INTRODUÇÃO
Os avanços tecnológicos da medicina desencadearam um aumento significativo do grau de especialização dos médicos1. Em 2011, o Conselho Federal de Medicina reconheceu 53 especialidades médicas e 52 áreas de atuação2. Apesar da existência de especialidades e subespecialidades diversas e da crescente procura dos médicos por especialização, existe escassez de profissionais em determinadas áreas, o que torna relevante compreender os fatores e as barreiras que influenciam os alunos de Medicina na difícil tomada de decisão referente à futura carreira1.
Tal cenário de desigualdade na distribuição de profissionais em cada área de atuação é influenciado pelas experiências positivas e negativas que os estudantes sofrem nos meios acadêmico e familiar, no que concerne à escolha de uma carreira que satisfaça as expectativas deles de vida, sem perder de vista as necessidades do sistema público de saúde3.
No contexto brasileiro, o Sistema Único de Saúde (SUS) necessita de médicos generalistas em níveis primário e secundário, a serem distribuídos por todo território. Para tanto, adotam-se ferramentas como o Programa “Mais Médicos” para atingir esse objetivo, sem dispensar a presença de especialistas para retaguarda terciária, obviamente concentrada nos maiores centros urbanos regionais3. Entretanto, apesar do grande aumento de médicos no país associado à crescente procura por especialização, não há uma quantidade adequada de programas de residência e estágios qualificados para a demanda de alunos em formação3)-(6.
A tomada da decisão referente à escolha da especialidade médica durante o curso de Medicina passa por inúmeras reflexões e é influenciada por diversos fatores, como características da personalidade, aptidões, necessidades financeiras, qualidade de vida desejada, experiências marcantes, interesse acadêmico, influência de docentes, envolvimento com o paciente, entre outros5. Esse tema tem sido extensamente abordado principalmente por faculdades norte-americanas e europeias desde a metade do século XX, porém é muito pouco discutido no Brasil7.
O presente estudo visou relacionar a escolha feita aos fatores que mais influenciaram os futuros médicos ou que os motivaram na tomada de decisão final, na suposição de contribuir para o estudo do tema e, associadamente, com o intuito de oferecer à gestão acadêmica subsídios para proporcionar maior orientação na gestão pedagógica aos discentes, de modo que eles possam compreender o mercado de trabalho e as necessidades dos sistemas do país.
MATERIAL E MÉTODO
O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) em 2 de outubro de 2023, com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n° 74855723.4.0000.5509, e aprovado em 16 de outubro de 2023. O presente estudo foi orientado pelo último autor como iniciação científica dos acadêmicos de Medicina.
Trata-se de um estudo observacional transversal com abordagem quantitativa. Os dados foram obtidos por meio de um questionário previamente elaborado pelos próprios autores, com um total de sete perguntas, sendo quatro fechadas e três abertas, no qual havia um tempo estimado de resposta de dez minutos.
A aplicação do questionário foi realizada pelos alunos da iniciação científica no dia 19 de outubro de 2023. Inicialmente, o questionário continha perguntas sobre dados demográficos, como gênero, faixa etária e situação financeira. Em uma segunda etapa, o respondente deveria assinalar a especialidade médica pretendida separada em grandes áreas (clínica médica, clínica cirúrgica, ginecologia e obstetrícia ou pediatria) ou outras áreas de atuação (anestesiologia, patologia, medicina militar, radiologia, psiquiatria e medicina preventiva). Havia ainda espaço aberto para o respondente informar a especialidade desejada caso não estivesse entre as opções oferecidas.
Apresentaram-se aos alunos diversos fatores e motivações relacionados à tomada de decisão, sendo permitido optar por mais de um quesito ou adicionar, ao final da pergunta, algum fator ou motivação que não estava no questionário. Dentro do formulário, havia as seguintes alternativas:
Fatores de influência: docentes do curso; médico conhecido; mentor familiar; amigos, colegas ou namorado; escolha pessoal sem qualquer influência externa; estágio ou experiências extracurriculares.
