INTRODUÇÃO
A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.
Pesquisar pressupõe pensar, refletir e narrar sobre e com os diferentes ‘espaçostempos’ de aprendizagem. Sob essa ótica, mergulhar na obra A pesquisa como heurística, ato de currículo e formação universitária: experiências transingulares com o método em ciências da educação, de autoria de Roberto Sidnei Macedo, publicada em 2020, e com ela conversar, pinçando algumas questões levantadas pelo autor e as associando aos modos como as enfrentamos em nossas pesquisas, é implicar-nos, buscando ‘sentidossignificações’ no ato de pesquisar, vivenciando o processo formativo e nos abrindo a novos aprendizados.
Compreendendo a pesquisa como descoberta/criação/invenção e ato de currículo que se realiza a partir de propostas curriculantes de gestores, professores e estudantes, ao produzirem seus saberes, Macedo (2020), nesse livro, considera não apenas como se dá a aquisição dos conhecimentos no âmbito da universidade, mas também a sua experiência como autor de diversos estudos, pesquisador e orientador, ao longo de mais de 20 anos, (re)afirmando a universidade como instituição necessária às sociedades humanas, que precisam do saber social e culturalmente referenciado.
A construção de seu texto se sustenta em três movimentos que se inter-relacionam e se interdependem: (i) a pesquisa universitária, na perspectiva da educação universitária; (ii) o movimento do cotidiano na construção do saber universitário, compromissado com a formação; e (iii) a aprendizagem universitária, que se configura na qualificação da formação universitária.
Para Lourau (1975), o relato reflexivo como um gênero discursivo possibilita, mediante interlocução mediada pela escrita, a criação de mecanismos e espaços de reflexão sobre teorias e táticas que constituem os modos individuais e coletivos de compreensão e produção/reprodução de um campo de estudo, bem como das identidades profissionais, individuais, e de grupo. Sob esse olhar, e à luz de nossas experiências como docentes-formadoras, dialogamos com a obra de Macedo, em referência, num movimento de aproximação de suas ideias e pensamentos aos de outros interlocutores de nosso quadro referencial teórico-metodológico, procurando relacioná-los aos estudos/pesquisas que vimos realizando, juntamente com nossos orientandos da pósgraduação stricto sensu, em nosso grupo de pesquisa Sociabilidades, Educação e Cibercultura (SoCib).
ABRINDO AS CORTINAS
Inicialmente, Macedo reflete acerca de algumas recomendações de Nóvoa (2015) a um jovem investigador em educação, que lhe parecem fundamentais no processo de investigação acadêmica. E o que essas recomendações têm em comum com nossos estudos e pesquisas? O que dizem nossos interlocutores teóricos a esse respeito? E, nossos orientandos? Vejamos:
Em relação à necessidade de “[...] conhecer para além dos limites da ciência” (Ardoino, 1998), o autor, em seus estudos, nos convida a exercitar um olhar plural/multirreferencial, que se afaste de modelos homogeneizantes - como propõe a ciência moderna -, em benefício de outro mais flexível e aberto, que comporte contradições, diferenças, ambivalências, ambiguidades, incompletudes e, ainda, os acontecimentos que atravessam nossos cotidianos. Adotar essa perspectiva implica dialogar tanto com os saberes científicos como com saberes do homem comum, subvertendo o modo de ver o mundo, implícito na lógica binária, intolerante e pretensiosa, de ser universal.
Freire (1996) nos alerta, ainda, da importância de o professor ser curioso, libertandose das amarras dos conhecimentos engessados e acumulados, tendo em vista a busca por alternativas que enriqueçam o aprendizado. Nessa mesma direção, Alves (2008) enfatiza que precisamos, a partir da empiria, ultrapassar os limites da ciência, indo para além das teorias já conhecidas e sabidas, a fim de melhor acompanharmos a dinamicidade dos cotidianos, que se reinventam a cada ação - multiplicando-as, bem como os conceitos, os fatos, as narrativas, as fontes e os métodos, estabelecendo, desse modo, múltiplas e complexas relações entre eles.
Na ótica de Certeau (2013), o que interessa ao pesquisador dos cotidianos é aquilo que não tem visibilidade. Daí a importância de se “[...] conhecer para além das evidências” - o que é corroborado por Andrade, Caldas e Alves (2019), ao nos incentivarem a mergulhar com todos os sentidos no processo de investigação, buscando referências de sons, variedades de gostos e odores, tocando e nos deixando tocar por pessoas e objetos, para melhor compreensão da complexidade e da rede de ‘fazeressaberespoderes’ tecidas nesses espaços.
