INTRODUÇÃO
A garantia na oferta de cuidados paliativos (CP) a pacientes e seus familiares que enfrentam doenças graves e ameaçadoras da vida é uma responsabilidade ética dos sistemas de saúde, bem como dos profissionais. Diversas ações contribuem para assegurar a prestação desse tipo de cuidado, podendo-se destacar a educação e o treinamento básicos em CP para os profissionais de saúde, em nível de graduação. Nesse nível, espera-se que o profissional possa integrar ações e princípios de CP em contextos de cuidados gerais1.
No Brasil, a inclusão do ensino de CP na graduação é exceção, como mostra um levantamento com 59 universidades federais em que apenas 11 tinham uma disciplina voltada exclusivamente ao ensino de CP no curso de Enfermagem e somente uma como obrigatória2. Já para o curso de Medicina, das 315 escolas cadastradas no Ministério da Educação, apenas 44 (14%) dispõem de disciplina de CP3.
Diversas pesquisas realizadas em nosso país que avaliaram o conhecimento dos estudantes de graduação na área da saúde acerca dos CP evidenciaram o desconhecimento ou a insegurança sobre questões relacionadas a essa temática, como comunicação de más notícias, controle de sintomas e definição de plano de cuidados4)-(9. Além disso, os próprios alunos relataram deficiência do ensino em sua formação e desejo em aprender mais sobre CP4),(9. A importância de aprender CP na graduação foi também relatada por 79,3% de 58 coordenadores de cursos de Medicina10.
O ensino e treinamento em CP vêm crescendo em todo mundo, porém pesquisas apontam que há uma grande variabilidade, tanto na graduação em Medicina quanto em Enfermagem, em relação ao conteúdo abordado, à carga horária, às estratégias de ensino, ao modo de avaliação e ao momento mais adequado para introduzir essa temática no currículo11)-(13. Mesmo em países como a Inglaterra onde se iniciou a prática dos CP, ainda há essa falta de padronização do ensino14.
Considerando que profissionais de Medicina e Enfermagem compõem uma equipe mínima de CP necessária para atuação em nível primário15, o objetivo deste estudo foi realizar uma revisão integrativa de literatura buscando responder às seguintes perguntas:
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa de literatura que é considerada a mais ampla abordagem metodológica referente às revisões, por incluir múltiplos estudos (literatura teórica e empírica) com diferentes delineamentos de pesquisas. Isso leva a uma maior variedade no processo de amostragem e tem o potencial de aumentar a profundidade e abrangência das conclusões da revisão, possibilitando o conhecimento de conceitos, a revisão de teorias e evidências, bem como de conclusões gerais a respeito de uma área de estudo particular. A partir disso, compreende-se melhor quais são as lacunas do conhecimento acerca do tema, gerando proposições de novas pesquisas16),(17.
A pergunta norteadora desta revisão foi: “Quais são as recomendações da literatura sobre como e quando ensinar cuidados paliativos para estudantes de Medicina e Enfermagem?”.
Para a busca nas bases de dados, os descritores utilizados foram escolhidos segundo a definição do Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH): Medical student, Nursing student, education, learning, teaching e palliative care. A busca ocorreu, com o emprego do recurso booleano OR e AND, como ilustra o Quadro 1.
Quadro 1 Estratégia de busca utilizada nas bases de dados.
| População | AND | Intervenção | AND | Área do conhecimento |
|---|---|---|---|---|
| Medical student OR Nursing student | Education OR Learning OR Teaching | Palliative care |
Fonte: Elaborado pelos autores.
As bases de dados eletrônicas utilizadas para busca dos artigos foram: Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed, Scopus e Web of Science. Na base de dados Scopus, a procura dos descritores ocorreu nos campos de título, resumo e palavra-chave, pois a busca em “todos os campos” gerou um resultado acima de nove mil artigos. Nas demais bases, a procura utilizada foi em “todos os campos”.
Para esta revisão, os critérios de inclusão foram: estudos que trazem recomendações de grade curricular, conteúdos e/ou de estratégias didático-pedagógicas para o ensino de CP na graduação em Medicina e/ou Enfermagem; artigos em inglês, espanhol ou português; artigos publicados entre 2012 e 2022; pertinência temática.
