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Revista Teias

versão impressa ISSN 1518-5370versão On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.23 no.70 Rio de Janeiro jul./aet 2022  Epub 23-Fev-2023

https://doi.org/10.12957/teias.2022.66947 

História de mulheres e educação: transgressões, resistências e empoderamentos

DESLOCAMENTO SOCIAL MEDIANTE A EDUCAÇÃO: tessituras da mulher pobre e periférica (1970-1994)

SOCIAL DISPLACEMENT THROUGH EDUCATION: tessituras of the poor and peripheral women (1970-1994)

DESPLAZAMIENTO SOCIAL A TRAVÉS DE LA EDUCACIÓN: tesituras de la mujer pobre y periférica (1970-1994)

Lia Machado Fiuza Fialho1 
http://orcid.org/0000-0003-0393-9892; lattes: 4614894191113114

Vitória Chérida Costa Freire2 
http://orcid.org/0000-0002-8029-5907; lattes: 3973477219174231

Francisca Genifer Andrade de Sousa3 
http://orcid.org/0000-0001-8280-3250; lattes: 4904576198000368

1Afiliação institucional: Universidade Estadual do Ceará E-mail: lia_fialho@yahoo.com.br

2Afiliação institucional: Universidade Estadual do Ceará E-mail: vitoriacherida91@gmail.com

3Afiliação institucional: E-mail: geniferandrade@yahoo.com.br


Resumo

O artigo trata do protagonismo feminino empreendido por uma menina pobre e negra, residente da periferia de Fortaleza, para conseguir ingressar na escolarização e prosseguir na educação formal, rompendo o semianalfabetismo geracional característico para as mulheres cearenses de sua etnia da década de 1960. O objetivo foi compreender os percalços e os deslocamentos vivenciados pela professora Zuleide Fernandes Queiroz na sua educação escolar e universitária que lhe possibilitaram resistir ao discurso conservador e às exclusões das instituições educacionais (1970-1994). Amparada teoricamente na história cultural e metodologicamente na história oral, desenvolveu-se uma pesquisa do tipo biográfica, que considerou como objeto de estudo as narrativas da biografada, coletadas mediante entrevista livre. Os resultados demonstram que, na contramão do percurso das outras meninas pobres, negras e periféricas do seu tempo, fadadas ao analfabetismo e ao subemprego, Zuleide Fernandes Queiroz conseguiu, com muita dificuldade, não apenas concluir a Educação Básica, mas tornar-se professora efetiva da Universidade Regional do Cariri. Sua trajetória educativa, marcada pela falta de recursos financeiros, foi ressignificada com a participação ativa nos movimentos estudantis, protagonizando a luta pelos direitos civis e de cidadania subtraídos às mulheres pobres, em especial, as negras.

Palavras-chave: biografia de educadora; mulher negra; empoderamento feminino; educação de mulheres; Zuleide Fernandes Queiroz

Abstract

undertaken by a poor and black girl, a resident of the outskirts of Fortaleza, to be able to enter schooling and continue in formal education, breaking the generational semi-literate characteristic of women from Ceará of her ethnicity, in the 1960s. The objective was to understand the mishaps and displacements experienced by Professor Zuleide Fernandes Queiroz in her school and university education that enabled her to resist the conservative discourse and the exclusions of educational institutions (1970–1994). Theoretically based on cultural history and methodologically on oral history, biographical research developed, which considered as an object of study the narratives of the biographer, collected through free interviews. The results show that, contrary to the path of other poor, black and peripheral girls of her time, doomed to illiteracy and underemployment, Zuleide Fernandes Queiroz managed, with great difficulty, not only to complete basic education, but to become an effective teacher from the Universidade Regional do Cariri. Her educational trajectory, marked by a lack of financial resources, was re-signified with her active participation in student movements, leading the fight for civil and citizenship rights taken away from poor women, especially black women.

Keywords: educator biography; black woman; female empowerment; women's education; Zuleide Fernandes Queiroz

Resumen

El artículo trata del protagonismo femenino asumido por una niña pobre y negra, residente en la periferia de Fortaleza, para poder ingresar a la escolarización y continuar en la educación formal, rompiendo la característica semianalfabeta generacional de las mujeres cearenses de su etnia en la década de 1960. El objetivo fue comprender los percances y desplazamientos vividos por la profesora Zuleide Fernandes Queiroz en su formación escolar y universitaria que le permitieron resistir al discurso conservador y a las exclusiones de las instituciones educativas (1970-1994). Basada teóricamente en la historia cultural y metodológicamente en la historia oral, se desarrolló una investigación biográfica, que consideró como objeto de estudio las narrativas del biógrafo, recogidas a través de entrevistas libres. Los resultados muestran que, contrariamente al camino de otras niñas pobres, negras y periféricas de su tiempo, condenadas al analfabetismo y al subempleo, Zuleide Fernandes Queiroz logró, a duras penas, no solo completar la educación básica, sino convertirse en una eficaz maestra de la Universidade Regional de Cariri. Su trayectoria educativa, marcada por la falta de recursos económicos, se resignificó con su participación en los movimientos estudiantiles, liderando la lucha por los derechos civiles y ciudadanos arrebatados a las mujeres pobres, especialmente a las negras.

