SERIA O CURRÍCULO UM FUXICO?
Em tempos pandêmicos, quando os encontros dos corpos comunicantes estão limitados às proximidades imediatas ou mediadas pelas tecnotelas, a fofoca, o fuxico e o mexerico necessário para as redes de sociabilidades e saber passam a se perguntar pelos seus possíveis. Em uma leitura bem pouco popular no domínio do moralismo, Yuval Noah Harari (2018) propõe-nos que a fofoca é o meio pelo qual a humanidade pôde, de um modo radicalmente diferente dos outros animais, constituir sociedades. Para a perspectiva histórico-biológica discutida por Harari, foi justamente a nossa capacidade de expressar de muitas maneiras aquilo que sentimos pelos outros, aquilo que observamos dos outros e exprimimos de suas ações que possibilitou ao humano a ampliação dos círculos de sociabilidade.
No popular, a fofoca foi a condição biossocial para o estabelecimento de redes de afeto mais amplas. E, para nós, professoras e professores, interessa-nos indagar como a fofoca pode contribuir, então para o que esperamos das práticas curriculares, de uma especificidade da escola. Pensemos um pouco nas fofocas de escola.
Se você já visitou uma escola uma vez em sua vida, sabe que nenhuma escola é formada apenas de salas de aula. Apesar dos gestores educacionais que insistem em definir os fluxos partindo da quantidade de salas de aula, sabemos que não há escola sem corredores, sem lugares mais ou menos escondidos onde as pessoas vão para fuxicar um pouco, onde possivelmente alunos vão se agarrar às escondidas e outras coisas do tipo. Mesmo uma sala de aula comporta uma ampla rede de fuxicos, de trocas de cartinhas, de alunos visitando as mesas dos colegas ou mesmo de professoras conversando à porta.
Uma escola é já e sempre invadida por mexericos. Bem verdade que, durante o período de pandemia e de ensino remoto, as fofocas precisaram ser articuladas de outros modos. Afinal, agora não mais há o espaço entre aulas, as fugidas para ir ao banheiro e conversar pelos corredores, o banheiro agora é um espaço solitário do interior das casas.
Somos, contudo, de um tempo em que a fofoca era da ordem do miúdo, com os que se confiam, coisas de amigos e com os que nos querem bem. A fofoca, o fuxico, o mexerico se fazia acontecer num tempo lento da escuta interessada, em jogos de negociação, paixões e de interesses os mais diversos. Tudo e nada entra nas conversas mexeriqueiras. O fuxico acontece pelo meio. Início e fim não se dão a conhecer.
Ora, se o fuxico é da ordem de um fazer-fazendo, de uma ampliação das redes de afetos, por que não o pensar já numa relação intrínseca aos jogos curriculares? Como propunha Ferraço (2011), nenhum currículo em sua versão prescritiva sobrevive ao cotidiano das escolas sem sofrer alterações, sem ser praticado por todos os corpos envolvidos na trama curricular. E se você algum dia já brincou de telefone sem fio, sabe que nenhum currículo-prescritivo - signo codificante - está imune às maleabilidades da língua e do corpo dos praticantes curriculares. Todo exercício curricular envolve muito mais do que apenas uma figura ávida em seguir as orientações curriculares. Circulando pelos corredores, vemos muito mais do que os diários de classe dizem dos conteúdos trabalhados por essas figuras que, à primeira vista, dizem seguir esse ou aquele currículo na linha. Basta sentar na sala de professores para ouvir como esse e aquele conteúdo foram trabalhados de tal e qual modo; para rir com uma professora quando ela contar que um menino a tirou do sério a ponto de precisar mudar todo o seu planejamento; para entender que uma aula acontece no confronto das certezas.
Por isso, fabulamos esse texto como quem dá vida aos fuxicos nas escolas. Nos contextos escolares e principalmente nos discursos neoliberais, a produção dos corpos educáveis está atrelada à realização dos discursos de verdade rigidamente organizados como currículos. Rimos debochadamente disso. Nos corredores das escolas, nos pátios, nas salas de professores, nas bibliotecas… por todos os espaços verdadeiramente escolares - e, portanto, curriculares -, as fofocas e os fuxicos fazem com que toda produção de verdade seja questionada. Nada é aceito como verdade absoluta, seja com aquela aluna impertinente que questiona até mesmo a ordem da professora mais tirânica ou mesmo com aquele professor afeminado que faz chacota de todos os colegas demasiadamente sérios que carregam pastoralmente os currículos oficiais como suas bíblias sacralizadas.
