Introdução
Por meio da ciência, novos conhecimentos são produzidos no campo acadêmico, consequentemente, possuem a necessidade de serem comunicados a comunidade científica e o público em geral, sendo propagados por distintos formatos, com recursos informacionais que contribuem para a comunidade científica e para comunicação científica, mediante trabalhos executados no decorrer da pesquisa com resultados obtidos parciais ou finais (MIRANDA; CARVALHO; COSTA, 2018). Na visão de Targino (2000), pensar sobre a importância da ciência requer reconhecer o valor da informação científica, do conhecimento científico, e, por conseguinte, da comunicação científica.
Para fins de conceito, a comunicação científica nos estudos da ciência da informação, é definida por Garvey e Griffith (1979) como o conjunto de atividades associadas à produção, disseminação e uso da informação, que durante a pesquisa ocorre a geração e a disseminação se dá pela transferência da informação por meio de canais de comunicação heterogêneos, os quais podem ser formais ou informais, orais ou escritos.
Os canais de comunicação científica mencionados por Garvey e Griffith (1979), tem sido modificados com o surgimento do movimento da ciência aberta na contemporaneidade, que traz como premissa a democratização do conhecimento humano e do acesso livre, avesso as barreiras financeiras e propriedades que impedem o acesso e desenvolvimento da informação e do conhecimento de modo planificado (ALMEIDA, 2019). O movimento também encontra convergência com o advento das tecnologias da informação e comunicação (TICs), que têm contribuído para a consolidação de estruturas abertas e colaborativas à dinâmica humana, que ao longo dos últimos anos tem se consolidando como movimento sociocientífico que busca redimensionar a produção de informação e de conhecimento, a ciência aberta.
Valeiro e Pinheiro (2008, p. 167) apontam que já é evidente as alterações nas características e padrões da comunicação científica em decorrência dos avanços das TICs, trazendo novos contornos, proporcionados pelo alcance das tecnologias, que permitem percorrer, em fração de segundos, distâncias geográficas. Também as TICs são responsáveis pelo considerável aumento do fluxo de informações para novos territórios, em campos de conhecimento diversificados, de múltiplos interesses e de acesso livre.
Nessa dinâmica, os periódicos têm se tornado relevantes no campo da comunicação científica, em que os estudos sobre periódicos ganham projeção com o open access, que é um movimento anterior a ciência aberta, mas que pavimentou o caminho para consolidação de um movimento maior, a ciência aberta. Conforme Gruszynski, Golin e Castedo (2009, p. 3), “as práticas editoriais associadas aos periódicos científicos impressos e eletrônicos na contemporaneidade nos colocam diante de um gênero de publicação que circula em um espaço social singular - a comunidade científica, os pares - e que se configuram inicialmente segundo estrutura e função surgidas no século XVII.”.
Os periódicos eletrônicos, definidos por Oliveira (2008, p. 71), são aquelas publicações em que se “pretende ser continuada indefinidamente, que apresente procedimentos de controle de qualidade dos trabalhos publicados aceitos internacionalmente, e que disponibilize o texto completo do artigo através de acesso online, podendo ter ou não uma versão impressa ou em outro tipo de suporte”. Os mesmos desempenham papel significativo no processo de comunicação científica, ampliando o acesso e difundindo entre os pares os progressos nas mais diversas áreas das ciências.
Nesse sentido, a comunicação científica, os periódicos e à aderência da ciência aberta pode apresentar dinâmicas próprias quando se faz um recorte a partir de áreas do conhecimento, aqui vamos observar essas intercessões na área de conhecimento da educação, que estar inserida no colégio de humanidades, especificamente nas ciências humanas segundo a Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)2.
Nesse sentido, objetivo deste trabalho é discutir o processo de aderência à ciência aberta em periódicos de educação vinculado ao catálogo do Fórum de Editores de Periódicos da Área de Educação (FEPAE) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (Anped), o motivador desta análise decorre do movimento em que as discussões da ciência aberta na pesquisa em educação ainda não reverberam de forma consistente e contínua, considerando que os periódicos tem sido provocados a repensar as novas dinâmicas de comunicar as pesquisas e possuem diferentes processos, etapas e configurações, que assumidas em um contexto de ciência aberta ainda muito difuso.
A escolha de analisar as revistas a partir da FEPAE/ANPED, se deve ao processo de organização, articulação e estrutura que o Fórum tem assumido no interior da associação de pesquisa mais importante da área de educação no Brasil. O catálogo da FEPAE/ANPED reúne periódicos da área, oferecendo uma amostra representativa da produção científica e de uma centralidade de pesquisas em educação. Ao focar nesses periódicos, a discussão retrata uma parcela significativa da comunicação acadêmica no âmbito da área da educação, assim a escolha do catálogo da FEPAE/ANPED é estratégica, pois permite uma abordagem detalhada e contextualizada sobre a aderência da ciência aberta nos periódicos de educação, levando em consideração a representatividade, qualidade e influência dessa amostra na comunidade acadêmica e no panorama educacional brasileiro.
Para a construção deste trabalho foi realizado o levantamento de dados das revistas que estão inseridas no catálogo da FEPAE/ANPED, o levantamento consistiu em buscar as seguintes informações, em que foram estruturados em planilha com seguintes categorias: Aceita trabalhos em preprints? Os dados de pesquisas publicadas são orientados para o acesso aberto? A revista adota a revisão aberta por pares? Estar indexada na SciELO? e qual é o sistema de gerenciamento do periódico? E por último - Informações relevantes - aqui no sentido de algo que estivesse alinhado ao movimento da ciência aberta, mas que fugisse as categorias apresentadas anteriormente, para esse item, foram observadas algumas informações com relação direta a ciência aberta e que com contribuição para a investigação.
