1 Introdução
A Pedagogia Universitária é um campo recente e em construção que tem sido fomentado nos últimos anos em decorrência da expansão do Ensino Superior e da intensificação de demandas decorrentes de múltiplos fatores, como a ampliação de oferta e a diversificação do corpo discente, que reconfiguram o contexto do ensinar e do aprender. Segundo Soares (2009, p. 95), “a expansão e a diversificação do ensino superior suscitaram o aumento dos questionamentos, em relação às práticas docentes e a sua formação”, evidenciando, não sem conflitos, a Pedagogia Universitária enquanto campo epistemológico que ancora o exercício da docência no Ensino Superior.
Os autores (Cunha, 2010, 2022; Leite, 2006; Masetto; Gaeta, 2019; Pimenta; Almeida, 2011; Soares, 2009) que pesquisam o campo epistemológico da Pedagogia Universitária apontam que se trata de um campo emergente que busca reconhecimento, haja vista o silenciamento legal e o fato de que, historicamente, não há uma cultura de formação do professor universitário. Decorre desse contexto a representação social do professor universitário enquanto profissional que domina os saberes de sua área de atuação específica, mas que se sente fragilizado e/ou desprestigiado frente aos demais saberes que são necessários para compreender a pluralidade de exigências para o exercício da docência. A esse respeito, Cunha (2010, p. 78) sinaliza que “as representações acadêmicas sobre a docência universitária continuam fortemente alicerçadas na exclusividade da competência científica dos professores”, dificultando a ampliação do debate e da proposição de espaços e ações acerca da Pedagogia Universitária.
Masetto e Gaeta (2019) apontam que as discussões sobre Pedagogia Universitária no Brasil praticamente inexistiam até a década de 1960, e a temática é discutida, desde então, a partir de algumas vertentes que refletem as preocupações e aspirações, condicionadas pelos diferentes contextos e momentos históricos, sobre o ensinar e o aprender no Ensino Superior. Desse modo, apontam que as discussões e estudos estiveram voltados para diferentes dimensões da docência no Ensino Superior, instaurando-se reflexões sobre o aprender no Ensino Superior, o protagonismo docente, a mediação pedagógica e a relação professor-aluno. Mais recentemente, as discussões voltadas à pedagogia universitária têm como eixo central as metodologias ativas, a inovação educacional, a promoção do protagonismo discente e a mediação docente.
Nessa direção, Soares (2009, p. 104) pondera que, embora a pedagogia universitária tenha preocupação central com “o processo de aprendizagem dos estudantes e, consequentemente, com a formação do docente do ensino superior”, enquanto campo epistemológico, ela tem uma dimensão mais ampla que integra as diferentes vertentes da docência no Ensino Superior. Nesse sentido, contempla aspectos associados à aula universitária, ao ser docente, à universidade contemporânea e seus múltiplos desafios, à avaliação institucional e à relação professor-aluno.
Para Almeida (2011), a Pedagogia Universitária contempla um conjunto de concepções de diferentes naturezas (pedagógica, psicológica, filosófica, política, ética e epistemológica) que permeiam e articulam a prática educativa, sustentando as conexões entre universidade e sociedade. Leite (2006) entende que a Pedagogia Universitária tem como objeto de estudo o ensino, a aprendizagem e a avaliação na universidade e, assim, preocupa-se com a formação docente para o exercício da docência. Na perspectiva de Lucarelli (2000, p. 36), é tratada como “campo polissêmico de produção e aplicação dos conhecimentos pedagógicos na educação superior”, na medida em que contempla distintos campos científicos, com seus referenciais epistemológicos e culturais. Cunha (2022, p. 37) salienta que é um campo científico em fase de legitimação que contempla “saberes que precisam ser mobilizados para que a educação superior alcance sua dimensão política, social e cognitiva”. Nesse sentido, os desafios contemporâneos que afetam a universidade passam pela formação de seus docentes, que têm como pressuposto a formação profissional dos estudantes em uma perspectiva crítica e socialmente referenciada.
O campo da Pedagogia Universitária se torna potencialmente significativo, em vista das possibilidades de contribuição para as discussões acerca da formação do professor universitário e do desenvolvimento de propostas e ações político-institucionais de valorização da docência universitária, considerando que, da perspectiva legal, não há exigência quanto à formação pedagógica, pois a cultura acadêmica de representação sobre a docência universitária continua fortemente alicerçada na exclusividade da competência científica dos professores. Nesse contexto, as ações, programas e propostas de formação ficam a cargo das instituições que, a partir de concepções que lhe são próprias, organizam (ou não) espaços de formação. Entender a Pedagogia Universitária pressupõe considerá-la em seus distintos campos científicos, com referenciais epistemológicos e culturais, com diversas naturezas de cunho pedagógico, psicológico, filosófico, político, ético e epistemológico, que permeiam e articulam a prática educativa.
No que concerne à temática assessoramento/assessoria pedagógica como um dos elementos da formação docente, ou seja, estratégias que vêm sendo construídas no interior das universidades no contexto do desenvolvimento profissional docente e que são (ou não) evidenciadas na produção científica, Cunha (2014) argumenta que há necessidade de se compreender as estratégias institucionais que estão sendo direcionadas ao desenvolvimento profissional docente, bem como perceber a potencialidade da assessoria pedagógica como condição de melhoria profissional na educação superior.
Broilo (2015), ao discutir as especificidades da assessoria pedagógica universitária, indica que se referem às mediações no setor didático sobre questões educativas relacionadas com o universo social dos docentes e como estes desenvolvem as práticas no cotidiano. Xavier, Toti e Azevedo (2017, p. 336) alegam que “trata-se de um setor que institucionalmente representa a formação pedagógica do docente, entre um rol de atividades referentes ao ensinar e ao aprender na universidade”. De acordo com os estudos de Lucarelli (2015), as atividades mais comuns desempenhadas pelo assessor pedagógico universitário são voltadas à formação, apoio a projetos institucionais, pesquisa, extensão e assessoramento nas questões didáticas e pedagógicas. Como a formação do professor universitário não trata das questões pedagógicas, didáticas e metodológicas especificamente para o Ensino Superior, a assessoria pedagógica pode preencher essas lacunas (Antonello; Comar, 2021).