A recomendação de “[...] conhecer com liberdade e pela liberdade” (Nóvoa, 2015, p. 20) nos remete ao conceito de táticas (Certeau, 2013, p. 38), dado que “[...] o cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada”. Nele, movimentos quase imperceptíveis, forjados em meio às práticas cotidianas, são engendrados pelos professores (Alves, Berino, Soares, 2012) que, ao fazerem uso do instituído, recorrem a diferentes etnométodos, deixando impressas suas digitais.
Para Macedo (2020, p. 9), conhecer “[...] bem aquilo que fazes, a tua ciência, o seu campo acadêmico, as regras, as metodologias, as normas da articiência da educação” exige vinculá-la aos atos de currículo, à formação universitária e aos seus dispositivos sociotécnicos e formacionais. Desse modo, além de se voltar para a construção dos conhecimentos, a universidade deve atuar como locus de formação, potencializando processos relacionais e valorizando a experiência e o vivido, para trazer à tona a história cultural da educação universitária, que considera as condições locais, contextuais, socioculturais, sociotécnicas e existenciais, como corroborado pela mestranda Tamires Reis (2021, p. 16), a seguir:
No decorrer de nossas vidas experimentamos uma diversidade de ‘fazeressaberes’ e formas de sentir; que nos credenciam a agir como agimos e, principalmente, como poderemos agir para melhorar nossa realidade, de modo responsável. A participação em espaços de interação e diálogo, presenciais e online (seminários, congressos, simpósios, eventos acadêmicos), em diferentes redes educativas durante o Mestrado, bem como discussões enriquecedoras com diferentes integrantes dessas redes, contribuíram para que, participando do Grupo de Pesquisa SoCib, pudesse compreender a linguagem institucional, e suas regras implícitas, compartilhando situações de aprendizagem e tecendo o conhecimento, de forma contínua, o que representou um divisor de águas na minha vida acadêmica.
Em uma pesquisa universitária, de natureza qualitativa, afirma Macedo (2020), o método, não nos sendo dado a priori, deve ser compreendido, aprofundado, experienciado, inventado, bricolado e customizado, mediante um rigor científico outro, alicerçado na capacidade sociotécnica e nas competências científica, política, ética, cultural, estética e implicacional do pesquisador, porque a pesquisa é uma “aventura pensada” e valorada. Aproxima-se, desse modo, das ideias de Morin (2010), que afirma que é preciso construir o método enquanto se caminha, pois ele se materializa no processo de produção do conhecimento, ao longo da pesquisa.
Rubem Alves2, citado por Naves (2015), por sua vez, afirma que o método é o caminho que o pensamento deve seguir, solto: dançando, flutuando e voando, como nuvens que, em sendo livres, não se deixam prender, pousando por vontade própria nos ombros dos escritores, dos poetas, dos músicos. Com efeito, da mesma forma que as nuvens vivem a liberdade, em nossas investigações, os métodos vão se materializando nos atos de currículo que engendramos, marcados por iterações, itinerâncias e errâncias, e pelos acontecimentos cotidianos, enquanto as pesquisas vão se atualizando, na universidade, por meio de trabalhos, debates, encontros e crítica.
Nesse ponto, vale trazer para esse diálogo, a ciberpesquisa-formação (Santos, 2019), que toma como referência a pesquisa-ação (Barbier, 2007), o conceito de formação, presente nos trabalhos de Pineau (1988), Freire (1996), Nóvoa (2004) e Macedo (2020), bem como a pesquisaformação (Josso, 2004). No seu desenvolvimento, buscamos respaldo em nossa experiência na docência online e na prática cultural da cibercultura, primando por outro tipo de rigor, que enfatiza questões qualitativas, levando em conta o quadro simbólico, a avaliação formativa e a articulação dos campos conceituais e teóricos, sem desconsiderar zonas invisibilizadas, as incertezas e a implicação dialética do pesquisador.
Nesse contexto, todos os sujeitos envolvidos na pesquisa são, em potência, seus pesquisadores e coautores. Ambiências formacionais, apoiadas em ciberdispositivos3, são criadas a partir de uma proposta pedagógica interativa, aberta e flexível que vai, pouco a pouco, ganhando novos contornos. O pesquisador, por sua vez, assume um envolvimento pessoal, que abarca emoções, sensações, imaginação e criatividade, entre outras dimensões. Assim, forma o outro e a si mesmo, dado que sua participação se configura na cogestão dialógica com os demais participantes, atuando, de modo colaborativo e cooperativo.
