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Revista Brasileira de Educação Médica

Print version ISSN 0100-5502On-line version ISSN 1981-5271

Rev. Bras. Educ. Med. vol.46 no.2 Rio de Janeiro  2022  Epub July 05, 2022

https://doi.org/10.1590/1981-5271v46.2-20220043 

Artigo Original

Influenciadores da desinformação nas pandemias de gripe espanhola e Covid-19: um estudo documental

Eluana Borges Leitão de Figueiredo1 
http://orcid.org/0000-0002-5462-3268

Roberta Mariana da Costa Rodrigues1 
http://orcid.org/0000-0003-2738-7543

Karina Castro Teixeira Pontes1 
http://orcid.org/0000-0003-0126-7666

Marcela Teixeira de Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0003-2421-2190

Juliana Taveira Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0003-4643-3859

Lilian de Souza1 
http://orcid.org/0000-0002-4644-6433

1Centro Universitário Augusto Motta, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.


Resumo:

Introdução:

Tão rápidas e destrutivas quanto a doença pandêmica,a propagação de inverdades em cenários de pandemias tem levado a muitas mortes. Para tanto, intervenções contrainfodêmicas são hoje um dos maiores desafios para o setor de saúde

Objetivo:

Este estudo teve como objetivo compreender as confluências da desinformação na gripe espanhola e na Covid-19 e como atuam os influenciadores de notícias falsas no campo da saúde brasileira.

Método:

Trata-se de estudo documental com abordagem qualitativa feita por meio da triangulação de dados em diferentes fontes e nos períodos da gripe espanhola (de 1918 a 1920) e da Covid-19 (de 2020 a 2021).

Resultado:

Observou-se que as pandemias foram e continuam cenários férteis para a produção e propagação dos influenciadores da desinformação e que se faz necessário problematizar os desafios da formação do trabalhador em tempos de modernidade líquida e em contextos de infodemias, já que os discursos profissionais têm sido fragilizados diante da desinformação.

Conclusão:

O estudo possibilitou compreender as confluências da desinformação entre a gripe espanhola e a Covid-19, e o papel da formação em saúde no enfrentamento da disseminação em massa de notícias falsas na saúde brasileira.

Palavras-chave: Educação Continuada; Covid-19; Influenza Pandêmica (1918-1920); Pandemias; Notícias

Abstract:

Introduction:

As fast and destructive as the pandemic disease is the spread of untruths in pandemic scenarios, which led to many deaths. Therefore, counter-infodemic interventions are currently one of the biggest challenges for the health sector.

Objective:

To understand the convergence of disinformation on the Spanish Flu and COVID-19 and how fake news influencers act in the Brazilian health field.

Method:

this is a documentary study with a qualitative approach, carried out through the triangulation of data from different sources and in the periods of the Spanish Influenza (1918 to 1920) and COVID-19 (2020 to 2021).

Result:

It was observed that the pandemics were and continue to be fertile scenarios for the production and dissemination of disinformation influencers and that it is necessary to problematize the challenges of worker training in times of liquid modernity and in contexts of infodemics, since the professional discourses have been weakened bydisinformation.

Conclusion:

the study allowed us to understand the convergence of disinformation between the Spanish Flu and COVID-19 and the role of health education when facing the mass dissemination of fake news in the Brazilian health field.

Keywords: Continuing education; COVID-19; Pandemic Influenza, 1918-1920; Pandemics; News

INTRODUÇÃO

Ao ingressarmos em tempos pretéritos, podemos perceber que as pandemias continuam cenários férteis para a propagação de inverdades. Basta olharmos para a pandemia da gripe espanhola que chegou ao Brasil no ano de 1918 para evidenciarmos que a história é viva e reverbera no futuro.

E o futuro chegou! Após 100 anos, estamos diante da pandemia de coronavirus disease 2019 (Covid-19), e, com ela, reapareceram velhos problemas de desinformação, tais como: boatos, receitas milagrosas, medicamentos sem comprovação científica, teorias conspiratórias, entre outros1. Desse modo, nota-se que os conteúdos falsos gerados pelos influenciadores da desinformação no Brasil há muito tempo tem sido determinantes de vida ou morte.

