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Revista Diálogo Educacional

versión impresa ISSN 1518-3483versión On-line ISSN 1981-416X

Rev. Diálogo Educ. vol.25 no.86 Curitiba jul./sept 2025  Epub 24-Oct-2025

https://doi.org/10.7213/1981-416x.25.086.ao02 

Artigos

A educação pelo impresso: um estudo sobre a reformulação do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (1964)1

La educación a través de la imprenta: un estudio sobre la reformulación del Primer Catecismo de la Doctrina Cristiana (1964)

Aline Marie de Simone[a] 

Mestre em Educação pela UFMG


http://orcid.org/0009-0005-6479-940X

Ana Maria de Oliveira Galvão[b] 

Doutora em Educação pela UFMG


http://orcid.org/0000-0001-9063-8267

Maria José Francisco de Souza[c] 

Doutora em Educação pela UFMG


http://orcid.org/0009-0009-9505-9761

[a]Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil, e-mail: alinemdsimone@gmail.com

[b]Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade Educação, Belo Horizonte, MG, Brasil, e-mail: anamariadeogalvao@gmail.com

[c]Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade Educação, Belo Horizonte, MG, Brasil, e-mail: mariajosef1797@gmail.com


Resumo

O artigo analisa a edição do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã publicada pela editora Vozes em 1964, que traz significativas alterações em relação a edições de décadas anteriores, e apresenta indícios do papel desempenhado pelo catecismo na formação do público a que era dirigido. Catecismos são impressos religiosos que têm resistido ao tempo com relativa estabilidade quanto ao conteúdo que veiculam e cumprem o papel de disseminar as doutrinas que os fundamentam. Por ser um catecismo com altas tiragens e elevado número de edições, buscou-se compreender motivações para as mudanças empreendidas e como, em um período crítico da história da Igreja Católica e da sociedade brasileira, o catecismo foi adaptado às demandas de público e do mercado editorial. As fontes da pesquisa foram 13 edições do catecismo publicadas no século XX; revistas e jornais disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (RJ); catálogos da Editora Vozes; documentos oficiais, resultantes de concílios e conferências católicas. A análise permitiu verificar diversas alterações na materialidade, principalmente, aumento do tamanho do livro, presença de ilustrações coloridas, utilização de vocabulário simplificado; no entanto, as perguntas e respostas mantiveram-se ao longo do tempo, revelando a opção pela tradição em função do sucesso do texto oficial.

Palavras-chave: História da leitura; Impressos; Catecismos

Resumen

El artículo analiza la edición del Primer Catecismo de la Doctrina Cristiana publicado por la editorial Vozes en 1964, que presenta alteraciones significativas en relación con ediciones de décadas anteriores, y expone indicios del papel desempeñado por el catecismo en la formación del público al que iba dirigido. Los catecismos son impresos religiosos que han resistido al tiempo con relativa estabilidad en cuanto al contenido que vehiculan y cumplen la función de diseminar las doctrinas que los fundamentan. Por tratarse de un catecismo con altas tiradas y un elevado número de ediciones, se buscó comprender las motivaciones para los cambios emprendidos y cómo, en un período crítico de la historia de la Iglesia Católica y de la sociedad brasileña, el catecismo fue adaptado a las demandas del público y del mercado editorial. Las fuentes de la investigación fueron 13 ediciones del catecismo publicadas en el siglo XX; revistas y periódicos disponibles en la Hemeroteca Digital de la Biblioteca Nacional (RJ); catálogos de la Editora Vozes; documentos oficiales, resultantes de concilios y conferencias católicas. El análisis permitió verificar diversas alteraciones en la materialidad, principalmente, aumento del tamaño del libro, presencia de ilustraciones coloridas, utilización de vocabulario simplificado; sin embargo, las preguntas y respuestas se mantuvieron a lo largo del tiempo, revelando la opción por la tradición en función del éxito del texto oficial.

Palabras clave: Historia de la lectura; Impresos; Catecismos

Abstract

This article aims to analyze the edition of the Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (First Catechism of Christian Doctrine) published by the publishing house Vozes in 1964, which presents significant alterations compared to editions published in previous decades. It seeks to present evidence regarding the role the catechism played in forming its target audience. Catechisms are religious printed materials that have withstood the test of time with relative stability in relation to the content they convey and have served the purpose of disseminating the doctrines that underpin. Considering that this catechism had high print runs and a large number of editions, this study sought to understand the motivations for the changes undertaken and how, in a critical period of the history of the Catholic Church and Brazilian society itself, the catechism was adapted to new demands from the public and the publishing market. The research sources included 13 editions of the material published throughout the 20th century; magazines and newspapers available in the Digital Newspaper Library of the National Library of Rio de Janeiro; catalogs from the Vozes publishing house; and official documents resulting from Catholic councils and conferences. The analysis revealed several changes in materiality, mainly through the increase in the book's size, the presence of color illustrations, and the use of a simplified vocabulary; however, the questions and answers remained consistent over time, indicating a preference for tradition due to the success of the official text.

Keywords: History of reading; Printed texts; Catechisms

Introdução

Neste artigo é analisada a edição remodelada do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, publicada pela editora Vozes em 1964, que traz significativas alterações em relação a edições publicadas em décadas anteriores. A análise realizada, dos pontos de vista do conteúdo e da materialidade, buscou compreender, por meio de indícios, o papel educativo por ele desempenhado na formação de um público amplo e não especializado - crianças, jovens e pessoas adultas - no período. Em seu longo ciclo editorial, iniciado na primeira década do século XX, e com endereçamento, principalmente, para um público leigo, teve elevado número de edições e alcançou altas tiragens anuais que, quando foi reformulado, chegavam a 200.000 exemplares (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1964, p. 5). Considerando a longevidade e o sucesso editorial dessa obra, buscou-se compreender as motivações para as mudanças empreendidas e como, em um período crítico da história da Igreja Católica e da própria sociedade brasileira, como será detalhado ao longo do trabalho, o catecismo foi adaptado a novas demandas de público e do mercado editorial.