Considerando, assim, a relevância e potencialidade da Pedagogia Universitária enquanto campo epistemológico capaz de ressignificar e valorizar a docência universitária, no intuito de problematizar os desafios que permeiam o Ensino Superior, este estudo objetiva identificar o que revela a produção bibliográfica (livros) acerca da Pedagogia Universitária, formação docente e assessoramento pedagógico universitário, no período de 2007 a 2022.
O presente texto está organizado da seguinte forma: no primeiro momento, contextualiza-se o estudo e discutem-se o campo da Pedagogia Universitária, o processo de formação pedagógica do professor universitário e a assessoria pedagógica. Logo após, explicitam-se a estratégia metodológica da revisão integrativa e a produção bibliográfica acerca da Pedagogia Universitária: quais são, quantos são e o que revelam os livros publicados, temas e análises da frequência semântica. Por fim, evidenciam-se ideias e conceitos que configuram o processo formativo da docência na Educação Superior.
2 Caminhos da Pesquisa
Considerando-se que o presente estudo se propõe a identificar o que revela a produção bibliográfica acerca da Pedagogia Universitária, da formação docente e do assessoramento pedagógico universitário, definiu-se como estratégia metodológica a Revisão Integrativa da Literatura (Mendes; Silveira; Galvão, 2008, p. 759), por se caracterizar como caminho que possibilita “reunir e sintetizar resultados de pesquisas sobre um delimitado tema ou questão, de maneira sistemática e ordenada, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento do tema investigado”.
A Revisão Integrativa da Literatura possibilita, assim, “a síntese do estado do conhecimento de um determinado assunto” e, nesse sentido, contribui para a análise que nos propusemos realizar acerca do “quanto”, “o que” e “sobre o que” tem se produzido sobre Pedagogia Universitária, bem como “onde” essa produção tem sido difundida.
A realização da Revisão Integrativa desenvolveu-se seguindo as etapas contextualizadas na imagem a seguir:

Fonte: Elaborada pelas autoras a partir de Mendes; Silveira; Galvão, 2008.
Figura 1 Etapas da Revisão Integrativa.
A primeira etapa para a realização da Revisão Integrativa é a definição da pergunta de pesquisa, e a partir do problema que se ambiciona desvelar, os critérios e estratégias de busca são determinados. Considerando-se, assim, a complexidade e a abrangência do tema e do problema da presente investigação, empreende-se o movimento de busca de livros que abordam as temáticas Pedagogia Universitária e assessoramento pedagógico no período de 2007 a 2022. O recorte temporal foi definido tendo-se em vista analisar as produções mais recentes e o impacto das políticas públicas indutoras de expansão e reestruturação das universidades federais brasileiras, como o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
O REUNI foi instituído pelo Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007, e desde o início da expansão foram criadas 14 novas universidades e mais de 100 novos campi que possibilitaram a ampliação de vagas e a criação de novos cursos de graduação (Brasil, 2021). Instituído com o objetivo de criar condições para a ampliação do acesso à Educação Superior, o Reuni promoveu o aumento do número de matrículas e de concluintes, com melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais, além de incentivar cursos noturnos e a criação de novos campi, incluindo no interior do país. A fim de orientar o caminho a ser seguido para alcançar essas metas, o decreto definiu diretrizes das quais destaca-se a Renovação Pedagógica, que prevê, entre outros, programas de capacitação pedagógica, atualização de metodologias de ensino-aprendizagem, articulação da Educação Superior com a Educação Básica, Profissional e Tecnológica e a atualização de metodologias (Brasil, 2007). Essa política, em nosso entendimento, fomentou a contratação de pedagogos para atuarem no Ensino Superior e ampliou as pesquisas e produções científicas acerca da Pedagogia Universitária, contribuindo para as discussões sobre assessoria pedagógica e formação didático-pedagógica do professor universitário e constituindo-se, assim, como importante período de análise das publicações sobre essa temática.
Após a delimitação do recorte temporal (2007-2022), definiu-se os termos de busca e descritores e a escolha dos portais de busca e bases de dados; nesse sentido, optou-se por realizar a busca no Google Books, no Scielo Books, no Portal de Busca Integrada (PBi) da Universidade de São Paulo e no Athena, portal de pesquisa integrada das bibliotecas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), tendo como premissa o potencial do acervo e de bases de dados indexadas em ambos os portais para a identificação de livros sobre a temática do objeto de estudo em tela. Foram balizadores do critério de inclusão livros, publicados em língua portuguesa, que abordassem as temáticas Pedagogia Universitária, Formação do Professor Universitário e Assessoramento Pedagógico. A partir de um movimento inicial de busca com o descritor Pedagogia Universitária, entendemos que seria importante realizar novas buscas adotando outros termos e, assim, elegemos Docência Universitária na tentativa de potencializar e otimizar a busca por livros que, efetivamente, apresentem discussões sobre a Pedagogia Universitária, Formação Docente e Assessoramento Pedagógico. As buscas ocorreram entre os dias 9 e 12 de setembro de 2022 e demandaram várias tentativas e combinações entre os descritores, termos livres e operadores booleanos, respeitando as especificidades de cada um dos portais de busca, viabilizando encontrar 72 livros publicados,1 dos quais 30 atenderam aos critérios de inclusão e foram, portanto, incluídos na amostra final (Quadro 1).
