INTRODUÇÃO
As mudanças sociais nos séculos XX e XXI e a ampla disponibilização e globalização dos conhecimentos por meio das tecnologias da informação e comunicação (TIC) e das mídias sociais influenciam na formação de profissionais da saúde com um perfil que se ocupe das necessidades de saúde da sociedade e do sistema de saúde universal brasileiro, e, portanto, despertam, atualmente, novos olhares sobre a educação médica1)-(3.
A exigência de formar profissionais competentes que reflitam as próprias ações e interfiram no contexto em que atuam, transformando-o quando necessário, implica também preparar docentes que entendam seu papel como facilitadores, coloquem o estudante como protagonista do processo ensino-aprendizagem e para tal desenvolvam competências pedagógicas para essa formação em constante evolução4.
Considerando assim a relevância dos programas de desenvolvimento docente, a Associação Brasileira de Educação Médica, em sua Regional Minas Gerais (Regional Abem Minas Gerais), criou em 2020 o projeto denominado “De Minas para Minas: um dedo de prosa sobre educação médica”, com o propósito de valorizar todos os discentes e docentes das 47 escolas médicas mineiras, públicas e privadas, por meio de levantamento de temas de interesse comum em todos os espaços de formação do grande e diverso estado de Minas Gerais. Em 2023, dentro dessa perspectiva, realizou-se um evento com foco central na avaliação do estudante, em que se utilizou uma estratégia pedagógica que propiciasse o compartilhamento de conhecimentos por meio do diálogo, de modo a construir de forma coletiva e colaborativa novos saberes: o World Café (ou Café Mundial)5.
A escolha dessa estratégia leva em consideração a possibilidade de maior reflexão em ambientes seguros que propiciem a aproximação dos participantes6. Segundo Maturana7, “criamos nossos mundos” por meio das redes de conversa de que participamos, e, sob essa perspectiva, uma conversa é ação - o pulsar e o cerne dos sistemas relacionais e culturais, especialmente no ambiente de aprendizagem educacional8. Além disso, a liderança conversacional cria suas raízes quando compreendemos que também as reuniões presenciais são redes dinâmicas de conversação e aproximação9. Uma conversa intencional e bem estruturada é a base do processo para efetuarmos mudanças sistêmicas necessárias. O enfoque estratégico e elaborado para esse processo nuclear proporciona a expansão do capital intelectual e social e a colaboração efetiva em nosso mundo cada vez mais interconectado em rede10.
O World Café é uma estratégia comunicacional, criada em 1995 por Juanita Brown e David Isaacs, na Califórnia, nos Estados Unidos, que vem sendo utilizada em vários países, cujo propósito é porporcionar uma experiência coletiva que aprofunde questões de interesses comuns para alcançar o engajamento e a colaboração entre os pares5),(11),(12. A estratégia se sustenta no princípio da espontânea polinização de ideias e significados que ocorre quando as pessoas se movem de uma conversa para outra, permitindo aprender e explorar possibilidades5),(13. E isso faz muito sentido na cultura brasileira que, histórica e culturalmente, foi construída com vivências de roda de conversa desde sua colonização. Quando pensamos em roda de conversa, a imagem inicial que nos vem é das conversas informais com amigos e familiares ao redor da mesa da cozinha ou do fogão acompanhadas de um cafezinho quente e quitutes feitos na hora para a partilha de nossas emoções e nossos pensamentos. Assim também se dá a proposta das rodas no World Café que propõe desencadear uma conversa com foco intencional, em um ambiente propício para o diálogo, em que os partícipes se sintam à vontade para partilhar e escutar14),(15. Sendo assim, a chegada à roda se dá repleta de experiências e práticas de conversação e partilhas ligadas a costumes comunitários, a conhecimentos prévios e às relações sociais em que estamos ontologicamente inseridos16.
De forma sistematizada, Brown et al.5 estruturaram os sete princípios que sustentam a estratégia do World Café e que estão sintetizados no Quadro 1.