E se você pensa que isso nada tem a ver com os fuxicos do prelúdio desse ensaio, talvez seja preciso começar por indagar pelos possíveis do fuxico. Porque, afinal, o que quer um fuxico?
Que se danem as más línguas!
Disseram-nos, desde pequenas, que não se bisbilhota a vida alheia. Que ouvir conversa atras da porta é feiura, que criança não se mete nas conversas de adultos, que o peixe morre pela boca, que as pessoas fuxiqueiras queimarão no fogo dos infernos, que a língua é o bacalhau do corpo... Crescemos aprendendo que fofocar não é digno da boa alma, do bom sujeito e que o fuxico pode nos colocar em perigo.
Com a brincadeira do telefone sem fio, pedagogicamente buscavam nos ensinar que o fuxico era sempre fragmentos mal contados que supomos saber e entender.
Toda criança ouve, em algum momento, a voz moralista da mãe a lhe ralhar: “Não fale da vida dos outros!”. E, começando já por ampliar as possibilidades do mexerico, também ouvimos a frase sob outra perspectiva: “Está escutando conversa alheia? Não te eduquei melhor que isso?”.
Seja como for, a fofoca aparece, muitas vezes, como algo a ser evitado.
O fuxico, todavia, nem sempre se faz tecido de maledicência! Engana-se quem pensa isso. Malditas sejam as lógicas binárias que limitam as conversas fuxiqueiras a esse lugar. O fuxico, ainda que buscando acertar um alvo, tece pedagogias sobre o que não devemos fazer e ser, ao mesmo tempo em que cria e espalha experiências corpóreas de vida a serem multiplicadas. A fofoca, acontecência de pé de ouvido, é da ordem dos afetos, precisa ser endereçada (ELLSWORTH, 2001) para produzir efeitos nos sujeitos que participam do trelelê.
Endereçar as fofocar é dar a elas os afetos necessários para elas se materializarem no plano do real. Uma fofoca, quando começada, precisa afetar os corpos. E, conforme já dizia Deleuze (2002) em sua leitura de Espinosa, um afeto é uma transformação real de uma afecção, ou seja, a corporalidade de uma paixão.
Mas por que falamos de endereçamento?
Porque nada é jogado ao vento como algumas lógicas curriculares insistem em fazer parecer que são. Desde a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), somos levados a acreditar que um documento desinteressado paira sobre nossas cabeças e que bastaria que déssemos valor a seus ordenamentos para que a escola cumprisse com sua função ímpar de ensinar.
Não há políticas neutras, não há currículos neutros. Quando nos deparamos com esse círculo vicioso de estratégias desinteressadas, agindo sobre tudo e todos sem se importar em apresentar as tensões por trás delas, falamos de estratégias sem sujeito, aos modos da leitura de Michel Foucault (2014). E, conforme o próprio autor destacava, quando diante dessas forças, somos minados das possibilidades de ataques diretos, de respostas no próprio diagrama de forças. Quando tudo o que vemos são os efeitos das forças e não as próprias linhas tensionando o campo de batalha, tendemos a não conseguir anteceder os ataques lançados sobre nós.
Eis, então, a primeira necessidade de uma ruptura radical com os currículos desendereçados.
Se a fofoca se diferencia dessas estratégias sem sujeito é justamente por evocar, desde seu nascimento uma intimidade quase contagiosa. Fuxica-se com o outro! Podemos até fazer fuxicos pelos corredores e às vezes até torcemos para ser ouvidos por outrem, mas fazemos isso entre toques, tons de vozes, piscadas e olhadas de soslaio. Mesmo em tempos pandêmicos, ainda aprendemos a dar corpo aos fuxicos, dar proximidades.
Porque, por paradoxal que pareça, a fofoca nada tem a ver com as trollagens de internet, com as postagens anônimas, com os ataques invisíveis e intensos. Pode-se, sim, se perder quem falou isso ou aquilo, pode, inclusive, acontecer do fuxico funcionar como um telefone sem fio.
Contudo, a força do que é falado e espalhado pela escola é justamente o que suscita, por entre seus corredores, a potência do agir. Se somos as malditas, somos na medida em que rompemos com tudo demasiadamente estagnado, tudo muito certinho.