Quadro 1 Relação dos livros analisados, ordenados por ano de publicação.
| ANO | LOCAL/ EDITORA |
Autor(es) | Título | Número de capítulos |
|
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2007 | EDIPUCRS | ENGERS, Maria Emília Amaral; MOROSINI, Marília Costa | Pedagogia universitária e aprendizagem | 4 |
| 2 | 2008 | PRG/USP | SEVERINO, Antonio Joaquim | Ensino e Pesquisa na Docência Universitária: Caminhos Para a Integração | 5 |
| 3 | 2008 | UFSC | CASSIANI, Suzani et al. | Lugares, sujeitos e conhecimentos: a prática docente universitária | 3 |
| 4 | 2008 | EDIPUCRS | CUNHA, Maria Isabel da; BROILO, Cecília Luiza | Pedagogia universitária e produção de conhecimento | 4 |
| 5 | 2009 | EDIPUCRS | ISAIA, Silvia Maria de Aguiar; BOLZAN, Doris Pires de Vargas | Pedagogia Universitária e Desenvolvimento Profissional Docente | 3 |
| 6 | 2009 | EDUSP | ALMEIDA, Maria Isabel de; PIMENTA, Selma Garrido (org.) | Pedagogia Universitária | 10 |
| 7 | 2010 | EDUSP | MASETTO, Marcos Tarciso | Docência no ensino superior voltada para a aprendizagem faz a diferença | 5 |
| 8 | 2010 | EDUEPB | BERGAMO, Pedro | Educação Universitária: práxis coletiva em busca de veraz qualidade e de precisa cientificidade | 6 |
| 9 | 2010 | EDUSP | PENIN, Sonia Teresinha de Sousa | Formação continuada na docência do ensino superior: o papel da avaliação | 8 |
| 10 | 2010 | Junqueira & Marin | CUNHA, Maria Isabel (org.) | Trajetórias e lugares de formação da docência universitária: da perspectiva individual ao espaço institucional | 12 |
| 11 | 2010 | EDUFBA | SOARES, Sandra Regina; CUNHA, Maria Isabel | Formação do professor: a docência universitária em busca de legitimidade | 6 |
| 12 | 2010 | Porto Editorial | CRUZ RAMOS, Kátia Maria da | Reconfigurar a profissionalidade docente universitária: um olhar sobre as ações de atualização didático-pedagógica | 6 |
| 13 | 2011 | Cortez | PIMENTA, Selma Garrido; ALMEIDA, Maria Isabel de. | Pedagogia Universitária: Caminhos para a Formação de Professores | 9 |
| 14 | 2012 | Papirus | D’ÁVILA, C. M.; VEIGA, I. P. A. (org.) | Didática e Docência na Educação Superior: implicações para a formação de professores | 8 |
| 15 | 2014 | Cortez | PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Lea das Graças C | Docência no Ensino Superior | 16 |
| 16 | 2014 | Junqueira & Marin | CUNHA, Maria Isabel da (org.) | Estratégias Institucionais para o Desenvolvimento Profissional Docente e as Assessorias Pedagógicas Universitárias: memórias, experiências, desafios e possibilidades | 11 |
| 17 | 2015 | Cortez | ZABALZA, Miguel A | O estágio e as práticas em contextos profissionais na formação universitária | 8 |
| 18 | 2015 | Junqueira & Marin | BROILO, Cecília Luiza | Assessoria pedagógica na universidade: (con)formando o trabalho docente | 17 |
| 19 | 2015 | Summus | MASETTO, Marcos Tarciso | Competência pedagógica do professor universitário | 12 |
| 20 | 2016 | CRV | FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina (org.) | Epistemologias da Docência Universitária | 13 |
| 21 | 2016 | UFGD | LIMA, Paulo Gomes | Docência e formação universitária no Brasil: desafios e encaminhamentos | 5 |
| 22 | 2016 | Junqueira & Marin | CUNHA, Maria Isabel da (org.) | Pedagogia Universitária: Energias Emancipatórias em Tempos Neoliberais | 7 |
| 23 | 2017 | Papirus | CUNHA, Maria Isabel da | Reflexões e Práticas em Pedagogia Universitária. | 11 |
| 24 | 2017 | FUNPEC | MASSABNI, Vânia Galindo et al. | Ensaios pedagógicos e a docência no ensino superior | 7 |
| 25 | 2020 | EDIPUCRS | CUNHA, Maria Isabel da. RIBEIRO, Gabriela Machado. | Práticas Pedagógicas na Educação Superior: desafios dos contextos emergentes | 9 |
| 26 | 2020 | Paço Editorial | AZEVEDO, Maria Antonia Ramos de (org) | Pedagogia Universitária em Foco | 8 |
| 27 | 2021 | Appris | GRASEL, Cláudia Elisa. | Pedagogia Universitária e a Área da Saúde | 3 |
| 28 | 2022 | Cortez | D'ÁVILA, Cristina | Didática sensível: contribuição para a didática na educação superior | 5 |
| 29 | 2022 | CRV | CUNHA, Maria Isabel da. | Textos em foco: docência, prática pedagógica e Educação Superior | 23 |
Fonte: Elaborada pelas autoras, 2023.
Foram excluídos os livros que não estavam escritos em língua portuguesa, os repetidos e aqueles que não retratam a realidade brasileira neste quesito, bem como os livros que não foram encontrados virtual ou fisicamente para análise. Após a identificação e seleção dos livros, realizou-se a leitura dos prefácios e dos sumários com o objetivo de identificar quais os temas abordados, bem como o contexto de produção das obras, e, a partir desse primeiro movimento de aproximação com as obras selecionadas, foi construída uma matriz de síntese como importante ferramenta de extração, organização e interpretação qualitativa de dados de revisão da literatura. Realizou-se, assim, a compilação de dados por meio de um quadro síntese que orientou e norteou a análise (Klopper; Lubbe; Rugbeer, 2007).
Para análise dos dados optou-se pela análise de conteúdo na modalidade temática, como técnica de tratamento dos dados que consiste em identificar a unidade de registro, balizada pelo critério semântico, que tem o tema como base. O tema enquanto unidade de registro, ou seja, uma unidade de significação, corresponde a uma regra de recorte (do sentido, e não da forma) que, segundo Bardin (2016, p. 135), “é geralmente utilizada para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças e tendências”.
