Introdução
O conceito de “projeto de vida” na educação surge em um contexto de transformações sociais e econômicas marcadas pela crescente valorização do indivíduo como gestor de sua própria trajetória pessoal e profissional. Embora essa ideia tenha raízes na Psicologia e na Pedagogia, seu uso nas escolas reflete, de maneira acrítica, a adaptação da educação às demandas de uma sociedade neoliberal, na qual a responsabilidade pelo sucesso e pela realização é transferida, em grande parte, para o sujeito, desconsiderando os condicionantes estruturais e as desigualdades sociais (Silva, 2023).
Historicamente, a noção de projeto de vida foi consolidada à medida que o sistema educacional passou a responder às exigências do mercado de trabalho globalizado, que requer dos indivíduos não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades de autogestão, flexibilidade e resiliência. Nesse sentido, a educação, ao incorporar esse conceito, não apenas se adapta, mas legitima uma visão de mundo em que o sucesso individual está diretamente relacionado à capacidade de o sujeito se planejar e se reinventar constantemente, como se isso fosse possível para todos, independentemente das condições de partida.
No Brasil, o conceito de projeto de vida foi formalizado de maneira mais ampla com a reforma da Base Nacional Comum Curricular - BNCC (Brasil, 2017), bem como com as mudanças no Ensino Médio orquestradas no governo de Michel Temer, que chega ao poder após um golpe contra a presidente Dilma Rousseff. Ao instituir o Projeto de Vida como um dos pilares do Ensino Médio, a BNCC faz uma leitura tecnocrática e funcionalista da educação, buscando preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais incerto e precarizado. Embora o discurso de protagonismo juvenil e autoconhecimento seja sedutor, ele carrega uma série de implicações problemáticas. A proposta de que cada aluno construa seu plano de vida, refletindo sobre suas aspirações e valores, desconsidera, em grande medida, as profundas desigualdades que marcam o sistema educacional e as oportunidades de acesso ao ensino e ao mercado de trabalho (Macedo; Silva, 2022).
Essa perspectiva individualizante do projeto de vida desvia o foco das responsabilidades coletivas, institucionais e estatais para o desenvolvimento humano, concentrando-se na responsabilização do aluno pelo seu futuro. Em uma sociedade marcada por desigualdades históricas e estruturais, a ideia de que o planejamento pessoal e a gestão das próprias escolhas possam ser a chave para o sucesso ignora as barreiras que afetam especialmente as populações mais vulneráveis. O conceito, assim, corre o risco de reforçar a lógica meritocrática, que desconsidera fatores como raça, classe e gênero, tornando o fracasso um problema do indivíduo e não de um sistema que perpetua desigualdades (Alves; Oliveira, 2020).
Portanto, ao mesmo tempo em que o “projeto de vida” pode servir como uma ferramenta de autoconhecimento e reflexão, ele também precisa ser criticamente analisado em seu contexto maior. O uso desse conceito na educação contemporânea reflete, em parte, uma tentativa de adaptação às exigências de um capitalismo cada vez mais individualista e competitivo (Laval, 2019). A escola, nesse cenário, torna-se um espaço onde se incentiva a autonomia e a autoeficácia, mas muitas vezes sem oferecer as condições estruturais necessárias para que todos os alunos possam de fato alcançar seus objetivos. Assim, a construção de um projeto de vida no ambiente escolar pode se converter em uma utopia para muitos, mascarando as profundas desigualdades que limitam as trajetórias individuais.
Como mencionado anteriormente, o conceito de projeto de vida ganhou destaque com a reforma do Ensino Médio de 2017. No entanto, em razão de uma série de problemas, iniciou-se um movimento expressivo pela revogação dessa lei. Diversos setores criticaram duramente o formato vigente e exigiram sua revogação, como é o caso da Rede Nacional EMPesquisa, que integra o Movimento Nacional em Defesa do Ensino Médio. Esse grupo entregou suas demandas às equipes de transição do Grupo de Trabalho (GT) da educação após as eleições de 2022. Além disso, seminários organizados pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) reforçaram essas críticas, apontando quase unanimemente a necessidade de revogar a Lei 13.415/17 (Silva, 2023).
Apesar do intenso debate sobre a necessidade de mudanças na lei, o governo Lula e seu ministro da educação enfrentaram um Congresso dominado por interesses empresariais. A relatoria das novas discussões sobre a reforma ficou nas mãos do deputado Mendonça Filho, do União Brasil de Pernambuco, que, ironicamente, foi o ministro da educação responsável pela aprovação da reforma de 2017. Nesse contexto, a ideia de uma revogação não foi sequer considerada. Em vez disso, o governo optou por uma “reforma da reforma”, como destacou a professora Natália Gil em uma entrevista recente.
