INTRODUÇÃO
O presente estudo surgiu a partir de reflexões adjacentes e oriundas da pesquisa de doutorado em andamento, cujo objetivo central é compreender a proposta pedagógica e as características de gestão dos programas de extensão voltados à pessoa idosa nas universidades públicas de Santa Catarina.
O fenômeno do envelhecimento pode ser analisado sob duas perspectivas: 1) na perspectiva do conjunto da população ou 2) na perspectiva do indivíduo. A primeira, compreende as alterações da estrutura etária da sociedade e traduz-se no acréscimo das pessoas com 65 anos ou mais no total da população, a segunda, a do indivíduo, engloba a mudança progressiva que o envelhecimento acarreta a estrutura biológica, psicológica e social de cada pessoa (Câmara, 2015, p. 404).
O envelhecimento populacional é um fenômeno global, que se iniciou nos países desenvolvidos e, nos últimos anos, também se registra nos países em desenvolvimento. O processo manifesta-se pelo permanente aumento da expectativa de vida e pelo declínio das taxas de fecundidade e de mortalidade (Borges et al., 2017). “O envelhecimento de uma população relaciona- se a uma redução no número de crianças e jovens, em função da diminuição da taxa de natalidade, e a um aumento na proporção de pessoas com mais de 60 anos” (Lacerda, 2009, p. 6). Ressalta-se que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera idoso(a), a pessoa que tem mais de 60 anos de idade. Entretanto, estabelece uma diferenciação nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos é considerada pessoa idosa acima de 65 anos enquanto nos países em desenvolvimento, a pessoa idosa tem 60 anos ou mais de idade (Inagaki et al., 2013).
O aumento da expectativa de vida corresponde, portanto, a uma notável conquista coletiva que reflete os avanços obtidos nas áreas de desenvolvimento econômico e social, especialmente, no âmbito da saúde. Oliveira, Scortegagna e Silva (2017) consideram relevantes os debates acerca das questões do envelhecimento, especialmente para a compreensão sobre os impactos que suscitam este perfil demográfico na sociedade. “Maior longevidade, número crescente de pessoas chegam a idades avançadas tem inequivocamente, impactos significativos em nível de desenvolvimento económico, científico, tecnológico e cultural” (Quaresma, Ribeirinho, 2016, p. 44). Uma população envelhecida afeta todos os aspectos da sociedade, tais como: mercado financeiro e de trabalho; educação, moradia; transporte, saúde, estruturas familiares entre outros (Opas, 2020).
Rodrigues (2007) compreende que as construções teóricas sustentadas em dados estatísticos configuram uma ferramenta explicativa relevante para a área demográfica, entretanto, não podem ser utilizadas como única dimensão para o entendimento de fenômenos tão complexos, como o envelhecimento. O envelhecimento como uma questão social não é somente, uma consequência do aumento da população de 60 anos ou mais, “[...] tampouco é consequência de descobertas da ciência, desvendando dimensões da velhice e do envelhecimento. Tal construção está marcada por diferentes aspectos culturais, sociais e econômicos, relacionada a uma série de fatores” (Rodrigues, 2007, p. 26).
Os valores e padrões sociais e culturais construídos pela sociedade estão presentes no cotidiano dos idosos e influenciam o comportamento e atitudes dessas pessoas e da forma como são tratadas (Fernandes, 2009). A gerontologia dedica-se ao uso do conhecimento científico para as questões que envolvem pessoas e grupos sociais que estão envelhecendo e, portanto, tem sido aplicada a um crescente número de áreas e situações (Pereira, 2009). No que concerne aos aspectos sociais referentes ao envelhecimento se desenvolveu a gerontologia social, a qual se dedica ao estudo das condições ou fatores sociais que de algum modo influenciam na maneira como a pessoa envelhece (Câmara, 2019).
