UM OLHAR SOBRE A PRODUÇÃO CIENTÍFICA DO AFROFUTURISMO
O referido estudo foi elaborado a partir de um trabalho inicial realizado na disciplina Seminário de Pesquisa II do Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc/UFRRJ), cujo quadro de interesse se constituiu a partir do dilema sobre a divulgação e produção científica de teses e dissertações no campo da Pedagogia Universitária sobre o tema Afrofuturismo. O referido texto comporá a tese de doutorado de um dos autores, um dos eixos de pesquisa do projeto CNPq intitulado “Educação on-line, inteligência artificial e afrofuturo: experiências interseccionais de ciberpesquisa-formação na Pedagogia Universitária e na Cidade”, coordenado pela orientadora pela segunda autora, líder do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC).
O objetivo deste estudo foi compreender como o tema Afrofuturismo combinado com a educação encontra-se discutido cientificamente dentro da universidade, a partir das produções de teses e dissertações. Mediante este objetivo, dilema e intenção, buscamos dimensionar a progressão das produções nos últimos anos, reunindo os resultados de um levantamento nos bancos de dados de duas plataformas online, a saber: Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - Catálogo de Teses e Dissertações e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), no período de 2010 a 2024. A opção por esse período aconteceu porque não encontramos na literatura acadêmica nenhum tipo de trabalho que apresentasse um levantamento semelhante, o que nos permite ter legitimidade e inovação em realizar este estado da arte.
Como procedimento metodológico, partimos da pesquisa-formação na cibercultura, que permite ao pesquisador iniciar seus estudos a partir dos seus dilemas enquanto docente. Ou seja, conforme explica Santos (2019), os dilemas docentes são inquietações e problemáticas advindas da prática e da docência do professor-pesquisador, através dos dilemas compartilhados nas mais diversas redes de pesquisa; porém, inicialmente isso acontece no primeiro lugar de pesquisa de um doutorando, o Grupo de Pesquisa, que pensamos em etnométodos, táticas e invenções para que colaborativamente possamos pensar no caminho metodológico mais adequado. Santos (2019) destaca que, na pesquisa-formação, o dispositivo de pesquisa e prática docente vai se constituindo no processo a partir da autoria do pesquisador-coletivo.
A partir do dilema do pesquisador, optamos por trabalhar com a metodologia Estado da Arte ou Estado do Conhecimento, visto que são denominações que se atravessam, buscando qualitativamente realizar uma importante análise dos dados a serem apresentados, validando o dilema e a proposição da pesquisa. Para verificação dos dados, optou-se pela análise de conteúdo com base em Bardin (2016). Portanto, o interesse por pesquisas que abordam estado da arte deriva da abrangência desses estudos para apontar caminhos que vêm sendo tomados e aspectos que são abordados em detrimento de outros. A realização desses balanços possibilita contribuir com a organização e análise na definição de um campo, uma área, além de indicar possíveis contribuições da pesquisa para com as rupturas sociais. A análise do campo investigativo é fundamental neste tempo de intensas mudanças associadas aos avanços crescentes da ciência e da tecnologia (Romanowski, Ens, 2006, p. 41).
Roldão et al. (2021, p. 53) destacam que esse tipo de estado da arte possibilita ao pesquisador uma visão geral do que está sendo pesquisado e permite identificar as contribuições e avanços científicos de uma área do conhecimento. Nesse sentido, minha proposta é dialogarmos sobre a importância do movimento do afrofuturismo como tema a ser abordado, estudado, pesquisado e praticado na educação, articulando o método e a prática com minha tese, compreendendo as possibilidades de emancipação do tema dentro da Pedagogia Universitária, assim como a contribuição para a inserção da temática nos debates visando à construção de um currículo antirracista, a partir de um letramento afrofuturista.
De acordo com Kênia Freitas e José Messias (2018), pesquisadores afrofuturistas brasileiros, nestes pouco mais de 20 anos de existência, o afrofuturismo passou por uma série de redefinições, sobretudo no sentido de ampliar o pensamento do universo cultural restrito aos negros dos EUA para um pensamento negro africano e diaspórico mundial.
Nesse cenário, a pesquisa aqui proposta busca investigar as teses e dissertações identificadas nos portais Capes e BDTD que discutem de forma científica a relação entre Afrofuturismo e Educação, sob quaisquer perspectivas do saber e campo de conhecimento.
O texto encontra-se estruturado em quatro seções: na primeira apresentamos um olhar sobre a produção científica do Afrofuturismo. Na segunda seção discutimos os aspectos metodológicos perante a construção do estado da arte; na terceira seção apresentamos as análises e discussão dos dados, e, por fim, apresentamos as considerações finais reiterando para o leitor a relevância deste trabalho.
ASPECTOS METODOLÓGICOS: A CONSTRUÇÃO DA REVISÃO E DA ANÁLISE
Para o alcance do objetivo previamente definido, optou-se neste estudo pela abordagem de pesquisa qualitativa do tipo estado da arte, tendo em vista a intencionalidade de investigar as teses e dissertações que produziram pesquisas sobre o Afrofuturismo na Educação, ancoradas em quaisquer perspectivas, campo de conhecimento ou método de pesquisa. Nesse sentido, visando à constituição do corpus da pesquisa foram escolhidas as seguintes bases de dados online e de domínio público: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
A escolha dessas duas bases de dados se justifica pela amplitude e relevância de seus acervos em relação à produção científica nas áreas de interesse. Ambas as plataformas desempenham um papel fundamental na disseminação do conhecimento acadêmico e científico no Brasil. A BDTD permite que pesquisadores publiquem e compartilhem suas teses e dissertações, enquanto o Portal de Periódicos da Capes oferece acesso a uma grande variedade de recursos para a comunidade acadêmica.
A Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) foi concebida e é mantida pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) no âmbito do Programa da Biblioteca Digital Brasileira (BDB), com apoio da Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep), tendo o seu lançamento oficial no final do ano de 2002. Trata-se de um sistema de publicação eletrônica de teses e dissertações que reúne 906.116 documentos, sendo 659.094 dissertações e 247.022 teses, provenientes de 140 instituições de ensino e pesquisa do Brasil (BDTD, 2024). Por outro lado, o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - Catálogo reúne as informações de teses e dissertações defendidas em programas de pós-graduação do Brasil, reunindo mais de 458.000 resumos de trabalhos de pós-graduação. O catálogo constitui uma ferramenta de busca e consulta que contém resumos de teses e dissertações defendidas a partir de 1987(Capes, 2024).
Protocolo para a pesquisa
Segundo Kitchenham e Charters (2007), conduzir uma revisão de literatura é uma modalidade de pesquisa secundária que emprega um protocolo estruturado para localizar, examinar e interpretar toda a pesquisa pertinente disponível relacionada a uma questão de pesquisa específica.
Sampaio e Mancini (2007) destacam que se trata de uma forma de pesquisa que utiliza a literatura acadêmica como fonte de dados, disponibilizando um “[...] resumo das evidências relacionadas a uma estratégia de intervenção específica, mediante a aplicação de métodos explícitos e sistematizados de busca, apreciação crítica e síntese da informação selecionada” (p. 84). Gusmão et al. (2022) reiteram que as revisões sistemáticas são úteis para fazer a integração das informações de um conjunto de estudos que foram realizados separadamente.
Em decorrência do rigor da pesquisa, Macedo, Galeffi e Pimentel (2009) destacam que este não pode ser compreendido como aquele critério que não é enrijecido pela tradição tecnicista, sendo necessário, conforme afirma Galeffi (2009), desenvolver um movimento de consistenciação da pesquisa qualitativa, “[...] de modo que seja possível revelar a sua serventia e a sua dinâmica gerativa no tecido vivo das relações existenciais societárias atuais” (p. 15).
A Figura 1, a seguir, apresenta os protocolos definidos e utilizados para o estado da arte.
As estratégias de busca
A busca das teses e dissertações foi realizada em dois momentos; no primeiro, fizemos uma pré-seleção dos trabalhos publicados no Portal Capes e na BDTD, e desde o primeiro trabalho até o último, baseados em seus títulos, resumos e palavras-chave, utilizamos strings de busca que facilitaram a identificação de pesquisas das mais diversas especificidades.
A seguir, organizamos o corpus da busca por teses e dissertações em uma tabela que dimensiona a pesquisa inicial, sem critérios de exclusão e duplicidade, apenas na concepção da inclusão através das strings e operadores booleanos de busca.
Tabela 1 Protocolo da pesquisa
| PROCEDIMENTOS DE BUSCA | CAPES | BDTD | TOTAL | MÉDIA |
|---|---|---|---|---|
| STRINGS | ||||
| “Afrofuturismo” | 37 | 23 | 60 | 60 trabalhos |
| “Afrofuturo” | 38 | 23 | 61 | |
| “Afrofu turista” | 36 | 23 | 59 | |
| TOTAL | 111 | 69 | 180 | |
|
OPERADORES BOOLEANOS Afrofuturismo AND Educação |
||||
| 6 | 5 | 11 | 11 trabalhos | |
| Afro futuro AND Educação | 6 | 5 | 11 | |
| Afrofuturista AND Educação | 6 | 5 | 11 | |
| TOTAL | 18 | 15 | 33 | |
| CONECTORES | ||||
| Afrofuturismo (+) Educação | 5 | 5 | 10 | 10 trabalhos |
| Afrofuturo (+) Educação | 5 | 5 | 10 | |
| Afrofuturista (+) Educação | 5 | 5 | 10 | |
| TOTAL | 15 | 15 | 30 | |
| 144 | 99 | 243 | ||
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.
Como podemos perceber, os trabalhos selecionados por meio dos procedimentos de busca identificaram 243 pesquisas, sendo 144 no Portal Capes e 99 na BDTD. Cabe destacar que os trabalhos selecionados nesta primeira fase podem estar enquadrados no requisito duplicidade, situação que, no processo de avaliação e seleção, será formalmente identificada pelos critérios e exclusão. Para uma melhor apuração dos dados, estabelecemos uma média ponderada mediante os strings e operadores de busca, chegando a 81 pesquisas, entre as quais 48 são do Portal Capes e 33 da BDTD. Após esta importante definição de parâmetro, avançamos para a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, visando apresentar um resultado apurado e com base em uma filtragem metodológica. A tabela 2 apresenta o resultado da filtragem primária, respeitando os procedimentos de busca, operadores e strings utilizados.
Análise dos estudos primários
De acordo Gusmão et al. (2022, p. 5), “[...] ademais, com o intuito de otimizar a análise de dados, utilizaremos a estrutura de sistematização de categorias a priori. Bardin (2016) afirma que a categorização tem o objetivo de classificar elementos de um conjunto por diferenciação, reagrupando-os com os critérios previamente definidos.
Portanto, a figura 2 a seguir apresenta a estratificação dos 52 trabalhos selecionados, separando-os pelas suas respectivas bases de dados e nível na pós-graduação, dissertações e teses.