Tomando os conceitos de sagrado e profanação em Agamben (2007), por exemplo, poderíamos dizer que o fuxico é da ordem de uma profanação imediata a tudo que foi sacramentado. Se o sacro é aquilo que é desligado dos sentidos mundanos, aquilo que nos afasta dos usos reais das coisas com as quais lidamos, pois que comecemos justamente a fazer o descarado uso das línguas malditas para fazer cair toda e qualquer sacralidade de seus pedestais. Não precisamos de uma distância religiosa entre a escola e a vida! Antes, por que não fazer a própria vida se afirmar infinitamente em suas múltiplas e infinitas possibilidades. Se há uma religião curricular (ROSEIRO, CARVALHO, 2018) fortemente ancorada em uma lógica de seguir os currículos (prescritos, sempre prescritos!), por que não dar ao falastrão a maior das incumbências de transformar esse tal culto do currículo numa verborragia contínua?
Uma vez na boca do povo, não há mais volta às santidades!
Como, afinal, a fofoca cumpriria esse papel?
A partir de uma perspectiva histórica sobre o nascimento da humanidade, Harari (2018) vêm discutindo a fofoca como um fator-cola entre a espécie de animal capaz de fazer a revolução intelectual, isto é, nós, humanos. Para o historiador, uma das grandes diferenças entre o humano e outras espécies de animais é o modo como a comunicação foi capaz de se desenvolver para criar narrativas. É hoje mais que conhecida a capacidade de outras espécies animais se comunicarem com exatidão. Basta procurar um documentário animal na internet ou na televisão para vermos quanto outras espécies de animais conseguem se articular a partir de modos de comunicação específicas entre eles, sejam comunicações vocálicas ou químicas. Contudo, o humano não apenas consegue se comunicar, como também criar narrativas para tais comunicações.
Brincando com o cenário de um almoço entre professores, Harari (2018) indaga sobre as conversas que povoam a mesa de professores. Seriam sobre os conteúdos de seus estudos e trabalhos ou seriam sobre os relacionamentos entre cicranos e beltranos, sobre brigas e outras coisas? O autor não descarta a primeira possibilidade, mas afirma ser quase impensável um encontro entre pessoas e não haver nenhum modo de fuxico justamente porque aprendemos a confiar mais ou menos uns nos outros dadas as informações que somos capazes de coletar aqui e ali sobre os outros.
Porque esse é o ponto nevrálgico da fofoca: ela não apenas permitiu ao humano mudar os usos da língua como também nos permitiu manter relações entre um número cada vez maior de pessoas.
E se, por sua vez, pensarmos esse mesmo campo de possibilidades para os campos dos estudos? Para a vida curricular?
Ora, se a escola tem o papel de ensinar (SAVIANI, 2013), a pergunta que talvez pudéssemos fazer seria a de como tornar os conhecimentos mais próximos dos corpos. No nosso caso, como criar fuxicos (narrativas) entre os saberes e conhecimento e colocá-los ao acesso das más línguas que tanto adoramos? Como fazer as maledicências da língua permitir que a vida insurja pela escola e não as obediências religiosas?
Porque, no fim, é isso que enfrentamos com as fofocas: as cegas obediências, as lógicas moralistas que insistem em dizer o que há de melhor para esse ou aquele corpo, as regras de um modo de existência que desconhece o infinito das inexistências.
Como, então, enfrentar o controle da vida pelos fuxicos?
Ora, vivendo!
Em plena época de boom noticiário de que a escola pública estava pronta para receber os alunos de volta, um menino Ryan fez de sua língua a mais maldita de todas! Em pouco mais de 30 segundos, o menino fez baile com a mídia televisiva, com suas intenções de discursos verdadeiros, jogou a peteca da morte para as figuras políticas e lembrou às pessoas que criança é muito mais do que a programação de um futuro calculado. Diante da pergunta de um jornalista sobre o retorno presencial às escolas, um menino Ryan não esconde o risco de enfrentar as boas intenções: “A lei é essa e pronto!” (OBSERVATÓRIO DA TV, 2021). E a criança, criançando no dizer, faz denúncia da necropolítica em curso no Brasil. Não tardou também a circular um áudio de uma mãe que não sabia mais como falar: "Ele só tinha que falar duas palavrinhas... só sim e mais nada!". Só o eterno sim que obedece ("Sim, Senhor!") ou o sim produtivista ("Sim, vamos sim!").
Dando ouvidos aos fuxicos de escola, vemos sempre a potência de uma força passageira a dar rasteiras nas obediências. O menino diz muito mais. No limite, como as professoras começaram a falar nas redes sociais, “Ele falou o que a gente queria falar!”. O menino Ryan virou um meme frente às forças dos discursos bem intencionados do retorno seguro.
