INTRODUÇÃO
O ensino da medicina, até recentemente adotado por grande parte de escolas no Brasil, era direcionado à doença e não ao doente. Vem sofrendo modificações curriculares ao longo dos anos, na tentativa de tornar-se mais crítico, reflexivo e com maior responsabilidade social, além de contemplar a área das ciências humanas1),(2. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de Medicina, publicadas inicialmente em 2001, são indutoras de tais mudanças3. As DCN de 2014 podem ser consideradas, em alguns de seus tópicos, como uma ampliação das anteriores, mas dela emergiram, especialmente no âmbito da interdisciplinaridade4),(5. No modelo proposto, entende-se que a sociedade necessita de médicos capazes de promover a saúde, prevenir as doenças mais comuns, ter uma alta capacidade resolutiva e realizar o seguimento terapêutico apropriadamente. Há, portanto, o incentivo à formação de médicos generalistas6.
Ainda, as DCN embasam o desenvolvimento de competências que deverão favorecer a futura atuação do médico, servindo como um guia, tanto por representarem um instrumento oficial quanto por orientarem a construção do Projeto Político-Pedagógico do Curso (PPC). O PPC, por sua vez, deve subsidiar as ações educativas, traduzindo a intencionalidade da instituição na formação do profissional. Portanto, se as DCN representam a base, o PPC simboliza o compromisso com a direção futura desse profissional7.
Por fim, somente com a verificação da implementação e do desenvolvimento do programa contido no PPC é que se pode afirmar que a direção desejada foi alcançada. Ou seja, a avaliação institucional, interna e externa, é a garantia de que o processo está sendo conduzido adequadamente. Uma importante fonte para obtenção das informações sobre essas questões se refere aos egressos, uma vez que têm a possibilidade de comparar duas vivências: a profissional, atual, e a acadêmica, pregressa8),(9. O acompanhamento do egresso é uma estratégia institucional importante para obtenção de informações acerca da qualidade da formação discente e de sua adequação às novas exigências da sociedade e do mercado de trabalho. Ou seja, é um processo que abrange a avaliação do programa institucional oferecido ao aluno, analisando a mudança pela qual transitou, bem como seu julgamento10)-(13.
Assim, verificar se o perfil do médico que se espera formar está sendo alcançado é dever institucional, apesar das dificuldades inerentes a esse processo. Estudos nacionais e internacionais têm se debruçado sobre o tema na busca de melhoria e adaptação às demandas da formação profissional, vários relatando os benefícios e as dificuldades dessa aproximação com os egressos10),(11),(14)-(21. Nos estudos em que esse tipo de abordagem é mais sistematizado e constante, as informações são mais acuradas e mostram com maior clareza a importância do tema, obtendo maior taxa de respostas, quando utilizam questionários e dados mais consistentes19),(20.
O curso de Medicina do Centro Universitário de Votuporanga (Unifev), aprovado em 2012, teve a primeira turma graduada em 2018. O PPC foi delineado segundo as DCN de 2001, vigentes à época e utilizadas em sua totalidade como norteadora do processo de criação, justamente por serem consideradas como um marco legal para o desenvolvimento curricular. O PPC emprega metodologias ativas, entre elas a aprendizagem baseada em problemas.
No Unifev, a Comissão Própria de Avaliação realiza o acompanhamento dos egressos com o apoio do setor de Comunicação e Marketing e pelo Núcleo do Egresso. Os objetivos são fortalecer os laços com seus ex-alunos e propor ações capazes de consolidar o relacionamento, identificar pontos críticos para manutenção e melhoria da qualidade institucional, detectar fragilidades para inserção no mercado de trabalho, como e quais competências foram adquiridas na formação e são mobilizadas na sua vida profissional, contribuindo no planejamento, no desenvolvimento e na melhoria do processo ensino-aprendizagem22.
O presente estudo foi proposto para analisar o perfil profissional, a trajetória e a adaptação ao mercado de trabalho do médico formado pelo Unifev, além das fragilidades e fortalezas da matriz pedagógica, a partir das percepções dos egressos.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal, descritivo e qualiquantitativo realizado com egressos do curso de Medicina do Unifev dos anos de 2018 e 2019 (primeira e segunda turmas). Houve o apoio e a aprovação da direção da instituição, da coordenação, do Núcleo Docente Estruturante e do Comitê de Ética em Pesquisa do Unifev (CAAE nº 33329120.2.0000.0078).
