativo capaz de prevenir ou combater essas relações discriminatórias e agressivas, em pouco tempo poderão se transformar em comportamentos de ódio que criam exclusão e aniquilamento entre os seres humanos. Alguns exemplos de pesquisas ilustram e justificam nossas preocupações como educadoras e mulheres comprometidas com a construção de uma sociedade menos injusta e violenta.
Dados da 14ª edição do Anuário de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP (2020) indicam que uma pessoa era assassinada a cada dez minutos no Brasil e que 72% desses crimes eram cometidos com armas de fogo. A vulnerabilidade dos negros também é apontada nos dados e, de acordo com o documento, 74% das vítimas de homicídio eram negras, assim como 75% das crianças e dos adolescentes vítimas de algum tipo de violência (FBSP, 2020).
De acordo com a mesma fonte, em relação à violência contra a mulher, 85,7% das vítimas de violência sexual eram mulheres, e mais da metade tinha menos de 14 anos quando foi violentada. Ainda segundo o anuário do mesmo período, a cada dois minutos uma mulher era agredida no Brasil e, a cada duas horas, uma mulher era assassinada (FBSP, 2020). Durante a pandemia da covid-19, essa problemática foi agravada, pois nos dois primeiros meses de confinamento a taxa de feminicídio aumentou em 22%, e as denúncias à Central de Atendimento à Mulher cresceram 27% (FBSP, 2020).
No ano de 2024, foram registrados 1.450 feminicídios no Brasil e 2.485 homicídios dolosos (com intenção de matar) de mulheres, além de lesões corporais seguidas de morte, de acordo com o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025, publicado pelo Ministério das Mulheres (Almeida, 2025). A respeito das formas de violência contra as mulheres, esse relatório denunciou que, em 2024, ocorreram 71.892 casos de estupro de mulheres, o que equivale a 196 estupros por dia. Nos casos de violência contra mulheres adultas, entre 20 e 59 anos, 60,4% deles ocorreram contra mulheres pretas e pardas, enquanto 37,5% ocorreram contra mulheres brancas. Isso evidencia a vulnerabilidade social vivida pelas mulheres negras. Esses dados, registrados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde, também indicam que a residência é o local onde ocorrem 71,6% das notificações (Brasil, 2025).
De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os índices de violência contra crianças e adolescentes também se mostraram preocupantes em 2023, pois 11 crianças e adolescentes eram agredidos a cada hora, a ponto de necessitar de ajuda médica (IPEA, 2023). A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) registrou essa grave situação ao denunciar que todos os dias, ao longo de 2023, quase 200 casos de violência física contra crianças e adolescentes, de zero a 19 anos, foram notificados pelas unidades de saúde do Brasil (SBP, 2024). Os dados também apontam que cerca de 80% das agressões sofridas por crianças até os 14 anos ocorrem dentro de suas próprias casas.
O relatório produzido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pelo FBSP, intitulado Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, divulgou que 15.101 crianças e adolescentes, de zero a 19 anos, foram vítimas letais de Mortes Violentas Intencionais (MVI) e que 164.199 foram vítimas de estupro e estupro de vulnerável no período de 2021 a 2023 (Unicef; FBSP, 2024). O relatório destaca que 90% dessas crianças e adolescentes vítimas de MVI são meninos, e 82,9% são negros, indicando que a maioria continua sendo adolescente, do sexo masculino e negro. Esses dados evidenciam que o risco de um adolescente negro, do sexo masculino, ser assassinado é 4,4 vezes maior que o de um adolescente branco.
Esses números escancaram o genocídio de adolescentes e jovens negros como resultado do racismo em nosso país, que foi construído histórica e socialmente, pois ninguém nasce racista, assim como ninguém nasce machista, misógino, homofóbico ou xenofóbico. Essas manifestações de intolerância são aprendidas nos grupos familiares, religiosos, sociais e institucionais, estando enraizadas nas práticas do colonialismo, da opressão, da eugenia e do ódio (Silva, 2021).
Essas pesquisas revelam como a violência está impregnada em nosso cotidiano e, muitas vezes, se encontra subnotificada pela falta de denúncias. Nesse sentido, o trabalho educativo pautado na tolerância na sociedade e nas instituições de ensino demanda o diálogo para a não aceitação da violência, de modo que cada vez mais os sujeitos tenham condições de conceber o mundo a partir de um olhar mais humano, acolhedor e ético.
Todas essas problemáticas sociais estão, de alguma forma, relacionadas à intolerância, pois esta afasta os sujeitos da possibilidade de humanizar-se e inculca a noção ilusória de superioridade que algumas pessoas acreditam ter em relação às demais. A partir dessa noção equivocada, formas de violência, preconceito e comportamentos discriminatórios e abusivos são tidos como justificáveis e até mesmo aceitáveis na perspectiva dos intolerantes. Assim sendo, a intolerância torna-se uma importante ferramenta para a manutenção de toda forma de opressão e, portanto, para a imposição violenta do poder de uns sobre os outros.
A intolerância perpassa toda a história do Brasil. Durante o período colonial, a imposição cultural e religiosa, a dizimação de indígenas e a escravidão foram ações cruéis cometidas por aqueles que se julgavam superiores. Era importante inculcar nos oprimidos a autodesvalia para que aceitassem sua “inferioridade” em relação aos colonizadores. Para Freire (2016, p. 206), “[...] uma condição básica ao êxito da invasão cultural é o conhecimento por parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca”. Nesse sentido, a intolerância é a manifestação concreta do processo de desumanização, que sustenta e legitima ações violentas, preconceituosas e discriminatórias.