A análise de conteúdo desenvolveu-se seguindo as três fases, definidas por Bardin (2016): pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados – a inferência e a interpretação. Na pré-análise, efetuou-se o primeiro contato com o material a ser analisado, realizando-se a leitura flutuante dos prefácios e dos títulos dos capítulos. Após isso, iniciou-se a exploração do material na tentativa de identificar os assuntos e temas mais recorrentes nos livros e, também, aqueles assuntos que não estão sendo abordados, ou seja, identificar as presenças e as ausências. Para realizar esse movimento de identificação e extração de informações, utilizou-se o software Atlas Ti (versão 2023 – Windows) por se tratar de uma ferramenta que auxilia no processo de organização da análise dos dados.
Adota-se como estratégia de categorização a frequência semântica (Tabela 1) por entender-se que a frequência com que os assuntos aparecem nas obras analisadas é significativa, funcionando como um indicador. Concorda-se com Bardin (2016, p. 109) que “a importância de uma unidade de registo aumenta com a frequência de aparição”. Além disso, compondo a análise de conteúdo utilizam-se categorias, oriundas dos títulos das obras. Os temas são os seguintes: Pedagogia Universitária, Docência Universitária, Profissionalidade Docente, Questões e Práticas Pedagógicas da Docência Universitária, Assessoria Pedagógica. Os referidos dados são cotejados com a literatura, permitindo que se tenha uma visão sobre essas produções.
3 Produção bibliográfica acerca da Pedagogia Universitária: quais, quantos são e o que revelam os livros publicados
Como explicitado acima, a partir dos descritores utilizados (Pedagogia Universitária, Formação do professor universitário e Assessoramento Pedagógico) identifica-se 29 obras (Quadro 1), no período de 2007 a 2022, balizados pelos critérios de inclusão definidos, o qual demonstra, de forma esquemática, informações fundantes sobre as obras: título, autores, editora, ano de publicação e número de capítulos.
O livro de Engers e Morosini (2007) intitulado Pedagogia universitária e aprendizagem foi organizado com base no material apresentado no IV Seminário em Pedagogia Universitária (conferências e exposições dos componentes dos painéis), que teve como foco a Aprendizagem no Ensino Superior. Os textos que compõem o livro propõem reflexões teórico-metodológicas acerca das múltiplas e complexas dimensões que permeiam o ensinar e o aprender no Ensino Superior.
O livro de Severino (2008) faz parte da coleção “Seminários de Pedagogia Universitária”, organizada pela Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo. A obra de Cassani et al. (2008) apresenta o esforço institucional da Universidade Federal de Santa Catarina de estimular reflexões e produções de seus professores sobre a pedagogia universitária. A autora dialoga com dois estruturantes consubstanciados na pedagogia universitária configurados por saberes provenientes do campo específico do conhecimento e do campo pedagógico. A pesquisa e a reflexão sistemática das práticas docentes possibilitam produzir e ressignificar conhecimentos.
A professora Maria Isabel da Cunha é organizadora/autora/coautora de oito das 31 obras analisadas. Sua obra de 2008, intitulada Pedagogia universitária e produção de conhecimento (Broilo e Cunha, 2008), traz a experiência de grupos brasileiros e do exterior que pesquisam Pedagogia Universitária, Formação de Professores e Educação Superior.
Em Pedagogia Universitária e Desenvolvimento Profissional Docente, Isaia e Bolzan (2009) apresentam constructos envolvendo Trajetórias no Ensino Superior e suas dimensões pessoal, profissional e institucional; Desenvolvimento Profissional e os Processos Formativos na Universidade; e pesquisas que tratam do campo da Pedagogia Universitária.
A obra de Almeida e Pimenta (2009) reúne textos que discutem as iniciativas institucionais de valorização e fortalecimento da docência no contexto da Universidade de São Paulo (USP). O livro apresenta, também, as discussões tecidas ao longo de 2007 e 2008 nos Seminários de Pedagogia Universitária.
O livro de Masetto (2010) compõe a Coletânea Cadernos de Pedagogia Universitária. O autor introduz sua obra destacando o paradigma do que chama de processo de ensino, centrado na transmissão de informações e em uma visão tecnicista do planejamento, metodologias de ensino e avaliação. Identificando o referido paradigma em seus limites epistemológicos, propõe um paradigma centrado no processo de aprendizagem no Ensino Superior.
O livro organizado por Bergamo (2010) parte de uma autoria coletiva, de um grupo da Faculdade São Francisco de Barreiras (FASB), no oeste baiano. Bergamo afirma, na introdução da obra, que ele e os demais autores pensaram a estrutura do livro seguindo os cinco momentos do método em pedagogia histórico-crítica: prática social, problematização, instrumentalização, catarse e síntese.
O livro de Penin (2010) reúne reflexões abordadas nos Seminários de Pedagogia Universitária da USP. Ela traz o debate da necessidade de formação continuada na docência no Ensino Superior e norteia a discussão ao longo do livro com base em três importantes questionamentos, a saber: como categorizar a docência realizada no Ensino Superior na atualidade, tendo em vista a história deste nível de ensino? É possível uma profissionalização na docência do Ensino Superior da forma como ocorreu com a da educação básica? É viável propor novas formas de profissionalização docente no Ensino Superior, tendo em vista sua especificidade?
Cunha (2010) questiona a fluidez dos espaços de formação, percebendo o “não lugar” que ocorre por falta de regulação legal para o exercício da docência universitária, reforçando a compreensão de que essa é uma responsabilidade individual dos sujeitos. Define teoricamente os conceitos de espaço, lugar e território. “Quando um espaço se torna lugar? O que transforma o espaço em lugar? Quando o lugar se transforma em território?” Além dessa importante contribuição teórica, traz casos específicos de pesquisa realizada com três instituições universitárias no sul do Brasil voltados para a formação docente.
