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Educação: Teoria e Prática

Print version ISSN 1993-2010On-line version ISSN 1981-8106

Educ. Teoria Prática vol.34 no.67 Rio Claro  2024  Epub Sep 05, 2024

https://doi.org/10.18675/1981-8106.v34.n.67.s17467 

Artigos

A Teoria Geral dos Campos de Pierre Bourdieu aliada ao Método Histórico-Comparativo (MHC) e ao Process Tracing1

The Pierre Bourdieu’s General Theory of Fields combined with the Historical-Comparative Method (MHC) and the Process Tracing

La Teoría General de los Campos de Pierre Bourdieu combinada con el Método Histórico-Comparativo (MHC) y el Process Tracing

Larissa Zanela Mendes1 
http://orcid.org/0000-0001-9693-3689

Airton Adelar Mueller2 
http://orcid.org/0000-0001-6270-5856

1Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, Rio Grande do Sul – Brasil. E-mail: lary_zanela@hotmail.com.

2Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, Rio Grande do Sul – Brasil. E-mail: airton.mueller@unijui.edu.br.


Resumo

As pesquisas sociais buscam investigar fenômenos e, a partir disso, produzir informações que visem a um melhor entendimento dos processos em diferentes circunstâncias. Por meio das suas pesquisas, Pierre Boudieu apresentou a sua visão relacional de mundo e instigou diversos pesquisadores com reflexões sociológicas no que tange às relações de poder, aos atores sociais e ao seu grande legado, que é a Teoria Geral dos Campos. Nesse sentido, este artigo tem como objetivo apresentar um caminho alternativo para aqueles que almejam utilizar os conceitos teóricos do autor em suas pesquisas, de modo a simplificar o percurso metodológico sem prejudicar a qualidade científica da teoria e do trabalho. Pautando-se pela metodologia qualitativa e pelo método bibliográfico, no decorrer deste trabalho são demonstradas as fases da pesquisa científica sobre o campo realizada por Bourdieu, além de duas opções de método que podem instrumentalizar a teoria: o Método Histórico-Comparativo (MHC) e o Rastreamento de Processos (Process Tracing). O MHC tem boa aplicabilidade aos estudos de caso em que o pesquisador trabalhará na comparação de cenários em que os agentes são históricos, enquanto o process tracing é útil na investigação e operacionalização dos mecanismos causais dos fenômenos em determinado contexto.

Palavras-chave Teoria Geral dos Campos; Pierre Bourdieu; Método Histórico-Comparativo; Rastreamento de Processos

Abstract

Social research seeks to investigate phenomena and from that generate information aimed at a better understanding of processes in different circumstances. Through his research, Pierre Boudieu presented his relational view of the world and instigated several researchers with sociological reflections regarding power relations, social actors and his great legacy, which is the General Theory of Fields. In this sense, this article aims to present an alternative path for those who wish to use the author's theoretical concepts in their research, in order to simplify the methodological path without jeopardizing the scientific quality of the theory and work. Guided by the qualitative methodology and bibliographical method, in the course of this work, the phases of the scientific research on the field carried out by Bourdieu are demonstrated, in addition to two method options that can instrumentalize the theory: the Historical-Comparative Method (MHC) and the Process Tracing. MHC has good applicability to case studies in which the researcher will work on comparing scenarios where agents are historical, while process tracing is useful in investigating and operationalizing the causal mechanisms of phenomena in a given context.

Keywords General Theory of Fields; Pierre Bourdieu; Historical-Comparative Method; Process Tracing

Resumen

Las investigaciones sociales buscan investigar fenómenos y, a partir de ello, producir informaciones orientadas a una mejor comprensión de los procesos en diferentes circunstancias. A través de sus investigaciones, Pierre Boudieu presentó su visión relacional del mundo e instigó a varios investigadores con reflexiones sociológicas sobre las relaciones de poder, los actores sociales y su gran legado, que es la Teoría General de los Campos. En ese sentido, este artículo tiene como objetivo presentar un camino alternativo para aquellos que deseen utilizar los conceptos teóricos del autor en sus investigaciones, con el fin de simplificar el camino metodológico sin comprometer la calidad científica de la teoría y del trabajo. Guiándose por la metodología cualitativa y el método bibliográfico, en el transcurso de este trabajo se evidencian las fases de la investigación científica sobre el campo realizada por Bourdieu, además de dos opciones metodológicas que pueden instrumentalizar la teoría: el Método Histórico-Comparativo (MHC) y el Seguimiento de Procesos (Process Tracing). El MHC tiene una buena aplicabilidad a los estudios de casos en los que el investigador trabajará en la comparación de escenarios en los cuales los agentes son históricos, mientras que elprocess tracing es útil para investigar y operacionalizar los mecanismos causales de los fenómenos en un dado contexto.

Palabras clave Teoría General de los Campos; Pierre Bourdieu; Método HistóricoComparativo; Seguimiento de Procesos

1 Introdução

No campo das Ciências Sociais, independentemente da metodologia e do método adotados, há a predominância do interesse em garantir algumas características básicas nas pesquisas. A primeira delas estabelece que o objetivo da pesquisa científica é a inferência, podendo ser descritiva ou causal, baseada em referências empíricas sobre o mundo que auxiliem o pesquisador na conclusão sobre aquilo que não é diretamente observável. Isso quer dizer que se buscam atingir inferências válidas, podendo ser compreendidas como a atividade de utilizar fatos conhecidos para aprender sobre aquilo que ainda não se sabe (Schettini; Cunha; Araújo, 2018).

A segunda característica é referente à apresentação e à publicização dos procedimentos adotados para o desenvolvimento da pesquisa. Se tal processo fica subjacente, além das limitações do estudo e do método, a comunidade científica não tem como julgar a validade dos resultados e qual a sua contribuição para as Ciências Sociais (King; Keohane; Verba, 1994). Nesse sentido, pesquisas sociais visam a produzir interpretações do mundo a partir da interação entre ideias e evidências, ou seja, entre a teoria e o empirismo, investigando fenômenos significativos em vista do seu potencial teor singular, extraordinário ou por sua relevância (Schettini; Cunha; Araújo, 2018).

Ao longo da sua vida acadêmico-profissional, Pierre Bourdieu desenvolveu grandes pesquisas e reflexões sociológicas que contribuíram para que os pesquisadores e cientistas enxergassem as diferentes visões de mundo, mas principalmente a sua visão relacional de mundo e as relações de poder entre os atores sociais. Além dos conceitos-chave da Teoria Geral dos Campos (TGC) – campo2, habitus3 e capital4 –, o autor deixou o seu legado a partir de uma densa construção metodológica acerca da prática científica e da utilização dos seus conceitos.

O estudo de Bourdieu requer um investimento contínuo e permanente daqueles que desejam se aventurar nas possibilidades de pesquisas teóricas e empíricas que o autor desenvolveu. Embora seu material teórico-conceitual possa ser aplicado a uma diversidade de objetos empíricos, este revela-se um desafio aos pesquisadores, tendo em vista os diferentes contextos espaciais e temporais, além das inúmeras análises e interpretações equivocadas das suas obras que são encontradas no meio acadêmico. A proposta de Bourdieu de colocar em jogo as questões teóricas impõe ao pesquisador que se opere com os conceitos, isto é, que estes sejam utilizados como ferramentas de constituição dos fenômenos empíricos que deram luz à investigação (Brandão, 2010), fato que demanda tempo, recursos e, a depender da pesquisa, uma equipe de apoio para a coleta de material.