Apesar de todas as barbáries denunciadas e investigadas sobre o período da Ditadura Militar (1964-1985), discursos autoritários e antidemocráticos ainda possuem adeptos nos tempos atuais. Durante as eleições para presidência da República, em 2018, a adesão massiva à extrema direita e ao autoritarismo, por parte da população, foi expressa com a vitória do deputado Jair Bolsonaro, que, durante sua campanha, exaltou o período da ditadura no Brasil. A respeito desse constante flerte com o massacre de pessoas contrárias ao regime ditatorial, Paulo Freire afirma que o “[...] autoritarismo, às vezes, [...] parece ‘ontológico’ ao ser nacional. E é óbvio que não faz parte da natureza da sociedade brasileira, certamente não é uma qualidade imutável dela, mas sempre a acompanhou” (Freire; Guimarães, 2013, p. 55). Superar esse apreço pelo autoritarismo perpassa por uma educação para a humanização e para a tolerância.
Assim sendo, justificamos a pesquisa sobre a tolerância no pensamento de Paulo Freire pela necessidade de pensar e agir em favor de uma educação que viabilize a formação de sujeitos capazes de intervir na realidade em prol de um mundo mais justo, democrático e solidário. Para o desenvolvimento desta pesquisa, indagamos: Qual a contribuição da práxis da tolerância apresentada por Paulo Freire na construção de uma educação para a humanização? Portanto, os objetivos consistiram em: a) analisar a práxis da tolerância expressa nos pressupostos de Freire; b) apresentar a contribuição dessa práxis para ações pedagógicas que buscam desenvolver um trabalho educativo para a humanização. Esta pesquisa foi realizada a partir de uma análise bibliográfica, de natureza qualitativa.
Na sequência, apresentamos os procedimentos da pesquisa, a análise dos dados e seus resultados. Por fim, as considerações finais com as contribuições do trabalho.
Os caminhos metodológicos da pesquisa
Para compreendermos a constituição da práxis da tolerância no pensamento freiriano, delineamos um percurso metodológico fundamentado na pesquisa bibliográfica e na análise de conteúdo. Desse modo, esta seção está organizada em duas subseções: a primeira apresenta a revisão da literatura sobre o tema, enquanto a segunda expõe a análise realizada a partir das obras de Paulo Freire.
Revisão da literatura sobre o tema
A fim de verificarmos a existência de estudos sobre o tema, bem como as abordagens feitas sobre ele nas pesquisas, realizamos a busca por artigos científicos nas plataformas Scientific Electronic Library Online (SciELO), Google Acadêmico, Educ@ e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Também foi feito um levantamento de teses e dissertações publicadas no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Em todas as buscas utilizamos as palavras-chave “tolerância AND educação” e “intolerância AND educação”, de modo a garantir a coerência com o pensamento de Paulo Freire, construído na dialeticidade entre conceitos, assim como na natureza contraditória e processual de toda realidade (Freire, 2000).
Nesse sentido, o sonho pela transformação do mundo como ato político exige a práxis da tolerância. No entanto, é preciso reconhecer que os sonhos trazem consigo seus contra sonhos, nos quais identificamos a intolerância. Sem conhecer as implicações do contraditório, e lutar contra elas, poderíamos nos perder na ingenuidade de admitir que o sonho, por si só, é suficiente para a transformação de um contexto ou situação. Se descartamos o contraditório na construção do sonho, permanecemos no puro idealismo; do mesmo modo, se o contraditório se torna a única possibilidade histórica, sucumbimos ao fatalismo, que impede quaisquer ações movidas à transformação.
No decorrer das buscas por trabalhos científicos que traziam estudos sobre a tolerância/intolerância, identificamos temas específicos como racismo, bullying, ensino religioso, questões de gênero, cultura cigana, entre outros. Entretanto, selecionamos apenas investigações de natureza empírica ou bibliográfica que trouxessem análises e discussões sobre tolerância/intolerância no contexto educacional. A inserção de estudos sobre cada forma de intolerância demandaria pesquisas mais aprofundadas sobre cada tema específico, o que se tornaria inviável para os limites deste trabalho.
Na plataforma SciELO foram encontrados 51 artigos com a palavra-chave “tolerância AND educação”, dos quais apenas três foram selecionados, e 30 artigos com a palavra-chave “intolerância AND educação”, dos quais nenhum foi selecionado. Os critérios de seleção adotados foram: presença da palavra “tolerância”, ou “intolerância”, no título dos artigos; publicações entre os anos de 2010 e 2020; enfoque em discussões sobre o conceito de tolerância/intolerância no âmbito educacional; e trabalhos oriundos da área da Educação.
Na busca por trabalhos científicos no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, por meio das mesmas palavras-chave e atendendo aos mesmos critérios de seleção, encontramos 160 pesquisas, das quais selecionamos quatro dissertações e três teses. No Portal de Periódicos da CAPES, levantamos um total de 1.561 produções, mas somente três trabalhos atenderam aos critérios definidos.
Na plataforma Educ@, foram encontrados cinco artigos com as palavras-chave “tolerância AND educação” e “intolerância AND educação”, dos quais nenhum correspondia aos critérios de seleção. Na plataforma Google Acadêmico, não foram encontrados resultados que atendessem aos objetivos desta pesquisa.
Do total de produções científicas analisadas (seis artigos, quatro dissertações e três teses), encontradas em todas as plataformas, apenas quatro apresentavam algumas concepções de Paulo Freire, como diálogo, educação bancária, autoritarismo e liberdade. Somente duas utilizaram o conceito de tolerância defendido por Paulo Freire, mas sem desenvolvê-lo em sua essência. Por isso, consideramos relevante estabelecer conexões entre o conceito freiriano de tolerância e outros conceitos desenvolvidos por ele em sua pedagogia crítica.
