1 Introdução
A inclusão educacional das pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA) está amparada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/1996, na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), que orienta a inclusão na Rede Regular de Ensino e o atendimento educacional especializado oferecido no contraturno escolar, sob orientações do Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011 (Brasil, 1996; Brasil, 2008; Brasil, 2011).
Atualmente, as políticas públicas para as pessoas com TEA estão balizadas pela Lei nº 12.764/2012, regulamentada pelo Decreto nº 8.368/2014. A implantação dessa lei foi fruto de movimentos de pais e de organizações sociais no sentido de que o Brasil instituísse a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que prevê educação, proteção social, atenção integral para o atendimento à saúde na rede pública pelo Sistema Único de Saúde (SUS), atendimento precoce, acesso ao mercado de trabalho, atendimento multiprofissional, acesso a medicamentos na rede pública, entre outros direitos, e assegurar que “[...] A pessoa com Transtorno do Espectro Autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais.” (Brasil, 1990; Brasil, 2012; Brasil, 1990).
Para efeitos de inserção no mercado de trabalho, as pessoas com TEA têm amparo legal da Lei no 8.213/1991 – denominada Lei de Cotas, que prevê um percentual de cotas para os trabalhadores com deficiência, conforme o número de vagas da empresa, mas, efetivamente, somente ocorreu a aplicação dessa lei após a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Brasil, 1991; Brasil, 2012).
No Brasil, as políticas de atendimento às pessoas com TEA são relativamente recentes e contam com a participação social de organizações representativas que lutam em defesa das pessoas com esse transtorno (Leite; Hetzel, 2011; Souza; Santos; Soares, 2019).
As políticas públicas nacionais de atenção às pessoas com autismo são balizadas em legislações nacionais e orientações internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Esta organização orienta seus países membros quanto aos direitos das pessoas com TEA e declara, reitera e ratifica o compromisso de proteger amplamente esses cidadãos. A OMS propõe, sobretudo, que sejam elaboradas políticas públicas de enfrentamento a qualquer tipo de estigmatização social, isolamento e discriminação das pessoas com TEA e de suas famílias, reconhecendo a necessidade de um plano abrangente, para o qual estabeleceu o período de 2013 a 2020 como demarcatório para a definição dessas políticas (Nunes; Azevedo; Schmidt, 2013; OMS, 2013).
As pesquisas iniciais sobre o autismo datam de meados do século XX. A primeira definição sobre o autismo foi formulada em 1943, em um estudo do médico austríaco Léo Kanner; desde então, essa definição tem sofrido alterações por órgãos multilaterais de saúde, como a OMS e a American Psychiatric Association (APA). A versão mais atual do TEA encontra-se no DSM-5, que define o transtorno do espectro do autismo como marcado pelo prejuízo na comunicação e interação social de seus portadores, com padrões repetitivos e restritivos no comportamento, atividades e interesses limitados, cerceadores de seu desempenho diário (OMS, 2013; APA, 2013).
As características das pessoas com TEA manifestam-se em áreas diversas, atingindo o desenvolvimento sociocomunicativo, causando dificuldades nas relações sociais, no repertório sociolinguístico e comportamentos estereotipados. Além desses impedimentos, tais manifestações apresentam comumente um quadro de variações adversas (Teixeira et al., 2010; Lima; Laplane, 2016; Zanon; Backes; Bosa, 2014; APA, 2013).
Em revisão da literatura nacional no Portal de Periódicos da Capes, concernente à temática, jovem com TEA, escolarização no Ensino Médio, inclusão no mercado de trabalho e história de vida, não houve registros de artigos que interligassem tais vertentes. Notou-se, porém, a existência de um relativo número de pesquisas voltadas às pessoas com TEA e suas dificuldades quanto ao funcionamento comunicacional, habilidades sociocomunicacionais, interação social, aspectos linguísticos e gestuais, entre outros, acrescidas de comorbidades típicas desse grupo. A respeito das pessoas com TEA, notou-se a prevalência de estudos na abordagem comportamental aplicada, concentrando-se estes sobremaneira na faixa etária infantil (Camargo; Rispoli, 2013; Zanon; Backes; Bosa, 2014).
O estudo encontrado cuja abordagem utilizou-se da história de vida de pessoas com autismo não discutiu inclusão no trabalho, mas a vivência de cinco adolescentes com TEA e em acompanhamento terapêutico vista no processo dialógico, concentrando-se nos “[...] indícios de experiências que eles vivenciam no cotidiano e dizeres sociais impregnados em seus discursos orais”, para subsidiar o processo terapêutico da fonoaudiologia (Bagarollo; Panhoca, 2010, p. 231).
Embora com visões diferentes à deste estudo, foram considerados aqueles que dialogam com esta pesquisa quanto à inserção no mundo do trabalho de pessoas com TEA. Entre tais abordagens, encontra-se a revisão da literatura elaborada por Talarico, Pereira, Goyos (2019), do período de 2010 a 2019, cuja finalidade era buscar artigos que apresentassem as experiências de adultos com TEA no mercado de trabalho. Os estudos encontrados discutiam a gestão da inclusão no trabalho, políticas públicas de acesso ao emprego, legislações de inclusão no trabalho para as pessoas com deficiência, seleção, contratação, diagnóstico e inserção no trabalho. Contudo, em nenhuma das pesquisas encontradas, dava-se prioridade à voz das pessoas com TEA. Os pesquisadores concluíram que há insuficiência de estudos sobre adultos desse segmento quanto à inclusão no trabalho, e há, portanto, necessidade de sensibilização dos empregadores para essa temática bem como da participação ativa das famílias.
Já o estudo de Aydos (2016) centrou esforços em um estudo de caso com uma perspectiva etnocêntrica, cujo objetivo foi analisar a experiência de inclusão no mercado de trabalho de um jovem com TEA. Para tal, analisou as transformações subjetivas, passadas no cotidiano no processo de inclusão no sistema de cotas, apoiando-se em leitura de Foucault, tensionando os modelos vigentes de compreensão da deficiência, a qual lhe fora atribuída para ter direito à política de cotas.