A máscara toda colorida e o tom gingado da criança dão ainda muita força vital, mas o enfrentamento ali é plural. Ali, diante da câmera ensaiada, não é apenas a mãe que treme quinem vara verde - como a gente fala no popular -, mas também o repórter que precisa fazer o sim aparecer de todo o modo. Corre para o apelo afetivo, para a saudade, para o discurso cognitivodesenvolvimentista das políticas neoliberais: "Vai aprender direitinho?". Para uns, a resposta é um sim seco e afirmativo. Para nós, o olhar dele é de quem sabe colocar reticência sem precisar sequer dar um sorriso torto. Quem treme quinem vara verde é quem ainda não sabe como uma escola instaura forças coletivas.
O menino Ryan não é quem se empossa de uma coragem de dizer, mas quem dá passagem às línguas fuxiqueiras, fazendo circular ideias que correm sem rosto pela própria vida. Não podem os enfrentamentos virem, também, aos modos de uma fofoca? De um tom sorrateiro que não se sabe de antemão de sua força? Joga-se o fuxico para o mundo... e daí é pura acontecência! Passa ou não?
Para além da coragem da verdade
A moral, sempre bem intencionada, tornou o fuxico algo impuro, velado a corpos com má intenção, um pecado, algo para não ser apreciado, que escapa à condição de verdade. Se algo se faz fuxico, logo, inconcebível que seja verdade pelo simples fato de não ter força de evocar a coragem da verdade, como nos dizia Foucault (2011). Pela lógica da coragem da verdade, os corpos encher-seiam de uma força que ultrapassaria a passividade esperada para aqueles que, de algum modo, não podem enunciar um dizer verdadeiro. Logo, por se fazer fuxico, isto é, por se espalhar como algo sussurrado aos ventos e quase nunca afirmado aos berros, a fofoca não poderia ser verdade.
A verdade requisita um modo de enunciá-la, um modo de dizer, uma postura afirmativa imperiosa. Foucault, ao analisar os gregos antigos, dizia de uma coragem justamente porque aquele que diz a verdade colocava-se em situação de confronto, de ser questionado, enfrentado, maldito. Longe de tudo isso ou aquém a essas frescuras, pensamos, talvez, o mexerico como algo que evoca, em todos nós, uma força rizomática, uma afirmação que se faz pela dúvida, pela indagação. Ao ouvirmos um fuxico, relacionamo-nos com ele não como quem aceita a verdade iminente daquilo, mas como quem confabula, quem reage de modo vitalício, quem ouve e se questiona “Mas será…?”, como quem ouve e convoca, de imediato, outras cenas, falas, memórias e histórias.
Um famoso versículo bíblico dizia: “Conhecerei a verdade e a verdade vos libertará”.
Lançamos, contudo, sombras sobre esse jogo de luz tão primoroso de quem fala a verdade. É a verdade que nos interessa? Que verdade tão poderosa é essa capaz de libertar alguém? Bastaria que conhecêssemos essa tal verdade e que, por conseguinte, seríamos livres de todas as forças que nos prendem? Afinal, quais forças nos amarram?
Não pedimos perdão porque não somos cristãos o suficiente para isso. Gostamos do pecado, das imundícies, das questões pecaminosas da vida. Todavia, ainda assim, lançamos essas questões e começamos a indagar por aquilo que se afirma de verdadeiro no chão das escolas.
A partir do ano de 2018, o Ministério da Educação e Cultura homologou um documento que se pretendia a verdade das verdades na educação escolar. Intitulado de Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o documento portou-se como a verdade libertadora de todos os corpos educáveis em situação escolar. Para os governantes, bastaria que um corpo alcançasse as competências e habilidades propostas naquele documento para que se desenvolvesse como um “[...] humano global, em suas dimensões intelectual, física, afetiva, social, ética, moral e simbólica” (BRASIL, 2018, p. 16).
Há uma marcha pela verdade. No fim, dizem ser ela que irá produzir as igualdades de oportunidades na educação, tão almejada que só se firma verdadeiramente ao coabitar a diferença estrangulando-a para constituir um corpo curricular padronizado.
A verdade estaria, aqui, aliada a um modo de ser impositivo não apenas por seu modo de falar (coragem da verdade) como também por aquilo que ela implica (verdade e liberdade).
Todos que, de algum modo, discordam da verdade, seriam-então, inimigos de seus dizeres, da liberdade.
A questão é que, para nós, as práticas de liberdade não podem ser acompanhadas de uma imposição, de uma régia do poder. As práticas de liberdade - forças capazes de potencializar a vida - distanciam-se do desejo pela forma e pelo modelo. Distanciam-se do exemplo, de quem pensa poder saber melhor. Quando a liberdade é acompanhada por uma lógica de regulação, diz-se como e de que modo deve-se melhorar. E, aqui, não seria possível evocar um modo de domesticação? E, como já dizia Nietzsche (2014, p. 46), “[...] denominar ‘melhoramento’ a domesticação de um animal é, aos nossos ouvidos, quase uma piada”.
