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Revista Diálogo Educacional

versión impresa ISSN 1518-3483versión On-line ISSN 1981-416X

Rev. Diálogo Educ. vol.24 no.83 Curitiba  2024  Epub 27-Feb-2025

https://doi.org/10.7213/1981-416x.24.083.ao03 

Artigo

“Em suaves preceitos”: conselhos para a formação católica feminina nos finais do século XIX

“In gentle precepts": advice for female Catholic education in the 19th century

“En suaves preceptos”: consejos para la formación católica femenina en el siglo XIX

Maria Celi Chaves Vasconcelos1  [a] 
http://orcid.org/0000-0002-3624-4854

Maria Teresa Santos Cunha2  [b] 
http://orcid.org/0000-0001-6200-6713

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil

2Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis, SC, Brasil


Resumo

O trabalho se propõe a analisar os conselhos registrados no livro “A mulher como deveria sê-lo”, na visão do padre Victor Marchal, missionário francês, cuja obra é traduzida em Portugal, no ano de 1892, pelo padre Mesquita Pimentel. O objetivo central é evidenciar a formação feminina católica proposta e considerada ideal, no século XIX, além de discutir a religião como devoção e como modeladora de comportamentos/condutas; analisar os preceitos morais para construção da imagem da “esposa perfeita”; e apresentar o exemplo de Maria como o padrão de virtude a ser seguido e aspirado pelas mulheres. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, histórico-documental, que tem como fonte uma obra escrita há mais de cem anos, buscando verificar aspectos de sua materialidade, desde a aquisição, apresentação e a linha editorial a que pertencia. Conclui-se que o padre Victor Marchal expressa sua preocupação com a emergência da formação da mulher/mãe ideal, tratando-as como rainhas no "reino do lar" e o seu livro como veículo de expressão e de transmissão de valores, de normas e práticas referendadas pela Igreja Católica para assegurar a permanência de valores religiosos em sua formação.

Palavras-chave: Formação Católica Feminina; Ideal Feminino; Mulheres Virtuosas; Manuais de Comportamento.

Abstract

The aim of this work is to analyze the advice recorded in the book “The woman as it should be”, in the view of Father Victor Marchal, a French missionary, whose work was translated in Portugal, in 1892, by Father Mesquita Pimentel. The central objective is to highlight the Catholic female formation considered ideal in the 19th century, in addition to discussing religion as devotion and as a model of behavior/conduct; analyze the moral precepts for building the image of the “perfect wife”; and present the example of Mary as the standard of virtue to be followed and aspired by women. This is a qualitative, historical-documental research, which has as its source a work written over a hundred years ago, seeking to verify aspects of its materiality, from acquisition, presentation, and the editorial line to which it belonged. It is concluded that Father Victor Marchal expresses his concern with the emergence of the formation of the ideal woman/mother, treating them as queens in the "kingdom of the home", and as book a vehicle for the expression and transmission of values, norms and practices referenced by the Catholic Church and thus to ensure permanence of religious values in their formation.

Keywords Female Catholic Education; Feminine Ideal; Virtuous Women; Behavior Manuals.

Resumen

El objetivo de este trabajo es analizar los consejos recogidos en el libro “La mujer como debe ser”, según la visión del padre Víctor Marchal, misionero francés, cuya obra fue traducida en Portugal, en 1892, por el padre Mesquita Pimentel. El objetivo central es resaltar la formación católica femenina considerada ideal en el siglo XIX, además de discutir la religión como devoción y como modelo de conducta; analizar los preceptos morales para construir la imagen de la “esposa perfecta”; y presentar el ejemplo de María como norma de virtud a seguir y aspirar por las mujeres. Se trata de una investigación cualitativa, histórico-documental, que tiene como fuente una obra escrita hace más de cien años, buscando verificar aspectos de su materialidad, desde la adquisición, presentación y la línea editorial a la que pertenecía. Se concluye que el Padre Víctor Marchal expresa su preocupación por el surgimiento de la formación de la ideal mujer/madre, tratándolas como reinas en el “reino del hogar” y su libro como vehículo para la expresión y transmisión de valores, normas y prácticas referenciadas por la Iglesia Católica para asegurar la permanencia de los valores religiosos en su formación.

Palabras clave Educación Católica Femenina; Ideal Femenino; Mujeres Virtuosas; Manuales de Conducta.

Introdução: um manual devocional

Devoção; ato de dedicar-se a alguém ou a alguma entidade. Sentimento religioso, Dedicação íntima, afeição, afeto. Objeto de especial veneração (Dicionário Aurélio, 1986, p. 586).

Livros que prescreviam comportamentos e preceitos de educação e de civilidade, direcionados sobretudo a mulheres católicas e produzidos por religiosos, atuavam como manuais devocionais e como veículos de expressão e de transmissão de valores. Essas obras continham normas e posturas a serem observadas e que, referendadas pela Igreja Católica, tornavam-se artefatos de especial reverência para o público feminino. Seu caráter doutrinal expressava-se, igualmente, na profusão de conselhos normativos sobre a educação de mulheres que, analisados no tempo presente, oferecem a possibilidade de captar as representações formuladas pelos seus autores, que agiam no interesse da convalidação de suas prescrições, assim como na consolidação de expectativas da sociedade oitocentista europeia.

Essa literatura dedicada às mulheres católicas era constituída, principalmente, pelos manuais devocionais, e atinge seu ápice em meados do século XIX, procedente, em grande parte, da França, mas traduzida em diversas línguas, incluindo o português, uma vez que seu conteúdo era aspirado pelos demais países, em especial, aqueles de religião majoritariamente católica. Nos países de língua portuguesa, nomeadamente, Brasil e Portugal, esses manuais devocionais foram muito apreciados por sua capacidade de regular o comportamento feminino, além de sua habilidade para a conversão e o convencimento das mulheres, por meio de exemplos que citavam a disposição da divindade para o prêmio e o castigo.

Na sociedade brasileira oitocentista, fortemente influenciada pelos padrões franceses, era notória a valorização de modelos de educação e de civilidade europeus que chegavam ao país através dos livros, dos periódicos e de manuais devocionais impostos ao público feminino (Gagliardo, 2014). Embora muito distante de uma organização sistematizada para a instrução da população, na educação “convivem como processos educativos aceitos e reconhecidos, tanto a educação pública como a particular e a doméstica que atendiam às expectativas de uma sociedade que buscava na instrução a afirmação de sua civilidade e de seus espaços de dominação” (Vasconcelos, 2005, p. XVII). Em um cenário de escassez de escolas, as inciativas públicas e privadas de instrução não eram suficientes para atender a toda a população e os serviços educacionais oferecidos pelas congregações religiosas católicas, no Brasil e em Portugal, acabaram tornando-se “quase como um serviço prestado pelo Estado e o clero católico, único existente em razão do monopólio, se constituíra em uma espécie privilegiada de funcionalismo público” (Manoel 2012, p. 2).