O presente artigo tem como intenção mostrar uma alternativa metodológica para os estudos nos quais as teorias e conceitos desenvolvidos por Pierre Bourdieu possam ser utilizados sem diminuir a qualidade científica e o poder explicativo tanto da teoria quanto da pesquisa. O objetivo central desta discussão é auxiliar pesquisadores que gostariam de utilizar o arcabouço teórico-metodológico deixado por Bourdieu em diferentes enquadramentos temporais, adequando a teoria à realidade de cada pesquisa. Além disso, poderá beneficiar também aqueles que não possuem tempo hábil para realizar um estudo mais prolongado.

Assim, guiando-se pela metodologia qualitativa e pelo método bibliográfico, no decorrer deste trabalho serão apresentadas as fases da pesquisa científica sobre o campo realizada por Bourdieu, além de duas opções de método que podem instrumentalizar a teoria: o Método Histórico-Comparativo (MHC) e o Rastreamento de Processos (Process Tracing). O MHC tem boa aplicabilidade aos estudos de caso em que o pesquisador trabalhará na comparação de cenários em que os agentes são históricos, visto que, em algumas situações, não há a possibilidade de realizar a coleta de entrevistas e/ou questionários, enquanto o process tracing é útil na investigação e operacionalização dos mecanismos causais dos fenômenos em determinado contexto.

2 A metodologia científica de Pierre Bourdieu

Neste item, traçaremos o percurso metodológico feito por Bourdieu para que entendamos a riqueza e a complexidade das pesquisas desenvolvidas e para que seja possível a visualização de como a TGC foi utilizada por ele. Os principais conceitos formulados e/ou refinados por Bourdieu são o de habitus e o de campo. A partir desse arcabouço surgem outros, como o uso do conceito marxista de capital, e assim por diante, que formam um elo de interações do mundo social e que, por consequência, norteiam a sociologia relacional do autor. Haja vista que a teoria do habitus se relaciona com a teoria dos campos, e, para se compreender a lógica de investigação de Bourdieu, é fundamental que se analisem essas percepções e como elas se articulam. É desse constructo teórico formado pelo conceito de habitus e seus condicionantes, cerceado pelo campo e seus princípios, que o autor chega à pesquisa empírica (Thiry-Cherques, 2006).

Bourdieu trabalha os conceitos em suas obras de forma sistêmica. A essência das suas pesquisas não é definida por preceitos metodológicos ou pela aplicação individualizada das suas percepções teóricas, mas sim, pela “maneira como os produz, utiliza e relaciona” (Bourdieu; Wacquant, 2005, p. 13-14). No decorrer da sua trajetória acadêmica, fica evidente que Bourdieu formula suas ideias a partir de práticas empíricas nas quais se aprofundou. Os métodos de pesquisa utilizados pelo autor raramente são apresentados em detalhes nas suas obras, com exceção de anexos ou apêndices que trazem alguns dados adquiridos por ele. Tal característica se justifica por meio da sua crítica ao papel distorcido do método em pesquisas científicas:

À tentação sempre renascente de transformar os preceitos do método em receitas de cozinha científica ou em engenhocas de laboratório, só podemos opor o treino constante na vigilância epistemológica que, subordinando a utilização das técnicas e conceitos a uma interrogação sobre as condições e limites de sua validade, proíbe as facilidades de uma aplicação automática de procedimentos já experimentados e ensina que toda operação, por mais rotineira ou rotinizada que seja, deve ser pensada, tanto em si mesma quanto em função do caso particular. É somente por uma reinterpretação mágica das exigências da medida que podemos superestimar a importância das operações que, no final de contas, não passam de habilidades profissionais e, simultaneamente – transformando a prudência metodológica em reverência sagrada, com receio de não preencher cabalmente as condições rituais –, utilizar com receio, ou nunca utilizar, instrumentos que apenas deveriam ser julgados pelo seu uso. Os que levam a preocupação metodológica até a obsessão nos fazem pensar nesse doente, mencionado por Freud, que passava seu tempo a limpar os óculos sem nunca colocá-los

(Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999, p. 14).

Foi a partir da recusa a uma pesquisa fracionada e provida de diferentes métodos utilizados simultaneamente que Bourdieu compôs a sua própria maneira de pesquisar. De acordo com Brulon (2013), a metodologia adotada pelo autor é uma “praxeologia social”, que abrange um pensamento reflexivo e relacional. Bourdieu atentava-se principalmente à construção do objeto de estudo, considerando-o uma das partes mais significativas de suas análises. Assim, o processo de pesquisa científica do mundo social é marcado por diversas retomadas, ou seja, o método é considerado um ofício que vigora em todas as fases do trabalho. O trabalho científico não é um procedimento linear, engessado. No decorrer da jornada de pesquisa, o problema pode ser reconsiderado, as hipóteses alteradas, as circunstâncias repensadas. Nesse contexto, a finalidade do estudo científico para Bourdieu é perceber as estruturas do campo investigado, “tanto no que elas determinam as relações internas a um segmento do social, isto é, são estruturantes de um campo, quanto no que estas estruturas são determinadas por estas relações, isto é, são estruturadas” (Thiry-Cherques, 2006, p. 41).

Ainda segundo Thiry-Cherques (2006), Bourdieu desenvolve suas pesquisas em fases que se sobrepõem, mas podem ser destacadas separadamente:

  1. identificação e demarcação de um segmento do espaço social (lembrando que este é abstrato, e não geográfico) com especificidades sistêmicas (o campo);

  2. construção inicial da estrutura de relações de agentes e instituições que fazem parte do objeto estudado (posições);

  3. investigação das características da estrutura de posições no interior do campo, as regras (doxa), o interesse que todos os agentes possuem (illusio);

  4. análise da objetividade existente na distribuição das posições no campo (a lógica);

  5. análise das disposições subjetivas (habitus);

  6. constituição de uma matriz relacional demonstrando a articulação entre as posições dos agentes (estrutura);

  7. síntese da problematização geral do campo estudado.

Inicialmente, Bourdieu procura marcar o campo investigado, constituindo interpretações sobre variáveis que não são perceptíveis de imediato pelos indivíduos, tendo em vista que suas visões de mundo sofrem influência de concepções familiares, políticas, estatais e educacionais. Deve-se buscar primordialmente o rompimento do saber científico com o senso comum, generalizado; perceber o fato social tal qual ele é, e não somente pela lente dos agentes envolvidos. Nesse sentido, o autor argumenta sobre o que ele denomina de habitus sociológico, ou seja, as disposições do próprio pesquisador na aplicabilidade de convicções abstratas na pesquisa empírica (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999).

