INTRODUÇÃO
Historicamente, as percepções de saúde e patologia estavam intrinsecamente vinculadas a dimensões religiosas e espirituais. Apesar de certo afastamento ao longo do tempo, na atualidade, considerando-se as crescentes evidências do impacto da espiritualidade no manejo clínico e no bem-estar dos pacientes e profissionais de saúde, existe uma tendência à reintegração1.
Na Idade Antiga, eram estimulados os cuidados do corpo e da alma pelos egípcios e gregos. Teorias como a necessidade do equilíbrio entre os humores orgânicos (bile amarela, bile negra, fleuma e sangue) e a prescrição de rituais para entidades de cura eram comuns2. Na Idade Média, os mosteiros e conventos eram utilizados não apenas para orações e rituais, mas também para os cuidados da saúde. Ademais, segundo as crenças da época, as curas só seriam alcançadas mediante vontade divina3.
Na Idade Moderna, a espiritualidade passou a ser vista como uma superstição. O Iluminismo passou a valorizar a racionalidade, tornando incompatíveis a religião, a espiritualidade e as práticas de saúde. Na contemporaneidade, a relação entre espiritualidade e saúde voltou a ganhar força4. O Renascimento, o movimento científico e o surgimento de pesquisas e evidências científicas acerca da temática promoveram uma visão mais holística das pessoas e dos tratamentos de saúde relacionados à espiritualidade5.
Nesse contexto, espiritualidade pode ser definida como uma busca pessoal para compreender questões relacionadas à vida, seu significado e relações com o sagrado ou transcendente6. Ela pode manifestar-se a partir de uma autoconexão, relação com outras pessoas, com o poder divino ou com a natureza, promovendo propósito, significado ou razão de ser7.
A prática espiritual está associada a níveis mais elevados de bem-estar emocional, esperança, qualidade de vida e saúde geral, e menores níveis de sintomas depressivos e de ansiedade8. Além disso, integrar a religião e a espiritualidade ao cuidado e ao autocuidado, valorizando a subjetividade individual, atua como fator protetor no desenvolvimento de comportamentos e pensamentos saudáveis9.
Um estudo qualitativo que avaliou a autopercepção de idosos acerca da influência da espiritualidade na vida deles corrobora tais assertivas. Foi identificado que os idosos que desempenhavam práticas espirituais e religiosas sentiam-se mais confortados, mais próximos de algo maior que os estimulava a cultivar uma relação interpessoal e de autocuidado saudável. Outrossim, demonstrou que as orações, a leitura de livros sagrados e o consumo de conteúdo religioso em mídias digitais favoreciam a diminuição do estresse e da ansiedade, assim como estimulavam um estilo de vida mais saudável10.
Os programas de residência são considerados o padrão ouro em pós-graduação lato sensu para a formação de profissionais de saúde11. Os profissionais residentes possuem formação teórico-prática ladeada por profissionais mais experientes, em média, por 60 horas semanais, perfazendo um período que varia de dois a cinco anos de programa12.
Um censo de 2023 identificou que, dos 1.614 médicos residentes no Brasil avaliados, a maioria era do sexo feminino, branca e sem especialidade prévia13. No mesmo sentido, o censo brasileiro indicou que a população feminina busca mais formação acadêmica em comparação à masculina, sendo majoritariamente adepta de alguma religião com predominância do catolicismo14.
A participação em programas de residência na área da saúde pode ser considerada uma situação adversa. As mudanças no estilo de vida provocadas por esses programas aos residentes podem desencadear sintomas de estresse, ansiedade e depressão15.
Alguns fatores como as intensas pressões acadêmicas e a busca por um equilíbrio entre os compromissos sociais e as responsabilidades da vida são exemplos de causas de estresse16. Além disso, a exaustão emocional associada ao ambiente de trabalho é um fator importante na gênese de transtornos, como ansiedade, depressão e baixa realização profissional17.