A pré-análise se consistiu na organização dos dados por meio da leitura flutuante. Nesse estágio, estabeleceu-se o primeiro contato com os textos selecionados, formulando hipóteses, referenciando e elaborando indicadores, preparando-se para a análise posterior.
Apresentação dos estudos selecionados
Nesta fase, os 52 trabalhos incluídos foram analisados minuciosamente considerando seus títulos, resumos, palavras-chave e utilização do termo Afrofuturismo dentro da pesquisa, buscando compreender em qual viés o conceito desse movimento surge, assim como a sua relação com a Educação.
Como procedimento inicial, realizamos um trabalho de organização cruzada, para verificar trabalhos semelhantes selecionados nas duas plataformas, assim como trabalhos repetidos, duplicados e com acesso indisponível para usuários da rede de domínio público. Entre as teses, os 3 trabalhos disponíveis na BDTD também estavam disponíveis no Portal Capes, totalizando então 6 teses unificadas nas duas plataformas. No tocante às dissertações, os 12 trabalhos disponíveis na BDTD também estavam disponíveis no Portal Capes, totalizando então tivemos 31 dissertações unificadas nas duas plataformas. Partindo desta análise, trabalharemos com um constructo de 37 trabalhos selecionados definitivamente.
Dessa forma, o quadro 1 a seguir apresenta os resultados dos trabalhos selecionados a partir dos critérios, lógicas e métodos mais apropriados para que o objetivo deste artigo fosse alcançado. Para tanto, visando a uma melhor organização e padronização dos procedimentos, estabelecemos os seguintes códigos para diferenciar os trabalhos, sendo: T (teses) e D (dissertações), acrescidos de um numeral, que irá estabelecer a sequência dos trabalhos selecionados, ordenada por ordem cronológica e crescente, nome dos autores, ano, banco de dados, título e URL de acesso dos trabalhos.
Quadro 1 Trabalhos selecionados
| Cód. | Fonte | Instituição/Área | Título | Ano |
|---|---|---|---|---|
| TESES (6) | ||||
| T1 | CAPES | UFRJ/Artes visuais | Ações artísticas contra formas de sujeição: deslocamentos entre imagem, escrita e performance | 2016 |
| T2 | CAPES BDTD | UnB/Antropologia | São Paulo cidade negra: branquidade e afrofuturismo a partir de lutas por moradia | 2019 |
| T3 | CAPES BDTD | UFSC/Interdisciplinar | Cabelos crespos em movimento(s): infâncias, relações étnico-raciais e estética negra | 2020 |
| T4 | CAPES | UTFPR/Tecnologia e sociedade | Afrofuturismo: temporalidade, ancestralidade e tecnologia na construção de subjetividades negras | 2023 |
| T5 | CAPES | UNISUL/Ciência da linguagem | A estética Kirbyana no afrofuturismo: pontos de contato e divergência de identidade | 2023 |
| T6 | CAPES BDTD | UFRGS/Artes cênicas | AFROTEMPOS: criação, deslocamentos e produção de vida nas artes da cena | 2023 |
| DISSERTAÇÕES (31) | ||||
| D1 | CAPES BDTD | USP/Letras | Singular e plural: os vários ‘eus’ de Beleléu. uma análise da performance como linguagem nos primeiros discos de Itamar Assumpção | 2012 |
| D2 | CAPES | UEMG/Design | A força das imagens de Emory Douglas: o papel do design na construção de identidades negras | 2018 |
| D3 | CAPES BDTD | UnB/Letras (Literatura) | Afrofuturismo: o futuro ancestral na literatura brasileira contemporânea | 2019 |
| D4 | CAPES | UNEB/Linguagens | Com os pés voltados para a África: a literatura de Aline França | 2020 |
| D5 | CAPES BDTD | UFPA/Metodologias do ensino superior | Afrofuturismo na educação: criatividade e inovação para discutir a diversidade étnico-racial | 2020 |
| D6 | CAPES BDTD | UFMS/Estudos culturais |
Fim do mundo ou afrofuturo?: Um estudo sobre as contranarrativas do afrofuturismo e do afropessimismo | 2021 |
| D7 | CAPES | UNIRIO/Música | O som afrofuturista: elaboração da ficção sônica Impactitos por Disco Duro | 2021 |
| D8 | CAPES BDTD | UNISINOS/Design | Design estratégico e afrofuturismo na busca por uma moda decolonial sustentável | 2021 |
| D9 | CAPES | UNESPAR/Cinema e vídeo | Ficção especulativa no cinema negro brasileiro: a estética afrofuturista em curtas-metragens | 2021 |
| D10 | CAPES BDTD | PUCSP/Linguagens | Delirando o presente: o éthos discurso em canções afrodiaspóricas - perspectiva afrofuturista | 2021 |
| D11 | CAPES | UNIFESSPA/Letras (Estudos comparados) | Uma viagem no tempo afrofuturista: (re)formulando caminhos narrativos em Kindred - Laços de Sangue | 2021 |
| D12 | CAPES | UERJ/Psicologia | Grupo de atendimento COM-POR pessoas negras: o afrofuturismo em ação | 2022 |
| D13 | CAPES | UFF/Cultura e território | Mulheres pensando afrofuturos: fabulações, movimentos e sentidos | 2022 |
| D14 | CAPES BDTD | PUCRS/Letras (Literatura) |
Distorções e reescritas: o afrofuturismo e a ficção científica distópica em A Parábola do Semeador, de Octavia Butler |
2022 |
| D15 | CAPES BDTD | UFBA/Comunicação | Wakanda Forever: reinvindicações de afrofuturos em torno do Pantera Negra Chadwick Boseman | 2022 |