E quanto ao estudo de Leopoldino (2015), sobre revisão de bibliográfica, entre diversos aspectos relevantes, traz ele evidências sobre a inserção no trabalho de pessoas com TEA como um fator para a melhoria da qualidade de vida por meio da obtenção de recursos financeiros. Também constatou que os comportamentos estereotipados, as dificuldades de comunicação e a socialização são cerceadores do acesso e permanência das pessoas com TEA no trabalho, o que pode originar restrição de sua autonomia e independência, e, consequentemente, a dependência do governo e de familiares. Verifica-se, ainda nesse estudo, haver a necessidade de multiplicar as pesquisas acerca da temática em virtude do número pequeno delas no Brasil e no mundo, para fomentar, assim, novas descobertas na área.
A inserção no mercado de trabalho indica vantagens para as pessoas com autismo, mas também para suas famílias e empregadores. Para as pessoas com autismo isso representa melhor relação com sua autonomia, independência financeira e a redução de participação em programas assistenciais; para os empregadores, família e governo, a possibilidade de reconhecerem sua capacidade produtiva, ou seja, “[...] obstáculos podem ser amenizados com a exploração das potencialidades das pessoas com TEA, como a facilidade em executar funções repetitivas e memorizar detalhes [...]” (Leopoldino; Coelho, 2017, p. 141).
Em pesquisa de Olivati e Leite (2019), para identificar tópicos vinculados à escolarização de estudantes com TEA no Ensino Superior, permanência, acessibilidade, relacionamentos e sugestões de melhorias no contexto universitário, notou-se na análise dos relatos de seis estudantes universitários com TEA a necessidade de ajustes no contexto universitário quanto às barreiras que suscitam nos estudantes ansiedades e angústias, tanto no contexto social quanto no universo pessoal.
Orrú (2012) ratifica o fato de existirem poucos estudos sobre jovens e adultos com TEA que levem em consideração o contexto social-histórico. Além de, neles, não se discutirem com amplitude os fatores favoráveis à apropriação dos bens sociais, culturais e de serviços da sociedade, coincidindo com o que ocorreu historicamente com as pessoas com deficiência, ou seja, a exclusão, que as colocou à margem da sociedade por séculos.
A inexistência de artigos sobre a temática desta pesquisa indica a relevância de novas perspectivas de estudos científicos em que a pessoa com TEA seja protagonista de sua história de vida, ou seja, nos quais ela possa ser ouvida e apresentada pelo próprio relato.
Em face ao exposto, esta pesquisa pretende trazer contribuições à temática em foco ao apresentar os relatos de vida de um jovem com TEA, egresso do Ensino Médio e inserido no mercado de trabalho, analisando sua trajetória, escolarização e a inserção no trabalho, com plena consideração da representatividade de sua história de vida por meio de sua narrativa.
2 Método
Esta pesquisa tem como método de estudo a história de vida oral, por meio do depoimento e da análise em abordagem qualitativa, considerando sua relevância em estudos que discutem grupos sociais e pessoas excluídas da sociedade. Dessa forma, pretende trazer, na voz de um jovem com TEA, suas narrativas de vida como egresso do Ensino Médio e incluído no mundo do trabalho (Meihy, 2002; Bosi, 2009; Alberti, 2013; Minayo et al., 2002; Minayo, 2012).
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos sob o nº 92552518.0.00005504, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mediante os termos do Conselho Nacional de Saúde, em projeto submetido à Plataforma Brasil.
Os procedimentos de pesquisa consistiram em três fases. Na primeira fase, tivemos: a elaboração do projeto; a definição da pessoa a ser investigada; o planejamento e a organização de ferramentas tecnológicas para a captação da entrevista em áudio e vídeo; a definição da transcrição das entrevistas por um transcritor; e a conferência da transcrição pela pesquisadora. Na segunda fase, foram realizados contatos telefônicos com o entrevistado da pesquisa para a apresentação dos objetivos propostos e a confirmação de sua participação, definição do dia, local e horário para a entrevista. A terceira fase foi destinada à organização dos equipamentos para a gravação da entrevista; à leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE); e à realização da entrevista em espaço definido pelo entrevistado. A entrevista teve a duração de 120 minutos, mediada por roteiro com dez perguntas norteadoras, envolvendo as lembranças de vida, escolarização, trabalho, além da exposição das perspectivas de futuro do entrevistado.
A entrevista foi transcrita na integralidade, considerando as tipologias de transcrição, da história oral e preservando a identidade do entrevistado, empresa empregadora, escolas, cidades e pessoas, atribuindo-lhes nomes fictícios (Meihy, 2002; Bosi, 2009).
Após a transcrição da entrevista, foi elaborado a Tabela 1 como perfil do entrevistado, conforme descrito a seguir:
Tabela 1 Perfil do entrevistado.
| Nome | Idade | Escolarização | Trabalho | Situação conjugal | Residência |
|---|---|---|---|---|---|
| Sebastian | 19 anos | Escola Especializada e Escola Regular Concluiu o Ensino Médio |
Auxiliar de atendimento ao embarque e desembarque de pessoas | Solteiro | Reside com a mãe e a avó materna |
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da transcrição da entrevista do jovem Sebastian.
O entrevistado trabalha há mais de dois anos em uma empresa de médio porte de uma região do estado de São Paulo, foi diagnosticado com TEA aos três anos e a escolarização alternou-se em Ensino Regular, instituição Especializada e o retorno ao Ensino Regular. Após o término do Ensino Médio, ingressou no trabalho.
A Tabela 2 concentra as categorias temáticas que foram extraídas a partir da transcrição da entrevista e organizadas em quatro tipos.
Tabela 2 Categorias Temáticas.
| Categorias temáticas | a) Memórias da família, infância e juventude |
| b) Memórias da escolarização | |
| c) Memórias do trabalho | |
| d) Perspectivas futuras |
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da transcrição da entrevista do jovem Sebastian.
As categorias temáticas definidas na Tabela 2 enquadram os objetivos da pesquisa a partir das transcrições dos relatos do entrevistado.
3 Resultados e discussão
Embora as perguntas tivessem uma ordem para a organização do pesquisador, não houve linearidade nas respostas do entrevistado, ou seja, ele poderia conduzir e revelar suas memórias com relação ao tempo, espaço e fatos à medida que essas lembranças fossem surgindo, e encadeá-las às lembranças anteriores, já relatadas (Meihy, 2002; Bosi, 2009; Alberti, 2013).