Qualquer liberdade mediada pelo reconhecimento e mediação do outro é já um modo de domesticação. Há, aí, a produção de um limite que diz o que pode e o que não pode, o que deve ser feito e o que não, o que é bom para um que não está claro, que não é explicitado.
Quais forças estão em jogo quando dizemos que esse ou aquele são os melhores modos de se existir?
Uma vez mais, questão de endereçamento, de dar certa pessoalidade às relações, de perguntar pelas forças invisíveis e, no combate, ampliar as proximidades indissociáveis dos afetos terrenos.
No miudinho do fuxico, em práticas de cuidados, os currículos vazam as intenções oficiais. Não há coordenador, diretora, Secretaria de Educação ou vereador que consiga barrar a potência dos fuxicos. Os currículos fuxiqueiros, feitos no calor das fofocas, não respeitam os documentos oficiais. Em práticas de liberdade, se valendo das ocasiões dos mexericos dos que se afetam um currículo fuxiqueiro cresce. A produção curricular de documentos como a BNCC são menos ampliações das liberdades e mais imposição padronada do que eles chamam de discurso de verdade. Uma série de estudos e de curriculistas enfatizam as possibilidades de resistência e reinvenção das práticas curriculares, muitos deles ancorados em perspectivas cotidianistas, pós-estruturais e mesmo em teorias histórico-culturais. E, contudo, quase nunca nos deparamos com a afirmação das forças inomináveis que percorrem as escolas.
Apostamos nas fofocas e nos fuxicos justamente como essas forças que, espalhando-se sem rostos e sem nomes, enfraquecem todo o discurso de verdade que as forças controladoras armamse para ditar as regras de convívio e de funcionamento do mundo.
Aqui, a fofoca relembra que o estrangulamento é da ordem do prazer para os pecadores, para o corpo masoquista. Para esses, os fuxicos valem bem mais do que a verdade ditatorial, pois produzem em suas relações a germinação de guerra.
Nas práticas de liberdade, o que o outro vai pensar, dizer e maldizer não é uma questão. O que importa nela são os afetamentos e suas reverberações. As práticas de liberdades, bem aos modos do cuidado de si, são uma estilística (FOUCAULT, 2020). O que importa nessa prática é uma vida, uma vida bonita e o fazer desta vida uma obra de arte.
Imaginemos um cenário regular: uma professora, em dado momento, sai da sala. Foi buscar o diário de classe? Pegar algum material para um trabalho? Ao banheiro? Nada disso importa. Ela sai. As crianças, automaticamente, dividem-se entre grupos que tomam diferentes decisões: continuar a atividade, brincar, conversar, aprontar e até vigiar a porta. Há de tudo um pouco.
Quando retorna, a professora possivelmente encontrará a sala tal qual ela deixou e nada estranha. Afinal, tem orgulho de seus alunos que a respeitam e colaboram com o trabalho dela.
Decerto o fazem, todavia, quando a aula termina, não tarda para um aluno correr até a professora para fazer os devidos fuxicos sobre Gustavo Eugênio e Emanuela Cecília que, durante a saída da professora, danaram a fuçar o caderno da professora.
- Eu acho que eles estavam procurando cola da atividade! - sentencia o menino.
Quase sempre, quando falamos de fofoca, esse parece ser o cenário imaginado. A fofoca enquanto controle dos possíveis, enquanto insistência em limitar as ações dos outros.
É uma fofoca possível? Evidentemente. Contudo, não do tipo aqui argumentada.
Quando evocamos o fuxico para falar de práticas curriculares e para afirmar a escola, não falamos da fofoca enquanto uma vigília infinita dos corpos porque, sob essa lógica, a fofoca nada mais é do que a busca por uma verdade infinitiva.
Quando Foucault (2011) dizia da coragem da verdade necessária para realizar a parresia - isto é, para enunciar um discurso de verdade que afetasse o social -, ele dizia justamente desse caráter de quem se põe em risco por enunciar aquilo que talvez não fosse querido.
Ora, pensemos naquele menino que mal espera o fim da aula para correr à professora e contar-lhe todos os sórdidos atos de seus colegas. O que quer ele? Quer enfraquecer as ordens já postas ou reafirmá-la insistentemente?