Nesse contexto de dominação dos preceitos da Igreja Católica sobre a educação, tanto em Portugal como no Brasil, durante toda a segunda metade do oitocentos e avançando pelo novecentos, pode-se afirmar que estes manuais devocionais circularam entre a população letrada, por conterem elementos da formação moral desejada e por serem as poucas leituras autorizadas às mulheres alfabetizadas de classes mais favorecidas social e economicamente. Sua difusão deve-se, especialmente, às habilidades de leitura favorecidas pelo investimento na educação e na crescente alfabetização feminina. Os estudos de Vasconcelos (2020) apontam que, nos anos de 1860, a leitura e a escrita, mesmo em ascensão, eram ações ainda sob controle para as mulheres alfabetizadas, pois se tratava de atividades consideradas tão “perigosas para as mulheres que eram praticadas quase em segredo, de forma preferencialmente, reclusa” (p. 31).

Corroborando essa assertiva, as análises de Setton e Valente (2016) lembram que os sistemas religiosos são espaços de construção de sentido e de colaboração na produção de identidade e, neste processo, mobilizam materialidades e simbologias. Assim, a produção e a divulgação, pela Igreja Católica, de impressos como livros e manuais devocionais para mulheres alfabetizadas materializavam, via conselhos escritos, simbologias para o exercício da devoção e da prática da virtude que, juntas, atuavam como forças estruturantes da formação católica feminina que se pretendia reforçar. Os estudos realizados por Orlando e Leonardi (2017) são fundamentais para “a compreensão das várias formas assumidas pelo catolicismo (como prática e como conjunto de ideias) [...] intervindo na educação, seja ela entendida como escolarização ou como socialização” (p.16). Para as autoras, os impressos divulgavam aquilo que era considerado, pela visão católica, o esperado, o lícito, o saudável para educar as leitoras, futuras mães católicas e, portanto, o uso do “proselitismo, da doutrinação e da evangelização por meio de impressos foi assunto bastante cuidado pela hierarquia da Igreja Católica, entre o final do século XIX e início do século XX” (Orlando; Leonardi, 2017, p. 16).

Ainda que muitos desses ensinamentos estipulados nos manuais tenham sido propostos no passado, há ecos dessas prescrições que ressoam no tempo presente, em particular, sobre comportamentos esperados e práticas de vida aconselhadas para formar, pela doutrina católica, mulheres e futuras mães de família educadas.

Cabe ressaltar que, no campo da história das mulheres, o século XIX está marcado por suas invisibilidades, notadamente, no espaço público. Elas habitam, prioritariamente, o espaço familiar e suas atuações pessoais estão vinculadas ao “silêncio dos arquivos” e ao “segredo dos sótãos” (Perrot, 2005, p. 34-35). Essa situação remete a uma certa opacidade que dificulta construir suas histórias, pois isso significa “chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar” (Idem, p. 11). Evidenciando as etapas desse silenciamento, Michelle Perrot explica que, na segunda metade do século XIX, “a mecanização da indústria têxtil e o avanço da alfabetização feminina provocam um afluxo de mulheres nas fábricas, pivô de sua socialização e de sua emancipação” (2005, p.223). Como forma de reação a este afluxo feminino ao espaço público e ao mercado de trabalho que as tiraria do lar, a Igreja Católica investe na educação de mulheres urbanas e em sua alfabetização através de vários dispositivos, entre os quais, a leitura orientada. Desse modo, as práticas de leitura foram, muitas vezes, iniciadas e propiciadas pela educação ministrada em colégios religiosos femininos e se caracterizavam pela aprendizagem a partir de uma literatura devocional que incentivava à conduta moral e à adesão aos deveres da caridade (Manoel, 2012). Nesta perspectiva, a prática da leitura autorizada em bases católicas assentava-se na divulgação de manuais de formação feminina, como ícones de orientação do pensamento que modelaria as mulheres em relação aos critérios de comportamento cristão exigidos e à atuação social piedosa almejada pela igreja.

O presente artigo tem como objeto e fonte de pesquisa um desses livros, intitulado “A mulher como deveria sê-lo”, exemplo de manual devocional, escrito por padre Victor Marchal, missionário apostólico francês, cuja obra é traduzida em Portugal pelo padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel e publicada no ano de 1892, em terceira edição, pela Livraria Internacional de Ernesto Chardron/Lugan & Genelioux e Sucessores, na cidade do Porto, onde foi elaborado na tipografia Vasconcellos, localizada na rua Sá Noronha, número 51. O objetivo central do estudo é evidenciar a formação feminina proposta e considerada ideal pela Igreja Católica, descrita no manual devocional de meados do século XIX. Em um plano mais específico discute-se a religião como devoção e como portadora de padrões e modeladora de comportamentos/condutas, analisando os conselhos e os preceitos morais para a construção da imagem da “esposa perfeita”, cujo exemplo da Virgem Maria fornecia o modelo de virtude a ser seguido e aspirado pelas mulheres, como demonstra o autor do manual: “A mulher, santificada pela virtude da Virgem Maria, porá muitas vezes de parte costumes e comodidades e até sua dignidade, para prestar serviços ao próximo, [...] Procuraremos, minhas senhoras, seguir os vestígios d’este modelo divino de mãe e esposa...” (Pe. Victor Marchal, 1892, p. 70-80).

Trata-se de uma obra escrita há mais de cem anos, cujos conselhos registrados estão divididos em 12 capítulos e apresentados em 308 páginas, nas quais é possível observar a temática de base formativa católica e o seu direcionamento exclusivo às leitoras mulheres.

O manual traduz a visão de seu autor comprometido com o propósito de evangelização feminina, como se pode observar na denominação dos capítulos expostos no Quadro 1:

Quadro 1 Capítulos do Livro “A mulher como deveria sê-lo” 

Capítulos Títulos
Capítulo I Quanto a mulher deve amar a Jesus
Capítulo II A mulher generosa e a mulher avara
Capítulo III A devota amável
Capítulo IV A mulher que se enriquece e a que se arruína
Capítulo V A mãe e o filho
Capítulo VI A mulher e a desventura
Capítulo VII A mulher frívola
Capítulo VIII A mulher miraculosa
Capítulo IX A desposada de Cristo
Capítulo X A virgem prudente e a virgem louca
Capítulo XI A piscina e o fogo
Capítulo XII Maria

Fonte: Arquivo pessoal das autoras.