Assim, apesar de se passarem muitos anos do curso da pandemia de gripe espanhola, nota-se que a estratégia de circulação de desinformação em saúde não mudou muito, sendo a verossimilhança, ou seja, a comunicação de uma mentira cuja aparência é de verdade, um dos maiores desafios no seu enfrentamento2. Além disso, temos as redes sociais que têm sido veículos de informações rápidas e acessíveis, mas também cenários propícios para conteúdos descontextualizados e desinformativos3.

Desse modo, temos visto muitas mudanças que ocorreram nos padrões de comunicação sobre assuntos de interesse da saúde4. Bauman5)chama tais mudanças de modernidade líquida e aponta para uma nova forma de informar a partir da velocidade do sinal eletrônico. A pandemia de Covid-19 chegou justamente à geração da instantaneidade e da circulação de um novo poder de informar e/ou desinformar pelos chamados influenciadores digitais.

Nessa esteira, o estudo aponta para a urgência de o setor saúde compreender o fenômeno da desinformação no passado para entender no tempo presente em quais medidas educativas concretas de intervenção devemos apostar, já que tais desordens informacionais geram um problema de desconfiança, ou seja, geram confusão para a população, que fica sem saber em que e quem acreditar6. Tudo isso coloca em análise o processo de formação existente, pois os trabalhadores precisam agir sobre uma nova realidade que se transforma de maneira rápida. Assim, temos o seguinte problema de pesquisa:

  • Como os influenciadores da desinformação em tempos de pandemias têm afetado o campo da saúde e desafiado a formação dos trabalhadores?

Diante disso, o presente artigo tem como objetivo compreender as confluências da desinformação na gripe espanhola e na Covid-19 e como atuam os influenciadores de notícias falsas no campo da saúde brasileira.

MÉTODO

Trata-se de um estudo documental com abordagem qualitativa feito por triangulação de dados em dois períodos distintos de pandemias e em diferentes fontes.

A busca documental foi feita a partir de matérias contidas nas edições dos acervos históricos dos jornais O Estado de S. Paulo (Estadão) e Correio da Manhã. Os veículos foram escolhidos por terem sido importantes meios de informação da população na época da gripe espanhola e com dados disponíveis para pesquisa. Adotaram-se os seguintes critérios de inclusão: delimitação temporal de setembro 1918 a dezembro de 1920, e notícias com as expressões gripe espanhola e influenza pandêmica. Excluíram-se as notícias repetidas que abordassem a gripe sem relacioná-la à pandemia.

Já no período que compreende a pandemia de Covid-19, as fontes de dados foram publicações nos serviços de checagem de fatos, tais como Fato ou Fake; Farsas.com e Boatos.org, e nos portais da World Health Organization e do Ministério da Saúde. As fontes foram escolhidas por apresentarem uma compilação atual do cenário de notícias falsas no período que compreende a Covid-19. Adotaram-se os seguintes critérios de inclusão: delimitação temporal de março de 2020 a abril de 2021, e notícias com os termos Covid-19 e coronavírus. Excluíram-se as notícias repetidas e aquelas que não se relacionam com o campo da saúde.

A coleta de dados ocorreu no período de abril a setembro de 2021. Para tanto, foi criado um instrumento de coleta de dados no Microsoft Word com os seguintes itens: fonte da notícia, data ou número da edição, página e síntese da notícia, seguindo as orientações dos Standards for Reporting Qualitative Research (SRQR). Destaca-se que, nos acervos, não foi possível utilizar o recurso de localização das palavras, sendo necessário fazer a busca em cada edição.

Após coleta dos dados, procedeu-se à organização em categorias temáticas que posteriormente foram embasadas pela literatura científica. A fundamentação do estudo envolveu leitura e interpretação de textos à luz de publicações relacionadas à temática da desinformação nos dois períodos estudados, ancorando as análises no pensamento crítico de Bauman5 que desenvolveu conceitos sobre modernidade líquida. O processo de análise e interpretação foi interativo, uma vez que os autores elaboraram pouco a pouco uma explicação do fenômeno, procedendo a um exame das inter-relações entre a desinformação nas pandemias de gripe espanhola e Covid-197.