Com o desenvolvimento das pesquisas na área da gerontologia, várias teorias sobre o envelhecimento foram elaboradas, tanto em bases fisiológicas e biológicas, como também alicerçadas nas perspectivas sociais e psicológicas. São estudos de grande relevância para a compreensão mais intensa, sistemática e científica do processo de envelhecer (Lyra, 2014). No que se refere às teorias sociais do envelhecimento, Bengston, Burgess, Parrott (1997) propõem que tais teorias constituem três gerações conforme suas origens intelectuais, a saber: 1ª geração (1949-1969); 2ª geração (1970-1980); 3ª geração (a partir de 1980). As teorias sociais do envelhecimento que constituem a 3ª geração são compostas por: construtivismo social; curso de vida; teorias feministas; teoria político-econômica; e teoria crítica. Para o escopo do presente estudo, pretende-se utilizar o suporte da teoria crítica como lente de análise.
Isso posto, emerge um questionamento norteador: como a teoria crítica do envelhecimento pode contribuir para as reflexões sobre o papel social da pessoa idosa? Diante da pergunta de pesquisa delineada, o objetivo desse estudo é compreender como a teoria crítica do envelhecimento pode contribuir para as reflexões sobre o papel social da pessoa idosa. Vale ressaltar que a sociedade aqui compreendida, está ancorada em estudos pautados na sociedade ocidental.
Para o desenvolvimento do estudo, apresenta-se inicialmente os aportes basilares da pessoa idosa e seu papel social. Posteriormente, discorre-se sobre os pressupostos da teoria crítica do envelhecimento. Em seguida, são apresentados os procedimentos metodológicos que orientaram o desenvolvimento da pesquisa. Por fim, são apresentadas as compreensões sobre o papel social da pessoa idosa a partir dos pressupostos da teoria crítica do envelhecimento e as considerações finais.
A PESSOA IDOSA E SEU PAPEL SOCIAL
O envelhecimento não é um processo uniforme, uma vez que cada pessoa viverá essa fase da vida de maneira peculiar, considerando sua história, os aspectos estruturais (classe, gênero, etnia) além de saúde, educação e situação econômica (Minayo, Coimbra, 2002). Beauvoir (1990, p. 20) acrescenta que “[...] a velhice não pode ser compreendida se não em sua totalidade dialética porque ela não é somente um fato biológico, mas também um fato cultural”.
Freitas et al. (2013) considera o envelhecimento o processo, a velhice a fase da vida e a pessoa idosa o resultado, cujos componentes estão intimamente relacionados. O termo idoso surgiu na França, a partir de 1962 em razão do desenvolvimento de uma política de integração social da velhice. Até então, os termos velho, velhote eram utilizados para as pessoas que não detinham status social, enquanto o termo idoso era direcionado às pessoas valorizadas socialmente, seja por meio de cargos políticos ou situação financeira privilegiada (Peixoto, 1998). À medida que a política social francesa para a velhice se desenvolve, aumenta o prestígio social dos aposentados, de tal forma que o termo idoso passa a ser utilizado nos documentos oficiais e, consequentemente, as pessoas dessa faixa etária passam a ser mais respeitadas (Peixoto, 1998).
Lima-Silva, Santos, Silva (2022) preconizam que o termo velho costuma ser entendido como algo pejorativo, que se refere àquele que não produz, portanto deve ser evitado, deste modo é um termo pouco utilizado. Na presente investigação optou-se por utilizar o termo pessoa idosa pautando-se em política centrada na valorização humana, sem rotulações e, na qual, a pessoa vem sempre em primeiro lugar. Entende-se com isso que a utilização de termos técnicos, não se trata de uma questão irrelevante ou meramente semântica. “[...] numa perspectiva inclusiva, a terminologia correta é importante, especialmente quando abordamos assuntos tradicionalmente eivados de preconceitos e estigmas, como os relacionados às pessoas com idade igual ou superior a sessenta anos” (Brasil, 2019, p. 19).