Na obra A profissão de Sociólogo, Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999) discutem sobre o aspecto de que todo e qualquer conhecimento é condicionado pelo habitus. A percepção da realidade é deturpada não apenas pelo habitus dos agentes pertencentes ao estudo, mas pelo habitus do pesquisador. Sendo assim, é necessário examinar as próprias disposições, de forma a compreender a universalidade por meio da identificação e da crítica da produção intelectual em que a pesquisa se dá. Desacreditando da efetiva isenção do cientista, Bourdieu estabelece três procedimentos visando a corrigir o enviesamento causado pelo habitus sociológico: a elucidação das diferentes visões a partir da origem e da posição do próprio pesquisador; a interpretação das relações objetivas por meio da obtenção de dados mensuráveis; e a socialização do desenvolvimento da pesquisa (Thiry-Cherques, 2006).

Outro aspecto importante no processo de pesquisa a partir da Teoria Geral do Campos se refere à demarcação do campo. A escolha é livre; o pesquisador pode delimitá-lo da forma que lhe convém, visto que os campos são constructos abstratos. Essa liberdade é concedida por Bourdieu, que, no decorrer da sua trajetória acadêmica, ocupou-se com os campos em diversos formatos, como, por exemplo: o científico, o literário, o cultural, o econômico, o religioso etc., fragmentados de acordo com o seu interesse de estudo (Thiry-Cherques, 2006).

Não obstante, a delimitação das fronteiras do campo é uma das fases que requer maior cuidado, principalmente porque o próprio objeto de pesquisa está em jogo. A relação entre os agentes determina, a todo momento, a estrutura e a composição do campo, assim como as estratégias utilizadas pelos mesmos são oriundas do volume de capitais que possuem e das suas possibilidades. Em suma, “los límites del campo están donde los efectos del campo cesan”, portanto é somente estudando-se cada um desses microcosmos que se “puede sopesar hasta qué punto están constituidos, dónde se terminan, quién está adentro y quién no, y si conforman o no un campo” (Bourdieu; Wacquant, 2005, p. 154-155).

Na segunda etapa, é feito um mapeamento prévio das posições dos agentes que fazem parte do objeto de estudo. Como nos demais estudos estruturalistas – em que a razão sobressai à experiência –, é necessária a formulação de uma teoria anterior à fase experimental. Isso significa que, se o pesquisador partir para uma análise do empírico sem um marco teórico construído previamente, não se faz ciência. Uma observação ou uma análise estatística realizada de maneira isolada não desvenda o real e não percebe além das aparências. Dessa forma, a formulação do estudo em questão fundamenta-se em demarcar com clareza o fragmento da realidade na qual se deseja pesquisar (o campo), fato que se traduz em elucidar o que está por trás da fachada, ou seja, desvendar o sistema de relações do segmento estudado (Thiry-Cherques, 2006).

A partir da constituição das fronteiras do campo e da esquematização das posições dos agentes, é chegado o momento de identificar as características da estrutura do campo, seus acontecimentos, como se formam as relações objetivas – trocas linguísticas, econômicas etc., de perceber os tipos de estratégia que os agentes utilizam (de conservação ou de subversão) e qual é o interesse por trás do jogo (illusio), que é o motivo pelo qual os agentes se submetem à disputa. Nesse sentido, o que se busca são as homologias estruturais entre os agentes por meio da sua posição relativa no campo e do sistema de relações objetivas que permeiam a luta pela tomada de posições, como o poder e a legitimidade. Desse modo, Bourdieu (1996) procura descobrir o princípio de diferenciação que estabelece o campo identificando as leis que ditam as regras do campo (doxa) – o que é aceito e tido como natural por todos os agentes – para descobrir se existe a possibilidade do surgimento de uma doxa alternativa, isto é, se há a possibilidade de os agentes situados em posições inferiores no campo questionarem a doxa geral.

Segundo Thiry-Cherques (2006), a análise da lógica de funcionamento do campo, isto é, das relações objetivas entre as posições dos agentes, desenrola-se por intermédio da exposição da narrativa do universo social, não pela perspectiva dos agentes participantes, mas sim pela percepção das causalidades estruturais que vão além do consciente. Essa etapa da pesquisa costuma ser sistematizada por intermédio da Análise de Correspondência Múltipla (ACM), que é uma técnica de análise geométrica de dados que lida com dados qualitativos (categóricos) para diferenciar os agentes e posicioná-los relacionalmente. Assim, formam-se quadros que simbolizam espaços sociais em planos cartesianos delimitados por eixos (Klüger, 2018).

Ainda com base em Klüger (2018, p. 68), entre os eixos surgem nuvens de pontos que significam tanto os agentes quanto as propriedades sociais, ou seja, os dados categóricos, “sendo a distância entre os pontos e seus padrões de dispersão na nuvem dados centrais para observar as afinidades e polarizações existentes no universo social estudado”. A distância entre os pontos se dá em virtude dos elementos que os diferem, inclusive da posse desigual de capitais. Essa forma de análise geométrica disponibiliza, portanto, informações para a representação e a visualização do espaço social e das posições dos agentes (Klüger, 2018).

É uma técnica que condensa quantitativamente elementos qualitativos, representando-os estrutural e relacionalmente. Dessa forma, a análise de correspondência é o principal procedimento utilizado por Bourdieu, considerando-se que é uma técnica relacional de análise de dados “cuya filosofía se corresponde exactamente, a mi modo de ver, con aquello que es la realidad del mundo social. Se trata de una técnica que ‘piensa’ en términos de relación, precisamente como yo intento hacerlo con la noción de campo” (Bourdieu; Wacquant, 2005, p. 149). Na Figura 1, o exemplo de uma representação geométrica criada pela ACM inserida por Bourdieu na obra Razões Práticas (Bourdieu, 1996):

Fonte: Bourdieu (1996, p. 20).

Figura 1 O espaço das posições sociais, estilos de vida e práticas culturais da sociedade francesa apresentados em A Distinção (2007). 

Na Figura 1, Bourdieu apresenta de maneira resumida o Gráfico 6 da obra A Distinção (2007, p. 118-119). Na matriz, o autor traz alguns indicadores mais significativos no tocante a profissão, bebidas, prática de esportes, instrumentos musicais e inclinações políticas, que serviram para classificar os gostos dos agentes e os seus estilos de vida. A linha reta vertical representa o nível de capital global, enquanto a linha horizontal se refere ao volume de capital econômico e cultural. A linha pontilhada indica a orientação política dos agentes, podendo ser mais para a direita ou para a esquerda.

A proximidade dos agentes no espaço social independe das interações existentes entre eles. Os indivíduos se encontram relacionados objetivamente no plano cartesiano e posicionados hierarquicamente mediante sua localização na estrutura, que, por sua vez, é estabelecida pela distribuição das propriedades sociais – o que inclui os capitais, as práticas, capacidades etc. A aproximação ou o afastamento entre os agentes no campo é, portanto, delineada de acordo com a homogeneidade das suas características sociais. Isso quer dizer que os agentes serão mais próximos quanto mais seus habitus forem semelhantes, e a distância será maior quanto mais diferentes forem sob o viés social. As propriedades sociais – ou princípios de diferenciação – se localizam próximas aos agentes que as partilham, isto é, pessoas com perfis e gostos parecidos (Klüger, 2018).