Os critérios de exclusão foram: editoriais, capítulos de livro, anais de congresso, artigos de opinião, carta ao editor, guidelines, consensos, documentos institucionais ou de sociedades; indisponibilidade do artigo em plataforma digital; estudos que envolvem ensino para profissionais já formados ou graduandos de outras áreas da saúde; aqueles que citam conteúdo relacionado aos CP dentro de outras disciplinas ou estágios (oncologia, geriatria ou internato) devido à escolha da pesquisa do ensino de CP como disciplina independente; e aqueles que não trazem recomendação de ensino. A Figura 1 ilustra essas etapas.
RESULTADOS
A estratégia de busca gerou 182 artigos potenciais para inclusão nesta revisão. Destes, 85 foram excluídos por não estarem dentro dos critérios de inclusão, e 13, por não estarem disponíveis para acesso na plataforma digital. Assim, a amostra de artigos analisada por esta revisão foi de 84 textos.
Os estudos foram desenvolvidos em diversas localidades, sendo os Estados Unidos e o Reino Unido com mais artigos incluídos, conforme ilustra o Gráfico 1.
Os artigos incluídos trouxeram recomendações sobre educação em CP para os cursos de Medicina (50%) e Enfermagem (47,6%), bem como para ambos (2,4%).
Grande parte dos estudos foi desenvolvida em universidades, mas também houve aqueles realizados por instituições de saúde e por associação de profissionais especialistas, conforme mostra o Gráfico 2. Não se incluíram os documentos de especialistas que não foram publicados em periódicos, como descrito nos critérios de exclusão.

Fonte: Elaborado pelos autores.
Gráfico 2 Distribuição de artigos incluídos segundo instituição responsável pelo estudo.
Os estudos trouxeram apontamentos importantes e úteis para o aprofundamento do conhecimento acerca do ensino de CP para graduandos de Medicina e Enfermagem, conforme apresentado a seguir.
Competências
Dos artigos incluídos na revisão, oito estudos tiveram como foco principal a discussão e a proposição das competências em CP que os futuros profissionais devem adquirir na graduação: seis deles para o curso de Medicina e dois para o curso de Enfermagem. Diversas competências são comuns às duas categorias profissionais e estão organizadas no Quadro 2.
Quadro 2 Descrição das competências a serem desenvolvidas, conforme a temática relacionada à prática de cuidados paliativos.
| Temática relacionada à prática dos cuidados paliativos | Competências a serem desenvolvidas |
|---|---|
| Princípios e filosofia | • Definir a filosofia e o papel dos cuidados paliativos em todo o ciclo de vida, aplicável aos mais diversos tipos de doenças. |
| • Diferenciar os cuidados paliativos ofertados conforme a evolução da doença. | |
| • Promover a integração dessa abordagem na trajetória da doença a fim de garantir um cuidado de qualidade18)-(20. | |
| Aspectos éticos e legais | • Aplicar princípios éticos no cuidado de pacientes com doenças graves e seus familiares. |
| • Conhecer e aplicar as leis estaduais e federais e as políticas institucionais relevantes para o cuidado de pacientes com doenças graves e suas famílias. | |
| • Descrever os princípios éticos que embasam a tomada de decisão em contextos de doenças ameaçadoras da vida, incluindo o direito de não instituir ou suspender o tratamento de suporte artificial à vida. | |
| • Entender a importância do planejamento antecipado dos cuidados e auxiliar a discussão sobre a tomada de decisões no final da vida, apoiando na definição das preferências dos pacientes e resultados aceitáveis. | |
| • Entender o fundamento legal e a relevância das diretivas antecipadas de vontade, bem como a possibilidade do paciente em definir um substituto para a tomada de decisão. | |
| • Elicitar e demonstrar respeito pelos valores, preferências, objetivos de cuidado e tomada de decisão compartilhada do paciente e da família durante doenças graves e no final da vida18)-(24. | |
| Comunicação | • Comunicar-se de forma eficaz, respeitosa e compassiva com pacientes, familiares, membros da equipe interprofissional e o público sobre cuidados paliativos. |