Não obstante aos estudos e pesquisas desenvolvidos na área de envelhecimento e velhice, a pessoa idosa ainda é alvo de muitas discriminações seja no âmbito familiar, econômico, social etc. (Oliveira, Scortegagna, Oliveira, 2016). Côrte (2020) esclarece que o termo ageísmo, advém do inglês ageism, cunhado de forma pioneira em 1969 pelo psiquiatra americano Robert Butler. O termo foi utilizado para descrever o preconceito ou qualquer forma de intolerância relacionada com a idade. A tradução para o português passou a ser ageísmo, idadismo, etarismo e idosismo. Estes termos são utilizados para definir ações diretas ou indiretas em que alguma pessoa é excluída, maltratada ou tratada de forma diferente devido à idade (Côrte, 2020).
Tamer (2008, p. 2) afirma que “[...] a velhice e o envelhecimento encerram, em si, certos paradoxos da existência humana e representam situações de crise ao longo do ciclo de vida”. Essas duas dimensões são permeadas por um imaginário social que as vê como algo que deve ser negado ou temido. O imaginário social é um dos componentes das representações sociais que objetivam orientar modos e práticas sociais. As representações sociais se constituem por crenças, saberes, opiniões que permitem interpretar a realidade por meio de elementos simbólicos que, ao serem partilhados, se integram à vida cotidiana (Soares et al., 2022). Neste contexto, vale destacar que o trabalho exerce, sobretudo na cultura ocidental, uma forma de reconhecimento, pertencimento e valorização profissional como um dos sustentáculos essenciais da autoestima e do sentido de funcionalidade. A ruptura com o mundo do trabalho tende a causar perdas de vínculos sociais, impactando na qualidade de vida aliado ao sentimento de inutilidade, solidão e baixa estima (Silva, Helal, 2019).
Han (2017) entende que vivemos a sociedade da positividade, do estar e exercer, para se manter e se constituir na sociedade mercantilizada. Essa concepção de vida e de trabalho é uma compreensão altamente difundida, da positividade que nos torna igual na relação mediada pelo trabalho. O labor para a pessoa idosa tende a ser mais significativo, uma vez que, por meio de uma atividade sistemática e regular que forneça “[...] significados e satisfação a sua própria existência, quer seja pelo compromisso e pela responsabilidade e valor social, ou ainda pela oportunidade de se manter no convívio social, ele tende a ser mais saudável e realizado” (Silva, Helal, 2019, p. 191).
Por outro lado, com a expansão do capitalismo, surgiram novas formas de gestão da velhice centradas na mercantilização, reconstruindo percepções sobre o corpo e a saúde das pessoas idosas, que passaram a ser incentivadas a combater a deterioração de seus corpos e convencidos de que a manutenção da aparência está sob a responsabilidade delas (Vilasanti, Pacífico, 2022). Com o apelo do mercado e da publicidade, “[...] o medo de envelhecer, que outrora remetia à angústia frente à percepção da efemeridade da vida, na modernidade, passou a ter novos contornos, marcados pelo receio de não ser percebido, valorizado e aceito socialmente” (Vilasanti, Pacífico, 2022, p. 186). Debert (2004) contribui ao afirmar que a juventude deixa de ser uma fase da vida e se transforma em valor, em um bem que deve ser conquistado em qualquer idade por meio de estilos de vida e padrões de consumo adequados.
Tavares (2020) sustenta que o trabalhador contemporâneo é por si só, um ser precarizado pelas condições capitalistas, uma vez que deixa que sua força de trabalho seja explorada por quem a compra, antes de receber o pagamento por ela. “E, como se não bastasse o trabalhador adiantar ao capitalista o seu salário, o preço da força de trabalho, fixado contratualmente, não corresponde ao valor de uso que dela faz o seu comprador. Apenas parte do que o trabalhador produz é paga” (Tavares, 2020, p. 148). A autora entende que, diante do envelhecimento dos trabalhadores, estes sofrem uma dupla precarização, considerando que o trabalhador idoso é concebido pelo sistema como menos produtivo ou inativo.
Silva (2020) considera que algumas pessoas possuem propensão para enfrentar as questões do envelhecimento de maneira otimista e saudável e outras enfrentam a velhice como uma fase difícil e infeliz da vida. É essencial que se compreenda que as perdas não ocorrem somente na velhice, mas em todas as fases da existência humana (Silva, 2020). Para que a velhice não seja uma insignificante reprodução das existências anteriores, é preciso perseguir fins que deem sentido à vida (Beauvoir, 1990).
