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Revista Brasileira de Educação Médica

versão impressa ISSN 0100-5502versão On-line ISSN 1981-5271

Rev. Bras. Educ. Med. vol.45 no.2 Rio de Janeiro  2021  Epub 03-Maio-2021

https://doi.org/10.1590/1981-5271v45.2-20200428.ing 

REVISÃO

Serviços de apoio à saúde mental do estudante de Medicina: uma revisão sistemática

Maryana Guimarães de Morais1 
http://orcid.org/0000-0001-8631-6441

Isabella Morais Arantes de Oliveira e Silva1 
http://orcid.org/0000-0002-5865-7860

Estela Ribeiro Versiani1 
http://orcid.org/0000-0002-7604-4312

Claudia Cardoso Gomes da Silva1 
http://orcid.org/0000-0001-6314-0711

Ana Socorro de Moura1 
http://orcid.org/0000-0001-8297-4156

1 Escola Superior de Ciências da Saúde, Brasília, Distrito Federal, Brasil.


Resumo:

Introdução:

Considerando a alta prevalência de problemas de saúde mental entre estudantes de Medicina, as instituições que formam profissionais médicos têm o compromisso ético de se preocupar com a promoção da saúde mental de seu corpo discente, oferecendo serviços de apoio e desenvolvendo estratégias de prevenção.

Objetivo:

Esta revisão tem como objetivo identificar publicações científicas sobre serviços de assistência oferecidos aos estudantes de Medicina nas instituições de ensino superior do Brasil, bem como informações sobre os profissionais que os compõem, o público-alvo atendido e os tipos de intervenção mais utilizados.

Método:

Trata-se de revisão sistemática de literatura, orientada pelas diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (PRISMA). Foi realizada busca por estudos nas bases de dados SciELO, PubMed/Medline, Lilacs, ERIC, The Cochrane Library e Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, sem delimitação de tempo, publicados até agosto de 2020. Em seguida, duas revisoras, de forma independente, selecionaram os estudos e extraíram os dados pertinentes para a construção desta revisão.

Resultado:

Foram incluídos 16 estudos. Os serviços de apoio identificados atuam por meio de estratégias diversas com o objetivo comum de promoção da saúde mental do estudante. As intervenções mais encontradas nesses serviços são atendimento psicoterápico breve, atendimento psiquiátrico, orientação psicopedagógica e programas de mentoring. A maioria dos serviços foi implementada para atender estudantes de Medicina, e alguns ampliaram seu alcance a discentes de outros cursos de graduação. Em relação aos profissionais que compõem esses serviços, encontramos equipes multiprofissionais que variam em número e categorias profissionais envolvidas.

Conclusão:

Os serviços de apoio destinados ao estudante de Medicina no Brasil apresentam diferenças tanto quanto à forma de atuação dentro das instituições como quanto aos profissionais envolvidos. Verificou-se que as publicações sobre esses serviços são escassas quando comparadas ao número de instituições que oferecem o curso de graduação em Medicina no Brasil. A fim de ampliar e consolidar ações voltadas para a promoção da saúde mental do estudante de Medicina dentro das instituições de ensino superior brasileiras, mais pesquisas sobre essa temática são necessárias.

Palavras-chave: Saúde Mental; Estudantes de Medicina; Saúde do Estudante; Serviços de Saúde Mental

Abstract:

Introduction:

Considering the high prevalence of mental health problems among medical students, medical schools should be ethically committed to promote student’s mental health, offering health services and prevention strategies.

Objective:

The objective of this systematic review is to identify scientific publications on mental health services offered by Brazilian universities to medical students, as well as the professionals involved and the types of interventions most often offered.

Method:

Systematic literature review, following the guidelines of the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-analysis (PRISMA). The Scielo, PubMed/Medline, Lilacs, ERIC, The Cochrane Library and CAPES databases were searched for studies published until August 2020, as well as theses and dissertations. The studies were screened, selected, analyzed and relevant data were extracted by two independent reviewers.

Results:

16 studies were included. The identified mental health services resort to different strategies towards a common goal of promoting medical students’ mental health. The interventions most frequently found in these services are brief psychotherapy, psychiatric care, psychological-educational guidance and mentoring programs. Most services were created to attend medical students and some of these have been extended to other undergraduate students. In the analyzed services, there is a predominance of multidisciplinary teams, which differ regarding the number and categories of professionals involved.

Conclusion:

Mental health support services for medical students in Brazil differ both in terms of how they work within the institutions and in terms of the involved professionals. It was observed that publications on these services are scarce when compared to the number of institutions that offer the undergraduate medical course in Brazil. Aiming to expand and consolidate actions aimed at promoting medical students’ mental health in Brazilian higher education institutions, further research on this topic is required.

Keywords: Mental Health; Medical Students; Student Health; Mental Health Services

INTRODUÇÃO

Elevada taxa de transtornos mentais em estudantes de Medicina tem sido relacionada a uma série de fatores inerentes tanto ao contexto universitário como ao próprio indivíduo, que, ao ingressar na graduação, deve lidar com questões associadas à adolescência, à transição para a universidade, à adaptação a diferentes métodos de aprendizagem e ao estabelecimento de novas relações interpessoais1)-(3.