Macedo (2020), assim como nossos estudos, contrapõe-se à concepção burocrática, prescritiva e producionista do currículo oficial, que não leva em conta a complexidade das experiências presentes nas universidades, ressaltando que a formação acontece com e pela pesquisa, juntamente com a inteligibilidade institucional da universidade. Nessa perspectiva, conferimos à autoformação (aprender consigo mesmo) um caráter fundante, em face da necessidade de um alto e complexo grau de autonomia exigido por essa experiência, entendendo a heteroformação (aprender com o outro) e a ecoformação (aprender com os objetos), como fontes ricas de possibilidades de aprendizagem. Ressaltamos, ainda, a erosformação, pois a alegria, o prazer e a paixão pelo que se faz mobilizam forças criativas, que não se devem alienar no desejo do outro, pois a aula, a pesquisa e a escrita nos fazem viver, curando-nos. Já a metaformação (olhar para si; para sua própria formação) possibilita-nos avaliar itinerâncias e errâncias, e refletir sobre nosso próprio processo de aprendizagem, fundamental na educação universitária, como acentua o autor.
Sob esse olhar, a incorporação da conversa, do diálogo e das reflexões promovem vivências e experiências subjetivas e intersubjetivas de transformação. Nesse mesmo viés, dos atos de currículo que engendramos como um sistema aberto ao diálogo, e do processo de formação como uma atividade de sujeitos-atores coletivos resultam atividades de alteridades que modificam tanto o pesquisador como o seu entorno formativo. A esse respeito, o mestrando Elvio Nascimento (2021) expressa: “Em nosso grupo de pesquisa, o acolhimento da pessoa como ser humano, como colocado Warschauer (2017), é o princípio de tudo, a primeira estação, de onde partimos em direção às demais ‘paradas’. Nesse trajeto, aprendemos fazendo, aprendemos crescendo, aprendemos trocando e, finalmente, certificamo-nos aprendendo”.
Outro fator importante destacado por Macedo (2020) se refere a processos de implicação na pós-graduação, intimamente atrelados à política de sentidos que emerge com a experiência de orientação de pesquisas universitárias e formação de professores. Nesse contexto, ressaltamos a importância da “escuta sensível” (Barbier, 2007) que, por ser inclusiva, é própria daqueles que, entendendo que todos têm o direito de ser ouvidos e compreendidos, não se furtam do julgamento e do veto, quando necessário.
Essa implicação se revela ao longo do processo investigativo, na relação orientandoorientador, mediante conversas diversas, ‘dentrofora’ da universidade, deixando evidente que os processos de qualificação da pesquisa como atos de currículo e formação universitária implicam vidas em formação com e pela pesquisa.
O PROJETO DE PESQUISA: FORMALIZANDO AS INTENÇÕES DE PESQUISA
O projeto de pesquisa enfatizado pelo autor faz-nos (re)pensar a beleza do ato de pesquisar, na perspectiva da descoberta, da criatividade e da formação. Nessa ótica, pautas técnicas referentes ao trabalho metodológico, e inseridas nos processos informacionais das universidades, apresentam algumas especificidades que devem ser consideradas, para que possa emergir um estudo sustentado em proposições sociotécnicas, éticas, políticas e culturais, e em recomendações epistemometodológicas significativas, que respaldem ideias e propostas apresentadas. Desse modo, a construção de um projeto de pesquisa, além de requerer clareza, coerência, concisão e consistência (4 Cs), trabalha com o devir, experimentando a incerteza, a insuficiência e a incompletude, sem perder de vista o compromisso com a pertinência e a relevância de sua problemática e da elaboração de seu constructo.
‘Espaçotempo’ de diálogo, o campo de pesquisa, como lugar e não lugar, está à nossa espreita, sentindo-nos, interpretando-nos, criando pontos de vista sobre nós, identificando-nos e nos alterando, ao interagirmos e dialogarmos com o outro. Na medida em que os eventos contextuais influenciam e são influenciados pelo comportamento das pessoas e pelos acontecimentos, é preciso olhar para essa ambiência, numa perspectiva mais ampla, sistêmica e ecológica (Bronfenbrenner, 1996), dado que os sujeitos são agentes dinâmicos do ambiente e, por meio de interações com os elementos demográficos, físico-naturais, sociais e culturais que os constituem, constroem diferentes realidades. Em sua dinamicidade, o campo nos desafia e nos obriga, não raras vezes, a tomar outros rumos, como nos mostra o relato, a seguir: “Dessa forma, esta pesquisa que seria realizada de modo presencial no ambiente escolar, com a turma em que atuo como regente, no ensino fundamental, teve de ser radicalmente modificada, seja pelo fator inicial do distanciamento físico pela pandemia, ou pelo afastamento escolar devido à maternidade”. (Ana Clara Thiago, 2022).