Mesmo com as mudanças trazidas pela “reforma da reforma”, o conceito de projeto de vida continua a ocupar um espaço considerável no novo texto da lei. O texto atual garante que a construção dos projetos de vida deve ser orientada
[...] pelo desenvolvimento integral, nas dimensões física, cognitiva e socioemocional, pela integração comunitária no território, pela participação cidadã e pela preparação para o mundo do trabalho, de forma ambiental e socialmente responsável (Brasil, 2024).
Observa-se que o projeto de vida mantém seu lugar de destaque, o que reforça a necessidade de mantermos reflexões e análises críticas sobre sua colocação em prática. Este estudo, portanto, tem como objetivo analisar como a Fundação Lemann, mediada por reportagens publicadas pela revista Nova Escola, influencia e propõe a operacionalização da implementação do Projeto de Vida nas escolas.
Metodologia
Este estudo é descritivo-interpretativo, pois busca compreender como a linguagem hegemônica neoliberal se destaca tanto nos documentos oficiais quanto em outros materiais que chegam às escolas. A pesquisa tem caráter documental, uma vez que, segundo Evangelista e Shiroma (2019), os documentos refletem as determinações históricas, que devem ser examinadas minuciosamente. O propósito não é apenas avaliar as políticas educacionais, mas entender como elas articulam os conflitos sociais e as sínteses das relações históricas. A abordagem adotada é qualitativa, já que o foco da análise não recai sobre dados estatísticos ou variáveis numéricas. Assim, a perspectiva qualitativa visa fornecer respostas a questões específicas e particulares, que demandam interpretações mais profundas e descritivas (Oliveira et al., 2020, p. 2).
O corpus analisado é composto por reportagens extraídas do site da Nova Escola. A seleção dessas reportagens foi realizada por meio de uma busca no próprio site, utilizando o descritor "projeto de vida". Para delimitar o conjunto final, aplicou-se o filtro "etapas de ensino" da plataforma, selecionando especificamente o nível de Ensino Médio. Como resultado, foram identificadas cinco reportagens que serão analisadas nesse estudo.
Analisamos as seguintes reportagens da Nova Escola: “Como alinhar a Educação 4.0 ao projeto de vida dos estudantes” (2019), de responsabilidade de Débora Garofalo; “Como dar aula de Projeto de Vida me transformou como professora” (2021), sob a responsabilidade de Carolina Lino; “Projeto de Vida: como apoiar crianças e jovens a pensar no futuro” (2021), conforme escreve Diel Santos; “Dos sonhos ao projeto de vida: como o planejamento financeiro pode ajudar os alunos no futuro?” (2022), de autoria de Dimítria Coutinho e “Projeto de Vida estimula o protagonismo do estudante e favorece a Educação Antirracista” (2022), pela síntese de Thais Paiva.
O processo de análise dos dados iniciou-se com a leitura integral de todas as reportagens. Em seguida, realizamos uma segunda leitura, na qual foram selecionados frases, citações e discursos com forte apelo empresarial, identificando termos que têm se tornado cada vez mais recorrentes no vocabulário das agendas neoliberais. Para isso, fundamentamo-nos nos estudos de Montaño (2015), que argumenta sobre o uso de uma linguagem que fetichiza e ideologiza a visão da realidade, e de Evangelista e Shiroma (2019), que discutem a importância de observar as pistas oferecidas pelos textos para compreender a racionalidade subjacente às tendências expressas nas redes de influência que atuam na educação.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os motivos que levaram à escolha do site Nova Escola para nossas análises estão diretamente relacionados ao fato de que a revista, historicamente, acumulou-se nas bibliotecas das escolas públicas brasileiras. Com o advento da internet, Nova Escola ampliou ainda mais sua presença, oferecendo uma vasta quantidade de materiais, que vão desde reportagens e notícias até planos de aula prontos.