A coleta de dados se deu durante o mês de janeiro de 2024, foram analisadas cento e setenta e quatro (174) revistas, sendo possível acessar apenas cento e setenta e duas (172). As revistas foram acessadas através do endereço eletrônico descrito no catálogo da FAPEA/ANPED, em seguidas os dados foram tabelados e analisados, observando a frequência das informações que forma obtidas.
Para obter as informações deste levantamento foi verificado os itens presente em cada uma das revistas vinculadas ao catálogo da FEPAE/ANPED, onde foi acessado os seguintes itens de cada página online do periódico, como: “submissão”, “diretrizes para autores”, “políticas editorais”, “declaração de privacidade” e “sobre a revista”, por entender que nesses campos existem as orientações para autores sobre a política e prática editorial da revista. Os dados obtidos foram tabulados e observado a ocorrência de determinadas práticas.
A realização da pesquisa sobre à aderência da ciência aberta nos periódicos de educação tem como justificativa observar incorporação atual da ciência aberta, em que visa fornecer considerações abrangente da medida em que os periódicos de educação têm incorporado os princípios da ciência aberta em suas operações editorais. É importante orientar que este trabalho não visa proporcionar um estudo comparativo do recorte entre áreas do conhecimento.
Com descrição do que foi apresentado nesta seção, vamos fazer a evolução do trabalho trazendo aporte teórico para explicar o fenômeno da ciência aberta em periódicos de educação, buscando analisar o processo de aderência das revistas atualmente vinculadas ao catálogo da FEPAE/ANPED.
Desenvolvimento
Os periódicos científicos, em qualquer área do saber, como aponta as autoras Gruszynski, Golin e Castedo (2009), tem em sua gênese o “processo de comunicação da ciência, funciona como uma das instâncias de consagração. Ao atuar como um filtro seletivo, reproduzindo as sanções e exigências próprias do campo científico, confere valor às pesquisas e as situa no seu grau de originalidade em relação ao conhecimento já acumulado em determinada área do conhecimento”.
Mueller (2006, p. 27) descreve que o movimento:
[...] para acesso livre ao conhecimento científico pode ser considerado como o fato mais interessante e talvez importante de nossa época no que se refere à comunicação científica. Ao mesmo tempo, este movimento representa um enorme desafio para a comunidade científica, à medida que, quanto mais amplo o seu sucesso, mais radical será a mudança provocada no sistema tradicional e profundamente arraigado de comunicação do conhecimento científico”.
A autora observa que o elemento motivador da constituição do movimento, nasce em decorrência da chamada crise dos periódicos, por volta dos anos 1980, já antecipada desde a década de 1970. O estopim dessa crise foi a incapacidade das bibliotecas universitárias e de pesquisa dos Estados Unidos de manterem suas coleções de periódicos e de atenderem à crescente demanda de seus usuários, uma incapacidade decorrente da falta de financiamento para cobrir os custos apresentados pelas editoras, custos estes que aumentavam a cada ano, superando até mesmo a inflação e outros índices econômicos. Essa situação já estava ocorrendo nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, onde as bibliotecas já não conseguiam manter suas coleções atualizadas. No entanto, a crise só se tornou evidente quando afetou as universidades norte-americanas. (Mueller, 2006, p. 31). Nesse momento a comunidade científica começa a questionar a viabilidade e sustentabilidade dos periódicos da época, outro ponto que ficou em evidência foi o fato que muitas pesquisas recebiam investimento público e que apenas uma fração muito pequena dos dados e derivados ficavam disponíveis para a sociedade (Weitzel, 2014).
O retorno social tem ficado evidente na atualidade, que muitas agências de fomento passam a promover a abertura de todos os processos e resultados da pesquisa, como é o caso do programa europeu Horizon 2020 vinculado ao União Europeia, que tem buscado proporcionar o avanço à ciência, em que as pesquisas científicas e acadêmicas, desenvolvidas ou não em laboratórios, em que se tornem produções intelectuais que beneficiem a comunidade em geral (Mugnaini; Igami, 2022). No âmbito brasileiro podemos destacar o caso da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em formalizou em 2019, sua Política para Acesso Aberto às Publicações Resultantes de Auxílios e Bolsas Fapesp (Mugnaini; Igami, 2022).
A Declaração de Budapeste3 de 2001, desempenhou um papel crucial nesse estágio, delineando os princípios do acesso aberto e estimulando a mudança para uma cultura mais inclusiva e transparente na disseminação do conhecimento. A transição gradual de acesso aberto para ciência aberta reflete um movimento mais amplo em direção à abertura de todo o ciclo de pesquisa. Manifestos como a Declaração de Berlim4 de 2003 e a Declaração de São Francisco sobre Avaliação por Pares5 de 2012 consolidaram o compromisso com a transparência, compartilhamento de dados e métodos, promovendo uma abordagem holística para a prática científica. Essa mudança não se limita apenas à acessibilidade de resultados, mas envolve a abertura de processos, colaboração e participação da sociedade em todas as fases da pesquisa.
Com o desenvolvimento da ciência aberta novos arranjos deste movimento passam a surgir, como é caso dos arquivos preprints, revisão de pares abertos, abertura de dados de pesquisa, cadernos de laboratório aberto, diante desta nova dinâmica na comunicação científica, aumenta as complexidades na editoração de periódicos científicos na área educacional, em sintonia com as demandas de tornar a pesquisa aberta, garantir transparência, inclusão, impacto social e relevância acadêmica. Destacam-se a importância do acesso aberto e a sustentabilidade dos periódicos, boas práticas editoriais, o papel do preprints na publicação científica, além de considerações sobre indexação e bases de dados.