Foi utilizado um questionário semiestruturado contendo 80 questões (21 delas abertas), distribuídas em blocos sobre dados pessoais, informações profissionais e acadêmicas, complementação da formação, implicações da formação acadêmica na vida profissional e opiniões sobre integração entre as disciplinas das áreas básicas (ciclo básico, dois primeiros anos) e clínicas (ciclo clínico, dois anos seguintes). As perguntas abertas se referiram às justificativas para respostas obtidas nas escolhas das questões fechadas, estando distribuídas ao longo do questionário.
O questionário foi aplicado previamente em estudo-piloto com egressos de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), campus Sorocaba, bem como nos cursos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com adaptações específicas ao curso do Unifev16),(17.
Preparado na plataforma Google Forms, o questionário gerou um link enviado para os participantes da pesquisa pelo WhatsApp. Os dados dos egressos (nome, telefone e endereço eletrônico) foram obtidos na coordenação do curso e nas comissões de formatura dos anos supracitados, que se constituíram como pessoas-chave do estudo.
Antes do início do questionário, apresentou-se ao participante um texto de sensibilização, que explicava o que seria abordado na pesquisa e sua finalidade. Ao concordar em participar, o participante assinou o TCLE que foi enviado à pesquisadora responsável. Os dados estão protegidos pela pesquisadora responsável, com backup, por cinco anos, como preconiza a Lei Geral de Proteção de Dados23.
A coleta de dados aconteceu em outubro de 2020. Os que não responderam após a primeira abordagem receberam mensagens (e-mail, via WhatsApp e outras redes sociais), num prazo de 15 dias, na tentativa de aumentar a participação na pesquisa.
As frequências das variáveis estudadas na amostra foram analisadas por estatística descritiva e inferencial. Utilizaram-se os testes de qui-quadrado a 5% de significância e o rô de Spearman (rs para as associações). Para análise de postos de trabalho e faixa salarial, transformaram-se as variáveis em quantitativas, e realizaram-se o teste de normalidade a 5% de significância e posterior análise para variáveis não paramétricas.
As respostas às questões abertas foram submetidas à análise de conteúdo, e, após leitura cuidadosa, realizou-se o agrupamento em categorias, obtidas por semelhança, o que gerou a tabela de frequências absoluta e relativa (Tabelas 1 e 2)24.
RESULTADOS
O total de graduados nas turmas de 2018 e 2019 foi de 114. Oitenta egressos (70,2%) responderam ao questionário, sendo 57 (71,2%) mulheres e 23 (28,8%) homens. As mulheres foram a maioria das duas turmas (59,6% e 75,4%)
Os locais em que 95% dos egressos exercem a profissão atualmente se restringem ao estado de São Paulo. Todos os 80 exercem a medicina, e 74 (92,5%) apontam ser essa sua única fonte de renda. No primeiro ano após a conclusão do curso, os respondentes ocupavam 282 postos de trabalho, dos quais 117 (41,5%) correspondiam a plantões em urgência/emergência e 52 (18,4%) à atenção básica. O total de 70 (87,5%) egressos atuava na atenção básica e/ou em serviços de urgência/emergência no ano seguinte ao término da graduação.
Durante o levantamento, 23 (28,7%) dos participantes trabalhavam em três tipos de serviços, 20 (25,0%) em dois e 19 (23,8%) em um. Os demais ocupavam de quatro a seis postos. A média de postos de serviço ocupados resultou em 2,6 ± 1,2 (média ± desvio padrão).
Houve uma correlação significante, linear e inversamente proporcional entre os números de serviços e renda mensal (rs = -0,31; p = 0,006). Para 31,4% dos indivíduos avaliados, conforme aumentou o número de tipos de atuação, a renda diminuiu. Não houve correlação entre o tipo da fonte pagadora e a renda mensal (rs = -0,04; p = 0,7).
Quanto à faixa de renda mensal, dez (13,5%) respondentes recebiam acima de 20 salários mínimos; 31 (41,9 %), de dez a 20; 18 (24,3%), de cinco a dez; e 15 (20,2%) até cinco. Seis participantes (7,5%) não responderam a essa questão.
Sobre o enfrentamento de dificuldades na contratação como médico, 73 (91,3%) negaram e sete (8,7%) as relataram de forma que permitiram a seguinte categorização: mercado com grande número de médicos (n = 2), necessidade de indicação (n = 2), dificuldade em entrar em listas de plantões, necessitando de contatos para indicação (n = 2) e não cumprimento da exigência solicitada (título de residência; n = 1).