Nesse contexto, a espiritualidade se apresenta como uma dimensão do ser integral para gerenciamento do estresse, principalmente pelas estratégias de coping ou enfrentamento que promove18. O coping religioso/espiritual pode ser definido como um conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais relacionadas ao uso da fé, da religião, da espiritualidade ou de crenças pessoais para lidar com situações estressantes19.
Estudos indicam que níveis mais elevados de conhecimento, espiritualidade e coping religioso/espiritual entre estudantes estão associados a um melhor enfrentamento do estresse na tomada de decisões clínicas e na resolução de eventos inexplicáveis20),(21.
O presente estudo objetivou identificar o coping religioso/espiritual por meio da análise da associação entre variáveis sociodemográficas e educacionais e o nível de orientação espiritual em residentes de programas de residência de uma Secretaria de Saúde do estado de Pernambuco.
MÉTODO
Trata-se de um estudo transversal, exploratório e quantitativo de caráter analítico, realizado no âmbito da Secretaria de Saúde (SESAU) de uma cidade do estado de Pernambuco.
O cálculo amostral foi realizado com base em uma população composta por 76 profissionais residentes que participaram do módulo transversal de espiritualidade e integralidade em 2021 e 67 residentes que participaram em 2022, totalizando 143 indivíduos. Considerando um nível de confiança de 95% e uma margem de erro de 5%, a amostra estimada foi de 105 participantes. No entanto, a amostra final contou com 107 sujeitos. A coleta de dados ocorreu entre abril de 2021 e dezembro de 2022.
Os critérios de inclusão foram ser maior de 18 anos, estar devidamente matriculado em um programa de residência da SESAU e cursar o módulo de espiritualidade e integralidade. Como critério de exclusão, utilizou-se ausência por licença-maternidade ou alguma condição clínica durante o período do estudo.
A SESAU oferece o módulo transversal de espiritualidade e integralidade a nove programas de residência em saúde - enfermagem na assistência pré-hospitalar, enfermagem obstétrica, medicina de família e comunidade, residência médica em psiquiatria e odontologia em saúde coletiva - e de residências multiprofissionais: vigilância em saúde, rede de atenção psicossocial, saúde coletiva e saúde da família22.
O conteúdo do módulo é ofertado em 32 horas divididas em oito encontros de quatro horas cada. São abordados os seguintes assuntos: conceitos de saúde e espiritualidade, psiconeuroimunologia, humanização na saúde, finitude e espiritualidade, interesse acadêmico, pesquisas e práticas clínicas relacionadas à espiritualidade nas práticas em saúde. Utilizam-se métodos de ensino que favoreçam a aprendizagem significativa e trocas ativas entre os participantes, como: discussão de artigos científicos, uso de ferramentas digitais como Mentimeter, oficinas práticas e aprendizagem baseada em times.
Os dados do estudo foram obtidos por meio de um linkna plataforma Google Forms com o questionário do estudo para a obtenção de dados sociodemográficos e de formação complementar, além de dados relacionados à espiritualidade e ao coping religioso/espiritual por meio das seguintes escalas: Escala de Autoavaliação de Espiritualidade (Spirituality Self Rating Scale - SSRS) e Escala de Coping Religioso/Espiritual Abreviada (CRE-Breve).
A SSRS é uma escala de autoavaliação que mede o nível de orientação espiritual. São seis itens que contêm a numeração 1 a 5: 1 = concordo muito, 2 = concordo, 3 = concordo parcialmente, 4 = discordo e 5 = discordo totalmente. Para a análise, é preciso recodificar os números das respostas da seguinte forma: 5 substituir por 1; 2 substituir por 4; 3 manter como 3; 2 substituir por 4; e 1 substituir por 5. Após a recodificação, deve-se realizar o somatório de pontos. O escore total que varia de 6 a 30 representa o nível de orientação espiritual: quanto maior, melhor. Para realizar comparação de escores entre grupos, deve-se trabalhar com as médias obtidas em cada um e aplicar um teste estatístico adequado para verificar se há diferenças entre eles23.