Preprints
A divulgação de preprints teve seu início nas áreas de física e biologia e ao longo das últimas duas décadas, essa prática se expandiu para diversas outras disciplinas científicas. Esse crescimento ganha destaque, sobretudo, quando consideramos o papel significativo que os preprints desempenham no contexto da ciência aberta. No ambiente digital, em 1991, foi criado o arXiv (arXiv.org) inicialmente na área da física, e posteriormente, sua abrangência foi ampliada para outras áreas, incluindo astronomia, matemática, ciência da computação e entre outras (Príncipe, 2022).
Os preprint podem ser definidos como a versão preliminar de um trabalho disponibilizado em plataformas com licenças de acesso aberto e sem custo para os autores e leitores, onde a comunidade científica poderá fazer contribuições no manuscrito (Silveira, 2023), em que marca uma mudança significativa no processo de comunicação científica, em que historicamente essa atividade é desenvolvida pelo avaliador/parecerista no âmbito do periódico.
O debate sobre adesão do preprint em periódicos, em especial no âmbito das humanidades seria a perca da instância de “originalidade” já que seria publicado previamente em outro recurso (Rode; Sales; Alves; 2022), que seria desviante do padrão atualmente normalizado na comunidade científica, que seria a submissão direta no periódico do interesse do pesquisador/autor. Nesse sentido, como previsto no início do trabalho, buscamos fazer análise das revistas atualmente vinculadas ao catálogo da FEPAE/ANPED, nesse sentido obtemos os seguintes dados:
Ao observamos o item 1 da Tabela 1, que 58,72% dos periódicos incluem a expressão “A contribuição é original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista; caso contrário, justificar em 'Comentários ao Editor'”. Esta inclusão é relevante pois sugere que os periódicos podem, até certo ponto, aceitar manuscritos que não sejam completamente inéditos. A expressão é contextualizada neste trabalho em decorrência da oração “caso contrário, justificar em 'Comentários ao Editor”, em que potencialmente manuscritos submetidos a revista mais que anteriormente estavam em plataformas de preprint poderiam ser aceitos mediante a justificativa. Como já ocorre em alguns periódicos que aceitam trabalhos apresentados em eventos científicos, desde que acompanhados de uma justificação adequada. No entanto, essa flexibilidade não é uniforme entre todos os periódicos. Especialmente no contexto de submissões oriundas de préprints, a justificativa detalhada poderia ser importante para aceitação, embora muitos editores e avaliadores possam considerar que os preprints não satisfazem o critério de ineditismo desejado por periódicos acadêmicos, uma vez que já foram submetidos à avaliação em outra plataforma (Malički et al., 2020).
Tabela 1 Periódicos que aceitam trabalhos Preprint
| Item | Itens observados | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Apresenta a expressão "A contribuição é original e inédita, e não está sendo avaliada para publicação por outra revista; caso contrário, justificar em 'Comentários ao Editor”. | 101 | 58.72% |
| 2 | Não discrimina em suas políticas receber preprint. | 59 | 34.30% |
| 3 | Apresenta aderência com preprint. | 12 | 6.98% |
| Total | 172 | 100,00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
Silveira (2023) faz um apontamento, em que a principal vulnerabilidade dos manuscritos científico, sendo eles na forma de preprint ou não, é principalmente a qualidade do conteúdo, o rigor e a transparência da investigação, em que afeta credibilidade da instituição e do autor, além de ser danoso à sociedade. E caso seja constatado alguma inconsistência ou outra de ordem duvidosa, existe a possibilidade de retratação dos autores, então independentemente do tipo de manuscrito, ambos estão sujeitos a erros e passíveis de retratação.
O próximo dado observou que 34,30% (item 2 da Tabela 1) dos periódicos não tem definição sobre receber preprint ou qualquer manuscrito de outra origem já publicada, podemos considerar que são revistas que tem como práxis e até política que o manuscrito esteja submetido único e exclusivamente no periódico pretendido.
Com 6,98% dos periódicos, foi possível constatar que tem plena aderência ao preprint, nestes casos foi diagnosticado algumas singularidades. Esse quantitativo apresenta orientação que o artigo durante a submissão deve ser enviado ao repositório preprint, em que a própria revista indica plataformas como SciELO Preprints nos casos de revistas que estão indexadas na Scielo ou no Repositório de preprints Emerging Research Information (EmeRI), implementado em 2020 a partir de uma cooperação entre a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), neste caso são revistas que utilizam a plataforma Open Journal Systems (OJS) de editoração e gestão de periódicos.
A resistência de periódicos para adesão ao preprint pode refletir uma ortodoxia persistente na comunicação científica. Essa relutância pode derivar de alguns elementos que são apontados por Berg et al (2016) em que faz alguns apontamentos que ocorrem na área das ciências da vida, em que seriam, a falta de conhecimento sobre o conceito de preprint e suas vantagens, em alguns casos, as revistas científicas podem estar estruturadas aos modelos tradicionais de publicação, não tendo receptividade a adoção de práticas inovadoras. Além disso, a natureza conservadora da academia, a hesitação em relação à prioridade de autoria e a preocupação com a validação podem ser fatores que diminuem para a baixa adesão.
Dados abertos de pesquisa
A abertura de dados tem sido uma das demandas latentes na comunidade científica, que traz em voga pontos como a transparência e a reprodutibilidade da pesquisa, o que tem ocasionado transformação cultural em relação à publicação e disponibilização de dados na comunidade científica com a implementação de infraestruturas de governança de dados. Essas infraestruturas devem garantir armazenamento seguro a longo prazo, além de serem facilmente encontráveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis - seguindo os princípios FAIR (Findability, Accessibility, Interoperability e Reuse) (Silveira, 2023).