Palavras chave: biografía de educadora; mujer negra; empoderamiento femenino; educación de la mujer; Zuleide Fernandes Queiroz

INTRODUÇÃO

A pesquisa se insere na área da Educação, mais especificamente, no campo da História da Educação, ao problematizar o contexto educacional exclusório para mulheres pobres, negras e periféricas na segunda metade do século XX. Tensiona as relações que se constituíram entre essas mulheres e a sociedade que as relegaram ao semianalfabetismo, à vida doméstica ou ao subemprego, especialmente no Nordeste do Brasil, Fortaleza, Ceará. Ao mesmo tempo, permite conhecer Zuleide Fernandes Queiroz, uma protagonista que se destacou na educação e se projetou nos movimentos sociais – grêmios, centro acadêmico e sindicatos – ao tornar-se professora universitária empoderada e ativista na luta pela garantia dos direitos constitucionais subtraídos às mulheres negras com vistas à maior igualdade social.

Zuleide Fernandes Queiroz iniciou a escolarização formal no final da década de 1960, momento no qual a oferta desse serviço era precária em todo o Brasil e, mesmo quando fomentada pela instância pública, era voltada prioritariamente para os grupos mais abastados da sociedade, pois somente essa parcela conseguia se manter nos bancos escolares até concluir a formação, já que os mais empobrecidos necessitavam trabalhar para auxiliar no sustento familiar (SAVIANI, 2011). Especificamente no que toca ao contexto cearense, esse ínterim foi marcado pela ausência de prédios escolares que atendessem a todas as regiões do estado e pelas más condições de funcionamento dos poucos existentes, além da predominância de professores leigos, que, sem formação adequada, desempenhavam uma docência incapaz de instruir com qualidade os estudantes (SOUSA, 1961).

Para melhor compreensão do cenário cearense da década de 1970, destaca-se que, no sistema educacional do Ceará, cerca de 90% dos alunos que iniciavam a 1ª série primária não concluíam o Ensino Primário, dos quais menos de 5% ingressavam no Ensino Secundário e apenas aproximadamente 1% concluía o Ensino Superior (VIEIRA, 2002). Não foram localizados dados que demonstrassem esse contexto na interface com o critério étnico, todavia, considerando o elitismo educacional, pode-se afirmar que, ainda que a maior parcela da população fosse composta por negros, a mulher negra seria a mais invisível nessa parcela de 1%.

Enfrentando um panorama de adversidades decorrentes da situação socioeconômica de seus pais, bem como da condição feminina e de sua negritude, Zuleide Fernandes Queiroz não apenas conseguiu concluir a Educação Básica e o Ensino Superior, mas também cursou mestrado, doutorado e pós-doutorado. Tornou-se uma professora universitária que goza de relativa visibilidade regional tanto pela sua práxis educacional emancipatória como pelo seu engajamento na luta pelo reconhecimento e respeito às diversidades.

Questionou-se, contudo, como foi a educação familiar e escolar dessa menina pobre, negra, moradora da periferia de Fortaleza, filha de família numerosa, com pais com baixa escolaridade, para que ela conseguisse deslocamento social para tornar-se pedagoga concursada da Universidade Regional do Cariri (Urca). Com o mote de entender essa problemática, desenvolveu-se uma pesquisa científica com o objetivo de compreender os percalços e os deslocamentos vivenciados pela professora Zuleide Fernandes Queiroz na sua educação escolar e universitária que lhe possibilitaram resistir ao discurso conservador e às exclusões das instituições educacionais (1970-1994). Esse recorte temporal foi delimitado considerando o ano de 1970, quando Zuleide Fernandes Queiroz, doravante somente Zuleide Queiroz, começou a sua escolarização, e o ano de 1994, quando ingressou como professora efetiva da Urca.

Desenvolve-se uma pesquisa do tipo biográfica, centrada na narrativa e na análise dos aspectos educacionais que marcaram a vida de Zuleide Queiroz, contudo entende-se que a escrita biográfica “[...] não se ocupa de retratar apenas a ‘vida’, mas também a ‘maneira de viver’ [...]” (DOSSE, 2015, p. 123), por isso as múltiplas facetas que perpassaram pela história educacional da biografada e exerceram influência nela podem ser apreendidas nesta escritura, entrecruzadas com tantas outras vidas de mulheres, inclusive daquelas que não alcançaram alto nível de escolarização, independência financeira e empoderamento feminino. De tal maneira, demonstra-se que as oportunidades não se efetivam com igualdade e equidade, ao contrário, persistem na estrutura social constituindo-se como empecilhos ao acesso às condições justas de vida.

