Uma obra da profissão docente
SILVA, A. L. G. et al. (org.). Rede colaborativa universidade e educação básica [recurso eletrônico: formação docente em debate]. Salvador: C&A Alfa Comunicação, 2022, 176p.
O livro é organizado pelas autoras Ana Lúcia Gomes da Silva,1 pós-doutora em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), doutora e mestra em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); Juliana Cristina Salvadori,2 professora adjunta no Departamento de Ciências Humanas, Campus IV, Jacobina, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB); Fernanda Borges de Andrade,3 doutora pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na linha de pesquisa Saberes e Práticas Educativas, professora adjunta na UFTM; Váldina Gonçalves da Costa,4 doutora em Educação Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professora na UFTM. A obra Rede colaborativa universidade e educação básica: formação docente em debate é constituída de um prefácio escrito pela professora Valéria Moreira Rezende, no qual a mesma traz uma breve apresentação da importância da obra prefaciada para a comunidade acadêmica, permitindo trazer à luz a diversidade de teias que compõem o processo de formação docente e discente em diversos tempos e espaços, visto que os artigos que compõem o texto nascem da realidade de diferentes chãos de escolas. À sequência, na seção “apresentação”, as autoras do livro trazem um breve resumo de como os textos serão desenvolvidos e ampliados, lançando mão de uma linguagem científica robusta, mas, ao mesmo tempo, própria de educadores para educadores. Buscando delinear e apresentar os contextos de onde nascem as mudanças e pensamentos reflexivos das práticas pedagógicas, as autoras trazem uma introdução intitulada “Formação de professores em pauta na educação superior e educação básica em rede colaborativa”, em cujo tópico as mesmas descrevem suas andanças em vários grupos de pesquisas e as insurgências da prática pedagógica.
Uma aliança entre as redes colaborativas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFMT) e Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Campus IV busca pensar os desafios centrais da pesquisa em educação e formação de professores olhando para o trabalho docente e para as teias colaborativas que fazem emergir caminhos e práticas pedagógicas atravessados epistemicamente de forma que tais atravessamentos aconteçam no campo da interdisciplinaridade em consonância com a formação de professores, apontando que, de forma concomitante, a prática docente e a formação não acontecem em um vazio, exigindo uma episteme própria imbricada na diversidade humana e na valorização em que pulsa os ritos e regras culturais.
Em um campo diverso e sublime de práticas pedagógicas, as narrativas que surgem nos ateliês colaborativos apontam para saberes experienciados na troca de relações, dialogando com saberes escolares, avaliações de aprendizagens, conteúdos do componente curricular de forma a problematizar o ensino e a aprendizagem, observando sempre o trato pedagógico nas e a partir das ações desenvolvidas ou das proposições emergentes do contexto. Tais pensamentos e proposições formativas dialogam com os pensamentos freirianos quando essa formação nasce de um diálogo direto entre pares que vivenciam a sala de aula e nos pensamentos de Nóvoa (1992), que define que a profissão docente é um processo, em que os novos docentes irão aprender no processo e no contato com os mais experientes.
Nesse sentido, o conceito primeiro que nos aponta essa seção é descrever os resultados e o que são os “ateliês colaborativos”, espaço de troca de experiências e ao mesmo tempo de experienciar novos caminhos a partir da reflexão sobre e na prática pedagógica desenvolvida, oferecendo espaço para questionamentos como: de que forma estão sendo formados os professores? E de que forma os professores têm formado seus alunos na educação básica? Pautados na concepção formativa dos professores, e orquestrando-se a partir dos ateliês formativos, emergem caminhos que desembocam na profissionalidade docente. Conceitos-chave operacionalizados na pesquisa em rede colaborativa levam em consideração as implicações epistêmico-políticas e metodológicas para a rede de pesquisa, observando a concepção da prática pedagógica e da formação docente em exercício ou inicial, cartografando, (des)territorializando, entendendo que a concepção de formação inicial e em exercício é compreendida como ação social que necessita de intervenção.
O livro é dividido em duas partes com quatro artigos cada, em que as contribuições dos diferentes colaboradores trazem à luz as práticas experienciadas em salas de aula. O primeiro texto escrito por Izanete Marques Souza, “Intitulando o ensino de literatura em tempos de negacionismo da ciência”, traz um relato de experiência e de sua participação nos ateliês formativos e o quanto esses encontros contribuíram com suas aplicações em sala de aula nas turmas do 3º do ensino médio. A autora descreve os conflitos e desafios ao buscar trabalhar com literaturas modernas em sala de aula, dada a situação vigente de um negacionismo da ciência que evidencia um segregacionismo de obras literárias de autores comunistas. Nesse sentido, a pretensão formativa da professora caminha pelo rompimento de ideologias segregacionistas e tende a uma formação que preserve a valorização cultural, sociopolítica e social calcada nos devires do multiculturalismo e na concepção do outro como sujeito de igualdade. No texto “Ateliê colaborativo: práticas pedagógicas e diálogos”, escrito por Vaneza Oliveira de Souza, descreve-se a importância dos ateliês colaborativos como dispositivos de formação e autoformação de onde parte as discussões de uma prática pedagógica vivenciada no contexto das aulas on-line; a finalidade da pesquisa é aliar estudos étnico-raciais ao gênero textual de notícias dentro da disciplina de língua inglesa, cuja temática fez que os alunos adentrassem as discussões dos campos sociais e culturais localizados à marginalidade excluída da população negra.