O encontro com o livro do padre Victor Marchal ocorreu 127 anos distantes da publicação pela Livraria Internacional, entretanto, muito próximo de onde ele foi originalmente editado, na cidade do Porto, nas cercanias do local em que outrora estiveram estabelecidas conhecidas casas de livreiros, hoje transformadas em alfarrabistas de livros e de papéis usados. Em uma dessas vitrines de volumes usados, raros, porém considerados “fora de moda” em virtude dos temas tratados, lá estava o despretensioso exemplar de padre Victor Marchal, em meio a outras obras que remetiam desde edições geopolíticas antigas, a mapas de um mundo que já não existe mais. O livro encontrava-se ladeado por publicações de autores e poetas clássicos e por brochuras com suas capas de couro desgastadas pelo tempo, abertas em suas folhas de rosto com dedicatórias autênticas, marcas de ex-libris etc.

Ao folhear o livro de pequenas dimensões “A mulher como deveria sê-lo”, escrito por padre Victor Marchal, uma surpresa aguardava as mulheres que o abriam, neste século XXI: uma possível atualidade e mesmo algumas permanências nas formulações ali expostas que sinalizavam a possibilidade de se analisar as ressignificações e pensar a presença daqueles aconselhamentos e preceitos dados no passado, com outras roupagens, ainda no tempo presente. Trata-se de uma perspectiva de investigação em que a análise extrapola “a mera proximidade no tempo, mas remete também a outras formas de proximidade no espaço e no imaginário” (ROUSSO, 2016, p.19).

Assim, buscamos neste artigo dirigir um olhar atento para os aconselhamentos e os preceitos descritos por padre Victor Marchal, localizando as permanências e as ressignificações que permeiam o presente, a partir desta fonte escrita que continha uma proposta de formação feminina católica para aquelas leitoras.

Lembrai-vos, mulheres cristãs, que vos pertence uma grande e nobre missão no meio d’esse mundo que habitais. Compete-vos mostrar a seus olhos um modelo constante de dignidade, temperada pela graça [...]. Feliz a mulher virtuosa e pudica (Pe. Victor Marchal, 1892, p. 164-165).

Ressalta-se que a complexidade das informações contidas na obra indicava que não bastava ler, era preciso estudá-lo, entendê-lo e analisá-lo, para buscar nas linhas impressas de seu tradutor, padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel, aquilo que o autor imaginava que deveria ser o ideal feminino do século XIX, para suas leitoras em potencial.

A primeira questão a solucionar se referia ao padre Victor Marchal que, atravessando o século XIX1, na França, dedicou uma parte de sua profícua literatura à mulher. Padre Victor Marchal teria sido um entusiasta da liberdade feminina de ler e escrever ou suas ideias comprometiam ainda mais as poucas perspectivas possíveis às mulheres daquele tempo? Como no livro “A mulher como deveria sê-lo”, o missionário apostólico contribuiu para a criação e a propagação de um padrão feminino?

Essas indagações aos escritos de padre Victor Marchal nortearam as análises resultantes no presente artigo, buscando-se as representações da formação feminina católica que ele considerava como sendo o ideal de conduta e de comportamento para as mulheres, no século XIX. Salienta-se ainda, como essas prescrições possuem ecos/ressonâncias latentes, que fazem parte da construção de subjetividades femininas até os dias atuais, como vestígios sinalizados por Henry Rousso (2016) de um “passado que não passa (...) não está nem acabado, nem encerrado, em que o sujeito de sua narração é um ‘ainda aí’” (p. 18).

Observa-se que a mulher para quem padre Victor Marchal escreve, não é qualquer representante do sexo feminino, mas mulheres com boas condições econômicas, alfabetizadas, sobretudo, casadas, havendo críticas às mulheres solteiras e às beatas, particularmente, sobre a forma como se comportam.

Quero falar das mulheres que vivem no celibato. D’entre elas veem muitas que nos edificam a devoção por sua dedicação [...] e admiráveis virtudes. Mas muitas outras fornecem aos mundanos pretextos para caluniá-las (Pe. Victor Marchal, 1892, p. 75-77).

No que se refere aos aspectos metodológicos, trata-se de uma pesquisa qualitativa, histórico-documental, que busca verificar aspectos da materialidade da obra de padre Victor Marchal, desde a sua aquisição, condições de apresentação, autor e tradutor, e a linha editorial a que pertencia. A investigação problematiza, ainda, este manual como um produtor de sentidos pela prática de fornecer conselhos às leitoras e considera que o estudo comporta a disposição de reafirmar o papel da mulher ligado a cânones religiosos estáveis àquele tempo.

A operação historiográfica realizada também examina questões relacionadas aos processos de feminização que envolvem a presença de representações da mulher e não se restringem a uma classificação específica em que a categoria gênero emerge absoluta. Os processos de feminização se tornam visíveis quando mulheres são descritas, aconselhadas e colocadas em textos que exploram as mais diversas facetas e experiências a serem vivenciadas e recomendadas a elas em seus contextos histórico, social, político, geográfico, sexual, racial, classista, religioso, educacional, entre outros (Butler, 2018). Nesse sentido, ao evidenciar a produção e a divulgação de aconselhamentos às mulheres cristãs das décadas finais do século XIX, procura-se evitar “a fixação em problemas da Mulher, mas em mulheres e homens interagindo segundo padrões, práticas e valores historicamente engendrados” (Fonseca, 1998, p.20).

Neste recorte pode-se afirmar que os escritos do padre Victor Marchal são uma produção para o gênero feminino por excelência e que respondem ao imperativo de divulgar os comportamentos desejados e aconselhados pela Igreja Católica para a sua expressão e conversão naquele tempo e contexto.

Os padres escritores e a “devoção” às mulheres virtuosas

Padre Victor Marchal nasceu no ano de 1827 em um pequeno vilarejo de Lorraine2, uma antiga província no nordeste da França, que fazia fronteira com a Alemanha, a Bélgica e Luxemburgo, além de ficar ao lado da Alsácia, Champanha e do Condado Franco. Em seu livro de memórias, escrito em 1884, com o título de “Souvenirs d’un Prodigue”, o nascimento é descrito em uma modesta casa, situada em uma “triste vila”.