O livro de Soares e Cunha (2010) aborda a formação do professor universitário em cursos de pós-graduação. Contempla produções de autores e grupos de pesquisa reconhecidos no campo da pedagogia universitária e formula reflexões e proposições que fornecem pistas para reformulação dos projetos político-pedagógicos desses cursos. As autoras inscrevem-se no grupo de pesquisadores do tema responsáveis por diversas publicações e pela coordenação de eventos nacionais e internacionais tomando a responsabilidade de difundir os conhecimentos na área. O livro decorre do estudo intitulado “O espaço de formação da docência universitária nos programas de pós-graduação em educação de duas universidades públicas da Bahia”, desenvolvido no âmbito da pesquisa interinstitucional “Trajetórias e lugares de formação da docência universitária: da perspectiva individual ao espaço institucional a ser realizada”, que pretendeu mapear as alternativas existentes de formação do professor universitário, especialmente as que acontecem em espaços formais, ainda que não de maneira universalizada, e, muitas vezes, sem condição de acompanhamento, reflexão e visibilidade de seus resultados. O presente estudo dedicou atenção ao espaço da pós-graduação stricto sensu em educação, que crescentemente acolhe, como pós-graduandos, professores da educação superior com formação em áreas diversas. O trabalho objetivou conhecer as motivações políticas e institucionais, formatos, bases epistemológicas e significados dos programas de pós-graduação em educação das instituições, no que tange à formação da docência universitária, tomando como base os depoimentos de egressos e de coordenadores desses programas.
O trabalho de Cruz Ramos (2010) mostra como a ideia de universidade está se transformando no mundo todo, trazendo pressões para mudanças da prática docente na universidade. A autora, com base em sua tese de doutorado, revisa as reflexões que têm sido produzidas sobre a redefinição da profissionalidade docente no contexto da remodelação da universidade, procurando apontar alternativas mediante a experiência de ações de atualização didático-pedagógica realizadas no contexto português, particularmente na Universidade do Porto. Esse balanço permite compreender os limites identificados e os avanços no enfrentamento dos desafios pela reflexão sobre as possibilidades de reconceitualizar a profissionalidade docente universitária. Pesquisas sobre características de programas institucionais de atualização didático-pedagógica como a realizada nessa obra proporcionam novos olhares sobre a especificidade da docência na educação superior, ampliando significativamente as perspectivas de inovação.
O livro de Pimenta e Almeida (2011) discute a docência e a formação do professor universitário a partir de três eixos estruturantes, a saber: 1) Pedagogia e docência Universitária – sobre as políticas e ações de formação do docente universitário no âmbito da USP; 2) Buscas e impasses na Universidade Contemporânea, sobre as finalidades da universidade na perspectiva da formação humana × formação profissional; 3) Encaminhamentos para a prática docente Universitária, que traz a articulação ensino-pesquisa, a atuação docente no Ensino Superior, as tecnologias no contexto do Ensino Superior e a ética na docência universitária.
D’ávila e Veiga (2012) apresentam uma obra dividida em duas partes. Na primeira, discute-se o problema da docência no Ensino Superior e da formação de professores para a educação básica. Na segunda parte do livro, dedicada à reflexão sobre a docência e a formação de professores para o Ensino Superior, os autores se incumbem de fazer emergir as questões que atingem a docência e a formação nesse nível de ensino, apontando seus dilemas e perspectivas de superação.
O livro de Pimenta e Anastasiou (2014) é parte da coleção “Docência em Formação” e propõe discutir as questões referentes à docência no Ensino Superior, destacando a importância dos professores e de seu trabalho docente neste nível. Trata da construção da identidade do professor. Em seu livro de 2014, Cunha procurou relacionar as estratégias com a compreensão conceitual de formação docente que atua como seus pressupostos. Descreve, posteriormente, algumas estratégias que vêm sendo construídas como possibilidades de estímulo ao desenvolvimento profissional dos docentes universitários e a qualidade do Ensino Superior. Ao final há uma síntese da investigação realizada e das possíveis conexões entre os diversos estudos
O livro de Zabalza (2015) apresenta as principais considerações que permeiam o estágio e as práticas educativas, analisa o estágio sob diferentes perspectivas e enfatiza a existência de poucas publicações na literatura no país. No decorrer da obra, o autor apresenta um resgate histórico das reformas curriculares, apontando alguns riscos e possíveis reflexos na educação superior, visto que alguns pontos implicaram nas concepções sobre o estágio e a prática no ambiente acadêmico.
A obra de Broilo (2015), com prefácio de Isabel Alarcão, trata sobre assessoria pedagógica, define o papel dos assessores pedagógicos universitários – profissionais que integram o setor pedagógico da universidade – propõe e reflete sobre ações conjuntas de desenvolvimento de competências específicas dos docentes de Ensino Superior, utilizando a investigação para iniciar um processo de intervenção e “superar” o senso comum pedagógico. O assessor pedagógico não substitui o professor; deve ajudá-lo, apoiá-lo, desafiá-lo, escutá-lo, com ele refletir e, em conjunto, avaliarem os resultados. Quanto às especificidades da assessoria pedagógica universitária, Broilo (2015) indica que se referem às mediações no setor didático sobre questões educativas relacionadas com o universo social dos docentes e como estes desenvolvem as práticas no cotidiano.
Em Masetto (2015), reúnem-se reflexões e pesquisas que contribuem com o diálogo sobre a relação ensino-aprendizagem na universidade. A obra aborda diferentes aspectos da atividade do professor, como o planejamento curricular, os recursos técnicos e tecnológicos disponíveis hoje e a interação entre professores e alunos.
O livro organizado por Fávero e Tonieto (2016) reúne produções de pesquisadores de várias universidades que integram o “Projeto Docência Universitária, políticas educacionais e expansão da educação superior: perspectivas e desafios” vinculado ao Programa de Pós-Graduação (PPG) da Universidade de Passo Fundo. Os textos teorizam sobre as concepções de docência e sobre as epistemologias que fundamentam a prática pedagógica na universidade.