Para infortúnio das insurreições escolares, essa criança age mais como força contrainsurrecional.
Se tomamos a premissa apresentada no início desse texto, consideramos que as produções curriculares oficiais são embasadas como um discurso de verdade. E a verdade, como propunha pensar Foucault (2013a), está largamente associada ao poder. Não naquela célebre afirmação de que verdade é poder, de que conhecimento é poder. Não, como toda a obra foucaultiana nos permite afirmar, é a própria noção de verdade que está inserida nas tramas do poder. Algo só pode ser considerado verdade dentro de um jogo de lógicas e razões que são, curiosamente, validados pelas relações de poder em voga.
Afinal, recorda Foucault (2013a, p. 52), “[...] a verdade é desse mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder”. Dando seguimento a sua explicação, Foucault evidencia-nos o quanto associamos algumas instituições à produção de verdade sem questionar, contudo, os próprios modos de produção de tal conhecimento. Afinal, a produção da verdade é continuamente incitada pelas decisões políticas e econômicas e, contudo, raramente esse contexto de produção é lembrado. Quando, por exemplo, a BNCC é afirmada como um documento único e necessário para a educação nacional brasileira, não podemos desconsiderar o contexto econômico das formações de professores (SANTOS, DINIZ-PEREIRA, 2016) sugeridas pelas instituições privadas que muito rapidamente se preparam para oferecê-las ou os acordos bilionário que seguiram com todas as editoras de livros didáticos após as reformulações curriculares; não podemos esquecer que no cenário político ela foi enfrentada em todas as suas apresentações e que, quando saiu a versão final homologada, ela saiu na surdina da noite, às vésperas do recesso de fim de ano e ignorando todos os debates realizados após a apresentação das três primeiras versões do documento.
Não há como livrar a produção da verdade das amarras econômicas e políticas. E o fuxico insurge justamente contra isso.
Quando o menino aguarda o retorno da professora, ele poderia contar-lhe um zilhão de coisas. Poderia, inclusive, colaborar com os colegas que fuxicaram o caderno de anotações da professora para contar a ela outras versões da história. Talvez pudesse até mesmo falar, mas para partir em defesa dos colegas ou para não semear a política de vigilância.
Opta, entretanto, por fazer de sua existência uma vida policialesca.
Opta por fazer a boa parresia, a parresia corajosa na qual o falante torna-se alvo de ataque por revelar a verdade. O menino tenta fazer uso da fofoca para expressar sua paixão pelo poder e, por conseguinte, cai em uma ação que contraria toda a produção do comum como força coletiva.
Curiosamente, em sua paixão pelo poder, a criança acaba por expressar o mais cruel dos agenciamentos capitalísticos: o enfraquecimento da vida pela individualização dos corpos.
De acordo com Foucault (2011), a condição de falar a verdade encurta as relações democráticas, rompe com os laços por expor um perigo à sociedade ou ao corpo falante. Na análise do autor sobre a parresia grega, falar a verdade exige uma coragem por colocar o corpo em condição de risco de vida, visto que a verdade, para os gregos, poderia sempre ferir algumas condições do jogo. O que vemos aqui, nessa cena tão típica de escola, é uma verdade que é enunciada em conformidade com os poderes e que, todavia, apresenta-se como verdade e, por isso mesmo, deve atrair, deve servir para convencer. Afinal, a verdade “[...] deve persuadir então que a sujeira, a feiura, a hediondez repelem” (FOUCAULT, 2011, p. 273) os corpos de sua condição plena de existência.
Se, por um lado, o parresista poderia ser a pessoa que reunia coragem para dizer uma verdade indizível, uma verdade indelével e por isso mesmo colocava-se em risco, ele poderia, também, colocar-se a favor das forças vigentes. Dizer a verdade era tanto um modo de ferir o poder quanto o de afirmá-lo. Hoje vemos multiplicarem-se pessoas a estufarem os peitos para falarem verdades nada indizíveis. O discurso da verdade, sempre aliado aos regimes de poder, atuam como se precisassem de uma coragem absurda para serem dito.
Não ao acaso temos várias figuras tragicômicas como personagens políticos. E a todo o momento eles parecem se encher de coragem para dizer as coisas mais conservadoras como se fossem verdadeiros parresistas ou para afirmar as crenças de modo a convertê-las em ciência.
O fuxico do dedo-duro reforça a lógica capital da meritocracia que por vezes é agraciado pelo bem dizer da verdade ao exaltar confiança. Quando o fuxico se afasta da cumplicidade de um coletivo menor - ou seja, de um coletivo dado às invenções e sempre nas margens da vida regulada - e passa a ser cúmplice das relações de poder, ele passa a servir para condizer com a normativa em proveito próprio, é abandono das coletividades pelo uno.