Para a realização da pesquisa que originou o artigo, foram utilizadas como fontes 13 diferentes edições do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, publicadas ao longo do século XX; levantadas informações de revistas e jornais disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (HDBN); explorados catálogos da Editora Vozes; examinados outros documentos oficiais, resultantes de concílios e conferências católicas. As fontes foram localizadas no Acervo Frei Chico, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG); no site da HDBN e em outros repositórios digitais; e em acervos pessoais. Ainda que o foco da pesquisa tenha sido a edição remodelada do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, de 1964, foi necessário, em um primeiro movimento, cotejá-la com edições anteriores para dar visibilidade a suas singularidades. Nas etapas seguintes, os principais temas e os modos de abordá-los no impresso foram analisados em suas relações com o projeto gráfico-editorial.

Contextualização do problema

A realização de estudos que buscam compreender o papel dos impressos na formação dos sujeitos, ao longo da história da educação brasileira, tem crescido exponencialmente nas últimas décadas (Moreira; Galvão, 2021 e 2024; Galvão; Melo, 2019). Esses trabalhos têm revelado, entre outros aspectos, a força que têm periódicos, revistas, manuais escolares, livros de literatura, impressos populares, em processos educativos - escolares e não escolares - de mulheres, crianças, pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência, entre muitos outros grupos. Nesse contexto, também têm ganhado importância estudos sobre impressos religiosos, que alcançaram, em alguns casos, tiragens numerosas e eram encontrados em comunidades de escassa presença da palavra escrita, no vasto território brasileiro (Souza, 2009, 2017; Orlando, 2015). Entre esses impressos, encontram-se aqueles que têm, desde as suas origens, o papel de disseminar, para um público amplo e não especializado, as doutrinas que os fundamentam: os catecismos.

O catecismo é considerado uma invenção cultural do período moderno, tendo seus primeiros indícios no século XVI, e “se assumiu como nova pedagogia e meio de cultura das massas” (Vaz, 1998, p. 217). Tomou forma como gênero literário com Lutero, que desenvolveu o primeiro catecismo protestante, influenciando a criação de outros, como os catecismos católicos (Hébrard, 2007; Orlando; Dantas, 2008; Molinario, 2013; Friesen, 2017; Costa; Martins, 2010). Trata-se, assim, de um gênero de divulgação religiosa, podendo ser definido como um manual elementar da fé cristã (Silva, 2007).

No caso brasileiro, pesquisas revelam que os catecismos faziam parte do currículo das escolas públicas até o século XIX, como material de leitura e como subsídio para a educação moral e religiosa (Tambara, 2005; Teixeira, 2008; Batista; Galvão, 2009; Nascimento; Feldens; Almeida, 2013, Dos Anjos, 2016; Zilberman, 2016). Mesmo depois da Proclamação da República e do fim do regime do Padroado, os catecismos continuaram a ser usados, inclusive ao longo do século XX, predominantemente em espaços educativos não escolares, como as próprias igrejas, mas também em escolas particulares e públicas. Trata-se, pois, de um impresso perene e de ampla circulação na sociedade brasileira (Casimiro; Almeida; Silveira, 2017; Cruz, 2016; Orlando; 2013; Passos, 1998). Vastamente utilizados como material de formação, os catecismos também têm sido investigados como objeto de estudo, como o aqui apresentado, em que são exploradas diferentes dimensões desse impresso para uma maior compreensão de outras faces da história da educação brasileira, principalmente diante dos atuais debates em torno do ensino laico no País. Uma dessas dimensões diz respeito às transformações por que esses impressos passam durante seu longo ciclo de edição. Assim como outros materiais religiosos, eles precisam ser adaptados às mudanças da própria denominação religiosa a que se vinculam e das sociedades e épocas em que são publicados, sob o risco de se tornarem obsoletos e de serem identificados, exclusivamente, a pensamentos e ações conservadoras.

A reformulação do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã ocorreu em um momento muito significativo da história da Igreja Católica que, diante do crescimento de outras denominações religiosas, de revoluções nos costumes e da emergência de diferentes movimentos sociais em países da América Latina, buscou adequar-se às novas demandas do período. Na década de 1960, nos âmbitos mundial e nacional, discussões a respeito do catolicismo popular, que viria a expressar-se na Teologia da Libertação, e o Concílio Vaticano II, ocorrido entre 1962 e 1965, tiveram grande impacto na história da instituição, resultando, inclusive, em conflitos internos. Para Oliveira (1992), por mais que o catolicismo romano “universal” proponha uma religião que atenda a todas as classes, “é a partir de uma determinada classe ou grupo social que se definem as crenças e práticas religiosas” (p.62). Nesse período, disputam-se, internamente, concepções de uma Igreja de “salvação individual” (“burguesa”) e o início da “Igreja da Libertação” (“popular”), com o lema da “opção preferencial pelos pobres”. Em referência à maior participação de leigos como agentes pastorais da Igreja Católica, Souza (2009) explica que isso fez com que a experiência desses sujeitos fosse mais ativa na dimensão educativa religiosa, coordenando, dirigindo e apropriando-se da palavra. A partir do Concílio Vaticano II, por exemplo, a missa deixou de ser realizada em latim e foi possível a lideranças leigas a celebração de cultos católicos, quando houvesse a ausência de padres na localidade. O movimento de renovação da Igreja Católica, em nível mundial, mas com especificidades na América Latina, vinha passando por questionamentos, havia décadas, e o Concílio Vaticano II pode ser considerado a institucionalização desse processo.

No momento da publicação da edição reformulada, no Brasil também se assistia a um momento de efervescência política, econômica e social, que culminou, como reação das elites, no Golpe Civil-Militar de 1964, ocorrido no mesmo ano. No âmbito da educação popular, foram desenvolvidas diversas experiências, tais como o Movimento de Cultura Popular (MCP), da prefeitura do Recife e no contexto do qual foram realizadas as primeiras experiências de alfabetização de Paulo Freire; os Centros Populares de Cultura (CPCs), iniciativas da UNE; e o Movimento de Educação de Base (MEB), vinculado à Igreja Católica (Fávero, 2006). Em relação à educação escolarizada, a Igreja também vinha, havia décadas, sofrendo severas críticas, principalmente, por influência do escolanovismo que defendia a laicidade do ensino e colocava o aluno no centro da prática pedagógica. Como afirma Carvalho (2005), as tensões entre pioneiros e católicos tiveram consequências nas estratégias editoriais dos dois grupos no que diz respeito à produção de impressos educacionais. Enquanto os primeiros defendiam uma transformação no campo educacional, os católicos buscaram limitar esse impacto transformador incorporando aspectos da Escola Nova, entre os quais os métodos ativos, no campo doutrinário da Pedagogia, o que incluía o impresso (Carvalho, 2005). A Igreja buscava, assim, também nessa esfera se renovar.