Após tornar-se sacerdote da congregação de Maria, padre Victor Marchal já está com 35 anos quando escreve e publica, em 1862, o livro original em francês, intitulado “La femme comme il la faut”. Abaixo do seu nome descrito como “Par LE R. P. V. Marchal De La Société de Marie”, está o Provérbio 30-31, que também ilustra a tradução de Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel: “é a graça enganosa e vã a beleza; entre as mulheres, a mais louvada será a que temer o Senhor”. A seguir, a primeira edição contém a ilustração da editora Librairie Catholique de Perisse Frères, localizada em dois endereços, em Paris, na nova casa de Régis Buffet e Companhia, na rua Saint-Sulpice, número 38; e em Lyon, na antiga casa na rua Merciere, número 49 e na rua Centrale, número 34, conforme demonstra a Figura 1 da capa da primeira edição.

Fonte: Biblioteca Nacional de França.

Figura 1 Primeira edição de “La femme comme il la faut” 

Logo na primeira página, padre Victor Marchal dirige uma mensagem as senhoras, em francês, “Mesdames”, indicando que as mães de família seriam o público-alvo do seu livro para que aprendessem a educar as filhas. Assim o missionário apostólico se dirige às senhoras:

Não é incomum encontrar mulheres decentes; basta, para isso, percorrer as nossas cidades, ou entrar nos nossos teatros, até nas nossas igrejas. O que é infinitamente mais difícil de encontrar é a mulher como ela deveria ser, isto é, a mulher como Deus a quer e como todo homem deveria sonhar com ela. Tais mulheres são raras, assim como todas as obras-primas; e se me atrevo a oferecer-lhe este livrinho, com uma confiança que muitas talvez tomarão por presunção ou ingenuidade, é com o único propósito de ajudá-la a multiplicá-las um pouco. Então pegue e leia. Se estas páginas não lhe transmitirem as mesmas emoções de um romance, também não terão o vazio nem os perigos. Talvez você tire disso alguma resolução salutar; você certamente provará que ainda existem mulheres fortes o suficiente para ouvir outras vozes além daquelas que as bajulam ou enganam. Lyon, 8 de dezembro 1861 (Pe. Victor Marchal, 1862, p. 1).3

A mensagem inicial de padre Victor Marchal é suprimida na tradução portuguesa do padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel e substituída por um prólogo do tradutor em que ele faz outras considerações a respeito da obra. Cabe notar que o prólogo é datado de abril de 1872, o que se refere, provavelmente, a primeira edição em língua portuguesa, visto que trabalhamos com o exemplar da terceira edição, publicado em 1892. É possível que, a cada 10 anos, fosse feita uma nova edição portuguesa do livro de padre Victor Marchal e este número de edições funciona como um indicativo da receptividade da obra.

O tradutor era um pouco mais velho que o autor padre Victor Marchal, pois Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel nasceu em 18234, e assim como o missionário francês, escreveu e traduziu outras tantas obras com temáticas religiosas em Portugal. Ao traduzir a obra “A mulher como deveria sê-lo”, o tradutor optou por colocar os seus primeiros dois nomes abreviados, assinando na frente do livro apenas como padre M. J. de Mesquita Pimentel. Na folha de rosto ele dedica o livro “Á excelentíssima Senhora D. A. Amélia Pinto da Cunha e Abreu Huet”, acrescentando que ela seria “Mãe cristã, esposa modelo e digno ornamento das Filhas de Maria”. Finalizando a folha de rosto com as iniciais O. e D., ele assina como “o Tradutor”.

Ana Amélia Pinto da Cunha e Abreu era uma mulher da sociedade do Porto, nascida em 24 de novembro de 1832, casada com Duarte Huet de Bacelar Sotto Mayor Pinto Guedes, um importante fidalgo português. Ana Amélia era mãe de três filhos e duas filhas, Maria Helena Huet Bacelar e Maria Brizida Huet Bacelar, o que sugere ter sido para a educação das meninas que se dirigiam os elogios do tradutor e autor do prólogo, padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel. A Figura 2 apresenta um retrato de Ana Amélia Pinto da Cunha e Abreu.

Fonte: geni.com/photo (2024).

Figura 2 Fotografia de Ana Amélia Pinto da Cunha e Abreu 

O prólogo de padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel inicia dizendo que há bons livros circulando nas mãos das senhoras, mas que a maior parte são para ouvir missas, orações e devoções e poucos são para dar conselhos que instruam e deleitem o espírito. Continua o clérigo, criticando que um dos grandes obstáculos à melhoria da formação feminina era o fato de não saberem ler ou de se dedicarem apenas a leituras supérfluas e a nocivas publicações de jornais cotidianos, com folhetins e romances, onde se faria “corromper o coração, exaltar a imaginação, desnortear a razão, envenenar a alma e excitar todas as más paixões” (Pe. Victor Marchal, 1892, p. IX). Portanto, para ele, o livro de padre Victor Marchal se constituiria em um antídoto ao veneno por essas leituras causado.

Constata-se, ao longo de todo o livro, que o grande vilão para padre Victor Marchal eram os romances, a pior das leituras, constituindo-se em histórias banais e fúteis, que seduziam para corromper e só falavam das coisas do mundo, das vaidades terrenas, da vida presente e nunca das coisas do céu, das verdades eternas, da vida futura.

A leitura de romances é, por via de regra, assaz prejudicial, por isso que pouquíssimos são os que podem ler-se sem receio [...]. A leitura de romances exerce lamentável influência no desenvolvimento das paixões, mormente d’algumas, como são ociosidade, o medo, o amor, a devassidão e os suicídio (Pe. Victor Marchal, 1892, p. 86-87).

O sacerdote finaliza seu prólogo, chamando atenção das mulheres para que lessem a Sagrada Escritura e depois se debruçassem sobre aquele “livrinho”, ainda que também recomendasse outros bons livros de autores com Proudhon e Voltaire.

Victor Marchal e o livro para educar as mulheres e as mães de família

O livro de padre Victor Marchal traduzido pelo padre português Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel, datado de 1892, possui doze capítulos e 308 páginas. Suas dimensões são de 18,5 cm de altura por 12 cm de largura. Está encadernado com papel marmorizado na capa, tendo a lombada costurada em tecido vermelho com letras douradas onde se lê “A mulher como deveria sel-o”. A seguir, a Figura 3 apresenta também a folha de rosto da tradução portuguesa.

Fonte: Arquivo pessoal das autoras.