Sebastian tem 19 anos, ingressou no processo de escolarização em uma creche comunitária de Ensino Regular, em seguida frequentou uma instituição escolar especializada e, por fim, matriculou-se em uma Escola Regular, onde cursou o Ensino Fundamental e o Ensino Médio.
Os resultados da transcrição do relato do jovem serão discutidos a partir de categorias temáticas atinentes aos objetivos da pesquisa: a) memórias da família, infância e juventude; b) memórias da escolarização; c) memórias do trabalho e; d) perspectivas futuras.
a) Memórias da família, infância e juventude
Ao se referir às suas lembranças de vida, Sebastian focaliza a sua infância e juventude, revelando suas relações com familiares, mudanças de bairro, de cidade, residências, escolas, amigos, professores e demais pessoas que passaram e que ainda permanecem presentes em sua vida.
Em suas lembranças da infância, ele remonta ao seu nascimento e reconta o que lhe foi contado pela mãe, mas que passaram a ser suas recordações, além de fatos vivenciados por ele nessa relação com o mundo. Ainda que, segundo ele, sejam muitas as lembranças da infância, comentou apenas algumas delas:
É foi muita coisa.... muita coisa boa... e coisa ruim que aconteceu. Minha lembrança, que eu lembro, era ter nascido... Quase morri, tipo assim.... Era eu e minha mãe [...] para nascer foi difícil.... Começou a tarde e terminou na madrugada. E a minha mãe só veio me ver no dia seguinte. Aí cara, aí beleza... Tinha feito lá o parto e eu nasci, quer dizer, eu nasci bem! Pelo menos eu não morri. Bom... eu cresci, cresci na cidade de X e morei um pouco em Y… O problema e a dificuldade, mas nunca deixei de sonhar né. Tipo... de realizar um sonho meu. E, cara, eu vivi em muita casa diferente… mudava... diferente, morei em todos os bairros da cidade X, imagina no bairro Z! Depois eu fui morar em X, por causa de problemas financeiros, depois eu voltei para cá, onde eu estou agora. É... (risos) quer dizer, dois mil e nove que eu estou aqui na minha casa
(Sebastian).
No meio desse depoimento, sua avó, a quem havia dito que poderia ficar na sala durante a entrevista, interferiu em seu depoimento e, prontamente ele fez a avó entender que a entrevista era com ele, portanto ela não poderia intervir ou falar por ele. Com relação à lembrança sugerida pela avó, ele disse que não iria falar sobre tal lembrança e que falaria somente o que lhe importasse. E assim respondeu para a avó: “Depois a gente fala disso aí. Eu já não me importo, já não me importo! Eu fiz, e daí? Beleza”. E completa: “Muita coisa… nossa! Eu fiz muita coisa na minha infância, fiz… brinquei bastante, fiz amigos, mas, não era muito de fazer!”.
As lembranças de Sebastian dão conta de seu entorno social, das suas relações com as demais pessoas e dos fatos vivenciados por ele, principalmente as memórias que lhe marcaram mais profundamente. Dessa forma, sua narrativa é representativa da relação que mantém com a sociedade de seu entorno (Bosi, 2009; Meihy, 2002).
Em suas lembranças envolvendo amizades, interesses, família e relação familiar, Sebastian relata:
Aí quando eu mudei para cá, fiz novas amizades. E eu já ‘tô’ até agora. Conheço bastante gente… então, é isso que eu lembro da minha infância. Lembro bastante! Peguei periquito ‘pra caramba’. Eu gostava mais de ônibus, eu gostava mais de ônibus. Muito! É... meio de transporte, corrida, carrinhos, eu gosto de carros de corrida, gosto de assistir automobilismo, vários setores. Isso aí não é da minha infância… minha infância foi legal, não, problemas conturbados, graças aos meus pais, muitas vezes internado em hospital. Quando eu tinha três anos descobri o transtorno de autismo, mas não me afetou em nada. Porque, autismo para você ver, tem vários transtornos, tem aqueles ‘caras’, que é meio agitado, ‘caras’ que estão com raiva e vão embora. Eu não. Sou bem tranquilo, cara. Sou muito comunicativo, muito alegre. Se eu xingar eu xingo, se eu zuar, eu ‘zuo’. Então, é isso, essa foi minha infância e foi muito boa, boa. Deixando aquela parte de lado que meus pais separaram quando eu tinha sete anos, foi tudo de boa. E agora que eu estou trabalhando, eu vejo pouco o meu pai, de vez em quando. Sinto saudade dele. É que no trabalho ninguém perde dias. É que eu trabalho. No feriado trabalho e no fim de semana... então… E hoje ele vai descer, mas infelizmente eu não vou ver ele, quer dizer, ele vai me visitar no meu trabalho, mas eu queria passar parte do fim de semana com ele também, então eu vejo pouco meu pai, desde quando separaram, eu vejo pouco, muito pouco ele
(Sebastian).
Nessas lembranças acrescentou ainda as mudanças de bairros, de cidades, seu interesse por carros, automobilismo, transportes, além de relembrar situações que lhe causaram sofrimento, como uma internação hospitalar. Fala do diagnóstico do TEA aos três anos, das características das pessoas com TEA e as diferenciações entre elas e ele, da separação dos pais e das visitas escassas do pai depois da separação.
Nas memórias da família, ele relembra os avós, tios, primos, perdas por morte e de se sentir apoiado pela família. Faz também uma analogia sobre adoção de seres humanos e de animais, ambos – criança e animal – podem ter um lar:
[...] minha família… família, minha família, é a família mais importante. Lembro do meu avô, que eu nunca mais vou ver, ele morreu quando eu era criança… então eu… eu lembrava das histórias dele que a minha avó contava, que a minha mãe contava. Eu lembro do meu pai, meu pai eu lembro dele. Meu avô... meu avô é muito legal, minha vó também, minha família, meus tios, minha bisa, a única bisa que eu tenho na vida. E eu tenho muitas amizades, quer dizer, eu tenho muitos contatos com eles. Alguns não. Eu tenho um primo para ‘pim’. Eu tenho um primo que parece mais filho do Mc W, do que irmão entendeu? Eu não tenho irmãos, meu pai quer fazer adoção de uma criança. Acho que eu tenho me sentido bastante comum. Bastante boa que é a criança. Pode ter um cachorro, que dizer, um cachorro pode ter um lar, crianças também… então... por isso que eu amo a minha família. Se eu fizer alguma besteira beleza vai, [...] alguma coisa.... eles estão lá para me apoiar entendeu? Né! Tipo assim… me apoiar bastante. É isso!