| D16 | CAPES | UFOP/Direito | Do afropessimismo ao afrofuturismo: a antihumanidade do trabalhador preto e o pressuposto empregatício da pessoalidade | 2022 |
| D17 | CAPES BDTD | UnB/Letras (Tradução) | Encarando a humanidade na obra de Octavia Butler: a tradução crítica do conto “Childfinder” | 2022 |
| D18 | CAPES BDTD | UFBA/Arquitetura e urbanismo | Sankofa: retomada aos vestígios da paisagem de Itapuã |
2022 |
| D19 | CAPES BDTD | UFF/Comunicação | De rolé na night carioca: R&B, Geração Tombamento e as festas da juventude preta do Rio de Janeiro | 2022 |
| D20 | CAPES | UNEB/Estudo de linguagens |
Daqui e de lá: afrofuturando em escrevivências: memórias e trajetos de um encontro entre Brasil e África do Sul |
2022 |
| D21 | CAPES | UFMG/Artes | Teatro afrofuturista: uma possibilidade de teatro negro | 2023 |
| D22 | CAPES | UERJ/Ensino (Biologia) |
Relações étnico-raciais em histórias em quadrinho afrofuturistas: contribuições para o ensino de ciências | 2023 |
| D23 | CAPES BDTD | UFRGS/Comunicação | Imaginário e afrofuturismo: imagens simbólicas do negro no futuro através de Pantera Negra | 2023 |
| D24 | CAPES | Anhembi Morumbi/Design | Design na encruzilhada: o afrofuturismo enquanto sugestão de um design de futuro | 2023 |
| D25 | CAPES | UFS/Antropologia | Afrofuturismo na encruzilhada: usos e sentidos de tecnologias ancestrais diaspóricas | 2023 |
| D26 | CAPES | UFF/Comunicação | Passado, presente, afrofuturo: novas narrativas imagéticas através do canal Trace Brasil | 2023 |
| D27 | CAPES | UnB/Letras (Literatura) | Da ancestralidade ao afrofuturismo: movimento de Sankofa nas obras literárias de escritoras afrobrasileiras | 2023 |
| D28 | CAPES | FIOCRUZ/Divulgação científica | Divulgando as ciências em perspectiva africana: o conto “Era afrofuturista” enquanto potência epistêmica | 2023 |
| D29 | CAPES | UFRB/Divulgação científica |
Afrofuturismo, filosofia e ensino de ciências: reflexões para o debate sobre o ensino das relações étnico-raciais | 2023 |
| D30 | CAPES | UFTPR/Tecnologia e sociedade | O olhar opositor negro: estratégias afrofuturistas nas colagens digitais de Karina Duarte e Jesso Alves | 2023 |
| D31 | CAPES | UnB/Artes visuais | A narrativa como farol: educação sob a perspectiva decolonial, antirracista e intercultural em trajetórias de professores de artes na SEDF | 2023 |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.
Categoria e unidades de registro
Após realizar os procedimentos de exploração e apropriação de todo o material, nos debruçamos sobre o que Bardin (2016) denomina “etapas de codificação e categorização” do conteúdo selecionado, buscando otimizar a quantidade de dados produzidos, permitindo uma análise posterior. Romanowski et al. (2006) destacam a importância do momento da categorização, ato que possibilita examinar as ênfases e temas abordados nas pesquisas; os referenciais teóricos que subsidiaram as investigações; a relação entre o pesquisador e a prática pedagógica; as sugestões e proposições apresentadas pelos pesquisadores; as contribuições da pesquisa para mudança e inovações da prática pedagógica; a contribuição dos professores/pesquisadores na definição das tendências do campo de formação de professores. Esses estudos não se limitam a identificar a produção, mas também trata de analisá-la, categorizá-la e de expor as diversas abordagens e perspectivas.
No processo de categorização, é importante destacar a importância da leitura atenta do resumo, para assim realizar as devidas buscas no corpus do trabalho. De acordo com Ferreira (2002), o que temos, então, ao assumirmos os resumos das dissertações e teses presentes nos catálogos como lugar de consulta e de pesquisa, é que, sob aparente homogeneidade, há grande heterogeneidade entre eles (os resumos), explicável não só pelas representações diferentes que cada autor do resumo tem desse gênero discursivo, mas também por diferenças resultantes do confronto dessas representações com algumas características peculiares da situação comunicacional, como alterações no suporte material, regras das entidades responsáveis pela divulgação daquele resumo, entre outras várias.
Porém, durante a leitura, outros componentes foram sendo validados para podermos perceber a pluralidade de formas em que o afrofuturismo tem sido divulgado cientificamente, trazendo para as categorias as universidades, território e área de conhecimento. De acordo com a tabela 3, apresentamos as palavras categorizadas que funcionaram como chave de busca e organização dos trabalhos.
Tabela 3 Palavras-chave de busca
| CATEGORIA | UNIDADES DE REGISTRO (palavras) |
|---|---|
| Afrofuturismo | |
| Referencial | Afrofuturo |
| temático ou metodológico | Afrofuturista |
| AfroFuturo |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.

Fonte: Elaborado pelos autores com imagem criada pela IA Copilot, 2024.