Lima (2016) descreve seu livro como uma “reunião de textos” que discutem questões norteadoras para a atualidade da docência universitária. Ressalta que os autores falam de suas realidades e contextos, compostos por docentes de três instituições públicas. Os textos abordam o papel da docência universitária como estratégia problematizadora na atualidade, na busca de produzir conhecimentos significativos. Abordam também a centralidade do estágio curricular no papel de articular a universidade e o mundo do trabalho. Além disso, abordam a importância do desenvolvimento docente, para que a docência universitária possa exercer seu caráter estratégico no desenvolvimento do país, sendo “um espaço de reflexão, críticas e mudanças”. Um outro texto presente no livro analisa a perspectiva do docente universitário nos cursos de enfermagem, trazendo os aspectos profissionais e sociais envolvidos. Por fim, aborda a formação docente e o reconhecimento do professor universitário quanto à necessidade do desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o seu contexto de atuação.
A obra de Cunha (2016) propõe compreender os processos de ensinar e aprender que apresentam perspectivas de emancipação, entendidas como estimuladoras de intervenções comprometidas com as rupturas que atuam no sentido da mudança, traz a reflexão sobre a universidade, seus desafios políticos e epistemológicos, explora a condição do magistério na Educação Superior, incluindo as crises da profissão docente, com repercussões sobre os saberes necessários ao seu exercício e descreve as experiências inovadoras desenvolvidas pelos docentes e seus alunos em oito cursos de graduação. A perspectiva da inovação, sob a ótica da ruptura paradigmática, é apresentada a partir dos referenciais teóricos que sustentaram a trajetória investigativa.
Em seu livro de 2017, Cunha reúne estudos de pesquisadores na área da pedagogia universitária, discutindo o lugar da formação do professor da educação superior e a ausência de políticas, com o objetivo de tornar a pedagogia universitária o eixo do trabalho acadêmico. Aborda os currículos universitários em uma perspectiva de reconfiguração epistemológica, analisa as principais correntes que têm sustentado o campo da pedagogia universitária e traz questões referentes entre a relação entre teoria e prática como eixo dos processos de transformação epistemológica que se caracterizam como inovação.
Os autores que compõem o livro de Massabni (2017), docentes da USP que ministram disciplinas da Etapa de Preparação Pedagógica no Programa PAE,2 dedicaram-se a compor textos que, de forma simples e direta, abordem temas de educação para pós-graduandos de diferentes formações e origens (quanto a seus cursos de graduação), os quais nem sempre tiveram a oportunidade de maior contato com leituras da área pedagógica. Buscou-se uma introdução aos temas, de forma a respaldar leituras necessárias ao aprofundamento teórico no vasto campo da pedagogia. Ainda que com o risco da superficialidade concernente à proposta de uma aproximação inicial à área, os autores não se furtaram a tratar de temas consagrados na área pedagógica de forma sintética, os quais ensejam ainda muitas discussões, especialmente quando considerado o âmbito do Ensino Superior, quais sejam: a aula, a avaliação, a relação professor-aluno, os recursos de ensino e as metodologias, o professor e sua prática e a base de conhecimentos pedagógicos da ação docente. Esses temas são sintetizados, com maior ou menor ênfase, conforme o autor, nos capítulos que compõem esse livro.
A obra de Cunha (2020) é fruto de pesquisa do Núcleo de Excelência em Ciência, Tecnologia e Inovação, Educação Superior e Contextos Emergentes (Pronex), com fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), e reúne textos apresentados pelos conferencistas no “XI Seminário Internacional de Educação Superior”, realizado em setembro de 2018 e organizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O seminário procurou discutir e debater propostas para os novos contextos que vêm caracterizando a Educação Superior na América Latina.
A obra de Azevedo (2021) decorre da base coletiva de produção de conhecimento de um grupo de pesquisa sobre Pedagogia Universitária, entendida como alicerce dos processos pedagógicos universitários, potencializando o ensino, a pesquisa e a extensão na construção de conhecimentos. Os temas de seus oito capítulos perpassam a Pedagogia Universitária e o desafio da interdisciplinaridade, inovação e interculturalidade, seus espaços, territórios, processos de internacionalização, identidade docente, formação pedagógica de professores e a produção do projeto pedagógico e curricular nas instituições universitárias.
A obra de Grasel (2021) parte do ponto de que a formação inicial na área da saúde não apresenta, na maioria das vezes, preocupação com a formação docente; as políticas educacionais situam, historicamente, a pós-graduação stricto sensu como a principal responsável pela formação docente; as políticas de saúde e educação enfatizam a demanda de uma formação ampliada e crítica, possibilitando inserir a formação docente como um dos constituintes formativos; a formação docente constitui processos que se concretizam em diferentes tempos e espaços, imbricando experiências e saberes. Observam-se lacunas significativas entre as perspectivas da formação na Saúde ancoradas em cuidado integral, humanização, integração serviço-comunidade e a formação docente.
Reflexões acerca da compreensão dos processos subjetivos que estão na base das ações humanas cotidianas mais simples estão presentes também no ensinar e no aprender. A ideia da obra de D’ávila (2022), da didática sensível, é de que há vida, sentimentos e emoções nas relações estabelecidas entre professores e alunos e seus pares, assim como entre esses sujeitos e o conhecimento.
Ainda sobre Cunha, seu livro publicado em 2022 responde a uma demanda de estudiosos e pesquisadores interessados no campo da pedagogia universitária e na formação de professores para esse nível de ensino. Reúne artigos já publicados pela autora que são apresentados numa única obra, procurando favorecer uma visão de conjunto de suas produções
Levando-se em consideração o marco temporal de produção dos livros e tendo-se como referência as políticas indutoras para a Educação Superior, principalmente o REUNI, criado em 2007 (Brasil, 2007), observa-se, no Quadro 1, que, no período de 2007 a 2011, foram produzidos 13 livros, cujas principais temáticas abordam: pedagogia universitária (cinco), docência universitária (cinco), profissionalidade docente (dois), questões e práticas pedagógicas da docência universitária (um). De 2012 a 2016 foram produzidos nove livros, cujas temáticas abordam: docência universitária (cinco), questões e práticas pedagógicas da docência universitária (dois), assessoria pedagógica (um) e pedagogia universitária (um). De 2016 a 2022 foram produzidos sete livros que tratam da pedagogia universitária (dois) e de questões e práticas pedagógicas da docência universitária (cinco).