Na execução da prática profissional, 48 (60,0%) negaram dificuldades, enquanto 32 (40,0%) as tiveram. Dentre os 32, 20 (62,5%) apontaram insegurança, sete (22,0%) relataram falhas na infraestrutura do local de trabalho, e dois (6,2%) sentiam-se desvalorizados como médicos. Cada um dos outros três referiu dificuldade em conciliar teoria e prática, ansiedade/estresse e problemas com a política e equipe de trabalho.
A ocorrência de momentos de tensão emocional/estresse provocados por condições físicas, emocionais e/ou psicológicas desgastantes foi afirmada por 64 (80,0%) dos respondentes. Trinta e um (38,8%) passaram por esses momentos na prática profissional, 21 (26,3%) na residência e 14 (17,5%) na graduação. Dois egressos relataram que esses momentos surgiram em duas diferentes ocasiões. Não houve associação entre sexo e tais acontecimentos. Quando solicitados para o detalhamento dessas ocorrências, 47 (73,4% dos que responderam afirmativamente) o fizeram, e os demais 17 (26,6%) não responderam. A Tabela 1, criada a partir das respostas, evidencia as situações mais frequentes.
Tabela 1 Categorização das respostas obtidas como explicação aos momentos de tensão emocional ou estresse.
| Categorias de respostas | Frequência absoluta | Frequência relativa |
|---|---|---|
| Sobrecarga de trabalho | 28 | 35,0 |
| Ansiedade/estresse | 12 | 15,0 |
| Dificuldade de conciliar os estudos | 3 | 3,8 |
| Pressão por parte dos chefes | 2 | 2,5 |
| Insegurança no trabalho | 2 | 2,6 |
| Total | 47 | 73,4 |
Fonte: Elaborada pelas autoras.
Cinquenta e três (66,2%) egressos não estavam cursando residência, e os programas referidos pelos demais 27 foram: clínica médica (n = 6), ginecologia e obstetrícia (n = 6), ortopedia e traumatologia (n = 3), pediatria (n = 3), cirurgia (n = 3), anestesiologia (n = 2), radiologia (n = 2), medicina da família e psiquiatria (um cada).
Os motivos apontados para a escolha da especialidade foram: afinidade com a área (n = 23; 28,8%), abrangência e a possibilidade da subespecialização (n = 12; 15,0%). Quarenta e cinco (56,3%) egressos não responderam.
Da amostra avaliada, 67 (83,8%) tiveram algum tipo de financiamento estudantil, 65 por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e dois pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). Obtiveram-se 63 respostas sobre a interferência da necessidade de pagar o financiamento na trajetória após a conclusão do curso: 36 (57,1%) negaram, 27 (42,9%) afirmaram. Para o cruzamento dessas respostas com a faixa salarial mensal, utilizaram-se os dados de 58 respondentes, excluindo aqueles cujos dados salariais não foram fornecidos. Dentre os 36 que negaram, cinco (13,9%) recebem mais que 20 salários mínimos; 14 (38,9%), de dez a 20; nove (25,0%), de cinco a dez; e oito (22,2%), até cinco. Dentre os 22 que afirmaram a interferência, três (13,6%) recebem mais que 20 salários mínimos; nove (40,9%), de dez a 20; seis (27,3%), de cinco a dez; e quatro, até cinco. Para os que negaram ou afirmaram interferência do pagamento, bem como na comparação entre as faixas de renda do grupo de respondentes como um todo e aqueles que tiveram financiamento, as faixas de renda foram distribuídas de modo semelhante, correspondendo a cerca de metade com ganhos de dez ou mais salários mínimos e outra metade com menos que dez. Não houve associação significante entre a necessidade de pagar o financiamento com a renda mensal atual (p = 0,897).
Dentre os 53 respondentes que não estão na residência, 42 (79,2%) tiveram financiamento e 11 (20,8%) não tiveram. Dentre os residentes (n = 27), 20 (74,1%), precisaram de apoio financeiro durante o curso. Não houve correlação (rs = 2,17; p = 0,140) entre ser residente e ter tido financiamento durante a graduação.