Essa troca da coletividade pela valorização de um é o que Suely Rolnik (2018) vai destacar como força reacionária, sendo ela micro ou macropolítica. Para a autora, seguir as pistas da discussão entre micro e macro requisita que não enxerguemos a vida em termos quantitativos. Falar de coletivos menores, como o fizemos, não é falar em termos numéricos. Numa escola, por exemplo, o número de alunos é sempre superior ao número de docentes, de pedagogos, de diretores, coordenadores e afins. Ainda assim, eles não compõem uma maioria no termo político aqui discutido. São corpos menores no sentido em que são um risco às normativas; são menores no sentido em que são continuamente expostos às práticas de dominação; são menores no sentido em que enfrentam um sem número de tentativas de dominação. Assim, alunos compõem, então, um lado da moeda que, a priori, dizem de resistências, de insurreições. Ou seja, para o pesar das forças das juventudes e das minorias, diante da sedução do poder, o corpo-aluno ao praticar o fuxico do dedo-duro, abandonam suas forças minoritárias para compor o palco das forças reativas, das forças que a tudo querem controlar. Passam a fazer parte da maioria.
Quantas vezes, como professores, exaltamos o dedo-duro? O fuxico ao qual é feita referência neste texto de forma alguma se aproxima do ato de dedurar, a fabulação trabalhada anteriormente vem à tona para provocar a potência do fuxico ao tom do imprevisível e da liberdade.
Aqui, todo o mundo da verdade e a sua fatigante vontade da verdade (NIETZSCHE, 2017) - lugar tão almejado pelas leituras aristotélicas e platônicas do mundo - vêm abaixo.
O mundo da verdade em Nietzsche é o mundo objetivo, a realidade perfeita produzida por algumas perspectivas teóricas e filosóficas que dizem, claramente, que não há nada aqui. Vivemos um mundo podre, dizem tais apostas, e, por conseguinte, é preciso ou trabalhar para produzir o novo mundo ideal ou entender que só o alcançamos em dadas condições da vida. A vida, aqui, nada precisa além de ser expiada ou justificada.
O que fazemos então?
Profanamos o sacro (AGAMBEN, 2014), o mundo da verdade e fabulamos, no real, as existências afirmativas da vida. Que ideias absurdas são essas que não se permitem outra coisa? Que lógica caduca é essa que diz o que é certo e errado e afirma nada haver além do que alguém define como o perfeito? Traçam um mundo perfeito e julgam tudo o que não se aproxima desse ideal. O sacro, percebemos, não diz apenas de religiões, mas de modos de ver e viver. Nós, por outro lado, nada queremos de um outro mundo, de uma realidade objetiva inquestionável. Afirmamos as dúvidas, as perguntas. Fuxicar nos permite isso em um movimento de ampliar o real para além do já dado, do mesmo.
Não queremos o mesmo, dizemos sempre não à mesmidade, aquilo que torna algo imediatamente reconhecível. Como dizia Nietzsche (2017), é a insistência do reconhecível que permite algo de ser previsível e calculável. Não queremos nada disso. Queremos fugir sem rumo, romper com os limites da razão desse mundo.
Fuxicando, o rei fica nu na boca das fuxiqueiras. Capturas das práticas de si e tentativas de fazer caber nos programas afeitos a verdade se fazem acontecer através dos jogos de governamento que a tudo busca conter, disciplinar e controlar. E, no fuxico, uma vida bonita transborda e faz funcionar a distinção. Quem foi que disse que no fuxico não cabe o cuidado? E deixando o rei nu, as fuxiqueiras, rindo com a boca aberta de uma orelha a outra, fazem a fofoca curricularizar.
O FUXICO NOSSO DE CADA CURRÍCULO
Se pensarmos bem, o fuxico atravessa cada corpo provocando diferentes intenções e afetos. Sem ordem ele pula de orelha a orelha de boca em boca e propaga conhecimento. Fuxico é conhecimento? Olha! Dizem as más línguas que todo fuxico tem um fundo de verdade, e as boas línguas acabam por investigar tais origens. Na escola muitos fuxicos são levados a sério e acabam por criar os fuxicos curriculares. Fuxicos que movimentam corpos, fuxicos que contextualizam aulas, fuxicos que se debatem no corredor, fuxicos dinâmicos que exaltam a vida no cotidiano escolar, fuxicos que revelam a infusão do conhecimento.