(Sebastian).
Ainda sobre sua família, ele complementou com lembranças de um primo, refletindo sobre o fato de cada um seguir a própria vida:
[...] meu primo, meu primo... é muito legal [...] agora ele é pastor lá do Estado A1. Brincava muito com ele. A gente brincava bastante de bicicleta na rua… jogava. A gente brincava de cozinhar, a gente brincava de carrinho, uma infância muito boa. E agora? Agora... ele amadureceu um pouco e virou pastor… e agora.... seguimos as nossas vidas né, mas a gente sempre tem contato com ele
(Sebastian).
A respeito das avós paterna e materna, ele relata:
Tem a mãe do meu pai, a mãe do meu pai... ela é uma pessoa boa, cuidadosa. Ela cozinha, que cozinha. É uma maravilha! Cozinha que é uma maravilha. Ela cuidava de mim, tipo assim.... quando eu tinha um negócio na perna, ela cuidava de mim, minha avó... ela pensa tipo assim, ela pensa em mim também, ela faz as melhores comidas, os melhores doces, ela é muito engraçada. E as histórias dela são muito interessantes. Dá risada, dá muita risada mesmo! Tipo minha bisavó caiu no ônibus ‘mó’ engraçado, é isso.
A minha avó materna é uma pessoa extremamente religiosa, bastante! E é uma pessoa, cara! Ela de vez em quando cuida de mim, reza para a minha família. E a parte boa dela é isso. Ela tem histórias boas para contar também, ela passou vários perrengues ‘pra’ viver em cidade grande. Ela era do interior e veio da cidade grande para cá, passou muitos perrengues e eu me orgulho disso! Uma pessoa que veio do Nordeste, veio para trabalhar e consegue uma vida melhor. E a gente conseguiu.... tem gente que nem consegue, que desiste e volta para o interior. Ela conseguiu trabalhar em várias empresas de empregada doméstica, mas ela conseguiu
(Sebastian).
Sebastian reside com a mãe e a avó materna. Em seu relato, fala de ambas as avós ressaltando, com orgulho, suas qualidades e suas histórias de vida, os cuidados para com ele e as lutas para vencerem na vida, além das interações com outros membros de sua família e com outras crianças no período de sua escolarização.
As interações com os pais e familiares são importantes para o desenvolvimento da criança com autismo, mas não devem e se limitar apenas ao contexto familiar, conforme atribuem Camargo e Bosa (2012) quando enfatizam que os contatos sociais estabelecidos no contexto escolar são meios para favorecer o desenvolvimento da criança com autismo, pois nessas interações adquirem habilidades sociais convivendo com as demais crianças.
Os relatos de Sebastian vão ao encontro com o estudo de Camargo e Bosa (2012) quando apresentam evidências sobre a desconstrução de mitos que rodeiam as crianças com autismo, ou seja, “[…] um indivíduo totalmente ausente e vivendo em um mundo à parte não se mantém […]” (p. 322), uma vez que o universo de interações ao longo de sua infância foram relevantes ao seu desenvolvimento, conforme sua narrativa, quando relata sobre ele e outras crianças com autismo com quem teve contato ao longo de sua vida, trazendo contribuições ao quadro de variações apontadas por pesquisadores na área (Teixeira et al., 2010; Lima; Laplane, 2016; Zanon; Backes; Bosa, 2014; APA, 2013).
Os relatos de Sebastian começam por sua relação com os membros de sua família, interesses, comparações e ideias que defende, apontando suas interações com os instrumentos de cultura e as internalizações dessas interações pelo sujeito, indo ao encontro dos estudos de Vygotsky (1989), quando abordou o processo de formação social do homem e da mediação pelos instrumentos da cultura. Ao longo de suas memórias, seus relatos vão apontando seu processo de interação social.
b) Memórias da escolarização
Sebastian narra a respeito do período em que estudou em uma instituição Especializada, das provas diferenciadas que fazia nessa instituição, comparando-as com as provas da Escola Regular, mas frisando ter superado os desafios originados dessas diferenças:
[...] cara, eu ‘tava’ estudando na escola especializada, eu fazia prova separada né. Por que fazia prova separada? Porque era menos e era mais fácil, né. Cara, e eu gostava bastante… tipo assim, mesmo que a gente seja diferente das outras pessoas... não olha para a cara do outro, fica fechado, fica só na dele, isso aí, mas sempre consegui superar todos esses desafios. [...] Eu fiz a prova normal e tirei nove, então pensa, que os autistas conseguem fazer, não pensa que há só prova separada. Outra coisa, mas eu consegui [...]
(Sebastian).
Em seguida, relembra e avalia como foi o atendimento na instituição Especializada, menciona o apoio dado pela psicóloga que o acompanha até hoje e revela:
Eu fiz a instituição especializada dos seis anos até dar doze anos de idade. A instituição especializada foi marcante para mim e eu tenho contato com ela, porque eu tenho a carteirinha de transporte público especial, tenho uma parceria com eles, ainda lembram de mim, mas eles falaram que eu não tinha mais jeito, que não tinha jeito nenhum e acabaram me desistindo. Aí a Joana, minha psicóloga, falou assim: ‘Não, ele tem jeito ainda, esse ‘cara’!’ Então com ela eu trabalho, falo dos meus problemas familiares, particulares, tudo e por isso que eu consegui superar meus desafios
(Sebastian).
Em suas lembranças da escolarização, Sebastian faz referência ao bullying, entretanto justificou os comportamentos dos colegas, dizendo que o bullying não tinha relação com o TEA.