Para exemplificar, pode-se pensar que indivíduos que aprenderam a praticar algum esporte tendem a gostar mais de atividades recreativas desse gênero, e a sua frequência em clubes esportivos é maior do que a daquelas pessoas que não têm familiaridade com práticas de desporto. Logo, a expectativa é que a prática de esportes e a regularidade em clubes esportivos se encontrem próximas ao espaço social que represente as escolhas e práticas de um grupo de pessoas, justamente por serem compartilhadas por eles.

Bourdieu lançou mão de investigações empíricas nas suas mais variadas formas, qualitativa e quantitativamente – por meio de entrevistas, questionários, dados estatísticos nacionais, documentos, observações –, sempre ancorado em um constructo teórico construído a partir de diversas retomadas e correções. Isso inclui a construção de hipóteses para serem confirmadas ou refutadas quando confrontadas com a realidade do mundo social. Assim, as hipóteses devem ser capazes de fornecer uma explicação temporária, provisória e que se fundamenta em uma teoria relacionada com um ou mais fenômenos (Thiry-Cherques, 2006).

Após a determinação das posições objetivas, é chegada a análise das disposições subjetivas dos agentes, o habitus. Este tem o poder de estruturar o mundo social, mas não significa que se possa compreender completamente o mundo social a partir do habitus. Conquanto as disposições dos agentes são duráveis, o campo é ativo, dinâmico, aspecto que pode causar modificações na própria formação das disposições (Bourdieu, 1984). A partir do referencial construído com o aporte sistêmico dos conceitos, Bourdieu objetiva compreender a gênese do social e “reconstruir a prática tal qual ela é” (Thiry-Cherques, 2006, p. 47). Brulon (2013) acrescenta ainda que a análise do habitus pode se dar por meio de observação etnográfica, além de análises de discurso, considerando que ele pode ser interpretado de acordo com os seus elementos estruturantes, como, por exemplo, o discurso e a linguagem dos agentes.

Posterior às fases descritas, torna-se possível concluir a matriz relacional com a estrutura do campo e discutir a problemática da pesquisa. Bourdieu criou a sua própria maneira de pesquisar. A análise do campo estudado e a pesquisa empírica ocorrem simultaneamente. A constituição da matriz relacional, da estrutura e da articulação de posições corrige e conclui a análise da lógica do campo, além de permanecer em constante vigilância epistemológica, procurando entender o que as informações obtidas realmente revelam. Alicerçado nesse cuidado, o autor faz repetidas retificações na teoria que fundamenta o objeto para que o conceito exprima logicamente a realidade social, mesmo sabendo que toda e qualquer representação se traduz em uma redução da realidade (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999).

A identificação, portanto, das fases do trabalho científico de Bourdieu serve para guiar os pesquisadores que almejam utilizar a TGC no desenvolvimento de seus estudos. O fato de Bourdieu ser adepto de um politeísmo metodológico5, em que se podem adotar todos os métodos e técnicas considerados relevantes ao estudo (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999), confere ao próprio cientista a possibilidade de flutuar entre técnicas qualitativas e quantitativas de coleta e análise de dados, aspecto que o autor mesmo fez. Na impossibilidade de perfazer a trajetória de pesquisa pensada e realizada por Bourdieu, uma alternativa é a utilização do Método Histórico-Comparativo (MHC) aliado ao Process Tracing, como será explanado nos tópicos seguintes.

3 O método histórico-comparativo

Pesquisas que buscam explicar com profundidade como e por que determinados fenômenos sociais acontecem (como aquelas que seguem uma abordagem qualitativa) sugerem que a melhor estratégia a ser adotada é um estudo mais específico do evento de interesse. Por sua vez, há a opção de tomar como objeto de estudo uma série de eventos ou casos, ou um caso individual. O estudo de caso tem a finalidade de investigar a manifestação de um fenômeno espacial e temporalmente localizado, com maior aprofundamento e dentro de um determinado contexto (Creswell, 2007). Os estudos de caso são mais propensos à geração de hipóteses, bem como à maior chance de validação decorrente da ênfase nos mecanismos causais, além da magnitude da análise no sentido da sua complexidade, na qual o pesquisador pode livremente definir o número de casos, a abordagem e as técnicas de coleta e tratamento de informações (Schettini; Cunha; Araújo, 2018).

Ainda que algumas vertentes metodológicas associem o estudo de caso à pesquisa de um único caso, por certo é muito comum encontrar análises que examinam dois ou mais casos, aderindo a uma perspectiva comparativa (Borges, 2007). Quando se deseja realizar um estudo de caso comparado, uma alternativa é o emprego do MHC, que, por seu turno, busca determinar relações causais envolvendo duas ou mais variáveis, sendo utilizado para elucidar um número reduzido de casos (small-n) (Dall’Agnol, 2019).

O método comparativo é interessante para estudos de desenvolvimento teórico, análises de casos individuais e confirmações sobre mecanismos causais, considerando que não tencionam fazer generalizações e tampouco pesquisas de caráter descritivo. A comparação, portanto, revela-se um importante sustentáculo para a reflexão e a argumentação teóricas, sendo complementares as Teorias de Médio Alcance6 (Bennett; Elman, 2007). Uma das grandes características do MHC é a análise de processos históricos, sociais e políticos que se desdobram por um largo período temporal e pela aplicabilidade de comparações e narrativas históricas para determinar inferências causais, contrapondo-se, portanto, às análises quantitativas multivariadas de pesquisa comumente realizadas no âmbito das Ciências Sociais (Borges, 2007).

Algumas vertentes de pensamento criticam a utilização de estudos de caso partindo da premissa de que as pesquisas sociais deveriam seguir uma lógica única de produção de inferências, sendo esta de perfil quantitativo, tendo em vista que investigações small-n seriam incapazes de criar inferências válidas devido ao seu caráter indeterminado e enviesado (Borges, 2007). Por outro lado, os adeptos dos métodos comparativos ressaltam os benefícios metodológicos de estudos desse tipo que são desconsiderados pelos teóricos contrários a essa abordagem. Bennett e George (2005) apontam que, a partir da análise de um único caso, por exemplo, podem-se auferir numerosas observações e testar variadas pressuposições de uma teoria em determinado contexto. Dito isso, o estudo de caso único não é uma investigação que realiza uma única análise para cada uma das suas variáveis.

Ainda assim, Schettini, Cunha e Araújo (2018) trazem alguns cuidados que podem ser tomados no tocante à validade e à confiabilidade dos estudos de caso, como, por exemplo, a importância da teoria e dos conceitos que irão orientar a escolha por determinados procedimentos e instrumentos de observação; a primazia por diversas fontes de coleta de evidência e dispositivos de mensuração que possibilitem a comparação dos resultados (quando essa for a intenção); a descrição do passo a passo desenvolvido pelo pesquisador; e o esclarecimento dos elementos contextuais que pertencem ao caso.

Uma das maiores contribuições do MHC foi mostrar que a compreensão sobre causalidade está atrelada à identificação de processos que são marcados pela dependência de trajetória (path dependency). A dependência de trajetória ocorre quando eventos críticos que ocorreram em um passado longínquo atingem um caso de tal forma, a ponto de impactar a evolução e o desdobramento de fatos posteriores. Mecanismos causais que envolvem dependência de trajetória destacam a magnitude de padrões específicos de sequência e tempo. Isso quer dizer que, igualmente imperioso saber se o fenômeno A aconteceu ou não, é descobrir se A ocorreu ou não antes de B e C7 (Borges, 2007).