Não houve associação entre cursar residência e a interferência do pagamento do financiamento na sua trajetória após conclusão do curso (p = 0,7). Em relação à intenção de cursar residência após pagamento do financiamento, 62 (77,5%) responderam afirmativamente.
Os egressos avaliaram aspectos do currículo quanto à importância de conteúdos e atividades de diversas áreas, bem como sobre a integração curricular (Tabela 2).
Tabela 2 Respostas e categorização das justificativas quanto à importância de conteúdos e atividades das diversas áreas na formação ou na vida profissional dos respondentes e sua integração curricular.
| IMPORTÂNCIA DOS CONTEÚDOS E DAS ATIVIDADES NA FORMAÇÃO | |||
|---|---|---|---|
| Básicas | MUITO IMPORTANTE OU IMPORTANTE | POUCO IMPORTANTE | NADA IMPORTANTE |
| 79 (98,7%) | 1 (1,3%) | ||
| Justificativas (77) | • Base para todos os conhecimentos (66; 83,5%); | • Temas sem utilidade na prática diária. | |
| • Relevância na interligação do raciocínio (9; 11,4%); | |||
| • Entendimento da evolução natural das doenças (1; 1,3%). | |||
| Grandes áreas clínicas | 80 (100%) | ||
| Justificativas (76) | • Base de uma boa medicina (34; 42,5%); | ||
| • Prática da clínica (22; 27,5%); | |||
| • Necessário à formação médica (20; 25,0%). | |||
| Saúde coletiva | SIM | PARCIALMENTE | NÃO |
| 74 (92,5%) | 6 (7,5%) | ||
| ADEQUAÇÃO DOS CONTEÚDOS E DAS ATIVIDADES PARA A VIDA PROFISSIONAL | |||
| Justificativas (75) | • Condizem com as necessidades da prática médica (63; 85,1%); | • Falta didática (1; 16,7%); | |
| • Abrangem o cotidiano (8; 10,8%); | • Relevância para a prova da residência (1; 16,7%) | ||
| • Visão global sobre a saúde e compreensão do SUS (2; 2,7%). | |||
| Ciências humanas | 73 (91,3%) | 7 (8,7%) | |
| Justificativas (66) | • Conteúdos importantes (42; 57,5%); | • Conteúdos menos importantes que os demais (3; 42,1%); | |
| • Teorias essenciais para a vida profissional (16; 21,9%); | • Sem entendimento da utilidade (2; 28,6%); | ||
| • Pouco tempo, porém bem utilizado (1; 1,4%) | • Falta de conhecimento (1; 14,2%); | ||
| • Não se lembra do que foi abordado (1; 14,2%). | |||
| INTEGRAÇÃO DE CONTEÚDOS E ATIVIDADES DAS ÁREAS (BÁSICAS, CLÍNICAS, SAÚDE COLETIVA, CIÊNCIAS HUMANAS) | |||
| TOTAL | PARCIAL | NÃO INTEGRADO | |
| 56 (70,9%) | 23 (29,1%) | 1 (1,3%) | |
| Justificativas (69) | • Nas atividades teóricas e práticas (55; 98,2%); | • Ainda precisa melhorar (5; 21,7%); | |
| • Várias revisitas ao mesmo tema (6; 10,7%). | • Falta de aplicação prática (2; 8,7%); | ||
| • Desorganização no início do curso (1; 4,3%). | |||
Fonte: Elaborada pelas autoras.
As respostas sobre o conhecimento do PPC e das DCN estão explicitadas na Tabela 3. Setenta e um (88,7%) responderam que conheciam o PPC e 80 (100%) as DCN, em níveis variáveis.
Tabela 3 Autoavaliação do nível do conhecimento das DCN e do PPC pelos respondentes.
| DCN | PPC | |
|---|---|---|
| Totalmente | 14 (17,5%) | 9 (11,2%) |
| A maior parte | 39 (48,8%) | 34 (42,5%) |
| Razoavelmente | 21 (26,2%) | 24 (30,0%) |
| Superficialmente | 6 (7,5%) | 4 (5,0%) |
| Não conheci | - | 9 (11,2%) |
Fonte: Elaborada pelas autoras.
Quanto ao tempo ideal de duração do internato, 46 (57,5%) relataram que dois anos é suficiente, por ser o tempo ideal para atingir o mínimo de vivência na prática, preparar os alunos para o mercado de trabalho, ter contato com as especialidades, observar a condução dos casos e despertar confiança e autonomia. Trinta e dois (40,0%) gostariam da ampliação para três anos, pois consideram como o período mais importante do curso e, assim, teriam mais tempo para atuar sob supervisão antes da vida profissional. Dois (2,5%) optaram pela redução para um ano, sem justificativa.