Motivações para tomada de decisão: parentes com clínica em atividade na especialidade; retorno financeiro; afinidade por saúde pública e comunitária; planejamento familiar futuro; afinidade pela área acadêmica; qualidade de vida; facilidade de entrar na residência/no estágio assinalados; afinidade por procedimentos invasivos e emergenciais; resolução do tratamento mais rápido e efetivo, com pouco envolvimento continuado com os problemas do paciente; predomínio de prática hospitalar; desafios nos resultados terapêuticos, de modo a estimular o respondente a participar dos progressos da especialidade; o respondente ou algum familiar apresenta uma determinada condição de morbidade, que estimula muito o futuro médico a estudar essa área; envolvimento integral do paciente; prática ambulatorial; descrença das práticas médicas modernas, as quais provocam grandes efeitos colaterais; médico generalista na cidade natal; medicina em alto nível em hospital e/ou universidades de ponta; atuação em uma área que permita ao respondente permanecer na cidade natal; carreira militar; mudança na escolha da especialidade ao longo do curso porque o respondente reviu a percepção que tinha ao cursar a disciplina ou atuar na prática assistencial no internato.
Compararam-se as variáveis estudadas por meio de análise estatística não paramétrica utilizando a linguagem R versão 4.2.3 (R Core Team, 2023). Devido à baixa contagem nas tabelas de contingência, utilizou-se o teste exato de Fisher para testar as hipóteses, em vez do teste qui-quadrado. O nível de significância foi estabelecido em 5%.
RESULTADOS
De 106 alunos que concluíram o curso médico, 90 responderam voluntariamente ao questionário e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após orientação sobre a forma adequada de preencher o questionário, não restaram dúvidas da parte dos alunos, visto que tais perguntas eram simples, diretas e autoexplicativas.
Quanto aos dados demográficos, a amostra foi formada, predominantemente, pelo gênero feminino (63,3%, n = 57), faixa etária de 23 a 26 anos (62,2%, n = 56) e com renda familiar classificada como classe B (44,4%, n = 40).
Em relação às grandes áreas médicas, a maioria dos estudantes optaram pela clínica médica (42,2%, n = 38), seguida de clínica cirúrgica (26,7%, n = 24), ginecologia e obstetrícia (11,1%, n = 10) e pediatria (7,8%, n = 7). As “outras áreas” - anestesiologia, medicina militar, medicina legal, radiologia, psiquiatria e medicina preventiva - foram assinaladas por 12,2% dos alunos (n = 11).
A significância estatística na correlação entre gênero e grandes áreas médicas mostrou que não são independentes (p = 0,02219). Nesse ponto, chama a atenção que a pediatria foi escolhida somente por discentes do gênero feminino, assim como ocorreu com grande parte dos alunos que escolheram ginecologia e obstetrícia. Em sentido contrário, as especialidades que não se encaixam dentro das grandes áreas predominaram no gênero masculino (Tabela 1).
Tabela 1 Teste de Fisher - associação entre as grandes áreas médicas escolhidas pelos estudantes de Medicina e as variáveis (gênero, faixa etária e classes socioeconômicas declaradas).