Figura 3 Capa e folha de rosto da edição portuguesa de 1892 

O livro inicia com o tema “Quanto a mulher deve amar a Jesus” e dedica-se a mostrar a mulher como a sustentação da religião, além de afirmar o cristianismo como a religião que melhorou a condição da mulher em relação às crenças de outros povos e do próprio ocidente até a hegemonia cristã. Ou seja, padre Victor Marchal apresenta o cristianismo como o “libertador da mulher”. Para tanto, ele demonstra que a mulher é “associada as cenas evangélicas”, “venerada pelos apóstolos”, “protegida pela igreja”, que lhe confiou três sublimes ministérios: “da submissão, da educação e da caridade”. Assim, a mulher está destinada a ser esposa e mãe, devotada à missão sublime de educar a infância através de “incalculáveis dificuldades” e de exercer, na família e na sociedade, “o doce ministério de uma amável conciliação”. Já neste primeiro capítulo, padre Victor Marchal vai destacar um dos princípios mais recorrentes na sua obra: a curta duração da juventude e da beleza da mulher e, portanto, a necessidade dela se preparar para a velhice, onde esses atributos não existiriam mais, fazendo com que ela perdesse seus frágeis encantos.

Dando sequência a um discurso permanente de condenação da mulher por suas vaidades, no tópico seguinte, o missionário traça uma comparação entre “A mulher generosa e a mulher avara” e recorre a Santo Thomaz de Aquino para reforçar o significado da devoção como “uma disposição constante da vontade em prestar-se prontamente ao serviço de Deus” (p. 37). De acordo com padre Victor Marchal, o mundo estava mudando e o termo devoção já era visto com “risos”. Para exemplificar sua afirmação, ele conta histórias que elucidam os condenáveis comportamentos femininos, de mulheres avaras em seus palácios, de mulheres jovens com seus prazeres, de vaidosas com seus caprichos, de impetuosas com ofensas a seus empregados, alertando que elas não podiam ver o futuro. Usando uma conotação de ameaça, padre Victor Marchal assegurava que essas almas infelizes colheriam como resultado “o nada d’uma aridez tristíssima”.

Nota-se que as preocupações de padre Victor Marchal com as mudanças que se avizinhavam estavam relacionadas ao que Angela Davis exemplifica como “uma consequência ideológica do capitalismo industrial”. Embora houvesse a possibilidade de trabalho remunerado nos postos fabris que surgiam nas últimas décadas do oitocentos, a igreja chamava atenção para que a mulher continuasse no lar, dando suporte às necessidades do marido. “De fato, parecia que quanto mais as tarefas domésticas das mulheres eram reduzidas, devido ao impacto da industrialização, mais intransigente se tornava a afirmação de que ‘o lugar da mulher é em casa’” (Davis, 2016, p. 50).

Na mesma linha da construção narrativa de padre Victor Marchal, na qual as histórias possuem finais em que as mulheres “transgressoras” são castigadas, “A devota amável” é o título da próxima sessão. Apesar do enunciado, ele, aborda, em especial, damas que tratam mal as suas criadas, sobretudo, porque, segundo o clérigo, as mulheres são mais sujeitas a variações de humor, mais sensíveis, mais nervosas e refletem menos do que os homens, o que faz com que, por vezes, sejam mais grosseiras, tratando mal aqueles que as cercam. Nesse capítulo, padre Victor Marchal dedica alguns parágrafos para falar do comportamento ideal das esposas que deveriam obedecer aos maridos, por mais que “vozes enganadoras lhe preguem a emancipação”. Elas deveriam acostumar-se a suportar, desde cedo e sem murmúrio, as injustiças. Segundo ele, a impertinência de uma esposa só serviria para multiplicar seus males.

De acordo com Karen de Souza Colares (2023, p. 97) o temor da igreja em relação à insubordinação das mulheres aos maridos, tornando esse um tema recorrente nos manuais devocionais, estava relacionado à “retórica em torno do papel masculino de provedor do lar [que] se mostrará insuficiente diante das novas necessidades familiares”, advindas da formação social capitalista. Para a autora, nem a ascensão de mulheres ao posto de principais provedoras do domicílio logrou redefinir as alocações dos papeis sociais:

O patriarcalismo, no entanto, não se dissolverá por causa da presença feminina nos ambientes de trabalho remunerado, antes será fortalecido por meio dos papéis sociais de vulto que continuarão a ser conferidos aos homens. Mesmo no ambiente doméstico, o homem tem garantida uma posição de destaque nas relações de poder que ali se instauram. Isso se deve em grande medida às concepções de masculino e feminino em voga no pensamento sobre família (Colares, 2023, p. 97).

Nesse percurso de consolidação das mulheres no mercado de trabalho, embora atravessado por inúmeras mudanças sociais, a Igreja Católica colaborou enormemente para que as relações de submissão não se alterassem ao longo de décadas, esforçando-se, por diferentes meios, para legitimar o que considerava o comportamento ideal das esposas em relação aos maridos. Tais circunstâncias ecoam no tempo presente, como demonstra a ampla pesquisa analisada por Colares (2023), cuja temática envolve a religião na esfera conjugal, da qual a autora expõe o projeto de vida prioritário das mulheres consultadas,

não existe dedicação à construção de uma carreira. A profissão que exercem não foi exatamente escolhida, mas se apresenta como uma contingência, tendo em vista que o critério de seu aceite é a adaptação do trabalho em questão às condições estabelecidas pelo cônjuge: emprego de meio período, com a finalidade única de ajudar a prover o lar (p. 126).

Voltando-se para a relação das mulheres entre si, padre Victor Marchal também chama atenção para a dificuldade que elas demonstravam de viverem juntas umas com as outras, citando o caso de sogras e noras. De acordo com o clérigo, faltavam virtudes às mulheres para que pudessem, uma compreender a outra, reprimindo as pequenas paixões. Quanto às mulheres solteiras, embora as considere como prestando incalculáveis serviços aos ministros dos santuários, afirma que, por vezes, são “a encarnação viva do ferrenho egoísmo”, intolerantes com os criados, mortificando a todos que as rodeiam. O missionário termina o capítulo repetindo a frase de São Francisco de Sales: “Há pessoas que a força de querer ser bons anjos se esquecem de que devem procurar fazer-se bons homens” (Pe. Victor Marchal, 1892, p. 81).

Ao dissertar sobre “A mulher que se enriquece e a que se arruína”, padre Victor Marchal joga seu foco, mais uma vez, na leitura dos romances, criticando essa literatura juntamente com os folhetins, que poderiam desviar a mulher da sua função principal, pois a esposa ideal era aquela que deveria cuidar exclusivamente da casa. Para o missionário, a mulher piedosa era a mãe de família, que deveria viver para dirigir a sua casa, cuidando dos filhos com organização e limpeza, a fim de que, quando o marido voltasse do trabalho, encontrasse tudo na mais perfeita ordem: “a boa mulher é a primeira a levantar-se e a última a deitar-se”. Ao longo deste capítulo, padre Victor Marchal chega à conclusão de que as mulheres governam o mundo, porque governam quase sempre os que o governam.