A sua narrativa expõe outras dificuldades, tais como emprestar, dividir brinquedos e alimentos com os colegas de escola, mostrando que foi uma fase difícil na escolarização. Nesse período, a sua única amiga era uma prima, que estudava com ele. Em uma de suas mudanças de escola, pôde fazer novos amigos e ter maior independência em relação à prima. Faz menção à descoberta do TEA, aos períodos de estudo em uma instituição Especializada na cidade Z, escolas comuns públicas e particulares. Ressaltou orgulhosamente sua força de vontade e capacidade, dizendo que nunca reprovou na escola, apenas ficou de recuperação em Matemática e Inglês:
Cara, foi muita coisa, foi muita escola que eu estudei, muita coisa, tipo assim... A primeira escola que eu estudei foi uma creche comunitária, foi perto da minha casa, estudei dois anos de idade, sabe aquele jeito de criança, que não quer ir para a escola… E aí beleza, eu me adaptei. Fiz muitos amigos, uns eu esqueci de fazer algumas amizades, depois que os meus pais separaram eu tive que morar na cidade X. Estudei um mês na Cidade X. Fiz amizade também. Aí depois nunca sofri bullying na vida ‘zuação’, eu nunca conheci isso... ‘me zuaram né’… me chamaram de Bob Esponja, porque eu tinha dentes grandes. Aí eu era pequeno, não entendia também, não gostava que ninguém zuava comigo, eu era muito egoísta, não emprestava brinquedo. Agora eu sou egoísta na comida, não dou comida para ninguém, não, mas eu descobri a síndrome de Asperger na escola, não brincava com ninguém, não tinha nenhuma amizade e foi difícil minha vida, depois eu estudei em várias escolas aqui no meu bairro, muitas aqui, uma fechou. Umas eu ainda ‘tô’ tendo contato ainda, mas foi. Nunca repeti de ano, quer dizer, eu já fiquei de recuperação em algumas coisas... Matemática, Inglês, aí eu estudei em uma escola no bairro e depois em umas escolas particulares, onde eu terminei. Estudei um pouquinho aqui na avenida detrás e eu comecei a fazer amizades. Antigamente, a minha única amizade era a minha prima. Minha prima estudava comigo na escola em uma escola municipal, eu só gostava quando ela ia para a escola. Eu tinha mania dela, de não ir à escola. Ela não ia, eu também não ia também. ‘Caramba’, tipo assim, eu só gostava dela, de amigos da escola e ela também, né. Depois comecei a me libertar, comecei a ter amigos, agora, alguns amigos se mudaram, tipo assim, vejo pouco, agora eu tenho novas amizades no trabalho. Então... eu sou uma pessoa muito comunicativa, alegre de ‘zueira’ também. Na minha escola aprendi a fazer muitas amizades, aprendi coisas novas eu fui até um destaque em 2013, na escola aqui de perto da minha rua… então, eu fiz amizades muito boas, coisas ruins acontecem né, mas nada que pode me prejudicar nos meus estudos
(Sebastian).
Sebastian recorda-se de sua timidez na escola, do fato de ser excluído e de não ser convidado para festas. Relembra essas experiências como momentos que o deixaram bastante triste, mas também cita as ocasiões em que conseguiu estabelecer novas amizades e participar de festas. Ao se referir à exclusão em atividades sociais, ele atribui esse fato à dificuldade de agregar novos amigos. Em suas lembranças relaciona o bullying com “zueira” dos colegas, o qual ele atribui à dificuldade de fazer amigos e à falta de popularidade. Atualmente, tem novos amigos no trabalho e relata:
[...] coisas ruins, por exemplo, sofria bullying ‘pra’ caramba, quer dizer não sofri bullying, só fui ‘zuado’. Eu não me adaptei a escola, eu chorava muito, não queria ir para a outra escola com saudades dos amigos. E, cara, é bem difícil né e eu passei né e eu passei né… e eu não era muito popular... então, eu não era convidado para festa nenhuma. Nem me convidaria mesmo. E foi uma parte da exclusão, eu era muito excluído, de vez em quando, mas excluído não excluído na escola, excluído em coisas, tipo sair para comer lanche, essas coisas, eu era muito excluído também era tímido, então ficava meio triste, meio depressivo, fiz muitas coisas, tipo assim, eu ficava triste também, e ninguém me convidaria para uma festa nem para uma acho, mas agora é diferente, mas agora ‘tô’ no trabalho, arranjei amizades novas, sair com meninas também e agora eu tenho mais contatos sociais também, eu já fui convidado uma vez numa festa de quinze anos, foi muito legal né, tipo... foi a última vez que eu vi meus amigos. Eu sei foi em uma festa de quinze anos de uma amiga minha [...]
(Sebastian).
Menciona ainda que a escola XZ, onde cursou o Ensino Médio, foi a que mais lhe deixou lembranças. Era uma escola particular da Cidade Y, nela fez amizades, participava de atividades esportivas, se declarou para as meninas, além de se relacionar com os colegas de dentro e de fora da escola:
[...] cara, eu me lembro da escola XZ, foi a melhor escola que eu estudei. Eu arranjei muitas amizades, amizades... não só dentro da escola, mas fora da escola. Jogava futsal na hora que no primeiro gol, no primeiro gol que eu fiz, cara... foi, cara.... arranjei amizade para tudo que é lado… me declarei para algumas meninas, também gostava delas, então a escola XZ foi a que mais destacou bastante, foi mais que houve muitas lembranças e ainda tenho lembrança dos meus amigos… então, é isso.... destacou bastante
(Sebastian).
A respeito da escolarização, Sebastian relata dificuldades de interação social, de se adaptar a novos ambientes e de fazer novos amigos. Diz que sofreu bullying, mas justifica esse fato pelas suas reações de choro e falta de adaptação aos ambientes escolares novos; enfim, teve experiências restritivas, porém, avançou e conseguiu terminar o Ensino Médio e ascender ao mercado de trabalho, além de ter visão crítica desse processo.
Observam-se situações semelhantes entre as retratadas por Sebastian e às dos estudantes universitários da pesquisa de Olivati e Leite (2019) quanto à interação social e o bullying, ainda que os níveis de escolarização sejam diferentes, percebe-se nos relatos dos universitários situações semelhantes as vivenciadas por Sebastian. Outro dado suscitado é a ausência de um profissional de apoio na universidade, também notado no depoimento de Sebastian, no qual não há qualquer alusão ao acompanhamento de um profissional de apoio ou programas de intervenção, nas escolas onde estudou, que pudessem intervir nos processos restritivos e discriminatórios pelos quais ele passou.