Figura 4 Nuvem de palavras dos trabalhos
A partir dos procedimentos de categorização por palavras, foram observadas outras variáveis capazes de dialogar com o panorama sobre o qual a pesquisa se debruça. Vejamos na figura 5 como as palavras categorizadas aparecem nos trabalhos selecionados, partindo da análise do título do trabalho.
Dos 37 trabalhos selecionados, 29 destacam as palavras categorizadas no título. Vejamos agora como essas palavras aparecem no resumo dos trabalhos.
No que concerne à presença das palavras categorizadas que aparecem no RESUMO, há 29 destaques nas dissertações e 5 nas teses, expressando a preocupação dos pesquisadores em destacar essas palavras, afirmando a importância da contribuição do tema para a pesquisa, permitindo o seu maior alcance nos processos de busca por assuntos correspondentes ou semelhantes, visto que, de acordo com Bakhtin (1997), cada resumo é lido pelos elementos que o constituem (conteúdo temático, estilo verbal e estrutura composicional), fundidos no todo que é o enunciado.
A seguir a figura 7 apresenta a categorização através das palavras-chaves.
Conforme Borba et al. (2012), a palavra-chave é definida como aquela atribuída pelo autor, utilizando unidades lexicais livres para resumir o conteúdo temático do texto. É incontestável que o autor detém, sobre o texto, o controle informacional decorrente do processo de criação.
Nessa perspectiva, entende-se que a palavra-chave deveria ser um termo da área de conhecimento da qual o autor trata. Portanto, seria uma unidade tanto de representação como de recuperação da informação. Diante dessas considerações, o objetivo da discussão é explorar a capacidade da representação documentária do conteúdo textual para que possa ser recuperado por um leitor cuja busca por informação esteja alinhada ao tema representado pela palavra-chave.
Análise e discussão dos dados
De acordo com Gusmão et al. (2022), na fase de tratamento dos resultados obtidos e da interpretação, os dados brutos “[...] são tratados de maneira a serem significativos (falantes) e válidos [...] permitem estabelecer quadros de resultados, diagramas, figuras e modelos, os quais condensam e põem em relevo as informações fornecidas pela análise” (Bardin, 2016, p. 131). Nesta fase, o pesquisador pode propor inferências e efetuar interpretações a respeito dos objetivos propostos.
Como objetivo central deste trabalho, buscamos compreender como o tema Afrofuturismo e suas variáveis estavam sendo divulgados cientificamente na rede, utilizando duas bases de dados para realizar a pesquisa, o Portal Capes e a BDTD. No início do processo, debruçamo-nos sobre a procura pelo termo nos títulos, porém, ao acessar o trabalho, verificamos em muitos deles que o debate sobre o Afrofuturismo não se encontrava como campo temático ou referencial teórico.
A partir desse posicionamento, realizamos os seguintes movimentos:
Realizar a busca livre com o termo Afrofuturismo.
Adicionar na busca as variáveis do termo que foram se apresentando na pesquisa, como Afrofuturo, Afrofuturista e Afro Futuro.
Sistematizar as informações apresentadas em uma planilha com as seguintes categorias: ano, instituição, autor, orientador, título, palavras-chave, área de concentração, nível e URL.
Após a sistematização, iniciamos a leitura flutuante buscando os pontos fundamentais para organização dos critérios de inclusão e exclusão.
Com os critérios estabelecidos, propomo-nos a realizar a pesquisa exploratória e sensível em cada trabalho, buscando compreender a sua temática a partir da sua área de concentração.
Com os campos de análise cumpridos, iniciamos a separação dos trabalhos que de alguma forma estivessem tratando a pesquisa pelo viés do ensino.
E, para finalizar, separamos os trabalhos que dialogam diretamente com a Educação.
Todos os trabalhos selecionados apresentam as palavras categorizadas em seu corpus de pesquisa, porém cada um se apropria do Afrofuturismo para debater as mais diversas condições sociais que afetam a sua área de conhecimento. Vejamos na figura 8 a seguir as áreas de maior concentração de trabalhos e a sua exímia pluralidade.
No tocante à área de concentração dos trabalhos, podemos perceber a grande pluralidade com a qual o termo do Afrofuturismo tem sido trabalhado, em especial nas Letras, visto que a grande difusão de escritores cuja literatura é intitulada Afrofuturista, como Octavia Butler, Samuel R. Delany, Alê Santos, Fábio Kabral, Kênia Freitas, Sandra Menezes, Lu Ain-Zala, e destaque para um dos autores da Dissertação D3, defendida em 2019 na UnB por Waldson Gomes de Souza que se tornou um escritor afrofuturista, com obras publicadas na área.
Vejamos que o Afrofuturismo também habita a área das artes, pois de acordo com seu conceito firmada em 1994, trata-se então de um movimento artístico, filosófico e cultural, baseado na estética de arte africana e da diáspora africana, cujo objetivo é criar possibilidades para o futuro negro, sempre sobre uma perspectiva afrocentrada, que iremos desenvolver um pensar ciber, afrofuturista, afrocentrado e que a utopia seja um manifesto de liberdade.