Apesar do tema tolerância estar relacionado a essas concepções, nenhuma pesquisa pretendeu analisar a tolerância/intolerância com profundidade, por meio da base epistemológica freiriana. Autores como Morin, Baudrillard, Maturana, Berman, Neuman, Habermas, Marcuse, Nietzsche, Merleau-Ponty, Voltaire, Locke, Arendt, Bourdieu, Foucault, Deleuze, McLuhan, entre outros, foram referenciais utilizados nos artigos para discussão sobre a tolerância.
A análise sobre a práxis da tolerância nas obras de Paulo Freire
A presente investigação possui caráter qualitativo, pois trabalha com “[...] significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis” (Minayo, 1994, p. 21). A abordagem qualitativa possibilita preencher as lacunas deixadas pela abordagem quantitativa na construção de pesquisas na área das Ciências Sociais e Humanas. De acordo com Triviños (1987, p. 120), “[...] os pesquisadores perceberam rapidamente que muitas informações sobre a vida dos povos não podem ser quantificadas e precisavam ser interpretadas de forma muito mais ampla”.
Vale ressaltarmos que, apesar de utilizarmos a representatividade numérica para organizar os dados coletados, nosso objetivo não foi estabelecer parâmetros estatísticos centrados na quantificação das informações. Segundo Bardin (2004, p. 142), “[...] a análise qualitativa não rejeita toda e qualquer forma de quantificação [...] podendo o analista recorrer a testes quantitativos: por exemplo, a aparição de índices similares em discursos semelhantes”. Assim sendo, quantificamos a frequência dos termos e das concepções relacionados à práxis da tolerância presentes nas obras de Freire para garantir rigor e consistência na análise das informações.
Para análise dos dados coletados nas obras de Freire, utilizamos a análise de conteúdo de Bardin, uma vez que esse tipo de análise “[...] fornece informações suplementares ao leitor crítico de uma mensagem [...] que deseja distanciar-se da sua leitura <<aderente>>, para saber mais sobre o texto” (Bardin, 2004, p. 163).
Verificamos todas as obras de Paulo Freire encontradas em sua biografia, a fim de identificar e analisar a construção da concepção da práxis da tolerância e suas relações com outros conceitos que fundamentam seu pensamento. Esse estudo propicia maior compreensão acerca da temática e, ao mesmo tempo, possibilita identificar as contribuições que o exercício da práxis da tolerância pode representar no espaço escolar para a transformação dos processos formativos.
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica1. Nesse sentido, Salvador (1978, p. 10) esclarece que
[...] a pesquisa feita em documentos escritos é chamada de pesquisa bibliográfica, quando se utiliza de fontes, isto é, documentos escritos primários; chama-se de consulta bibliográfica ou estudos exploratórios, quando se utiliza de subsídios, literatura corrente ou obras de autores modernos. Comumente, ambos os estudos são denominados simplesmente de pesquisa bibliográfica.
O material de pesquisa foram as obras de Paulo Freire apresentadas em Paulo Freire: uma história de vida, escrita por Ana Maria Araújo Freire (2017). Essa biografia foi escolhida como respaldo para o levantamento das produções do autor em ordem cronológica e contextualizada. A partir dela, foi possível verificarmos a presença ou ausência de discussões sobre tolerância/intolerância em todas as obras listadas.
Para identificarmos a práxis da tolerância nas obras de Freire, convertemos todas elas para o formato PDF utilizando o programa Adobe e estipulamos como termo de busca a palavra “TOLER”. Esse termo foi definido por meio de um recorte da palavra “tolerância”, de modo a contemplar também outras palavras relacionadas ao objeto de estudo, tais como “intolerância”, “tolerante”, “tolerar” etc. Essa etapa foi fundamental para levantarmos de forma precisa e ágil a presença do termo de busca nas obras e constatarmos em quais delas Paulo Freire tratou sobre a questão da tolerância. A partir desse levantamento, selecionamos as obras que continham as palavras relacionadas ao termo e passamos a analisá-las e a tratar os dados em seu contexto, em cada obra. Na próxima seção, apresentamos como se sucedeu a análise e os resultados dos dados coletados nas obras selecionadas.
A tolerância nos pressupostos de Freire
Para melhor compreensão do estudo da tolerância, baseado na produção de Paulo Freire, destacamos alguns aspectos importantes de sua biografia que evidenciam a íntima relação do tema pesquisado com sua vida, trabalho e produção intelectual.
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, Estado de Pernambuco, em 1921, filho de uma mãe católica e de um pai kardecista, com os quais aprendeu a importância de respeitar as diferentes religiões. Aos dez anos de idade mudou-se para a cidade de Jaboatão devido à crise financeira enfrentada por sua família como consequência da queda da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Essa mudança afetou profundamente a vida de Freire, como ele mesmo descreve neste trecho: “[...] me percebia como se estivesse sendo expelido, jogado fora de minha própria segurança. Sentia um medo diferente, até então não experimentado, me envolver. Era como se estivesse morrendo um pouco” (Freire, P., 2019b, p. 73).
O ambiente conhecido e familiar de classe média proporcionou a Freire a convivência com diferentes pessoas. Entretanto, foi durante os anos de vivência em Jaboatão que ele conheceu a fome e começou a sentir e perceber quanta crueldade havia na desigualdade social. As experiências de Freire em seu “primeiro mundo” fomentaram inquietações que marcaram profundamente seus pressupostos teóricos, como, por exemplo, a defesa da dignidade da classe trabalhadora e a luta por justiça social.