No sentido de criação de saberes, da prática de produção, assim como na produção de um chá por infusão, o conhecimento criado a partir da fofoca é imerso no currículo, no documento curricular, seja por uma fofoca de origem comunitária, ou um fuxico de corredor, o assunto se torna conhecimento ao perturbar a ordem, que frente ao currículo comum infundi incertezas e potencializa curiosidades. Mas o que é um fuxico curricular?
Para responder essa questão, sente-se e prepare-se para o chá, um chá desses ao estilo Chapeleiro, do qual não sejamos Alices (CARROLL, 2009), pois não há nada de país das maravilhas nos documentos curriculares, há sim, uma necessidade de fofocarmos sobre eles, infundido uma diversidade de conhecimentos distintos e distantes das ditas verdades absolutas que produzem. Ora! O chá então é um tempo para fofocar, e nesse momento de liberdade das amarras do sabermaravilha os fuxicos curriculares se infundem, pois não é questão de localização ou de exatidão conceitual, mas sim de infusão de dúvidas, curiosidades, quiçá de meias verdades, reivindicações, resistência e enfrentamento.
Há, nas práticas fuxiqueiras, um ar de travessura crianceira. Quantas infâncias habitam o tempo do fuxico? Quantas vezes podemos evocar um causo para fazer nascer dele uma dúvida irrequieta, mas também alianças insurrecionais?
Paramos por um momento e sabemos que, diante das invenções e das conversas birutas, algo se passará por nossos corpos. Um fuxico nunca é uma nota técnica! Pode até ser uma nota de rodapé, mas, nesse caso, é possivelmente o tipo de nota de rodapé que nos arrasta em direção às buscas incessantes. A arte de fabular e de fuxicar pelos possíveis não carrega em nós potências de um devir-criança que nos arrasta em direção ao descabido?
Os fuxicos curriculares são da ordem do cotidiano, suas disfunções atravessam o saber concreto e verdadeiro para fragmentá-lo, tornando-o, quiçá, peças de um brinquedo de encaixes em que as peças não conversam de modo algum. Os fuxicos, afinal, infundem uma desordem momentânea capaz de aguçar até o menos curioso, pois se constitui como provocativo propositalmente, num apelo sensível aos corpos comunicativos.
O fuxico ganha potência como informação duvidosa e assume sentido de mostrar as pessoas que há liberdade para ser posta em prática, não só pela crítica, mas também pela destruição das verdades e/ou conhecimentos fabricados por particularidades históricas. Não que se oponha ao conhecimento histórico, mas, pelo movimento de infusão, corrompe-o ou instaura nele outras perguntas. De outra forma, também assume para si a constituição da ordem do imprevisível.
Decerto, não há como mensurar quando surgirá o fuxico, mas, assim que surge, sua infusão começa, logo mais a desordem se instala, as provocações e dúvidas se expandem, e quem não sabe do fuxico é desinformado.
Eis outro ponto de infusão dos fuxicos curriculares: seus movimentos imprevisíveis associam noções políticas que, por vezes na escola, são neutralizadas no calar das vozes, escondidas e até apagadas para que não se faça reboliço. Do contrário, o fuxico insurge para romper com a normativa e para ganhar concretude nas mesas da escola, entre bilhetinhos e portas de banheiros, cria diferentes maneiras de comunicação em sua rebeldia.
Ao contrário do senso comum sobre o fuxico, ele é menos um policiamento dos corpos e mais um modo de espalhar outros olhares sobre a vida.
Um fuxico curricular não pode ser documentado e nem é saber em si. Não se firma como verdade propriamente dita e nem tem intenção de fazê-lo! Saber científico? Nada quer com isso! Quer instalar brechas na vida! Contudo não deixa de produzir noções de verdade, noções de liberdade, noções de política e noções de confronto que acabam por explorar o conhecimento para além das suas restrições padronizadas, pois se a ordem do discurso acaba por fazer normativas controladoras, o fuxico assume diferentes possibilidades para si e, a cada outro que afeta, se modifica, nunca é exatidão, é linha de fuga ao padrão.
Fuxico é conhecimento, é liberdade? Fazemos a mínima! Não damos atenção a essas ideias duras de enquadramento. Preferimos, antes, pensar que fuxico algum dura o suficiente enquanto verdade.
No fuxico, importam as linhas limítrofes do mundo. Mas, no mínimo, evoca outros possíveis para o mundo. A gente ouve “Colega, senta que o babado é bom!” e já sabemos que não sairemos dali com as mesmas ideias.