Assim, a categoria “Docência Universitária” é cotejada em 10 obras, sendo discutida e analisada por muitos estudiosos do campo da Educação Superior (Severino, 2008; Cassiani, 2008; Isaia; Bolzan, 2009; Masetto, 2010, 2015; Cunha 2010, 2022; Soares; Cunha, 2010; D’ávila; Veiga, 2010; Pimenta; Anastasiou, 2014). Cunha (2022, p. 119) assinala que o “arcabouço histórico conceitual do entendimento da docência e da mudança paradigmática, que vem afetando a concepção de conhecimento e incluindo novas racionalidades, tem tido importante influência no campo da formação de professores”. A autora assinala que as crises que assolam as universidades, os questionamentos sobre o papel dos professores, a incorporação de argumentos subjetivos quando estes se referem sobre sua profissionalidade possibilitam ao “Estado-Regulador fazer valer uma visão pragmática, onde têm prestígio aquilo que representa o resultado da produtividade competitiva entre os sujeitos” (p. 121). Nesse contexto, os professores estão vivenciando um processo de intensificação de seu trabalho, suportado pelas tecnologias de informação que influenciam na extrapolação dos tempos acadêmicos, além da precarização da profissão.
A categoria “Pedagogia Universitária”, ressaltada em 08 obras (Engers; Morosin, 2007; Cunha; Broilo, 2008; Almeida; Pimenta, 2009, 2011; Cunha, 2016; Lima, 2016; Azevedo, 2020; Grasel, 2021) é interpretada sob vários constructos, ou seja, abrange desde as múltiplas e complexas dimensões que permeiam o ensinar e o aprender no Ensino Superior, os saberes provenientes do campo específico do conhecimento e do campo pedagógico, as trajetórias no Ensino Superior e suas dimensões pessoal, profissional e institucional, os processos formativos na Universidade, as pesquisas que tratam do campo da Pedagogia Universitária, as iniciativas institucionais de valorização e fortalecimento da docência no campo universitário, o espaço de formação da docência universitária nos programas de pós-graduação em educação em instituições públicas, entre outros. Azevedo, Xavier e Carrasco (2020, p. 7) ponderam que a Pedagogia Universitária, aplicada ao contexto do Ensino Superior, “alicerça os processos pedagógicos universitários, potencializando o ensino, a pesquisa e a extensão na construção de conhecimentos”.
Segundo as autoras, a Pedagogia Universitária, apesar de ser recente, tem influenciado a reconfiguração e a qualificação da prática docente.Essa percepção pode explicar o movimento recente na produção dos livros, categorizados neste artigo por “Questões e práticas pedagógicas da docência universitária”, privilegiadas em oito obras (Bergamo, 2010; Cruz Ramos, 2010; Soares; Cunha, 2010, 2014, 2020; Zabalza, 2015; Massabi, 2017, D’ávila, 2022). As categorias “Assessoria Pedagógica” (Broilo, 2015) e “Profissionalidade Docente” (Penin, 2010; Fávero; Tonieto, 2016) são contempladas em três obras. Observa-se que essas duas categorias estão sendo consideradas em temas abrangentes, desde a pedagogia universitária até a formação e docência universitária.
Nesse aspecto, é promissor a análise que Lucarelli (2014, p. 15) faz acerca da assessoria pedagógica. Para a autora, “desde la perspectiva fundamentada crítica se reconoce la tarea del asesor pedagógico como una acción intensamente marcada por el contexto social e institucional y orientada por políticas universitarias tendientes al mayor grado de democratización (...)”, favorecendo principalmente os estudantes universitários em seus processos formativos, bem como sua permanência, a partir de um ensino crítico e de qualidade.
4 Temas e assuntos que integram os livros: análise da frequência semântica
A análise dos termos mais frequentes, realizada no software Atlas TI, encontrou 267 termos, que foram agrupados por similaridade semântica. A Tabela 1 apresenta o registro da frequência dos assuntos, utilizando, para isso, a denominação dos capítulos na íntegra. Verifica-se uma frequência maior de assuntos relacionados com a formação de professores, docência e Educação Superior, conforme especificado: a) Formação e suas variantes (Formação de professor/de professores, Formação Pedagógica, Formação docente/de docentes, Formação Inicial e/ou Continuada, Trajetórias de Formação) representam 10,35%, com 32 itens de frequência; b) Docência e suas tipologias (Docência Universitária e Docência no Ensino Superior) abarcam 5,17%, com 16 itens de frequência; c) Universidade e suas designações (Universidade brasileira, Políticas da Educação Superior, Contexto Universitário) abrangem 5,17%, com 16 itens de frequência; d) Educação Superior e sua variante (Ensino Superior) atingem 4,85%, com 15 itens de frequência; e) Estágio e suas modalidades (Estágio na formação universitária, Estágio na formação profissional) representam 4,2%, com 13 itens de frequência; f) Avaliação e suas modalidades (Avaliação Externa, Avaliação Institucional) representam 4,2%, com 13 itens de frequência; g) Estratégias Institucionais representam 3,88%, com 12 itens de frequência.
Por outro lado, os termos “Assessoria Pedagógica” e “Projeto Pedagógico” aparecem com frequência mínima.