A Escala CRE-Breve é uma versão reduzida da Escala de Coping Religioso/Espiritual, desenvolvida para avaliar o uso da religiosidade e da espiritualidade no enfrentamento de adversidades. Trata-se de um instrumento de autorrelato composto por 49 itens organizados em duas dimensões: Coping Religioso/Espiritual Positivo (CREP), com 34 itens, e Coping Religioso/Espiritual Negativo (CREN), com 15 itens. As respostas são registradas em uma escala Likert de cinco pontos, variando de 1 (nem um pouco), 2 (um pouco), 3 (mais ou menos), 4 (bastante) a 5 (muitíssimo). O Coping Religioso/Espiritual Total (CRE Total) corresponde à soma de todos os itens24.
Quanto maior o escore, maior o uso da respectiva dimensão de coping religioso/espiritual. A escala solicita que se tenha em mente uma situação específica de estresse vivida nos últimos três anos. Pode-se analisar a classificação dos resultados a partir dos valores das médias em: nenhuma ou irrisória (de 1,00 a 1,50); baixa (de 1,51 a 2,50); média (de 2,51 a 3,50); alta (de 3,51 a 4,50); altíssima (de 4,51 a 5,00).
Os dados foram digitados no Excel com dupla entrada e validados no Epi Info 7.2.4. Para este estudo, institui-se um banco ad hoc com as variáveis de interesse. A análise foi realizada no software Stata 12.1. Apresentaram-se as variáveis categóricas em frequências absoluta e relativa.
Para as análises multivariadas na busca dos fatores associados ao coping religioso/espiritual e à espiritualidade, foi realizado o Teste de Wald, estimando-se as razões de prevalência (RP) brutas e ajustadas, com intervalos de confiança de 95% e os níveis críticos de significância. As variáveis que alcançaram o valor p < 0,20 na análise univariada foram selecionadas para participarem da etapa final de construção dos modelos multivariados, considerando como estatisticamente significante quando o valor p < 0,05.
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP): CAAE no 42807221.2.0000.5201 e Parecer nº 5.097.535.
RESULTADOS
Participaram do estudo 107 profissionais residentes em saúde que cursaram o módulo transversal de espiritualidade e integralidade. A maioria tinha entre 21 e 25 anos (45,8%), era do sexo feminino (79,4%), residia em Recife (91,6%), era solteira (82,2%), sem religião (40,2%), fazia residência multiprofissional (50,5%) e estava no primeiro ano do curso (89,7%) (Tabela 1).
Tabela 1 Perfil sociodemográfico e acadêmico dos profissionais residentes dos programas de residência em saúde da Secretaria de Saúde do Recife, em 2021 e 2022 - Recife-PE - Brasil, 2023.
| Variável | N | % |
|---|---|---|
| Sexo | ||
| Masculino | 22 | 20,6 |
| Feminino | 85 | 79,4 |
| Idade | ||
| De 21 a 25 anos | 49 | 45,8 |
| De 26 a 30 anos | 45 | 42,1 |
| De 31 a 42 anos | 13 | 12,1 |
| Especialidade da residência | ||
| Enfermagem | 19 | 17,8 |
| Medicina | 16 | 15 |
| Odontologia | 18 | 16,8 |
| Multiprofissional | 54 | 50,5 |
| Formação | ||
| Graduação | 65 | 60,7 |
| Lato sensu | 33 | 30,8 |
| Stricto sensu | 9 | 8,4 |
| Religião | ||
| Católica | 39 | 36,4 |
| Protestante | 21 | 19,6 |
| Espiritismo | 4 | 3,7 |
| Sem religião | 43 | 40,2 |
| Estado civil | ||
| Solteiro | 88 | 82,2 |
| União estável | 19 | 17,8 |
| Ano em que se encontra no curso | ||
| Primeiro | 96 | 89,7 |
| Segundo | 11 | 10,3 |
| Local em que reside | ||
| Recife | 98 | 91,6 |
| Região Metropolitana do Recife | 9 | 8,4 |
| Total | 107 | - |
Fonte: Elaborada pelos autores.