O cerne dessa perspectiva é que o contexto em que os eventos acontecem é fundamental. O impacto causado por A dificilmente será independente dos outros mecanismos, e a pluralidade contextual é decorrente dos eventos que ocorrem na temporalidade. Nesse sentido, a utilização de métodos comparativos dentro de estudos de caso se tornam oportunos para investigação desse tipo de estrutura causal, considerando que possibilitam uma análise mais completa e detalhada da sequência de eventos em contextos históricos (Bennett; Elman, 2008).

Após a apresentação do MHC e a sua relevância para estudos de caso, na seção seguinte abordar-se-á o process tracing, que é uma ferramenta metodológica complementar ao método aqui exposto e vem sendo frequentemente utilizado associado ao MHC em pesquisas recentes, uma vez que ambos buscam identificar a causalidade de processos ocorridos em um determinado fenômeno estudado (Dall’Agnol, 2019).

4 Process tracing: o que é e como utilizá-lo

O rastreamento de processo7 (process tracing) pode ser definido como um método que envolve “tentativas de identificar o processo causal interveniente – a cadeia causal e o mecanismo causal –entre uma variável independente (ou variáveis) e o resultado da variável dependente”9 (Bennett; George, 2005, p. 206-207, tradução minha). É um método de natureza qualitativa que visa a evidenciar e mapear os eventos que ligam um determinado fenômeno a um resultado (Collier, 2010; 2011; Lima, 2020).

O process tracing se refere a qualquer abordagem de pesquisa que direciona seus esforços para analisar como acontecem resultados sociais e políticos produzidos por eventos, que são desdobramentos da interação de atores e diversos elementos específicos de seu contexto. Essa ferramenta pode ser operacionalizada a partir de diversos outros métodos direcionados a também rastrear processos causais. Em vez de resumir o process tracing a uma única abordagem, pode-se percebê-lo como um conjunto de diferentes instrumentos metodológicos que buscam o mesmo fim, sendo possível abranger tanto testes de hipóteses com técnicas quantitativas quanto técnicas investigativas mais narrativas (Bengtsson; Ruonavaarap, 2016).

Schettini, Cunha e Araújo (2018) ressaltam a validade do uso do process tracing em pesquisas científicas nas Ciências Sociais, considerando que o método vai muito além de uma descrição histórica, pois há a preocupação com a construção de explicações causais por meio de eventos sequenciais, bem como dos mecanismos ou entidades implícitas que os geram10, e que pode ser utilizado para realizar inferências associadas a explicações em estudo de caso, seja em nível micro ou macro. Tendo em vista que o método se dispõe a investigar mecanismos que ocasionaram certos efeitos, ele está fortemente atrelado a estudos de eventos já ocorridos. Somente dessa forma se tem o conhecimento dos resultados e, assim, torna-se possível verificar a incidência de determinados mecanismos (Ibidem, 2018).

É interessante que se faça a distinção entre o que são variáveis e mecanismos. Variáveis são características, atributos da unidade de análise que são passíveis de observação, com valores nominais, ordinais ou numéricos, ao passo que mecanismos são percepções relacionais e, por essência, não observáveis que exprimem relações ou atividades entre as unidades de análise, elucidando acontecimentos como a interação entre atores, mudanças institucionais etc. Não há, portanto, como ver um mecanismo, mas, sim, é possível rastrear os seus reflexos e teorizá-lo (Schettini, Cunha; Araújo, 2018; Andrade, 2020).

Um mecanismo causal é composto por partes que se inter-relacionam, em que cada uma delas é formada por entidades (n) empenhadas em ações (→), que expressam uma força causal de uma parte à outra. Essa cadeia, por meio do mecanismo, conecta a causa (X) ao efeito (Y). Tais partes não possuem vida independente, ou seja, elas estão interligadas para a geração do resultado (Beach; Pedersen, 2013). Schettini, Cunha e Araújo (2018) apresentam de forma clara a representação de um mecanismo causal. Os autores sugerem identificar as entidades (no exemplo, estão apresentados como A, B e C) e as atividades (apresentadas como setas →) de forma a evidenciar o mecanismo investigado por meio das suas partes. Desse modo, o mecanismo é representado da seguinte maneira: X [A → B → C] → Y, conforme a Figura 2:

Fonte: Elaborado por Schettini, Cunha e Araújo (2018, p. 87).

Figura 2 Sugestão para a representação de um mecanismo causal. 

A continuação da atividade provocada pelo mecanismo está nas setas e no deslocamento das forças causais de uma parte para a outra. Isso demonstra a necessidade de detalhar cada ação que conecta as entidades a fim de evitar hiatos explicativos na produção do mecanismo; por isso quanto mais claramente forem definidas as partes do mecanismo causal, mais o estudo trará contribuições para o conhecimento sobre processos semelhantes (Collier, 2010; Schettini; Cunha; Araújo, 2018).

Existem quatro variações do rastreamento de processos: 1) theory-testing process-tracing; 2) theory-building process-tracing; 3) theory-refining process-tracing; e 4) explaining outcomes process-tracing. Essa distinção é relevante, considerando-se que leva a diferentes possibilidades de produção de inferências, como a combinação com outros métodos de pesquisa. As três primeiras variações são centradas na teoria, enquanto a última é voltada para o caso. O theory-testing process-tracing tem como finalidade investigar se há a presença de um determinado mecanismo, conforme consta na teoria existente, e testar para saber se ele realmente funciona como o proposto pela literatura e como ele produz determinado resultado. O theory-building process-tracing busca formular, por meio de evidências empíricas (observações),11 uma teoria sobre um mecanismo causal que possa ser generalizável a uma população de casos, isto é, intenta prever que processos causais são significativos para explicar a ocorrência de um fenômeno (Beach; Pedersen, 2013).

O theory-refining process-tracing busca localizar um mecanismo identificado em outros casos, em um caso fora da curva, podendo auxiliar tanto no incremento, no aperfeiçoamento da teoria sobre se uma causa é realmente suficiente para a produção de um resultado, como para dizer se o mecanismo apenas contribui para o efeito encontrado. Por suposto, o explaining outcomes process-tracing se difere das demais variações, pois busca estabelecer formulações que esclareçam as causas de efeitos únicos em um determinado caso. Aqui, o pesquisador objetiva responder como e por que um mecanismo explica um resultado. Nesse sentido, a preocupação gira em torno da explicação, sem a intenção de generalização (Beach; Pedersen, 2013). Conforme complementam Schettini, Cunha e Araújo (2018, p. 82-83):

Nessa variação, o analista utiliza-se da dedução e da indução na busca das explicações causais, e, para isso, pode-se iniciar a pesquisa tanto pela teoria quanto pela empiria. Se começar pela teoria, seguem-se os passos da variação theory-testing. No entanto, na maior parte dos casos, um mecanismo não é suficiente para explicar suficientemente os resultados, o que leva o pesquisador ao segundo estágio, no qual ele testa outro mecanismo que suplementa a explicação, informado pelas análises empíricas iniciais. A pesquisa que se inicia pela teoria segue os mesmos passos da variação theory-building, usando-se as evidências empíricas para formular um novo mecanismo que explique os resultados.