Em relação à Editora Vozes, responsável pela publicação do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, Bittencourt (2014) a destaca como uma das quatro maiores editoras católicas que estão há mais tempo no mercado editorial brasileiro, ao lado da FTD, Ave Maria e Santuário. Fundada por frades franciscanos, em 1898, a editora buscou inicialmente atender à necessidade de edição de manuais para uso nos colégios e seminários. A linha editorial foi marcada, nas décadas iniciais de sua existência, por forte censura exercida por seu primeiro editor, frei Pedro Sinzig, “um intelectual católico, que abraçou o projeto de fazer a ‘boa imprensa’ e combater os escritos mundanos, como rezavam os decretos do Concílio Plenário da América Latina, convocado por Leão XIII” (Bittencourt, 2014, p.124). Ainda segundo a autora, a partir da década de 1930, os frades Aurélio Stulzer, Ludovico Gomes de Castro, Clarêncio Neotti e Leonardo Boff marcaram significativamente história da editora, remodelando e ampliando seu catálogo, incluindo a criação de coleções de livros universitários e, também, adotando uma posição política de luta pela liberdade na Igreja e contra a ditadura militar. Trata-se, portanto, de uma editora que demonstrou estar “atenta aos movimentos no interior da sociedade e no interior da Igreja [...] que sempre tomou posição política, sendo para moralizar a sociedade - como queria Sinzig - ou sendo para criticar as ditaduras e o autoritarismo na Igreja - como queriam Neotti e Boff” (Bittencourt, 2014, p.125).

Por fim, destacamos ainda que, no período, o mercado de livros didáticos no Brasil estava em franco crescimento (Hallewell, 2005), resultado da paulatina democratização do ensino, após a LDB de 1961 (Brasil, 1961). Buscando atender a demandas do público que passou a frequentar a escola brasileira e do novo professor que nela ingressava, ambos originários também das camadas populares da população, e, por influência de discussões educacionais e estratégias econômicas, as editoras começaram a lançar produtos considerados mais atraentes. A inserção de cores e de ilustrações pretendia atrair o público infantil e os manuais de professores, surgidos na época, buscavam atender às necessidades do novo perfil docente (Soares, 2001).

Diante desse contexto, algumas perguntas mobilizaram a realização da pesquisa: de que modo a edição reformulada incorporou esses movimentos que aconteciam na Igreja, na educação e em diversas outras esferas da sociedade brasileira? Como uma instituição religiosa busca renovar-se sem perder a sua identidade? Um impresso por ela publicado pode dar pistas para compreender esse processo? Quais os motivos que levam a mudanças em um artefato educacional que era um sucesso editorial, formando gerações há décadas? Como a edição reformulada do Catecismo contribuía para a formação de um público amplo e não especializado, nesse contexto específico? No escopo deste artigo, serão apresentados alguns indícios que permitem inferir como essas questões se materializam no impresso em foco.

Do ponto de vista teórico, baseamo-nos em estudos da História Cultural (Chartier, 1990; Darnton, 1990, 2010), particularmente, na distinção entre texto e impresso, na acepção de Chartier (1990):

Daí a necessária separação de dois tipos de dispositivos; os que decorrem do estabelecimento do texto; das estratégias de escrita, das intenções do “autor”; e os dispositivos que resultam da passagem a livro ou a impresso, produzidos pela decisão editorial ou pelo trabalho da oficina, tendo em vista leitores ou leituras que podem não estar de modo nenhum em conformidade com os pretendidos pelo autor (Chartier, 1990, p.127).

Para o autor, portanto, não existe o texto fora do suporte em que é lido, pois tanto o conteúdo do que é escrito quanto a materialidade em que sua inscrição ocorre produzem efeitos de sentido. No caso do Catecismo, somente é possível compreender seu papel na formação do público leigo se forem analisadas as temáticas mais recorrentes, os modos de abordá-las, o projeto gráfico-editorial e, também, o debate no campo pedagógico, como as influências da disputa entre pioneiros e católicos (Cury, 1988; Carvalho, 2005), conforme destacado anteriormente, e as mudanças impulsionadas pelas demandas por inovações pedagógicas e produção de manuais escolares (Chartier, 2003; Vidal, 2001).

O Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã

O Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã foi elaborado, pela primeira vez, em 1904, com o objetivo de padronizar o ensino da doutrina cristã católica por meio de um texto único e oficial para reverendos, párocos, clero secular e fiéis de todas as paróquias das Dioceses da Província Meridional do Brasil. Esse título de catecismo foi publicado por várias editoras, alcançando alto número de edições, e, durante seis décadas, houve poucas variações em seu formato e conteúdo (De Simone, 2019; 2023). No entanto, no ano de 1964, em sua 95ª edição, o catecismo foi reformulado e publicado pela Editora Vozes como uma “edição remodelada e atualizada do tradicional Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã” (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1964, p. 5). Ao longo de sua história, como mostram bibliografia sobre o tema (Orlando, 2013, 2015; Orlando; Dantas, 2008) e pesquisa de fontes na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o impresso circulou tanto no interior das paróquias quanto em outros espaços, como a escola, em diversos estados brasileiros. Atualmente, encontra-se na 156ª edição (2014) e ainda é comercializado.

Na página de apresentação da edição de 1964, é informado ao(à) leitor(a) que são acrescentadas histórias e ilustrações às lições, são feitas referências a recursos pedagógicos e didáticos, e os temas abordados recebem um maior desenvolvimento, mantendo-se o texto original do catecismo tradicional (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1964, p. 5). Essas transformações serão analisadas com maior profundidade a seguir.