Ressaltamos, em especial, o período em que Freire esteve exilado, momento particularmente relevante para as discussões aqui apresentadas, porque é a partir dessa experiência que ele começou a pensar sistematicamente a concepção da práxis da tolerância e sua importância nos processos educativos. A primeira menção que Freire faz sobre essa concepção encontra-se na obra Educar com a mídia, dialogada com Sérgio Guimarães após o exílio. Durante esse diálogo, Freire destaca a importância de uma militância tolerante e sublinha que o professor em sala de aula deve proporcionar um ambiente de debates a partir das diferentes leituras e “[...] tolerar inclusive a postura politicamente oposta à sua, e testemunhar aos educandos a sua capacidade de conviver com essas diferenças” (Freire; Guimarães, 2013, p. 98).
Ao longo de sua atuação como educador, conectada significativamente com seus estudos, desenvolveu importantes conceitos teóricos na construção de sua pedagogia crítica, entre os quais destacamos: subjetividade-objetividade; humanização-desumanização; denúncia-anúncio; leitura de mundo-leitura da palavra; adaptação-transformação; seres condicionados e não determinados; ética e estética; diálogo; problematização; criticidade. Freire sempre articulou tais conceitos com a prática, que não se limitava a técnicas mecânicas, mas dizia respeito ao testemunho, à coerência entre palavra e ação, ao sonho daqueles que ousam lutar, às denúncias e aos anúncios que emergem da leitura de mundo e da aprendizagem com o corpo de cada sujeito. Com esse entendimento de sua pedagogia, investimos no estudo da tolerância como práxis, a fim de desvelar sua constituição e suas contribuições para os processos educativos.
Para analisar a práxis da tolerância nos pressupostos de Freire, convertemos para o formato PDF todas as obras apresentadas na biografia Paulo Freire: uma história de vida, escrita por Ana Maria Araújo Freire (2017). Com as obras em PDF, realizamos um levantamento em todas as produções de Freire pelo termo “TOLER”, por meio do atalho Ctrl+F, para facilitar a localização das palavras que continham o radical de busca. Apresentamos, nos quadros que seguem, as obras que não apresentaram discussões sobre tolerância e as obras em que Paulo Freire trata da práxis da tolerância, agrupadas em momentos históricos importantes de sua trajetória de vida, trabalho e produção intelectual.
Identificamos 21 obras que não mencionam a práxis da tolerância ou outro termo vinculado a ela contendo o radical “TOLER” (Quadro 1). Essas obras estão relacionadas a quatro períodos de sua vida, nomeados pelas autoras de acordo com acontecimentos relevantes de mudança.
Quadro 1 Obras de Paulo Freire que não apresentam a concepção de tolerância
| Período | Obras e ano de publicação |
|---|---|
| Antes do exílio | Educação e atualidade brasileira (1959) - Paulo Freire |
| Durante o exílio |
Educação como prática da liberdade (1967) - Paulo Freire Pedagogia do oprimido (1970) - Paulo Freire Extensão ou comunicação? (1969) - Paulo Freire Ação cultural para a liberdade e outros escritos (1975) - Paulo Freire Cartas à Guiné- Bissau: registro de uma experiência em processo (1977) - Paulo Freire Ensaios que compõem A importância do ato de ler (1982) - Paulo Freire |
| Transição entre o tempo do contexto de empréstimo e o contexto de origem |
Conscientização: teoria e prática da libertação (1980) - Paulo Freire Educação e mudança (1979) - Paulo Freire Dois ensaios sobre a importância do ato de ler (1987) - Paulo Freire Partir da infância: diálogos sobre educação (1982) - Paulo Freire e Sérgio Guimarães Pedagogia: diálogo e conflito (1989) - Paulo Freire, Moacir Gadotti e Sérgio Guimarães Medo e ousadia (1986) - Paulo Freire e Ira Shor Aprendendo com a própria história (1987) - Paulo Freire e Sérgio Guimarães Que fazer: teoria e prática em educação popular (1988) - Paulo Freire e Adriano Nogueira |
| De volta ao contexto de origem |
Educação na cidade (1991) - Paulo Freire Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra (1990) - Paulo Freire e Donaldo Macedo O caminho se faz caminhando (2002) - Paulo Freire e Myles Horton El grito manso (1996) - Paulo Freire e Roberto Iglesias A África ensinando a gente (2003) - Paulo Freire e Sérgio Guimarães Conversação libertária (1998) - Paulo Freire e Edson Passetti |
Fonte: Elaborado pelas autoras. Dados retirados do livro PauloFreire uma história de vida (Freire, A. M. A., 2017).
Encontramos 14 obras que trazem citações de Freire sobre a tolerância e apresentam outros termos relacionados a essa práxis, contendo o radical “TOLER” (Quadro 2). As obras foram divididas em três períodos de sua trajetória de vida, nomeados pelas pesquisadoras como momentos históricos fundamentais: de volta ao contexto de origem, publicações dialogadas após a experiência de Freire no contexto de empréstimo e publicações individuais póstumas (organização de Ana Maria Araújo Freire).
Quadro 2 Obras de Paulo Freire que apresentam discussões sobre a concepção da práxis da tolerância
| Período | Obras e o ano de publicação |
|---|---|
| De volta ao contexto de origem |
Pedagogia da esperança (1992) - Paulo Freire Política e educação (1993) - Paulo Freire Cartas a Cristina (1994) - Paulo Freire Professora sim, tia não (1993) - Paulo Freire À sombra desta mangueira (1995) - Paulo Freire Pedagogia da autonomia (1997) - Paulo Freire |
| Publicações dialogadas após experiência de Freire no contexto de empréstimo |
Educar com a mídia (1984) - Paulo Freire e Sérgio Guimarães. Essa escola chamada vida (1985) - Paulo Freire e Frei Betto Por uma pedagogia da pergunta (1995) - Paulo Freire e Antônio Faundez |
| Publicações individuais póstumas (organização de Ana Maria Araújo Freire) |
Pedagogia da indignação (2000) - Paulo Freire Pedagogia dos sonhos possíveis (2001) - Paulo Freire Pedagogia da tolerância (2005) - Paulo Freire Pedagogia do compromisso (2018) - Paulo Freire Pedagogia da solidariedade (2014) - Paulo Freire, Nita Freire e Walter Ferreira de Oliveira |
Fonte: Elaborado pelas autoras. Dados retirados do livro PauloFreire uma história de vida (Freire, A. M. A., 2017).