RESULTADOS

Na busca por registros noticiosos nas edições do Correio da Manhã, foram extraídas 43 ocorrências. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, obtiveram-se 30 registros, sendo excluídas sete notícias por serem repetidas e 12 por não apresentarem relação direta ou clara com a gripe espanhola. Em O Estado de S. Paulo, foram identificadas 129 reportagens relacionadas à gripe espanhola. Excluíram-se 12 notícias por não tratarem diretamente da pandemia e 101 por serem notícias repetidas. De maio a dezembro de 1920, não apareceram notícias sobre a gripe espanhola.

Quanto às notícias relacionadas à prevenção e/ou cura da gripe espanhola, O Estado de S. Paulo e o Correio da Manhã divulgaram 34 notícias, todas indicando medicamentos não comprovados:

Influenza Hespanhola. Evita-se de modo seguro, usando um comprimido às refeições: Maleitosan Preventivo (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 18 de outubro de 1918 - p. 10).

O antídoto mais seguro ou a melhor arma de combater o terrível flagelo “Grippe Hespanhola” é a água purgativa Queiroz (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 18 de outubro de 1918 - p. 10).

A Grippe Hespanhola já nos visitou e agora o melhor meio de prevenir-se contra a infecção consiste em hygiene rigorosa e continuas desinfecções com creolisol (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 19 de outubro de 1918 - p. 6).

“Grippina”. O remédio da “Grippe Hespanhola” - Preservativo e curativo, fórmula do Dr. Alberto Seabra (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 19 de outubro de 1918 - p. 8).

Como evitar e curar a “influenza hespanhola”? Evite-se e cura-se com Balas Peitoraes, pois esses deliciosos bombons, pela sua ação anticéptica, põem a bocca, a garganta e as vias respiratórias ao abrigo dos micróbios pathogenos (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 03 de novembro de 1918 - p. 8).

A homeopatia triunfante na cura da gripe espanhola, o sucesso extraordinário do medicamento homeopático Albapenitum. Cura em 24h (Correio da Manhã, 1918, p.3).

No que se refere às notícias que minimizaram o impacto e a gravidade da pandemia ou que produziram informações inverídicas e sensacionalistas, destacam-se as seguintes:

Esta moléstia em si não tem a menor gravidade, desde que se observe o maior repouso [...] (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 04 de novembro de 1918 - p. 7).

[...] senhor presidente da república está convencido de que a epidemia reinante tende a declinar [...]. Não há, pois, razão para continuar o pânico que se vem estabelecendo no seio da população, tanto mais quanto a mortalidade causada pela moléstia, que todos sinceramente deploram entre nós, considerada a extensão que tem tido, muito inferior a de quase todos os países […] (Correio da Manhã, 1918, p.1).

Os perigos do micróbio importado. As justíssimas ponderações do ilustre clinico Dr. Maximo Gomes mandadas a imprensa acerca dos perigos que nos ameaçam pelo possível contágio da espanhola através de brinquedos oriundos do Japão, devem merecer de toda a gente a maior atenção [...] (Correio da Manhã, 1919, p.1).

A gripe volta? O diretor geral da saúde publica insiste em dizer que não há motivos para alarde (Correio da Manhã, 1919, p.1).

É importante ressaltar que as notícias tinham como influenciadores uma associação entre imprensa, farmácias, médicos e governo que, mesmo sem comprovação, disseminavam tais informações para a população. O uso de referências médicas, por exemplo, visavam conferir maior credibilidade e legitimidade às notícias, como se pode ser observar a seguir:

O melhor preservativo desta enfermidade é o uso diário de 2 Pilulas sudoríficas do Luiz Carlos. Recomendada por todos os médicos (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 19 de outubro de 1918 - pag. 6).

Grippe Hespanhola. Todos os médicos aconselham como o melhor preservativo a “caninha do O”, com limão, mais conhecida como batida [...] afim de evitarem ser atacados desta terrível influenza (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 19 de outubro de 1918 - pag. 6).

Previna-se e cure-se com o uso do Salkinol n1. Approvado pela Directoria de Saúde Pública do Rio de Janeiro (O Estado de S. Paulo: páginas da edição de 19 de outubro de 1918 - pag. 8).