A escolha do tema de pesquisa, entre tantos assuntos desafiadores, deve ser pautada em critérios, como formação universitária, pertinência, relevância e vinculação com a área de concentração do curso pleiteado, bem como no desejo curioso do autor da proposta de pesquisa. Além da viabilidade de a pesquisa ser concretizada em relação aos recursos e prazos, enfatizamos que a atualidade, a relevância e a originalidade do estudo são quesitos a serem observados quando dessa escolha. Desse modo, o tema pode se referir a um assunto sobre o qual se tenha alguma experiência profissional, de modo a aprofundar e desenvolver o conhecimento, ou, ainda, a algo novo sobre o qual se pretenda aprender com o processo de elaboração, mediante estudo e pesquisa. Sem que isso seja uma “escolha de Sofia”4, é algo que requer uma boa dose de reflexão.
Segue o relato de uma mestranda sobre sua opção por estudar a temática do Yoga na educação universitária:
Na medida em que me tornava mais sensível às formas de ver o mundo ao meu redor, aumentava meu desejo de aproximar essa temática às minhas intenções de pesquisa, no cenário educacional. Era o objeto de pesquisa que vinha ao meu encontro; e não ao contrário. O Yoga me escolheu, abraçou-me, durante essa caminhada, enredando-me e me desafiando às mudanças. (Karol Neves, 2022)
O pesquisador não deve confundir problemática com o problema de pesquisa, acentua Macedo (2020), ainda que os dois termos constituam construções a serem elaboradas sobre a realidade a ser analisada, que desafia sua compreensão em termos de conhecimento. Nessa perspectiva, a problemática consiste no quadro, cenário ou contexto, no qual um problema é percebido (e inserido) no campo de conhecimento a que se vincula a pesquisa.
O problema, ou o constructo da pesquisa consiste na compreensão do núcleo fundante do fenômeno que se pretende investigar. Elaborá-lo demanda considerar que não lidamos com objetos, mas com pessoas, suas ações e realizações, enfatiza Macedo (2020), sinalizando para a possibilidade de o problema vir a sofrer modificações, durante o processo de investigação, como as que vivenciamos com a pandemia do novo coronavírus/Covid-19, que nos obrigou ao distanciamento físico e à adoção do ensino remoto emergencial (ERE), trazendo novos desafios ao trabalho docente.
Galeffi (2016, p. 13) afirma que “Acontecimento não é representação. Ele não representa nada e ninguém. O acontecimento simplesmente acontece. Mas sempre acontece para alguém que deixa acontecer. Alguém que responde pelo nome próprio e que é apropriado”. A esse respeito, concordamos com o autor e, ainda, no olho do furacão, ao invés de paralisarmos nossas atividades, num ato de resistência, procuramos compreendê-lo e dele participar, ativamente. Em sendo o acontecimento “[...] um jogo-jogante, vida-vivente” (Galeffi, 2016, p. 13), alguns orientandos tiveram de repensar seu próprio constructo de investigação, como relata a mestranda:
O que podemos fazer quando o campo de pesquisa escorre de nossas mãos? [...] Um novo constructo de pesquisa e indagações se nos apresentava, no mesmo contexto de investigação - a periferia. [...] foi preciso buscar novos horizontes, novas indagações diante dos cotidianos vivenciados para que esta pesquisa permanecesse viva [...]. (Ana Clara Thiago, 2022)
A justificativa acerca da pertinência e da relevância das pesquisas que realizamos, bem como as contribuições delas advindas para a área de conhecimento, para seus profissionais e para a academia, em geral, ampliam e fortalecem nossa argumentação, e demonstram sua potência formacional.
O objetivo geral corresponde ao resultado pretendido com a pesquisa, devendo responder ao problema de pesquisa. Os objetivos específicos, ou questões de estudo orientam os passos do pesquisador rumo à concretização do objetivo final proposto, facilitando as elaborações da investigação, a discussão teórica e as escolhas metodológicas e, de forma fundante, suas descobertas, criações e proposições.