Analisando os dados presentes no Quadro 2, é possível verificarmos que Paulo Freire começou a refletir sobre a práxis da tolerância após sua experiência no exílio. Esse dado evidencia o impacto das vivências no contexto de empréstimo na constituição de Paulo Freire como sujeito no mundo, com o mundo e com os outros.
Após selecionarmos as 14 obras que apresentavam discussões sobre a tolerância, organizamos manualmente a frequência de ocorrência de cada palavra nas obras (Tabela 1).
Tabela 1 Frequência das palavras que contém o termo “TOLER” nas obras selecionadas
| Obras e ano de publicação | Tolerância | Intolerância | Tolerar | Tolerante(s) | Intolerante(s) | Intolerável | Intolerantemente | Tolero | Tolerá-los | Tolerarem | Tolerado | Total |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Pedagogia da tolerância (2005) | 15 | 5 | 10 | 1 | 1 | 2 | 4 | 38 | ||||
| Política e Educação (1993) | 15 | 5 | 1 | 5 | 26 | |||||||
| Professora sim, tia não (1993) | 15 | 1 | 3 | 4 | 1 | 2 | 26 | |||||
| À sombra dessa mangueira (1995) | 13 | 2 | 1 | 4 | 20 | |||||||
| Por uma pedagogia da pergunta (1995) | 10 | 1 | 2 | 1 | 1 | 1 | 1 | 17 | ||||
| Cartas à Cristina (1994) | 9 | - | 5 | 14 | ||||||||
| Pedagogia da esperança (1992) | 3 | 1 | 2 | 3 | 1 | 1 | 1 | 12 | ||||
| Educar com a mídia (1984) | 4 | 1 | 1 | 3 | 3 | 12 | ||||||
| Pedagogia da indignação (2000) | 2 | 1 | 2 | 5 | ||||||||
| Pedagogia da autonomia (1997) | 3 | 1 | 4 | |||||||||
| Essa escola chamada vida (1985) | 4 | 4 | ||||||||||
| Pedagogia dos sonhos possíveis (2001) | 1 | 1 | 2 | |||||||||
| Pedagogia do compromisso (2008) | 2 | 1 | 1 | 2 | 6 | |||||||
| Pedagogia da solidariedade (2014) | 3 | 3 | ||||||||||
| Total | 99 | 17 | 7 | 33 | 16 | 6 | 2 | 1 | 2 | 1 | 5 | 189 |
Fonte: Elaborada pelas autoras. Dados coletados nas obras de Paulo Freire.
Para analisar as relações que Freire estabelece entre a práxis da tolerância e outros princípios de seu pensamento, retiramos de cada livro os excertos que continham as palavras (unidades de registro) com o termo estipulado (TOLER). Aplicamos o procedimento de Osgood, apresentado por Bardin (2004), seguindo estas etapas: a) escolha das unidades de registro; b) escolha das unidades de contexto e recorte do texto em fragmentos; c) representação e interpretação dos dados.
A partir dos fragmentos encontrados nos livros, destacamos em amarelo as unidades de registro e em azul as explanações conceituais relacionadas a essas unidades. No Quadro 3, apresentamos alguns excertos presentes na obra Pedagogia da tolerância (Freire, 2014) como exemplo de como se deu a identificação e a organização dos excertos e dos elementos retirados de todas as obras selecionadas e vinculados à práxis da tolerância.

Fonte: Elaborado pelas autoras. Dados coletados na obra Pedagogia da tolerância (Freire, 2014).
Quadro 3 Exemplo da organização de unidades de contexto com unidades de registro vinculadas à práxis da tolerância
Após a organização e a análise das unidades de registro encontradas nas unidades de contexto (excertos) de todas as obras selecionadas, realizamos um esquema das relações entre as concepções de tolerância (Quadro 4), presentes nas produções do período pós-exílio de Freire, e outros princípios constitutivos do pensamento freiriano.
Quadro 4 Características e concepções que Paulo Freire relaciona à tolerância
| Obras | Relações estabelecidas entre concepções da pedagogia freiriana e a práxis da tolerância nas obras de Paulo Freire |
|---|---|
|
Pedagogia da autonomia (Freire, 2011) |
Progressista Crítica Democrática Lucidez Compreensão |
|
Pedagogia da esperança (Freire, 2019c) |
Democrática Dialógica Revolucionária Coerente Curiosidade Unidade na diversidade |
|
Professora sim, tia não (Freire, 1997) |
Democrática Progressista Paciente Coerente |
|
Cartas à Cristina (Freire, 2019b) |
Democrática Curiosidade Compreensão Dialógica Coerente |
|
À sombra dessa mangueira (Freire, 2019a) |
Esperança Democrática Coerente Progressista Solidária |
|
Pedagogia da indignação (Freire, 2000) |
Humanizadora Indulgente |
|
Política e educação (Freire, 2001) |
Aprender com o diferente Reciprocidade Crítica Humildade |
|
Educar com a mídia (Freire; Guimarães, 2013) |
Lucidez Crítica Democrática Coerente |
|
Por uma pedagogia da pergunta (Faundez; Freire, 2011) |
Revolucionária Crítica Humildade Coragem |
|
Essa escola chamada vida (Freire; Betto, 1986) |
Democrática |
|
Pedagogia da tolerância (Freire, 2014) |
Coerência Democrática Capacidade de viver com o diferente |
|
Pedagogia dos sonhos possíveis (Freire, 2021) |
Crítica |
|
Pedagogia do compromisso (Freire, 2018) |
Unidade na diversidade |
|
Pedagogia da solidariedade (Freire, A. M. A.; Oliveira, 2014) |
Humildade Aprender com o diferente |
Fonte: Elaborado pelas autoras. Dados coletados nas obras de Paulo Freire.