Os ex-alunos autoavaliaram seu preparo para a atuação profissional nas diversas áreas. Somando as percepções de bom e ótimo, os seguintes percentuais se apresentam: clínica médica (59%); obstetrícia (55%); saúde mental (54%); ginecologia (50%); saúde coletiva (49%); urgências (40%); pediatria (34%).
A avaliação da importância da graduação no Unifev para a formação médica e/ou trajetória profissional foi respondida por 77 (96,3%) egressos. Sessenta (78%) apontaram que foi essencial, excelente, importante (muito ou extremamente); para 17 (22,1%) levou a uma boa formação, com bons professores e preceptores. Todos os 80 (100%) participantes afirmaram que o curso contribuiu para o desenvolvimento da capacidade de trabalhar em equipe.
A autoavaliação quanto ao preparo para atuar no mercado de trabalho, em comparação aos egressos de outros cursos de Medicina, mostrou que 46 (57,5%) sentem-se mais preparados, 30 (37,5%) não veem diferença e quatro (5,0%) se acham menos preparados.
Caso pudessem voltar ao tempo da graduação para fazer algo que melhorasse seu processo de aprendizagem, 46 (57,5%) apontaram que estudariam mais nos primeiros anos, 14 (17,5%) nada mudariam, dez (12,5%) investiriam mais na produção de trabalhos científicos, seis (7,5%) aproveitariam melhor o internato e um (1,3%) faria mais atividades complementares; três não responderam.
Os egressos avaliaram o curso oferecido com metodologias ativas de ensino-aprendizagem por uma pergunta aberta, obtendo-se 77 respostas. Um respondente classificou o curso como razoável. Os demais 76 (98,0%) o consideraram como ótimo, excelente, muito bom, eficaz. Sessenta e oito (85,0%) relataram que inicialmente a metodologia ativa causou estranhamento, o que não ocorreu com nove (11,3%). Três (3,8%) não responderam.
O cursinho preparatório para ingresso na residência foi frequentado por 58 (72,5%) respondentes. Desses, 32 (55,2%) o fizeram a partir do quinto ano, 23 (39,7%) no sexto ano, um (1,7%) desde o quarto ano e dois (2,5%) desde o primeiro ano da graduação. Após a formatura, 56 (70,0%) frequentaram o cursinho.
DISCUSSÃO
Este trabalho avaliou o perfil dos egressos de Medicina do Unifev de modo pioneiro, com apenas duas turmas de egressos de um jovem curso, algo incomum na literatura. O estudo trouxe uma importante taxa de retorno das respostas (70,2%), relevante quando comparado com outros trabalhos usando questionários16),(25)-(27. O fato de serem recém-egressos pode ter contribuído para esse percentual, pois a ligação com a instituição ainda é recente. Além disso, o questionário foi desenvolvido para obter informações objetivamente, com rápido preenchimento, valorizando dados quantitativos, justificados na sua maioria em respostas abertas, tratadas qualitativamente.
Houve maior número de mulheres nas duas turmas. Estudos sociodemográficos de egressos de Medicina mostram que entram no mercado mais médicas, concordando com a demografia médica de 2020, que descreve esse fato como “feminização da medicina”28.
Os grandes centros ainda são os favoritos para atuação profissional, pois médicos mais jovens preferem as grandes cidades, próximas dos locais de conclusão do curso, conforme apontado em outros estudos16),(17),(28) predating the national guidelines. This study analyzed the professional trajectory and the new curriculum’s impact. Graduates from 1991 to 2005 were grouped in the pre-curricular renovation group, and those from 2006 to 2012 in the post-group. A semi-structured survey was sent through e-mail and social media. There were 213 (15.8%. Os dados atualizados da demografia médica mostram que no Brasil há uma média de 3,85 médicos para cada mil habitantes nos municípios com mais de 250 mil habitantes, relação maior que a de outros países, como Japão (2,45) e Canadá (2,75), e semelhante à da Austrália (3,81). Ou seja, a dificuldade de fixação dos profissionais nas pequenas cidades ainda permanece como desafio29.