No início dos anos 1990, o crítico cultural Mark Dery reuniu entrevistas com Samuel R. Delany, Greg Tate e Tricia Rose em texto intitulado Black to the future [negro para o futuro], presente no livro Flame wars: the discourse of cyberculture [Guerras de chama: o discurso da cibercultura] (1994). Na apresentação dessas entrevistas, Dery se questiona por que existem poucos autores negros de ficção científica já que o gênero constantemente aborda diferença, preconceito, o contato com o outro e diversos temas que são questões vividas por pessoas negras. Pensando em nomes como Samuel R. Delany, Octavia E. Butler, Steve Barnes e Charles Saunders, Mak Dery chamou de afrofuturismo a produção desses autores e definiu o termo como “[...] ficção especulativa 1que trata temas sobre afro-americanos e aborda preocupações de afro-americanos no contexto da tecnocultura do século XX” (Dery, 1994, p. 180). Essas entrevistas são fundantes para traçar genealogias de narrativas especulativas negras em diversos campos, porém uma corrente do movimento negro e Afrofuturista tem construído epistemologicamente o conceito de Afrofuturismo, movimento criado por pessoas pretas e que existe anteriomente a 1990, tendo sua base de formação constituída pelo músico norte-Americano Sun Ra, considerado o pioneiro do Afrofuturismo.
O afrofuturismo é um movimento cultural que combina elementos da cultura africana, ficção científica e futurismo. Um dos pioneiros desse movimento foi o compositor de jazz, poeta e filósofo cósmico Herman Poole Blount, mais conhecido como Sun Ra. Nascido no Alabama (EUA) em 1914, Sun Ra mudou-se para Chicago em 1950 e liderou a vanguarda do jazz, desafiando tanto os puristas quanto os modernistas do bebop. Sua música era marcada por um experimentalismo inovador para a época. Como Sun Ra, ele afirmava ser um enviado de Saturno com a missão de promover a paz social. Além de sua qualidade musical, suas apresentações eram conhecidas pelo visual afro-psicodélico das roupas dos integrantes da The Arkestra, uma big band que chegou a reunir 30 músicos, e pelos cenários decorados com fotos de pirâmides e planetas. Após sua morte em 1993, a banda foi renomeada como The Sun Ra Arkestra e continuou a se apresentar globalmente, inclusive no Brasil, no Festival de Jazz do SESC-SP em 2019. Para conhecer mais sobre a estética de seu trabalho, recomendo assistir ao trailer do filme “The Space is the Place” de Sun Ra.
De acordo com Kênia Freitas e José Messias (2018), pesquisadores afrofuturistas brasileiros, nesses pouco mais de 20 anos de existência, o afrofuturismo passou por uma série de redefinições, sobretudo no sentido de ampliar o pensamento do universo cultural restrito aos negros dos EUA para um pensamento negro africano e diaspórico mundial. Uma revisão inicial para o conceito não ocorre em um texto, mas sim no documentário ensaístico Last angel of history2 (John Akomfrah, 1996).
Compreendemos então que o conceito e toda a sua dimensão artística e cultural aos poucos vem se destacando entre as mais diversas áreas de conhecimento, e, para atingir o objetivo deste trabalho, nosso foco está compreender a dinâmica do conceito dentro do campo da Educação, em especial no ensino.
Durante a análise dos trabalhos, a dissertação D12 encontrada no campo da Psicologia, da autora Loise Lorena do Nascimento, defendida em 2022 na Uerj, visava debater e acompanhar os efeitos produzidos nos encontros do dispositivo COM-POR, como prática de cuidado e produção de vida entre pessoas negras como ação afrofuturista. Surpreendentemente, no campo do Direito tivemos a dissertação D16, de Marco Tulio Corraide, defendida em 2022 na Ufop, que versa sobre o Direito do Trabalho, especificamente no elemento fático-jurídico da pessoalidade da relação de emprego, lidando com os corpos negros e suas atividades laborais, considerando principalmente as chaves de leitura da decolonialidade, do afropessimismo e do afrofuturismo, que denunciam, em uma perspectiva crítico-ontológica, a não humanidade desses corpos para o Direito. Assim como a dissertação D18, de Gustavo Sena de Almeida Santiago, defendida em 2022 na UFBA junto ao curso de Arquitetura e Urbanismo, cuja proposta foi discutir o território de Itapuã, bairro de Salvador/BA, que foi atravessado pelas práticas cotidianas herdadas da população indígena e negra que habitaram o local em períodos anteriores e que vêm sendo reformuladas por seus descendentes ao longo dos tempos. Trata-se de um trabalho que pensou a arquitetura a partir dos princípios das Ficções Visionárias e das Afrofabulações.
Entre as nossas análises pudemos constatar a evolução ascendente de dissertações e teses dentro da cena do Afrofuturismo, ou seja, um crescimento na produção que permite o avanço e a divulgação científica do tema. Porém o maior destaque encontra-se na divergência da produção entre dissertações e teses, como pode ser observado na figura.
Podemos perceber uma evolução dos trabalhos produzidos nos últimos 4 anos dentro do Mestrado, quando houve um salto de 6 produções em 2021 para 11 produções em 2022, o que nos permite compreender que a porta de entrada para o tema está nas dissertações. A epistemologia desenvolvida a partir do Afrofuturismo está interessando a jovens pesquisadores, que entram na universidade para discutir temas contemporâneos que se relacionam com as suas histórias de vida e formação, conforme se verifica nas dissertações D2, D3, D4, D5, D6, D8, D9, D12, D13, D16, D18, D19, D20, D21, D22, D23, D24, D26, D28, D29 e D31. Francelin (2018) destaca que, quando se fala em novas epistemologias, o interesse está em ultrapassar fronteiras disciplinares, em subverter metodologias e em tornar os paradoxos evidentes. O conhecimento filosófico-científico avançou até o momento devido à manutenção de suas motivações e interesses intrínsecos.