Hepatolaxina e a Grippe Hespanhola. Diz o ilustre Diretor da saúde pública: “Trazer o aparelho digestivo regulado é uma das condições contra esta moléstia” (Correio da Manhã, 1918, p.3).

Eis o remédio receitado pelo Dr. Brown [...] e já experimentado com eficácia pelos doutores Laubert Waldeck e Paul Deschanel: Água cloroformizada; água; magnésia; Salol; Bertol. Antifebrina. Xarope d’água de flores de laranjeira [...] (Correio da Manhã, 1918, p.1).

Quer ficar forte e robusto em poucos dias? Use Vanadiol, é o fortificante preferido pelos médicos [...] (Correio da Manhã, 1919, p.6).

Pulmoserum Bailly [...] A saúde reaparece. Empregado nos hospitais, apreciado pela maioria do corpo médico Francês. Experimentado por mais de 20000 médicos estrangeiros (Correio da Manhã, 1919, p. 10).

Em relação à busca de registros noticiosos no curso da pandemia de Covid-19 nos serviços de checagem de fatos, tais como Fato ou Fake; Farsas.com e Boatos.org, e nos portais da World Health Organization e do Ministério da Saúde, foram encontradas 130 ocorrências de notícias falsas, das quais 12 eram repetidas e 12 não se relacionavam diretamente à Covid-19 e, por isso, foram excluídas. Analisaram-se 107 ocorrências.

Quanto às notícias relacionadas à prevenção e/ou cura da Covid-19, foram encontradas 41 notícias, todas indicando medicamentos não comprovados:

Ensaios clínicos confirmam que a hidroxicloroquina previne doenças ou morte por COVID-19 (World Health Organization, 2021).

Suplementos vitamínicos e minerais podem curar COVID-19 (World Health Organization, 2021).

Pulverizar e introduzir alvejante ou outro desinfetante em seu corpo protege contra COVID-19 (World Health Organization, 2021).

Comer alho previne COVID-19 (Ministério da Saúde, 2021).

Chá de limão com bicarbonato quente cura coronavírus (Ministério da Saúde, 2021).

Óleo consagrado pode curar coronavírus (Ministério da Saúde, 2021).

Spray nasal tem potencial efeito contra COVID-19 (Fato ou Fake, 2021).

Chapecó esvaziou os leitos de UTI com tratamento precoce (Farsas.com, 2021).

Estudo na Nature prova que ivermectina cura a COVID-19 e não precisamos de vacinas (Boatos.org, 2021).

No que se refere às notícias que produziram informações inverídicas e sensacionalistas, destacam-se as seguintes:

O vírus COVID-19 pode ser transmitido através de picadas de mosquito (World Health Organization, 2021).

A probabilidade de os sapatos espalharem COVID-19 é muito alta (World Health Organization, 2021).

O uso prolongado de máscaras médicas quando devidamente vestidas causa intoxicação por CO2 e deficiência de oxigênio (World Health Organization, 2021).

Redes móveis 5G espalham COVID-19 (World Health Organization, 2021).

Máscaras doadas pela China estão contaminadas com coronavírus (Ministério da saúde, 2021).

Máscaras e cotonetes da China estão vindo com vermes, parasitas e morgellons (Fato ou Fake, 2021).

Referências médicas, científicas e de organizações importantes na área da saúde foram usadas para conferir maior credibilidade e legitimidade às notícias:

Pesquisa publicada por cientistas chineses diz que coronavírus tornará a maioria dos pacientes do sexo masculino infértil (Ministério da Saúde, 2021).

Médicos tailandeses curam coronavírus em 48h (Ministério da Saúde, 2021).

Presidente da Anvisa disse que população corre risco ao tomar vacinas experimentais (Fato ou Fake, 2021).

Cientistas brasileiros descobriram que a proxalutamida cura a COVID-19 (Farsas.com, 2021).

Estudo do CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças] mostrou a ineficácia das máscaras na pandemia de COVID-19 (Farsas.com, 2021).

USP [Universidade de São Paulo] comprovou que pessoas em confinamento são mais vulneráveis à COVID (Fato ou Fake, 2021).