Em estudo de revisão sistemática com metanálise de 2017, verificou-se a prevalência de diversos problemas de saúde mental em estudantes de Medicina no Brasil, incluindo depressão, burnout, uso problemático de álcool e ansiedade. Dentre esses, o mais prevalente, assim como na população geral, foi a ansiedade, indicando que a maior parte dos acadêmicos de Medicina no país manifesta tendência de apresentar sintomas de ansiedade. A análise mostrou ainda que os sinais de depressão apresentados pelos estudantes, quando estratificados por sua severidade, são predominantemente leves2.

Em pesquisa qualitativa transversal, realizada por Tenório et al.4 em 2016, procurou-se avaliar a saúde mental de 78 discentes de duas escolas médicas com diferentes modelos de ensino e aprendizagem, sendo uma delas de abordagem tradicional e outra estruturada na aprendizagem baseada em problemas (ABP). Por meio de questionário semiestruturado e de grupos focais constituídos pelos estudantes, constatou-se que o processo educacional foi associado a sofrimento psíquico por ambos os grupos, que referiram motivações, fontes de estresse relacionadas ao curso e fatores de alívio semelhantes.

Nesse contexto, em que a formação médica está muitas vezes associada a transtornos psíquicos e emocionais, as instituições que formam profissionais médicos têm o compromisso ético de se preocupar com a saúde mental de seus estudantes, oferecendo estratégias de prevenção e cuidados nessa área.

No Brasil, a preocupação das instituições de ensino superior com a saúde mental de seus estudantes adquiriu maior relevância na segunda metade do século XX, com a implantação de serviços que ofereciam assistência psicológica ao estudante universitário. O primeiro serviço com essa finalidade foi criado em 1957 na Universidade Federal de Pernambuco e teve os graduandos de Medicina como primeiros contemplados. Nesse mesmo contexto, nos anos 1960, as universidades federais do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro também implementaram serviços de saúde mental destinados aos discentes. Desde então, diversos projetos com função assistencial voltados para a promoção da saúde mental dos estudantes têm sido implementados em centros de ensino superior do Brasil5),(6.

Com o intuito de garantir o sucesso da assistência psicológica e psiquiátrica dentro do ambiente acadêmico, considera-se que o sigilo, a independência e o princípio de flexibilidade são as principais características que os serviços assistenciais destinados aos universitários devem apresentar. A confidencialidade das informações compartilhadas no atendimento, a independência do serviço em relação aos departamentos de ensino, com uma equipe de assistência desvinculada do corpo docente, e a flexibilidade do tipo de atendimento oferecido de acordo com as circunstâncias e a identidade de cada indivíduo contribuem para que os serviços dessa natureza cumpram com excelência e ética a função assistencial7.

Em 2016, no I Fórum Paulista de Serviços de Apoio aos Estudantes de Medicina, foi elaborada “A carta de Marília”. Nesse documento, construído coletivamente por representantes de serviços de apoio discente, docentes e estudantes, enfatizou-se a responsabilidade das instituições de ensino na promoção e recuperação da saúde mental dos universitários. Dentre as ações que podem contribuir para esse fim, elencaram-se atuações que vão desde o atendimento individualizado por profissionais qualificados até a promoção de atividades culturais que extrapolam o ambiente acadêmico8.

Contudo, desafios quanto à implantação e ampliação de serviços de assistência ao discente de Medicina, já existentes no período de introdução dessas abordagens, permanecem. Verifica-se que as demandas atuais das escolas médicas do país estão vinculadas à adequação dos atendimentos ao modelo individualizado e à aplicação de novas estratégias de apoio, como o incentivo ao desenvolvimento de atividades extracurriculares9.

A fim de contribuir para a discussão a respeito dos serviços de apoio ao estudante de Medicina em instituições brasileiras, torna-se importante mapear e conhecer as publicações existentes sobre esse tipo de serviço, assim como compreender sua forma de funcionamento. Espera-se com isso oferecer subsídios para o aperfeiçoamento das ações de promoção da saúde mental oferecidas pelos serviços de centros de ensino médico e, em última instância, colaborar para a qualidade do atendimento prestado ao estudante de Medicina.

Nesse sentido, este estudo tem como objetivo identificar publicações científicas sobre os serviços de assistência oferecidos aos estudantes de Medicina nas instituições de ensino superior do Brasil, bem como informações sobre os profissionais que os compõem, o público-alvo atendido e os tipos de intervenção mais utilizados nesses serviços.

Questões da revisão

As seguintes perguntas conduziram a pesquisa:

  • O que já foi publicado sobre os serviços de apoio à saúde mental disponibilizados aos estudantes nas instituições de ensino superior que oferecem o curso de Medicina no Brasil?

