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Revista Teias

versión impresa ISSN 1518-5370versión On-line ISSN 1982-0305

Revista Teias vol.24 no.75 Rio de Janeiro oct./dic 2023  Epub 26-Dic-2023

https://doi.org/10.12957/teias.2023.80454 

Editorial

Editorial- Teias vol.24 no.75

Jane Paiva1 

Paula Leonardi1 

1editoras


Chegamos ao número final de Teias de 2023. Em parceria com a Associação Brasileira de Currículo (ABdC), como vimos fazendo há alguns anos, destacamos a relevância do tema que inspirou a seção temática Vocês são importantes...

Desde que este sintagma se tornou globalmente conhecido em movimento de defesa de corpos indesejados por um mundo cada vez mais excludente e apartado, tem servido para destacar muitas lutas que, dia a dia, ganham expressão e relevância social, dada à invisibilidade que povos, pessoas, crenças, culturas são empurrados, obrigando-os a resistirem cada vez mais criativamente na tragédia (em muitos casos) do existir.

Krenak (2020, p. 15) em A vida não é útil trata da singeleza da vida em conexão com todos os seres/forças do planeta:

Aqui, do outro lado do rio, há uma montanha que guarda a nossa aldeia. Hoje ela amanheceu coberta de nuvens, caiu uma chuva e agora as nuvens estão sobrevoando seu cume. Olhar para ela é um alívio imediato para todas as dores. A vida atravessa tudo, atravessa uma pedra, a camada de ozônio, geleiras. A vida vai dos oceanos para a terra firme, atravessa de norte a sul, como uma brisa, em todas as direções. A vida é esse atravessamento do organismo vivo do planeta numa dimensão imaterial. A vida que a gente banalizou, que as pessoas nem sabem o que é e pensam que é só uma palavra. Assim como existem as palavras “vento”, “fogo”, “água”, as pessoas acham que pode haver a palavra “vida”, mas não. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição.

Vocês são importantes... e todos os demais artigos que esse número coleciona podem trazer à publicação muitos sentidos que, mesmo não evidenciados nos textos da seção assim nomeada, evocam muitas possibilidades para nós, da área da educação que militamos, investigamos, produzimos conhecimento há tanto tempo em defesa do direito à educação e, especialmente, em defesa de todos os sujeitos desse direito, em todos os níveis, etapas e modalidades educativas. Pensar o conhecimento em um tempo, habitando um espaço que nos circunscreve a uma lógica guiada por um modelo de mundo/sociedade em risco e ameaçador de nossas humanidades exige retomar a sabedoria dos povos originários, que Krenak (2020, p. 70) novamente expressa, demonstrando a importância da vida em relação, e o engano que tem sido produzido quando se rompem conexões com nossas histórias e memórias:

Acredito que nossa ideia de tempo, nossa maneira de contá-lo e de enxergá-lo como uma flecha - sempre indo para algum lugar -, está na base do nosso engano, na origem de nosso descolamento da vida. Nossos parentes Tukano, Desana, Baniwa contam histórias de um tempo antes do tempo. Essas narrativas, que são plurais, os maias e outros ameríndios também têm. São histórias de antes de este mundo existir e que, inclusive, aludem à sua duração. A proximidade com essas narrativas expande muito nosso sentido de ser, nos tira o medo e também o preconceito contra os outros seres. Os outros seres são junto conosco, e a recriação do mundo é um evento possível o tempo inteiro.

Estar juntos. Sem preconceito contra outros seres. Expandidos em afeto e sentimentos. Recriados, recriando-nos.

Nessa mesma linha, evocando tradições ancestrais negras da comunidade dagara, em Burkina Faso, Sobonfu Somé (2009, p. 23), para quem esses estar junto recria o sentido de comunidade, o que remete à ideia de cuidar uns aos outros, se aproxima do pensamento de Krenak ao relevar os vínculos que estabelecemos com a terra, pelo pertencimento, o que significa fazer parte de um todo “[...] responsável por nosso sentido de identidade, nosso pé no chão e nossa habilidade de apoiar e nutrir uns aos outros”.

Somos esses todos, os importantes. Importantes como gêneros, raças, etnias, formas de pensar, de compreender o mundo nessas múltiplas e possíveis cosmovisões. Importantes como educadores/as, professores/as, estudantes - crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos. Importantes porque existimos, estamos aqui e agora fazendo um presente que tem um passado e que é, de pronto, futuro. Importantes porque, sendo o que somos, diferentes, estamos inteiros como humanidade que requer respeito, cuidado, bem-viver.

REFERÊNCIAS

KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. [ Links ]

KRENAK, Ailton. A máquina de fazer coisas. In: KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. [ Links ]

SOMÉ, Sobonfu. O espírito da intimidade: ensinamento ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar. São Paulo: Editora Odysseus, 2009. [ Links ]

Recebido: Novembro de 2023

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