A revisão teórica, em sendo dinâmica e multirreferencial, faz-se necessária para levantarmos, na literatura especializada, as contribuições sobre o tema a ser investigado, identificando quais estudos e autores do mesmo campo dialogam com o nosso quadro temático. Isto nos ajuda a pensar, sistematizar e realizar um trabalho de campo bem inspirado, teoricamente, pois o que se almeja, num projeto de dissertação ou tese, é o diálogo filtrado com esses estudiosos, autorizados pela qualidade de seus trabalhos acadêmicos e científicos, de acordo com as necessidades da pesquisa. Nesses termos, nossa orientação é a de que, desde os primeiros capítulos, esses escritos conjuguem empiria, teoria e compreensões do pesquisador, e referenciem obras consultadas de forma adequada e equilibrada, sem excessos. Nessa perspectiva, o uso de fontes de consulta primárias e, no limite, comentários academicamente consolidados, são fundamentais e reiteram a necessidade de nos organizarmos para uma “aventura pensada”, o que nos exige (re)inventar o método, que só se concretiza ao final do estudo.
Estudiosos do cotidiano como Certeau (2013), Alves (2008), Andrade, Caldas e Alves (2019), e Oliveira (2005), entre outros autores que nos inspiram, também apontam para a urgência de refletirmos sobre formas plurais de produção do conhecimento, em múltiplas fontes, tendo em vista compreender a relação com o saber, do ponto de vista da falta, da ausência, do inacabamento, da impureza, da conjugação e da articulação, o que só é possível na perspectiva de um rigor científico outro, como já abordado.
Esse é um dos aspectos que, acreditamos, diferencia nossos estudos/pesquisas. Na medida em que pesquisamos com e não sobre os cotidianos, queremos sentir o cheiro de terra molhada, entrevendo o que se esconde, vendo e ouvindo os sujeitos em suas “[...] diferentes expressões que emergem das inúmeras ações que, muitas vezes, somente na aparência são iguais e repetitivas, pois, para se apreender a realidade investigada é preciso estar atento a tudo o que nela se passa, repetese, ou se inova” (Amaral, 2014, p. 10-11), “[...] um mergulho com todos os sentidos”, como nos ensina Alves (2008, p. 42). Ao pesquisarmos com os praticantes, estabelecemos uma relação horizontal, dialógica e interativa, como no relato da praticante C. E., a seguir:
Poder estudar mais sobre esses temas de uma maneira tão leve me fez perceber que vão em direção contrária aos livros de história que li no ensino médio. Eu sempre estudei na ótica do eurocentrismo e essa aproximação e compartilhamento me trouxe vontade e garra para continuar lutando pelo antirracismo. (In: Laís Machado, 2023, p. 142)
O cronograma nos ajuda a organizar a pesquisa e a escrita, pontua Macedo (2020), alertando-nos para a responsabilidade com a temporalidade a ser vivida na experiência, não apenas em função do chronos - tempo do relógio, mas também do kairós - tempo da criação. Daí a importância de buscarmos o equilíbrio entre os tempos acadêmicos e científicos vividos e o das instituições a que nos vinculamos, atentos aos prazos que nos são concedidos.
Finalmente, as referências consistem na listagem, em ordem alfabética de todas as obras, efetivamente utilizadas e referenciadas na composição do projeto de pesquisa, de acordo com os padrões recomendados pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), ou normatizadas por revistas ou periódicos da área de conhecimento eleita, ou por instituições acadêmicas, em geral.
PESQUISA ACADÊMICO-CIENTÍFICA: CONSTRUINDO FAZERESSABERES NUMA PERSPECTIVA CURRICULAR FORMATIVA
Macedo (2020) alerta para aspectos fundamentais que estruturam um trabalho de pesquisa acadêmico-científica5, em suas diferentes seções. Desse modo, o título deve dar visibilidade ao constructo da pesquisa e seu contexto, podendo ser aperfeiçoado, durante o seu desenvolvimento. Sua formulação deve informar, com clareza, o que a caracteriza de forma central, trabalhando, desse modo, em favor da qualidade da comunicação.
O papel do sumário é organizar o trabalho acadêmico e sua escrita, dado que apresenta, com pertinência, tópicos e subtópicos, oferecendo uma visão sistematizada do estudo. O resumo, por sua vez, orienta a escrita da pesquisa, com base: (i) na narração sintética de como a pesquisa se configurou, por meio da problemática; (ii) no objetivo e nas questões formulados; (iii) nas opções teórico-metodológicas eleitas; e (iv) na apresentação da conclusão do estudo. Ao final do resumo, também é preciso apresentar palavras-chave, tendo em vista localizar e condensar os assuntos centrais desenvolvidos no trabalho.