Os autores Vanessa Cristine Silva e Nilton Vieira Júnior, em seu texto “Investigação do recurso de realidade aumentada para ensino de cursos de saúde do ensino técnico”, adentram o campo de trabalho da realidade aumentada como possibilidade de modificar o processo de ensino e de tal forma que houvesse uma aproximação entre a realidade da sala de aula e os possíveis desafios existentes na profissão, buscando, dessa forma, uma aproximação entre o fazer teórico e o fazer prático. Essa ferramenta permite a potencialização de novas experiências e atitudes criativas; em resumo, os autores viajam pelas aplicações da RA dentro da educação.
“Cartografando experiências: pistas (auto)reflexivas de uma prática pedagógica”, de Laís Oliveira Abreu, tece uma rede de visões e conduções calcadas na prática pedagógica desenvolvida por meio de ambiente virtual de aprendizagem no curso de Direito com mais de 90 discentes. A proposta do texto foi relatar o passo a passo das aplicações e tensionamentos da prática desenvolvida por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e buscar, no devir do fazer, novos rizomas que assegurem as ações e aplicações pedagógicas vistas à formação social do sujeito.
A parte II do livro “Práticas pedagógicas E(M)Arremates” inicia-se com o texto “Desafios, tensões e aprendizagens: a pandemia do covid-19 e o ensino remoto”, de Gicelma Cláudia da Costa Xavier, que traz à luz um relato de experiência com as aulas remotas na disciplina de inglês nas turmas do ensino médio/técnico pelo Instituto Federal de Rondônia (IFRO). Nos devires das ações, as tensões estavam nas aplicações tecnológicas nas aulas, dado que a pandemia forçou o trabalho com as aulas remotas; nessa teia, estava a forma como os professores usariam as ferramentas tecnológicas, ou com quais finalidades era também um dos desafios, visto que nem todos os docentes tinham as habilidades necessárias para manusear objetos tecnológicos dentro da sala de aula ou fora dela. Esse desafio, porém, aliado à vontade de mudança da prática docente fez emergir novas possibilidades formativas, tendo as tecnologias digitais como ferramenta de mudança; nesse sentido, a professora passou a usar diferentes ferramentas tecnológicas para manter os alunos interessados no curso e provocar uma aproximação entre os alunos e a professora, e nas tessituras do fazer pedagógico estava a preocupação da desistência dos alunos, que permitiu que a mudança acontecesse de forma a ajudar não só os discentes, mas também o docente, refletindo sobre sua prática e provocando mudanças na sua professoralidade.
João Marcos Vieira Moreira traz em “Da paralisação estadual ao império Romano: a progressão Geométrica da Cifra de Cesar” a descrição de uma aula prática em uma turma do primeiro ano do ensino médio em 2019, em que trabalha com a aplicação da Cifra de César com o objetivo de facilitar a aplicação da progressão aritmética com a turma; nesse contexto, a turma é levada a pensar de forma lúdica e até histórica em como usar conceitos ou conteúdos matemáticos no cotidiano; ao levar os alunos por este caminho, evidencia-se que o professor possui uma abertura pedagógica para além da sua disciplina matemática, o que se traduz no sentido de que ser professor é um constante devir na profissão, é uma apropriação lógica da profissionalidade na ação que vai da teoria à prática e da prática à teoria.
“Desafios, encontros, diversidade: aprendizados de uma professora de matemática” é um texto escrito por Patrícia Ferreira dos Santos, que traz a descrição de sua prática interdisciplinar, visto que, em suas palavras, o professor de matemática não só tem que ensinar matemática, perspectiva que opera no sentido de repensar a profissão como tomada de consciência de atuação profissional em que a prática vai além do ensinar e estende-se também para uma função social, cultural e política, prevalecendo uma interdisciplinaridade como fundamento de cultura e cidadania. O valor cultural presente nas aulas de matemática em uma turma do 5º ano do ensino fundamental possibilitou uma reflexão na/sob a profissão docente, permitindo que independentemente de qual disciplina atue, deva privilegiar o sujeito e sua vivência em primeiro ponto. Essa interseccionalidade entre disciplina e cultura permite o reconhecimento e valorização do sujeito.