O conteúdo da edição reformulada

Inicialmente, destaca-se que a edição reformulada de 1964 possui uma Apresentação2 desenvolvida pelo Frei Carmelo Surian (1923-2008), franciscano, nascido em São José do Rio Pardo, São Paulo, e que trabalhou na editora Vozes entre 1963 e 1968. Nela, são justificadas mudanças e permanências, e explicados modos de usar a nova versão. Entre os motivos para a manutenção do texto tradicional destacam-se:

Por que conservamos quase na íntegra o texto antigo:

a) Porque é o texto aprovado e recomendado pelo Concílio Plenário Brasileiro.

b) Porque a tiragem de 200.000 exemplares anuais lhe prova o valor e a eficiência.

c) Porque, após um período de abandono ou quase abandono do processo de memorização, mais e mais se volta a êle.

d) Porque a formulação do texto é de notável fidelidade teológica. Reconhecemos que há textos difíceis. Todavia, achamos que é mais fácil e seguro esclarecer no futuro uma formulação correta, não assimilada de todo, do que corrigir uma formulação assimilada, mas defeituosa.

e) Porque visamos oferecer um texto completo e atraente quanto possível, mas barato, ao alcance da bôlsa da maioria de nossos Vigários e fiéis (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1964, p. 4, negrito e itálico no original).

Nesse trecho, alguns elementos merecem ser destacados, considerando o objetivo deste artigo. Os argumentos principais para a manutenção do texto sem mudanças substantivas se apoiam no fato de que a fórmula parecia estar funcionando, considerando as altas tiragens alcançadas pelo Catecismo. Ao mesmo tempo, ele atendia às diretrizes da hierarquia eclesiástica. Talvez antecipando-se a possíveis críticas, Surian defende que a memorização, depois de um período em que foi abandonada ou quase abandonada, fosse novamente valorizada. O autor, provavelmente, estava se referindo aos debates intensos que precederam à promulgação da LDB de 1961 (Brasil, 1961) em que, de um lado, os católicos e privatistas uma vez mais protagonizaram a defesa de certas ideias associadas à educação tradicional e, de outro, os escolanovistas que haviam reafirmado, em novo Manifesto (Azevedo et al., 2010), algumas posições políticas e pedagógicas em defesa da educação pública laica e dos métodos ativos de aprendizagem (Cury, 1988; Cunha, 2024).

A defesa de Surian em manter o tradicional formato de perguntas e respostas, com algumas inovações no formato, em relação ao próprio texto e à materialidade, é coerente com o próprio modelo de leitura católico. Como afirma Anne-Marie Chartier: “Para a Igreja Católica, ler não é um valor em si, pois o que importa é a mensagem do texto. O modelo de boa leitura é aquele que é forjado em torno da leitura dos textos sagrados, leitura de meditação espiritual que procura pacientemente tirar da palavra divina algo que esclareça sua inteligência, fortifique sua vontade, alargue seu coração.” (Chartier, 2003, p.39). A Igreja buscava, assim, formar um leitor que, por meio da memorização e da leitura intensiva, voltasse sempre aos mesmos textos, de modo a não se perder diante da proliferação de novos impressos, inclusive os didáticos. Trata-se de uma concepção de educação distinta da que era proposta pela Escola Nova, que tinha na leitura extensiva e na interpretação livre dos textos uma de suas bases (Vidal, 2001).

Na mesma direção, ao reconhecer que havia textos difíceis, Surian antecipa, para o(a) leitor(a) que mudanças haviam sido realizadas no catecismo, sem perder a “fidelidade teológica”, tornando-o mais acessível e atraente, tanto quanto fosse possível, tendo em vista os objetivos educativos e o público leitor a que se dirigia: vigários e fiéis que tinham “bôlsos” limitados, do ponto de vista financeiro. Veem-se, aqui, diversas estratégias utilizadas por editores, já identificadas em diferentes pesquisas realizadas no âmbito da História Cultural, para ampliar o público leitor de determinados impressos. Em estudo clássico sobre os livros da Bibliothèque Bleue,Chartier (1990) identifica uma série de intervenções utilizadas pelos impressores de Troyes para torná-los de “larga circulação”3, como o barateamento dos custos da edição, tornando-os mais acessíveis ao poder de compra dos possíveis leitores, e a simplificação de textos difíceis.

Ao serem analisadas do ponto de vista do conteúdo, algumas dessas intervenções podem ser identificadas na edição reformulada, fornecendo indícios de que o público leitor a ser educado pelo impresso deveria ser ampliado. Por se tratar de um catecismo destinado a leitores(as) principiantes, foi mantida na edição reformulada a primeira parte com as orações principais, mandamentos, sacramentos e atos, gestos e sinais que se configuram como prática elementar da doutrina cristã e, também, uma marca de pertencimento católico. Nas diferentes edições analisadas, as perguntas iniciais são mantidas com pequenas alterações relacionadas a aspectos gráficos, que serão mais detalhados na próxima seção, e na linguagem utilizada na resposta sem grandes alterações no conteúdo. Essas pequenas modificações, no entanto, sinalizam os objetivos da edição reformulada de ser mais acessível ao público leitor a fim de educar o maior número possível de fiéis. Foram observadas algumas simplificações da linguagem, o que remete à estratégia de “transformações redutoras”, estudada por Chartier (1990, p.175), com “a modernização de fórmulas envelhecidas ou difíceis”. Enquanto em algumas edições anteriores, já se havia trocado, por exemplo, no título de uma lição, o verbo “Persignar-se” pela expressão “O sinal da Cruz”, na edição reformulada a palavra "Cruz" é substituída por "Salvação", o que sinaliza a tentativa de a Igreja Católica aproximar-se da linguagem contemporânea e cotidiana, usada por seus(suas) leitores(as) visados(as), formado, principalmente, por principiantes, neófitos na doutrina. Esses aspectos podem ser observados nas páginas apresentadas a seguir:

Fonte: Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (1957, p. 10).

Figura 1 Foto da página com a primeira lição do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã edição de 1957 

Fonte: Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (1964, p. 11-12).