O envelhecimento bem-sucedido vai depender do equilíbrio entre os limites e as possibilidades de cada pessoa, de modo a possibilitar o enfrentamento às questões inevitáveis dessa fase da vida. As oportunidades que seguem uma maior longevidade dependem profundamente de um envelhecimento saudável. Pessoas que enfrentam a velhice gozando de boa saúde, participando de forma integrada com suas famílias e grupos sociais fortalecem as sociedades (Opas, 2020). O processo de envelhecimento de cada pessoa frente à diversidade e heterogeneidade de cada sujeito estrutura-se no ambiente físico, social e cultural. “É um processo em construção. O futuro está no Hoje da vontade, da determinação, do conhecimento, da decisão orientada para o respeito dos direitos humanos de todos os homens e mulheres de todas as gerações” (Quaresma, Ribeirinho, 2016, p. 48).
A educação revela um papel essencial na potencialização desse novo olhar sobre a pessoa idosa, sobretudo no que concerne à inclusão social. O conhecimento é um meio efetivo e necessário para o empoderamento e a superação dos desequilíbrios sociais. É fundamental um processo educacional inclusivo para essa faixa etária, o qual garanta a integração com os demais grupos sociais, com vista a suplantar os preconceitos que envolvem as pessoas idosas (Oliveira, Scortegagna, Oliveira, 2016).
Serão abordados a seguir os pressupostos da teoria crítica do envelhecimento, de modo a possibilitar a interlocução com o papel social da pessoa idosa e facilitar a compreensão sobre como a referida teoria pode contribuir para a discussão.
TEORIA CRÍTICA DO ENVELHECIMENTO
A teoria crítica teve sua gênese no marxismo e caracteriza-se pela investigação da realidade que busca além de descrevê-la, identificar e analisar as dificuldades e as possibilidades emancipatórias em cada momento histórico (Nobre, 2004). O marxismo apreende, especificamente, três aspectos centrais, a saber, o materialismo histórico, o materialismo dialético e a economia política (Triviños, 2012).
O materialismo dialético compõe a base filosófica do marxismo e busca explicações coerentes, lógicas e racionais para os fenômenos naturais, sociais e do pensamento. O materialismo histórico compreende “[...] a ciência filosófica do marxismo que estuda as leis sociológicas que caracterizam a vida da sociedade, de sua evolução histórica e da prática social dos homens, no desenvolvimento da humanidade” (Triviños, 2012, p. 51). Nobre (2004) esclarece que os estudos sobre as questões econômicas, embora necessários, são insuficientes, visto que as transformações sociais não ocorrem somente na esfera da economia, mas também nos âmbitos culturais, psíquicos, religiosos etc. “Nesse sentido, a realidade é entendida como produto da ação e das decisões humanas, podendo ser modificada” (Vilasanti, Pacífico, 2022, p. 187). A teoria social crítica, portanto, na busca do conhecimento, parte de uma realidade concreta e compreende as contradições e as relações de mediação que as constitui. Reconhece que as realidades sociais constituem processos abertos e transitórios, nas quais a compreensão do contexto é indispensável e se configura em um processo de contínuo movimento (Marcondes, Toledo, 2014).
Nos anos iniciais da década de 1980, a gerontologia crítica ampliou-se como uma subárea intensa e hibridizada que alia ideias e conceitos de humanidades e ciências sociais e expande os estudos acerca do envelhecimento para além da biomedicina e das práticas sociais anti-idade (Katz, Calasanti, 2015). Entretanto, várias abordagens dentro da gerontologia crítica se opuseram, gerando um debate intenso sobre a constituição, realizações e orientações futuras para a subárea. As discussões definem a criticidade por meio da associação com tradições teóricas como: marxista, fenomenologia, construtivismo e estudos feministas (Katz, Calasanti, 2015).