  • Quais são as estratégias adotadas pelos serviços de apoio no sentido de promoção da saúde mental?

  • Quais profissionais são responsáveis pela oferta desses serviços de apoio à saúde mental do estudante?

MÉTODO

Tipo de estudo

Trata-se de uma revisão sistemática de literatura orientada pelas diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (PRISMA) e realizada para identificar estudos que descrevem serviços de apoio à saúde mental de estudantes do curso de Medicina, no contexto das instituições de ensino superior no Brasil.

Critérios de inclusão e exclusão

Incluíram-se na revisão todos os estudos encontrados em português, inglês ou espanhol que abordavam a existência de serviços de apoio à saúde mental do estudante de Medicina nas instituições de ensino superior do Brasil, sem delimitação de tempo, mas que fossem publicados até agosto de 2020, momento da última busca.

Excluíram-se estudos que tratavam de intervenções voltadas à promoção da saúde mental do estudante de Medicina que não haviam sido promovidas por um serviço estruturado para essa finalidade e estudos cujo acesso ao texto completo não foi possível.

Bases de dados

Uma pesquisa sistemática foi conduzida a partir de artigos e dissertações publicados nas seguintes bases de dados: PubMed/Medline, Lilacs, The Cochrane Library, SciELO, ERIC e Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Estratégia de busca

A estratégia de busca foi definida a partir de uma pesquisa avançada nessas bases, com o intuito de incluir a maior quantidade de estudos relevantes. Os descritores utilizados como referência foram “serviços de apoio”, “saúde mental” e “estudantes de medicina”, bem como seus correspondentes em inglês support services, mental health e medical students. As estratégias de busca foram adaptadas para os diferentes bancos de dados e são descritas no Quadro 1.

Quadro 1 Estratégias de busca. 

Bases de dados Estratégias de busca Total de estudos encontrados
PubMed/ Medline ((((support services) OR (psychological support)) AND (mental health)) AND (medical students)) AND (brazil) 20 estudos
Lilacs (tw:(serviços de apoio )) OR (tw:(apoio psicológico)) OR (tw:(apoio )) AND (tw:(mental health )) AND (tw:(medical students )) 31 estudos
The Cochrane Library #1 (support service) OR (psychological support) #2 (mental health) #3 (medical students) #4 (brazil) #5 (#1 AND #2 AND #3 AND #4 AND #5) 63 estudos
ERIC “support service” “psychological support” “mental health” “medical students” “brazil” 6 artigos
SciELO (ab:(*serviços de apoio)) OR (apoio) OR (apoio psicológico) AND (saúde mental) AND (estudantes de medicina) 4 artigos
Catálogo de Teses e Dissertações da Capes serviços de apoio OR apoio OR apoio psicológico AND saúde mental AND estudantes de medicina 47 artigos

Seleção dos estudos e extração de dados

Todas as referências encontradas pelas buscas foram organizadas com auxílio do Software Mendeley10. Em seguida, utilizou-se a Plataforma Covidence para Revisão Sistemática, da Colaboração Cochrane11, como ferramenta para a seleção e extração de dados dos estudos.

A seleção dos estudos foi realizada, de forma independente, por duas revisoras devidamente treinadas. A Plataforma Covidence disponibiliza uma interface para cada revisor e depois indica quais foram os estudos que apresentaram divergências na análise, para que estas sejam resolvidas por um terceiro revisor. Inicialmente, analisaram-se o título e o resumo dos textos selecionados. As divergências sobre a inclusão ou exclusão de determinado estudo foram analisadas por uma terceira revisora. Após essa etapa, partiu-se para a avaliação dos textos completos e definição das espécies que comporiam a revisão. Novamente, para estudos em que houve desacordo entre as duas revisoras principais, a terceira revisora resolveu os conflitos.

Os dados foram extraídos dos estudos incluídos utilizando tabelas de extração de dados projetadas para atender aos objetivos desta revisão. As características dos estudos foram retiradas dos resumos e dos textos completos dos trabalhos. Duas revisoras extraíram os dados independentemente, e, nos casos de discordância, os dados foram analisados por uma terceira revisora.

Encontraram-se 171 estudos por meio das buscas nas bases de dados. Além desses, triaram-se outros 20 artigos, identificados nas referências de estudos selecionados.

Do total de 191 estudos reunidos, 57 foram excluídos pela própria Plataforma Covidence por serem duplicatas, restando 134 estudos para serem triados a partir do título e do resumo. Os textos completos de 61 estudos foram avaliados quanto à elegibilidade, e, após a exclusão de 45 deles por não cumprirem os critérios de inclusão, restaram os 16 estudos incluídos (Figura 1).

Fonte: Elaborado pelas autoras a partir do PRISMA 2009 Flow Diagram.