Figura 2 Foto de páginas da primeira lição do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã edição de 1964 

Outro aspecto importante de ser destacado refere-se à quantidade de lições e ao número de páginas dos exemplares analisados das edições em foco. Na edição remodelada, é observado um investimento no detalhamento dos temas em lições, resultando em 22 lições com um total de 199 perguntas e respostas dispostas entre as páginas 11 a 80, sendo que a maioria das lições ocupa três páginas e apenas três lições ocupam quatro páginas. As edições tradicionais do catecismo apresentavam 11 lições temáticas dispostas em 39 páginas com 173 perguntas e respostas (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1957). Nota-se, portanto, que a significativa ampliação do número de páginas e de lições da edição remodelada não foi acompanhada de grande aumento da quantidade de perguntas. Um exemplo de reorganização das perguntas e repostas é o conteúdo da lição sobre a igreja que é abordado na edição de 1954, na lição VI, com o título “Da santa Igreja Católica” (p.19) e exposto em uma página e meia com sete perguntas. Na edição reformulada de 1964, o tema é abordado na lição 21, com o título “Jesus nos ama pela Igreja” (p.74), com três páginas e 11 perguntas. Não há aumento do conteúdo em si e, sim, adição de recursos gráficos, aumento da letra e desmembramento de perguntas para facilitar a compreensão, sendo que apenas o conteúdo sobre o Concílio Vaticano II aparece como novidade. Essas estratégias mobilizadas na edição reformulada também foram encontradas nos estudos de Chartier (1990, p.175) sobre a Bibliothèque Bleue. A multiplicação dos capítulos e o aumento do número de parágrafos, “ainda que essa divisão não resulte de qualquer necessidade narrativa ou lógica”, torna, para o autor, “menos densa a distribuição do texto na página”, o que potencializa o seu alcance para leitores pouco habituados ao mundo da cultura escrita. Observa-se, assim, que a edição reformulada do Catecismo, ao tornar o texto mais palatável e a sua apresentação na página mais atraente, buscava educar o maior número possível de leitores.

A mudança no conteúdo e na forma de abordagem dos temas que mais se destaca na versão reformulada do Primeiro Catecismo (1964) é a inserção de quatro tópicos denominados de “Na liturgia”, “Oração”, “Missão a cumprir” e “Devo guardar para a vida”. Esses quatro tópicos, além de explicitarem, especialmente os dois últimos, o apelo à missão de ser exemplo e convencer pessoas do convívio próximo a também agirem e se portarem de acordo com os princípios cristãos, estão intimamente ligados à reforma católica proposta pelo Concílio Vaticano II, que convocou o estabelecimento de uma catequese com ênfase litúrgica, influenciando, também, a produção de catecismos que deveriam apresentar não apenas uma exposição sintética do conteúdo em perguntas e respostas, mas ser uma adaptação aos modos que a Igreja usava para transmitir a doutrina, empregando meios modernos e atendendo a necessidades do tempo presente. Ao analisar a coleção do padre Álvaro Negromonte que se distinguia tanto em relação ao conteúdo quanto ao projeto gráfico-editorial de catecismos em circulação no Brasil na primeira metade do século XX, Orlando (2013, p.171) destaca a crítica feita à “dureza dos textos e o desinteresse que eles causavam nos alunos levaram muitos padres e leigos a repensarem os materiais utilizados no ensino de catecismo” e a influência do movimento catequético de Munique que inspirou debates acerca da renovação do catecismo e da “pedagogia catequética, com abertura para novos temas, novas abordagens, outras direções sobre as questões de ordem metodológica e didática, avaliação de manuais utilizados nas aulas de catecismo e a formação das catequistas”. Nota-se, portanto, que a reformulação estava, em certa medida, buscando incorporar elementos presentes no debate interno à Igreja Católica e concepções pedagógicas associadas aos métodos ativos, como tornar a/o educando(a) mais atuante e participativo em sua comunidade.

A manutenção, na edição reformulada do Primeiro Catecismo (1964), do método de perguntas e respostas prontas, como no texto original de 1904, por sua vez, reforça a noção de conhecimento único, uma doutrina e dogmas a serem memorizados e externalizados nos modos de agir, como discutido anteriormente. As perguntas e respostas buscam fazer o(a) leitor(a) conhecer, por meio da memorização, os principais fundamentos que constituem a doutrina da Igreja Católica, composta por história sagrada, dogmas, mandamentos e sacramentos. Por sua vez, os quatro tópicos inseridos no fim das lições, revelam dois outros princípios gerais: agir e convencer. A análise das perguntas e respostas e dos trechos dos tópicos inseridos na edição reformulada permitiu realizar agrupamentos que evidenciaram que o impresso buscou formar/educar o(a) leitor(a) com base nestes três princípios: 1) conhecer os dogmas e a doutrina do catolicismo; 2) agir/incorporar, em sua vida cotidiana, o conhecimento adquirido, por meio de suas ações, compreendidas como testemunho; 3) convencer as pessoas com que convive de que a doutrina católica deve ser conhecida e incorporada por toda a comunidade.

Esses princípios explicitam elementos que permitem refletir sobre a dimensão ritualística da recriação do tempo sagrado, apoiado no arquétipo do deus, do herói. Conforme Eliade (1992), o deus do povo judeu, que se “manifesta como uma personalidade que intervém constantemente na história, que revela a sua vontade através de acontecimentos é retomada e desenvolvida pelo cristianismo, especialmente, em relação à história de Jesus - o messias que sofre” (p.119). O foco na história sagrada e no princípio conhecer é ancorado nas intervenções de deus na história e, sobretudo, na encarnação na pessoa histórica de Jesus Cristo, cuja finalidade é a salvação do homem (Eliade, 1992). Ainda segundo Eliade (1992), “O ano litúrgico cristão baseia-se numa repetição periódica e real da natividade, paixão e morte de Jesus, com tudo aquilo que este drama místico implica para o cristão; é a regeneração pessoal e cósmica pela reatualização in concreto do nascimento, da morte e da ressurreição do Salvador” (p.144). A regeneração pessoal pretendida - e que deveria se manifestar em gestos/modos de ser e agir e no proselitismo da ação católica - estava em sintonia com disputas internas na própria Igreja Católica e ao contexto educacional e político nos anos que precederam o golpe civil-militar de 1964 (Cunha, 2014).

Ao quantificar e analisar todas as frases, perguntas e respostas e trechos do catecismo, verificamos que a maior parte do conteúdo das lições é dedicada ao princípio conhecer, com aproximadamente 69,34% do total. Em seguida, os princípios agir, identificado nos tópicos “Na liturgia” e “Oração”, e convencer, identificado nos tópicos “Missão a cumprir” e “Devo guardar para a vida”, correspondem a 15,33% do conteúdo das lições, como se pode visualizar na tabela abaixo:

Tabela 1 Presença dos princípios conhecer, agir e convencer na edição de 1964 do Primeiro Catecismo 

Princípios Quantidade de frases/perguntas e respostas/trechos Percentual
Conhecer 199 69,34%
Agir 44 15,33%
Convencer 44 15,33%
Total 287 100%

Fonte: De Simone (2023).