A introdução tem como finalidade contextualizar o problema de pesquisa, oferecendo ao leitor uma visão global do estudo realizado, despertando seu interesse para a leitura do material subsequente. Quanto ao quadro teórico (marco ou referencial teórico), diferentemente da revisão teórica, consiste no corpo articulado de princípios, pressupostos gerais, definições e conceitos específicos, que mostra o modo pelo qual determinado tema foi analisado e interpretado. Em outras palavras, são inspirações ontológicas e epistemológicas que ajudam o pesquisador a compreender a produção do conhecimento, direcionando e fundamentando sua abordagem, tendo em vista dar consistência ao produto da pesquisa (Santos, 2019) e evitar que a referida pesquisa seja mera expressão de opinião pessoal.
Macedo (2020) assevera que os dispositivos de produção de informações e compreensões são escolhidos a partir do que necessitamos para responder nossas questões de estudo. Destaca que, enquanto nas pesquisas quantitativas o método de análise se concretiza a partir de instrumentos estatísticos, nas pesquisas qualitativas é preciso objetivar nossas compreensões, mediante um trabalho analítico que se realiza, em geral, a partir do corpus empírico da pesquisa, ou seja, do conjunto de informações e compreensões produzidas por nossas questões de estudo, visando à construção de compreensões (categorias analíticas, ou noções subsunçoras), que nascem juntamente com a mobilização de competências teórico-analíticas e hermenêuticas do pesquisador, organizando e realçando o texto conclusivo.
Desse modo, em nossas investigações, desde os primeiros capítulos, assumimos uma perspectiva relacional, dado que, no seu decorrer, deparamo-nos com múltiplas vozes, múltiplos silêncios e silenciamentos, pois a interação verbal é sempre uma arena de lutas, dado que nossos discursos estão impregnados da presença do Outro, seja por aquilo que expressamos, na composição dos elementos semânticos ou mesmo nas palavras selecionadas, em função de nossos interlocutores, pela entonação que damos ao que é dito. Sob esse olhar, estabelecer a aproximação da escrita do trabalho desenvolvido aos fenômenos pesquisados é fundamental, para que o relacional e os entretecimentos sejam, em si, fontes de saberes, pois, “[...] aprendemos nas fronteiras” (Macedo, 2020, p. 72). A esse respeito, segue o relato da praticante Jacira, em 2020, mãe de um aluno da turma da mestranda Ana Clara Thiago (2022, p. 155), apresentado em sua dissertação:
[...] Quando veio a notícia do coronavírus, que as pessoas iriam parar de fazer as ‘coisa’, parar de sair e se isolar, aí veio a notícia do meu trabalho, suspendendo o meu contrato por um tempo. Do outro lado, meu marido iria continuar trabalhando normalmente, porque o dele era essencial. Mas, depois da segunda semana de março, meu marido ficou doente, [...] aí você vê o marido sofrendo e seus filhos querendo comer e você cuidando de tudo pra não acabar ou quando acabava, você falava: “depois mamãe compra” e assim foi ficando até a gente ganhar umas “cestas básicas” da rede da Maré. Mas então, depois de 20 dias, meu marido melhorou e voltou ao trabalho e eu nada... foi um momento muito, muito triste! Você ficar sem ver quem você ama, acostumada a trabalhar e as crianças a ir para a escola, ver amigos, professores e nada... coisa que a gente achava que ia passar rápido, tá aí mais de um ano e as crianças sem escola [...].
A elaboração da conclusão exige alguns cuidados, como nos lembra o autor, pois muitas vezes o pesquisador acaba por fazer uma construção digressiva, afastando-se da síntese da pesquisa em resposta às questões formuladas, retomando a discussão da temática ou das teorias que a viabilizaram ou, ainda, apresentando proposições fora de seu escopo. Em outras palavras, o texto conclusivo não objetiva descrever, discutir, analisar, interpretar ou reunir argumentos que possam comprovar o que o sujeito afirma ou infere. Trata-se de um texto autoral, cuja função, assevera Macedo (2020), é responder as questões de estudo, construídas com base na análise das informações e conclusões parciais, dando destaque ao núcleo heurístico e, em especial, responder ao problema que ensejou a pesquisa. Nesse texto, o pesquisador também pode registrar suas impressões e opiniões sobre a realidade observada, e apresentar algumas recomendações, abrindose, desse modo, a novas indagações, problematizações e proposições.