Figura 1 Diagrama de fluxo PRISMA. 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características dos estudos incluídos

Com base na pesquisa bibliográfica, selecionaram-se 16 estudos para a construção desta revisão. Destes, 13 são artigos publicados em periódicos e três são dissertações apresentadas a programas de pós-graduação de instituições de ensino superior12)-(14. Em relação ao desenho metodológico desses estudos, o tipo predominante foi a pesquisa documental de prontuários e de fichas de inscrição disponibilizados nos serviços de apoio à saúde mental. Outros desenhos presentes são relato de experiência15),(16 e descrição histórica17),(18 além de pesquisa qualitativa com a aplicação de questionários19 e com a análise fenomenológica de depoimentos13),(20.

Todos os estudos selecionados foram realizados no Brasil, dos quais 14 envolvem instituições de ensino superior da Região Sudeste. Apenas dois estudos foram desenvolvidos em outras localidades: um em instituição da Região Norte16 e outro em um centro de ensino superior da Região Sul21. Constata-se, assim, uma concentração de publicações sobre os serviços de apoio à saúde mental destinados ao estudante de Medicina nos centros de ensino da Região Sudeste. Além disso, chama a atenção a existência de poucos estudos sobre esse tema, especialmente quando se considera o número de instituições que oferecem o curso de graduação em Medicina no Brasil - 287 instituições de ensino superior, públicas e privadas22.

Os dados revelam que 13 dos estudos realizados ocorreram em instituições públicas de ensino superior e que apenas três21),(23),(24 foram realizados em centros privados, o que, possivelmente, pode ser efeito de uma política de maior incentivo a pesquisas nas instituições públicas. Estudos apontam que o setor público está mais estruturado para a pesquisa do que o setor privado por causa das políticas educacionais adotadas historicamente no país. Embora tenha havido um maior incentivo às instituições privadas na última década, esse estímulo não foi destinado à pesquisa, mas à formação profissional25.

Alguns serviços de apoio à saúde mental são descritos em mais de um estudo, como é o caso do Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Grapal/FMUSP), abordado em dois estudos selecionados18),(26; do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Universidade Estadual de Campinas (Sappe/Unicamp), presente nos estudos de Campos12 e Oliveira14; e do Centro de Apoio Educacional e Psicológico da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (Caep/FMRP), também descrito em dois estudos15),(17. Essa informação corrobora a constatação de que os estudos sobre os serviços de apoio ao estudante de Medicina estão concentrados em instituições de ensino públicas da Região Sudeste.

Por último, é válido ressaltar que os estudos incluídos nesta revisão analisaram principalmente o processo de implantação do serviço de apoio à saúde mental, as características do serviço oferecido, os traços sociodemográficos e clínicos do público atendido, e os principais motivos de busca por atendimento nesses serviços.

Criação dos serviços

Cada instituição de ensino, ao criar um serviço de apoio à saúde mental de seus estudantes, procurou atender às demandas próprias de seu contexto acadêmico. O Espaço de Atenção Psicossocial (Epsico) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)16 e o Projeto de Assistência Psicológica da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (APP/PUC Minas)23 são exemplos de casos em que a ideia de oferecer estratégias para promoção da saúde mental partiu da gestão da unidade acadêmica, diante de situações de sofrimento psíquico dos estudantes.

Nos dois casos, o processo foi semelhante: diante de um número crescente de estudantes com demandas acadêmicas e psicossociais relacionadas ao ingresso na faculdade e à adaptação a esse cenário, uma comissão de professores e gestores foi instituída a fim de mobilizar recursos e estratégias para a implementação de um serviço voltado para o discente.

Além disso, é válido ressaltar que a atuação de docentes ligados às disciplinas de psiquiatria e psicologia médica foi importante para a criação dos serviços de apoio em muitas instituições. O Caep da FMRP17 e o Grapal da FMUSP18 foram projetados e fomentados por professores que conviviam de perto com os estudantes de Medicina e compreendiam a necessidade de ofertar assistência psicológica a esse público.

Diante desses exemplos, observa-se a importância da articulação entre a comunidade acadêmica e os gestores das instituições de ensino médico na implantação dos serviços de apoio à saúde mental de seus estudantes.

Tipos de serviço e intervenção oferecidos

Os serviços de apoio à saúde mental descritos nos estudos selecionados estão estruturados, em sua maioria, para oferecer um primeiro acolhimento, como atendimento psicológico individual por um curto período de tempo, em casos de sofrimento psíquico relacionado a questões pessoais e/ou acadêmicas.

A maioria dos serviços dispõe de horários de funcionamento preestabelecidos, e a procura por atendimento acontece por demanda espontânea, sem a necessidade de agendamento prévio. Apenas no Epsico da UEA16 e no Núcleo de Apoio ao Estudante da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (Napem/UFMG)27, o atendimento ocorre, respectivamente, com agendamento por mensagens de texto ou pelo preenchimento de uma ficha de inscrição, na qual o estudante informa previamente o motivo da consulta.

Após a procura por atendimento, o estudante geralmente passa por uma triagem psicológica, na qual é levantada sua principal queixa ou motivo de busca por atendimento e definida a intervenção mais adequada. No Programa de Atenção em Saúde Mental (Proasme), implementado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, esse contato inicial é denominado “Recepção Ampliada” e visa à realização de um diagnóstico situacional a partir da elaboração das razões que levaram o estudante a se dirigir ao serviço28.