Estudo na Nature prova que ivermectina cura a COVID-19 e não precisamos de vacinas (Boatos.org, 2021).

Cruz Vermelha americana e japonesa não aceitam doação de sangue de vacinados contra a COVID-19 (Boatos.org, 2021).

No que se refere às vacinas contra Covid-19, as desinformações produzidas tiveram como objetivos causar medo e desestimular a imunização da população, como apontam os fatos noticiosos apresentados a seguir:

Presidente da Anvisa disse que população corre risco ao tomar vacinas experimentais (Fato ou Fake, 2021).

Teste positivo de Doria [governador de São Paulo] para COVID-19 indica ineficácia da Coronavac (Fato ou Fake, 2021).

Vacinas aprovadas contra COVID-19 contêm óxido de grafeno e podem tornar a pessoa magnetizada (Fato ou Fake, 2021).

Imunizados com vacinas mRNA não poderão viajar de avião por risco de coágulo sanguíneo (Fato ou Fake, 2021).

Proteína spike contida nas vacinas é tóxica e patogênica (Fato ou Fake, 2021).

Prêmio Nobel Luc Montagnier disse que todos os vacinados morrerão em 2 anos (Farsas.com, 2021).

A nova vacina contra o coronavírus é feita com fetos humanos abortados (Farsas.com, 2021).

Japoneses descobrem que nanopartículas mRNA da vacina ficam no corpo das pessoas e podem causar infertilidade (Boatos.org, 2021).

DISCUSSÃO

Dos materiais encontrados, emergiram duas categorias temáticas: “Os influenciadores e a desinformação no cenário da pandemia de gripe espanhola no Brasil (de 1918 a 1920)” e “Os influenciadores e a desinformação na pandemia de Covid-19 no Brasil (2020-2021)”.

Os influenciadores e a desinformação no cenário da pandemia de gripe espanhola no Brasil (de 1918 a 1920)

A gripe espanhola foi considerada a maior epidemia do mundo entre 1918 e 1920 devido às infecções respiratórias graves que ocasionaram mais de 20 milhões de óbitos, atingindo cerca de 90% do planeta8.

No Brasil, a gripe chegou por volta de setembro de 1918. Em princípio, a população não demonstrou grandes preocupações com sua chegada, não acreditando que ela poderia se propagar no Brasil devido à distância do território europeu9. Todavia, quando aqui chegou, foi vista como um alarde desnecessário para o que seria uma simples doença de limpa-velhos, como pensava o então diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl10),(11.

Segundo os resultados, os influenciadores da desinformação eram aqueles cujos discursos tinham maior legitimidade perante a população brasileira. Eram eles: a imprensa (jornais diários e semanários), os governantes, os médicos, os farmacêuticos e até mesmo os responsáveis pelos serviços de saúde pública. É interessante destacar que as notícias usavam da legitimação do discurso médico para vender produtos milagrosos para a prevenção, cura e reabilitação da gripe.

Nesse cenário de desinformação, a negação da letalidade da doença fez com que houvesse um atraso das autoridades brasileiras em adotar medidas de precaução sobre a doença, tal qual o distanciamento social, o que contribuiu muito para que a população adoecesse.

Não há dúvida de que esse era um cenário de informações precárias, e os conhecimentos dos trabalhadores da saúde não eram suficientes para enfrentar a pandemia, uma vez que não compreendiam o agente causador, mas foi notório, a partir dos registros, que uma grande epidemia de desinformação se instalou no país por meio daqueles que detinham o poder da comunicação e davam conselhos ao povo12),(13.

Nessa direção, os registros noticiosos coletados evidenciaram que o campo da saúde foi um território de disputa farmacêutica pelo tratamento da gripe espanhola. Esses agentes faziam propagandas de medicações, de águas purgativas, de desinfetantes, de bebidas alcoólicas, de fortificantes, de óleos e até mesmo de bombons que, segundo eles, eram eficientes na cura da gripe14. Cabe ressaltar que em 1918 não existiam máscaras cirúrgicas e nem álcool gel, então a corrida às farmácias se dava em busca desses milagres, e isso encorajado pelas propagandas nos jornais e nas revistas da época.