Embora pareça contraditória a tese do missionário em relação aos seus ensinamentos anteriores, o governo ao qual ele se refere é tão somente um governo relacionado à casa, “ao reino do lar”, às engrenagens necessárias para dar aos homens as condições para fazerem “boas obras”. Além disso, esse discurso de padre Victor Marchal está relacionado a uma analogia presente na igreja, na qual as mulheres necessariamente estariam submetidas aos homens, assim como a igreja estava submetida a Cristo, conforme demonstra Colares citando Peace:

Outra razão por que a submissão mútua não é correta, é porque em Efésios 5,24 as esposas são ensinadas a serem sujeitas ao marido assim como ‘a igreja está sujeita a Cristo’. Como nunca haverá um tempo em que a igreja não esteja submissa a Cristo, assim também nunca haverá um tempo, nesta terra, em que as esposas não tenham que estar submissas ao marido. Não se trata de uma questão cultural. Trata-se de uma questão de autoridade ordenada por Deus (Peace, 2012, p. 143-144 apudColares, 2023, p. 190).

Colares (2023, p. 124) também apresenta uma argumentação no sentido de que “se não bastasse o peso das muitas obrigações, mulheres são, no geral, responsabilizadas pelo sucesso de seu matrimônio e, ao menor sinal de conflitos conjugais, sua origem é atribuída a elas de modo unilateral”. Ou seja, se os maridos não são capazes de fazerem “boas obras”, a responsabilidade está nas faltas da esposa.

Na sequência da descrição sobre a mãe de família intitulada “A mãe e o filho”, padre Victor Marchal se dedica a tratar das obrigações da mulher mãe, começando pela amamentação, passando pela primeira educação, a qual também caberia às mães. O sacerdote chama atenção das mães que estragam os filhos, uma vez que as crianças nasceriam más e que era preciso cultivá-las e corrigi-las. Mães com ternuras excessivas, que satisfazem todos os caprichos dos pequenos, habituando-os a mimos só fariam estragá-los, tornando-os tiranos de sua ama e de seus companheiros, o que mais tarde também seria o tormento de sua mãe e a vergonha de seu pai. Nesse capítulo, padre Victor Marchal, no rodapé, chama atenção para a triste condição dos “preceptores”, os quais teriam a penosa situação de ter que educar meninos insubordinados, crianças estragadas pelas mães.

Ina Von Binzer, contemporânea do missionário e de seus escritos, foi uma preceptora alemã que chegou ao Brasil em 1881 e permaneceu aqui até 1884. De regresso a sua pátria, publicou Leid und Freud’einer Erzieherin in Brasilien, em 18875, no qual corrobora o rodapé acrescido ao texto do manual de padre Victor Marchal:

São Paulo, 29 de maio de 1882.

Minha querida e boa Grete. Meus discípulos romanos são realmente muito mal-educados e preciso recorrer a variados recursos pedagógicos para tratar com eles. Não posso de modo algum deixar os dois meninos sozinhos, embaixo, trabalhando na sala de estudos, enquanto em cima dou lição de piano a Lavínia. Lembro-me da história do lobo, a cabra e os repolhos, que um barqueiro devia transportar através do rio, cada qual por sua vez, sem poder abandonar em segurança a cabra e ○ repolho ou o lobo e a cabra. Outro dia, Caius Gracchus [...] jogou o irmão pela janela baixa do andar térreo enquanto este, aos berros, atirava pedras e areia para dentro; você bem pode imaginar o estado em que ficou meu quarto. Os pais absolutamente não se incomodam com o comportamento das crianças e talvez isso esteja dentro dos "métodos" republicanos adotados pelo Sr. Costa (Binzer, 1994, p. 108).

“A mulher e a desventura” é o próximo tema, no qual padre Victor Marchal afirma que as mulheres cristãs devem ser sóbrias, modestas e hábeis para agradar os maridos pela virtude, evitando despesas e vaidades. E é no mesmo tom de ameaça que discorre sobre castigos prementes e futuros, quando não se desfrutaria mais da beleza e da juventude. Utilizando da mesma retórica, em “A mulher frívola”, a narrativa vai ter como foco as mulheres infelizes, “velhas que querem parecer novas” (Pe. Victor Marchal, 1982, p. 157), cujo prazer principal seria a toalete, as vestimentas, a vaidade e a sensualidade, fazendo dos seus vestidos “cúmplices das paixões”. Para o missionário, os vestidos eram os “artífices da mentira” e a moda e as novidades, as responsáveis pelo funesto sentimento de infelicidade que as mulheres tinham a cada dia, aspirando por um novo desejo, com uma motivação que as afastava da virtude. Assim, para ele, estar na moda devia significar uma mulher que demonstrasse virtudes e não aquelas que acumulavam vestidos e coqueterias.

A retórica de padre Victor Marchal demonstra a notória luta que se desenhava contra as facilidades de consumo que o capitalismo emergente proporcionava às mulheres, levando-o a fazer o possível, por meio do discurso, para mantê-las atreladas aos princípios da Igreja Católica na representação feminina de esposa e mãe. Colares (2023, p.100) alerta para o fato de que “o reforço do religioso, ainda que fragmentado, segue sendo de vital importância para as variadas instituições sociais”. Segunda a autora, a religião permaneceu preponderante na formação de consciências, as quais são alimentadas com alertas sobre a efemeridade da satisfação dos prazeres, diante da importância da preservação das etapas da vida futura como o envelhecimento e a morte (Colares, 2023 p. 114).

Outro tipo de mulher narrado por padre Victor Marchal é descrito como “A mulher miraculosa”. Nessa sessão, o religioso põe-se a dissertar sobre as mulheres que falam da vida alheia, fazendo disso um vício caluniador e, também, da inveja que as move a ter ódio de uma pela outra. Ele chama atenção das mulheres para que contenham a inveja, lembrando que o mérito das outras, em nada tira “o vosso mérito pois todas são filhas de Deus, esposas do Salvador e herdeiras do seu sangue” (Pe. Victor Marchal, 1982, p.198). Nesse caso, é visível a culpabilização das mulheres, em detrimento das mesmas circunstâncias ocorridas com os homens. Do mesmo modo, em meio a intensa competitividade entre os sujeitos, é direcionada somente às mulheres a culpa pelos conflitos cotidianos, eximindo-se os homens de fomentarem as mesmas adversidades.