| • Demonstrar técnicas de comunicação centradas no paciente ao dar más notícias e discutir as preferências de cuidados. | |
| • Explorar a compreensão do paciente e da família sobre a doença, preocupações, objetivos e valores que norteiam o plano de cuidados. | |
| • Saber conduzir uma reunião familiar18),(20),(25. | |
| Controle de sintomas | 1. Sintomas físicos |
| • Compreender a fisiopatologia dos principais sintomas da doença grave (por exemplo, dispneia, dor, náuseas/vômitos, delirium, ansiedade) e aplicar esse conhecimento na escolha do tratamento. | |
| • Avaliar a dor sistematicamente e distinguir as síndromes de dor nociceptiva das neuropáticas. | |
| • Entender o conceito de dor total e seu impacto no planejamento de cuidados paliativos. | |
| • Aplicar instrumentos específicos de avaliação de sintomas para avaliar e monitorar sintomas frequentes em cuidados paliativos. | |
| • Compreender os princípios da prescrição adequada dos tratamentos não farmacológicos e farmacológicos necessários para o controle dos sintomas. | |
| • Analisar e comunicar-se com a equipe interprofissional no planejamento e na intervenção no manejo da dor e de outros sintomas18),(20)-(24. | |
| 2. Sintomas psicossociais e espirituais | |
| • Reconhecer e considerar os sentimentos dos pacientes e familiares, e a influência que exercem sobre o bem-estar dos envolvidos. | |
| • Identificar sofrimento psicossocial em pacientes e familiares utilizando ferramentas baseadas em evidências quando necessário. | |
| • Saber quando solicitar avaliação de outros profissionais para atender às necessidades psicossociais e espirituais de pacientes gravemente enfermos e seus entes queridos18),(20),(21),(22),(24),(25. | |
| Trabalho em equipe | • Trabalhar em equipe multidisciplinar e interdisciplinar, demonstrando familiaridade com os deveres e as responsabilidades dos demais profissionais de saúde envolvidos. |
| • Saber quando solicitar avaliação de outros profissionais para atender às necessidades apresentadas pelo paciente e por seus familiares. | |
| • Colaborar efetivamente com a equipe interprofissional para coordenar a prestação de cuidados paliativos de alta qualidade em ambientes de saúde20)-(24. | |
| Cuidado centrado na pessoa e aspectos culturais | • Compreender a importância das questões culturais no cuidado na fase final da vida. |
| • Demonstrar respeito pelo cuidado centrado na pessoa, alinhando o plano de cuidado com os valores, as crenças, as preferências e os objetivos do cuidado do paciente e da família. | |
| • Respeitar a diversidade cultural, espiritual e outras formas de diversidade para os pacientes e suas famílias na prestação de serviços de cuidados paliativos. | |
| • Fornecer cuidados competentes, compassivos e culturalmente sensíveis aos pacientes e às suas famílias durante toda a trajetória da doença, incluindo o processo de morrer e após a morte19)-(22. | |
| Autocuidado no exercício profissional | • Reconhecer os próprios valores e crenças (culturais e espirituais) sobre doenças graves e a morte e sua influência na prestação do cuidado. |
| • Refletir sobre a dinâmica da relação de cuidado com um paciente e seus familiares na assistência paliativa. | |
| • Refletir sobre as próprias reações emocionais diante do processo de morrer e morte dos pacientes | |
| • Ter consciência de seus próprios limites pessoais e profissionais na prestação do cuidado. | |
| • Implementar estratégias de autocuidado para apoiar o enfrentamento do sofrimento, da perda, do sofrimento moral e da fadiga por compaixão18),(20),(21),(22),(24),(25. |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Outras competências descritas para graduandos de Medicina:
Entender a importância do atendimento domiciliar multiprofissional na fase final de vida e a importância de adequar o cuidado ao ambiente e às necessidades e aos desejos do paciente21.
Compreender a necessidade de sensibilização para um cuidado mais inclusivo para indivíduos vulneráveis e marginalizados, incluindo LGBTQIA+ e indígenas19.
Compreender a aplicação da abordagem de CP na assistência a pacientes pediátricos19.