Ao observarmos as notícias veiculadas durante a gripe espanhola, a pergunta que cabe é se esses anúncios não foram o princípio daquilo que chamamos hoje de fake news, já que não existia a garantia de cura da gripe que essas propagandas anunciavam. Destarte, ainda que não houvesse comprovação de valor terapêutico, os jornais da época divulgavam insistentemente receitas milagrosas muitas vezes vindas do próprio serviço sanitário e que assim iam passando de boca em boca12.

Os influenciadores da desinformação da época lograram êxito, pois a população em geral estava na condição de espectadora de notícias, não havendo recursos para verificar a veracidade dessas informações. A desinformação gerou, portanto, ganhos econômicos para uma minoria e prejuízos indeléveis para grande parcela da sociedade, como afirma Orsi15 “cada vez que uma terapia inútil é promovida no noticiário, um charlatão enriquece e um cidadão é lesado”.

Os influenciadores e a desinformação na pandemia de Covid-19 no Brasil (2020-2021)

A pandemia de Covid-19 foi decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em11de março de 2020, e, no Brasil, o primeiro registro da doença aconteceu em 26 de fevereiro de 202016. Trata-se de uma doença respiratória grave causada pelosevere acute respiratory syndrome coronavirus 2(Sars-CoV-2) (17. Até fevereiro de 2022, foram registrados cerca de 388 milhões de casos e mais de cinco milhões de óbitos.

Com a gravidade da pandemia, veio uma gama de desinformações e notícias falsas, podendo ser consideradas como uma infodemia18. Assim, temos visto uma legião de influenciadores de notícias falsas que minimizam a pandemia reduzindo-a a uma gripezinha, estimulando a população a abandonar as medidas orientadas pelo setor de saúde.

Os influenciadores da desinformação em tempos de Covid-19 têm se apresentado como uma associação entre agentes e plataformas. Os agentes têm sido governos, políticos, empresas, jornalistas, youtubers, blogueiros, social boats, grupos religiosos conservadores, artistas, cientistas e até mesmo trabalhadores da saúde. As plataformas distribuidoras de desinformação têm sido a Amazon, a Apple, o Google, o Facebook, os blogs, o Pinterest, o YouTube, o WhatsApp, o Twitter, o Instagram, o Telegram e o Tumblr, sem deixar de mencionar os veículos convencionais como televisão, rádio e parte da imprensa4.

Nesse quadro, cabe avaliar que, entre os agentes influenciadores supracitados, não é incomum na pandemia de Covid-19 observarmos médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. A título de exemplo, destaca-se um grupo denominado Médicos pela Vida que circula nas mídias sociais com um manifesto defendendo o tratamento precoce da doença a partir do uso de medicamentos como hidroxicloroquina, ivermectina, bromexina, azitromicina, zinco, vitamina D, anticoagulantes, entre outros comprovadamente ineficazes19. Isso tem confundido muito a população, que vê nesses atores de jaleco uma fonte de credibilidade na informação.

Segundo um estudo, a desinformação produzida pelos influenciadores se nutre de dois públicos: aqueles que sabem da falsificação e não se importam por questões ideológicas, e aqueles que ingenuamente se identificam com a notícia4. Essa distorção informacional é potencializada quando esses influenciadores, além de se intitularem médicos, utilizam ainda referências de importantes instituições, tais como Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de São Paulo (USP), Cruz Vermelha, a revista internacional Nature e outros, conferindo à população a sensação de serem científicas e verdadeiras.

Tudo isso somado à omissão deliberada de informações e politização do Ministério da Saúde, o que favorece a disseminação de notícias falsas e predispõe a mensagens confusas no Brasil20),(21. A título de exemplo, em janeiro de 2022, a Nota Técnica nº 2 da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde (SCTIE-MS) sugeriu a eficiência da hidroxicloroquina contra a Covid-19 e descredibilizou as vacinas, opondo-se à orientação científica da OMS e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Diante disso, a população tem ficado confusa, já que a informação dada pelas autoridades no curso da pandemia não foi e não tem sido clara, favorecendo assim a ação dos influenciadores da desinformação elevando muitas pessoas à morte. Nessa direção, o artigo publicado na The Lancet em 2021 diz que mais pessoas teriam sido poupadas da infecção se elas tivessem sido mais bem informadas22.