| Grandes áreas médicas | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Variáveis | Clínica médica | Clínica cirúrgica | Pediatria | G/O | Outras especialidades | Valor de p |
| Sexo declarado | p = 0,02219 | |||||
| Masculino | 14/38 (36,8%) | 9/24 (37,5%) | 0/7 (0,0%) | 2/10 (20,0%) | 8/11 (72,7%) | |
| Feminino | 24/38 (63,2%) | 15/24 (62,5%) | 7/7 (100%) | 8/10 (80,0%) | 3/11 (27,3%) | |
| Faixa etária declarada | p = 0,64813 | |||||
| 23-26 | 23/38 (60,5%) | 16/24 (66,7%) | 5/7 (71,4%) | 7/10 (70,0%) | 5/11 (45,5%) | |
| 26-30 | 12/38 (31,6%) | 8/24 (33,3%) | 2/7 (28,6%) | 2/10 (20,0%) | 6/11 (54,5%) | |
| 30-39 | 3/38 (7,9%) | 0/24 (0,0%) | 0/7 (0,0%) | 1/10 (10,0%) | 0/11 (0,0%) | |
| > 40 | 0/38 (0,0%0 | 0/24 (0,0%) | 0/7 (0,0%) | 0/10 (0,0%) | 0/11 (0,0%) | |
| Classe socioeconômica declarada | p = 0,2949 | |||||
| A | 10/38 (26,3%) | 3/24 (12,5%) | 2/7 (28,6%) | 2/10 (20,0%) | 0/11 (0,0%) | |
| B | 13/38 (34,2%) | 11/24 (45,8%) | 4/7 (57,1%) | 7/10 (70,0%) | 5/11 (45,4%) | |
| C | 9/38 (23,7%) | 4/24 (16,7%) | 0/7 (0,0%) | 1/10 (10,0%) | 1/11 (9,1%) | |
| D | 1/38 (2,6%) | 0/24 (0,0%) | 0/7 (0,0%) | 0/10 (0,0%) | 1/11 (9,1%) | |
| Não se aplica | 5/38 (13,2%) | 6/24 (25,0%) | 1/7 (14,3%) | 0/10 (0,0%) | 4/11 (36,4%) | |
G/O: ginecologia e obstetrícia.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Em relação às faixas etárias, a clínica médica predominou em todas as idades, e os alunos com 30 a 39 anos foram os que mais selecionaram a especialidade (75%, n = 3). Entretanto, não houve evidências dessa associação (p = 0,64813). Da mesma forma, as classes socioeconômicas não se associam estatisticamente às grandes áreas médicas (Tabela 1).
A especialidade mais procurada foi anestesiologia (13,3%, n = 12), seguida por cardiologia (11,1%, n = 10), oftalmologia (10%, n = 9) e dermatologia e ortopedia (8,9%, n = 8). Outras especialidades que não se enquadram nas grandes áreas médicas foram escolhidas por 11 alunos (12,2%). Somente 5,6% dos alunos optaram pela especialização em medicina de família e comunidade (n = 5). Entretanto, apesar de a grande maioria já ter planos de iniciar a residência no início da carreira (67,8%, n = 61), cerca de 32,2% dos alunos (n = 29) afirmaram que pretendem atuar inicialmente como médicos generalistas e, talvez, realizar posteriormente uma residência.
Os gráficos 1 e 2 mostram, em percentuais, as motivações e os fatores que influenciaram os concluintes do curso médico nas especialidades futuras. Nota-se que a qualidade de vida e o retorno financeiro (55,6%, n = 50) e a presença de docente do internato (53,3%, n = 48) foram as motivações mais citadas.

Gráfico 1 Motivações que os estudantes de Medicina associaram, em 2023, à escolha da especialidade entre as opções oferecidas.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 2 Fatores que os estudantes de Medicina associaram, em 2023, à escolha da especialidade entre as opções oferecidas.
De acordo com a Tabela 2, não foi identificada nenhuma relação estatística entre as variáveis qualitativas (fatores influenciadores e áreas de atuação médica). Contudo, chama a atenção na pediatria que 42,9% (n = 3) citaram “influência de mentor familiar”, porém com valor de p igual a 0,62407. Após a avaliação de quais seriam as motivações vinculadas às grandes áreas estudadas, vistas na Tabela 3, algumas associações foram estatisticamente comprovadas:
Em relação a variável “oferecer maior envolvimento integral com o paciente, permitindo melhor assistência, além de prática ambulatorial”, os alunos mais motivados por esse fator foram os que escolheram clínica médica (54,1%, n = 20), com valor de p igual a 0,00418.