No primeiro ano após a conclusão do curso, a maioria dos egressos trabalhava na atenção básica e/ou nos plantões em urgência e emergência. Isso mostra a importância da formação adequada dos alunos para tais conteúdos e atividades durante a graduação, reforçada pela sensação de insegurança que muitos dos respondentes apontaram como dificultadora na sua prática profissional. Ainda que a opção pelo trabalho na atenção básica ou em serviços de urgência possa ser considerada temporária até o ingresso num programa de residência médica ou como complementação da renda, a formação qualificada deve ser perseguida pela instituição de ensino, conforme preconizado nas DCN.
Um estudo com egressos apontou que pelo menos um terço da turma de formandos em 2011 atuava em plantões de urgência/emergência, poucos meses após o término da graduação, independentemente se cursavam ou não residência médica, ressaltando a necessidade da construção de um programa de ensino sobre as urgências, desde os primeiros anos da graduação29)-(31. Isso, possivelmente, minimizaria a sensação de despreparo para atuação na área de urgências, referida por 40% dos respondentes do presente estudo. A insegurança é relatada em outros estudos com recém-graduados, e isso pode contribuir para a adaptação à realidade do mundo do trabalho, para a eliminação de falsas idealizações e para a opção pela continuidade da formação nos programas de residência33)-(35.
Sabe-se que 71,9 dos médicos com idade inferior a 25 anos realizam plantões, e os plantonistas são os que têm maior carga horária semanal, 80,5 horas em média. Ou seja, ao lado do preparo técnico durante a graduação, também deve ser enfatizada e trabalhada a questão da proteção da qualidade de vida do médico durante sua carreira, já que ambos os fatores geram consequências na assistência prestada e no seu profissionalismo28)-(30. Soma-se a isso a questão da rotina desgastante e da precariedade das condições de trabalho, com inadequação e escassez de equipamentos, aspectos referidos na revisão integrativa de Amoroso et al.31. Ou seja, os riscos de adoecimento pessoal e de prejuízo à população assistida são potencializados nessa junção de fatores36.
A faixa de renda mensal de 55,4% dos participantes foi maior que dez salários mínimos (acima de R$ 10.450,00 ou U$ 1.870 em 2020). Dados levantados em 1996 com egressos da Universidade Estadual de Londrina (UEL) mostraram que 63% deles tinham renda acima de R$ 4.000,0015, equivalente a 35,6 salários mínimos da época ou U$ 3.870. Esse grupo havia se formado entre dois e 24 anos antes, enquanto o do Unifev é mais jovem, o que pode responder à diferença encontrada. Em média, o salário de recém-formados em Direito está na faixa de R$ 3.900,00 a R$ 6.200,00, e, em Odontologia, entre R$ 2.000,00 e R$ 6.000,0037),(38.
Ou seja, a remuneração continua a ser um dos atrativos da profissão médica apesar do dado de 2020 de que o rendimento mensal declarado dos médicos brasileiros foi de R$ 30,1 mil, menor valor de uma série histórica (em 2012 era de R$ 34,1 mil)28. Os respondentes deste estudo são recém-ingressantes no mercado, que não referiram dificuldades para contratação. No entanto, para auferir tal renda, os egressos ocupam, em média, três postos de trabalho. A relação inversa entre o número de postos ocupados e a renda mensal faz supor que a fragmentação motive o trabalho em serviços com menor remuneração e, possivelmente, com menor qualidade ou seja consequente a isso, dado importante a ser analisado e discutido com os alunos em seu processo de formação. Os egressos, possivelmente, têm pressa em adquirir uma reserva financeira e mudar de padrão econômico, e, por isso, submetem-se aos trabalhos que surgem, talvez sem muito refletir sobre sua qualidade de vida. As características de executarem múltiplas tarefas e de buscarem satisfazer suas necessidades rapidamente são peculiares à geração Y, da qual os respondentes fazem parte29),(39.
Uma das políticas públicas para facilitar o acesso ao ensino superior é o financiamento estudantil, subsídio financeiro para estudantes matriculados em instituições privadas40. Grande parte (83,8%) dos egressos recebeu esse auxílio, e, hoje, cerca de metade deles tem uma renda mensal de dez ou mais salários mínimos e não referiram prejuízos na sua trajetória após a formatura pelo fato de precisarem pagar o crédito educativo. Por sua vez, cerca de 60% dos alunos que não estão cursando residência (n = 53) receberam financiamentos, e, possivelmente, muitos deles ainda pretendam fazer isso. Fica a impressão de que a residência talvez não pareça ser a melhor opção em curto prazo para os que precisam honrar com o pagamento da dívida, talvez pelo salário desestimulante, apesar da faixa de renda semelhante entre os que tiveram ou não financiamento.