Os relatos de Sebastian vão ao encontro de estudos de Falla e Ortega-Ruiz (2019), que, em revisão sistemática, tendo como temática o bullying e os estudantes com TEA, constataram nas análises dos artigos selecionados que existem altas taxas de bullying cometidas contra os estudantes com autismo, se comparados às pessoas sem autismo e à relação do bullying com as dificuldades de interação, a comunicação e a rigidez comportamental, tornando os estudantes com autismo mais vulneráveis a esse tipo de violência. Sobretudo, indicam a necessidade de intervenções no ambiente escolar para evitar esses comportamentos.
Sebastian em seus relatos aponta desafios sobre o processo de escolarização, com críticas e reflexões sobre situações vivenciadas por ele, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Relata sua trajetória em diversas escolas, as interações sociais e as dificuldades nessas interações, as práticas pedagógicas e as críticas às provas diferenciadas, sua evolução e expectativas futuras em relação aos novos conhecimentos acadêmicos, mapeando sua trajetória e a importância da escolarização em sua vida.
Em relação às baixas estatísticas sobre a escolarização de estudantes com autismo no Ensino Médio apontada por Laplane (2016), em estudo realizado no estado de São Paulo, “[...] constatou que o processo de escolarização de alunos com autismo não se completa e que poucos alunos chegam ao Ensino Médio [...]”, Sebastian rompeu com essa realidade, pois concluiu o Ensino Médio a termo e em seguida foi para o mercado de trabalho, fortalecendo os pressupostos das políticas públicas inclusivas expressas nas diretrizes legais, uma vez que ele se enquadra no grupo daqueles que concluíram sua escolarização na Educação Básica e, com isso, a possibilidade de ingresso no Ensino Superior. Sua escolarização traz elementos reflexivos sobre o seu processo de escolarização e permanência na escola, que confirmam a importância do papel social da escola e do ambiente escolar na apropriação do saber em uma escola mais inclusiva para todos os cidadãos (Jannuzzi, 2012).
Na próxima categoria temática serão abordadas as lembranças sobre o trabalho, indicando sua proatividade na busca pelo primeiro emprego.
c) Memórias do Trabalho
Quanto às memórias profissionais, Sebastian as vincula ao seu interesse por carros, automobilismo e transporte, preferências que fez que seu primeiro trabalho tivesse relação com seu campo de interesse. Antes mesmo de ter acesso ao emprego, ele dirigia-se a uma empresa da área e ficava atento às atividades ali desenvolvidas; assim, quando foi chamado para a entrevista de trabalho, explicou ao entrevistador seus conhecimentos obtidos com aquelas observações acerca das atividades e funções desempenhadas pelos funcionários, uma vez que o espaço da empresa é um local de acesso público. Relatou sua proatividade em entregar currículos e ir em busca do primeiro emprego, como qualquer outro cidadão que procura por um trabalho:
Bom, primeiro eu fui como qualquer outro brasileiro, entregando currículo para tudo que é lado… né. Falaram.... e eu botei lá que eu tinha espectro autista e eu acho, beleza foi uma semana... e a empresa TW me ligou, fiz uma entrevista, gostaram de mim. [...] eu tenho um emprego, eu tenho uma função. [...] trabalho de auxiliar de atendimento que é embarque e desembarque de pessoas, conto as passagens, essas coisas. Eu sempre fui ao local onde trabalho agora... o lugar que eu mais gostava.... mais gostava mesmo! E eu aprendi né, por isso que eu cheguei lá ‘pro’ seu Manoel, que é o gerente da empresa, eu falei assim: ‘olha’, eu falei assim, que ‘essa minha função que embarca e desembarca e contar as passagens e tal... essas coisas eu aprendi bastante’. Eu tenho muitos amigos. Aí beleza! Quando eu comecei a trabalhar, eu conquistei muitas coisas. Eu fui o destaque do ano
(Sebastian).
Ainda com referência à sua inserção ao trabalho, Sebastian faz sua análise a respeito da inclusão de pessoas com deficiência e suas possibilidades. Entende que outras pessoas com TEA têm que ter acesso ao emprego e que não devem depender do governo, mas mostra que existem desafios e os obstáculos burocráticos. Esclarece, em sua narrativa, detalhes do lugar onde trabalha, define a percepção que tem de si mesmo, suas aspirações e conquistas. O trabalho traz-lhe desafios, mas também autorrealização, e fala com orgulho do que faz, além de enfatizar sua participação em uma organização na área de inclusão social de pessoas com deficiência, juntamente com a psicóloga que o atende desde criança:
Sou estreante do ano, por isso que eu falei, quem espera que o autista... os autistas conseguirem emprego, mesmo com deficiência visual, deficiência física, lá na no local onde trabalho tem bastante. Aí eu tenho orgulho disso, porque eu falo assim: ‘Eu sou autista e estou trabalhando, eu cheguei onde eu estou porque os outros autistas não podem fazer a mesma coisa’. Porque a gente tem que vencer essa burocracia e não depender do governo, porque, tipo assim, corre atrás... você consegue. Você corre atrás dos seus desafios? E meu trabalho, serve para isso. Eu fui, acho, tipo o primeiro autista a trabalhar, não sei se sou o primeiro, mas teve várias outras pessoas que trabalharam com autista né. E, cara, eu... eu acho que me orgulho trabalhar muita coisa comum, muita coisa boa, muita coisa um perrengue que os clientes da empresa falam da gente, ‘tacam pedra na gente’, mas é isso, meu trabalho, meu desafio. Eu, agora, estou participando de uma organização [...] que a minha psicóloga, Joana, é sócia [...], para ajudar qualquer pessoa com deficiência
(Sebastian).