A revista, que até 2015 esteve vinculada à Editora Abril, passou então para o controle da Fundação Lemann. Esse fato, por si só, já justifica parte de nossa escolha, pois a transição para uma fundação privada, com forte influência no cenário educacional brasileiro, levanta questões sobre os interesses que moldam o conteúdo publicado. Analisar o Nova Escola como foco de nossas investigações também se justifica por seu papel histórico como um "aparelho privado de hegemonia", já que a revista sempre esteve presente nas escolas brasileiras, oferecendo conteúdos que, embora destinados a facilitar o trabalho docente, frequentemente apresentaram uma abordagem ingênua e acrítica da educação, alinhada com temas do momento e com tendências neoliberais (Bezerra; Araujo, 2012).
A Nova Escola se articula de modo a oferecer subsídios aos docentes em formato de "receita pronta". Contudo, além de aparentar simplificar o trabalho dos professores, a revista, com sua ampla estrutura, contribui para uma moldagem hegemônica do corpo docente. Nesse sentido, concordamos com Fresu (2020, p. 327), que afirma: "A burguesia, historicamente, trabalha para tornar homogêneas as classes [...] e criar um conformismo social capaz de consolidar seu poder, por meio de uma combinação de força e consenso". Dessa forma, analisar como as publicações da revista direcionam o conceito de projeto de vida torna-se essencial para compreender seu papel na articulação de práticas pedagógicas no interior das escolas, o que reforça a hegemonia educacional e os interesses por trás dessas influências.
A primeira reportagem analisada, publicada em 2019 e intitulada “Como alinhar a Educação 4.0 ao projeto de vida dos estudantes” (Garofalo, 2019), parte do pressuposto de que os jovens concluem o Ensino Médio sem um projeto de vida, o que prejudica seu autoconhecimento e dificulta seu progresso acadêmico e pessoal. Nesse contexto, a matéria estabelece uma relação direta com a Educação 4.0, ao afirmar que há ampla oferta de aplicativos e gerenciadores que impulsionam a aprendizagem online.
É importante destacar que a reportagem reflete uma preocupação crescente, especialmente após a pandemia de covid-19, quando as secretarias de educação em todo o país realizaram grandes investimentos em tecnologias educacionais. No entanto, além desse aspecto, percebe-se a presença de um discurso neoliberal sobre o uso das tecnologias, que transforma os recursos financeiros da educação pública em oportunidades para a expansão de produtos educacionais no mercado. A reportagem, portanto, não apenas endossa a criação de um ambiente escolar digital altamente tecnológico, mas também promove, de maneira explícita, dois aplicativos educacionais - Matific e Árvore de Livros -, sem oferecer uma reflexão crítica sobre os impactos dessas ferramentas no cotidiano escolar (Costa; Andrade, 2022).
Outro ponto relevante sobre a relação entre a Educação 4.0 e o Projeto de Vida é a citação presente no texto: “Um dos pilares para o trabalho com a tecnologia é compreender a capacidade de aprender e se adaptar”. Essa frase reflete um dos aspectos centrais da lógica neoliberal, como destaca Laval (2019, p. 72), “[...] o trabalhador deve ser capaz de se reciclar com a maior facilidade e rapidez possível”. A necessidade de trabalhadores adaptáveis surge como resposta a um mercado cada vez mais volátil e imprevisível. Nesse contexto, o projeto de vida dos jovens é ajustado para atender às demandas de um cenário que exige flexibilidade e constante atualização.
Além disso, a reportagem afirma que a tecnologia é uma aliada do projeto de vida, pois facilita o desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas ao mundo, às relações interpessoais e ao ambiente. No entanto, ao recorrer a Dardot e Laval (2016), podemos refletir criticamente sobre esse posicionamento. Os autores discutem o conceito de "neosujeito", um indivíduo imerso nas concepções neoliberais que é preparado para um comprometimento integral de sua subjetividade. No caso dos jovens, isso se traduz na preparação para uma autocoerção, ou seja, uma exigência de autorregulação constante para garantir sua manutenção e competitividade no mercado. O foco em questões socioemocionais, nesse sentido, não é apenas uma ferramenta pedagógica, mas um mecanismo para moldar indivíduos capazes de se ajustar às pressões do sistema neoliberal.
A segunda notícia analisada é intitulada “Como dar aula de Projeto de Vida me transformou como professora” (Lino, 2021). O texto destaca o relato de uma professora e a matéria se esforça em criar uma romantização do processo, o que revela um dos grandes problemas não apenas do projeto de vida, mas de boa parte da reforma do Ensino Médio: a atribuição de aulas de disciplinas para as quais os professores não têm formação específica. A professora entrevistada é formada em Ciências Biológicas e Matemática, mas foi designada para lecionar esse novo componente curricular. Nas palavras dela: “[...] e eu não tinha até aquele momento estudado ou tido contato algum com essa nova disciplina” (Lino, 2021).