Saber determinar a hora e a causa da morte, e preencher o Atestado de Óbito24.
Reconhecer o papel dos canabinoides nos CP, bem como da prescrição de opioides no contexto de CP e uso inapropriado de opioides19.
Outras competências descritas para graduandos de Enfermagem:
Identificar as mudanças dinâmicas na demografia populacional, na economia do cuidado, na prestação de serviços, nas demandas de cuidados e no impacto financeiro de doenças graves no paciente e na família que exigem melhor preparo profissional para CP22.
Considerar a influência dos fatores socioeconômicos dos pacientes para a prestação equitativa de CP nos sistemas de saúde20.
Avaliar os resultados dos CP do paciente e da família dentro do contexto dos objetivos de cuidados do paciente, padrões nacionais de qualidade22.
Reconhecer a necessidade de buscar consulta (ou seja, de especialistas em enfermagem de prática avançada, equipes especializadas em CP, consultores de ética etc.) para necessidades complexas de pacientes e familiares22.
Realizar avaliação e reavaliação contínuas dos resultados do paciente, modificando o plano de cuidado conforme necessário para ser consistente com os objetivos do cuidado20),(22.
Estrutura curricular
Diversos estudos procuram demonstrar a aplicabilidade de um currículo de ensino de CP na graduação, sendo 11 no curso de Medicina26)-(36, 11 no curso de Enfermagem37)-(47) e um de abordagem interprofissional para ambos os cursos48.
Dentro dos estudos incluídos, a carga horária variou de seis a 39 horas, como curso transversal ou longitudinal - distribuídos ao longo da graduação, apenas teórico e teórico-prático, modalidade online, presencial ou mista. Houve grande variabilidade no momento da graduação em que o ensino de CP foi realizado, desde o primeiro ano até o último ano da graduação, tanto para o curso de Medicina quanto de Enfermagem. Dessa forma, não foi possível estabelecer uma forma única ou mais recomendada de organização curricular, considerando as características descritas anteriormente.
Para o curso de Enfermagem, destaca-se o uso do currículo End-of-Life Nursing Education Consortium (ELNEC) desenvolvido para graduandos para o ensino de CP38),(39),(42),(44.
Estratégias de ensino
Ensino online
Onze estudos discorreram sobre o ensino online como recurso para o ensino dos CP, tanto para o curso de Medicina49)-(51 quanto de Enfermagem39),(41),(43),(45),(46),(52)-(54. Três utilizaram método quantitativo49),(51),(54; um, método qualitativo45; quatro, método misto43),(46),(50),(53; um, relato de experiência52; e dois, artigos descritivos40),(41.
Todos os estudos se mostraram favoráveis para o ensino online, e alguns destacaram a necessidade de atividades de estágio prático49),(50, uso de simulação53) e discussões em grupo síncronas ou presenciais46 como forma de complementar e potencializar o ensino.
Para o ensino a discentes de Enfermagem, o uso do currículo ELNEC adaptado para o ensino online foi utilizado em dois desses estudos40),(43.
Utilizaram-se diferentes estratégias de ensino, como uso de filmes e reflexão em grupo, escrita reflexiva, tele-roleplay, gamificação e testes de múltipla escolha40),(41),(46),(52.
Um estudo teve como tópico o ensino de CP pediátrico por meio da plataforma online54.
Simulação
Vinte e dois estudos avaliaram o uso da simulação para o ensino de CP, sendo 17 na graduação em Enfermagem53),(55)-(70, quatro em Medicina71)-(74 e um com estudantes de ambos os cursos75. Sete utilizaram método quantitativo57),(61),(63),(65),(67),(69),(76; quatro, método qualitativo62),(68),(71),(72; sete, método misto53),(55),(58),(64),(70),(73),(74; dois, relatos de experiência56),(59; e dois, artigos de revisão60),(66.
Todos os estudos se mostraram favoráveis ao uso da simulação como método de ensino, podendo ser utilizado para explorar diferentes aspectos relacionados à prática dos CP, como comunicação de más notícias, suporte emocional ao paciente e familiar, identificação e manejo de sintomas na fase final vida, identificação de alterações clínicas comuns na fase final de vida, discussão sobre plano de cuidados. Além disso, os cenários descritos ocorreram tanto em ambiente domiciliar como hospitalar, tendo sido construídos com uso de simulador de alta fidelidade em conjunto ou não com a atuação de atores.