O intuito não é tecer uma biografia heroica para enaltecer a figura dessa professora, e sim se debruçar sobre os enfrentamentos de uma pessoa comum, intransponíveis para muitas outras mulheres, mas relevante por facultar a compreensão de minúcias que permeiam o cotidiano coletivo, a exemplo da exclusão educacional. Na biografia hermenêutica aqui empreendida, entendeu-se que a vida é uma trajetória não linear que comporta questões a serem respondidas (LEVI, 2016), o que implicou a indissociabilidade entre o individual e o coletivo (LORIGA, 2011). Dessa feita, cuidou-se para não cair na ilusão biográfica apontada por Bourdieu (2002), ao tempo que se valorizou a história de uma mulher negra periférica, pois a biografia em relato é do tipo exceção normal, como denomina Dosse (2015), ou seja, a escrita da vida de uma pessoa comum que destoa de seu grupo por conseguir transpor barreiras e por constituir história distinta da maioria dos seus pares.

ESCOLHAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS

A biografia que se apropria da história cultural assume uma perspectiva hermenêutica e, por isso, distante da escrita heroica, concebe o ser humano como sujeito de ações e, ao mesmo tempo, como produto de seu espaço geográfico, considerando as múltiplas e complexas relações entre os homens e o seu contexto sociocultural (DOSSE, 2015). Em consonância, estudar o percurso trilhado por uma mulher comum, atentando para as esferas públicas e privadas, permite acessar particularidades da história ainda em situação de anonimato, uma vez que “[...] a perspectiva de trabalhar com biografias e/ou histórias de vida fornece subsídios para se entender o indivíduo em várias dimensões, bem como vislumbramos, também, os aspectos constituintes da sociedade de outrora [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 61). Dessa maneira, a produção do conhecimento histórico tornou factível o decantar do individual na sua relação indissociável com o contexto local, inovando a compreensão de história, que até então era única e totalizante (FIALHO; FREIRE, 2018).

De acordo com Nunes, Teixeira e Machado (2017), no que concerne especificamente ao ato de biografar mulheres, esse empreendimento permite a ressignificação social do feminino, valorizando e reconhecendo a sua potencialidade de constituir conhecimento histórico. Porquanto, biografar Zuleide Queiroz possibilita visualizar os eventos que se entremeiam às suas experiências no decorrer do seu processo formativo, constituindo-se como um estudo que vem a incrementar, ao mesmo tempo, a memória individual e a social.

Haja vista que o escopo foi biografar Zuleide Queiroz com ênfase na sua trajetória formativa, a história oral apresentou-se como a metodologia adequada para a coleta e a análise dos dados, pois interessou-se por tomar conhecimento das vivências dessa mulher nos variados espaços onde interagiu e estabeleceu relações educativas. Consoante Alberti (2013), a história oral se constitui em um mecanismo apropriado para o estudo da história do tempo presente, porque ela, por meio de entrevistas, permite analisar acontecimentos e conjunturas do passado e do presente.

Seguindo tais pressupostos, as memórias de Zuleide Queiroz foram acessadas por meio de sua narrativa, coletada mediante entrevista livre, de modo que a sua oralidade tornou objeto da história oral, já que esta serviu-se daquela para reconstituir o tempo de outrora (THOMPSON, 2002). Levando em consideração que a memória é seletiva e que ela passa pelos filtros do presente, que podem significar e ressignificar o acontecido, a biografia de Zuleide Queiroz não busca apregoar uma verdade inquestionável e absoluta, mas constituir uma narrativa histórica que reconhece a limitação de jamais poder apreender a totalidade de uma vida (DOSSE, 2015).

A entrevista livre em história oral (ALBERTI, 2013), com a concordância expressa da biografada, foi realizada no dia, horário e local por ela elegidos: 17 de abril de 2019, na sede regional do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), localizada no bairro Benfica, Fortaleza, às 9h30, com duração de uma hora e onze minutos. Antes de sua realização, foi feita a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, quando se explicitaram o escopo do estudo, a metodologia, a participação de forma voluntária, os possíveis riscos, a possibilidade de retirada do consentimento a qualquer momento e a divulgação das narrativas para fins acadêmicos.

Destaca-se ainda que a entrevista, registrada com apoio de gravador eletrônico, foi transcrita na íntegra e validada no dia 18 de outubro de 2019 pela biografada, tudo como preconizado no projeto de pesquisa intitulado (retirado para preservar o anonimato), aprovado pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa com parecer de número (retirado para preservar o anonimato).

ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA

Zuleide Queiroz nasceu na cidade de Fortaleza, Ceará, em 1964, ano em que foi instituído o Golpe de Estado que antecedeu a Ditadura Militar, quando o Brasil foi comandado pelos membros das Forças Armadas, que faziam uso da repressão para se manterem no controle do país (VIEGAS, 2020). De acordo com Vieira (2002), nessa fase inicial, o estado do Ceará não sentiu o impacto do novo Regime, permanecendo bestializado perante os rumos que seguia a política nacional. Não diferente da maioria dos cearenses, a família de Zuleide Queiroz sequer conseguia compreender o que estava ocorrendo no Brasil, afinal a baixa escolaridade, a situação precária de vida na casa de taipa, que inclusive chegou a desabar com a chuva, e a busca pelo mínimo necessário para suprir as necessidades mais emergenciais não colaboravam para a constituição de uma análise crítica da realidade instável em que viviam.