Porém, no campo das teses, documentos produzidos a partir do doutorado, torna-se evidente uma ausência da continuidade nas pesquisas, um ponto que precisa ser analisado a partir de várias óticas sociais, que envolvem a quantidade de vagas, vagas por cotas, inexistência de bolsas, acesso às bolsas da pós-graduação, incentivos financeiros, acesso à universidade, permanência no programa por muito tempo sem investimentos, ausência de recursos financeiros e econômicos para a continuidade do processo de formação na pós-graduação, ausência de fatores motivacionais, ruptura na relação com a pesquisa, mercado de trabalho, sustentabilidade, entre outros fatores que impedem que alunos de pós-graduação permaneçam nos programas, o que acaba minando a continuidade de pesquisas tão singulares e importantes para a ciência brasileira.
Em uma escala de mais de 10 anos, de acordo com esta pesquisa, apenas no ano de 2016 tivemos a primeira tese T1, Ações artísticas contra formas de sujeição: deslocamentos entre imagem, escrita e performance, defendida por Ana Luiza Ferreira Hupe no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRJ. Foi o primeiro trabalho, um ensaio para pensar o encantamento com o afrofuturismo visando (des)esteriotipar a África como lugar do precário, em que as sujeições identitárias escravizantes se pulverizam no ar.
Através de um texto reflexivo, a autora atribui ao Afrofuturismo a noção de ferramenta filosófica e não movimento cultural, nos permite também compreender o contexto de formação na época da construção do texto. O afrofuturismo no ano de 2016 se perpetuava timidamente por meio das professora Lu Ain-Zala, escritora afrofuturista, uma das protagonistas e pioneiras do movimento no Brasil, hoje mestranda em Letras pela PUC/Rio, e Kênia Freitas, cientista das visualidades e hoje professora da Universidade Federal de Sergipe. No mesmo espaço temporal, tínhamos o escritor afrofuturista Fábio Cabral da Silva, que assina suas obras como Fábio Kabral, que desde 1996 atua na produção de ficção científica especulativa, porém só em 2014 pôde publicou seu primeiro livro, denominado Ritos de passagem, que conta a história de Gulungo, um guerreiro que se torna escravo e se apaixona por Kinemara, princesa de uma linhagem de feiticeiras.
Então, pensando na contextualização e no tempo histórico do ano de 2016, em que tínhamos pouco acesso ao Afrofuturismo, o trabalho T1 surge como algo inovador. Embora a autora não tenha inserido o Afrofuturismo no título ou no resumo de sua tese, ele é discutido como destaque nesse trabalho acadêmico.
Em seguimento às análises, nos deparamos com a questão onde o Afrofuturismo tem sido debatido dentro do campo científico no Brasil. E as respostas são apresentadas na figura 10.
Em uma análise com base no gráfico anterior em que a maior parte das pesquisas/publicações foi realizada em universidades da região Sudeste, mas que, entre os 37 trabalhos analisados, a Universidade de Brasília (UnB), localizada no Distrito Federal, região Centro-Oeste do país, reuniu mais pesquisas/publicações sobre o Afrofuturismo, sendo 4 dissertações (D3, D17, D27 e D31) e uma tese (T2). No conjunto de publicações referentes às teses, a região Sul teve o maior número de publicações, totalizando 4 trabalhos (T3, T4, T5 e T6).
Nesse sentido, percebemos a importância da geografia das redes de colaboração científica (Sidone, 2016) e o quanto é importante que a produção de trabalhos sobre Afrofuturismo não esteja estereotipada na região Nordeste, especificamente na Bahia. Sidone et al. (2016), em seu texto “A ciência nas regiões brasileiras: evolução da produção e das redes de colaboração científica”, destacam que, no Brasil, também se verifica enorme heterogeneidade espacial das atividades de pesquisa científica, onde o padrão regional da distribuição das publicações e dos pesquisadores é altamente concentrado na região Sudeste, com destaque às capitais dos estados, conforme mostra o gráfico da figura 9. Como exemplo, a cidade de São Paulo concentra cerca de 20% da produção científica brasileira e cresceu 21 posições na lista das cidades de maior geração de conhecimento no mundo durante a última década [informação de 2016].
Pensando sobre a necessidade de termos uma geografia de redes de produção científica, incentivadas por políticas públicas e incentivos aos cientistas, que analisamos informações disponíveis no Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG 2024-2028). De acordo com o PNPG (2024-2028), a distribuição territorial do corpo discente mantém o padrão histórico de concentração de discentes da pós-graduação nas regiões Sudeste e Sul, sendo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul os estados de maior expressão, e novamente os dados apresentados na figura 9 retratam essa realidade. São Paulo concentra 30% do total nacional, enquanto o Rio de Janeiro apresenta um percentual de 15%, Minas Gerais 9% e o Rio Grande do Sul 10%. A região Norte apresenta os quantitativos mais baixos. Entre os dez estados com menor participação de discentes, os cinco primeiros são da região norte (RR, AP, AC, RO, TO), sendo Roraima e Amapá os estados com menor percentual de discentes em relação ao total nacional, com 0,2% cada.
O plano também apresenta um importante panorama sobre as produções, o que corrobora a proposta deste trabalho, em que a participação de discentes de pós-graduação em produções científicas, no ano de 2022, totalizou 29.885 alunos que participaram da elaboração de 61.343 produções da pós-graduação. A maior participação registrada foi em trabalhos em anais (46%), seguida por artigo em periódico (24%) e apresentação de trabalho (15%), de um total de 24 tipos de produção.