Houve ganho na aquisição de conhecimento tanto para os estudantes que participaram ativamente da simulação como para aqueles que ficaram como observadores.
Destaca-se que essa estratégia de ensino permite aos estudantes vivenciar situações muito próximas da realidade em ambiente seguro, mas que ainda sim podem ser estressantes e requerem atenção e cuidado emocional aos discentes participantes.
Para realização da atividade de simulação, houve o uso de simulador de baixa fidelidade, de simulador de alta fidelidade e de atores treinados, utilizados de forma combinada ou individual.
Para o curso de Medicina, a simulação foi aplicada em estudantes a partir do quarto ano da graduação72)-(74, mas, em um estudo, não se especificou o período71. Já para o curso de Enfermagem, utilizou-se a simulação em diferentes momentos da graduação.
Ensino prático e escrita reflexiva
Nove estudos avaliaram o impacto de estágios práticos em serviços de CP para a formação dos estudantes, sendo oito relacionados ao curso de Medicina28),(36),(76)-(81 e dois à graduação em Enfermagem82),(83. Um utilizou método quantitativo77; sete, método qualitativo76),(78)-(83; um, abordagem mista36; e um, estudo de revisão28.
Todos os estudos se mostraram favoráveis à inserção de estágio prático em unidade de CP (unidade hospitalar, hospice ou atenção domiciliar). A experiência dos estudantes de vivenciar o cuidado a pacientes e seus familiares na fase final de vida por meio da observação da atuação de uma equipe multiprofissional especializada permite o aprendizado de conceitos e princípios dos CP, trabalho em equipe, avaliação e manejo de sintomas, comunicação de más notícias, suporte emocional, compreensão sobre diversos cenários de cuidado. Além disso, leva à reflexão sobre a morte e o morrer, e o papel como profissional de saúde.
As atividades práticas foram inseridas em diferentes semestres da graduação, com alguns estudos77),(79 defendendo a exposição mais precoce, a partir do primeiro ano, para que os futuros profissionais já adquiram conceitos importantes da prática dos CP no início de sua formação.
Alguns estudos36),(76),(78)-(80 destacaram a importância de atividades que estimulem a autorreflexão por meio da escrita reflexiva, após a experiência do estágio prático como forma de consolidar o aprendizado. Mas, para isso, é necessário orientar os estudantes sobre os objetivos da escrita reflexiva, a clareza nos tópicos a serem trabalhados, a reflexão direcionada sobre a emoções e o feedback estruturado com sugestões84.
Além disso, também foi apontado que o feedback dado aos alunos durante o estágio com pacientes internados, tanto pela equipe médica quanto pela equipe interdisciplinar, auxilia a melhorar e refinar as habilidades de comunicação e pode contribuir para o aumento da confiança de que eles próprios são capazes de conduzir conversas difíceis com pacientes e familiares32.
Outras estratégias de ensino
Uma revisão que avaliou as diferentes estratégias de ensino não identificou a existência de um melhor método85, e diversas outras estratégias de ensino foram avaliadas e se mostraram benéficas como recursos para o ensino de CP, como:
Elaboração de questões de prova86.
Uso de filmes com a temática de CP87, artes visuais88, quadrinhos médicos89, leitura de textos fenomenológicos90, realização de entrevista com paciente ou familiar (em ambiente “não clínico”) sobre o impacto da doença nos diversos aspectos da vida e entrevista com membros da equipe multidisciplinar que prestam atenção paliativa sobre o papel de cada nesse cuidado91, como forma de levantar reflexões e discussões sobre processo de adoecimento, comunicação, preferências de cuidado e empatia.
Uso da gamificação por meio de testes de múltipla escolha92, jogos de tabuleiro93 e jogos experimentais94.
Uso de estação de Objective Structured Clinical Examination (OSCE) para abordar e avaliar competências esperadas dos alunos, como comunicação, controle de sintomas e discussão de planejamento de cuidados95.