No item referências, aponta o autor, devem ser listados, em ordem alfabética, todas as obras/autores citados no corpo do documento, e com quem se dialoga, de acordo com os padrões recomendados pela ABNT ou instituições, na medida em que há normas diferenciadas, dependendo, inclusive, do país e das universidades nas quais se dará a formação pleiteada. Assim, cuidar da organização de um trabalho acadêmico e de sua normatização constitui um ato de responsabilidade socialmente referenciado. Daí a importância de constantes consultas às regras e suas atualizações, e a escolha de bons revisores, cuja experiência com a especificidade da escrita deve ser considerada. Além disso é fundamental uma boa relação com o revisor. Dadas as especificidades do campo do saber e de estilo, é preciso estar disponível para ouvir e dialogar com o revisor, num processo contínuo de ‘aprenderensinar’.
Glossários, apêndices e anexos6 documentam e explicitam os diferentes movimentos heurístico-formacionais, sendo preciso criterizá-los, com rigor e prudência, estabelecendo, por exemplo, a distinção entre anexos (escritos por terceiros) e apêndices (escritos pelo próprio autor). O glossário, por sua vez, consiste num ato de solidariedade explicativa e formacional no que tange a políticas de sentido dos termos, conceitos e expressões. Notas de rodapé, inseridas, no fim de página, dão leveza explicativa ao texto, devendo ser redigidas, de forma objetiva, e utilizadas com parcimônia.
Macedo (2020) também enfatiza a importância do quesito estética, destacando que a articulação bem fundamentada de pesquisas acadêmico-científicas com a arte e a literatura tem possibilitado a emergência de trabalhos esteticamente bons, criativos e relevantes. Nessa direção, em nossos estudos, incentivamos o uso de analogias e metáforas, títulos sugestivos para o sumário e capítulos bem elaborados, além de uma escrita clara e objetiva, expressa em imagens estáticas, e/ou em movimento, textos e sons, entre outros, a fim de “[...] narrar a vida, audiovisualizar e literaturizar a ciência”, contribuindo para qualificar o estudo, como nos ensinou a professora Nilda Alves, em conversa com nosso grupo de pesquisa, em 18 out. 2023, por meio da plataforma Google Meet.
Sob esse olhar, a mestranda Ana Clara Thiago, na epígrafe que abre sua dissertação, convida-nos a adentrar em seus escritos, recepcionando-nos com 22 canções, que vão desde a suavidade do Prelúdio em Dó Maior de Bach até a força da mulher, com Maria Maria de Milton Nascimento. Desse modo, oferece-nos um banquete regado de amorosidade, cumplicidade, resistência, resiliência, espiritualidade e humanidade, bonitezas que nos tocam, convidando-nos a exercitar outra escrita, para além da já aprendida.
[...] aquela que talvez se expresse com múltiplas linguagens (de sons, de imagens, de toques, de cheiros etc.) e que, talvez, não possa ser chamada mais de “escrita”, que não obedeça à linearidade de exposição, mas que teça, ao ser feita, uma rede de múltiplos, diferentes e diversos fios; [...], que indique, talvez, uma escritafala, uma falaescrita ou uma falaescritafala (Alves, 2008, p. 30-31).
Há, ainda, questões de ordem ética a serem consideradas na redação e divulgação da pesquisa, dado que, na medida em que a construção metodológica se estabelece na relação com o outro, é preciso referenciar esse outro, ou seja, compromissar-se com a autorização, a criação e a autoria. Isso implica trabalhar, de forma diligente, para garantir que a pesquisa proteja os direitos e o bem-estar dos praticantes culturais, além de assegurar a qualidade e credibilidade do estudo. Nessa perspectiva, o pesquisador deve cuidar para não invadir suas vidas privadas, a fim de não os constranger, razão pela qual é fundamental cultivar valores compartilhados e edificados, de modo intercrítico, pontua Macedo (2020), que tece, ainda, algumas considerações sobre o ritual da qualificação, a defesa e sua preparação, destacando a importância de o pesquisador dialogar com os avaliadores de sua pesquisa, integrantes da comissão examinadora.
No pós-defesa, além dos cuidados com a documentação emitida pelo Programa de Pósgraduação, o autor nos lembra que é preciso festejar o investimento acadêmico e o esforço de vida, enfatizando a necessidade de publicizar nossos estudos e pesquisas, pensamento defendido por Andrade, Caldas e Alves (2019), que afirmam que é preciso ir além, compartilhar nossas produções, fazendo-as circular em diferentes redes educativas, oportunizando o diálogo com diferentes interlocutores, especialistas ou não, como destacado, na narrativa da orientadora, professora Luciana Velloso, sobre afetos na academia postada na rede social Facebook, e adaptada para este texto.