Para a análise estatística, os resultados das escalas CRE-Breve e SSRS foram agrupados conforme descrito a seguir. O CREP foi dividido em grupo 1 (baixo e nenhum) e grupo 2 (médio, alto e altíssimo). Similarmente, o CREN foi classificado em grupo 1 (baixo e nenhum) e grupo 2 (médio). O nível de orientação espiritual foi organizado em grupo 1 (baixo) e grupo 2 (médio e alto).
Nesse contexto, foi identificado que 69,2% dos profissionais residentes apresentaram CREP médio, alto ou altíssimo, 93,4% mostraram CREN baixo ou nenhum, e 57,0% possuíam nível de orientação espiritual médio ou alto (Tabela 2).
Tabela 2 Distribuição de frequência dos resultados total, positivo e negativo da Escala de Coping Religioso/Espiritual Breve (CRE-Breve) e da Escala de Autoavaliação de Espiritualidade (SSRS) em residentes de programas de residência em saúde da Secretaria de Saúde do Recife, em 2021 e 2022 - Recife-PE - Brasil, 2023.
| Escalas | N | % |
|---|---|---|
| Coping Religioso/Espiritual Total (CRE Total) | ||
| Nenhum | 13 | 12,1 |
| Baixo | 34 | 31,8 |
| Médio | 54 | 50,5 |
| Alto | 6 | 5,6 |
| Coping Religioso/Espiritual Positivo (CREP) | ||
| Nenhum | 11 | 10,3 |
| Baixo | 22 | 20,6 |
| Médio | 45 | 42,1 |
| Alto | 28 | 26,2 |
| Altíssimo | 1 | 0,9 |
| Coping Religioso/Espiritual Negativo (CREN) | ||
| Nenhum | 47 | 43,9 |
| Baixo | 53 | 49,5 |
| Médio | 7 | 6,5 |
| Espiritualidade (SSRS) | ||
| Alta (> 22) | 54 | 50,5 |
| Média (= 22) | 7 | 6,5 |
| Baixa (< 22) | 46 | 43 |
| Total | 107 | - |
Fonte: Elaborada pelos autores.
Para estimar as RP por meio da análise de regressão de Poisson, a SSRS (desfecho) foi classificada como escore médio/alto (≥ 22) em “sim” e baixo (< 22) em “não”. Na análise univariada, as variáveis que apresentaram critérios para participação na análise multivariada (p < 20%) foram sexo, especialidade, formação e religião (Tabela 3).
Tabela 3 Estimativas das razões de prevalência das associações entre as variáveis sociodemográficas, profissionais e educacionais com média/alta espiritualidade mediante o ajuste de modelos de regressão univariada de Poisson. Residentes dos programas de residência em saúde da Secretaria de Saúde do Recife, em 2021 e 2022 - Recife-PE - Brasil, 2023.