Esse processo de romantização mascara as dificuldades reais enfrentadas pelos docentes, que são muitas vezes colocados em situações que exigem habilidades e conhecimentos que não fazem parte de sua formação original. Isso expõe um problema estrutural da reforma do Ensino Médio, que, ao introduzir novos componentes curriculares como o projeto de vida, não garante a devida formação dos professores, aspecto que resulta em sobrecarga e desvalorização do ensino especializado. Podemos observar que a professora olha o fato de ela deixar sua disciplina, na qual foi formada, para fazer algo que até então ela nem tinha tido contato, como mais uma operacionalização do neoliberalismo na educação (Souza, 2024).
Negar o conhecimento historicamente acumulado e substituí-lo por uma nova “aventura” curricular representa um claro empobrecimento educacional. Essa estratégia não só desvaloriza o saber consolidado, como também resulta em políticas que geram prejuízos significativos para a qualidade da educação. A responsabilidade desse fracasso, entretanto, acaba frequentemente recaindo sobre os professores, que são acusados de não alcançar os resultados esperados. Isso, por sua vez, cria um ciclo de reformas que mascaram os verdadeiros problemas estruturais (Tonieto et al., 2023).
A lógica por trás dessa abordagem reflete o princípio neoliberal de “plantar o caos para vender a solução”, cujas falhas no sistema educativo são intencionalmente acentuadas para justificar novas intervenções e reformas. Esse cenário é especialmente interessante para o mercado educacional, que vê nas fragilidades do sistema público uma oportunidade para expandir seus produtos e serviços. Como resultado, o campo educacional torna-se cada vez mais atraente para os interesses empresariais, que influenciam e moldam as políticas e os currículos de acordo com suas agendas lucrativas, em detrimento de uma educação pública de qualidade.
Na fala da professora que precisa abandonar sua área de formação, estudos e pesquisas para lecionar algo desconhecido, fica evidente uma conformidade que, por si só, reflete a lógica neoliberal que tem enfraquecido os profissionais da educação. Essa lógica de precarização não apenas desvaloriza a formação e expertise dos docentes, mas também enfraquece a capacidade de resistência deles frente aos ataques deliberados de uma educação gerencialista (Tonieto et al., 2023).
Ao ser forçado a se adequar a demandas alheias à sua formação, o professor é transformado em um mero executor das expectativas do mercado empresarial. A reforma do Ensino Médio, ao afastar o docente das fases de formulação e colocação em prática de políticas educacionais, contribui para essa alienação. Quando a política finalmente chega à escola, o professor já se sente acuado e deslocado, sem voz ou controle, reduzido a um papel de executor técnico, o que retira o caráter intelectual que historicamente lhe caberia.
A matéria termina com um depoimento que se refere diretamente aos objetivos da Nova Escola na busca do consenso, em torno da conciliação, que revela o propósito central da Nova Escola em buscar o consenso e a aceitação das mudanças curriculares, promovendo uma conciliação ideológica. Ela afirma: “Se eu não acreditar e não estiver receptiva para essa nova proposta, não irei conquistar os meus estudantes para participarem e se entregarem a cada nova proposta e intencionalidade das competências socioemocionais trabalhadas antes, durante e depois das aulas” (Lino, 2021). Essa fala reflete a necessidade de adesão, por parte do docente, a uma nova configuração curricular que, em essência, está distante de sua formação e experiência.
Esse depoimento reforça a ideia de que o professor, em vez de atuar como um agente crítico e intelectual do processo educativo, acaba sendo reduzido a um mediador de um currículo prescrito e descontextualizado, o que Shiroma et al. (2017, p. 28) descrevem como "[...] o aluno aprende, o professor aprende e ninguém ensina". Nessa dinâmica, o docente não mais é o responsável por ensinar, mas sim por mobilizar um conhecimento imediato e utilitarista, ajustado às demandas do mercado e das competências socioemocionais que ganham centralidade na educação gerencialista. Isso contribui para a fragilização do papel do professor, que se vê compelido a aceitar e reproduzir um currículo que o afasta de seu papel tradicional de formador e intelectual.