O dado da pesquisa é definido como todo o material que serve para certificar os resultados da pesquisa realizada, que foi registrado durante a sua condução e que foi reconhecido pela comunidade científica. Os dados dependem da disciplina e da natureza da pesquisa e podem ser de distintos formatos: textuais, numéricos, audiovisuais, digitais, entre outros. Já para os dados abertos de pesquisa, é necessário acrescentar que eles devem cumprir certos critérios quando são liberados, que devem estar de acordo com os princípios FAIR, sigla em inglês para Findability, Accessibility, Interoperability, and reuse - que significa que os dados devem ser acessíveis, reutilizáveis, localizáveis e interoperáveis (Aleixandre-Benavent; Ferrer Sapena; Peset, 2019; Wilkinson et al., 2016).
Silveira (2023, p. 157) levanta um questionamento “[...] diante da necessidade emergente, vinda de diferentes áreas, de publicar seus dados, qual o papel do editor científico? A responsabilidade do editor de periódicos não é publicar os dados, e sim, pesquisas de qualidade [...]”. Embora a responsabilidade pela decisão e publicação dos dados recaia sobre os autores, cabe aos editores direcionar, por meio de políticas editoriais, a capacitação e atualização das equipes editoriais, incluindo revisores.
Essa orientação visa garantir a devida atenção ao tratamento, avaliação e publicação dos dados associados aos artigos de um determinado periódico. A implementação de estruturas políticas, diretrizes e processos é fundamental para impulsionar a mudança cultural, fortalecendo simultaneamente os princípios da comunicação científica. A falta de atualização e avanço nas estruturas dos periódicos, tanto técnica, tecnológica quanto humana, pode tornar-se uma barreira para a promoção da disponibilização de dados. Em vez de representar um obstáculo, espera-se que o periódico atue como um veículo transparente, reforçando as melhores práticas na comunidade científica (Silveira, 2023; Caregnato; Rocha; Faustino; Junior, 2021).
Diante disso, se buscou compreender essa dinâmica junto aos periódicos de educação, para entendermos o que tem estado em evidência na comunidade científica da educação, considerando que, a coleta e análise de dados em pesquisa educação apresentam características distintas, moldadas pela complexidade do ambiente educacional e pela diversidade de variáveis envolvidas. Berliner et al (2002) descreve que a pesquisa e os dados neste campo frequentemente estão profundamente contextualizados, refletindo o ambiente das salas de aula, instituições educacionais e sistemas educacionais. Essa contextualização acrescenta nuances à interpretação e aplicação dos dados, tornando necessária a compreensão do cenário educacional específico e os cuidados com dados desta área de pesquisa.
Considerando a construção textual desta seção, vamos analisar os itens capturados nas revistas de educação vinculadas à FEPAE/ANPED:
Durante o levantamento, constatou-se que 94,19% (item1, da Tabela 2) das revistas analisadas não apresentam nenhuma orientação específica sobre a disponibilização de dados associados aos manuscritos. Essa lacuna na orientação representa uma problemática significativa, pois a ausência de diretrizes claras pode comprometer a transparência, reprodutibilidade da pesquisa, a contestação dos resultados apresentados no manuscrito ou até pode abrir precedentes para submissão de práticas como: fatiamento de pesquisa, falsificação de dados etc. Sem orientações explícitas, a qualificação e avaliação adequadas dos dados se tornam as pesquisas e as técnicas inviáveis de reproduzir, impactando na credibilidade e a integridade dos resultados apresentados nos artigos.
Tabela 2 Dados abertos e orientações nas revistas
| Item | Itens observados | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Não há orientação. | 162 | 94.19% |
| 2 | Orientar em que os dados sejam disponibilizados em caso de pesquisas originais, abertos a comunidade científica. | 8 | 4.65% |
| 3 | Consoante à Ciência Aberta e aos princípios FAIR | 1 | 0.58% |
| 4 | Artigos que contenham aquisição de dados ou análise e interpretação de dados de outras publicações devem referenciá-las de maneira explícita; | 1 | 0.58% |
| Total | 172 | 100.00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
A falta de referências específicas a repositórios de dados ou a documentação detalhada sobre o processo de aquisição e análise de dados pode resultar na fragilidade dos métodos utilizados e dos resultados obtidos. Isso não apenas dificulta a validação por pares, mas também pode impactar na confiança da comunidade científica e do público em geral nos resultados apresentados.
Para o item “Orientar em que os dados sejam disponibilizados em caso de pesquisas originais, abertos a comunidade científica” (item 2) que foram observados 4,65% dos casos, em que os periódicos analisados apresentam uma orientação específica sobre a disponibilização de dados em caso de pesquisas originais. Essa orientação sugere que esses periódicos encorajam ou exigem que os autores disponibilizem os dados associados aos seus estudos de pesquisa original de maneira aberta à comunidade científica. Os periódicos em questão apresentam orientações e políticas bem definidas sobre ciência aberta.
Ao incentivar ou exigir que os dados sejam acessíveis à comunidade científica, esses periódicos podem fomentar a reprodutibilidade da pesquisa, permitindo que outros pesquisadores examinem, validem e, se necessário, reproduzam os resultados apresentados nos artigos. Atualmente temos exemplos de revistas internacionais como o caso da Nature e a Editora Plos.
O caso do item 3 da Tabela 2 foi o único que apresentou, de forma evidente, atenção aos princípios FAIR em comparação aos demais resultados obtidos, a baixa adesão aos princípios FAIR isso pode ser um indicador, por exemplo: baixo conhecimento da ciência aberta, de dados abertos e particularmente importante, a não compreensão do aspecto da transparência do desenvolvimento de pesquisas. No item 4 da mesma tabela, é possível observar que apenas uma (1) revista se preocupou em orientar sobre dados obtidos de outras publicações, podemos inferir neste caso, que um conjunto de dados publicados em repositório de dados deve ser devidamente referenciado e creditado a fonte e autoria como qualquer outro artefato oriundo de pesquisa.