Os concluintes que declararam a pretensão de seguir a ginecologia e obstetrícia tiveram associação com a motivação “predomínio de prática hospitalar e alto prestígio junto à classe médica, além de retorno financeiro” (p = 0,01533).
Tabela 2 Teste de Fisher - associação entre os fatores que influenciam na escolha da especialidade médica e a grande área pretendida.
| Fatores que influenciaram na escolha | Clínica médica | Clínica cirúrgica | Pediatria | GO | Outras áreas | Valor de p |
|---|---|---|---|---|---|---|
| (n = 38; 42,2%) | (n = 24; 26,7%) | (n = 7; 7,8%) | (n = 10; 11,1%) | (n = 11; 12,2%) | ||
| Docente do internato | 19 (39,6%) | 12 (25,0%) | 5 (10,4%) | 6 (12,5%) | 6 (12,5%) | 0,65344 |
| Docente do curso básico | 7 (70,0%) | 1 (10,0%) | 1 (10,0%) | 0 (0,0%) | 1 (10,0%) | 0,07858 |
| Docente do curso clínico | 12 (44,4%) | 6 (22,2%) | 3 (11,1%) | 5 (18,5%) | 1 (3,7%) | 0,85610 |
| Médico conhecido | 8 (40,0%) | 6 (30,0%) | 1 (5,0%) | 2 (10,0%) | 3 (15,0%) | 0,70677 |
| Mentor familiar | 3 (42,9%) | 0 (0,0%) | 3 (42,9%) | 0 (0,0%) | 1 (14,3%) | 0,62407 |
| Amigos / colegas / namorado | 3 (37,5%) | 4 (50,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 1 (12,5%) | 0,45681 |
| Estágio ou experiência complementar | 11 (36,7%) | 8 (26,7%) | 2 (6,7%) | 4 (13,3%) | 5 (16,7%) | 0,65997 |
| Escolha pessoal sem influência externa | 15 (53,6%) | 9 (32,1%) | 1 (3,6%) | 3 (10,7%) | 0 (0,0%) | 0,87734 |
GO: ginecologia e obstetrícia.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Tabela 3 Teste de Fisher - associação entre as motivações que levaram à escolha da especialidade médica e a grande área pretendida.
| Motivações para tomada de decisão | Clínica médica | Clínica cirúrgica | Pediatria | GO | Outras áreas | Valor de p |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Parente com clínica em atividade na especialidade | 4 (57,1%) | 2 (28,6%) | 1 (14,3%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 0,70677 |
| Gosto de saúde pública e comunitária | 6 (46,2%) | 2 (15,4%) | 2 (15,4%) | 2 (15,4%) | 1 (7,7%) | 0,62407 |
| Gosto de ensino/pesquisa/assistência e possibilidade de linha | 10 (43,5%) | 4 (17,4%) | 3 (13,0%) | 4 (17,4%) | 2 (8,7%) | 0,45681 |
| Retorno financeiro a curto prazo | 7 (53,8%) | 3 (23,1%) | 0 (0,0%) | 1 (7,7%) | 2 (15,4%) | 0,87734 |
| Alto retorno financeiro e estilo de vida pode me proporcionar | 15 (53,6%) | 7 (25,0%) | 1 (3,6%) | 2 (7,1%) | 3 (10,7%) | 0,65997 |
| Planejamento familiar e futuro | 17 (37,8%) | 13 (28,9%) | 4 (8,9%) | 3 (6,7%) | 8 (17,8%) | 0,34462 |
| Qualidade de vida e retorno financeiro | 24 (48,0%) | 10 (20,0%) | 4 (8,0%) | 3 (6,0%) | 9 (18,0%) | 0,07513 |
| Facilidade de entrar nessa residência | 3 (60,0%) | 2 (40,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 1,00000 |
| Gosto de procedimentos invasivos e de situação de emergência | 8 (30,8%) | 13 (50,0%) | 0 (0,0%) | 1 (3,8%) | 4 (15,4%) | 0,00982 |
