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Revista Diálogo Educacional
versión impresa ISSN 1518-3483versión On-line ISSN 1981-416X
Rev. Diálogo Educ. vol.25 no.85 Curitiba abr./jun. 2025 Epub 24-Jul-2025
https://doi.org/10.7213/1981-416x.25.085.ao02
Artigo
Professores com deficiência física no cenário educacional brasileiro: uma revisão sistemática
Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Ouro Preto
http://orcid.org/0000-0001-7199-6181
Doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais
http://orcid.org/0000-0002-0159-4109
[a]Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Conselheiro Lafaiete, MG, Brasil, e-mail: fabricio_fps@yahoo.com.br
[b]Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Belo Horizonte, MG, Brasil, e-mail: mamf.franco@gmail.com
A presente revisão sistemática objetivou elucidar como pesquisas têm abordado a realidade dos professores com deficiência física no Brasil, considerando estudos publicados de 2011 a 2021. A revisão sistemática foi conduzida e realizada de acordo com as diretrizes descritas na declaração PRISMA. Foram incluídos estudos qualitativos disponíveis nas bases de dados Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD e SciELO, focados nas trajetórias formativas e profissionais desses docentes. Dos 697 registros identificados, dois estudos atenderam aos critérios de inclusão. A análise revelou que, além de barreiras físicas, os professores enfrentam estigmas sociais que impactam a percepção de suas competências pedagógicas, evidenciando a influência da imagem corporal e do capacitismo em seu cotidiano profissional. Conclui-se que o preconceito estrutural e a escassez de políticas inclusivas perpetuam desafios, enquanto a literatura ainda apresenta lacunas significativas sobre as experiências docentes, dessa população.
Palavras-chave: Professores com deficiência física; Inclusão; Educação Especial
This systematic review aimed to elucidate how research has addressed the reality of teachers with physical disabilities in Brazil, considering studies published from 2011 to 2021. The systematic review was conducted in accordance with the guidelines described in the PRISMA statement. It included qualitative studies available in the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD) and SciELO databases focused on the educational and professional trajectories of these teachers. Only two studies of the 697 records identified met the inclusion criteria. The analysis revealed that in addition to physical barriers, teachers face social stigmas which impact the perception of their pedagogical skills, highlighting the influence of body image and ableism in their daily professional lives. The conclusion is that structural prejudice and the scarcity of inclusive policies perpetuate challenges, while the literature still shows significant gaps in the teaching experiences of this population.
Keywords: Teachers with physical disabilities; Inclusion; Special education
Esta revisión sistemática tuvo como objetivo dilucidar cómo la investigación ha abordado la realidad de los profesores con discapacidad física en Brasil, teniendo en cuenta los estudios publicados entre 2011 y 2021. La revisión sistemática se llevó a cabo de acuerdo con las directrices descritas en la declaración PRISMA. Se incluyeron estudios cualitativos disponibles en las bases de datos Biblioteca Digital Brasileña de Tesis y Disertaciones (BDTD) y SciELO, centrados en las trayectorias educativas y profesionales de estos profesores. De los 697 registros identificados, dos estudios cumplieron los criterios de inclusión. El análisis reveló que, además de las barreras físicas, los profesores enfrentan estigmas sociales que impactan en la percepción de sus competencias pedagógicas, destacando la influencia de la imagen corporal y del capacitismo en su cotidiano profesional. La conclusión es que los prejuicios estructurales y la escasez de políticas inclusivas perpetúan los retos, mientras que la bibliografía sigue mostrando importantes lagunas en las experiencias docentes de esta población.