Sobre as atividades desenvolvidas no trabalho, entende-as como atividades fáceis de serem desenvolvidas, faz uma descrição minuciosa das etapas das práticas, pontuando as mudanças naquelas que já dominava e como se adaptou a elas:
[...] é muito simples ficar na empresa e esperar o carro da empresa TW ou algum serviço da TW. [...] quando o carro chega, assim.... eu pego a passagem, conto as passagens e daí eu anoto no envelope. Eu anuncio o carro, o destino, o horário, a plataforma de onde ele irá sair, eu etiqueto as passagens, as bagagens e fecho o bagageiro e mando o carro ir embora. [...] Eu acho que esse trabalho é bem fácil, quer dizer, para mim, mas não foi tão fácil assim, foi mais ou menos. Porque eu sabia, mas era de outro jeito e desse eu não sabia. Ah! tinha que fazer anotação em um papelzinho amarelinho e tinha que anotar os transportes de fora e contar. Eu uso calculadora.... por exemplo, porque a minha matemática não é tão fácil, eu tenho dificuldade em como fazer a conta, então uso calculadora, é claro que eu uso calculadora e todo mundo sabe. Mas agora é diferente, agora, tipo assim, agora eu uso mais a cabeça [...] eu conto e dá certo, meu trabalho é sempre isso, aí depois eu anoto no papelzinho e passo a limpo na prancheta para saber quantos carros eu fiz. No domingo eu fiz vinte carros. Eu bati um recorde. [...] eu orgulho de ter trabalhado, eu orgulho que estou trabalhando, pois agora eu tenho dinheiro. E ter o meu dinheiro é ter os meus direitos. Agora eu estudo o código de ética da empresa, agora eu sei o que é certo e o que é errado. Aprendi muita coisa nesse código de ética, tipo... a nossa constituição brasileira, aprendi que tem os nossos direitos de ir e vir, essas coisas. Então, [...] a gente ainda faz [...] saber os meus direitos da empresa
(Sebastian).
Sebastian conta que inicialmente teve dificuldades no trabalho, devido ao fato de os clientes da empresa, ao solicitarem informações, ficarem tocando nele e isso lhe trazia embaraços, pois não gostava de ser tocado pelas pessoas:
“[..] Muita.... muita, eu tive dificuldade bastante no trabalho ao me adaptar, muita gente, muita gente tocando em você é bom, mas não quero que me toque. Dificuldade eu tinha bastante, errava muito, errava bastante, no cartão de ponto errava bastante, mas eu aprendi, agora eu aprendi e estou indo bem
(Sebastian).
Ainda no que tange à inserção no trabalho, Sebastian menciona que, antes desse seu trabalho com carteira assinada e todos os direitos legais, ele fazia “bico” na feira vendendo pastéis, e sobre isso relata:
[...] eu fazia bicos, eu trabalhava com meu tio. Meu tio era feirante, o genro da minha avó, trabalhava. [...] eu ajudava, era bem comunicativo, por isso eu sou até agora. Eu ajudava tipo assim, eu e meu tio vendia pastel de frango, pastel de frango, pastel de carne, pastel de queijo. [...] eu trabalhei e ganhava só moedinhas. Negócio da família e nada mais. Aí eu superei muito essa dificuldade, em saber dar dinheiro (troco), tipo assim, você quer refrigerante, você quer isso? E foi meus primeiros passos para o empreendedorismo, para o emprego até a empresa TW me contratar
(Sebastian).
O acesso ao trabalho foi uma busca pessoal. Ele elaborou o currículo, entregou-o e aguardou ser chamado, mas não se descuidou e procurou conhecer como era o processo e a organização da empresa empregadora. Referiu-se ainda à experiência de trabalho anterior, com o qual não mantinha vínculo empregatício, mesmo assim a experiência o ajudou bastante a superar dificuldades. Ressalta também a melhora de sua comunicabilidade, aptidão pouco desenvolvida na infância. A proatividade de Sebastian em encontrar mecanismos para conhecer a realidade do trabalho que era de seu interesse fez que os impedimentos citados por Leopoldino (2015) não fizessem parte de sua narrativa de inserção no mundo do trabalho, embora ele ainda relate sua dificuldade com o toque dos clientes da empresa quando lhe dirigem algum questionamento, no entanto não originou qualquer impedimento na realização das atividades do trabalho.
Sobre o seu trabalho na empresa TW, Sebastian afirma: “[...] eu amo muito a TW. [...] cara, eu amo bastante o trabalho e eu gosto, porque me faz sentir bem!”. Com isso, percebe-se sua realização pessoal, fato que coaduna com o desejo de qualquer cidadão, ou seja, se sentir realizado e bem naquilo que faz. Esse apreço de Sebastian pelo seu trabalho confirma a necessidade de respeito aos direitos do cidadão em ter acesso a um trabalho e remete à dignidade da pessoa humana por meio da realização do seu trabalho, como algo que lhe faz se sentir bem. Além disso, o trabalho contribui com a possibilidade de aquisição de bens e serviços da sociedade. Embora ainda se note dificuldades estruturais e culturais para a efetivação do trabalho para as pessoas com autismo, conforme estudo de Leopoldino, Coelho, (2017), Sebastian contribui com uma nova perspectiva ao trazer sua narrativa de possibilidades.
Os relatos de Sebastian o inserem na categoria da produção dos poucos estudos sobre a inclusão de pessoas com TEA no mercado de trabalho e possibilitam compreender a inserção nele pela perspectiva da pessoa com autismo, coadunando com estudo de Aydos (2016), quando este apontou relatos de conquistas de pessoas com TEA a partir de sua inserção no mercado de trabalho; porém, não se pode denegar que as pessoas com autismo no Brasil enfrentam barreiras para a sua inclusão nesse mercado, relacionadas às questões estruturais, limitações na comunicação, habilidades sociais, além de falta de formação laboral, preconceitos de empregadores e aplicação ineficaz da Lei de Cotas (Leopoldino; Coelho, 2017).
Nessa perspectiva, trazer o relato de pessoas com autismo sobre sua inclusão no trabalho contribui para compreender sua percepção sobre seu processo laboral, autonomia, conquistas e independência, como apontado por Sebastian quando relata ter orgulho de estar trabalhando e da relação com a produção de capital que lhe garante direitos, assim como como Leopoldino (2015, p. 865) define os objetivos do trabalho: “[...] Fomentar a conquista de mais autonomia e propiciar a realização de sonhos e, porque não, em muitos casos, da conquista da plena independência e realização [...]”.