Todo esse investimento na lógica da desinformação tem fragilizado o setor de saúde. Os resultados mostraram que, com o advento da vacina contra a Covid-19, novas epidemias de desinformação surgiram23. Pesquisadores e autoridades de saúde têm destacado que os ataques às vacinas comprometem, em certa medida, os esforços para imunizar a população e conter o avanço da pandemia. Assim, a hesitação aliada à desinformação intencional quanto à vacina apresenta obstáculos substanciais para alcançar a imunidade da população brasileira, reverberando em novas variantes e novos picos da doença, como foi o caso das variantes Delta e Ômicron.

Ao observarmos os fatos noticiosos no curso da pandemia de Covid-19, podemos afirmar que esse é um problema de que a saúde precisa cuidar, pois a desinformação reduz a confiança nos profissionais, nas instituições e na ciência. Outro ponto que precisa ser considerado é que, se a desinformação é maior e mais expressiva que a informação verdadeira como afirmam Hezrom et al.2, os trabalhadores da saúde e as instituições de algum modo estão falhando, e isso é um problema para a formação profissional no sentido de se modernizar para atender às novas demandas do ecossistema midiático.

Contudo, diante dos resultados, podemos verificar que o campo da saúde é um excelente meio de cultura para os influenciadores de notícias falsas, e isso demonstra a necessidade de fortalecimento dos processos educativos24.

Nessa direção, a formação deve ser vista como um pilar central de embasamento para as ações de educação em saúde e como resposta à crise informacional do contemporâneo, uma vez que coloca o problema em análise e ajuda os trabalhadores a se posicionar contra a desinformação na saúde.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao recompormos a história da desinformação na gripe espanhola em comparação com o que estamos vivendo na pandemia de Covid-19, notamos muitas semelhanças no modus operandi dos influenciadores que podem ser objetos de análise e reflexão na formação dos trabalhadores, como informações inverídicas com aparência de verdade, veiculação de manchetes consideradas explosivas e conspiratórias, promessas de procedimentos milagrosos e obtenção de vantagens em detrimento de prejuízo alheio.

Quando se analisou o fenômeno da desinformação em saúde durante a pandemia de gripe espanhola, foi possível perceber que os influenciadores eram aqueles que detinham o poder da comunicação à época, tendo como destaque os jornais diários e semanais, os médicos e farmacêuticos, os governantes, os representantes do serviço sanitário e a população que ia transmitindo os boatos de boca em boca.

Já a análise da infodemia no curso da Covid-19 mostrou que os influenciadores da desinformação têm sido governos, políticos, empresas, jornalistas, youtubers, blogueiros, social boats, grupos religiosos conservadores, artistas, cientistas e trabalhadores da saúde.

Tudo isso tem impactado sobremaneira o setor saúde e enfraquecido os discursos profissionais legitimados pela ciência. Diante desse problema, o estudo faz uma aposta na formação em saúde, no sentido de ajudar os trabalhadores a compreender o fenômeno e atuar como influenciadores de informação baseada em evidências científicas.

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2Avaliado pelo processo de double blind review.

FINANCIAMENTO Declaramos não haver financiamento.

Recebido: 14 de Fevereiro de 2022; Aceito: 21 de Abril de 2022

eluanaoft@yahoo.com.br robertamcrodrigues@gmail.com kakzinha_2006@hotmail.com teixeira.marcelarj@gmail.com juliana.taveira@outlook.com liliansline@hotmail.com

Editora-chefe: Rosiane Viana Zuza Diniz. Editor associado: Fernando Antonio de Almeida.

CONTRIBUIÇÃO DAS AUTORAS

Eluana Borges Leitão de Figueiredo participou da concepção e do desenho da pesquisa, da obtenção, análise e interpretação dos dados, e da redação do manuscrito. Roberta Mariana da Costa Rodrigues, Karina Castro Teixeira Pontes, Marcela Teixeira de Oliveira, Juliana Taveira Oliveirae Lilian de Souza participaram da obtenção, análise e interpretação dos dados, e da redação do manuscrito

CONFLITO DE INTERESSES

Declaramos não haver conflito de interesses.

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