Palabras clave: Profesores con discapacidad física; Inclusión; Educación especial
Introdução
O debate sobre inclusão de pessoas com deficiência nos espaços sociais está em crescente investigação, refletindo uma necessidade urgente de abordagens sistemáticas. A Organização das Nações Unidas (ONU) reporta a existência de aproximadamente um bilhão de pessoas com deficiência no mundo (Vassie, 2018). No Brasil, um levantamento recente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022 identifica que a população com deficiência no país, a partir de dois anos de idade, é estimada em 18,6 milhões, correspondendo a 8,9% do contingente populacional nessa faixa etária
Dados do Censo do Ensino Superior de 2022 no Brasil destacam uma composição demográfica específica dentro do contexto educacional superior. Dos aproximadamente 9 milhões de estudantes inscritos, 79.262 são identificados com deficiência, constituindo 0,8% do corpo discente total em modalidades de ensino à distância e presencial. Este número assinala um incremento significativo de quase 25% em comparação aos dados registrados no Censo anterior de 2021, refletindo não apenas uma tendência ascendente na inclusão educacional, mas também desafiando as instituições de ensino superior a adaptarem-se a uma diversidade crescente dentro do seu alunado.
Embora haja um aumento notável nas matrículas de alunos com deficiência no Ensino Superior, sua inserção no mercado de trabalho permanece desproporcionalmente baixa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022 indicam uma taxa de participação na força de trabalho de 66,4% para indivíduos sem deficiência, contrastando com uma taxa significativamente menor de 29,2% para aqueles com deficiência. Essa disparidade sinaliza a necessidade urgente de não apenas facilitar o acesso e a retenção no Ensino Superior para pessoas com deficiência, mas também de garantir que as transições para o ambiente de trabalho sejam viáveis e sustentáveis.
A despeito da legislação estabelecida para promover a inclusão no mercado de trabalho, como a Lei de Cotas (Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991), que está em vigor há mais de três décadas, a análise da situação vigente no Brasil revela que os direitos laborais das pessoas com deficiência frequentemente não se concretizam plenamente. Conforme Oliveira (2015) aponta, a proporção dessa população inserida formalmente no emprego continua a ser substancialmente inferior às metas propostas, indicando uma lacuna entre a legislação e sua eficaz implementação.
Na esfera educacional, o foco predominante da literatura tem sido as experiências de estudantes com deficiência e as atitudes e percepções dos educadores em relação ao ensino dessa população específica, como demonstrado nos estudos de Moraes (2022) e Cueto (2019). No entanto, há uma notável escassez de estudos voltados para a formação e as vivências profissionais de professores com deficiência, uma área que requer análise aprofundada para uma compreensão abrangente da inclusão no ambiente educativo (Santos, 2019).
A análise do aparente paradoxo presente na inclusão de professores com deficiência no cenário na educação básica requer uma exploração de suas jornadas educacionais e trajetórias profissionais. Neste contexto, a presente revisão sistemática examina a literatura publicada de 2011 a 2021, objetivando elucidar como os discursos acadêmicos têm abordado a realidade dos professores com deficiência física no Brasil. Este trabalho insere-se como segmento de uma tese de doutorado mais ampla, intitulada “O professor de educação física com deficiência física: da trajetória de formação ao exercício da profissão”. Aqui, focalizamos em desvelar, através da análise de artigos, dissertações e teses, as realidades profissionais de professores com deficiência física, utilizando suas histórias de vida como um prisma para examinar a prática docente em meio a desafios e adaptações.
Método
A revisão sistemática é um método rigoroso projetado para a coleta de estudos sobre um tema bem delimitado, empregando técnicas meticulosas e replicáveis de busca e seleção. Este método é instrumental não só na avaliação da qualidade e integridade das pesquisas existentes, mas também na determinação da sua relevância e potencial de implementação em contextos específicos de intervenção (De-Latorre-Ugarte-Guanilo et al., 2011). O presente estudo adota essa abordagem metodológica para a seleção e análise de publicações que delineiam os professores com deficiência física, atuantes na educação básica, no cenário brasileiro, entre os anos de 2011 a 2021.
Conforme Kitchenham (2004), a revisão sistemática se desdobra em três etapas críticas: o planejamento, a execução e a divulgação dos achados. A etapa inicial implica na formulação de um protocolo detalhado, enquanto a execução envolve a identificação, seleção e síntese dos estudos pertinentes. A etapa conclusiva foca na comunicação eficaz dos resultados obtidos através da revisão.