| Variáveis | Amostra N | Alta/média espiritualidade N (%) | RP bruta (IC 95%)a | Valor pb |
|---|---|---|---|---|
| Faixa etária | 0,210 | |||
| De 21 a 25 anos | 49 | 32 (65,3) | 1,0 | |
| De 26 a 30 anos | 45 | 21 (46,7) | 0,71 (0,49-1,04) | |
| De 31 a 41 anos | 13 | 8 (61,5) | 0,94 (0,58-1,52) | |
| Sexo | 0,139 | |||
| Masculino | 22 | 9 (40,9) | 0,67 (0,39-1,14) | |
| Feminino | 85 | 52 (61,2) | 1,0 | |
| Ano do curso | 0,616 | |||
| Primeiro | 96 | 54 (56,3) | 0,88 (0,55-1,43) | |
| Segundo | 11 | 7 (63,6) | 1,0 | |
| Formação | 0,161 | |||
| Graduação | 65 | 34 (52,3) | 0,75 (0,54-1,04) | |
| Lato sensu | 33 | 23 (69,7) | 1,0 | |
| Stricto sensu | 9 | 4 (44,4) | 0,64 (0,30-1,37) | |
| Religião | 0,001 | |||
| Católica | 39 | 25 (64,1) | 0,75 (0,56-1,00) | |
| Protestante | 21 | 18 (85,7) | 1,0 | |
| Espiritismo/outra | 8 | 4 (50,0) | 0,58 (0,28-1,20) | |
| Sem religião | 39 | 14 (35,9) | 0,42 (0,27-0,66) | |
| Especialidade | 0,004 | |||
| Enfermagem | 19 | 16 (84,2) | 1,0 | |
| Medicina | 16 | 9 (56,3) | 0,67 (0,41-1,08) | |
| Odontologia | 18 | 12 (66,7) | 0,79 (0,54-1,16) | |
| Multiprofissional | 54 | 24 (44,4) | 0,53 (0,37-0,75) | |
| União estável | 0,220 | |||
| Sim | 19 | 13 (68,4) | 1,0 | |
| Não | 88 | 48 (54,5) | 0,80 (0,56-1,14) | |
| Total | 107 | - | - | - |
a Razão de prevalência; b Teste de Wald.
Fonte: Elaborada pelos autores.
Na análise multivariada, os residentes na especialidade de enfermagem evidenciaram possuir a RP de 46% a mais para terem nível de orientação espiritual média e alta em relação à baixa quando comparados à categoria das residências multiprofissionais.
Aqueles com formação lato sensu evidenciaram RP de 40% a mais para terem nível de orientação espiritual média e alta em relação à baixa, quando comparados a residentes que possuem apenas graduação.
Os que professavam a religião protestante apresentaram RP de 34% e de 55% a mais para níveis médio e alto em relação ao baixo, quando comparados com a religião católica e com aqueles sem religião, respectivamente (Tabela 4).
Tabela 4 Modelo multivariado de Poisson com razão de prevalência ajustada inicial e final das variáveis sociodemográficas, profissionais e educacionais com espiritualidade nos residentes dos programas de residência em saúde da Secretaria de Saúde do Recife, em 2021 e 2022 - Recife-PE - Brasil, 2023.
| Variáveis | RP ajustada iniciala | Valor pb | RP ajustada finala | Valor pb |
|---|---|---|---|---|
| Sexo | 0,743 | |||
| Masculino | 0,91(0,54-1,56) | |||
| Feminino | 1,0 | |||
| Especialidades | 0,090 | 0,042 | ||
| Enfermagem | 1,0 | 1,0 | ||
| Medicina | 0,72(0,42-1,22) | 0,69 (0,42-1,14) | ||
| Odontologia | 0,74(0,50-1,09) | 0,72 (0,50-1,05) | ||
| Multiprofissional | 0,55(0,35-0,88) | 0,54 (0,35-0,83) | ||
| Formação | 0,019 | 0,008 | ||
| Graduação | 0,61(0,42-0,88) | 0,60 (0,43-0,84) | ||
| Lato sensu | 1,0 | 1,0 | ||
| Stricto sensu | 0,63(0,32-1,24) | 0,63 (0,32-1,24) | ||
| Religião | < 0,001 | < 0,001 | ||
| Católica | 0,66(0,49-0,89) | 0,66 (0,49-0,88) | ||
| Protestante | 1,0 | 1,0 | ||
| Espiritismo/outra | 0,59(0,33-1,05) | 0,58 (0,33-1,04) | ||
| Sem religião | 0,45(0,29-0,71) | 0,45 (0,29-0,70) | ||
| Total | 107 | - | - |
a Razão de prevalência; b Teste de Wald.