Foi observado que as intervenções psicológicas oferecidas são de modalidades diversas, com predomínio da psicoterapia breve de orientação psicanalítica. Esse tipo de intervenção é caracterizado por um número reduzido de atendimentos - de seis a dez sessões -, com cada sessão durando cerca de 50 minutos. O principal objetivo da psicoterapia breve é propiciar ao paciente a aquisição de insight, isto é, o conhecimento da própria realidade psíquica por meio da interpretação dos relatos expostos no atendimento e de seus contextos vivenciais16.

Na maioria dos estudos, é ressaltado ainda que, em casos de transtornos mentais mais graves ou que necessitam de abordagens de longo prazo, o estudante é encaminhado a atendimentos psicológicos e/ou psiquiátricos desvinculados da instituição de ensino.

Nesse sentido, seria bastante apropriado que os serviços de apoio estivessem associados à Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do Sistema Único de Saúde (SUS) ou estabelecessem parcerias com ela, a fim de garantir a assistência adequada principalmente aos estudantes contemplados por ações afirmativas e/ou em situações de vulnerabilidade socioeconômica, que não podem arcar com os custos de um atendimento particular.

Outros exemplos de modalidades de intervenção são a orientação psicopedagógica ou pedagógica realizadas no Grapal da FMUSP18),(26 e o pronto atendimento psicológico (PAP) oferecido no Sappe da Unicamp12),(14.

Alguns serviços de apoio contam também com atendimento psiquiátrico. Nesse caso, o estudante pode solicitar esse tipo de atendimento de forma exclusiva ou associado ao atendimento psicológico, como ocorre no Serviço de Psicoterapia Analítica do Ambulatório de Clínica Psiquiátrica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto29. Somente na Retaguarda Emocional para o Aluno de Medicina (Repam), serviço da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, relata-se a prescrição de medicações pelo psiquiatra24. No entanto, são poucos os serviços que oferecem essa modalidade de atendimento, provavelmente por conta da ausência de um médico psiquiatra atuando nesses projetos.

A tutoria ou mentoring é outro tipo de intervenção oferecido, como ocorre no Programa de Mentoring da UFMG20 e no Mentoring Program da FMUSP19. Segundo estudo publicado por Leão et al.19 em 2011, essa forma de assistência tem como objetivo oferecer um tutor (mentor) para acompanhar os estudantes ao longo da sua formação e promover a troca de experiências entre docentes e discentes. Nesse sentido, os graduandos são divididos em grupos, que podem variar de 12 a 14 pessoas, com um tutor/docente ficando responsável por cada grupo. São desenvolvidas reuniões regulares para a discussão e orientação de aspectos relacionados à carreira médica e de questões pertinentes à vida pessoal dos estudantes.

Muitos serviços atuam também no desenvolvimento de pesquisas e projetos que visam promover a saúde mental dentro do ambiente acadêmico e oferecer subsídios para o aprimoramento do ensino dentro da instituição. Como exemplo dessa atuação, podemos elencar programas que facilitam a integração do estudante ao meio universitário, desenvolvidos pelo Caep da FMRP15),(17, e a produção científica de estudos sobre as necessidades da população estudantil. Ainda nesse sentido, o Caep presta assessoria à Comissão de Graduação da instituição, com o intuito de sugerir e implementar propostas pedagógicas que associem a formação médica ao bem-estar dos graduandos15),(17.

Diante dos dados analisados, é possível perceber que os serviços de apoio ao estudante descritos nos estudos incluídos nesta revisão apresentam o objetivo comum de promover a saúde mental dos discentes de Medicina. Divergem, entretanto, quanto às modalidades de intervenção oferecidas - que vão desde o atendimento individual até atuações em outros setores da instituição -, demonstrando não haver uma única maneira de abordar de forma efetiva a questão da saúde mental nas instituições de ensino superior. O Quadro 2 apresenta os principais dados coletados dos estudos incluídos nesta revisão.

Quadro 2 Principais dados coletados. 