A revisão sistemática foi conduzida e reportada em conformidade com as diretrizes estabelecidas pela declaração PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta- Analysis) (Page, 2021). A metodologia seguiu rigorosamente as etapas propostas, começando pela delimitação precisa da questão de pesquisa, passando pela escolha das fontes de dados, definição e refinamento das palavras-chave utilizadas nas buscas, até a busca e armazenamento sistemático dos resultados. A seleção dos estudos foi realizada de acordo com critérios de elegibilidade previamente definidos, garantindo a inclusão apenas dos estudos mais relevantes. A extração dos dados dos estudos selecionados foi conduzida com rigor metodológico, seguida pela síntese e interpretação detalhada dos dados coletados (Costa & Zoltowski, 2014).
Critérios de Elegibilidade
São critérios de inclusão: (I) estudos com método qualitativo, focados em professores com deficiência física atuantes na Educação Básica no Brasil; (II) publicações entre os anos de 2011 e 2021. O período de 2011 a 2021 foi delimitado com o objetivo de abranger a produção científica da década anterior ao início da coleta de dados (2021), alinhando-se temporalmente a uma pesquisa de doutorado desenvolvida pelos autores deste estudo; (III) trabalhos acadêmicos (artigos, dissertações e teses) disponíveis nas bases de dados selecionadas (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações - BDTD e Scientific Electronic Library Online - SciELO); e (IV) estudos que abordam a experiência dos professores na trajetória de formação e/ou exercício da profissão por professores com deficiência física. A escolha dos professores de educação física que atuam na Educação Básica considerou: a) ser esta uma etapa que concentra um maior número de matrículas de estudantes; b) a relevância social da Educação Básica como pilar da trajetória escolar; c) ser esta uma etapa que requer condições estruturais significativas para a realização do trabalho do professor de educação física em aulas práticas, o que poderia evidenciar os aspectos relacionados às barreiras e acessibilidades enfrentadas pelos professores com deficiência física. São critérios de exclusão: (I) Estudos que não abordam diretamente professores com deficiência física na Educação Básica; (II) Publicações fora do período definido (2011-2021); (III) Trabalhos não disponíveis nas bases de dados selecionadas; (IV) Estudos com metodologia quantitativa; e (V) Estudos que tratam de deficiências de forma muito geral, sem foco específico em professores com deficiência física.
Estratégia de busca e seleção dos estudos
A coleta de dados foi realizada por meio de duas proeminentes bibliotecas digitais. Inicialmente, procedeu-se à busca na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). A escolha da BDTD deve-se ao seu abrangente acervo de trabalhos acadêmicos produzidos no Brasil, o que permite um mapeamento detalhado e atualizado das investigações conduzidas nas instituições de ensino superior do país. A BDTD reúne dissertações e teses que representam uma fonte primária de pesquisa acadêmica, com diversas abordagens metodológicas e teóricas aplicadas ao longo dos anos.
Complementarmente, explorou-se a base de dados da Scientific Electronic Library Online (SciELO), reconhecida internacionalmente por sua rigorosa curadoria de publicações científicas revisadas por pares. A escolha pela SciELO justifica-se pela qualidade e credibilidade dos artigos científicos disponíveis, que são frequentemente citados e respeitados na comunidade acadêmica. A base de dados da SciELO permite acesso a estudos que passaram por um criterioso processo de revisão por pares, assegurando que as informações coletadas sejam confiáveis e de relevância para o tema investigado. A busca nas referidas bases de dados foi realizada nos meses de julho e agosto de 2022 e focou em artigos que tratam especificamente da atuação de professores com deficiência física.
A estratégia de busca utilizou combinações das seguintes palavras-chave “Educação Física” “professor” e “deficiência”, “deficiência física” e “licenciatura”, “Educação Física e formação docente”. Foi aplicada delimitação temporal, restringindo as publicações do período entre 2011 e 2021 e não foi utilizado critério de delimitação do idioma. Todo o processo de busca das publicações foi realizado pelos pesquisadores, de forma independente, obtendo-se os mesmos resultados.