Na prática da profissão, 40,0% referiram dificuldades, sendo a insegurança o maior motivo. Isso pode ter contribuído para os momentos de estresse vivenciados, além da carga de trabalho excessiva, ressaltando que sua ocorrência foi maior após a formatura, acometendo homens e mulheres igualmente41. É interessante notar que 17 (26%) dos que referiram momentos de estresse não os detalharam. Se isso se deveu a lembranças dolorosas ou simplesmente para maior agilidade no preenchimento do questionário, são possibilidades a que o presente estudo não permitiu responder. De toda forma, são pessoas que trazem diversos elementos de seu sofrimento. É imperativo que isso seja trabalhado durante a graduação, com planejamento institucional para redução de danos. Como descrito no estudo de Slavin et al.41, mudanças no currículo relacionadas ao conteúdo e à distribuição horária, além da promoção de experiências obrigatórias de resiliência e atenção plena, são importantes para a saúde mental dos estudantes de Medicina e foram associadas com diminuição dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse42. Tais mudanças podem ser um componente essencial para melhorar a saúde mental dos estudantes e devem ser consideradas nas modificações curriculares41)-(44.
A saúde mental do estudante é um assunto preocupante, apresentando números significativos no Brasil. Em uma metanálise, Pacheco et al.44 identificaram a prevalência de diferentes problemas de saúde mental, incluindo depressão (30,6%), transtornos mentais comuns (31,5%), burnout (13,1%), consumo excessivo de álcool (32,9%), má qualidade do sono (51,5%), sonolência diurna excessiva (46,1%), ansiedade (32,9%), muitos deles relacionados à falta de motivação e de apoio emocional, além da sobrecarga acadêmica45. Estudos internacionais também apontam na mesma direção, com prevalência de ansiedade de 33,8% entre 40.348 alunos e 37,2% de burnout, com exaustão emocional, prejuízo na realização pessoal e despersonalização. Considerando esses dados, nosso estudo mostrou números menores, uma vez que o questionário aplicado não foi específico para esse tema, e permanece a preocupação de que assunto tão relevante deva ser trabalhado desde o início da graduação46),(47.
A afinidade com a área e a possibilidade de subespecializações foram os motivos apontados para a escolha das especialidades. Como se trata de jovens médicos, as grandes áreas foram as mais citadas dentre os programas de residência. Diferentes aspectos interferem na decisão pela especialidade, como a influência de terceiros e a afinidade pela área. A renda esperada e o tempo livre são outros fatores relevantes na escolha, não citados pelos egressos deste estudo, fato possivelmente decorrente de ainda estarem em processo de decisão, já que cerca da metade dos participantes não respondeu a essa pergunta48),(49.
Os egressos mostraram discernimento e compreensão sobre a utilização de metodologias ativas durante o curso. Apesar do estranhamento inicial, houve a percepção da sua contribuição para a integração entre as áreas e para a capacidade de trabalhar em equipe. Os dados coletados não permitem maiores inferências, mas é descrito que as atividades em pequenos grupos favorecem o trabalho em equipe48)-(51. Além disso, a autoavaliação dos egressos apontando significativo conhecimento das DCN e do PPC deve ter contribuído para a superação das dificuldades no início do curso, momento em que o currículo é apresentado formalmente e as dúvidas sobre as metodologias são esclarecidas. Após isso, os tutores exercem papel importante no esclarecimento sobre as opções didáticas escolhidas e apresentadas no PPC e sua consonância com as DCN, favorecendo a compreensão dos objetivos, das metodologias e das exigências do curso.
Na autoavaliação do seu processo de aprendizagem, a maioria dos respondentes apontou que deveria ter estudado mais nos primeiros anos, dado interessante para ser apresentado e discutido com os atuais alunos.
O tempo de dois anos do internato mostrou ser suficiente para a maioria, mas uma parcela significativa (40%) gostaria da ampliação para três anos. Talvez maior tempo de internato resulte em redução da insegurança no exercício da profissão.