Bengston, Burgess, Parrott (1997) propõem que as teorias sociais do envelhecimento constituíram três gerações conforme suas origens intelectuais. A teoria crítica está situada na terceira geração que buscou responder aos interesses das ciências sociais contemporâneas: gênero; relações de poder; histórias de vida; conhecimento crítico e político (Vilasanti, Pacífico, 2022). As teorias sociais do envelhecimento classificam-se também de acordo com seu nível de análise, a saber: macrossocial, microssocial e micro/macrossocial. Em relação ao nível microssocial, o centro de análise é o organismo individual, ou seja, a pessoa e suas interações sociais. As teorias macrossociais dedicam-se a examinar as influências das estruturas sociais nas experiências e nos comportamentos. No aspecto micro/macro, estão contidas as teorias que contemplam os dois níveis de análise concomitantemente (Lyra, 2014). Vide Figura 1: Teorias sociológicas do envelhecimento:

Fonte: Lyra (2014, p. 39) com base em Bengston, Burguess, Parrot (1997).
Figura 1: Teorias sociológicas do envelhecimento
A teoria crítica está inserida no nível macrossocial de análise, é uma teoria de origem marxista e sofre influências da hermenêutica e do pós-modernismo (Lyra, 2014). Seguindo as tradições críticas da Escola de Frankfurt, das abordagens estruturais da economia política e do pós- estruturalismo, estas correntes teóricas possuem um foco comum que é a crítica ao processo do poder (Bengston, Burgess, Parrott, 1997). A teoria crítica emergiu de forma relativamente recente na gerontologia e recebeu uma visível influência da abordagem político-econômica de envelhecimento e das teorias feministas (Almeida, Almeida, 2013).
McArthur (2022) sustenta que para compreender de forma dialética o bem-estar individual e social da teoria crítica, esta não pode ser entendida como um conjunto normativo de ideias passadas, mas como um projeto e compromisso contínuos. “Em sua essência, a teoria crítica rejeita o racionalismo instrumental de capitalismo tardio e destaca distorções e patologias ocultas e sutis que prejudicam a nossa capacidade de levar vidas sociais satisfatórias” (McArthur, 2022, p. 1682).
A teoria crítica desenvolveu dois padrões distintos, um centrado nas dimensões humanísticas e o outro nas composições estruturais (Bengston, Burgess, Parrott, 1997). São conceitos base de sua investigação gerontológica: o poder, a ação social e os significados sociais. O cunho humanístico da teoria crítica está na proposição de os próprios idosos definirem as questões mais relevantes para a pesquisa. Entretanto, as suas principais limitações estão no alto nível de abstração, e a dificuldade de suas proposições serem empregadas por pesquisadores que adotam os paradigmas positivistas (Siqueira, 2001).
Representando o discurso humanista, Moody (1992) elaborou os objetivos da teoria crítica do envelhecimento: a) teorizar sobre os aspectos subjetivos e interpretativos do envelhecimento; b) concentrar-se na práxis como mudança prática; c) conectar profissionais e acadêmicos por meio da práxis; e d) construir conhecimento emancipatório.
A teoria crítica do envelhecimento ainda é difícil para muitos cientistas sociais devido ao seu modelo de ciência social ser baseado em tradições filosóficas europeias (Moody, 1992). De fato, sem a compreensão das origens intelectuais, a teoria crítica pode parecer ininteligível devido à sua abstração. Todavia, muitos pesquisadores que se pautam nas perspectivas da teoria da economia política; teoria feminista; teoria construtivista social do envelhecimento consideram a teoria crítica bastante útil para a compreensão de observações empíricas (Bengston, Burgess, Parrott, 1997).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A abordagem metodológica utilizada nesta pesquisa é de natureza qualitativa. Quanto aos fins, caracteriza-se como descritiva, pois visa a “[...] expor características de determinada população ou de determinado fenômeno” (Vergara, 1998, p. 46). Quanto aos meios, é uma pesquisa bibliográfica, contextualizada e fundamentada nos pressupostos teóricos a partir de duas dimensões: pessoa idosa e a teoria crítica do envelhecimento.