A terceira matéria analisada, intitulada "Projeto de Vida: como apoiar crianças e jovens a pensar no futuro" (Santos, 2021), tem como foco principal o desenvolvimento do autoconhecimento. Logo no primeiro parágrafo, encontramos a seguinte citação sobre o papel do Projeto de Vida: "A abordagem permite o desenvolvimento do autoconhecimento e que os estudantes sejam capazes de formular planos para o futuro" (Santos, 2021). Observa-se que dois aspectos centrais são destacados: o autoconhecimento e a formulação de planos. Além disso, o texto aborda preocupações com as demandas emocionais dos alunos, ao realizar uma crítica à postura tradicional da escola, que frequentemente relegou as emoções a um segundo plano.
Para discutir esse aspecto humanizado do Projeto de Vida, é importante observar como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de fato reforça uma preocupação constante com o bem-estar emocional dos estudantes. No entanto, é fundamental refletir sobre a quem a BNCC realmente serve e, a partir dessa análise, poder compreender melhor o nível de preocupação com a saúde mental dos jovens na educação. Além disso, essa análise torna mais evidente os motivos pelos quais a Nova Escola, por meio de Santos (2021), defende que o projeto de vida pode promover o desenvolvimento do autoconhecimento. Vivemos em uma era marcada por uma crescente responsabilização individual, na qual nunca se falou tanto sobre a responsabilização isolada dos sujeitos. O neoliberalismo promove a ideia de que os indivíduos devem ser autossuficientes, pregando que quanto mais uma pessoa arca com suas próprias escolhas e decisões, mais responsável ela se torna pelo próprio fracasso. Esse discurso ignora os contextos históricos, sociais e econômicos, ao colocar o indivíduo em uma competição constante consigo mesmo, enquanto se nega cada vez mais qualquer forma de apoio, tudo em nome da autossuficiência (Kehl, 2003).
Como aponta Butler (1987, p. 47), “[...] a ideologia do neoliberalismo entende que o indivíduo se faz por si próprio, não necessitando de mais nada para sua constituição, além de si próprio”. Nesse contexto, o autoconhecimento se torna uma chave essencial para a interiorização dos sujeitos, transformando-se em uma ferramenta crucial na nova lógica do capitalismo. A penetração do neoliberalismo nas subjetividades tem sido fundamental para o surgimento de uma nova onda de "coachings", que oferecem discursos simplificados para a resolução imediata de problemas, embasados exclusivamente no indivíduo. A mensagem central é a de “[...] fortalecer o eu, adaptá-lo melhor à realidade, torná-lo mais operacional em situações difíceis” (Dardot; Laval, 2016, p. 339). Na prática, cada indivíduo passa a agir como o próprio gerente de si mesmo.
O fortalecimento do autoconhecimento e das competências socioemocionais se entrelaça ao Projeto de Vida, promove a formação de sujeitos que se voltam para si mesmos, dedicando-se ao próprio desenvolvimento e focando em suas metas individuais. Adaptar os jovens ainda no Ensino Médio, por meio de um componente curricular voltado para essas habilidades, torna-se crucial para a manutenção da lógica neoliberal. Quanto mais esses jovens forem incentivados a se responsabilizar por sua individualidade, mais essa mentalidade se refletirá em seu desempenho no ambiente de trabalho, no qual eles tendem a tornar-se mais produtivos e alinhados às demandas empresariais.
Outro ponto a ser considerado em relação à cultura do autoconhecimento é o impacto direto na promoção da autossuficiência. O jovem é levado a acreditar que não precisa do Estado, e, assim, alcança uma suposta liberdade, tornando-se independente tanto do governo quanto das classes sociais. Esse jovem, ao organizar seu projeto de vida, torna-se o alvo ideal para as lógicas hegemônicas, em que todos devem estar abertos ao imprevisível, à inconstância e à adaptabilidade. Nesse cenário, a ideia de que todos têm as mesmas chances e que o sucesso depende apenas de esforço individual ganha força, por consolidar um discurso que se tornou cada vez mais consensual.
No contexto da formação de jovens com um projeto de vida voltado para as instabilidades do capitalismo, analisaremos a quarta reportagem, cuja manchete é: “Dos sonhos ao projeto de vida: como o planejamento financeiro pode ajudar os alunos no futuro?”, por Coutinho (2022). O foco dessa matéria está na educação financeira. Logo no início, o texto afirma que empreender é o principal interesse da juventude brasileira. No entanto, é importante destacar que essa afirmação não é acompanhada por dados de pesquisas ou referências, o que revela um problema significativo: a ausência de uma problematização adequada.