Fonte: Elaborada pelos autores.
DISCUSSÃO
Os dados sociodemográficos dos residentes deste estudo são semelhantes aos de pesquisas anteriores, mostrando uma predominância de mulheres (de 56,5% a 79,2%) e uma maioria de residentes brancos (70,1%)13),(25. Isso pode refletir mudanças sociais e políticas de igualdade de gênero que vêm ocorrendo nos últimos anos, as quais estão acelerando a entrada das mulheres no processo formativo e no mercado de trabalho. Outrossim, a prevalência de residentes brancos pode indicar a necessidade de implantação de mais políticas de acesso e igualdade racial para ingresso na pós-graduação13.
O estudo identificou uma predominância de residentes não religiosos, seguidos por católicos. Esse resultado contrasta com dados do censo, que mostram que mais de 190 milhões de brasileiros se autodeclaram religiosos, dos quais aproximadamente 64% professam a religião católica14. Adicionalmente, estudos envolvendo estudantes de graduação e pós-graduação em programas de residência revelaram que a maioria dos participantes se autodeclaravam religiosos, correspondendo a 51,2% e 74,1% das amostras, respectivamente26),(27. Essas variações podem ser atribuídas tanto aos costumes e à cultura regionais quanto à tendência de secularização em ambientes acadêmicos27.
O estudo indica predominância de residentes com graduação como maior nível de formação. Um censo realizado pela Associação Médica Brasileira em 2023 identificou que 72,8% residentes não possuíam especialização previa13. Além disso, outros estudos demonstraram que 89,65% dos residentes de programas de saúde e 72,8% dos médicos residentes possuíam apenas bacharelado13),(27. Esses dados sugerem que a maioria ingressa nos programas de residência logo após a graduação, talvez no intuito de acelerar a entrada no mercado de trabalho ou adquirir experiência clínica generalista antes da especialização.
Em relação à espiritualidade, predominou o CREP de médio a altíssimo e CREN baixo ou nenhum, com orientação espiritual em níveis médio e alto. Outro estudo revelou que profissionais de saúde e residentes apresentavam alta orientação espiritual e utilizavam a religiosidade relacionada à frequentação de templos e a orações para manter o equilíbrio emocional e orgânico22.
É relevante destacar que o CREP atua como fator protetor e promotor da saúde, enquanto o CREN pode prejudicar a maneira como uma pessoa lida com o estresse28. Adicionalmente, a espiritualidade orienta as escolhas individuais, influenciando o cuidado, a percepção da saúde e doença, e a interação entre pacientes e profissionais de saúde29),(30.
Nesse contexto, os resultados deste estudo indicam que muitos residentes provavelmente utilizam práticas espirituais e religiosas para se adaptarem positivamente às demandas de seu trabalho. É descrito que essas práticas promovem equilíbrio emocional e maior empatia nos residentes em relação aos pacientes e às suas questões espirituais29),(30.
Um estudo que avaliou a espiritualidade e sua influência no tratamento de pacientes em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no estado do Amazonas revelou que os profissionais que professavam alguma religião, ao entrarem em contato com valores espirituais, percebiam maior tranquilidade para tratar desses assuntos com seus pacientes e familiares. Dessa forma, esses valores favoreciam a compreensão do momento adequado para abordar a espiritualidade dos pacientes31.
Importa salientar que a Associação Mundial de Psiquiatria recomenda que o cuidado espiritual seja inserido na prática psiquiátrica, considerando as crenças e práticas religiosas dos pacientes como parte da anamnese. A formação e o desenvolvimento profissional contínuo em saúde mental devem incluir o estudo das relações entre religião, espiritualidade e transtornos mentais. Os psiquiatras devem colaborar com comunidades de fé, respeitar a espiritualidade no ambiente de trabalho e conscientizar sobre os potenciais benefícios e danos das visões religiosas e espirituais32.