Em ambos os rumos tomados, os testes empíricos e os mecanismos são analisados de forma objetiva, minuciosa, tendo em mente que são instrumentos heurísticos que servirão para apurar importantes acontecimentos do caso em particular. Essa última variação é caracterizada por um movimento repetitivo no qual a intenção é aferir se todos os elementos relevantes do resultado foram levantados e se as evidências garantem as melhores explicações – as mais aceitáveis –, terminando apenas quando o pesquisador se dá por satisfeito com os esclarecimentos encontrados (Beach; Pedersen, 2013). A Figura 3 demonstra as fases do processo:

Fonte: Beach e Pedersen (2016) adaptado e traduzido por Schettini, Cunha e Araújo (2018, p. 83).

Figura 3 Explaining-outcome process tracing. 

Com essência interpretativa, o process tracing exige que o pesquisador goze da sua imaginação sociológica para detalhar etapas ou acontecimentos relevantes do processo, bem como identifique fatores explicativos e mecanismos. Tal fato faz emergir a necessidade de um vasto conhecimento de teorias que abordem o tema e a familiaridade com o caso em questão. Entre as técnicas comumente associadas ao método está a utilização de evidências –12 que podem ser encontradas em fontes primárias ou secundárias, como arquivos, livros históricos e biografias –, em que a intenção é produzir inferências causais para o teste de hipóteses sobre mecanismos subjacentes em um caso (Anciães, 2019).

Mahoney, Kimball e Koivu (2009) elencam cinco tipos de condições explicativas que conectam uma causa e um resultado: i) necessária, mas não suficiente; ii) suficiente, mas não necessária; iii) necessária e suficiente; iv) SUIN; e v) INUS. Uma causa é necessária, mas não suficiente quando se identifica que o resultado não teria ocorrido se tal causa não estivesse presente, mas a sua presença não basta para assegurar o resultado – se não há X, também não há Y. Já a condição suficiente, mas não necessária é o contrário, em razão de que a sua presença endossa a materialização do resultado que se almeja explicar – se há X, há Y. Uma causa é necessária e suficiente quando qualquer evento ocorrido está em X e Y ao mesmo tempo. Os autores representam essa condição com a teoria dos conjuntos (Figura 4). Isso quer dizer que “a presença/ausência de um caso em um conjunto prediz perfeitamente sua presença/ausência no outro”13 (Mahoney; Kimball; Koivu, 2009, p. 124, tradução minha). Causas desse formato são mais raras de se encontrar, mas contemplam o que seria o “tipo ideal” de causalidade. Quanto mais uma condição se aproxima desse padrão, mais importante ela se torna para a análise.

Fonte:Mahoney, Kimball e Koivu (2009, p. 124).

Figura 4 Concepção teórica de conjuntos de uma causa necessária e suficiente. 

A causa INUS tem impacto quando vários fatores se combinam e produzem resultados. Ela, por si só, não é necessária nem suficiente (X1, X2 e X3), mas a combinação de várias causas Inus (X1 + X2 + X3) é condição suficiente (mas não necessária) para gerar o resultado (Y). A causa SUIN (Figura 5) é uma parte suficiente, porém desnecessária, de um fator insuficiente, mas necessário para a geração de um resultado. As causas SUIN carregam características que compõem uma causa necessária, em que nenhuma delas, sozinha, é necessária. Qualquer uma delas, entretanto, já garante a presença de um fator necessário para a produção do resultado (Mahoney; Kimball; Koivu, 2009).

Fonte:Mahoney, Kimball e Koivu (2009, p. 128).

Figura 5 Concepção teórica de conjuntos de causas SUIN. 

A partir da teoria dos conjuntos, X1e Z1 são considerados causas SUIN de Y1 na medida em que Y1 é um subconjunto (resultado) da associação criada por X1 quando interagiu com Z1. Nem X1 nem Z1 isolados, contudo, são necessários ou suficientes para produzir Y1, mas o espaço ocupado por essas duas causas forma o superconjunto de Y1. Na análise de qual causa SUIN tem maior importância, basta comparar até que ponto cada causa foi necessária para o resultado. Na Figura 5, X1 é a causa SUIN mais relevante, pois está mais próxima de ser necessária para Y1 do que para Z1, visto que a maior parte do espaço do conjunto de Y1 está contido em X1 (Mahoney; Kimball; Koivu, 2009).

Beach e Pedersen (2013) enxergam que um dos principais motores do método está na possibilidade da produção de testes de hipóteses. Os testes visam a auxiliar o pesquisador a determinar se houve a ocorrência de um evento ou um processo específico; se houve algum evento ou processo diferente na sequência do evento ou processo inaugural; e se o primeiro evento ou processo foi o causador do segundo (Mahoney, 2012).

Com a intenção de estimar a importância da função desempenhada pelos processos identificados no contexto histórico analisado e o seu peso dentro da argumentação para o efeito causal, Van Evera (1997) desenvolveu quatro tipos de testes, denominados strength tests, que objetivam atestar a certeza e a confiabilidade de um pressuposto teórico (Collier, 2010; 2011; Beach; Pedersen, 2013; Anciães, 2019): 1) straw in the wind; 2) hoop-test; 3) smoking-gun; e 4) doubly-decisive.

O teste straw in the wind é considerado o mais fraco para assegurar uma hipótese, mas tem sua validade nas fases iniciais da análise com o rastreamento de processos. É utilizado quando a evidência não apresenta critérios necessários e suficientes, mas contribui para direcionar o rumo da cadeia causal e fornecer alguma perspectiva sobre a validade do pressuposto. Pode servir também para enfraquecer hipóteses rivais, sendo uma evidência auxiliar. O hoop test busca aferir se a evidência é correta, mas não única, ou seja, a evidência apresenta um critério necessário, mas não suficiente para, sozinha, sustentar uma explicação sobre o resultado (Collier, 2011; Beach; Pedersen, 2013; Schettini; Cunha; Araújo, 2018; Lima, 2020).

O teste smoking-gun tem como objetivo verificar se uma hipótese é suficiente, porém não necessária. Intenta-se atestar se a evidência é imperativa para que a hipótese seja validada. Se a hipótese passar no teste, isso significa que as hipóteses rivais caíram por terra. Caso a hipótese falhe, isso não a elimina, mas, por consequência, ela perde a sua força. E, por último, o teste doubly-decisive considera a hipótese a partir dos preceitos necessário e suficiente. Passar nesse teste – considerado raro nas Ciências Sociais – ratifica veementemente a hipótese e elimina todas as outras alternativas, tendo em vista que tal evidência apresenta requisitos suficientes e necessários para sustentar a explicação causal (Collier, 2011; Beach; Pedersen, 2013; Schettini; Cunha; Araújo, 2018; Lima, 2020).

Os testes de hipóteses são uma importante atividade para dar segurança ao pesquisador no tocante aos mecanismos que atuam na produção de um fenômeno, bem como se ocorre interação entre eles e uma possível predominância de uns sobre outros. No Quadro 1, encontram-se sistematizado os testes de hipóteses e o seu potencial para atestar uma inferência com a utilização do rastreamento de processos:

Quadro 1 Síntese e potencial dos testes de hipótese para inferência causal em process tracing. 