Consideramos, a partir das análises das lições que compõem o Primeiro Catecismo (1964), que há o esforço em fazer o(a) educando(a) conhecer e desenvolver a ação apostólica, praticar a doutrina da Igreja e formar uma consciência interior, um modo de ser que o identifica como católico. Destacam-se exemplos dessa orientação, a cada lição, no tópico “Missão a cumprir” que indica a ação a ser realizada pelo(a) leitor(a) em relação à extensão do seu aprendizado a pessoas de seu entorno, como “Rezar, sacrificar-se e trabalhar para ajudar os missionários a batizar o maior número de pagãos” (p.22), “procurar com os parentes e amigos os trechos de ensinamentos de Jesus” (p.26), “trabalhar para introduzir o crucifixo nos lares” (p.29), “esforçar-se para fazer a família rezar unida” (p.32), “Convidar amigos e parentes para ir à missa dominical” (p.35), entre outros. O título da lição 13 “Jesus nos faz soldados” (p.47) está em sintonia com a ‘Missão a cumprir’ pelo(a) leitor(a) de a convencer terceiros a inserir a doutrina cristã em suas vidas, exercendo o apostolado dos leigos, convocados como vocação dos “soldados”, para exercer a sua missão de aumentar o “corpo místico” da Igreja Católica, sobretudo, por influência do Concílio Vaticano II (Compêndio do Vaticano II, 1968-1986, p. 584). É possível, portanto, compreender melhor a proposta formativa do catecismo e verificar que o acréscimo dos novos tópicos não alterou a natureza mais conservadora de seu conteúdo e que as mudanças, principalmente em sua estrutura, parecem ter sido influenciadas por movimentos internos da Igreja, pelo debate educacional e pelo mercado editorial do período.

O projeto gráfico-editorial da edição reformulada

Como buscamos mostrar no tópico anterior, o texto do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, ao longo das diferentes edições analisadas, inclusive na edição de 1964, foi publicado sem grandes variações, com intervenções que visaram, especialmente, ampliação do público leitor e formação de fiéis mais engajados na ação apostólica da Igreja. Não se pode realizar a mesma afirmação em relação à sua materialidade que, como buscaremos apresentar, sofreu diversas modificações na edição reformulada.

A primeira mudança que chama a atenção ao compararmos diferentes versões do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã é em relação ao tamanho. A maioria das edições publicadas pela Editora Vozes, encontradas até a data de 1964, possui o formato de 13cm x 8,5cm. No entanto, a edição de 1964 surge com um formato de 17,7cm x 12cm, o que difere significativamente dos catecismos tradicionais. O aumento no tamanho do impresso também foi observado, no mesmo período, em relação aos livros didáticos (Soares, 2001; Orlando, 2013), o que nos permite inferir que se buscava uma aproximação com os novos produtos, voltados para o público infantil e escolarizado, disponíveis no mercado editorial. Como afirma Chartier (1990), a opção em publicar os mesmos textos em outras materialidades é indício da necessidade apresentada pelos editores de adequar as obras às expectativas ou capacidades do novo público a atingir. Em um mercado editorial cada vez mais segmentado em relação aos tipos de leitores que buscava alcançar, os livros destinados ao público infantil e juvenil se tornavam, naquele período da história brasileira, cada vez mais, distintos daqueles endereçados aos adultos. De maneira similar, o gênero didático passou a ter, no período, uma configuração própria. Nesse contexto, ao optar por imprimir o Catecismo de 1964 em um tamanho maior, em consonância com as novas demandas da indústria dos livros, os editores informavam, implicitamente, que se tratava de uma obra, prioritariamente, destinada às crianças e aos jovens, e que possuía características de manual didático.

Fonte: Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, edições de 1964 e 1954, respectivamente.

Figura 3 Dimensões e layout das capas das edições de 1964 e 1954 do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã 

Outra transformação importante diz respeito ao uso de ilustrações e de cores. Como pode ser observado nas imagens apresentadas a seguir, as capas das edições tradicionais não possuem ilustrações propriamente ditas, são ornadas com vinhetas, e para sua composição é utilizada apenas a cor preta. A capa do catecismo remodelado, por sua vez, possui uma ilustração colorida que compreende a capa, a lombada e a contracapa.

Fonte: Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, edições de 1951 e 1954, respectivamente.

Figura 4 Capas das edições de 1951 e 1954 do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã 

Fonte: Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, edição de 1964.

Figura 5 Ilustração e cores na capa, lombada e contracapa da edição de 1964 do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã 

Como se pode observar, a ilustração da capa da edição reformulada, além de ser colorida, tem crianças em sua composição, o que nos traz mais um indício de que as modificações realizadas se relacionam à necessidade de tornar o impresso mais atraente, adaptando-se e direcionando-se a um público mais amplo, principalmente o infantil que, ao que parece, é aquele que deve ser, prioritariamente, educado. Nela, também são exibidos elementos gráficos complementares, como a frase “Êste é Meu Filho Muito Amado... Escutai-O!” (Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, 1964, capa), o que induz o(a) leitor(a) à interpretação da ilustração e também do próprio conteúdo do texto catecismo - o foco na presença do “Filho”, em relação ao “Pai”, frisada nas lições. A necessidade de mudanças “tipográficas” para tornar os catecismos mais atraentes ao público leitor, especialmente infantil, já havia sido defendida por Álvaro Negromonte para quem era notável “o desprestígio de um livro pequenino, tipo miúdo, sem ilustrações, em face dos livros grandes, texto claro e variado correndo entre as figuras que falam muito mais do que as letras” (Negromonte, 1942 apudOrlando, 2013, p.172).