Autor(es)/ano de publicação Formato/ desenho metodológico Nome do serviço/ano de criação Intervenções oferecidas Público-alvo Profissionais que compõem o serviço
Fernandez e Rodrigues (1993) Artigo/pesquisa documental Serviço de Psicoterapia Analítica do Ambulatório de Clínica Psiquiátrica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto - o ano de implantação do serviço não foi informado. O atendimento aos estudantes de Medicina foi iniciado em 1983. Psicoterapia analítica e atendimento psiquiátrico Estudantes dos cursos ofertados por instituições de ensino superior de São Paulo, entre as quais se destaca a Universidade de São Paulo (USP). As demais não foram apresentadas. A maior procura refere-se aos graduandos de Medicina e Psicologia. Médicos residentes de psiquiatria, aprimorandos de psicologia e médicos assistentes da instituição.
Cianflone et al. (2002) Artigo/descrição histórica Centro de Apoio Educacional e Psicológico (Caep), 1990. Psicoterapia breve, orientação psicopedagógica, orientação profissional, grupos temáticos e de reflexão, orientação familiar, orientação a professores, orientação e encaminhamentos, assessoria pedagógica a docentes e assessoria pedagógica à Comissão de Graduação. Estudantes de graduação do curso de Medicina da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Psicólogo, pedagogo e técnico acadêmico para apoio administrativo.
Bellodi (2007) Artigo/estudo observacional Retaguarda Emocional para o Aluno de Medicina (Repam) da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, 1997. Atendimento psicoterápico breve com tempo e objetivos limitados de alunos em crise, encaminhamento para atendimentos desvinculados da instituição para abordagens de longo prazo individuais em tempos limitados e atendimentos clínicos psiquiatras com uso de medicações, se necessário. Estudantes dos cursos de Medicina, Fonoaudiologia e Enfermagem da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Psicólogas, psiquiatras e secretárias.
Millan e Arruda (2008) Artigo/descrição histórica Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno (Grapal) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, criado em 1983 e iniciado em 1986. Assistência psicológica e psiquiátrica ao estudante, breve entrevista psicológica de caráter preventivo com alunos do primeiro ano do curso, organização de eventos para o debate sobre os serviços de saúde mental para estudantes e orientações à família de estudantes atendidos. Estudantes de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Psicólogos, psiquiatras, secretário e coordenador.
De Marco (2009) Artigo/ensaio Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno (Grapal) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; não é informado o ano de criação. Entrevista aberta de apresentação do serviço para os alunos do primeiro ano do curso e suporte psicopedagógico. Estudantes de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Não há essa informação no artigo.
Oliveira (2009) Dissertação/pesquisa documental Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante na Universidade Estadual de Campinas (Sappe/Unicamp), 1987. Psicoterapia breve de orientação psicanalítica, desenvolvimento de programas que facilitam a integração do estudante no contexto universitário, pronto atendimento psicológico (PAP) e atendimento clínico psiquiátrico. Estudantes dos cursos (graduação e pós-graduação) oferecidos pela instituição de ensino superior (Unicamp). Psicólogos e psiquiatras.
Leão et al. (2011) Artigo/estudo observacional Mental Health Service (MHS) e Mentoring Program; não é informado os anos de criação dos serviços. Atendimento e acompanhamento psicológicos e programa de mentoria. Estudantes de Medicina da instituição de ensino superior (FMUSP). O serviço de saúde mental é constituídos por psicólogos e psiquiatras, e o programa de mentoria conta com docentes voluntários que atuam como mentores.
Souza (2011) Dissertação/estudo observacional O nome do serviço ofertado não foi informado; o ano de criação foi 1993 e o ano de implantação 1995. Atendimento psicológico e psiquiátrico, serviço social, propostas pedagógicas e grupos terapêuticos com assuntos predefinidos. Estudantes dos cursos oferecidos pela instituição e servidores (técnico administrativos e docentes). Psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.
Campos (2016) Dissertação/pesquisa documental Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante na Universidade Estadual de Campinas (Sappe/Unicamp), 1987. Consultas individuais de acolhimento e triagem, intervenções psicoterápicas breves de orientação analítica, associação com redes e serviços internos e externos à faculdade, atendimentos psicológicos individuais, grupais e relacionais, pronto atendimento psicológico (PAP) e acompanhamentos psiquiátricos de urgência. Estudantes de Medicina, Enfermagem e Fonoaudiologia (graduação, pós-graduação e residência), docentes e funcionários de diferentes áreas da Unicamp. Psiquiatras e psicólogos.
Martins e Bellodi (2016) Artigo/pesquisa documental Não consta o nome do serviço ofertado; foi criado em 2001. Programa de Mentoring. Estudantes do terceiro ano acadêmico do curso de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Equipe de mentores (as carreiras profissionais não foram informadas).
Pinho (2016) Artigo/pesquisa documental Programa de Atendimento Psicológico do Meio Oeste Catarinense, 2004. Atendimento psicológico de abordagem cognitivo-comportamental e encaminhamento de estudantes para tratamento com psicoterapia de apoio desvinculado da instituição. No ano de sua implantação, atendia apenas estudantes de Medicina. Em 2005, começou a ser ofertado a todos os estudantes dos demais cursos oferecidos pela instituição. Não há essa informação no artigo.
Malajovich et al. (2017) Artigo/reflexão teórico-clínica Programa de Atenção em Saúde Mental para Estudantes Universitários (Proasme); não consta o ano de criação do programa. Acolhimento aberto com horários de funcionamento preestabelecidos e entrevistas individuais que visam à realização de um diagnóstico situacional; as propostas terapêuticas são diversas e formuladas a partir do contato com o estudante. Estudantes dos cursos oferecidos pela instituição de ensino superior (não informada no artigo analisado). Psicólogos e psiquiatras que realizam interconsultas.
Murakami et al. (2018) Artigo/relato de experiência Centro de Apoio Educacional e Psicológico (Caep), 1990. Triagem psicológica, psicoterapia breve, orientação educacional (psicopedagógica e/ou pedagógica), aconselhamento psicológico, programa de tutoria na categoria mentoring, oficinas de orientações psicopedagógica e pedagógica, grupos de reflexão e grupos focais, e prestação de consultoria à Comissão de Graduação e aos docentes da instituição. Na época da criação, atendia apenas estudantes de Medicina, sendo expandido, posteriormente, para os cursos de Fisioterapia, Fonoaudiologia, Nutrição, Terapia Ocupacional, Informática Biomédica e Ciência Biomédicas. Três psicólogos, um psicopedagogo, um pedagogo e um técnico administrativo.
Neves et al. (2019) Artigo/relato de experiência Espaço de Atenção Psicossocial (Epsico), idealizado e proposto em 2015, e efetivado em 2018. Atendimento psicológico psicoterápico breve baseado em consultas individuais; oferta de estágio profissional na área de psicologia a partir de 2019. Estudantes dos cursos oferecidos pela instituição de ensino superior. Na época de sua criação, contava com cinco psicólogos e um terapeuta ocupacional. Atualmente é constituído por três psicólogos.
Mendes (2019) Artigo/descrição histórica Assistência Psicológica aos Alunos (APP) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; serviço criado em 2002. Acolhida psicossocial do estudantes realizada por meio de escutas pontuais, atendimento psicoterápico breve em casos de urgência subjetiva e encaminhamento a atendimento psicológico desvinculado da instituição para acompanhamentos longitudinais. Estudantes da instituição. Psicólogos, monitores e estagiários de psicologia.
Ribeiro et al. (2019) Artigo/pesquisa documental Núcleo de Apoio Psicopedagógico ao Estudante (Napem) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, 2004. Intervenções psicológicas a partir do preenchimento de uma ficha de inscrição pelo aluno. Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais matriculados nos cursos de Medicina, Fonoaudiologia e Tecnologia em Radiologia. Não há essa informação no artigo.