  SUFICIENTE PARA AFIRMAR INFERÊNCIA CAUSAL?
NECESSÁRIO PARA AFIRMAR INFERÊNCIA CAUSAL?   NÃO SIM
  Straw-in-the-wind Smoking-gun
NÃO PASSAR: afirma a relevância da hipótese, porém não a confirma. PASSAR: confirma a hipótese.
NÃO PASSAR: a hipótese não é eliminada, mas é levemente enfraquecida. NÃO PASSAR: a hipótese não é eliminada, mas é enfraquecida de alguma forma.
Implicações para hipóteses rivais:
PASSAR: enfraquece-as levemente.
NÃO PASSAR: fortalece-as levemente.
Implicações para hipóteses rivais:
PASSAR: enfraquece-as substancialmente.
NÃO PASSAR: fortalece-as um pouco.
  Hoop Double decisive
SIM PASSAR: afirma a relevância da hipótese, porém não a confirma. PASSAR: confirma a hipótese e elimina todas as outras.
NÃO PASSAR: elimina a hipótese. NÃO PASSAR: elimina a hipótese.
Implicações para hipóteses rivais:
PASSAR: enfraquece-as levemente.
NÃO PASSAR: fortalece-as levemente.
Implicações para hipóteses rivais:
PASSAR: elimina.
NÃO PASSAR: fortalece-as substancialmente.

Fonte: Reprodução de Collier (2011, p. 825), retirado de Schettini, Cunha e Araújo (2018, p. 94).

O teste de hipóteses envolve, portanto, contextos históricos, temporais e específicos, que, por sua vez, apresentam a necessidade de verificar se as evidências são suficientes e/ou necessárias para que um mecanismo ocorra e quais os efeitos provocados. Vale ressaltar que esse formato de teste não parte de uma premissa probabilística; o trabalho do pesquisador se dá na verificação dessas evidências no caso estudado (Schettini; Cunha; Araújo, 2018).

De maneira geral, o pesquisador avalia as evidências com base em suas crenças anteriores, estabelecendo suas conclusões ao mesmo tempo em que coleta novas evidências – fazendo diversas retomadas entre teoria e dados empíricos no decorrer do estudo. Parte-se da premissa de que as evidências possuem pesos distintos e são também diferentes para cada parte integrante do mecanismo em questão, por isso a ordem na qual são incluídas na pesquisa independe, pois não devem alterar o resultado (Beach; Pedersen, 2013; Lima, 2020). Ademais, em uma pesquisa que utiliza o process tracing, “o pesquisador atribui peso maior para as evidências cuja probabilidade de estarem presentes era menor considerando as expectativas prévias” (Lima, 2020, p. 8).

5 Otimizando o tempo sem diminuir a qualidade da pesquisa científica

Na obra A Profissão de Sociólogo, Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999, p. 19) explicam que a metodologia de pesquisa nas Ciências Sociais não deve ser engessada; em vez de “confiná-la na observância de um decálogo de processos que só devem, talvez, parecer avançados em relação à prática real [...]”, para compreender os procedimentos de pesquisa é fundamental que se examine como ela opera. Com isso, entende-se que, para Bourdieu, muito além de métodos e técnicas avançadas e sistematizadas como receitas prontas, é necessário que se tenha a clareza das diversas possibilidades metodológicas que a ciência oferece, mas, principalmente, o entendimento do que se busca investigar a partir da sua utilização.

A análise de objetos sociais é objetiva e subjetiva, portanto a utilização de métodos e técnicas variados é legítima, podendo o pesquisador realizar análises qualitativas, quantitativas ou a combinação das duas, de modo que favoreça o desenvolvimento do estudo proposto (Bourdieu; Chamboredon; Passeron, 1999). No tocante às suas pesquisas envolvendo a Teoria Geral dos Campos, Bourdieu fez uso de técnicas qualitativas – como observações etnográficas, entrevistas e questionários, análises de discurso e a constituição da gênese do campo em estudo – e quantitativas – como a utilização de dados estatísticos, mapeamento e sistematização do campo mediante a análise de correspondência múltipla (Brulon, 2013).

Se for a vontade do pesquisador misturar ferramentas quali-quanti e quando há a perspectiva de coletar um maior volume de dados por meio de surveys, podem-se criar mapas com as posições dos agentes no campo estudado como Bourdieu fez a partir da técnica geométrica ACM (Bertoncelo, 2016). O caso da impossibilidade de constituição dos mapas relacionais não diminui, contudo, o poder explicativo que a pesquisa científica desenvolvida possui, pois existem outras formas de demonstrar os resultados de maneira lúdica por meio de esquemas e quadros. Como já mencionado, ajustes são necessários para a otimização do tempo de pesquisa sem prejuízo da qualidade do trabalho.

Bourdieu (1989) argumenta que a revolução em um campo só é alcançada quando se mobilizam estudos sobre a sua história. Posto isso, pensando nas adaptações para a utilização da TGC, métodos como o MHC se revelam excelentes alternativas para os estudos que têm por finalidade realizar comparações entre poucos casos, principalmente aqueles nos quais não seja possível recolher dados empíricos diretamente com os sujeitos da pesquisa, como, por exemplo, situações em que os agentes são históricos. Skocpol (1979) ressalta que a análise histórica deve estar devidamente ancorada na teoria, uma vez que o MHC isolado não é suficiente para caracterizar o fenômeno estudado. O método contribui significativamente, entretanto, para a argumentação teórica, tendo em vista que faz o intermédio entre teoria e história, podendo gerar remodelações teóricas, além de novas configurações de análise dos fenômenos históricos.

Enquanto a TGC e o MHC tratam de investigar o objeto de estudo e amparar a formulação de pressupostos para serem confirmados ou contestados sobre os mecanismos subjacentes à pesquisa, o process tracing entra como operacionalizador por meio do teste de hipóteses, auxiliando a identificação dos eventos causais que levaram a determinado resultado (Van Evera, 1997; Collier, 2011; Beach; Pedersen, 2013).

Os estudos de cunho sócio-histórico levantam questionamentos sobre as estruturas sociais e os sistemas estabelecidos no tempo e no espaço, seguem acontecimentos temporais à procura das suas consequências visando a compreender os seus efeitos na vida daqueles que são impactados por ela, bem como as transformações sociais causadas pela mesma, e evidenciam os detalhes e aspectos circunstanciais das diversas estruturas da sociedade, suas diferenças culturais e sociais em cenários específicos. Além disso, no entanto, entende que os contextos de grupos ou estruturas sociais da atualidade são frutos de escolhas e acontecimentos passados que acabaram por restringir e criar rumos alternativos, levando-os a um determinado fim (Skocpol; Miskolci, 2004).

Investigar os processos ocorridos dentro do campo que se deseja estudar poderá dar maior dimensão de quais mecanismos e fatos desencadearam determinadas conjunturas no decorrer da história. É importante destacar ainda que a associação do process tracing a uma análise comparada de casos poderá aumentar o potencial explicativo das escolhas teóricas e metodológicas da pesquisa, como também contribuir para o entendimento de quais eventos ocorreram e levaram a diferentes desfechos do campo dentro de um mesmo território (Schettini; Cunha; Araújo, 2018). Na Figura 6 está a representação da sugestão metodológica que foi proposta no decorrer deste artigo:

Fonte: Elaborado pela autora.