Os trabalhos de Chartier (1990) também auxiliam a compreender o papel da imagem em impressos de ampla circulação. Em alguns casos, como parece ser o da capa da edição reformulada do Catecismo, a imagem “permite fixar e cristalizar, em torno de uma representação única, aquilo que foi uma leitura entrecortada e muito fraccionada” (p.180). A criança ou a/o catequista, ao se deparar diariamente com a imagem, em cores, de Jesus saindo do rio Jordão, após ser batizado, acompanhado de João Batista em posição de prece e de outras pessoas, inclusive crianças, fixa/cristaliza uma série de sentidos e rituais da doutrina cristã, fornecendo “a memória e a moral do texto” (Chartier, 1990, p.180). Trata-se de uma estratégia também usada em manuais didáticos, principalmente aqueles voltados para leitores(as) ainda não fluentes em leitura, uma “pedagogia da alfabetização que se valha da visualidade”, conforme Frade (2012, p.173), na medida em que a imagem antecipa, favorece a construção e a estabilização de sentido do texto, facilitando a sua compreensão.

As ilustrações também estão presentes em todo o texto da edição reformulada, distinguindo-se, ainda nesse aspecto, das edições tradicionais. Seguindo uma lógica constante, todas as lições são iniciadas com uma ilustração nas cores preta, branca e verde, com frases que versam sobre o tema nela abordado, como se pode constatar nas imagens apresentadas na Figura 2, anteriormente apresentada. O recurso às imagens aumenta, ainda segundo Chartier (1990, p.180), a “sedução” do texto, tornando também “mais explícitos e decifráveis os seus contornos”. Nessa direção, ao lado de outras intervenções realizadas na materialidade do Catecismo de 1964, como o aumento do tamanho das letras, a presença das imagens revela, uma vez mais, a ampliação do público leitor visado, considerado, implicitamente, menos habituado às lógicas da cultura escrita.

Outra mudança significativa apresentada na edição de 1964 é referência ao Roteiro Catequético I: livro do mestre do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã, de autoria de Frei Carmelo Surian. Trata-se de um manual para uso do(a) catequista com planos de aulas referentes a cada tema do catecismo nos quais são descritos os materiais que devem ser usados, o tempo de aula, a idade de referência dos(as) catequizandos(as) e incentivos para anotar as reações favoráveis e desfavoráveis do(a) aluno(a). A imagem a seguir é um exemplo da forma de organização da obra com apresentação de modelos de plano de aula e de formas de registros:

Fonte: Surian (1964, p. 10).

Figura 6 Modelo de plano de aula apresentado no Roteiro Catequético I: livro do mestre do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã 

O esquadrinhamento do tempo, de acordo com o planejamento e os métodos a serem utilizados, é descrito detalhadamente:

Para a exposição do tema em forma de palestra e o uso de meios pedagógicos, como a leitura da Bíblia, a memorização do catecismo e os momentos de oração, são determinados entre 15 e 20 minutos, pois o Roteiro Catequético considera o formato de meia hora para a aula de religião e indica para a segunda metade da aula de 10 a 15 minutos para atividades sobre o tema da aula (Surian, 1964, p. 10).

Além do planejamento do tempo em cada aula, o manual também propõe para o(a) catequista uma distribuição dos temas a serem abordados durante todo o período da catequese:

II - ESCALÃO DAS UNIDADES

1) Aulas todos os domingos e dias santos.

- domingos 52 aulas

- dias santos 9 aulas

- desconto 16 aulas = 45 aulas

2) Distribuição das Unidades:

I - Na cruz, o resumo da fé ......................... 1 aula

II - Noção de Deus (Lições 2 e 3) ................. 3 aulas

III - O pecado original e a promessa ............ 3 aulas

IV - A salvação (Lições 5 a 11) .................... 14 aulas

V - Os sacramentos (Lições 12 a 20) .......... 20 aulas

VI - A Igreja, Família de Deus ....................... 2 aulas

VII - A nossa resposta .................................. 2 aulas

NOTA: Aproveitar as aulas que sobrarem para atividades e recapitulação, atendendo à visão geral do assunto. (Surian, 1964, p.158 - itálico no original)

Os gestos a serem performados em cada aula também são detalhadamente descritos. O ordenamento e controle dos corpos é algo constitutivo da própria história da Igreja Católica (Gélis, 2008). No exemplo abaixo em que a oração do Pai-Nosso é acompanhada de orientações relativas à postura corporal a ser seguida/ensinada pelo (a) catequista, esse aspecto pode ser observado na prescrição do que Surian (1964) denominou de a “Oração como meio pedagógico”:

Pai nosso, que estais no céu........................................... (Em pé, o catequista faz os gestos, convidando

santificado seja o vosso nome, os alunos a imitá-lo)

venha a nós o vosso Reino............................................. (mão levantadas)

seja feita a vossa vontade ............................................. ” “

assim na terra como no céu. (mãos no peito, meio inclinado)

O pão nosso de cada dia nos dai hoje............................ (indicar com a mão direita o céu, com

e perdoai-nos as nossas dívidas, .................................... a esquerda a terra)

assim como nós perdoamos aos nossos devedores ....... (gesto de petição)

e não nos deixeis cair em tentação ................................ (bater no peito, inclinado)

mas livrai-nos do mal. Amém. ........................................ (gesto largo de abraço) (mãos postas, olhos para cima) (gesto de defesa, de empurrar) (Surian, 1964, s/n)

De modo semelhante, uma vez mais, ao processo que estava ocorrendo no período, no mercado editorial dos livros didáticos, que supunha um professor pouco preparado para escolarizar as crianças e os jovens, de maneira autônoma e competente (Soares, 2001), a Igreja Católica também se viu diante da necessidade de formar o(a) educador(a) - catequista, diante da presença e atuação, cada vez maior, de lideranças leigas. Constata-se, assim, que, ao lado do público infantil, o impresso buscava educar, ainda, o adulto encarregado de ensinar o seu conteúdo. Também nesse aspecto, o leitor modelo (Eco, 1979) parecia pouco familiarizado com as lógicas do mundo da escrita, pois precisava encontrar, nas páginas do impresso, um conteúdo, materializado em um projeto gráfico também atraente, que fosse compreensível e replicável.

Os manuais destinados aos(às) educadores(as) deveriam se tornar, desse modo, um novo artefato de formação desses - agora “inúmeros” - sujeitos, como explicitado pelo próprio Frei Carmelo Surian, quando destaca a finalidade do livro:

Servir da melhor forma possível aos inúmeros catequistas que usam o tradicional Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã. Não pretende, pois, trazer novidade no campo da catequética. Não é um novo método. Apenas oferece abundante material para facilitar aos catequistas do Brasil o uso do novo texto ilustrado do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (Surian, 1964, p. 5).