Ao tratar da temática “A desposada de Cristo”, padre Victor Marchal vai falar sobre a virgindade das esposas de Cristo, as mulheres religiosas, afirmando que, de todos os esposos, é Jesus o único que proporciona às suas mulheres uma paz plena e perfeita. Durante várias páginas, o missionário discorre, longamente, sobre as benesses de se entregar ao casamento com Cristo como o melhor de todos os destinos. A seguir, vai enfocar “A virgem prudente e a virgem louca” título no qual, por meio de várias histórias, culmina sua obra, demonstrando as tentações a que estão sujeitas as mulheres. Para ele, só haveria uma forma de lutar contra esse mal, através da oração constante, além de se ter a alma pronta a lutar sempre, a fim de vencer as tentações. Além das orações, é recomendada a penitência, explicitada na sessão “A piscina e o fogo”, em que padre Victor Marchal, utilizando metáforas, onde a piscina é o lugar no qual a alma se purifica e o fogo é como a Santa Eucaristia, expõe as únicas maneiras para que a alma seja absolvida. Para tanto, ele recomenda o arrependimento e a compulsão do coração, com o propósito de se receber o verdadeiro sacramento da penitência.

Mais uma vez, é reforçada, ainda que subtendida, a tese da submissão das mulheres a todas as adversidades do casamento, pois somente haveria casamento perfeito com Cristo. De acordo com Colares (2023) “condutas problemáticas são em muitos momentos justificadas como sendo sacrifícios necessários para a glorificação divina. [...] Desse modo, incentiva-se a manutenção do compromisso conjugal a despeito das circunstâncias e do quanto possam ser nocivas para a saúde integral dos cônjuges” (p. 152).

Padre Victor Marchal termina o livro, no capítulo dedicado a “Maria”, contando a história de uma mãe, com as mesmas características de Maria, mostrando o poder da santa sobre a Terra. De acordo com o sacerdote, era por meio do exemplo de Maria, imitando a mãe de Jesus, que as mulheres encontrariam o modelo perfeito para seguir, de uma mãe puríssima, um espelho a ser refletido em cada mulher.

Após 308 páginas, com o índice ao final, o livro de padre Victor Marchal é encerrado, sem nenhuma nota a mais do tradutor, padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel. Os princípios apresentados em forma de aconselhamentos foram, não raro, repetidos do início ao fim, e reafirmavam que qualquer comportamento, para além do que estava prescrito, caracterizava-se como uma anomalia e até uma forma de transgressão da ordem natural. Pode-se considerar que a repetição/fixação de normas era também uma maneira de incutir, pela recorrência, aquilo que a igreja considerava fundamental às mulheres católicas praticarem em sua vida cotidiana, como a piedade, a virtude, a simplicidade, a humildade, a obediência, a bondade, enfim, o exemplo de Maria.

Manuais e preceitos para a educação feminina católica

O passado tornou-se uma matéria sobre a qual se pode, ou mesmo se deve constantemente agir para adaptá-lo às necessidades do presente (Rousso, 2016, p. 30).

Manuais de cunho religioso foram bastante divulgados como estratégia de formação da Igreja Católica, entre mulheres leitoras, desde a segunda metade do século XIX. Seus tons predominantes eram caracterizados em textos com tendência de moralizar e normatizar comportamentos esperados e edificantes, a partir de exemplos vindos do catolicismo, especialmente pela exemplaridade da vida virtuosa da Virgem Maria. Suas páginas estavam plenas de aconselhamentos em que virtude e devoção se constituíam em “elementos de expressão e de transmissão da cultura religiosa católica (...) e da construção de um comportamento ligado ao gênero feminino moldado pelos valores cristãos” (Algranti, 2004, p. 17-49).

Na atualidade, boas maneiras, regras de etiqueta, práticas de bom tom voltam à cena no século XXI e compõem o que se convencionou chamar de literatura de civilidade, que visa interiorizar códigos sociais para venda ao grande público. Certamente que a leitura de um manual do século XIX com seu teor de normativas de cunho religioso não teria espaço e receptividade no século XXI, entretanto, o formato e o tipo de leitura caracterizam permanências que ainda são utilizadas no sentido de conduzir ações e pautar regras de vida em sociedade. Há, no tempo presente, “uma febre de protocolos e até uma liturgia laica por bons modelos evidenciada pela circulação de manuais produzidos por profissionais de variadas formações” (Guereña, 2005, p. 11).

Considera-se que o manual de padre Victor Marchal contribuiu para a construção e propagação de um padrão de conduta esperado para aquelas mulheres alfabetizadas, leitoras católicas e mães dos finais do século XIX e mesmo do limiar do século XX. Nessa tessitura, este manual funcionou como um livro devocional de aconselhamentos, além de ter sido um construtor de subjetividades e, como tal, produtor de sentidos para a mulher como deveria sê-lo. O autor foi, portanto, um narrador autorizado e privilegiado da história do grupo católico que agiu como guardião e mediador responsável ao materializar, pela escrita prescritiva, normas, condutas e valores à educação do gênero feminino, especialmente às mulheres para educarem suas filhas.

Mesmo de forma discreta pode-se inferir que tais leituras abriram horizontes para que a própria Igreja Católica ressignificasse, de forma gradativa, suas propostas de educação feminina para além da vida meramente doméstica e maternal. A emergência de outros padrões de regulação social e emocional trouxe mudanças em consonância com novas e outras oportunidades que foram se abrindo ao gênero feminino, como o trabalho fora de casa. Os manuais ainda persistem e pode-se dizer que há muitos deles disponíveis à leitura em que se observam, pelas propostas anunciadas, um deslocamento para o espaço público e laico de temas que estavam circunscritos, no século XIX, ao domínio do privado e mesmo do religioso como, por exemplo, sobre sexualidades, vestir-se com decoro, educar crianças com limites de mimos, alimentar-se com moderação etc.

Cunha (2019, p. 100), diante desses documentos nos coloca a seguinte questão: O que buscamos nós, historiadores, nesses materiais? Esta fonte documental aqui estudada e problematizada ainda que aborde determinada temporalidade (século XIX) envolveu, pela análise, um processo de atribuição de sentido à experiência descrita e anunciada naquele tempo. Tal experiência nos impulsiona a pensar em um parentesco com a produção manualística do tempo presente quanto a intenções, metáforas e linguagens exortativas que continuam a ser utilizadas para descrever e normatizar comportamentos.