Foi uma semana intensa, muitas telas, conversas, colaborações, parcerias... valeu demais toda nossa participação no evento [...]. Fiz questão de trazer o vídeo, pois temos por tradição conjugar estas múltiplas linguagens, com ênfase nos processos que se dão no contexto da cibercultura. Temos buscado articular diferentes espaços de sociabilidades, currículos, tecnologias e influências culturais, tentando compreender este espaço de intersecção que envolve os usos dos dispositivos tecnológicos. [...] Durante a pandemia produzimos artigos, participamos de eventos, palestras, seguindo com as reuniões semanais, no Zoom, em que convidamos colegas para conversar sobre temáticas específicas, de nosso interesse. [...] A ideia é ampliar, e eu sou grata demais por tê-los no grupo, pois cada um, com seu jeito de ser, só me fortalece a seguir adiante. Espero não ter me esquecido de nada, embora a memória sempre nos traia; com certeza devo ter me esquecido. Mas o grupo me ajuda a lembrar de lembrar para que eu não me torne Funes, do conto de Borges. [...]. Que o texto e o vídeo fiquem não apenas aqui, mas em nossas memórias e coração. (Velloso in Facebook, 30 jul. 2022).
CONCLUSÃO
O relato reflexivo sobre a pesquisa acadêmica na pós-graduação stricto sensu, aqui apresentado, a partir das ideias e pensamento de Roberto Macedo, possibilitou-nos compreender a relevância dessa temática para a educação universitária, dada sua implicação não apenas com a construção do conhecimento, mas, também, e principalmente, com um ‘fazersaber’ experiencial que, por mais que seja (in)tensamente relacional, é, a um só tempo, um processo de formação singular, irredutível e transversal.
Atual, necessária e instigante, a obra em pauta, dirigida não só a estudantes universitários, mas a todos aqueles que se interessam por pesquisas que se afastam da rigidez dos modelos hegemônicos preconizados pela ciência moderna, nos convida a buscar, nas pesquisas qualitativas, um rigor outro, entendendo essas pesquisas como heurística, atos de currículo e formação universitária. Nessa perspectiva, dialogamos com algumas questões emergentes, estabelecendo relações com o pensamento de outros interlocutores que compõem o quadro referencial teóricometodológico discutido em nossos estudos, e com o nosso próprio modo de ‘fazerpensarsentir’ a pesquisa acadêmico-científica, na pós-graduação stricto sensu, em uma universidade pública.
Longe de objetivarem apresentar uma sequência de informações sobre métodos e técnicas de pesquisa, as especificidades aqui identificadas constituem um conjunto de recomendações epistemometodológicas, dado que o ato de pesquisar implica planejamento prévio, com procedimentos científicos bem definidos, com vista ao alcance dos objetivos pretendidos. Com efeito, a formalização de uma pesquisa acadêmico-científica exige a elaboração de um projeto norteador, investimento em tempo e energia, capacidade de fazer, desfazer e refazer tarefas, além de comprometimento com o produto a ser apresentado.
Ao nos debruçarmos sobre essa obra, reafirmamos nossa opção pela pesquisa-formação na cibercultura, que não dissocia os processos de ‘aprenderensinar’. Assim, a pesquisa é realizada com os sujeitos, e não sobre eles, mediante um processo coletivo, dialógico, interativo e colaborativo, que se concretiza no movimento ‘práticateoriaprática’. Adotamos, também, um olhar multirreferencial (plural) da realidade investigada, estabelecendo o diálogo com as diferenças e entre os saberes científicos e aqueles saberes do homem comum.
Construindo nosso caminho, caminhando, formamos e nos formamos, no dinamismo de vivências subjetivas, percepções, opiniões e singularidades criadoras coletivas, alinhados à inteligibilidade institucional da universidade, tendo em vista nossa transformação.
Desse modo, na construção de nossas pesquisas, levamos em conta, desde os primeiros capítulos, a perspectiva relacional, aproximando escrita e realidade pesquisada, organizando-a segundo um modelo mais convencional, ordenado, contendo as diferentes seções que compõem o estudo; mas podendo, ainda (e essa é a nossa preferência), de modo ético e estético, entretecer, ao longo dos capítulos, empiria, teoria e invenções e descobertas do pesquisador, em favor de um processo dialógico e criativo. Atentas às questões éticas e estéticas, cuidamos, ainda, para que o desenvolvimento da pesquisa e sua escrita estejam em consonância com a temporalidade a ser vivida na experiência, buscando o equilíbrio entre chronos e kairós. Finalmente, e dada a importância de democratizarmos o conhecimento, compartilhamos nossas produções, fazendo-as circular nas redes sociais, em eventos diversos, públicos e privados e em revistas e periódicos, nacionais e internacionais.