Processo de Seleção
Na etapa de seleção, todos os títulos, resumos, palavras-chave, autores e periódicos das referências encontradas foram salvos, totalizando 697 referências potencialmente relevantes, sendo 11 estudos na base de dados do SciELO e 686 estudos na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD).
Para a seleção dos artigos, foram utilizados os critérios estabelecidos pelo PRISMA. Inicialmente, foi realizada a verificação de referências duplicadas, resultando na exclusão de dois artigos do SciELO, totalizando 695 estudos para a próxima etapa. Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos dos trabalhos previamente selecionados. Para excluir estudos por título, utilizamos o critério de eliminar aqueles cujos títulos indicavam claramente que o foco era o trabalho docente com alunos com deficiência, seja no ensino básico ou no ensino superior, bem como estudos que mencionavam deficiências específicas que não fossem deficiência física, tanto envolvendo alunos quanto professores. Esta etapa inicial de exclusão foi fundamental para garantir que apenas os estudos mais pertinentes ao tema específico da pesquisa, professores de educação física com deficiência física atuantes na educação básica, fossem considerados para as próximas fases de análise. Nesta fase, foram excluídos 83 estudos, sendo 76 da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e 7 do SciELO, totalizando 612 para próxima etapa.
A etapa subsequente envolveu a leitura dos resumos. Seguindo os critérios de inclusão estabelecidos e descritos anteriormente, foram excluídos 608 estudos, sendo 2 artigos do SciELO e 606 teses/dissertações da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Cabe salientar que a maioria dos estudos excluídos nesta fase, 98% dos estudos, correspondendo a 595 trabalhos, foram eliminados por focarem na atuação de professores com alunos com deficiência, não focando especificamente a experiência de professores com deficiência física. Importa mencionar que todos os estudos encontrados na base de dados do SciELO foram excluídos até essa fase.
Na etapa final, foram selecionados 04 estudos para leitura na íntegra. Desses estudos, 02 foram excluídos, pois os trabalhos envolviam a narrativa de alunos com deficiência a respeito da inclusão no ensino superior. Por fim, as investigações conduzidas resultaram na identificação de uma dissertação e uma tese que se alinham estritamente aos critérios deste estudo.
Apesar de termos identificado 697 referências em potencial para análise, apenas 2 estudos atenderam aos critérios estabelecidos. Este fato evidencia a escassez de pesquisas direcionadas especificamente a professores com deficiência física atuantes na educação básica no Brasil. Tal resultado sublinha a relevância e a necessidade desta revisão sistemática, destacando a lacuna significativa na literatura e a urgência de mais investigações sobre este grupo de profissionais, cujas experiências e desafios ainda são insuficientemente explorados. Além disso, esse resultado aponta para a invisibilidade desses sujeitos na sua atuação profissional. Abaixo, apresentamos o fluxo da seleção dos artigos como forma de ilustrar, graficamente, o processo.
Resultados e discussão
A revisão sistemática resultou na seleção de um corpus composto por dois estudos essenciais, cada um atendendo integralmente aos critérios pré-definidos de inclusão. As características detalhadas desses estudos selecionados são apresentadas no Quadro 1, fornecendo uma base para a análise subsequente e discussão das descobertas no contexto da inclusão de professores com deficiência física no sistema educacional.
Quadro 1 Características dos estudos selecionados para a revisão sistemática
| Autor/Ano | Dissertacao/ monografia | Título do estudo |
|---|---|---|
| Santos (2013) | Dissertação | Professores com deficiência no município de Vitória: vidas que compõem histórias |
| Brito (2014) | Tese | Desafios da inclusão: Vivências de educadores com deficiência ou com surdez |
Fonte: Elaborado pelo autor (2024).
Nos próximos parágrafos serão apresentados, de forma descritiva, os resultados dos estudos localizados na revisão sistemática. As pesquisas citadas abaixo estão apresentadas por ordem cronológica, sem critério de relevância.