Para uma melhor contextualização e investigação do fenômeno foi realizada uma revisão de literatura, desenvolvida de acordo com as etapas da revisão integrativa proposta por Botelho, Cunha e Macedo (2011). O método possibilita a síntese e análise do conhecimento científico já produzido sobre o tema pesquisado, além de fornecer informações que permitem aos pesquisadores avaliarem a adequação dos procedimentos empregados (Botelho, Cunha, Macedo, 2011). Para realizar uma revisão integrativa que respeite os rigores metodológicos, Fossatti, Mozzato, Moretto (2019) entendem ser factível ao pesquisador percorrer seis etapas definidas. Será apresentada a seguir a Tabela 1: Etapas da revisão integrativa, com as definições de cada etapa:
Tabela 1: Etapas da revisão integrativa
| Etapas | Revisão integrativa |
|---|---|
| Primeira | Identificação do tema e seleção de questões de pesquisa |
| Segunda | Estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão da pesquisa |
| Terceira | Identificação de estudos pré-selecionados e selecionados |
| Quarta | Categorização dos estudos selecionados |
| Quinta | Análise e interpretação dos resultados |
| Sexta | Apresentação da revisão e síntese do conhecimento |
Fonte: Fossati, Mozzato, Moretto (2019, p. 61).
Considerando as etapas da revisão integrativa que foram expostas, buscou-se aplicá-las no contexto do presente estudo. Partiu-se então, para a primeira etapa da revisão integrativa que consiste na identificação do tema e questão de pesquisa, a saber: como a teoria crítica do envelhecimento pode contribuir para as reflexões sobre o papel social da pessoa idosa?
Posteriormente, realizaram-se as consultas nas fontes de pesquisa. Foram realizadas pesquisas nas bases de dados de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além da Scopus e Web Science. As buscas consideravam trabalhos cujo título, resumo e palavras-chave estabeleciam relação com os descritores escolhidos. O período de consulta ocorreu entre 15 ago. 2023 e 20 ago. 2023. Determinaram-se os descritores de buscas, nos idiomas português, inglês e espanhol, conforme Tabela 2: Descritores de buscas:
Tabela 2: Descritores de buscas
| Descritores | Português | Inglês | Espanhol |
| Idoso; Pessoa Idosa | Elderly | Anciano | |
| Teoria | Theory | Teoría | |
| Crítica | Critical | Crítica | |
| Envelhecimento | Aging | Envejecimiento | |
| Papel Social | Social Role | Papel Social |
Fonte: Elaborado pelos autores (2023).
Por meio do operador AND foi possível agrupar os descritores necessários para a busca temática. Optou-se ainda pela busca pelos termos entre aspas: “teoria crítica”; “papel social”; “pessoa idosa”. A utilização das aspas permitiu a busca por ocorrências que continham os termos exatos conforme descritos. Os primeiros resultados apontaram um total bruto de 11.034 trabalhos sendo 10.505 ocorrências na base de dados Scopus; 265 na Web Science e 264 na CAPES. Estes números representam a somatória de todas as associações de descritores para cada base de dados. Devido ao número expressivo de trabalhos publicados, evidenciou-se a necessidade de seguir com a segunda etapa da revisão integrativa, que trata do estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão. Foram aplicados três filtros, quais sejam: a) trabalhos com acesso disponível; b) trabalhos disponibilizados na íntegra; c) trabalhos que continham os termos referenciais no resumo. A partir da aplicação dos filtros, foi possível obter um quantitativo total de 188 trabalhos, considerando todas as bases de dados pesquisadas.