Para além do manual em suporte de papel aqui em destaque, há diferentes formas de divulgação desses objetos pelo mundo virtual (online e pela internet). Eles alcançam leitores e leitoras diversos, dispensando a necessidade do livro físico e abrindo espaço à invenção de outros e novos saberes que correspondem à novas e outras experiências de formação feitas através da leitura. Tais iniciativas ressignificam passados (virtuosos ou não), regras de convivência e protocolos de civilidade que são dados a ler por outras nomenclaturas, roupagens e alimentados por elementos fora dos ditames meramente religiosos que os estruturam. Eles são oferecidos, no século XXI, à leitura para outros leitores e leitoras que os legitimam e deles podem extrair preceitos comportamentais para suas vidas.

No âmbito da História da Educação o estudo deste manual, fruto de produção individual, com possível alcance coletivo, é portador de emoção e da memória aqui evidenciadas em suas múltiplas facetas tais como: conteúdo, circulação e linguagens que expressam sua historicidade e contribuem para compreendê-lo como um constante exercício na constituição do conhecimento histórico. Suas prescrições, com outros teores educativos apontam que “o passado deixou marcas a ferro quente, nos corpos, nos espíritos, nos territórios e nos objetos” (Rousso, 2016, p. 19).

Considerações finais

Padre Victor Marchal via o cristianismo como “libertador” da mulher e até “protetor” dos seus "direitos". Embora o tradutor português se queixe no prólogo que nem todas as mulheres poderiam usufruir daquela obra, porque não sabiam o "suficiente" da língua para entender o livro, suscitando a importância da leitura para as mulheres, por outro lado, há uma constante advertência contra os romances e os folhetins que poderiam corromper seus pensamentos. Ambos os clérigos, autor e tradutor, fazem uma recomendação nominal dos livros que poderiam ser lidos pelas mulheres católicas, quase todos escritos por padres e santos. Além disso, a leitura dos romances e folhetins reaparece ao longo de toda a obra como sendo algo muito prejudicial às mulheres, que criariam sonhos e expectativas impossíveis de serem concretizadas, fazendo-as acreditar em uma realidade inexistente para o sexo feminino, que estava fadado a uma existência de dores e abnegações ocasionadas pelo casamento e pela maternidade.

Outra grande ameaça constante à virtude estava na beleza feminina, para a qual se alertava da efemeridade, pois esvaindo-se em pouco tempo, restaria apenas a devoção e a conduta moral e religiosa, as quais deveriam ser cultivadas, uma vez que seriam as únicas qualidades duradouras. Para padre Victor Marchal, a mulher é como uma "criança" diante de Deus, ainda que possa ser uma tirana para com os criados; ainda assim, merecia ser perdoada pois faltava a ela orientação para que agisse corretamente e se portasse de maneira adequada.

O livro de padre Victor Marchal, escrito em meados do século XIX, se referia muitas vezes à ideia de que o mundo estava mudando. Diante disso, expressava sua preocupação com a emergência da formação da mulher/mãe ideal, chegando a interessante conclusão, para a época, de que as mulheres poderiam ter algum papel nessa mudança que estava por vir, ainda que não forneça indicativos sobre como haveria outras formas de ser para viver tal mudança.

As prescrições feitas por padre Victor Marchal, no século XIX, soam como anacrônicas e mesmo estranhas, mas ajudam a considerar a existência de alguns ditames capazes de aproximar este artefato cultural como portador de “representações e modelos que funcionavam como verdadeiras camisas de força culturais” (Martins, 2001, p. 158), além de hábitos e de costumes que se desejavam fixar. Outros fios poderão ser desfiados a partir desses preceitos (nem) tão suaves que deverão ser enfrentados em outros estudos, nos quais a presença do passado mais distante possa ser pesquisada e problematizada em eventos do presente, aproximando ou intrigando pontos comuns que contenham.

Como fonte documental aqui mobilizada, o livro do padre Victor Marchal permite problematizar, na tessitura das experiências humanas, permanências e ressignificações que ainda se encontram no presente, evidenciando marcas de tais manuais e seus usos. Embora no tempo presente o poder da Igreja Católica não exerça mais sua força de coerção e não tenha sequer exclusividade de ditar bons modos e regras morais, muito menos pela via da leitura de manuais, os escritos desse livro fornecem compreensão de um tempo passado que ressoa desdobramentos nas subjetividades hodiernas, em variados suportes e dispositivos que ocupam espaço nas relações cotidianas.

Como citar: VASCONCELOS, M. C. C.; CUNHA, M. T. S. “Em suaves preceitos”: conselhos para a formação católica feminina nos finais do século XIX. Revista Diálogo Educacional, v. 24, n. 83, p. 1549-1566, 2024. https://doi.org/10.7213/1981-416X.24.083.AO03

1Padre Victor Marchal nasceu em 1827 e morreu em 1903, na França. Disponível no site na Biblioteca Nacional de França - Gallica - em: gallica.bnf.fr/ark:/

2Conforme informações disponíveis de sua biografia no site na Biblioteca Nacional de França - Gallica - Souvenirs d'un missionnaire / par M. l'abbé Marchal, 1874 (Auteur Marchal, Victor (1827-1903). Disponível em: https://gallica.bnf.fr/services/engine/search/sru?operation=searchRetrieve&version=1.2&query=%28gallica%20all%20%22Victor%20Marchal%22%29&lang=fr&suggest=0

3Original em francês, tradução livre das autoras.

4De acordo com as informações da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira - Portugal, o padre Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel faleceu em 1904. Disponível em: http://www.biblioteca.cm-feira.pt:8080/ipac20/ipac.jsp?session=169N3573BP879.12999&profile=bmsmf&uindex=BAW&term=Pimentel,%20Manuel%20Joaquim%20de%20Mesquita,%20padre&aspect=subtab13&menu=search&source=~!bmsmf

5Traduzido e publicado em português como Os meus romanos. Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil, em 1956.

Fonte documental

MARCHAL, R. P. Victor. A Mulher como deveria sê-lo. Porto: Tradução de Pe. Manuel Joaquim de Mesquita Pimentel. Porto - Pt: Livraria Internacional de Ernesto Chardron/ Lugan & Genelioux e Sucessores, 1892. [ Links ]

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Recebido: 23 de Julho de 2024; Aceito: 30 de Setembro de 2024

[a] Doutora em Educação, e-mail: maria2.celi@gmail.com

[b] Doutor em Educação/História e Filosofia, e-mail: mariatsc@gmail.com

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