Uso de role-play para o treinamento de comunicação de más notícias48),(96, podendo inclusive ocorrer de forma interdisciplinar com estudantes de Medicina e Enfermagem48.
Uso das cartas “Go Wish”97 e da ferramenta elaborada pelo The Conversation Project98 para abordar aspectos relacionados a preferências de cuidado e conceitos das diretivas antecipadas de vontade.
Reflexão e discussão em grupo sobre questões relacionados ao cuidado destinado a paciente em contexto de fim de vida, com os objetivos de explorar sentimentos e permitir a expressão de medos e angústias, como forma de preparação para o futuro cuidado99.
Ensino dos conceitos de CP com foco no cuidado compassivo, de abordagem teórico-prática26.
Uso da abordagem com foco na reflexão de três aspectos dos cuidados de fim de vida: cognitivo, afetivo e prático/comportamental, visando ao desenvolvimento da competência humanística37.
Cuidados paliativos pediátricos
Quatro estudos abordaram o ensino de CP pediátrico na graduação: três no curso de Enfermagem54),(100),(101 e um no curso de Medicina96. Três desses estudos adotaram a abordagem quantitativa54),(100),(101, e um utilizou relato de experiência96.
O ensino baseado no currículo ELNEC foi descrito em um dos estudos100.
Todos se mostraram favoráveis ao ensino dos CP pediátricos, utilizando as mesmas estratégias dos CP gerais e visando desenvolver as mesmas competências descritas anteriormente.
DISCUSSÃO
A partir desta revisão de literatura, foi possível identificar que a maior parte dos estudos foi realizada por instituições universitárias e em países desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos e o Reino Unido. Isso vai ao encontro dos resultados apresentados em um levantamento realizado em 2017 que buscou mapear o nível de desenvolvimento dos CP em 198 países e também comparou com avaliações prévias realizadas em 2006 e 2011. Os países foram classificados em seis categorias (1, 2, 3a, 3b, 4a, 4b), levando-se em consideração diversos indicadores, sendo um deles o ensino e treinamento de profissionais da saúde em CP102.
Neste estudo, já em 2011, os Estados Unidos e o Reino Unido tiveram classificação 4b, quando o ensino dos CP está inserido em nível de graduação pelas universidades102. Assim, é possível pensar que nesses países a discussão sobre o ensino de CP para graduandos de Medicina e Enfermagem está mais avançada, não sendo mais o centro do debate “o que” ensinar, mas sim “como” ensinar. Isso se reflete no menor número de artigos encontrados na revisão que tinham o enfoque na avaliação, discussão e proposição das competências paliativistas quando comparados àqueles que buscaram avaliar as estratégias e os métodos de ensino.
O Brasil, embora tenha melhorado sua classificação ao longo dos anos (3 em 2006, 3a em 2006 e 3b em 2011), ainda se encontra em processo de integração do ensino de CP na graduação102. Em novembro de 2022, o Ministério da Educação por meio do Conselho Nacional de Educação homologou o Parecer nº 265/2022 que altera os artigos 6, 12 e 23 das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de Medicina de 2014, incluindo competências relacionadas à prática dos CP que os estudantes deverão adquirir ainda na graduação103. Esse é um passo imprescindível para a formalização do ensino de CP no currículo, mas também demonstra que são urgentes ações que facilitem o aumento da oferta da educação em CP, como o atual trabalho desenvolvido.
Outro ponto relevante identificado a partir da revisão diz respeito às estratégias e aos métodos de ensino, com destaque para as metodologias ativas. Ou seja, partindo-se do entendimento de que o aluno é o centro do processo de ensino-aprendizagem e o professor tem a função de ser um facilitador, este deve lançar mão de estratégias que tem para provocar, refletir, construir e aprimorar, com o estudante (com suas experiências, valores e opiniões), não só o conhecimento, mas também atitudes e habilidades necessárias para prática profissional104.