Abordamos a importância dos dados abertos de pesquisa e a necessidade crescente na comunidade científica por transparência e reprodutibilidade. A premissa de abertura de dados tem impulsionado transformações culturais na publicação e disponibilização de dados, evidenciando a implementação de infraestruturas de governança de dados. Essas infraestruturas devem assegurar não apenas o armazenamento seguro a longo prazo, mas também a facilidade de acesso, interoperabilidade e reutilização dos dados, em conformidade com os princípios FAIR.
Destacamos também a responsabilidade dos editores de periódicos na promoção de políticas editoriais que orientem a adequada gestão e publicação dos dados associados aos artigos. A falta de atualização e avanço nas estruturas dos periódicos pode representar uma barreira para a promoção da disponibilização de dados, comprometendo a transparência e a integridade da pesquisa científica.
Durante o levantamento, observamos que a maioria das revistas analisadas (94.19%) não apresenta orientações específicas sobre a disponibilização de dados, o que representa uma lacuna significativa. Wilkinson et al (2016) aponta que a ausência de diretrizes claras pode comprometer a contestação e validação dos resultados, além de abrir precedentes para práticas questionáveis na pesquisa, ressaltando a importância de tornar os dados mais acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis, não apenas para humanos, mas também para máquinas. Por outro lado, identificamos alguns casos em que os periódicos orientam explicitamente sobre a disponibilização de dados em pesquisas originais, refletindo uma tendência crescente em direção à transparência e abertura de dados.
O Brasil tem enfrentado uma lacuna em termos de estudos sobre as políticas de dados aplicadas à editoração de periódicos. Enquanto os Estados Unidos e países da União Europeia tem essa temática sendo investigada há quase três décadas, o Brasil iniciou sua incursão nesse campo por meio de eventos científicos e publicações a partir de meados de 2012. Entretanto, é importante observar que essas discussões, em território nacional, estiveram predominantemente vinculadas ao contexto de dados de pesquisa, notadamente abordando aspectos como infraestruturas de repositórios, metadados, equipes de curadoria, entre outros elementos pertinentes (Silveira, 2023, p. 157).
A análise sobre os dados abertos de pesquisa e a aderência em periódicos da FEPAE/ANPED revela uma lacuna significativa na orientação oferecida pelas revistas de educação quanto à disponibilização e gestão dos dados associados aos manuscritos. A falta de referências específicas a repositórios de dados e a documentação detalhada sobre o processo de aquisição e análise de dados também contribui para a fragilidade dos métodos e resultados, dificultando a validação por pares e a confiança na comunidade científica.
Portanto, diante dos apontamentos, fica evidente a necessidade de uma maior atenção e ação por parte dos editores de periódicos, pesquisadores e demais envolvidos na comunidade científica para promover a transparência, integridade e reprodutibilidade da pesquisa por meio da adequada gestão e disponibilização dos dados associados aos artigos.
Revisão aberta por pares
A revisão aberta por pares consiste em avaliar, aprimorar a qualidade e promover a transparência da pesquisa científica. Isso é alcançado por meio da análise cuidadosa para verificar se a investigação foi conduzida de maneira adequada, se os métodos utilizados são robustos e se os resultados foram apresentados e interpretados de forma precisa e significativa. Em essência, a revisão por pares é um processo fundamental que visa garantir a integridade e a confiabilidade dos estudos científicos antes de sua publicação (Pöschl, 2012; Garrido-Gallego, 2018).
Com advento das discussões sobre a ciência aberta, tem se afirmando a abertura na revisão por pares, em que consiste na abertura da revisão amplamente aberta e acessível a comunidade científica, mas Ross-Hellauer (2017), afirma que o conceito de revisão aberta não está restrito à uma característica, ou seja, um periódico pode optar por esse modelo de revisão e definir que utilizará apenas a característica de identidades abertas ou a união entre outras características como pareceres abertos e participação aberta, comentários abertos, interação aberta, abertura dos manuscritos antes da revisão, revisão ou comentários após publicação, entre outras.
As áreas do conhecimento mais receptivas à implementação das diversas possibilidades da avaliação aberta são as da ciência da saúde e ciências biológicas, especialmente no Reino Unido, onde revistas de acesso aberto têm liderado esse movimento (MAIA, FARIAS, 2021), observando que a pesquisa das autoras se deu na Directory of Open Access Journals (DOAJ). É importante ressaltar que a avaliação por pares é um processo pedagógico destinado a aprimorar a qualidade da pesquisa, e não apenas a reforçar uma lógica de produção em massa.
Nesse sentido, o cenário no âmbito da educação observado a partir do catálogo da FEPAE/ANPED se põem da seguinte forma:
Diante disso, no item 1 (Tabela 3) é possível notar que 78,49% das revistas utilizam a revisão duplo cega (Double blind peer review), nesse tipo de avaliação, os autores e avaliadores são anonimizados, ambos não têm conhecimento de suas identidades, apenas os editores sabem quem é quem. Essa modalidade apresenta algumas singularidades, em que maior a diversidade de autores na literatura pública e pode proteger autores e revisores de preconceitos ou até desafetos no âmbito da comunidade científica. Que é seguida de algumas desvantagens, como: esse tipo é propenso a abusos e preconceitos, segredos exclusivos e não verificabilidade de pesquisa e estudos, os avaliadores podem ser eventualmente identificados é o processo de revisão tende a ser mais lento (Silveira, 2023).