| Resolução de TTO mais rápido e mais efetivo com pouco envolvimento continuado com problemas do paciente | 3 (27,3%) | 5 (45,5%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 3 (27,3%) | 0,15546 |
| Pois tem predomínio de prática hospitalar e alto prestígio junto a classe média, além retorno financeiro | 0 (0,0%) | 5 (62,5%) | 0 (0,0%) | 1 (12,5%) | 2 (25,0%) | 0,01533 |
| Apresenta desafios nos resultados terapêuticos e me estimulará a participar dos progressos | 17 (54,8%) | 7 (22,6%) | 2 (6,5%) | 2 (6,5%) | 3 (9,7%) | 0,55331 |
| Pois tenho determinada condição/morbidade que estimula muito estudar a área | 5 (55,6%) | 3 (33,3%) | 0 (0,0%) | 1 (11,1%) | 0 (0,0%) | 0,83644 |
| Oferece maior envolvimento integral, permitindo melhor assistência, além de prática ambulatorial | 20 (54,1%) | 4 (10,8%) | 5 (13,5%) | 6 (16,2%) | 2 (5,4%) | 0,00418 |
| Estou descrente da prática médica moderna, as quais provocam grandes efeitos colaterais | 1 (50,0%) | 1 (50,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 1,00000 |
| Médico generalista em minha cidade natal | 1 (25,0%) | 2 (50,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 1 (25,0%) | 0,65994 |
| Medicina em alto nível em hospital e/ou universidade de ponta | 6 (40,0%) | 2 (13,3%) | 2 (13,3%) | 2 (13,3%) | 3 (20,0%) | 0,47577 |
| Atuação com proximidade da família e bom padrão de vida permanecendo na região | 7 (53,8%) | 2 (15,4%) | 3 (23,1%) | 1 (7,7%) | 0 (0,0%) | 0,11727 |
| Atração pela carreira militar | 1 (20,0%) | 1 (20,0%) | 0 (0,0%) | 0 (0,0%) | 3 (60,0%) | 0,07506 |
| Mudei a escolha da especialidade ao longo do curso | 10 (38,5%) | 7 (26,9%) | 2 (7,7%) | 2 (7,7%) | 5 (19,2%) | 0,74486 |
TTO: tratamento; GO = ginecologia e obstetrícia.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Quando se analisou isoladamente a especialidade mais desejada, anestesiologia, houve associação estatisticamente relevante com “influência de docente do curso clínico” (p = 0,01531) e com os fatores “resolução de tratamento mais rápido e efetivo com pouco envolvimento continuado com os problemas do paciente” (p = 0,00539) e “oferece maior envolvimento integral, permitindo melhor assistência, além de prática ambulatorial” (p = 0,00115).
Aproximadamente 30% dos alunos mudaram de especialidade durante o curso (n = 28). Entre as áreas substituídas, destacam-se ortopedia (50%, n = 4), anestesiologia (50%, n = 6), neurologia clínica (42,9%, n = 3) e cardiologia (40%, n = 4), sem predomínio de gênero.
DISCUSSÃO
A literatura brasileira apresenta pequeno número de estudos a respeito das especialidades médicas escolhidas pelos estudantes que estão terminando o curso de Medicina, o que justifica o objeto deste estudo. Publicações realizadas em outros países pouco nos orientam em razão de realidades distintas do nosso meio, entretanto a quase totalidade dos estudos nacionais foi realizada em universidades federais2),(5),(7)-(13) e, em sua maioria, em décadas anteriores. Este estudo revela as tendências em uma universidade privada com estrutura pedagógico-curricular tradicional.