O estudo também identificou que os profissionais residentes com formação lato sensu têm uma RP 40% maior de apresentarem orientação espiritual média e alta em relação à baixa quando comparados àqueles apenas com graduação. Esse resultado é significativo, pois a literatura demonstra a importância da espiritualidade na vida e formação acadêmica dos indivíduos, apesar de não confirmar a relação direta que níveis acadêmicos mais altos levam necessariamente a maior espiritualidade33),(34.
Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos da área da saúde, incluindo Medicina, destacam que o perfil do egresso deve ser de um profissional crítico e reflexivo, capaz de lidar com as demandas do paciente de forma integral, humanística e ética35)-(37. Dessa forma, sendo a espiritualidade parte integrante do indivíduo, em particular nos aspectos relacionados à saúde mental, à qualidade de vida e à dor, esses estudantes de graduação deveriam vivenciar e apreender mais valores relacionados ao tema38.
Neste estudo, os profissionais de enfermagem demonstraram 46% mais chance de ter uma orientação espiritual de nível médio ou alto em comparação aos formados em medicina e odontologia. Outro estudo identificou que 87,8% dos graduandos em Enfermagem têm pensamentos espirituais, e 83,4% vivem conforme sua fé religiosa. Esses dados sugerem que a dimensão espiritual é valorizada na vida acadêmica e profissional dos enfermeiros desde o início de sua formação39.
Aspectos intrínsecos à prática da enfermagem, como cuidado holístico, compaixão e empatia, facilitam a aproximação com o cuidado espiritual40),(41. A Associação Americana de Enfermagem destaca a importância do ensino e da prática da espiritualidade nos currículos de Enfermagem, afirmando que o bem-estar espiritual é tão crucial quanto o físico e emocional na recuperação e manutenção da saúde42)-(44. Assim, para a enfermagem, cuidados espirituais são essenciais para atender plenamente às necessidades dos pacientes, promovendo um ambiente de cura abrangente45.
Os resultados deste estudo, relacionados ao coping e ao nível de orientação espiritual, sugerem que os residentes participantes recorrem à religião e à espiritualidade de maneira salutar. Dentre as possibilidades, podem ser utilizadas práticas espirituais e religiosas, como a oração, a frequentação dos templos religiosos e leituras relacionadas às suas crenças6.
O delineamento transversal e o tamanho da amostra deste estudo não permitiram o estabelecimento de relações causais entre as variáveis sociodemográficas, a formação acadêmica e a espiritualidade, e esse aspecto deve ser considerado uma limitação para averiguação em estudos futuros. Outrossim, apesar de o estudo atingir a amostra proposta, seria interessante haver uma amostra censitária. No entanto, não foi possível incluir todos os sujeitos devido à recusa de alguns residentes em participar da pesquisa, apesar da participação integral no módulo transversal.
CONCLUSÕES
Os resultados deste estudo refletem tendências observadas em pesquisas anteriores, indicando uma predominância feminina e ingresso no programa de residência apenas com a graduação completa, sem a realização prévia de outras pós-graduações stricto ou lato sensu.
A maioria dos profissionais residentes apresentou níveis médios, altos ou altíssimos de coping religioso/espiritual positivo, assim como níveis de orientação espiritual classificados como médios ou altos. Esses resultados sugerem que, na amostra analisada, a ausência de vínculo com uma religião formal pode não ser um fator determinante para um bom enfrentamento relacionado à espiritualidade do indivíduo.
Este estudo contribui para o entendimento das características demográficas, religiosas e acadêmicas dos profissionais residentes, oferecendo subsídios para o desenvolvimento de políticas de educação e saúde mais alinhadas ao perfil atual desses profissionais.
Além disso, destaca-se a ausência de módulos sobre espiritualidade e saúde nos programas de residência, o que confere ao estudo um caráter inovador. Os achados reforçam a necessidade de incluir essa temática nos currículos, incentivando sua aplicação em outros programas de formação.










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