Na dissertação de Santos (2013), intitulada "Professores com deficiência no município de Vitória: vidas que compõem histórias", investiga-se a trajetória de vida de profissionais com deficiência no magistério, atuantes na Rede Municipal de Ensino de Vitória. Este é um estudo qualitativo baseado em entrevistas semiestruturadas, visando conhecer, através de histórias de vida, as trajetórias dos profissionais com deficiência atuantes no sistema municipal de ensino de Vitória. Foram realizadas entrevistas com quatro professores com deficiência: dois com deficiência física e dois cegos. A análise das narrativas seguiu a perspectiva sócio-histórica predominantemente Vigotskiana. A autora propôs quatro categorias para análise das narrativas: eventos da vida que influenciaram a escolha da profissão; dificuldades enfrentadas em função da deficiência na vida pessoal e profissional; atuação cotidiana na escola; e percepção dos alunos sobre a deficiência dos educadores. Como resultado, a autora destacou a importância da análise histórica para compreender as "rotulações de incapacidade" em torno da deficiência, bem como as heranças históricas do contexto educacional. Apesar de uma formação em um ambiente de baixa inclusão, os professores com deficiência demonstraram suas potencialidades em uma rede de possibilidades (Santos, 2013).
O segundo estudo selecionado na revisão sistemática é a tese de Brito (2014), intitulada "Desafios da inclusão: vivências de educadores com deficiência ou com surdez". Este estudo investigou as influências dos contextos familiares, escolares e profissionais sobre o desenvolvimento de educadores com deficiência ou com surdez. O objetivo foi verificar a perspectiva dos próprios sujeitos sobre episódios que marcaram sua trajetória educacional, escolha pela carreira docente e prática profissional. Foram conduzidas entrevistas semiestruturadas com oito professores (três com surdez, três com deficiência visual e dois com deficiência física/neuromotora) atuantes na Educação Básica ou Superior nas regiões de Curitiba e do Litoral do Paraná. A análise dos dados identificou vivências em três contextos: Família, Escola e Trabalho, destacando vivências potencializadoras e obstaculizadoras do desenvolvimento e sucesso educacional dos entrevistados. A autora utilizou análise de conteúdo para síntese interpretativa, baseando-se nos dados obtidos, revisão da literatura e experiência profissional da pesquisadora. Destacou-se a importância de atitudes que incentivaram independência e autonomia, além das sugestões dos entrevistados sobre políticas inclusivas. Os resultados apontaram a influência dos contextos no desenvolvimento das pessoas com deficiência, sobretudo na atuação profissional, e a necessidade de institucionalização de ações inclusivas e maior divulgação das reais capacidades dessas pessoas (Brito, 2014).
Com base nos estudos revisados por Santos (2013), identifica-se que o número de pesquisas sobre professores com deficiência, no período de 2003 a 2013, é ínfimo, totalizando apenas seis estudos, nenhum deles em nível de doutorado. Para enfatizar a necessidade de mais pesquisas que envolvam professores com deficiência em exercício, a dissertação de Santos (2013) apresenta, como resultado de uma revisão de literatura, trabalhos relacionados às histórias de vida desses professores, a partir de pesquisas realizadas entre 2003 e 2013. A análise foi realizada utilizando o banco de teses da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e outras fontes de pesquisa, como bibliotecas virtuais. A autora informa, no referido estudo, que foram encontradas cinco dissertações e uma monografia de pós-graduação. Abaixo, apresentamos um quadro descritivo dos estudos mencionados pela autora.
Quadro 2 Resultado das pesquisas de Santos (2013)
| Autor/Ano | Dissertacao/ monografia | Título do estudo |
|---|---|---|
| Barros (2003) | Dissertação | Faces e contrafaces dos educadores com deficiência |
| Jungues (2005) | Dissertação | A trajetória profissional de professores com deficiência atuantes na rede de ensino de Curitiba e região metropolitana |
| Lemos (2008) | Dissertação | Formação e práxis do educador cego ou de baixa visão em Manaus |
| Oliveira (2008) | Dissertação | Construção de saberes e significações imaginárias na trajetória de vida de uma alfabetizadora cega |
| Klaumann (2009) | Dissertação | A trajetória profissional de professores com deficiência atuantes na rede de ensino de Curitiba e região metropolitana. |
| Cardozo (2009) | Monografia | Inclusão dos professores deficientes: um estudo na rede municipal do Rio de Janeiro. |
Fonte: Santos (2013).