As aproximações entre o mercado escolar e os impressos religiosos não eram, entretanto, uma novidade do período. As pesquisas de Orlando (2008; 2013) sobre os catecismos de Padre Álvaro Negromonte, que circularam entre as décadas de 1930 e 1960, por exemplo, mostram que as disputas pela manutenção do ensino religioso nas escolas, a difusão dos ideais escolanovistas e o movimento da renovação catequética possibilitaram o aumento da produção de catecismos voltados para o currículo escolar. Segundo a autora, Negromonte produziu impressos dedicados à formação de professoras catequistas e também com foco nas famílias cristãs, entrelaçados à “Ação Católica”, que buscava a expansão da formação da doutrina cristã aos leigos. Desse modo, os catecismos desenvolvidos por ele possuíam o perfil de livro didático e eram dedicados não apenas às escolas e às catequeses, mas também a diferentes espaços que “se aproximavam do universo escolar” (Orlando, 2013, p.20). As pesquisas da autora mostram, portanto, a exemplo da análise aqui realizada, a constante necessidade de renovação da Igreja Católica, assim como ocorre em relação a outras instituições religiosas, diante de novas demandas educacionais, editoriais, econômicas e sociais.

Considerações finais

Neste artigo, analisamos a edição reformulada do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã (1964), impresso que havia sido publicado nas seis décadas anteriores sem modificações significativas em seu aspecto gráfico e em seu conteúdo. O objetivo foi mostrar como, em um período crítico da história da Igreja Católica - marcado pelo Concílio Vaticano II e pelos efeitos por ele representado -, de intensos debates no campo pedagógico e de profundas transformações em outras esferas da sociedade brasileira, o catecismo foi adaptado a novas demandas de público e do mercado editorial.

A análise de diferentes edições permitiu verificar que as perguntas e respostas mantiveram-se ao longo do tempo, mostrando, como descrito no próprio catecismo, a opção por manter a tradição, em função do sucesso do texto oficial. Assim, a Igreja Católica valida e adota a memorização e a repetição como metodologia eficiente para expor e difundir sua doutrina. As lições, implicitamente baseadas nos princípios “conhecer”, “agir” e “convencer”, objetivavam, predominantemente, fazer com que o(a) leitor(a) conhecesse os pressupostos da doutrina cristã, os principais dogmas, a história sagrada extraída da história bíblica, os mandamentos e os sacramentos. Constata-se assim, que apesar da renovação proposta pelo Concílio Vaticano II e pelo campo pedagógico no período, permaneceu um conteúdo de natureza conservadora no catecismo.

A influência das novas orientações da Igreja Católica pode ser visualizada, timidamente, nos princípios de agir e convencer, que inseriam o(a) leitor(a) na lógica de aplicação dos ensinamentos litúrgicos e apostólicos. O conteúdo aprendido nas aulas de catequese deveria ser irradiado, pelo aluno, em direção aos familiares, amigos e outras pessoas do convívio próximo, para que os costumes católicos fossem introduzidos no cotidiano. Desse modo, o catecismo funcionava como objeto estratégico de ensino apostólico, que indicava missões que o(a) leitor(a) deveria seguir para contribuir com a Igreja Católica, evidenciando a dimensão da ação pastoral ou do apostolado leigo. Buscava também, desse modo, aproximar-se do debate pedagógico modernizador que marcou o período, ao demandar um papel mais ativo para o educando. A publicação de um manual direcionado ao(à) catequista, inaugurada na edição reformulada, é, por sua vez, um indício de que a ampliação da presença dos leigos na ação pastoral precisava ser monitorada e controlada. Expressa, ainda, mudanças no mercado dos livros didáticos que, diante das transformações nos perfis dos corpos docente e discente, passam a trazer, muitas vezes, o manual do professor.

A análise do projeto gráfico-editorial do impresso mostrou, por sua vez, que diversas transformações foram operadas na materialidade da edição reformulada, principalmente por meio do aumento do tamanho do livro, da presença de ilustrações coloridas e da utilização de um vocabulário simplificado, sinalizando uma adaptação às demandas do mercado editorial de livros didáticos em franca expansão no período, voltando-se para um leitor infantojuvenil. Foi possível verificar, ainda, a partir da indicação dos materiais complementares ao impresso, que a reformulação do catecismo também se encontrava em uma lógica de vendas da Editora Vozes, uma vez que outros títulos por ela publicados eram indicados como recursos pedagógicos.

A análise do impresso revelou, assim, que seus editores buscaram, por meio de diversas intervenções realizadas em seu texto e em sua materialidade, educar um público cada vez mais amplo, formado, principalmente, pelas próprias crianças, neófitas na doutrina e no mundo da escrita, mas também pelos adultos que seriam encarregados de formá-las, os catequistas leigos. Trata-se, portanto, de um impresso que, por meio de diferentes estratégias, educou gerações de pessoas que habitavam o vasto território brasileiro, ora se aproximando, ora se distanciando dos movimentos de renovação que marcaram a história da própria Igreja e do campo pedagógico no período.

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Como citar: DE SIMONE, A. M.; GALVÃO, A. M. G.; SOUZA, M. J. F. A educação pelo impresso: um estudo sobre a reformulação. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, PUCPRESS, v. 25, n. 86, p. 1406-1422, 2025. https://doi.org/10.7213/1981-416X.25.086.AO02

1Este artigo é fruto da dissertação de Mestrado “A educação católica por meio do impresso: análise da edição reformulada de 1964 do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã”, apresentada em 07 de fevereiro de 2023 ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. A pesquisa contou com financiamento da CAPES. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/58451

2As edições anteriores à reformulação possuíam a folha de Aprovação, de autoria do Arcebispo e dos bispos da Província Meridional do Brasil, datada em 1903 que informava, especialmente, motivações para a elaboração do catecismo, orientações e recomendações sobre uso do impresso.

3Essa expressão tem sido usada, pelos historiadores culturais, em lugar de impressos “populares”, em razão, principalmente, da polissemia e, por vezes, a-historicidade desse último termo. Ver, por exemplo, Chartier (1996).

Recebido: 30 de Abril de 2025; Aceito: 21 de Julho de 2025

Editor responsável:

Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira

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