A partir dessas relações, realizadas por meio da análise de conteúdo proposta por Bardin (2004), foi possível compreendermos de maneira consistente e rigorosa a práxis da tolerância em Freire e, também, reconhecer seu contra sonho: a intolerância. A seguir, apresentamos as análises realizadas entre a práxis da tolerância, em dialeticidade com a intolerância, e suas relações com outras concepções freirianas identificadas em cada obra, conforme exposto no Quadro 4.
Alguns resultados das análises
Segundo Freire (2000, p. 26), “[...] a transformação do mundo a que o sonho aspira é um ato político e seria uma ingenuidade não reconhecer que os sonhos têm seus contra sonhos. [...]. Daí a natureza contraditória e processual de toda realidade”. Assim sendo, é importante salientarmos que a práxis da tolerância nos processos educativos é imensamente necessária, devido à existência da intolerância na esfera social. Por isso, buscamos apresentar índices de pesquisas que revelam como a intolerância está presente na história e no cotidiano brasileiros, e se manifesta em atitudes de ódio, discriminação, divisão, imposição de poder, extermínio de vidas. Reconhecer o contraditório é parte indispensável do projeto de intervenção no mundo. Portanto, quando identificamos, por exemplo, a relação intrínseca que Freire estabelece entre tolerância e coerência, paralelamente a essa relação encontra-se a intolerância e a incoerência.
Ao analisarmos as relações estabelecidas por Freire entre diversas concepções e a práxis da tolerância, constatamos que a educação progressista é uma das características relacionadas a essa práxis. Para Freire (2019c), uma das exigências para educadoras e educadores progressistas é não estarem demasiadamente certos de suas certezas e, nesse sentido, a práxis da tolerância favorece a postura receptiva e respeitosa em relação às diferentes percepções da realidade. O apego do intolerante às verdades que ele estabelece como inquestionáveis faz parte de uma estratégia de manipulação e domínio. Por isso, uma educação progressista está diretamente relacionada à práxis da tolerância ao possibilitar o diálogo entre os diferentes e aceitar as divergências adjetivas, ou seja, compreender e respeitar as diferenças não se aplica ao antagônico, ao contra sonho e seus defensores.
O diálogo é outra concepção freiriana relacionada à práxis da tolerância, pois a dialogicidade aproxima criticamente os sujeitos de seu mundo e traz à tona a capacidade criativa e revolucionária existente na diversidade e na comunhão das formas de pensar e existir. O diálogo não se efetiva em um ambiente hostil e arrogante, pois exige a escuta paciente, acolhedora e crítica, cujo objetivo primeiro é a construção de um novo olhar para a realidade, a partir da partilha de diferentes percepções sobre o mundo. Freire (2011, p. 111) elucida que “[...] quem escuta paciente e criticamente o outro, fala com ele. Mesmo que, em certas condições, precise de falar a ele”. Assim sendo, a dialogicidade proposta por Freire não é prescritiva, impositiva, estratégica, e não tem a pretensão de possuir a verdade, pois reconhece que o mundo não é, mas está sendo.
É por meio do diálogo que educadores e educadoras podem “[...] aumentar e aperfeiçoar o seu próprio entendimento de outras culturas, para se ter mais e mais leituras de mundo mais abertas, mais críticas” (Freire, A. M. A.; Oliveira, 2014, p. 39). Portanto, a relação entre a práxis da tolerância e a criticidade reside na potência de aprendizado sobre o mundo a partir da pluralidade de ideias e perspectivas. O contrário disso torna a educação um campo infértil, acrítico, justamente por ser limitado pela intolerância, que inibe qualquer expansão das consciências por meio das diferenças entre os sujeitos.
A lucidez também está relacionada à tolerância, assim como seu contrário se relaciona à intolerância. Para Freire, não existe testemunho da práxis da tolerância fora de uma postura lúcida frente à realidade (Freire; Guimarães, 2013). Ser tolerante não significa ignorar os desafios que se colocam perante o projeto de intervenção no mundo, mas, consciente dessas problemáticas, buscar “inéditos viáveis” (Freire, 2019a) que permitam o agir dos que sonham lucidamente com um mundo mais justo, solidário, democrático e tolerante. Não há lucidez na intolerância porque o intolerante preocupa-se exclusivamente com suas expectativas, que devem ser atendidas a qualquer custo. Convenientemente, ele ignora e nega os fatos que não lhe beneficiam e desconsidera as expectativas dos demais. Assim sendo, a práxis da tolerância se efetiva em uma ação coerente, lúcida e séria, que compreenda a realidade de forma crítica. Na ação lúcida em prol do sonho encontra-se a esperança, capaz de transformar a realidade.