Quando avaliado o sentimento de preparo para a atuação profissional, percebe-se que a clínica médica está em primeiro lugar, a saúde coletiva em quinto e urgências em sexto. Esse resultado é preocupante quando confrontado com as respostas dos locais de trabalho ocupados desde o primeiro ano após a conclusão do curso. Portanto, cabe uma revisão no curso para propiciar que o trabalho na urgência e emergência traga mais segurança e qualidade na atuação, sem prejuízo da desejada formação generalista.
Durante a graduação, 72,5% dos avaliados frequentaram cursinho preparatório para o exame de residência e 70% após a graduação, dado esperado nos tempos atuais52. Embora as respostas obtidas a essa questão fechada não permitam uma análise aprofundada, pode-se inferir que o desejo de cursar residência médica é marcante para a maioria dos egressos, corroborando o dado de que 77,5% pretendem realizar a residência após pagamento do financiamento estudantil. Ou seja, o grande apelo pelos cursinhos ainda é a imagem de que facilitam a aprovação nas provas de admissão aos programas de residência médica.
Cursar a residência e a autoavaliação de preparo para atuação profissional em todas as áreas não representaram uma associação significante. Um ponto bastante positivo foi o entendimento dos egressos de que a graduação os preparou para assumir desafios. Isso está em consonância com o estudo que relata a adequação da estrutura pedagógica quando o egresso enfrenta situações complexas, confrontando as vivências durante o curso com as experiências do futuro exercício profissional15),(53.
Algumas associações foram realizadas no sentido de identificar se o financiamento durante a graduação alterou de alguma forma a trajetória profissional dos respondentes. A primeira tentou relacionar o fato de cursar residência e ter tido financiamento na graduação, o que não se confirmou. Ou seja, a necessidade de pagar o financiamento não condicionou o indivíduo a fazer ou não a residência, embora o interesse persista como apontado na resposta ao questionário. Isso vem ao encontro de recente questão tratada pelo Ministério da Saúde sobre extensão da carência do pagamento do Fies para médicos residentes53.
Outra associação avaliada foi ter tido financiamento durante a graduação e interferência de alguma maneira na trajetória após a conclusão do curso. Nessa análise, pode-se observar que houve divisão similar das opiniões. Entretanto, o desenho do presente estudo não permitiu identificar qual foi tal interferência e se causou algum prejuízo. De toda forma, cabe a inferência de que a preocupação com a remuneração para honrar os compromissos assumidos do crédito educativo possa ter contribuído no dilema da escolha entre cursar ou não a residência médica.
Uma possível fragilidade deste estudo diz respeito ao instrumento de avaliação. A busca por simplicidade, facilidade e rapidez no preenchimento pode ter limitado a coleta de dados que talvez fossem mais bem avaliados de forma discursiva. Entretanto, foi dada a liberdade de não responder às questões. Embora isso possa ter ocorrido por falha na clareza e/ou no entendimento das questões, as taxas de ausência de respostas não foram importantes, com exceção do tema sobre momentos de estresse e sobre a escolha da especialidade. Ainda, como o questionário é um apontamento de autopercepção, não se pode negar que tenha havido distorções em algumas respostas por influência da subjetividade.
Enfim, obtiveram-se contribuições significativas na avaliação do programa curricular oferecido aos alunos. No entanto, conforme apontado por Lacerda et al.54, um participante pode ficar satisfeito com o curso, mas não necessariamente transfere para o seu trabalho o que aprendeu. Dessa forma, entende-se como imprescindíveis a avaliação e o acompanhamento do egresso e múltiplas fontes de dados para gerar uma análise mais ampla.
CONCLUSÕES
Este estudo pode contribuir de forma significativa para a criação de um elo entre o perfil dos egressos, a instituição acadêmica e a elaboração de um PPC mais próximo das necessidades dos alunos e futuros profissionais, com maior atenção à formação nas áreas de urgência/emergência e pediatria. Outra contribuição foi revelar a necessária vigilância aos cuidados com a saúde mental dos estudantes, visando à sua melhoria. O curso foi bem avaliado pela maior parte dos respondentes, e o apoio do financiamento estudantil provou ser uma importante política, resultados consideráveis para a jovem instituição. Os gestores do curso têm aqui uma importante avaliação que permite orientá-los para manter os acertos e realizar os necessários ajustes. Dessa forma, espera-se que auxilie na concepção da cultura institucional de acompanhamento frequente da trajetória de seus egressos, repercutindo na avaliação do programa curricular.










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