A educação financeira e o empreendedorismo são dois grandes pilares defendidos dentro dos documentos orientadores sobre o Projeto de Vida. A inserção da educação financeira e do empreendedorismo no Ensino Médio, embora pareça oferecer ferramentas importantes para a vida dos estudantes, muitas vezes adota uma abordagem limitada e acrítica. Ao enfatizar o empreendedorismo como solução para o futuro dos jovens, o sistema educacional acaba reforçando uma lógica individualista e mercadológica, que ignora as desigualdades estruturais e os desafios sociais enfrentados por muitos.
A educação financeira, no contexto atual, expande-se sob a influência de fatores globais, especialmente com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a reforma do Ensino Médio (Brasil, 2017). Essas mudanças refletem a inserção de demandas de organismos internacionais que, segundo Hypolito (2019), fazem parte de um Movimento Global de Reforma da Educação. Esse movimento, fundamentado em políticas neoliberais, visa fortalecer as reformas educacionais para atender tanto aos interesses de mercado quanto ao controle sobre o conhecimento. Tais políticas estão alinhadas com investidas ideológicas conservadoras e mostram como uma agenda global vai se estruturando localmente, impulsionada por grupos hegemônicos.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incorpora elementos de educação financeira diretamente em seu texto, especialmente no ensino da Matemática, na qual são abordados conceitos básicos de economia e finanças nas unidades temáticas. Além disso, a educação financeira é mencionada em 11 habilidades e, no campo das Ciências Humanas, há uma referência clara à crescente importância do “[...] empreendedorismo individual, em todas as classes sociais, e cresce a importância da educação financeira e da compreensão do sistema monetário contemporâneo nacional e mundial [...]” (Brasil, 2017, p. 568). Esse trecho deixa claro como a Nova Escola tem reforçado consistentemente a BNCC, desempenhando um papel significativo na criação de consenso em torno do documento e promovendo o projeto de vida dos estudantes, articulado à educação financeira.
No contexto da educação financeira e do pensamento neoliberal, é pertinente resgatar uma frase dita pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes, que ocupou o chamado "superministério" da economia durante a gestão de Jair Bolsonaro (2018-2022). Em entrevista à grande imprensa, Guedes afirmou: "Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo" (Folha de S. Paulo, 2019). Essa declaração exemplifica claramente a visão neoliberal, que tende a culpabilizar os pobres por sua própria condição, atribuindo-a à falta de educação financeira e à incapacidade de poupar. Paulo Guedes, um economista cuja carreira sempre esteve alinhada aos interesses neoliberais, foi amplamente reverenciado pelo mercado financeiro. No entanto, seu desempenho como ministro foi amplamente criticado. Economistas, como o presidente do Conselho Federal de Economia, classificaram sua gestão como um “[...] legado pífio: crescimento econômico baixo, investimento público no menor nível da história, elevado desemprego, aumento da fome e miséria” (Cofecom, 2022). Mais uma vez, podemos perceber que o interesse recorrente em torno da educação financeira, promovido pela Nova Escola e amplamente apoiado por setores empresariais, constitui uma falácia para justificar as instabilidades do capitalismo. Esse discurso molda os jovens para se adequar às flutuações imprevisíveis das demandas de mercado, preparando-os para enfrentar essas variações, sem questionar as causas estruturais das crises econômicas (Laval, 2019).
Ao tratar de projeto de vida e educação financeira, é essencial refletir sobre a dimensão ideológica envolvida. Além de instrumentalizar os jovens para o mercado, o neoliberalismo busca fazê-los aceitar as condições impostas pela sociedade, promovendo consensos sobre o modelo social a ser construído. Nesse sentido, concordamos com Gramsci (2015, p. 56), que afirma: "É preciso convencer-se de que não só é 'objetivo' e necessário um certo instrumento, mas também um certo modo de comportar-se, uma certa educação, um certo modo de convivência" (Grifo do autor). A educação financeira, então, surge como uma ferramenta ideológica fundamental para legitimar uma sociedade em que tudo precisa ser “financeirizado”, reforçando a naturalização dessas dinâmicas econômicas e sociais.