Quadro 1 Princípios da estratégia World Café.
| Princípio | Objetivo | Aonde se quer chegar |
|---|---|---|
| 1) Esclarecimento do contexto | Compartilhar o propósito e metas da reunião. | Deixar claro que produtos serão construídos ao final da reunião. |
| 2) Criação de um espaço acolhedor | Propocionar um ambiente seguro e confortável isento de julgamentos. | Permitir que as pessoas se expressem com naturalidade e de forma criativa. |
| 3) Colocação em pauta das questões importantes* | Disponibilizar perguntas que sejam relevantes para as preocupações da vida real do grupo. | Discutir questões complexas, mas que tragam aplicabilidade para o grupo. |
| 4) Contribuição e engajamento de todos os participantes | Incentivar a participação de todos, seja com ideias e perspectivas ou com a escuta ativa. | Garantir que todos se sintam representados no produto final. |
| 5) Conexão das diversas perspectivas | Circular entre mesas, conhecer novas pessoas, contribuir ativamente para o pensamento delas e vincular a essência das suas descobertas a círculos de pensamento cada vez mais amplos é uma das características distintivas da estratégia. | À medida que os participantes levam ideias ou temas-chave para novas mesas, eles trocam perspectivas, de modo a enriquecer enormemente a possibilidade de novos insights surpreendentes. |
| 6) Escuta ativa e qualificada | Ouvir juntos padrões e insights. Dar a voz e vez para o outro, sem exercíco do poder. | Ao praticarmos a escuta partilhada e prestarmos atenção a temas, padrões e insights, começamos a sentir uma ligação com o todo maior. |
| 7) Partilhamento das descobertas coletivas | Após alguns minutos de reflexão silenciosa sobre os padrões, os temas e as questões mais profundos vivenciados nas conversas em pequenos grupos, todos devem compartilhar o que o grupo menor discutiu com o grupo maior. | A última fase do World Café, muitas vezes chamada de “colheita”, envolve tornar esse padrão de totalidade visível para todos numa conversa em grande grupo. |
* Pode-se explorar uma única questão ou utilizar uma linha de investigação progressivamente mais profunda por meio de várias rodadas de conversa.
Fonte: Compilação-síntese realizada pela autora Tibiriçá,SHC a partir da descrição de Brown et al.5.
A estratégia World Café tem sua utilização descrita em vários cenários e contextos, tais como na pesquisa na área da saúde6, na abordagem de temas envolvendo grandes comunidades12, na área do serviço social17 e como mecanismo de planejamento estratégico interprofissional15, no entanto a produção científica em educação médica ainda é escassa com a utilização do Word Café como oportunidade de aprendizado interpares, o que justifica e motiva a realização deste relato de experiência.
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Em conformidade com o projeto de desevolvimento docente “De Minas para Minas: um dedo de prosa sobre educação médica”, da Regional Abem Minas Gerais, em dezembro de 2023, foi realizada uma oficina com tema central “Avaliação do estudante”. O tema, previamente escolhido pelos participantes, tinha como objetivo discutir a avaliação discente em seus aspectos multidimensionais, a importância da valorização de todos os atributos da competência (cognitivo, habilidade psicomotora e atitude) para o processo avaliativo e como oferecer feedback ao estudante. A atividade teve 34 inscritos, e participaram, presencialmente, 30 docentes, três estudantes e um residente, provenientes de seis escolas médicas. Na primeira parte da oficina, optou-se pela utilização da estratégia didática World Café, na qual seguimos os princípios descritos no Quadro 1, de acodo com o modelo básico de Brown et al.5.
Para a estratégia World Café, criamos um ambiente acolhedor com cinco mesas, cada uma coberta com uma folha para flip chart (que poderia ser cartolina, papel madeira, papel Kraft ou pardo) e pincel anatômico da marca Pilot® de várias cores. Cada mesa estava rodeada por cinco ou seis cadeiras, além de um aparador contendo café, água e pequeno lanche. Iniciamos com as boas-vindas e definimos o contexto, deixando os participantes à vontade. As rodadas dos pequenos grupos se deram com intervalo de 20 minutos cada.