Tabela 3 Panorama da aderência da revisão aberta em revistas da FEPAE/ANPED
| Item | Diagnosticado | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Revisão fechada | 135 | 78.49% |
| 2 | Apenas para artigos aprovados para publicação e quando há aceite das pessoas autoras na carta dirigida a revista (no momento de submissão do manuscrito). | 2 | 1.16% |
| 3 | Em caso de aprovação o nome dos pareceristas são divulgados. | 1 | 0,58% |
| 4 | Aberta a partir da decisão do autor | 1 | 0,58% |
| 5 | Em cumprimento às diretrizes da Ciência Aberta, a revista publicará na seção agradecimentos, o nome dos avaliadores de cada número. E, no último número do ano, o nome de todo o seu Conselho ad hoc. | 1 | 0,58% |
| 6 | Não há descrição | 30 | 17,44% |
| 7 | A avaliação pode ser aberta, desde que uma ou ambas as partes autorizem formalmente a abertura dos pareceres, como forma de atender aos princípios da ciência aberta. | 1 | 0,58% |
| 8 | Revisão aberta. | 1 | 0,58% |
| Total | 172 | 100,00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
Kelly et al (2014) aponta que o método de revisão tem sido historicamente adotado em diversas disciplinas científicas como um meio de garantir a qualidade e a objetividade na avaliação dos artigos submetidos para publicação. Em áreas como a educação, onde a pesquisa pode abordar questões sensíveis e estar sujeita a diferentes interpretações, a revisão duplo-cega é vista como uma maneira de minimizar o viés e promover uma avaliação justa e imparcial dos trabalhos. Em contrapartida, a possibilidade de abrir determinados elementos da revisão fica distante do movimento de abertura, podemos considerar que esse tradicionalismo em periódicos de educação pode ser decorrente de como foi concebida a concepção de avaliação de manuscritos.
No item 2 (Tabela 3) 2 (dois) periódicos em educação adotam o processo de revisão aberta desde que haja manifestação por escrito dos autores quando fizerem a submissão do artigo, nestes casos as revistas não se preocuparam em definir o que seria “aberto” no processo de avaliação, qual característica da revisão aberta por pares estaria disponível. Para o item 3 da mesma tabela, em caso de aprovação, a revista irá vincular o nome do parecerista ao manuscrito que foi submetido a sua avaliação, neste caso, podemos considerar o que é apontado por Silveira (2023), em que é divulgado a identidade dos pareceristas.
O item 4 descrito como “Aberta a partir da decisão do autor’’ está próximo do relatado no item 2, mas não houve orientação do que seria tornando aberto e se o autor do manuscrito deveria elaborar algum tipo de documento fornecendo ciência do procedimento. Seguindo para o item 5, a revista apresenta na redação de suas orientações a seguinte informação “Em cumprimento às diretrizes da Ciência Aberta, a revista publicará na seção agradecimentos, o nome dos avaliadores de cada número. E, no último número do ano, o nome de todo o seu Conselho ad hoc.”, neste caso este periódico adotou apenas a modalidade de divulgar os avaliadores ad hoc.
Informação importante observada nesse levantamento, foi que 17,44 % (item 6, da Tabela 3) não apresenta nenhuma definição do processo de avaliação de manuscritos, isso revela uma ausência de transparência do processo de avaliação deste periódicos, no sentido que, quando se tem a avaliação fechada em revisão duplo-cega o autor ainda tem um posição da revistas, mas no caso de não haver nenhuma definição de como se dar essa avaliação, pode abrir para questionamento o desempenho das funções e das práticas do corpo editorial.
Indexação e sistema de gerenciamento
A SciELO é uma variável considerada importante para este trabalho, porque desde a sua concepção tem sido pensada para ser desenvolvida em uma filosofia de abertura, atualmente além dos periódicos, do sistema de gestão de periódicos, nos últimos anos passou a ofertar o SciELO Preprints e SciELO Data, o primeiro voltado para submissão de manuscritos em preprints e o segundo para depósito de dados de pesquisa, contribuindo para o ecossistema de ciência aberta.
A SciELO (Scientific Electronic Library Online / Biblioteca Científica Digital Online) é um programa que apoia a infraestrutura de comunicação de pesquisas em acesso aberto. Lançado em março de 1998, o programa foi criado em 1997 e implantado, descentralizadamente, como política pública de apoio à comunicação científica em acesso aberto, através do Modelo SciELO de Publicação. Atualmente, o programa é adotado em dezesseis países que compõem a Rede SciELO, incluindo Brasil, Argentina, Chile, México, Portugal, entre outros (SciELO, 2023). Inicialmente desenvolvido a partir da coleção de periódicos SciELO Brasil, o modelo foi posteriormente adotado por outras coleções nacionais, como SciELO Chile, e gradualmente por outras instituições nos países participantes.
Como parte do programa de ciência aberta, o SciELO opera e desenvolve diversas coleções de objetos de comunicação de pesquisas, além das publicações de artigos. Estas incluem coleções nacionais de periódicos, uma coleção temática de periódicos de saúde pública, um servidor de preprints (SciELO Preprints), um arquivo de dados de pesquisa associados a preprints e artigos dos periódicos, e uma coleção de livros (SciELO Livros). O portal da Rede SciELO (www.scielo.org) oferece acesso a todas essas coleções nos idiomas inglês, espanhol e português (SciELO, 2023). O SciELO tem desempenhado papel significante na promoção do alinhamento dos periódicos editados nacionalmente com as melhores práticas em edição científica, contribuindo significativamente para posicionar os países da Rede SciELO como líderes em “acesso aberto à literatura científica. Isso é observado, especialmente, na predominância da modalidade de acesso aberto Diamante e na adoção da licença CC-BY” (Scielo, 2023).
Dos 172 periódicos analisados, apenas 12 estão indexados na SciELO (Tabela 4), representando aproximadamente 6,98% do total. A indexação na SciELO é uma marca de qualidade e reconhecimento na comunidade científica, indicando que a revista atende a critérios de qualidade editorial e relevância científica. No entanto, 160 periódicos, não está indexada na SciELO.