Zuleide Queiroz era filha de pai servente de pedreiro e de mãe diarista, ambos com baixa instrução, pois o primeiro era semianalfabeto, tendo cursado somente a 1ª série, e a última estudou apenas até a 5ª série; Zuleide Queiroz e seus sete irmãos – cinco mulheres e dois homens – nasceram e foram criados no bairro Pan-Americano, região periférica da capital cearense, que abrigava trabalhadores da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA). Zuleide Queiroz explica: “[...] esse bairro era constituído de famílias que os pais trabalhavam na RFFSA, que era a empresa de transporte, de trens. E aí o bairro se constitui de funcionários dessa empresa. Naquela época, periferia mesmo de Fortaleza” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Quando ela muda o tom da voz para dar ênfase ao trecho periferia mesmo, o objetivo foi ressaltar que, na década de 1960, esse bairro era muito pobre, destituído dos serviços básicos de infraestrutura, localizado distante do centro urbano.

Importa destacar que as obras para a construção da referida via ferroviária faziam parte do conjunto de ações promovidas pelo governo federal, iniciadas por Juscelino Kubitschek (1956-1961) em 1957, fortalecidas pelos governos de cunho desenvolvimentista até a década de 1980, que englobava a construção de 18 ferrovias regionais do país, chegando a empregar 80 mil operários em seus 30 mil quilômetros de linhas (DAVID, 2009). Esse período foi marcado por grandes transformações na capital cearense, que se tornava urbana e necessitava de rodovias de trem, prioritariamente para facilitar o comércio.

Zuleide Queiroz iniciou sua educação formal no bairro Bela Vista, localizado no entorno de onde morava, na Escola Professor Martins de Aguiar, que ofertava o ensino primário, isto é, as séries iniciais da escolarização. Sua conclusão se deu na Escola Senador Fernandes Távora, também conhecida por Colégio Marupiara, no bairro Demócrito Rocha. Destaca-se que no início da década 1970, não existia a concepção de Educação Infantil como etapa importante para educação das crianças, seja porque não havia conhecimento acerca da noção de infância e das suas particularidades, seja porque a determinação legal para o financiamento da Educação Infantil pelo poder público só veio a se consolidar em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei nº 9.394 (SOARES, 2019). Antes disso, ainda que não houvesse a noção de Educação Infantil, a escolarização da criança pequena foi referenciada na Lei nº 5.692/71, que em seu Art. 19, inciso 2º, delegou aos sistemas de ensino o encargo pelo atendimento às crianças menores de sete anos em escolas maternais, jardins de infância e instituições equivalentes, mas como tal legislação não determinou a obrigatoriedade da oferta, eram poucas as possibilidades de a criança brasileira frequentar a escola antes dos sete anos de idade.

Mesmo precisando se deslocar diariamente do local onde morava, no Pan-Americano, para estudar em bairros adjacentes, primeiro no Bela Vista e depois no Demócrito Rocha, outras duas regiões da periferia fortalezense, há que se considerar que Zuleide Queiroz contou com oportunidade diferenciada de muitos dos seus contemporâneos, mais especificamente daqueles residentes no interior cearense, que sequer cogitavam a oportunidade de ingressar em uma instituição formal de ensino em virtude da inexistência de escolas no entorno do ambiente onde residiam (SOUSA, 1961). Conforme Vieira (2002), na década de 1970, quando Zuleide Queiroz iniciou o Ensino Primário, o qual, a partir da Lei nº 5.692/71, passou a se chamar Ensino de 1º Grau, cerca de 70% da população cearense enfrentavam dificuldades para se escolarizar, simplesmente porque viviam longe dos centros urbanos.

Outro aspecto importante de salientar é que, como os pais de Zuleide Queiroz eram pobres, era necessário que os filhos ajudassem no sustento da casa e nas atividades domésticas. Dessa maneira, seus irmãos mais velhos não prosseguiram nos estudos, por serem incompatíveis com as atividades laborais que a vida precária lhes impunha. Já a biografada pôde ser dispensada de ingressar no trabalho informal remunerado, em decorrência de seus irmãos já estarem contribuindo com o sustento do lar.

Zuleide Queiroz conseguiu concluir o Primário e ingressar no Ensino de 1º Grau, enfrentando: a distância da escola, que era percorrida a pé; a falta de fardamento, que lhe obrigava a gastar as poucas roupas já desgastadas que possuía; a carência de material escolar, por lhe faltar livros, cadernos de qualidade e demais utensílios que apoiam a aprendizagem; e o preconceito racial, já que sua negritude e seus cabelos muito crespos não representavam o padrão de beleza instituído, acarretando insultos e apelidos desagradáveis1.

No decorrer da 8ª série, último ano do Ensino de 1º Grau, Zuleide Queiroz frequentou um cursinho preparatório chamado Pró-Técnico, voltado para os alunos mais empobrecidos das escolas públicas que desejavam ingressar na Escola Técnica Federal do Ceará. Essa iniciativa era essencial “[...] para poder se preparar para fazer a prova, para conseguir entrar [na escola técnica] (Zuleide Queiroz, 17/04/2019), já que a qualidade do ensino era incipiente e, para ingressar na escola técnica, era necessário ser aprovado numa seleção semelhante a um vestibular (VIEIRA, 2002). Destaca-se que o fato do próprio estado fomentar um curso preparatório para que os estudantes pudessem ser aprovados na seleção da Escola Técnica explicita o seu conhecimento acerca das fragilidades do Ensino de 1º Grau. Ademais, os alunos da elite econômica não concorriam para essas vagas, já que se dedicavam ao segundo grau regular para o posterior ingresso no ensino superior ao invés de se prepararem prematuramente para o ingresso em postos de trabalho pouco valorizados.