Público-alvo

Todos os serviços de apoio à saúde mental descritos nos estudos selecionados atendem estudantes de Medicina. No entanto, alguns desses serviços são disponibilizados também para graduandos de outros cursos.

De forma geral, podemos observar que a maioria dos serviços de apoio foi implementada com o objetivo de prestar assistência psicológica e psicopedagógica apenas aos estudantes de Medicina, possivelmente por causa da maior prevalência de transtornos mentais nesse grupo, conforme evidenciado por Pacheco et al.2. Como exemplo, temos o serviço de apoio ao estudante da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), implantado em 2004 para atendimento de discentes do curso de Medicina21.

Com a ampliação do serviço e/ou a implantação de outros cursos nas instituições, alguns serviços assistenciais em saúde mental passaram a receber também estudantes provenientes de outros cursos de graduação, como é o caso do Caep da FMRP que, em 2002, começou a atender às demandas de outros cursos da área da saúde, como Fisioterapia, Fonoaudiologia e Nutrição15. Em apenas um dos estudos incluídos, o serviço abordado também atendia discentes regularmente matriculados na pós-graduação da instituição12.

Profissionais envolvidos

Os serviços de apoio à saúde mental são compostos, na maioria dos casos, por equipes multiprofissionais que variam em número e categorias profissionais envolvidas.

Os serviços que oferecem atendimento psicológico e psiquiátrico são comumente compostos por psicólogos e psiquiatras. As equipes podem incluir também psicopedagogos, pedagogos, técnicos administrativos, secretários e terapeutas ocupacionais. O APP da PUC Minas23 e o Serviço de Psicoterapia Analítica do Ambulatório de Clínica Psiquiátrica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto29 contam também com estagiários provenientes do curso de graduação em Psicologia e médicos residentes em psiquiatria, respectivamente.

Já os programas de tutoria ou mentoring oferecidos pelas Faculdades de Medicina da USP19 e da UFMG20 são compostos pelos próprios docentes do curso de graduação, geralmente em caráter voluntário.

Em três dos estudos incluídos, não há informações sobre os profissionais que compõem o serviço assistencial21),(26),(27.

É importante ressaltar que alguns serviços apresentam uma instabilidade quanto ao número de profissionais. No estudo em que o Epsico da UEA é descrito, relata-se que, em 2015, ano da elaboração do projeto, o serviço contava com cinco psicólogas e uma terapeuta ocupacional. Contudo, na data de elaboração do artigo, em 2019, somente três psicólogas atuavam no serviço16.

Pode-se supor que a ausência de um quadro fixo de profissionais seja um fator que dificulte o desenvolvimento de projetos de longo prazo, assim como a consolidação e ampliação dos serviços de apoio à saúde mental dentro das instituições de ensino superior do Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os pontos fortes desta revisão foram a busca sistemática e abrangente na literatura, e as lacunas de conhecimento encontradas a partir das informações coletadas dos estudos incluídos.