A quinta e última reportagem analisada, intitulada "Projeto de Vida estimula o protagonismo do estudante e favorece a Educação Antirracista" (Paiva, 2022), narra a história de uma estudante que ingressa em uma faculdade de Medicina, buscando associar o sucesso dessa conquista à relevância do Projeto de Vida. Embora reconheçamos a importância de abordar a pauta antirracista nas escolas e os aspectos positivos que isso traz, não podemos ignorar o fato de que, muitas vezes, o debate não é tratado com a profundidade que merece. O uso dessa pauta pode, na verdade, ser uma tentativa estratégica de atrair setores mais críticos e progressistas. Shiroma, Campos e Garcia (2005) argumentam que há uma transição dos discursos economicistas para um viés mais humanista, utilizando termos como inclusão, oportunidade, justiça e equidade. O objetivo é criar uma hegemonia e um consenso que envolva educadores, teóricos e pesquisadores. Esse movimento se aproxima estrategicamente de grupos progressistas ao incorporar pautas importantes, tornando difícil a oposição a debates tão necessários. No entanto, essa aproximação serve, mais uma vez, para consolidar os interesses neoliberais na educação, estabelecendo uma hegemonia discursiva que disfarça as intenções de controle e instrumentalização do ensino.
Ao analisar a citação da revista que argumenta sobre "[...] a importância do Projeto de Vida para os alunos, sobretudo quando é necessário enfrentar desigualdades socioeconômicas e o racismo estrutural, presente no próprio processo de escolarização" (Paiva, 2022), percebemos claramente a tentativa de destacar o impacto positivo que o Projeto de Vida pode ter na trajetória dos estudantes. Embora essa discussão promovida pela Nova Escola pareça bem-intencionada, reforçando não apenas a implementação da BNCC, da qual foi defensora e participante por meio da Fundação Lemann, e da reforma do Ensino Médio, é essencial abordá-la com um olhar crítico. Mesmo sendo uma matéria com uma narrativa inspiradora e conquistas importantes, é preciso analisá-la de modo dialético. Shiroma, Campos e Garcia (2005) nos fornecem os elementos necessários para compreender que os documentos educacionais não apenas orientam práticas pedagógicas, mas também produzem justificativas para reformas que dependem de consensos locais para a implementação de agendas neoliberais. Assim, nessa reportagem de Paiva, na Nova Escola, foi utilizado esse propósito para legitimar e criar consensos em torno dessas reformas, para mascarar interesses econômicos sob pautas aparentemente progressistas.
Nessa matéria discute-se, ainda, a importância de tempos, espaços específicos e professores preparados no componente curricular de Projeto de Vida, ao afirmar que "[...] a figura do professor-tutor é essencial" (Paiva, 2022). No entanto, o Brasil ainda enfrenta grandes desafios em relação à infraestrutura escolar. Apenas 30% das escolas têm laboratório de informática, 32% têm bibliotecas e somente 10% dispõem de laboratórios de ciências (QEdu, 2023), revelando uma profunda desigualdade em aspectos ainda básicos. Além disso, o destaque dado ao "professor-tutor" reflete uma clara tentativa de precarização docente dentro da lógica capitalista. Sob as políticas neoliberais, há um movimento contínuo de esvaziamento da identidade do professor como intelectual, transformando-o em um mero auxiliar na aprendizagem do aluno (Saviani, 2021). Essa tendência acompanha um projeto mais amplo de substituição gradual dos professores por recursos tecnológicos, como plataformas educacionais, que já são amplamente utilizadas em diversas redes de ensino no Brasil (Barbosa; Alves, 2023). Paralelamente, essas abordagens também representam um ataque ao Estado, e promovem um discurso que culpa a suposta má formação dos professores pela crise da educação, abre espaço para justificar a intervenção do setor privado no ensino.
Diante das reflexões apresentadas, é fundamental analisar criticamente o Projeto de Vida, promovido pelas reportagens da Nova Escola, uma instituição vinculada a uma fundação com interesses claros sobre a educação pública no Brasil. Essa iniciativa evidencia como a educação pública está na mira de setores alinhados ao capital. Por isso, é imprescindível fortalecer os atores e setores que defendem a escola pública em seu caráter constitucional: laica, gratuita, de qualidade e acessível a todos. Ricci (2019, p. 14) nos convida a refletir que
[...] ao adotarmos políticas imediatistas sem reflexão ou profundidade, alimentadas por intenções populistas e de garantia de resultados espetaculares, ainda que pouco duradouro, nos jogamos na aventura e no desperdício de recursos que afetarão a vida de milhões de estudantes.