Zuleide Queiroz foi aprovada na Escola Técnica Federal do Ceará, o que se tratava, para ela e para a sua família, de uma grande realização, pois “[...] era o sonho de toda família e de todo jovem a possibilidade de entrar numa escola técnica” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Obviamente, a biografada se refere aos anseios das famílias de baixa renda, para as quais a escola técnica assegurava uma formação com maior possibilidade de ingresso no mercado de trabalho formal. Isso porque os estabelecimentos técnicos federais foram idealizados no governo do presidente Juscelino Kubitschek e ganharam força no período da Ditadura Militar, sob o intento de formar a mão de obra necessária ao desenvolvimento do Brasil, sendo a classe trabalhadora o seu público estratégico (SAVIANI, 2011). Ainda assim, Zuleide Queiroz reconheceu as contribuições dessa experiência para a sua formação: “[...] o curso de Turismo é um curso muito bom, porque me deu oportunidade de conhecer duas línguas estrangeiras, o inglês e o francês, estudar Museologia, estudar História da Arte, Hotelaria, Português, História, Geografia” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019).

Escolarizada sob a égide do Regime Militar, Zuleide Queiroz teve a sua trajetória formativa diretamente influenciada por esse período, já que, com vistas à ocupação dos jovens em tempo integral, para que não lhes restasse tempo para a organização política, eram ofertadas bolsas para que se dedicassem ao esporte e aprendessem a amar e representar a pátria com obediência e devoção (OLIVEIRA, 2002). Esse auxílio financeiro foi crucial para que Zuleide Queiroz pudesse se manter na escola, como explicita a biografada: “[...] na escola técnica, durante o período do ensino médio, para me sustentar [...], eu passei a praticar o esporte, e, através do esporte, a gente tinha uma bolsa para se manter na escola, porque estudava durante o dia, e a nossa família, muito pobre, já não podia nos sustentar” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Ademais, nessa instituição, seu deslocamento precisava ser feito por meio de transporte coletivo público, o que exigia maior despesa.

O exíguo valor da bolsa que recebia, embora fosse essencial para que ela mantivesse as suas necessidades pessoais, não era suficiente para auxiliar no sustento familiar. Por isso, ela continuou contando com a ajuda dos irmãos mais velhos, que trabalhavam e conseguiam contribuir com os gastos de casa, possibilitando que tanto ela quanto os irmãos mais novos conseguissem prosseguir nos estudos e ingressar no Ensino Superior, conforme relata: “[...] os quatro filhos mais velhos não vão conseguir se formar na educação superior, e os quatro mais novos é que vão conseguir, exatamente porque os mais velhos, antes mesmo de terminar o Ensino Médio, tiveram que trabalhar para ajudar no sustento da família [...]” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019).

Acerca dessa realidade, Gondra e Schueler (2008) afirmam que, durante todo o século XX, a pobreza era um dos principais fatores que acarretavam afastamento dos estudantes dos bancos escolares antes que eles concluíssem a escolarização. Especificamente no que concerne ao Ceará, Sousa (1961) averiguou que poucos eram os que conseguiam se formar, pelo menos no curso Primário, sendo que ingressar no Secundário e ali permanecer até a sua conclusão era um feito praticamente inviável às proles menos abastadas, como era a de Zuleide Queiroz.

Um fator intrínseco a toda a educação escolar de Zuleide Queiroz foi o engajamento em grupos e movimentos de ebulição social. Aos 13 anos de idade, antes de ingressar no Ensino Secundário, já participava do encontro de jovens sediado na paróquia do São Pio X, no bairro Pan-Americano, onde morava. A organização iniciada na igreja católica foi fundamental para a formação de Zuleide Queiroz, pois com ela começou a sua percepção sobre a realidade na qual vivia, já que essa instituição religiosa “[...] fazia um trabalho muito grande com a juventude, trabalho de base, porque, na época, tinha-se muito presente nos padres a presença da concepção da teologia da libertação” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Essa corrente da igreja católica, que exerceu forte influência na formação crítica da biografada, entende que o Evangelho cristão deve atuar de modo a contestar a desigualdade social. Assim, declarando opção pelos pobres, os eclesiásticos buscam fomentar formação para que os desfavorecidos economicamente se tornem aptos a buscar condições mais justas de igualdade nos diversos âmbitos, como o político e o social (BOFF, 2003). À luz de Sofiati (2013, p. 225), sintetiza-se: “[...] a proposta era que os iniciantes assumissem sua militância nessas pastorais específicas para, em seguida, atuarem na sociedade civil organizada”.