Tabela 4 Periódicos vinculado a FEAPE/ANPED indexados na SciELO
| Item | Diagnosticado | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Indexada na SciELO | 12 | 6.98% |
| 2 | Não indexada na SciELO | 160 | 93.03% |
| Total | 172 | 100.00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
Essa análise sugere que, embora a SciELO seja uma plataforma importante para a divulgação e disseminação da pesquisa científica, mas apenas uma pequena parcela dos periódicos analisados está indexada nela. Isso pode indicar uma necessidade de maior esforço por parte das revistas para atender aos critérios de indexação da SciELO, por outro lado, a própria organização SciELO poderia criar mecanismos para viabilizar a indexação de periódicos em sua base através de projetos de incubadora de revistas, especialmente, se lançarmos mão da lente das regionalidades, onde temos uma maior concentração de revistas no eixo sul-sudeste.
A indexação de periódicos na plataforma da SciELO tem aproximação com a categoria sistema de gestão e editoração de periódicos, na Tabela 5 podemos observar a distribuição de periódicos em relação ao sistema de editoração.
Tabela 5 Sistema de gestão de periódicos
| Item | Diagnosticado | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Open Journal Systems (OJS) | 168 | 95.98% |
| 2 | Sistema da ScholarOne recurso que pertence a Clarivate | 4 | 2.30% |
| Total | 172 | 100.00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
Dos 172 periódicos analisados, a maioria expressiva, totalizando 167, utiliza o Open Journal Systems (OJS) como sistema de publicação. Essa prevalência do OJS reflete a sua ampla adoção como plataforma de gestão e publicação de periódicos científicos, que oferece recursos para o processo editorial, desde a submissão de manuscritos até a publicação final. O OJS é conhecido por sua flexibilidade, código aberto e comunidade de usuários ativa, o que o torna uma escolha popular entre editores acadêmicos.
O OJS é um sistema projetado para gerenciar e publicar periódicos científicos eletrônicos, desenvolvido pelo Public Knowledge Project (PKP). Esse sistema desempenha um papel fundamental em todas as etapas do processo de publicação de um trabalho científico, desde a submissão inicial de um documento até sua publicação e indexação. (Dias; Delfino Junior; Silva, 2007). O software é amplamente utilizado por instituições de ensino e pesquisa, tanto públicas quanto privadas, que buscam soluções economicamente viáveis para o desenvolvimento de seus projetos, especialmente em relação à aquisição e manutenção de software. Além de estar bem documentado, o sistema possui uma extensa documentação auxiliar, para orientar todos os usuários interessados em utilizar o OJS, eliminando quaisquer dúvidas que possam surgir durante o processo de implantação (Dias; Delfino Junior; Silva, 2007).
O sistema tem apresentado aderência na comunidade científica brasileira por algumas razões: por ser software open source, o que quer dizer que é possível modificar sua programação para atender ao interesse da instituição melhorando para a realidade que está inserida, outro aspecto tem sido a rede de apoio construída em torno do OJS, onde é oferecido suporte, informação sobre atualizações e versões, etc. Outro ponto é que o software tem se mantido referência no amplo desenvolvimento da ciência aberta.
Em contraste, apenas 4 periódicos (item 2, Tabela 5) utilizam o Sistema da ScholarOne que é um recurso voltado para o processo de gestão do fluxo de trabalho editorial. O ScholarOne é um sistema de gerenciamento de processos editoriais usado por muitas editoras acadêmicas e científicas em todo o mundo. Pertencente à Clarivate Analytics, uma empresa global de informações e análises, o ScholarOne oferece uma plataforma robusta e integrada para gerenciar o fluxo de trabalho editorial, desde a submissão inicial de manuscritos até a revisão por pares, edição e publicação final. É importante observar que é uma empresa que tem aderido aos modelos abertos, mas que ainda visa o lucro através da monetização do acesso a alguns dos seus serviços de informação.
Embora a SciELO seja uma plataforma reconhecida internacionalmente e ofereça vantagens em termos de visibilidade e indexação, sua adoção por um número relativamente pequeno de revistas nesta amostra sugere que nem todas as revistas estão alinhadas com os critérios e requisitos específicos do SciELO. Isso pode ser atribuído a uma série de fatores, como os custos indiretos associados à adesão à SciELO, requisitos de qualidade editorial mais rigorosos ou a preferência dos editores por outras plataformas de publicação.
Outras instâncias observadas
A análise dos dados sobre a aderência da ciência aberta em periódicos vinculados ao catálogo da FEPAE/ANPED revela uma variedade de práticas e políticas adotadas por essas publicações. Dos 172 periódicos analisados, verificou-se que apenas uma pequena proporção deles apresentou informações específicas relacionadas à ciência aberta (Tabela 6), enquanto a maioria não forneceu dados relevantes nesse sentido. Nesta seção vamos trazer em contexto alguns aspectos que foram considerados relevantes ao longo do processo de levantamento e análise de dados junto aos periódicos vinculados ao catálogo, que estão descritos na Tabela 6:
Tabela 6 Outras informações relevantes dos Periódicos vinculados a FEPAE/ANPED
| Item | Diagnosticado | Quantidade | Percentual (%) |
|---|---|---|---|
| 1 | Formulário sobre Conformidade com a Ciência Aberta | 3 | 1.74% |
| 2 | Permite o autoarquivamento em repositório | 55 | 31.98% |
| 3 | Orienta o uso do Repositório de preprints Emerging Research Information (EmeRI). | 1 | 0.59% |
| 4 | Que não apresentou informação relevante a ser considerada além do que detalhado nas seções anteriores | 113 | 65.70% |
| Total | 172 | 100.00% |
Fonte: Dados coletados e organizados pelos autores (2024).