Foi dado prosseguimento à terceira etapa da revisão, ou seja, a identificação dos estudos selecionados. Para tanto, realizou-se a leitura dos artigos aprovados nos critérios de inclusão. Foram excluídos trabalhos duplicados e/ou que não atendiam ao escopo da pesquisa. Nesta etapa foi possível observar que, muitos trabalhos embora tivessem títulos aparentemente relacionados com o objeto desta pesquisa, estavam relacionados com outras áreas da ciência e não possuíam o teor compatível com os referenciais pretendidos. A terceira etapa resultou em um quantitativo de 09 trabalhos sendo duas ocorrências na base de dados Scopus, três na Web Science e quatro na CAPES. Segue, na Figura 2, matriz síntese das três etapas da revisão integrativa:
A quarta etapa teve como objetivo, a criação de uma biblioteca individual por meio do registro das informações extraídas dos trabalhos selecionados. A documentação foi elaborada com base nas informações coletadas nos artigos. Considerou-se ano, título, autoria e nome do periódico, constituindo-se então, um portfólio com 9 trabalhos.
A quinta etapa da revisão constituiu-se na análise dos trabalhos no que se refere às concepções acerca dos descritores selecionados. As concepções extraídas foram agrupadas de acordo com os respectivos conteúdos, a fim de obter o conhecimento produzido sobre o fenômeno de investigação. Na sexta etapa foram consolidados os resultados encontrados. Essa etapa serviu de sustentação para a elaboração da fundamentação teórica do presente estudo.
O PAPEL SOCIAL DA PESSOA IDOSA A PARTIR DOS PRESSUPOSTOS DA TEORIA CRÍTICA DO ENVELHECIMENTO
Pode-se inferir que o papel social da pessoa idosa é um processo em construção que, no decorrer de sua historicidade sofreu influências dos fatores físicos, culturais, econômicos e políticos. As pessoas idosas fazem parte de grupos sociais historicamente excluídos resultado de representações sociais estereotipadas acerca das alterações decorrentes do envelhecimento e da velhice.
Há que se ressaltar que as representações sociais do envelhecimento e da velhice na sociedade capitalista vivenciam uma contradição. A pessoa idosa e seus corpos envelhecidos são alvo de um mercado que negocia produtos e maneiras de combater as evidências do tempo na aparência dessas pessoas. Por outro lado, essas mesmas pessoas consomem os produtos e maneiras que potencializam, ideologicamente, a discriminação etária e a mercantilização da juventude como princípio valorativo. A reflexão e o debate são necessários também no âmbito do trabalho entre trabalhadores jovens e idosos, pois, face ao caráter implacável do envelhecimento e as condições do capitalismo, a luta pelos direitos deve estar atrelado aos interesses de todos os trabalhadores, independentemente da idade que se encontram.
É preciso uma consciência crítica da realidade para perceber que no modo de produção capitalista os paradigmas da longevidade e do envelhecimento saudável operam sob a égide de uma sociedade mercantilizada. Nesse sentido, a teoria crítica tem muito a contribuir para a compreensão dos desafios e possibilidades que a sociedade impõe às pessoas idosas. Para tanto, serão tecidas algumas reflexões, partindo da teoria crítica centrada nas dimensões humanísticas (Bengston, Burgess, Parrott, 1997) e dos objetivos da referida teoria propostos por Moody (1992).
O primeiro objetivo proposto por Moody (1992) refere-se à perspectiva de teorizar sobre os aspectos subjetivos e interpretativos do envelhecimento. A primeira reflexão que emerge é que o processo de envelhecimento por si já é um fenômeno histórico e socialmente contextualizado (Rodrigues, Soares, 2006) uma vez que não existe um tipo de envelhecimento e de velhice, porém vários processos de envelhecimento e, portanto, várias fases da velhice. Desse modo, o papel que a pessoa idosa desempenha socialmente não pode ser compreendido de forma homogênea, normatizada e descontextualizada.
Moody (1992) estabelece, como segundo objetivo da teoria crítica, a concentração na práxis como mudança prática. É sabido que a teoria e a prática são processos históricos. Marx e Engels (2007, p. 534) declaram que “[...] toda a vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis”. Freire (2011) corrobora ao afirmar que, para a consciência da prática é indispensável conhecer a teoria. Esse conhecimento não pode limitar-se à pura opinião, é preciso que a opinião atinja o saber e conduza para a percepção da essência da realidade. Este movimento não se consolida “[...] com um esforço estritamente intelectualista, mas na indivisibilidade da reflexão e da ação da práxis humana” (Freire, 2011, p. 62).