A partir dessa influência, Zuleide Queiroz já contava com formação política, mesmo que elementar, quando ingressou na Escola Técnica. Na contramão, o Ensino Técnico apregoava o contentamento da classe trabalhadora com os cargos desprestigiados da sociedade, o que a fez problematizar esse modelo educativo que pregava a subserviência e a naturalização das desigualdades (GONDRA; SCHUELER, 2008). Dessa maneira, “[...] fazia o Ensino Técnico, que já era uma escola para formar trabalhadores para o mercado de trabalho [...], e, ao mesmo tempo, eu estava inserida no grupo de jovens, então eu já tinha uma formação emancipadora [...]” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Por conseguinte, ela se sentiu motivada a fazer parte do Grêmio Estudantil da Escola Técnica Federal do Ceará, organização de estudantes que visa a representar o interesse da classe discente.

A partir da experiência no grêmio, passou a militar em prol de vários escopos, pois, à época, “[...] já tinha a luta pela abertura política no Brasil. Então, nós vamos para as ruas; nós vamos participar das Diretas Já; nós vamos lutar pela carteira de estudante; nós vamos lutar por políticas de assistência, nos [sic] juntando já aos próprios alunos [...] da universidade” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019).

O movimento Diretas Já, do qual Zuleide participou, teve início em maio de 1983 e seguiu até o ano seguinte, 1984, visando a descontinuar o Regime Militar, que impedia as eleições diretas, logo se exigia a abertura política por meio da retomada das eleições. Essa luta organizada envolveu partidos políticos, artistas, membros da sociedade civil e intelectuais, que realizavam comícios e manifestações nas principais avenidas brasileiras (COMPARATO, 2014). Além desse marco, a década de 1980 e 1990 foi palco de muitas organizações estudantis em busca de investimento com foco na educação e no bem-estar dos estudantes, datando dessa época a conquista da carteira de estudante e das bolsas de permanência universitária (HUERTA, 2018), movimentos que Zuleide Queiroz também integrou. Em Fortaleza, a efervescência se concentrava em duas avenidas: a 13 de maio, que dava acesso a uma das entradas da Escola Técnica onde a biografa estudava, e a Avenida da Universidade, na qual se concentram alguns cursos vinculados à Universidade Federal do Ceará (UFC).

Destaca-se que a interação dos alunos da Escola Técnica e da UFC, em meio a esses movimentos de reivindicações, foi determinante para que Zuleide Queiroz vislumbrasse de maneira mais concreta a possibilidade de cursar o Ensino Superior na citada instituição, assunto tratado a seguir.

DO ENSINO SUPERIOR AO INGRESSO NA URCA

Em 1982, ao concluir o Ensino Secundário na Escola Técnica, Zuleide Queiroz prestou vestibular para o curso de Pedagogia da UFC e, uma vez aprovada, iniciou a graduação em 1983, no turno diurno, pois não existia curso de Pedagogia à noite: “[...] quando eu termino a Escola Técnica, aí eu já sabia que eu queria fazer Pedagogia. Então, eu me inscrevi logo, passei logo” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Para ela, sair da periferia para estudar em uma escola situada num bairro universitário foi fundamental, pois possivelmente, sem essa experiência, não teria despertado interesse por adentrar em uma das poucas universidades que existiam no Ceará na década de 1980 (CASTELO, 1970).

Porquanto, assevera-se que, até esse momento da vida de Zuleide, embora enfrentando dificuldades diversas, a sua trajetória educativa apresenta-se diferenciada daquela trilhada pelo público menos abastado de sua época, que sequer conseguia concluir o Ensino Secundário, quiçá adentrar em um curso de Ensino Superior (SOUSA, 1961). De acordo com Vieira (2002), na sociedade cearense, à época, eram formados pela universidade aqueles sujeitos com posses, cujos pais tinham condições para sustentá-los durante o período de estudo, seja em Fortaleza ou em outros estados e países, realidade que começou a ser modificada apenas nos anos finais do século XX. Portanto, na década de 1980, quando Zuleide cursava Pedagogia na UFC, ainda não era comum que a classe empobrecida chegasse à universidade; é tanto que a biografada relatou que a sua turma era composta sobremaneira pelas normalistas egressas de dois colégios privados religiosos de renome em Fortaleza, o Imaculada Conceição e o Santa Cecília, ambos voltados para a educação das moças da elite econômica (MAGALHÃES JUNIOR, 2003).

Zuleide Queiroz ainda possuía outro diferencial, ser negra, grupo étnico que historicamente foi ainda mais excluído, devido às condições injustas de exploração desde a escravidão, que desencadeou, até hoje, mais dificuldades para os negros ocuparem os locais de prestígio ocupados por pessoas brancas (FERNANDES, 2007). Dessa forma, ela rememorou o seguinte: “Eu e a Aldenora, nós vamos ser as primeiras estudantes negras do curso de Pedagogia, negras e de escolas públicas” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Portanto, resta explícita a parca presença negra na universidade na década de 1980.

Importa esclarecer que maior inserção da negritude na universidade aconteceu apenas ao final da década de 1990 e início dos anos 2000, quando o Brasil iniciou o processo de implementação de cotas étnicas nas instituições superiores. Essas políticas afirmativas, ainda que não tenham fomentado uma mudança na estrutura social, buscam minimizar as históricas desigualdades, favorecendo a democratização do ensino aos negros e pobres (DOMINGUES, 2005).