Embora os estudos selecionados abordassem diferentes aspectos, a análise dos estudos revelou uma relação intrínseca entre a deficiência física dos professores e desafios críticos que permeiam as trajetórias profissionais, sendo elas: a) barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência no mercado de trabalho; b) os desafios inerentes à capacidade de exercer a docência, considerando as limitações físicas; c) o estigma e o preconceito experimentados no ambiente de trabalho. Uma avaliação qualitativa, alinhada às temáticas relevantes, permitiu explorar a complexidade destas questões, levando em consideração as particularidades e o contexto vivenciado por cada educador.
Barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência no mercado de trabalho
Conforme delineado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei Brasileira nº 13.146/2015), barreiras são definidas como quaisquer impedimentos que restrinjam ou prejudiquem a participação social plena das pessoas com deficiência. Essas barreiras são multifacetadas, incluindo desafios urbanísticos, arquitetônicos, de transporte, comunicacionais, atitudinais e tecnológicos, frequentemente emergindo e se entrelaçando dentro do contexto laboral, conforme elucidado em estudos anteriores (Simonelli & Camarotto, 2011; Simonelli et al., 2020).
Em particular, a comunicação eficaz e a compreensão das capacidades funcionais das pessoas com deficiência revelam-se fundamentais para desmantelar preconceitos arraigados e atitudes discriminatórias, os quais podem levar à segregação social e ao capacitismo, sendo este “atitudes preconceituosas que hierarquizam sujeitos em função da adequação de seus corpos a um ideal de beleza e capacidade funcional” (Mello, 2016, p. 3266).
No estudo de Santos (2013), a autora destaca que entender a construção histórica da identidade profissional de pessoas com deficiência é crucial para decifrar as barreiras enfrentadas por elas. A análise oferecida no estudo fornece uma perspectiva sobre como as 'rotulações de incapacidade' têm raízes nas percepções históricas, tanto no Brasil quanto internacionalmente, e como essas percepções continuam a influenciar negativamente a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.
As deficiências no planejamento urbano e nos sistemas de transporte, muitas vezes atribuídas à gestão pública ineficiente, também são críticas, pois afetam a mobilidade das pessoas com deficiência de suas casas para os locais de trabalho, criando barreiras adicionais (Simonelli & Jackson Filho, 2017). Essa realidade é exemplificada no estudo de Santos (2019), onde uma professora de educação física cadeirante, trabalhando como personal trainer, enfrenta tais desafios de mobilidade. As barreiras apresentadas não são isoladas, mas fazem parte de um sistema interconectado que perpetua a exclusão e limita a participação social e profissional de pessoas com deficiência. Os trabalhos de Simonelli e Jackson Filho (2017) e Simonelli et al. (2020) corroboram essa visão, evidenciando como os impactos negativos se estendem para além do contexto profissional, afetando as interações sociais e a rotina diária, e reforçando a necessidade de estratégias integradas para combater esses obstáculos sistemáticos.
De acordo com as disposições do Estatuto da Pessoa com Deficiência, ou Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015), a deficiência é conceituada como uma condição de longa duração decorrente de fatores congênitos ou adquiridos, manifestando-se em desafios físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais. Este quadro, quando em interação com barreiras ambientais e sociais, pode limitar ou impedir a plena e efetiva participação do indivíduo na sociedade em igualdade de condições com outros cidadãos.