O item 1 da tabela 6 se refere ao formulário padronizado que foi consolidado no ecossistema da SciELO onde os periódicos disponibilizam aos autores se querem ou não que o manuscrito submetido a determinada revista seja avaliado e publicado pautado na ciência aberta, por exemplo: com revisão aberta por pares, com informação sobre os dados abertos e disponíveis para a comunidade científica, se o nome dos pareceristas podem estar vinculados ao trabalho. Com esse formulário, preenchido pelo autor antes da inserção do manuscrito em um periódico. Por meio desse formulário é possível ter acesso aos seguintes dados: 1) postagem prévia do manuscrito em um servidor de preprints; 2) disponibilidade de dados adjacentes à pesquisa; e 3) abertura do processo de avaliação por pares6. Um ponto a ser observado é que a SciELO orienta a ampla adesão a ciência aberta, mas nem todos os periódicos vinculados ao catálogo da FEPAE/ANPED que estão indexados na SciELO aderiram ao formulário.
No item 2, 31.98% dos periódicos permitem que os autores de artigos, após a aprovação e aceite da revista, permitindo possam depositar os artigos em repositórios institucionais das suas respectivas instituições, o autoarquivamento, através de repositórios de acesso aberto, proporciona ao pesquisador a possibilidade de sozinho, deixar seu trabalho acessível para qualquer leitor com acesso à internet, aumentando a visibilidade de sua pesquisa (Veiga; Macena, 2015). Esse processo contribui para métricas de acesso à informação e alcança de forma mais ampla a comunidade científica, por exemplo, atualmente os repositórios de instituições científicas no âmbito brasileiro mantem interoperabilidade com banco de dados e buscadores com a Plataforma La Referencia, que reuni um ecossistema de repositórios institucionais no âmbito da América Latina7.
Sobre item 3, apenas um periódico usa o EmeRI, lançado oficialmente em 20 de maio de 2020, é fruto de uma parceria entre a Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC Brasil), o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Representação no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Diferenciando-se de outros servidores de preprint, no EmeRI, os preprints são depositados pelos editores das revistas, não pelos autores, limitando o depósito às revistas cadastradas na plataforma. Os critérios para indexação de revistas no EmeRI incluem requisitos como ser de caráter acadêmico/científico, ter registro no ISSN, não ser publicada por editoras possivelmente predatórias, estar presente em indexadores que atendam aos requisitos do Directory of Open Access Journals (DOAJ), entre outros. As revistas indexadas devem também comprometer-se a depositar um número mínimo de preprints ao longo do tempo (Príncipe, 2022). Por fim, a maioria dos periódicos (cerca de 66,09% do total) não apresentou informações relevantes além do que já foi tratado nas seções anteriores no presente trabalho, sobre sua conformidade com a ciência aberta.
Considerações finais
Com base na análise dos periódicos vinculados ao catálogo da FEPAE/ANPED, é evidente que há uma variedade de práticas e políticas adotadas em relação à ciência aberta. No entanto, a maioria dos periódicos ainda não está totalmente alinhada com os princípios da ciência aberta. Diante desse cenário, surge a oportunidade e a necessidade dos periódicos em educação se adequarem e adotarem práticas mais abertas, visando à ampla democratização da pesquisa e promovendo uma cultura mais participativa na comunicação científica.
A ciência aberta representa um movimento para tornar a pesquisa mais acessível, transparente e colaborativa. Ao adotar políticas de ciência aberta, os periódicos em educação podem contribuir significativamente para permitir maior visibilidade e compartilhamento dos resultados de pesquisa. Isso não apenas beneficia a comunidade científica, mas também amplia o impacto e a relevância da pesquisa para a sociedade em geral.
Entre as medidas que os periódicos podem adotar estão a implementação de práticas de revisão aberta por pares, o estímulo ao autoarquivamento em repositórios institucionais e o apoio ao uso de plataformas de preprints. Além disso, é fundamental que os editores forneçam orientações claras aos autores sobre como aderir às práticas de ciência aberta em que facilitem o acesso aos dados e resultados de pesquisa, tanto por parte do corpo editorial/avaliadores dos periódicos, como também a própria comunidade científica.
Apesar de não ser o objetivo deste trabalho, no entanto, é importante considerar o aspecto financeiro envolvido na adoção dessas práticas abertas. Muitas vezes, as instituições científicas enfrentam desafios orçamentários significativos que podem dificultar a implementação completa de práticas de ciência aberta. Isso ocorre porque a transição para um modelo mais aberto de publicação e compartilhamento de pesquisa pode demandar investimentos em infraestrutura tecnológica, treinamento de pessoal e desenvolvimento de políticas institucionais específicas.
Embora os benefícios da ciência aberta sejam amplamente reconhecidos, é importante reconhecer que essa transição não acontece sem custos. As instituições científicas muitas vezes precisam equilibrar as demandas financeiras da pesquisa com outras prioridades, o que pode limitar sua capacidade de investir em práticas abertas. Além disso, há questões relacionadas à sustentabilidade a longo prazo dessas iniciativas, especialmente no que diz respeito à manutenção e atualização contínua da infraestrutura necessária para suportar a ciência aberta.
Os resultados deste trabalho sugerem que há espaço para melhorias significativas na adesão dos periódicos vinculados à FEPAE/ANPED aos princípios da ciência aberta. A promoção de políticas editoriais mais transparentes, a implementação de diretrizes explicativas para os autores e a adoção de práticas que incentivem a abertura e o compartilhamento de dados e resultados da pesquisa são passos importantes para fortalecer a integridade e a eficácia da comunicação científica nessas revistas.
A adoção da ciência aberta pelos periódicos em educação não apenas fortalece a integridade e a transparência da pesquisa, mas também promove uma cultura mais inclusiva e participativa na comunicação científica. Ao trabalhar em conjunto com pesquisadores, autores e leitores, os periódicos podem desempenhar um papel na construção de um ecossistema de pesquisa mais aberto, colaborativo e impactante.