Na UFC, também conseguiu a bolsa de estudos que tornou viável a sua dedicação exclusiva à Pedagogia durante os primeiros anos, como relatou Zuleide Queiroz:

[...] o Governo Federal tinha um programa de bolsas de apoio aos estudantes. Essa bolsa era para estudantes universitários trabalharem na parte de serviços administrativos das escolas técnicas. E aí a escola técnica abre um edital para exalunos [...], vai ser como eu consigo me sustentar nos primeiros anos de faculdade. Eu estudava ali na UFC, na Faculdade de Educação, [...] e depois saía e ia trabalhar na secretaria da Escola Técnica. Então, eu passo um ano, um ano e meio, com essa bolsa, me [sic] mantendo para poder me sustentar [...]. (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019).

Concluído o tempo de vigência dessa bolsa, passou a se dedicar à monitoria acadêmica, depois a um projeto de extensão e, em seguida à iniciação científica: “[...] depois, no segundo ano, eu entro em bolsa de monitoria; depois bolsa de extensão, bolsa de pesquisa, e vai ser assim que a gente se mantém” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Além do auxílio financeiro concedido através das mencionadas bolsas, Zuleide Queiroz afirmou ter conseguido se manter no Ensino Superior devido às condições da própria universidade, o que facilitava a estada fora de casa sem despender alto investimento: “Por que que eu consegui me manter na universidade? Porque tinha restaurante universitário, almoço e jantar e porque tinham as bolsas para a gente poder comprar livro e pegar ônibus” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). À vista disso, certifica-se que o investimento governamental em iniciativas que visem à permanência universitária de estudantes menos abastados, através da concessão de bolsas, é fator determinante para que esse grupo logre formação superior, atenuando as desigualdades sociais (FIALHO; SOUSA, 2017).

No caso de Zuleide Queiroz, destaca-se o fato de ela ter a sua trajetória estudantil facilitada por ter sido contemplada com bolsas, tanto no Ensino Superior, como também enquanto estudante da Escola Técnica, quando recebia bolsa por praticar esportes, mas foi como estudante da graduação que ela pôde ter acesso a variadas modalidades de bolsas: monitoria, extensão, iniciação científica e de apoio técnico-administrativo. Essas, além das experiências formativas, foram essenciais para a sua permanência universitária.

Dando continuidade à atuação militante que desempenhava no Grêmio Estudantil quando discente da Escola Técnica, assim que ingressou na UFC, procurou se articular no centro acadêmico. Zuleide Queiroz asseverou: “Fui logo me engajar no movimento estudantil, no centro acadêmico de Pedagogia, Centro Acadêmico Paulo Freire, e vou passar meus quatro anos de curso na militância do movimento estudantil” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Dessa feita, passou a integrar ainda a Juventude Universitária Católica (JUC), movimento que surgiu a partir da Associação Universitária Católica (AUC), criada no início da década de 1930, com o objetivo de preparar jovens militantes católicos segundo o método “Ver, julgar e agir”, que preconizava a atuação dos jovens contra injustiças e desigualdades sociais. A JUC, embora tenha iniciado no seio da igreja católica, mais tarde, ao se envolver com as questões políticas e sociais, fundou uma organização desvinculada do catolicismo e compromissada com a militância e com a luta contra as desigualdades sociais. Inclusive, na década de 1960, esteve presente na luta contra a Ditadura Militar (GOMES, 2005).

No decorrer dos quatro anos em que Zuleide Queiroz esteve vinculada à UFC como estudante (1983-1986), ela vivenciou uma diversidade de experiências formativas extrassala de aula. Em 1984, no seu segundo ano de curso, a UFC enfrentou uma greve que durou todo o semestre, ocasião em que Zuleide Queiroz militou fervorosamente junto aos professores por melhorias para a instituição, o que incitou ainda mais o movimento estudantil. “É tanto que nós vamos criar o Encontro Estadual dos Estudantes de Pedagogia; vamos fazer parte do Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia. A gente vai retomar e fortalecer o Centro Acadêmico. A gente vai participar de chapas de Diretórios Acadêmicos” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). De acordo com Fialho e Freire (2018), o movimento estudantil pode ser considerado como um espaço de formação e de iniciação ao engajamento político, por reunir aspectos teóricos, ideológicos e práticos que formam politicamente os estudantes para uma atuação militante.

Concluído o curso de Pedagogia em 1986, Zuleide Queiroz começou a trabalhar, já que deixou de ser bolsista e precisava se sustentar, como técnica em Educação: “[...] eu passei numa seleção para trabalhar no Instituto Euvaldo Lodi, que é um órgão do sistema FIEC [Federação das Indústrias do Estado do Ceará] [...], e aí vou trabalhar como auxiliar técnico em Educação [...], eram 30 horas semanais” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019). Como o Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UFC, à época, não aceitava alunos recém-graduados, exigindo que eles obtivessem experiência no mercado de trabalho, coube a Zuleide Queiroz passar todo o ano de 1987 trabalhando enquanto se preparava para fazer a seleção para o curso de mestrado.