Nesse contexto, manter um olhar crítico não apenas sobre o Projeto de Vida, mas também sobre quem o promove, é uma maneira de proteger a juventude, que está sendo alvo dos interesses empresariais. Esses interesses buscam moldar os jovens para um projeto fracassado de capital, em que a formação deixa de ser um caminho para a emancipação e se torna apenas uma adaptação às exigências do mercado. Como apontam Marx e Engels (2007, p. 32-33), o primeiro pressuposto de toda a história é que “[...] os homens têm de estar em condições de viver para poder ‘fazer história’”, o que reforça a ideia de que o capital, ao controlar as condições de vida, restringe o poder transformador da juventude, subordinando-a aos interesses do sistema econômico.
Considerações finais
Este estudo tem como base de análise cinco reportagens publicadas pela Nova Escola, que, no decorrer do tempo, passou de uma revista impressa distribuída nas escolas para um portal digital com amplas reportagens sobre diversos contextos educacionais. Embora a plataforma ofereça uma vasta gama de materiais e conteúdos, o foco aqui está nas discussões sobre o Projeto de Vida, um componente curricular que ganhou destaque em muitas redes de Ensino Médio. Esse movimento se intensificou após a homologação da BNCC e a promulgação da Lei nº 13.415/2017, que implementou a reforma do Ensino Médio, além da recente atualização pela Lei nº 14.945/2024 (Brasil, 2017, 2024).
O Projeto de Vida é amplamente abordado nas políticas educacionais brasileiras recentes, sendo recomendado para todas as etapas da Educação Básica, com maior ênfase no Ensino Médio. A premissa central é de que os jovens não conseguem construir seus projetos de vida de maneira autônoma, e, por isso, incorporar essa temática ao currículo do Ensino Médio seria uma solução para enfrentar problemas sociais existentes no país. Nesse contexto, esse estudo analisa cinco reportagens da plataforma Nova Escola, vinculada à Fundação Lemann, com o objetivo de observar como o Projeto de Vida é discutido e de que maneira são apresentadas sugestões para sua implementação nas escolas. A análise revela diferentes apelos e uma abordagem que, muitas vezes, é acrítica, sem problematizar adequadamente as implicações do componente curricular.
As cinco reportagens analisadas comprometem-se em exaltar o Projeto de Vida como um componente curricular essencial, por destacarem seu papel no processo formativo dos estudantes. Elas abordam desde orientações sobre como se tornar um professor de Projeto de Vida, até a forma como esse componente curricular, ao tornar-se disciplina obrigatória, pode impulsionar mudanças tecnológicas, auxiliar no planejamento financeiro, apoiar o pensamento sobre o futuro e ajudar a superar questões raciais. Embora esses temas sejam, sem dúvida, importantes e fundamentais para a juventude, o enfoque das reportagens é direcionado para a construção de um consenso em torno de sua relevância para as escolas brasileiras. Por meio de diversos apelos, as reportagens parecem buscar não apenas informar, mas também consolidar uma hegemonia sobre as juventudes, legitimando o Projeto de Vida sem um debate mais crítico ou reflexivo sobre suas implicações.
Nessas reportagens da Nova Escola, constatamos a busca por transmitir uma imagem de simplicidade e neutralidade, mas, ao mesmo tempo, o uso de forte apelo emocional, ao recorrer a exemplos, narrativas e histórias que mascaram os verdadeiros interesses da Fundação Lemann. Esses interesses visam a criação de consensos em torno de temas fundamentais, como a precarização docente, a negação das desigualdades sociais e a promoção de uma educação financeira desprovida de análises críticas sobre o capitalismo. Além disso, a ênfase no uso de tecnologias e na formação de jovens para atender às demandas neoliberais reflete uma tentativa de moldar indivíduos flexíveis, adaptáveis, acríticos, empreendedores e conformados, prontos para um mercado imprevisível. Nesse contexto, o conhecimento historicamente acumulado e os valores da educação crítica tornam-se secundários, uma vez que o principal objetivo passa a ser a preparação dos jovens para as flutuações do capital, em detrimento de sua formação emancipadora.
Por fim, concordamos com Laval (2019) ao afirmar que o direcionamento neoliberal impõe que os jovens elaborem seus projetos de vida cada vez mais cedo, conduzindo-os a uma trilha única. Esse amadurecimento forçado tem como principal objetivo sufocar qualquer desejo subjetivo, impondo a necessidade de uma escolha profissional que, na verdade, não é um projeto genuíno do jovem, mas sim um projeto que o orienta para a manutenção da sociedade capitalista. Dessa forma, são sufocadas a beleza das utopias e dos sonhos que naturalmente acompanham a juventude, em nome da adaptação às exigências de um sistema que prioriza a conformidade e a produtividade.