Em relação aos dados demográficos do presente estudo, há predomínio do gênero feminino dentro da área médica, evidentemente devido às mudanças do cenário do mercado de trabalho atual, com alterações significativas no perfil dos novos médicos, tal como a feminização da procura pela profissão e o direcionamento das alunas para áreas antes quase restritas ao gênero masculino. Cru13, em 1976, constatou que 82,8% dos formandos em oito faculdades de Medicina do estado de São Paulo eram do gênero masculino, contra 36,6% na nossa casuística. Essa condição de gênero parece se consolidar na última década no padrão brasileiro das Regiões Sudeste e Sul9),(11)-(13. Em estudo recente realizado em Belém, capital do Pará5, verificou um predomínio de quase 60% do gênero masculino, mas revelou uma tendência de mudança na Região Norte.
O nosso estudo confirma também uma mudança nacional de procura preferencial por áreas clínicas, uma redução acentuada de procura pela pediatria e quase restrita ao gênero feminino, e, ainda, o interesse pelas áreas cirúrgicas e pela ginecologia e obstetrícia. Em sentido oposto, outras especialidades que não se enquadram nas grandes áreas médicas predominaram em alunos do gênero masculino2),(5),(7)-(11.
A qualidade de vida e o retorno financeiro têm sido abordados como os principais determinantes da escolha da especialidade2),(7),(14, o que condiz com os resultados deste estudo, apesar da ausência de associação estatística com as especialidades. O desejo de um estilo de vida mais controlável foi considerado papel central na mudança da tendência da escolha da especialidade nos Estados Unidos15.
A anestesiologia foi a especialidade mais escolhida entre os participantes do estudo, no qual predominou, para a maioria, a influência do docente do curso. Segundo estudos realizados na Nigéria e em Uganda, a maioria dos estudantes tomou a decisão sobre a especialidade futura de acordo com as suas experiências durante os rodízios clínicos, o que mostra a relevância da orientação profissional adequada16),(17.
Fritz et al.18 constataram uma forte influência da escolha em relação à classe econômica a que pertencem os discentes, assim como ao endividamento deles, porém tais condições também não mostraram associação estatística no nosso estudo. A nossa preocupação reside nos egressos que acabam se tornando médicos generalistas sem especialização e assumindo subempregos. Há ainda outros que se aventuram na medicina “lucrativa” e exercem uma medicina que não necessita de tantos conhecimentos adquiridos no curso médico.
Quanto aos fatores psicossociais, a exaustão emocional é bastante descrita em estudantes de Medicina. O burnout é geralmente caracterizado como um esgotamento emocional relacionado ao trabalho que gera uma baixa realização pessoal. Várias formas de burnout já foram associadas a sintomas depressivos, consideração séria de abandono do curso e menor autoestima baseada no desempenho entre os estudantes da graduação19)-(22. Nesse contexto, nossa pesquisa revelou que 33% dos alunos não pretendiam realizar a residência no início da carreira, o que pode estar relacionado ao sentimento de esgotamento e à incapacidade de passar no programa de especialização. Em nível nacional, Scheffer et al.6 mostram um enorme desequilíbrio entre o ensino de graduação médica e a formação especializada no Brasil. Em 2023, um estudo realizado sobre a demografia médica no Brasil constatou mais de 40 mil formandos em 2021, entretanto houve somente cerca de 16 mil médicos inscritos nos programas credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica em 2022.
De acordo com Scheffer et al.22, em 2018 apenas 1,4% dos médicos atuantes no Brasil estava trabalhando em medicina de família e comunidade. Entretanto, Miranda et al.12, ao estudarem universidades de Minas Gerais, encontraram 10% de interessados inicialmente em atenção primária à saúde. Cerca de 6% dos estudantes do nosso estudo informaram que deverão fazer residência de medicina de família e comunidade, tendo como motivação uma experiência bem-sucedida durante o curso médico, contemplando uma necessidade do SUS. Estudos de outros países citados por Miranda et al.12 revelam interesse de alunos de Medicina pela atenção primária à saúde: 14% nos Estados Unidos, 12% na Alemanha, 20% na França e 25% no Paquistão23. Raleigh et al.24 recomendam um esforço institucional em busca de vocações para atenção primária à saúde, atualmente uma área prioritária no sistema público de saúde do Brasil.