Com um ano de experiência profissional, foi aprovada no final de 1987 no PPGE, no entanto, ela teve que conciliar todo o período de mestrado (1988-1992) com o trabalho. Primeiro na empresa privada onde já atuava desde o ano anterior ao início do mestrado, depois na própria UFC, mediante aprovação em seleção para ocupar o cargo de professora substituta. Sobre esse momento, ela recordou que foram muitas as dificuldades enfrentadas: “Não foi fácil. Não foi fácil mesmo! Era estudando nas madrugadas e nos finais de semana. Nada foi dado de presente para a gente, não. Foi muito duro, muito duro”. E lamentou: “Olha, a classe trabalhadora, para estudar, precisa provar dez vezes que tem condições” (QUEIROZ, entrevista, 17 abr. 2019).

De fato, para progredir na escolarização formal, a população menos abastada enfrenta uma série de empecilhos que não afetam a classe mais favorecida economicamente, que pode dedicar-se exclusivamente aos estudos, o que contribui para asseverar a desigualdade social, principalmente quando consideramos que o alto nível de escolaridade é determinante para adquirir um bom cargo no mercado de trabalho (TOMMASI, 2004). Mesmo vivenciando essa realidade desigual, que tornou a trajetória de vida e profissional de Zuleide Queiroz muito mais árdua, essa mulher pobre, negra e periférica demonstrou perseverança e concluiu o curso de mestrado em 1992.

Pouco depois de finalizado seu contrato de substituta na UFC, foi aprovada no concurso da Urca em 1994, tornando-se a primeira mulher negra e periférica a ocupar esse cargo no curso de Educação dessa instituição, galgando deslocamento social mediante a educação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo objetivou compreender os percalços e os deslocamentos vivenciados pela professora Zuleide Queiroz na sua educação escolar e universitária que lhe possibilitaram resistir ao discurso conservador e às exclusões das instituições educacionais (1970-1994). Constatou-se que os principais percalços enfrentados por ela foram decorrentes das condições econômicas desfavoráveis, pois, por ser de família muito pobre, era necessário que os filhos ingressassem no mercado de trabalho antes da conclusão do Ensino Secundário, pela necessidade de ajudar no sustento do lar. Todavia, como seus irmãos mais velhos já trabalhavam e colaboravam financeiramente nas despesas do lar, Zuleide Queiroz pôde ser poupada das atividades laborais, com a condição de que seus estudos honrassem a família.

Dessa feita, a biografada, que residia em uma região da periferia fortalezense, estudou o Ensino Primário nas proximidades de sua casa. Mediante curso específico que preparava os alunos mais empobrecidos das escolas públicas para a seleção da Escola Técnica Federal do Ceará, assegurou aprovação na referida instituição. Cursar o Ensino Secundário em Escola Técnica foi o maior diferencial da sua educação formal, pois esse deslocamento lhe permitiu, ao estudar Turismo, auxílio financeiro mediante bolsa de estudo e um Secundário de melhor qualidade, se comparado aos cursos públicos das periferias da cidade.

No Ensino Secundário, integrou a militância do Grêmio Estudantil e se uniu a outros manifestantes universitários em defesa da democracia e de outras causas estudantis, o que reforçou o seu engajamento social e o desejo de ingressar no Ensino Superior. Aprovada no vestibular, cursou Pedagogia na UFC, passando a contar com bolsas de monitoria, pesquisa e extensão para conseguir se manter no Ensino Superior. Em sequência à formatura em Pedagogia, ingressou no mercado de trabalho para auxiliar no sustento da família, retornando à UFC um ano depois para cursar mestrado em Educação, formação que conciliou com o exercício profissional, com muito sacrifício.

Destacou-se como uma das mulheres negras pioneiras a ingressar na pós-graduação, vencendo os preconceitos raciais vivenciados desde o início da escolarização e galgando respeito de colegas e de professores por sua responsabilidade, compromisso social e estudo. Conseguiu ser selecionada para professora substituta da UFC e, logo em seguida, ser aprovada no concurso público para professora efetiva da Urca, sendo considerada, no estado do Ceará, como exceção à regra de exclusão educacional imposta à maioria das meninas pobres e periféricas de seu tempo.

Conquanto, mesmo que a trajetória singular faculte a compreensão do coletivo, os resultados desta pesquisa não podem ser generalizados por se tratar de uma biografia de exceção. Todavia, ela permite compreender como eram quase intransponíveis as barreiras educacionais impostas a tantas outras Zuleides, asseveradas pela pobreza. Sugere-se, contudo, que outros estudos dessa natureza sejam elaborados, inclusive, com maior ênfase à perspectiva da interseccionalidade – gênero, classe e raça – já abordada por escritoras a exemplo de Davis (2016), Gonzalez (1984) e Ribeiro (2016).

1Aqui não se falou em bullying porque na década de 1970 não havia a compreensão dessa terminologia nas escolas. Todavia, atualmente o preconceito sofrido não seria apenas bullying, mas também crime racial.

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Recebido: Maio de 2022; Aceito: Junho de 2022

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