DISCUSSÃO
Em cada mesa os participantes ou “viajantes”, como denominados na descrição da estratégia World Café, encontraram situações-problemas com questões orientadoras diferentes, relacionadas à avaliação do estudante, para as quais escreviam suas perspectivas e opiniões, a partir de suas experiências e conhecimentos prévios. Os “viajantes” rodaram em todas as mesas até retornarem à mesa de origem. Na nossa experiência, adaptamos a estratégia e optamos por não deixar uma pessoa como “anfitrião da mesa”, pois nossa intenção era que todos os participantes tivessem a oportunidade de contribuir em todos os tópicos de avaliação. Essa figura é opcional e funciona como relatora fixa na mesa, que sintetiza para a próxima rodada o que foi discutido até aquele momento.
É importante salientar que, apesar de termos utilizado situações-problemas e questões orientadoras diferentes, especialmente elaboradas para o contexto e o propósito desejado, elas podem ser usadas em mais de uma rodada ou se complementar para focar a conversa ou orientar sua direção.
As situações-problemas e questões orientadoras trataram dos seguintes tópicos de avaliação do estudante: avaliação formativa e somativa (mesa 1), avaliação normo e critério-referenciada (mesa 2), características psicométricas - validade (mesa 3) e confiabilidade (mesa 4) e, por fim, necessidade de múltiplos olhares, instrumentos e métodos alinhados com os desempenhos esperados do estudante (mesa 5).
Uma outra adaptação realizada em relação à descrição original da estratégia é que os grupos de participantes eram fixos e rodavam simultanemante em todas as mesas, enquanto, na descrição original, os viajantes podem definir sua trajetória entre as mesas. Nossa opção se deu pela intencionalidade de todos terem a oportunidade de discutir todos os tópicos.
Finalizado o circuito de rodadas, os participantes retornaram às suas mesas de origem e analisaram as contribuições de todos os participantes, definindo um relator.
Seguiu-se uma exposição dialogada com teorização sobre avaliação do estudante, dividida pelos tópicos centrais das mesas, sempre antecedida pelo relato de cada mesa, em que o relator e os membros dos pequenos grupos foram convidados a partilhar ideias ou outros resultados das suas conversas com o resto do grande grupo. Esses resultados são refletidos visualmente de diversas maneiras, geralmente usando flip charts, sendo essa etapa, geralmente, denominada colheita5. Conforme os diálogos foram se conectando, novas opotunidades e insights sobre o tema apareceram nas discussões.
Ao final da estratégia, os participantes responderam a um Google Forms para avaliação da oficina, cujos resultados principais foram os seguintes: 100% dos participantes sentiram-se engajados na atividade e no diálogo interpares, e afirmaram que a estratégia os auxiliou a levantar seus conhecimentos prévios sobre avaliação do estudante, bem como contribuiu para ampliar o aprendizado sobre o tema; 95% afirmaram que a oficina foi agradável e esteve em conformidade com as propostas do projeto “De Minas para Minas: um dedo de prosa sobre educação médica” da Abem Regional Minas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nos assuntos complexos que envolvem a área da saúde e os avanços desejados na educação médica, ações como descobrir propósitos compartilhados, despertar a inteligência coletiva e elaborar estratégias eficazes para uma ação colaborativa efetiva não acontecem por acaso. Para lidar de maneira propositiva com assuntos e as perguntas críticas envolvendo diversas partes interessadas, como docentes, gestores, estudantes, trabalhadores do serviço e as comunidades, devemos ser intencionais sobre a escolha de processos que garantam a participação comprometida e a contribuição de todos, e que promovam resultados coerentes, sem a dominância de nenhum dos grupos. Caso contrário, unir partes interessadas com perspectivas diferentes pode levar a debates polarizados e infrutíferos até com a proliferação de ideias, mas sem a possibilidade da concretude.
Para se fortalecer uma cultura de diálogo, o primeiro requisito é considerar todas as outras pessoas no mesmo patamar de importância e iguais em dignidade, liberdade e valor humano. O próximo passo é colocar o diálogo no centro da atividade.
O Word Café é sem dúvida uma metodologia ativa, centrada no aprendiz, que proporciona o uso criativo de tecnologias sociais e comunicacionais, altamente eficaz para se pensar e atuar em conjunto de forma intencional na educação e na saúde. Geralmente, é utilizada para grandes grupos e pode ser aplicada na graduação, na pós-graduação, nos programas de desenvolvimento docente, na educação permanente e na educação continuada.










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