Figura 6 Proposta de metodologia para a utilização da Teoria Geral dos Campos. 

Nesta sistematização, observa-se que as flechas estão apontadas para a Teoria Geral dos Campos, para o MHC e para o process tracing simultaneamente, demonstrando uma correlação. Isso quer dizer que a aplicação dos preceitos teóricos da TGC ocorre em conjunto com o emprego do MHC para a reconstrução sócio-histórica do campo e a formulação de hipóteses, enquanto a partir do process tracing se verificam tais pressupostos, de modo que o pesquisador faça, assim como Bourdieu, diversas retomadas na teoria para complementar ou confrontar, dando a sua contribuição para a ciência e demonstrando que é possível manter a qualidade científica dos resultados advindos da TGC com adaptações.

6 Considerações finais

O presente artigo teve como objetivo fazer uma discussão teórica e trilhar um caminho metodológico alternativo para aqueles estudos que almejam utilizar os conceitos elaborados por Pierre Bourdieu sem limitar a qualidade científica e o poder explicativo da teoria. Sabe-se que fazer ciência demanda tempo, dedicação, aporte financeiro e também, quando possível, uma equipe de apoio para a coleta de dados empíricos, elementos que não estão disponíveis a todos os pesquisadores. Para tanto, inicialmente foi apresentada, de maneira resumida, a estrutura de pesquisa sobre o campo feita por Bourdieu e, sem seguida, dois métodos que podem operacionalizar a Teoria Geral dos Campos: o Método Histórico-Comparativo e o process tracing.

Foi demonstrado que ambos os métodos são excelentes ferramentas para a investigação de casos small-n nas Ciências Sociais. Os estudos que buscam explicar fenômenos a partir da investigação de como e por que determinados eventos ocorrem revelam a sua importância para a compreensão dos mais variados contextos históricos, abrindo margem para diferentes formatos de pesquisa, adaptações, novas formulações ou até mesmo de refinamento teórico. Cabe destacar, no entanto, a importância de uma escolha apropriada da teoria e dos conceitos que nortearão o estudo para que haja uma verdadeira contribuição científica, como também um melhor aproveitamento do objeto escolhido.

A contribuição dessa discussão teórica encontra-se, portanto, na aplicação da Teoria Geral dos Campos com métodos adaptáveis a estudos que envolvam conjunturas históricas e que possam entregar um bom resultado sem comprometer a qualidade da pesquisa e da teoria. Sugere-se que a TGC, o MHC e o process tracing sejam aplicados em conjunto e testados em pesquisas futuras, a fim de que as concepções trazidas neste artigo sejam refinadas e desenvolvidas para a difusão do saber científico.

1O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.

2Um campo pode ser definido como um espaço social estruturado e hierarquizado no qual ocorrem interações sociais e relações de poder e dominação. Os indivíduos agem de acordo com os seus interesses e as suas estratégias para a manutenção ou pela mudança de posições dentro do campo. O campo possui sua própria estrutura de funcionamento, portanto existem tipos variados, como o campo econômico, o religioso, o científico, o educacional etc. (Bourdieu, 1989; Araújo; Alves, Cruz, 2009).

3O habitus é uma noção que se refere aos gostos e práticas inconscientes dos sujeitos que norteiam as suas condutas individuais e coletivas. É constituído ao longo da vida, traduzindo-se em um processo de produção e reprodução de práticas como resultado da condição social dos indivíduos (Bourdieu, 1989; Garcia, 1996).

4O capital é uma espécie de força estabelecida no interior de um campo. Cada campo possui o seu capital específico e cada indivíduo possui uma quantia, podendo ser significativa ou não, elemento que determinará a sua posição na disputa (Bourdieu, 1986).

5 Brandão (2010, p. 229-30) faz uma importante contribuição acerca da prática científica de Bourdieu: “a recusa dos monismos metodológicos é, a meu ver, uma proposta profundamente adequada ao caráter sempre provisório das pesquisas em decorrência da complexidade dos objetos sociais. As oposições quantitativo × qualitativo, estrutura × história, questionários × entrevistas, micro × macro são falsas e respondem muito mais pela ‘arrogância da ignorância’ (Bourdieu, 1989, p. 25) do que pela adequação teórico-metodológica ao problema sob investigação. A impossibilidade de se esgotar a análise de um objeto social por um único ângulo é uma questão de ordem epistemológica, e não metodológica”.

6As Teorias de Médio Alcance não buscam formular modelos generalizáveis, mas esclarecer fenômenos específicos e empíricos. Visam a demonstrar a causalidade entre os fenômenos observados, em que tais correlações podem se dar em determinados contextos. Assim, as Teorias de Médio Alcance preocupam-se com o refinamento dos paradigmas que elucidam mecanismos causais e como associá-los aos seus resultados (Dall’Agnol, 2019).

7“O ponto sobre a dependência da trajetória é que alguns resultados são tais que não podem ser explicados por causas gerais, mas apenas pela sequência de eventos em sua história específica. O cerne da noção de dependência da trajetória é o que alguns consideram um truísmo: a história é importante” (Bengtsson; Ruonavaara, 2016, p. 5, grifo dos autores, tradução nossa).

8Entende-se por processos “uma sequência de eventos, relacionados entre si, que formam um todo coerente, como guerras e revoluções” (Schettini; Cunha; Araújo, 2018, p. 41).

9Versão original: O rastreamento de processo envolve “attempts to identify the intervening causal process – the causal chain and causal mechanism – between an independent variable (or variables) and the outcome of the dependent variable” (Bennett; George, 2005, p. 206-207).

10Identificar os mecanismos causais permite ao pesquisador “investigar a caixa da causalidade para localizar os fatores intermediários que se encontram entre alguma causa estrutural e seu suposto efeito” (Gerring, 2007, p. 45).

11Entendem-se por observações “os dados brutos a serem avaliados quanto ao seu conteúdo e precisão, e é certo que eles podem estar relacionados ao contexto, às motivações, a fatos específicos, a interações entre partes e entidades, considerando as especificidades dos mecanismos e da cadeia causal em estudo” (Schettini; Cunha; Araújo, 2018, p. 71).

12Evidência no process tracing significa “qualquer observação ou informação relevante (além do nosso conhecimento prévio) que se relaciona com as hipóteses [...], elas geralmente trazem informações sobre tempo e sequenciamento, metas e intenções, e outros aspectos dos mecanismos causais, obtidos de uma ampla gama de fontes, incluindo entrevistas, arquivos, registros de mídia e literatura secundária. [...] o process tracingse estabelece por buscar múltiplos tipos de evidências (observações nem sempre comparáveis) empregadas para a verificação de um resultado [...], algo que, por sua própria natureza, nem sempre é facilmente identificado”. No método, as evidências também são denominadas de observações de processo causal (CPO) (Schettini; Cunha; Araújo, p. 71).

13Texto original: “The presence/absence of a case in one set perfectly predicts its presence/absence in the other”.

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Recebido: 06 de Fevereiro de 2023; Aceito: 18 de Maio de 2023

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