A concentração na práxis proposta por Moody (1992) tende a contribuir na percepção da pessoa idosa e seu papel social na medida em que rompe com os paradigmas historicamente construídos. Para tanto, faz-se necessária a integração das produções científicas às práticas sociais, de forma dialógica e transparente. O produto da práxis deve servir de subsídio para a elaboração de documentos norteadores e políticas públicas que efetivamente representem as pessoas idosas e seus anseios sociais.
O terceiro objetivo da teoria crítica proposto por Moody (1992) diz respeito à conexão de profissionais e acadêmicos por meio da práxis. Pode-se perceber que o terceiro objetivo complementa o segundo. A interlocução de profissionais e acadêmicos somente ocorre por meio da ruptura de práticas enclausurantes e demarcatórias de ambos os lados em prol de uma prática social que indaga, que reflete, que critica, que investiga e que transforma.
O quarto e último objetivo da teoria crítica proposto por Moody (1992) refere-se à construção de conhecimento emancipatório. Se percebe que este objetivo é uma consequência, caso os demais objetivos anteriores mencionados se concretizem. A construção de conhecimento emancipatório é possível por meio da consciência crítica. Se a teoria crítica possui como conceitos básicos da investigação gerontológica, o poder, a ação social e os significados sociais (Siqueira, 2001), entende-se que a referida teoria tem muito a contribuir para a compreensão dos desafios impostos pela sociedade no que tange à pessoa idosa.
O poder relaciona-se ao empoderamento das pessoas durante seu processo de envelhecimento e velhice que, por sua vez, tem a ver com a consciência crítica de que possui direitos, mas também deveres. Que não somente pode, como deve, fazer uso de vez e voz na vivência de seus direitos e deveres. A ação social relaciona-se à participação ativa e os significados sociais referem-se ao sentido de pertencimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Resgatando o objetivo inicialmente proposto no presente estudo, nomeadamente, compreender como a teoria crítica do envelhecimento pode contribuir para as reflexões sobre o papel social da pessoa idosa, entende-se que o objetivo foi alcançado à medida que a referida teoria contribui para a conscientização social por meio da ação-reflexão do que representa ser uma pessoa idosa dentro de seu processo de historicidade.
A teoria crítica do envelhecimento promove a reflexão de que o processo de envelhecimento não percorre um caminho linear, comum a todas as pessoas. É um processo permeado por contradições, na qual a interação recíproca entre os elementos contraditórios é o que provoca o desenvolvimento, a transformação. Portanto, pautando-se nessa perspectiva dialética, é preciso materializar ações que promovam a inclusão da pessoa idosa nas esferas sociais, por meio de uma concepção dialógica e de combate aos processos discriminatórios decorrentes do envelhecimento.
O estudo possibilitou a reflexão sobre a teoria crítica do envelhecimento e o papel social da pessoa idosa a partir da ancoragem na subjetivação e no olhar direcionado aos processos individuais e históricos lançados sobre o fenômeno. Em que pese a subjetivação que a teoria crítica do envelhecimento apresenta, é possível concluir que, a contribuição principal da referida teoria para os estudos sobre envelhecimento e velhice está pautada na proposição de uma abordagem humanística, voltada para a heterogeneidade e as particularidades que toda e qualquer pessoa possui e de igual forma, a pessoa idosa.
Como fator limitante do estudo considera-se que as potencialidades da teoria crítica do envelhecimento, não se limitam aos aspectos descritos, uma vez que apenas algumas características foram abordadas. Embora o estudo envolva a exploração sistemática de recursos bibliográficos, trata-se de um primeiro olhar para o tema. Como sugestão para estudos posteriores, considera-se oportuno o emprego de pesquisas empíricas no contexto do papel social da pessoa idosa a partir da teoria, objeto desse estudo.