Isso se alinha com as particularidades relacionadas à abordagem de CP, uma vez que somente a aquisição de conhecimentos e habilidades voltados para processos fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos não é suficiente para essa abordagem105. É necessário desenvolver competências que permitam aos futuros profissionais compreender como é estar com os pacientes e familiares que enfrentam a doenças graves e ameaçadoras da vida, e como responder ao sofrimento e aliviá-lo em todas as suas formas105. Para isso, são fundamentais estratégias que permitam o desenvolvimento de competências humanísticas e comunicacionais, de trabalho em equipe e de autorreflexão, podendo ressaltar o uso da simulação dentro dos estudos incluídos nesta revisão.
Segundo estudo realizado pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), em nosso país há apenas 234 serviços de CP (incluindo públicos e privados), estando 41,8% concentrados na região Sudeste e apenas 46,4% têm envolvimento com cursos de graduação106. Assim, o uso da simulação também ganha importância ao permitir aos estudantes experienciar uma situação-problema que se aproxima da realidade, principalmente em contextos em que não há campo de estágio para vivência prática.
Dentro das particularidades da prática dos CP, destacam-se os aspectos emocionais dos próprios profissionais que, ao estarem em contato com o sofrimento daquele de quem cuidam, principalmente na fase final de vida, podem ter um aumento da sobrecarga emocional, com risco de burnout e fadiga de compaixão. Uma revisão sistemática que buscou identificar a prevalência de burnout em profissionais que prestam assistência em CP, em unidades de saúde especializadas e não especializadas, mostrou que a prevalência geral de burnout desses profissionais de saúde varia de 3% a 66%, em sua grande maioria com prevalência de 18% ou superior. A prevalência entre médicos e enfermeiros na assistência não especializada se mostrou um pouco mais elevada em comparação com os profissionais de saúde que trabalham em ambientes especializados de CP107.
Esses dados explicam a importância dada à competência relacionada ao autocuidado nos artigos incluídos como algo fundamental que esses futuros profissionais devem exercitar dentro de sua atuação. É imprescindível que eles se percebam como seres humanos com seus próprios valores, crenças, medos, inseguranças e angústias, e entendam que tais sentimentos e emoções fazem parte desse ofício e podem ter impacto tanto em si próprios como no paciente. E partir dessa consciência, é importante que aprendam a buscar formas que os auxiliem a lidar melhor com esses sentimentos e emoções, e entendam que assim poderão não só reduzir o risco do próprio adoecimento, mas também saberão cuidar melhor daqueles que sofrem.
É importante ressaltar que a escolha de incluir apenas bases de dados eletrônicas e excluir estudos que envolvam outros cursos da área da saúde pode ter reduzido a amostra quanto a competências ou estratégias de ensino recomendadas em nível de graduação, bem como de modelos de ensino interprofissional. Isso também se aplica a estudos que envolvam o ensino de CP primários a profissionais, como educação continuada e permanente.
Portanto, são necessários estudos futuros que avaliem ensino de CP em outros cursos da área da saúde, bem como o ensino de CP na educação continuada e permanente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão integrativa de literatura desenvolvida permitiu identificar as competências a serem adquiridas ainda na graduação em Medicina e Enfermagem para que os futuros profissionais possam ofertar CP primários. Tais competências envolvem diversas temáticas relacionadas à prática dos CP, como conceitos e princípios, aspectos éticos e legais, comunicação, controle de sintomas (físicos, psíquicos, sociais e espirituais), trabalho em equipe e autocuidado na prática profissional.
O desenvolvimento dessas competências deve ser realizado principalmente por meio de metodologias ativas de aprendizagem, como discussões de casos clínicos, discussões e reflexões em grupo, escrita reflexiva, role-play, simulação realística, estágios práticos, entre outras.
Este estudo tem como destaque a síntese de conhecimento relacionado ao ensino de CP na graduação em Medicina e Enfermagem, que se baseou em um método científico e não apenas em consensos de sociedades de especialistas. É inovador visto que tem como resultado a sumarização e integração de resultado de estudos que envolvem o ensino de CP na graduação em Medicina e Enfermagem. Isso contribuirá para a expansão do ensino dos CP nesses cursos de graduação em nosso país e, consequentemente, permitirá que a abordagem dos CP alcance maior número de pacientes e seus familiares que enfrentam sofrimentos relacionados ao adoecimento por doenças graves e ameaçadoras da vida.
