Diante dos resultados apresentados, observou-se que os serviços de apoio à saúde mental abordados pelos estudos têm o objetivo comum de promoção da saúde mental e, assim, da qualidade de vida do estudante de Medicina. Diferentes modalidades de intervenção, por meio de encontros individuais e/ou coletivos, visam acolher e apoiar o estudante em suas demandas acadêmicas, psicológicas e sociais.

A maioria dos serviços de apoio disponibiliza um primeiro acolhimento ao estudante, configurando-se como espaço de escuta, e intervenções de curto prazo, com predomínio da psicoterapia breve. O acesso a esses serviços depende, em geral, da iniciativa do próprio universitário em procurá-los, diante de alguma intercorrência que resulte em prejuízos à sua saúde mental.

Todavia, foram encontradas algumas limitações na realização do estudo. As publicações sobre os serviços de apoio ao estudante são escassas quando comparadas ao número de instituições que oferecem o curso de graduação em Medicina no Brasil. Além disso, os estudos têm caráter mais descritivo, quando o ideal seria haver, além da descrição, uma avaliação das intervenções oferecidas pelos serviços de apoio, o que teria mais relevância que os relatos de experiência.

As publicações disponíveis foram realizadas, em sua maioria, por centros de ensino superior públicos da Região Sudeste, o que dificulta o mapeamento e a identificação de informações a respeito de serviços de apoio ofertados por instituições de outras regiões do país.

O predomínio de estudos que relatam serviços de apoio em instituições de ensino superior públicas pode sugerir viés de publicação. É possível que outros centros de ensino privados possuam serviços destinados a seus estudantes, mas que, por motivos não identificados nesta pesquisa, não publiquem sobre o tema.

É importante destacar ainda que os estudos não apresentam o perfil socioeconômico dos estudantes assistidos pelos serviços de apoio, nem há menção quanto à presença de alunos que ingressaram por cotas ou que são apoiados pelas políticas de permanência. Conhecer tal perfil seria importante para a elaboração de estratégias de assistência aos estudantes, sobretudo para garantir ao grupo economicamente vulnerável o devido seguimento de seu tratamento.

Outra limitação é o fato de a maioria dos estudos incluídos nesta revisão não detalhar o modo de implementação dos serviços ou como as intervenções propostas são colocadas em prática. Também não foram encontradas informações sobre possíveis dificuldades em se manter uma equipe multiprofissional ou sobre o impacto das intervenções na saúde mental dos estudantes contemplados.

Além disso, é válido reconhecer que muitas outras ações voltadas para a promoção da saúde mental são desenvolvidas no ambiente acadêmico por frentes de saúde mental, ligas e outros setores desvinculados dos serviços de apoio, e, dessa forma, não fizeram parte desta revisão.

Quanto à relação das instituições de ensino com os serviços de apoio, podemos perceber que, apesar do seu papel decisivo no processo de criação desses serviços, não há informações nos estudos sobre a participação da gestão acadêmica em outros momentos. Não foi abordado, por exemplo, se os centros de ensino desenvolvem ações regulares de promoção de saúde mental no contexto acadêmico ou se há a preocupação de efetuar mudanças curriculares e organizacionais visando atender às demandas de saúde mental.

Por último, apesar de o objetivo principal desta revisão ter sido mapear, por meio de publicações, os serviços de apoio à saúde mental existentes nas instituições de ensino superior do Brasil, não podemos inferir que os serviços descritos nos estudos incluídos ainda estão ativos. É possível, ainda, que tenham ocorrido mudanças, tanto no funcionamento como na composição dos serviços.

Tais lacunas apontam para a necessidade de mais pesquisas sobre atenção à saúde mental do estudante de Medicina, assim como de maior incentivo institucional para que projetos e estudos com esse foco sejam desenvolvidos. Espera-se que, mediante mais pesquisas sobre essa temática, as discussões sobre saúde mental possam ser ampliadas e estratégias comprovadamente efetivas sejam implementadas nos serviços de apoio aos estudantes, a fim de expandir e consolidar a ação desses serviços dentro das instituições de ensino superior do Brasil.

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7Avaliado pelo processo de double blind reviw.

FINANCIAMENTO Esta pesquisa foi apoiada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Pibic/CNPq) e pelo Programa de Iniciação Científica da Escola Superior de Ciências da Saúde (PIC/ESCS).

Recebido: 24 de Setembro de 2020; Aceito: 08 de Março de 2021

Editora-chefe: Rosiane Viana Zuza Diniz. Editor associado: Pedro Tadao Hamamoto Filho.

CONTRIBUIÇÃO DAS AUTORAS

Todas as autoras participaram do desenho do estudo, da construção do protocolo da revisão, das estratégias de busca, da análise e interpretação dos dados coletados, da redação do artigo, da revisão crítica do conteúdo intelectual e da aprovação da versão final a ser publicada.

CONFLITO DE INTERESSES

As autoras declaram não haver conflito de interesses neste estudo.

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