Os desafios inerentes à capacidade de exercer a docência, considerando a deficiência física
A representação física dos professores, e suas implicações na credibilidade e eficácia percebidas, é uma área que demanda maior exploração quando essas características intersectam com a presença de deficiências físicas. Este hiato no conhecimento torna-se ainda mais relevante diante de evidências sugerindo que as percepções dos alunos sobre a competência dos professores podem ser, substancialmente, influenciadas pela aparência física dos educadores. Um estudo de Melville e Maddalozzo (1988) ilustra essa dinâmica. Na pesquisa, dois grupos de estudantes do ensino médio foram aleatoriamente atribuídos para assistir a uma de duas versões quase idênticas de uma aula de educação física, ministrada por vídeo. A principal variável manipulada foi a condição física do professor, alternando entre uma aparência saudável e em forma e uma condição artificialmente alterada para parecer com sobrepeso, utilizando um traje que simulava obesidade. A análise das percepções dos estudantes revelou que a credibilidade e a eficácia percebidas do professor eram consideravelmente reduzidas quando ele era visto como estando com excesso de peso. Isso aponta para uma correlação significativa entre a imagem física do educador e a efetividade do processo de aprendizagem.
Por outro lado, a dinâmica entre as percepções de competência docente e a presença de deficiência física em professores é complexa e multifacetada. Bryant e Curtner-Smith (2008) abordaram essa temática por meio de um estudo inovador, no qual alunos do ensino fundamental foram aleatoriamente designados para assistir a uma de duas aulas de natação, ambas ministradas pelo mesmo instrutor. Em uma aula, o instrutor não apresentava deficiência, enquanto na outra, utilizava uma cadeira de rodas para simular uma deficiência física. Contra as expectativas convencionais, os alunos relataram maior aprendizado na aula conduzida pelo professor em cadeira de rodas, o que sugere que a presença de uma deficiência pode não apenas desafiar, mas potencialmente melhorar a percepção do ensino eficaz. Essa descoberta abre caminhos para repensar as presumidas limitações associadas à deficiência física no contexto educacional e reforça a importância de explorar mais profundamente o impacto das condições físicas dos educadores na experiência de aprendizagem dos alunos.
O estudo de Brito (2014), ilustra como a visão sociocultural prevalente pode restringir o reconhecimento das habilidades e potenciais de educadores com deficiências físicas, afetando não apenas a percepção de suas capacidades docentes, mas também influenciando o processo de inclusão ou exclusão no ambiente educativo e profissional. Esta abordagem limitada, que enxerga apenas as restrições em vez das possibilidades, molda tanto o acolhimento familiar quanto as políticas de contratação, ressaltando a necessidade de uma mudança paradigmática para uma valorização genuína das competências individuais dos professores com deficiência.
O estigma e o preconceito experimentados no ambiente de trabalho
As pessoas com deficiência, em um histórico marcado por marginalização tanto profissional quanto social, têm enfrentado um regime de proteção social que, apesar de bem-intencionado, frequentemente resvala para o paternalismo e a tutela, contribuindo para a perpetuação de estigmas e práticas discriminatórias (GARCIA, 2014). No entanto, a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948 marcou um ponto de inflexão, reconhecendo e enaltecendo a diversidade humana como um valor global. Este marco tem orientado o desenvolvimento de estruturas sociais e legais que visam assegurar a equidade de direitos, incluindo a participação equitativa no mercado de trabalho (Freitas, 2015).
Adicionalmente às concepções amplamente discutidas na literatura acadêmica sobre o trabalho, pessoas com deficiência introduzem novas valorações que ressoam profundamente com sua identidade individual. Essas perspectivas emergentes destacam o trabalho não apenas como meio de subsistência, mas como um vetor crucial para a superação de estigmas, enfrentamento direto das percepções de incapacidade e como uma plataforma para efetuar mudanças positivas na sociedade. Tal enfoque reflete um esforço contínuo para redefinir a imagem social das pessoas com deficiência, destacando suas contribuições e resiliência (Galvão, et. al., 2018).
No estudo de Santos (2013), ficou evidenciado que os professores com deficiência que foram investigados na referida pesquisa, nadaram contra uma corrente segregadora, advindas de um preconceito social, e provaram suas potencialidades numa vasta rede de possibilidades que lhe foi aberta, o que é corroborado pelos achados de Santos (2019), que relata a persistência de preconceitos, muitas vezes sutis, no ambiente de trabalho.