Na categoria perspectivas futuras, Sebastian lança luz sobre a realização de sonhos e desejos a partir de sua trajetória no trabalho, além de estabelecer metas de mudanças em relação ao próprio trabalho.
d) Perspectivas
Em relação às perspectivas, Sebastian relata sobre seus sonhos e desejos. Ele deixa transparecer o desejo de mudar de local de trabalho, que tem interesse em trabalhar na cidade onde reside, pois, segundo ele, o local de trabalho atual é muito monótono e ele quer um ambiente mais agitado. Outro sonho é fazer o Ensino Superior e cursar o Bacharelado em História. Planeja conhecer os Estados Unidos, ir à Disney, além de conhecer outros países e, um dia, escrever sua biografia:
[...] Bom, primeiro emprego, não é. Um sonho, tipo assim, é uma necessidade... Trabalho na empresa T1, e o meu sonho na empresa T1 é trabalhar na Cidade CB [...]. Eu estou na Cidade Z1, mas o meu sonho é trabalhar na Cidade CB. Outro sonho mesmo .... [...] é fazer faculdade, faculdade de História. E eu pretendo fazer isso. Pretendo esperar um pouquinho, mas eu quero muito, muito mesmo, aprender História. Eu amo História, amo todos os conflitos da história mundial. E meu sonho é sempre isso, meu sonho é conhecer várias pessoas, também, o mundo, os Estados Unidos, ir para Disney, para Miami. Conhecer mais países do mundo e ver o que o mundo tem para nos oferecer. E fazer um monte de coisa. Namorar também! Meu sonho é meio difícil né. Garotas são difíceis né, então, vou esperar mais um pouquinho, então é isso
(Sebastian).
Refletindo sobre esse seu depoimento, ele acrescenta: “[...] eu contei parte da minha história. Meu sonho é fazer uma biografia minha, contar toda a minha infância, mas, ainda tenho mais sonhos para realizar”. No que tange à sua participação nesta pesquisa, ele sugere que se permitam outras: “[...] e que venha mais autistas também, e que venha mais autistas entrevistados, ou pessoas deficientes visuais, ou pessoa com deficiência, porque acho mesmo que essa pessoa, ela tem história para contar, como eu tenho” (Sebastian).
Nota-se, ao longo da narrativa de Sebastian, um jovem descortinando sua vida, os processos sociais, as mudanças pelas quais passou, as escolas, a família, o trabalho, enfim, a sociedade. Ele refere-se àquilo a que atribui valor em suas memórias, deixando evidente que tem algo a dizer, e que, sobretudo, quer ser ouvido. Seu relato ressalta o contexto de participação social e o direito de se expressar, ou seja, o processo histórico de desenvolvimento como o de qualquer pessoa, cujos direitos devem ser respeitados. Ao narrar sua vida, ele evidencia o valor da cultura para o desenvolvimento histórico-cultural do ser humano, para além dos aspectos biológicos; enfatiza, ademais, a importância do contexto social em sua vida, mostrando nesse seu depoimento as internalizações e os significados atribuídos por ele. A cada momento da entrevista ele elege o que vai relatar a respeito de si, vai se direcionando, pronunciando objetivos e desejos futuros que pretende alcançar, protagonizando o seu relato, a sua história (Vygotsky, 1989).
O relato fez transparecer o protagonismo do jovem Sebastian, para além das características, causas e etiologia do TEA, de modo semelhante ao de qualquer outro jovem que busca seus ideais na vida, como trabalho, estudo, namoro, enfim, uma vida social. “Auscultar” seus relatos de vida trouxe dados que podem amparar outros estudos sobre jovens com TEA incluídos no mercado de trabalho, considerando que as experiências de vida em discursos orais são relevantes na constituição do sujeito, independentemente do autismo.
As evidências encontradas nos relatos de Sebastian coadunam com Bagarollo e Panhoca (2010, p. 231) quando afirmam que “[...] as experiências culturais” e as “relações sociais que são mediadas e, vivenciadas e internalizadas pelo indivíduo” são importantes no desenvolvimento humano e contribuem para o processo de inserção na sociedade. Além de desconstruir a ideia de que as pessoas com autismo, em função de alterações nas interações sociais, linguagem e nos comportamentos estereotipados, podem ter essas interações comprometidas, acentuando as características do autismo, e não conseguirem sua inserção no trabalho.
Sebastian vivenciou processos discriminatórios, mas avançou na direção da inclusão social; para além da família, pôde vivenciar experiências que passaram pela escolarização e o trabalho. Compartilhou dados de como ele percebeu a escolarização, a família, a exclusão, a inclusão, o direito ao trabalho, sonhos e desejos, e assim deu forma e trouxe luz à sua trajetória na sociedade (Bosi, 2009; Meihy, 2002).
4 Considerações finais
Com o objetivo de apresentar a narrativa de vida de um jovem com TEA, egresso do Ensino Médio e incluído no mercado de trabalho, e de analisar essa trajetória, este estudo colheu o depoimento e refletiu sobre as lembranças e percepções de suas diversas fases de vida, em relatos sobre sua família, escolarização, exclusão, inclusão, o trabalho, sonhos, desejos, e assim deu forma e trouxe luz sobre sua percepção da sociedade.
A presença e a materialidade de sua voz expuseram-lhe a sua realidade. Por meio de sua voz, foram reveladas suas considerações, críticas, o modo de ver a vida e a sociedade, ou seja, sua experiência subjetiva veio de uma perspectiva própria, em que pôde expor a sociedade de acordo com a sua ótica. De tal forma que pôde, ele mesmo, escolher de suas memórias aquelas que desejava compartilhar. Assim fazendo, sua narrativa mostra sinais de emancipação, pois, ao falar de si mesmo, concede às pessoas a oportunidade de que ouçam sua voz e as suas experiências, narradas de forma autêntica e fidedigna.
Sebastian vivenciou processos discriminatórios, mas avançou na direção da inclusão social; para além da família, pôde vivenciar experiências que passaram do ensino exclusivo ao ensino inclusivo. Completou o Ensino Médio em uma escola de Ensino Regular e conseguiu o acesso ao mercado de trabalho, onde contribui socialmente com o mundo produtivo, mas, sobretudo, fez prevalecer seus interesses e expectativas de vida, seus desejos e sonhos futuros. O quadro retratado por Sebastian é o da sociedade em que vivem aqueles que sofrem os mecanismos de exclusão, mas também a inclusão. Nessa perspectiva, a abordagem da história de vida pôde contribuir para a compreensão dos sujeitos com transtorno do espectro do autismo por possibilitar que sejam vistos como cidadãos revestidos de seus direitos, e por possibilitar uma melhor compreensão de sua realidade. Em suma, por conhecê-los a partir de sua própria voz.