Tabela 1 Frequências dos assuntos de acordo com a denominação dos capítulos.
| Freq. | % | |
|---|---|---|
| 267 | 100 | |
| Formação Formação de professor / de professores Formação Pedagógica Formação docente / de docentes Formação Inicial e / ou Continuada Trajetórias de Formação |
32 | 10,35 |
| Docência Docência Universitária Docência no Ensino Superior |
16 | 5,17 |
| Universidade Universidade brasileira Políticas da Educação Superior Contexto Universitário |
16 | 5,17 |
| Educação Superior Ensino Superior |
15 | 4,85 |
| Estágio Estágio na formação universitária Estágio na formação profissional |
13 | 4,20 |
| Avaliação Avaliação Externa Avaliação Institucional |
13 | 4,20 |
| Estratégias Institucionais | 12 | 3,88 |
| Inovação Tecnologias Inovações Pedagógicas Pedagogia da Inovação |
11 | 3,55 |
| Educação | 9 | 2,91 |
| Didática Didática Sensível |
9 | 2,91 |
| Qualidade Qualidade da Educação |
8 | 2,58 |
| Práticas Práticas Pedagógicas |
8 | 2,58 |
| Aprendizagem Processo de Aprendizagem Aprendizagem Experiencial |
8 | 2,58 |
| Pedagogia universitária | 7 | 2,26 |
| Pós-graduação Programas de pós-graduação |
7 | 2,26 |
| Teoria Perspectivas Teóricas Crítica Teórica |
7 | 2,26 |
| Internacionalização | 6 | 1,94 |
| Desenvolvimento Profissional Docente | 6 | 1,94 |
| Profissão docente Profissionalização docente Profissionalidade Professoralidade |
6 | 1,94 |
| Estudantes Universitários | 5 | 1,61 |
| Identidade | 5 | 1,61 |
| Professor Iniciante Docentes iniciantes |
5 | 1,61 |
| Epistemologia Ciência |
5 | 1,61 |
| Pedagogia Pedagogia como ciência Pedagogia Científica |
5 | 1,61 |
| Saberes da Docência Saberes Docentes Saberes Pedagógicos |
4 | 1,29 |
| Aula Universitária Sala de Aula |
4 | 1,29 |
| Pesquisa Pesquisa-ação Cientificidade |
4 | 1,29 |
| Currículo | 3 | 0,97 |
| Ensino com pesquisa | 3 | 0,97 |
| Flexibilidade | 3 | 0,97 |
| Inclusão | 3 | 0,97 |
| Projeto Pedagógico | 3 | 0,97 |
| Assessoria Pedagógica Assessor Pedagógico |
3 | 0,97 |
| Culturalidade Interculturalidade |
3 | 0,97 |
Fonte: Elaborada pelas autoras, 2023.
5 Considerações: alguns desafios para o campo da formação de professores
Neste texto procura-se identificar o que revela a produção bibliográfica (livros) acerca da Pedagogia Universitária, da formação docente e do assessoramento pedagógico universitário no período de 2007 a 2022. Fruto do Projeto de Pesquisa “Assessoramento Pedagógico Universitário: Singularidades e Sincronicidades num Cenário Internacional”, financiado pela Fapesp e coordenado pela Profa. Dra. Maria Antonia Ramos de Azevedo, da Unesp, Câmpus de Rio Claro, utiliza a estratégia metodológica Revisão Integrativa para analisar 29 obras identificadas a partir dos descritores “Pedagogia Universitária”, “Formação Docente” e “Assessoramento pedagógico universitário” e observa que o campo da Pedagogia Universitária vem se configurando, nos seus processos formativos, sob uma perspectiva histórica, política e social.
A autonomia das universidades didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e a indissociabilidade de ensino, pesquisa e extensão consubstanciadas no artigo 207 da Constituição de 1988 reforçam a educação superior brasileira, seja no âmbito da formação de estudantes, seja no âmbito do trabalho do professor, bem como evidenciam a produção do conhecimento como eixo fundante. As reformas nos campos político e econômico incorporam, no entanto, tendências mundiais de padronização e regulamentação do trabalho dos professores no Ensino Superior, no qual a lógica da produtividade tensiona a docência universitária tendo em vista os critérios quantitativos que refletem tendências mercadológicas em um processo de secundarização do ensino e precarização do trabalho docente, sem circunstanciar as condições concretas e históricas, dos pontos de vista social e institucional, em que esse trabalho se efetiva. Nesse sentido, é importante ressaltar que o contexto e a concepção de universidade dimensionam o campo da Pedagogia Universitária. Almeida e Pimenta (2014, p. 8) assinalam que a universidade, enquanto instituição educativa, objetiva o permanente exercício da crítica, que se sustenta “(...) na produção do conhecimento a partir da problematização dos conhecimentos historicamente produzidos e de seus resultados na construção da sociedade humana e dos novos desafios e demandas (...)”. As autoras ressaltam que esses desafios são produzidos inicialmente no campo da formação didático-pedagógica de professores, ou seja, do processo de ensinar e aprender, enfim, por meio das relações que são estabelecidas entre os sujeitos e os objetos de conhecimento.
Considerando-se que o campo epistemológico da Pedagogia Universitária é complexo e se encontra em construção, ressalta-se a contribuição de Cunha (2004). Pedagogia Universitária é “[...] um campo polissêmico de produção e aplicação dos conhecimentos pedagógicos na educação superior(...), e, um espaço de conexão de conhecimentos, subjetividades e culturas (...) orientado para a formação de uma profissão” (Cunha, 2006, p. 349). Os dados revelam, seja pela análise das categorias, seja pela frequência semântica, que a denominação “Pedagogia Universitária” foi dando espaço para outras denominações, especialmente “Formação Docente”, tendo em vista que, no período de 2016 a 2022, foram produzidos apenas dois livros que tratam da Pedagogia Universitária.
Outro destaque a considerar diz respeito à emergência dos conteúdos relacionados com as “Questões e práticas pedagógicas da docência universitária”, que vão tomando corpo ao longo do tempo e se tornando fundante na produção acadêmica. A análise desse processo pressupõe considerar o contexto atual da universidade, seus desafios e políticas educacionais e entender a universidade como instituição social e organização social (Chaui, 2003). O tema “Assessoria Pedagógica” ainda não é representativo no país, mas se constitui em objeto de investigação, tendo em vista sua potencialidade.