Seguimos ao último texto do livro escrito por Rafael Salgado Silva, “Tentando salvar o mundo com minha disciplina: um relato de prática pedagógica”. Nesse texto, o autor descreve sua prática pedagógica no ensino de Química no curso de licenciatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em turmas do 5º semestre. O autor busca incorporar em sua disciplina uma metodologia que leve o discente a ter contato prático quanto à aplicação da Química no ensino médio; nesse emaranhado de devires da formação, o autor tenta minimizar os prejuízos dos seus alunos aplicando aos mesmos conteúdos que não havia visto em sua formação quando licenciando no curso de Química e que os via como fundamentais na formação de seus alunos. Nesse sentido, a disciplina buscou fornecer uma sólida formação pedagógica para que, ao sair da universidade, os alunos tivessem bagagem suficiente para iniciarem na docência.
Na teia que envolve a formação docente e processos de ensino e de aprendizagem, cabe uma relação mútua de troca entre teoria e prática que faz emergir das ações e situações que tentam neutralizar as dificuldades do processo formativo ou ao menos a tentativa de lidar com os novos fluxos de informações e demandas diversas que surgem da e na sociedade. Há nessa conjuntura um esforço hercúleo desprendido do solipsismo, que dialoga com a massa, fazendo uso de diferentes sujeitos na tentativa de mudança. Ou seja, o campo acadêmico, as pesquisas, as professoralidades buscam formas e ferramentas que tendam ao desenvolvimento da educação e práticas que valorize os sujeitos em sua completude, validando a cultura e a diversidade como um processo de ensino e reconhecimento do discente e do docente como sujeito do processo a ser valorizado.
Os paradigmas no campo da educação, no que tange em especial à formação docente, seccionam uma gama de possibilidades que modifica o fluxo corrente de formação que não atenda às reais situações atuais, sendo, dessa forma, absorver o cotidiano e observá-lo para colocar em prática dentro da profissão docente; o que quero dizer aqui, como os autores do livro bem descrevem, é que se faz necessária uma teia de possibilidades construídas no devir da prática e em rizoma da profissionalidade, em que a valorização da reflexão prática seja um caminho no/para o melhoramento formativo, tendo como campo de atuação a sala de aula formal ou informal, onde o docente lida com diversos sujeitos em um único espaço, e são esses sujeitos o tecido de que venho falando nesse texto. E observar o devir da profissão é cunhar um objetivo no qual o aluno seja a principal referência da prática pedagógica, valorizando-o como sujeito do processo e absorvendo a diversidade não como um desafio, mas como um caminho de aproximação com a cultura e valorização do sujeito.
A pesquisa em educação é um processo em constante mudança; a sociedade evoluiu aliando-se às novas tecnologias que permitem um aprimoramento e desvelamento de bens culturais e até valores identitários; nesse sentido, a educação, ou melhor, o processo de formação educacional buscar lidar com essas novas demandas, sejam culturais, sociais, tecnológicas, econômicas e outras, com uma abertura reflexiva sobre a formação docente, validando-a como um alicerce que segure ou assegure de forma significativa a formação discente em que a mesma esteja em patamar de igualdade e de valorização da diversidade de bens culturais e outros. O que o livro nos traz é a representação profícua de que a mudança na prática docente, o revisitar a sua profissão, se faz necessário, dada a necessidade imposta ao campo formativo, seja no lidar com a diversidade como também na aceitação do outro como parte integrante de uma cultura diversa.
A criação dos ateliês, como bem citam as organizadoras do livro, é a possibilidade de trocar experiências e experienciar novas vivências; é o momento de ouvir e opinar, analisar e balizar a prática não apenas subjetivamente, mas para além do comodismo individual, ou seja, como cita Antônio Nóvoa (1992), é o momento de o professor aprender com os mais experientes. É levar em consideração pontos de vista diversos, de forma que agregue à profissão de cada um.
Os resultados surgidos desses ateliês organizados em parceria entre UFTM e UNEB/IV evidenciam que as mudanças só acontecem quando há, como diria Paulo Freire (2019), uma ação-reflexão-ação. É no devir, como citam os autores, que se constrói a profissão, buscando observar nos seus tecidos vivos o ponto de ignição para mudança. Os textos trazem relatos de experiências concretos a partir das perspectivas dos autores/executores das ações e, embora a prática difira da teoria, precisamos deixar claro que o que dá certo em uma turma ou com um conjunto de pessoas não significa que terá o mesmo resultado com outros sujeitos ou que, até certo ponto, provocarão mudanças na ação dos docentes; é nesse experienciar, como diria Freire (2019), que a mudança nasce.
A obra aqui resenhada traz à luz um olhar fervoroso de troca de conhecimento; a sua leitura nos leva a repensar e refletir sobre a prática docente, engendrados na razão da mudança e na perspectiva de levar ao campo científico caminhos que norteiem a subversão de métodos de ensino descontextualizados. Essa obra contribuirá nas/para as reflexões em torno da prática docente, além de contribuir para pensarmos que as ações conjuntas têm resultados coletivos, passando a ideia de que não é o resultado final que possui maior valor, mas sim as aprendizagens no interior do processo que suscitam reflexões, pensares, repensares e agires. Por fim, essa obra traz um olhar balizador do que são teoria e prática erguidas nas tessituras da professoralidade.