Cerca de 30% dos participantes deste estudo afirmaram que mudaram de especialidade durante o curso, o que pode ser explicado pela ausência de conhecimento prévio das diferentes especialidades ao ingressarem na Medicina, gerando incertezas ao longo da graduação1),(10),(25)-(27. Diversos estudos mostram a necessidade de desenvolvimento de programas adequados para o planejamento de carreiras futuras dos estudantes nas escolas médicas, sendo benéfico para uma distribuição de força de trabalho equilibrada da força de trabalho entre os departamentos da medicina, de acordo com as necessidades nacionais28),(29.
No Reino Unido, foi desenvolvido um instrumento psicométrico com escala de prioridades preferenciais em relação a 59 especialidades britânicas no auxílio à escolha da especialidade médica pelos alunos. Esse instrumento denominado Specialty Choice Inventory, idealizado para mídia eletrônica, contém 130 itens com frases de sentido positivo ou negativo de elevada capacidade discriminatória entre as diversas especialidades, com opções de resposta, cujos escores refletem o perfil do usuário na comparação desse perfil com os perfis médios dos profissionais de cada especialidade escolhida9. Baseado nesse estudo, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, com apoio financeiro da Fapesp, avaliou os itens recomendados pela proposta britânica a centenas de estudantes e médicos especialistas brasileiros, e concluiu pela validade do teste30, o qual merece avaliações posteriores de real aplicabilidade e eficácia no nosso meio.
Os docentes do curso foram o principal fator de influência entre os nossos estudantes. Nesse contexto, é necessário realizar um aconselhamento sobre os melhores estágios extracurriculares e residências médicas, e também mostrar áreas de atuação e subespecialidades atrativas que se abrem devido às novas tecnologias médicas, visto que exposições positivas às especialidades poderão favorecer na tomada de decisão31. Apesar de o docente familiar ter sido relevante e citado em diversos estudos10),(11),(32)-(35, de acordo com os nossos dados, não foi essencial para determinar a escolha da especialidade médica entre os estudantes que participaram da pesquisa.
Finalmente, há de se considerar o prejuízo pedagógico causado pela pandemia de Covid-19 nos cursos médicos36),(37, em que pesem todos os esforços desenvolvidos pelas instituições para minimizá-los, mas que, de alguma forma, possa ter influenciado na escolha pela especialidade. Há necessidade de estudos posteriores para uma avaliação adequada.
CONCLUSÕES
Este estudo realizado em 2023, numa universidade privada com contexto pedagógico-curricular tradicional, revelou a dificuldade que os alunos do curso de Medicina ainda apresentam em escolher as carreiras futuras. Em comparação com publicações anteriores de autores nacionais e do exterior, foram nítidas algumas fortes tendências de mudanças ocorridas nesse cenário, tais como a opção de alunas por especializações antes tipicamente masculinas, como áreas cirúrgicas, a baixa demanda por residências médicas, a forte procura pelas áreas clínicas e o reduzido interesse pela pediatria.
Em que pese o fato de que a decisão final é de cada aluno, sugerimos estratégias institucionais de aconselhamento acadêmico, individual ou em grupos, seminários, painéis de discussão e oficinas que permitam aos alunos obter informações diretas de médicos e docentes experientes em múltiplas áreas, de modo a colaborar no desenvolvimento da carreira dos discentes da graduação em Medicina.
Estudos semelhantes são necessários para confirmar tendências e comparar resultados entre universidades oficiais e privadas, e entre faculdades que adotam orientações curriculares distintas.