Silva (2006) argumenta que o preconceito emerge como um fenômeno contemporâneo enraizado em relações sociais que estigmatizam e impedem a conscientização sobre a alienação dentro de uma estrutura social discriminatória. Este preconceito é moldado e perpetuado através de processos de socialização, refletindo profundamente a cultura e o legado histórico da sociedade. Crochík (1996) complementa esta visão, destacando que as interações de indivíduos preconceituosos são mediadas por categorias que classificam as pessoas, sustentando estereótipos em detrimento da experiência individual. Tal postura dogmática obstrui a possibilidade de um conhecimento autêntico sobre o outro, limitando a capacidade de revisão crítica de premissas preconcebidas.
Buscaglia (1997, p. 80) amplia essa compreensão, observando que o preconceito, seja em relação à raça, cor, religião, condição socioeconômica, ou mesmo diferenças físicas e mentais, exerce uma influência significativa e determinante nas dinâmicas comportamentais familiares. Esta análise sublinha a necessidade de abordar o preconceito como um elemento central nas discussões sobre inclusão e diversidade, apontando para a importância de estratégias educacionais e políticas públicas que visem a desconstrução dessas barreiras ideológicas.
Considerações finais
O estudo evidencia que, na realidade dos professores com deficiência física no Brasil, desvela-se um cenário no qual, apesar dos avanços normativos e dos princípios de inclusão promovidos por organismos internacionais e nacionais, persistem desafios significativos. As barreiras identificadas, sejam elas de natureza física, comunicacional ou atitudinal, reforçam a necessidade de um comprometimento mais efetivo por parte de todas as esferas da sociedade para remover os obstáculos à plena participação desses profissionais.
A pesquisa destacou a relevância da imagem física e do estigma associados à deficiência nas percepções de competência, assim como na inclusão social e profissional dos docentes com deficiência. As descobertas sugerem uma interação entre a presença física do educador e a qualidade percebida do ensino, destacando a necessidade de políticas educacionais que valorizem a diversidade e promovam práticas pedagógicas inclusivas.
A revisão também ressalta o peso do preconceito nas relações sociais, cuja influência molda as trajetórias profissionais e pessoais de pessoas com deficiência. Os estereótipos e as categorizações limitantes emergem como barreiras significativas à inclusão, necessitando de uma desconstrução contínua por meio da educação e da formulação de políticas públicas mais inclusivas.
Por fim, a constatação de uma lacuna na literatura sobre as experiências de professores com deficiência física no exercício da docência reflete uma área crítica de pesquisa ainda inexplorada. Os poucos estudos existentes, realçam a necessidade de maior atenção acadêmica à temática. É imprescindível que se amplie o espectro de investigação para compreender plenamente as histórias de vida desses educadores, e como elas se entrelaçam com as políticas educacionais e as práticas pedagógicas.
Este estudo reitera o chamado por um esforço conjunto para reconhecer, compreender e endereçar as barreiras que limitam professores com deficiência física, garantindo assim o direito à igualdade de oportunidades e ressaltando a importância de um ensino verdadeiramente inclusivo que celebre a diversidade em todas as suas formas. Consideramos a relevância dos estudos encontrados nas pesquisas elencadas, pois, a partir delas, é possível pensar outras possibilidades de atuação docente e propormos debates mais inclusivos que impliquem em movimentos mais emancipatórios e menos excludentes.
REFERÊNCIAS
BRYANT, L.; CURTNER-SMITH, M. D. Impact of a physical education teacher's disability on elementary students' perceptions of effectiveness and learning. Adapted Physical Activity Quarterly, [S. I.], v. 25, n. 2, p. 118-131, 2008. [ Links ]
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Como citar: SANTOS, Fabrício de Paula; FRANCO, Marco A. M. Professores com deficiência física no cenário educacional brasileiro: uma revisão sistemática. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, PUCPRESS, v. 25, n. 85, p. 779-791, 2025. https://doi.org/10.7213/1981-416X.25.085.AO02PT
Recebido: 04 de Janeiro de 2025; Aceito: 04 de Abril de 2025










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