Outra relação de interdependência que Freire estabelece com a práxis da tolerância refere-se à concepção de democracia. Sem tolerância, a democracia não se efetiva justamente porque parte da premissa de que todos possuem o direito e o dever do exercício cívico, o direito de livre pensar, expressar e questionar. Desse modo, enquanto a tolerância propicia o clima democrático, o exercício da democracia é, ao mesmo tempo, o cultivo da tolerância, pois uma depende e se beneficia da existência da outra. Uma educação para a tolerância é também uma educação para o exercício democrático. Por isso, é importante que o espaço escolar seja pensado para desenvolver esse preparo para a democracia. Afinal, para Freire (1997, p. 39), “[...] ninguém aprende tolerância num clima de irresponsabilidade, no qual não se faz democracia”. Para Freire (1997, p. 60), é
[...] preciso e até urgente que a escola vá se tornando um espaço acolhedor e multiplicador de certos gostos democráticos como o de ouvir os outros, não por puro favor, mas por dever, o de respeitá-los, o da tolerância, o do acatamento às decisões tomadas pela maioria a que não falte contudo o direito de quem diverge de exprimir sua contrariedade. O gosto da pergunta, da crítica, do debate.
A unidade na diversidade também está relacionada à práxis da tolerância. Para Freire (2019a, p. 125), é importante que a escola “[...] proponha aos educandos ou aproveite situações em que se experimente a força da unidade, a que se seguiriam situações em que se sublinharia o valor da unidade na diversidade”. Na intolerância, a “unidade” almejada baseia-se em padrões que excluem todos aqueles que não atendem às exigências do sistema imposto, por isso mesmo é sectária. A unidade na diversidade parte da valorização das diferenças e da pluralidade. A práxis da tolerância permite uma educação que tenha como objetivo fomentar a liberdade e o encontro das diferentes leituras de mundo.
A reciprocidade atribuída à práxis da tolerância refere-se à mutualidade indispensável para sua efetivação. Nesse sentido, a tolerância, para Freire (2014), não deve ser confundida com condescendência ou favor que um sujeito faz a outro, considerando que, a partir dessa compreensão equivocada, o “[...] tolerante, em última análise, é uma pessoa disposta, bondosa ou benevolentemente, a perdoar a ‘inferioridade’ do outro” (Freire, 2014, p. 25). O autor ainda alerta para o perigo dessa interpretação equivocada, pois nela se esconde no “tolerante” a “[...] desconfiança, quando não a certeza, de sua superioridade de classe, de raça, de gênero, de saber em face do tolerado. Este, por sua vez - espera o tolerante -, deve humildemente revelar sua gratidão à bondade do tolerante” (Freire, 2014, p. 25). A tolerância radical proposta por Freire só ocorre quando todos os sujeitos reconhecem que, ao mesmo tempo em que toleram, também são tolerados, pois não existe tolerância na unilateralidade.
A curiosidade também está intrinsecamente relacionada à tolerância. A respeito disso, Faundez e Freire (2011, p. 65) destacam que a “[...] curiosidade do estudante às vezes pode abalar a certeza do professor. Por isso é que, ao limitar a curiosidade do aluno, a sua expressividade, o professor autoritário limita a sua também”. Há muita liberdade na curiosidade, e ela pode levar o educando a pensar em questões que o educador não domina cientificamente. Professores com uma postura mais autoritária têm dificuldade em aceitar essa liberdade que a curiosidade oferece e tentam impor limites que cerceiam tanto a curiosidade quanto, inevitavelmente, a criatividade do educando. Afinal, “[...] não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos” (Freire, 2011, p. 33). Portanto, a práxis da tolerância auxilia no processo criativo porque permite que a curiosidade emerja e se desenvolva no espaço escolar.
Outra exigência ao compromisso com a práxis da tolerância é a coragem. Para Freire, o ato de tolerar é um ato de coragem. Freire (2011) afirma que assumir a não completude da verdade e do conhecimento e abrir-se para, em comunhão, ir em busca do conhecimento, exige coragem. É por isso “[...] que a fraqueza está naquele que julga deter a verdade e, por isso mesmo, é intolerante” (Freire, 2011, p. 63). Uma educação para a tolerância deve ajudar educandos e educadores a se desprenderem do ego que impede a coragem de reconhecer as próprias limitações e aprender com o diferente e em comunhão. Exercitar a humildade é parte fundamental para assumir o compromisso com a práxis da tolerância.
De acordo com nossas análises, feitas conforme os procedimentos da pesquisa bibliográfica e da análise de conteúdo de Bardin (2004), a práxis da tolerância na pedagogia freiriana foi construída essencialmente durante o período em que Freire esteve no exílio. Ele descreve esse momento de vida como uma situação-limite que o provocou profundamente, que o fez olhar atentamente para si e repensar a própria história (Freire, 2019b). Sobre sua passagem pelo exílio, o autor afirma: “É impossível passar por ele; experimentá-lo, não importa como, sem ser, de uma ou de outra forma, testados em nossa capacidade de amar, de ter raiva, em nossa solidariedade, em nossa fraqueza, em nossa capacidade de tolerar os diferentes, de ouvi-los, de respeitá-los” (Freire, 2019b, p. 91).
Foi durante o exílio que Freire compreendeu a tolerância como uma virtude revolucionária, momento em que percebeu a força solidária, democrática e humanizadora que existe na práxis da tolerância. Ele constatou que a tolerância permite o engajamento em comunhão dos sujeitos no processo de transformação radical da realidade - e é aí que reside a força dessa virtude (Freire, 2019c).
Considerações finais
Tendo em vista a intolerância que perpassa toda a história do Brasil e os índices atuais de violência, é possível identificarmos como os resquícios de um passado marcado por diversos tipos de intolerância permanecem presentes. Neste artigo, buscamos apresentar a construção da práxis da tolerância na epistemologia de Paulo Freire. Retomando a questão que fomentou nossa pesquisa e que compartilhamos na escrita deste artigo - Qual a contribuição da práxis da tolerância apresentada por Paulo Freire na construção de uma educação para a humanização? -, faz-se necessário voltarmos para as relações que ele estabelece entre essa concepção e outros princípios em suas obras.
Freire (2014) compreende a tolerância como uma virtude revolucionária, indispensável ao trabalho pedagógico comprometido com a humanização, além de qualificá-la como uma necessidade existencial. Assim sendo, a práxis da tolerância possibilita a aprendizagem respeitosa por meio dos diferentes saberes, considera a historicidade inerente ao conhecimento que está em constante transformação e preocupa-se com a preparação de sujeitos para serem cidadãos do mundo.
Constatamos que a práxis da tolerância apresentada por Freire está intrinsecamente vinculada a outras ações fundamentais para uma educação humanizadora e a princípios importantes na formação de sujeitos capazes de intervenção positiva no mundo, tais como o diálogo, a lucidez, o apreço à democracia, a unidade na diversidade, a reciprocidade, a coragem, a humildade, a curiosidade, a criatividade e o progressismo.
A tolerância possibilita o diálogo porque parte do princípio de igualdade entre os sujeitos, considerando que ninguém possui a verdade ou detém todo o saber e, por isso, todos podem e devem, a partir de suas vivências, pensar e dialogar sobre o mundo e com o mundo. Contudo, para que haja esse reconhecimento de igualdade, outro princípio indispensável é a humildade, pois sem ela a noção de superioridade de alguns em relação aos demais se sobrepõe ao direito que todo sujeito possui de se colocar no mundo criticamente.
Ao analisarmos a contribuição da práxis da tolerância para o diálogo, que por sua vez exige a humildade, constatamos também sua relação intrínseca com a concepção de democracia. Não há democracia verdadeira em meio à intolerância, e não podemos aceitar uma democracia farsante e excludente. É preciso defender e lutar pelo direito que, durante muitos anos, foi negado aos brasileiros por um regime de governo autoritário e perverso.
A práxis da tolerância é uma força impulsora do espírito democrático, da valorização da cidadania, da liberdade e do respeito às diferenças e, por isso, se faz tão necessária nos espaços escolares. No entanto, a postura democrática não é algo inato: precisa ser ensinada e exercitada nesses espaços, e a tolerância, como virtude revolucionária, propicia essa formação para a democracia.
A democracia implica outro importante princípio apresentado por Freire (2019a): a unidade na diversidade. Esse princípio permite a valorização do indivíduo no coletivo e sublinha a força existente nas diferenças e nos múltiplos saberes que emergem delas. Olhar para as diferenças com respeito e curiosidade aproxima e enriquece a leitura de mundo de todos os envolvidos no processo de partilha sobre as diversas realidades. Por meio dessa diversidade de perspectivas, abre-se espaço para explorar a curiosidade, fundamental para aflorar a criatividade dos sujeitos.
Freire também relaciona a lucidez à práxis da tolerância. Ser tolerante não significa ignorar as inúmeras mazelas da realidade, mas, apesar delas, é necessário seguir mobilizando-se em prol da construção de um mundo mais justo, solidário, ético, democrático e tolerante. Constatar os problemas, identificar suas raízes e reconhecer os que se beneficiam do caos faz parte de uma prática tolerante. Contudo, essa identificação não pode ser imobilizante, mas estratégica. Conhecer o contra sonho é essencial para combatê-lo, realizando a denúncia e o anúncio.
Freire compreende a práxis da tolerância como virtude; dessa maneira, não há o risco de ela servir, por exemplo, aos interesses de intolerantes. Como virtude, a práxis da tolerância encontra-se em um ponto de equilíbrio entre o excesso e a falta: o excesso de permissividade é a condescendência, e a falta de aceitação e a intransigência correspondem à intolerância. Portanto, é importante frisarmos que a tolerância não aceita tudo - isso seria condescendência, não tolerância. Ela também não é intransigente, autoritária ou presunçosa, pois isso seria intolerância. É importante nomear corretamente essas questões, já que, por vezes, há uma certa desconfiança atribuída à tolerância sob o pretexto de que nela possa existir o risco de aceitar o intolerável. A aceitação de comportamentos desumanizantes é condescendência com os violentos, não uma virtude.
Freire também destaca a reciprocidade indispensável ao ato de tolerar, pois não se tolera sem ser, ao mesmo tempo, tolerado. É um processo mútuo e de construção coletiva. Ninguém aprende a tolerância isolado: é justamente na vivência com as diferenças que os sujeitos aprendem a tolerar uns aos outros. Tolerar também implica coragem para aceitar as próprias limitações e abrir-se ao mundo como sujeito que está em constante transformação e aprendizado. Por tudo isso, Freire indica a práxis da tolerância como uma ação indispensável para uma educação verdadeiramente progressista.
Nesta pesquisa, foi possível constatar a contribuição dessa práxis ao trabalho de educadores progressistas, cujo objetivo é educar para a humanização. Isso se evidencia na ampla discussão e nas relações que Freire estabelece entre a tolerância e outros princípios, de forma complexa e profunda. O estudo e o compromisso com essa práxis possibilitam que os educadores analisem a própria realidade, refletindo sobre as relações que deverão se estabelecer no agir pedagógico em prol de uma educação para a tolerância.
Freire indica caminhos para a inserção da práxis da tolerância no espaço escolar em suas relações com outros importantes princípios para o exercício da cidadania. Ressaltamos que, ao assumir o compromisso com uma educação tolerante e, portanto, humanizadora, o educador também se humaniza e se permite aprender mais sobre o mundo em comunhão com os demais. O processo de ensino/aprendizagem torna-se mútuo, pois todos os envolvidos ensinam e aprendem por intermédio do diálogo - que não ocorre sem a práxis da tolerância.