Esses dados nos permitem pensar sobre algumas questões já mencionadas neste trabalho, que envolvem desde a construção de políticas de acesso e permanência a alunos da pós-graduação, assim como incentivos que permitam a esses discentes continuarem estudando em um mestrado com uma média de 2 anos de duração ou o doutorado, que chega a 4 anos de estudos. Portanto, quando nos propomos a pensar nas produções do Afrofuturismo dentro das universidades, com base nas dissertações e teses, nosso objetivo era justamente poder traçar este panorama da situação das produções do tema, bem como articular as demandas na produção e divulgação da ciência no Brasil. De acordo com dados levantados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes/MEC, 2021), o Brasil tem 122.295 estudantes de pós-graduação, dos quais 76.323 são de mestrado acadêmico, 4.008 de mestrado profissional e 41.964 de doutorado. Como parte do constructo principal deste trabalho, ao analisar como os trabalhos sobre Afrofuturismo estão sendo publicados na relação com o ensino, sendo este de qualquer categoria ou área de conhecimento, assim como na sua relação com a Educação em um contexto mais amplo, pudemos perceber que se trata ainda de uma área em expansão, com poucos trabalhos publicados, mais especificamente 5 dissertações e 1 tese.
Quadro 2 Afrofuturismo e Educação
| Cód. | Fonte | Instituição/Área | Título | Ano |
|---|---|---|---|---|
| TESE (1) | ||||
| T3 | CAPES BDTD | UFSC/Interdisciplinar | Cabelos crespos em movimento(s): infâncias, relações étnico-raciais e estética negra | 2020 |
| DISSERTAÇÕES (5) | ||||
| D5 | CAPES BDTD | UFPA/Metodologias do ensino superior | Afrofuturismo na Educação: criatividade e inovação para discutir a diversidade étnico-racial | 2020 |
| D22 | CAPES | UERJ/Ensino (Biologia) |
Relações étnico-raciais em histórias em quadrinho afrofuturistas: contribuições para o ensino de ciências | 2023 |
| D28 | CAPES | FIOCRUZ/Divulgação científica | Divulgando as ciências em perspectiva africana: o conto “Era afrofuturista” enquanto potência epistêmica | 2023 |
| D29 | CAPES | UFRB/Divulgação científica |
Afrofuturismo, filosofia e ensino de ciências: reflexões para o debate sobre o ensino das relações étnico-raciais | 2023 |
| D31 | CAPES | UnB/Artes Visuais | A narrativa como farol: educação sob a perspectiva decolonial, antirracista e intercultural em trajetórias de professores de artes na SEDF | 2023 |
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.
Entre os trabalhos selecionados, a tese T3, produzida por Maylla Monnik Rodrigues de Sousa Chaveiro e defendida em 2020 na UFSC, tem como objetivo pensar perspectivas interdisciplinares embasadas em epistemologias decoloniais e antirracistas, bem como no campo de estudos acerca da infância. Trata-se, portanto, de um letramento antirracista, cujo movimento epistemológico para a produção dessas práticas é o Afrofuturismo.
Dentre as dissertações (D22, D28, D29 e D31), a concepção para pensar o Afrofuturismo como campo de pesquisa e fonte para promoção de uma educação antirracista é atravessada pelas formas de ensino, como acontece na D22, dissertação de Luciano Calixto de Sousa Junior defendida em 2023 na UERJ, cuja proposta foi trabalhar com histórias em quadrinhos (HQs), compreendendo essa linguagem como um recurso eficiente de incentivo à leitura, além de um importante auxiliar no ensino de ciências. O Afrofuturismo aparece no trabalho como um elemento da literatura de ficção científica e afrofuturista Wakanda: A História dos Panteras Negras.
A dissertação D29, da autoria de Esdras Oliveira de Souza e defendida em 2023 na UFRB junto ao Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica, versa sobre o Afrofuturismo e como este pode ser utilizado como dispositivo eficaz para a promoção da educação das relações étnico-raciais no contexto do ensino de ciências. Mas vejamos que as dissertações D22, D28, D29 e D31 não são frutos de programas de pós-graduação em Educação. Entre as dissertações selecionadas, destaca-se a D5, produzida por Helena do Socorro Campos da Rocha, orientada pela professora Cristina Lucia Dias Vaz em um Mestrado Profissional, tendo sido defendida em 2020 na UFPA junto ao Programa de Pós-Graduação em Criatividade e Inovação em Metodologias de Ensino Superior. Esse trabalho é o único que apresenta em seu título a sua proposta de pesquisa - “Afrofuturismo na Educação” -, mesmo tendo sido produzido em outro campo de conhecimento. A referida dissertação, em nossa análise, protagoniza e inaugura o debate sobre práticas educativas com o Afrofuturismo.
Trata-se, portanto, de trabalho inovador, cuja autora deu prosseguimento à sua pesquisa no Doutorado, trabalhando o Afrofuturismo na Formação de Professores, e em breve teremos uma tese com articulação teórica, temática e epistemológica com o Afrofuturismo. Portanto, após todo este estudo, podemos destacar que nenhum programa de pós-graduação em Educação possui no Brasil uma dissertação ou tese que discuta a relação do Afrofuturismo com a Educação e, portanto, me cabe destacar o ineditismo dos autores em continuar o desenvolvimento da pesquisa junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc/UFRRJ) com apoio da Capes, que irá compor a tese provisoriamente intitulada “CiberAfrofuturismo: experiências docentes antirracistas na Pedagogia Universitária e na Cidade”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estado da arte desenvolvido nesta pesquisa teve como objetivo investigar as teses e dissertações disponíveis no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - Catálogo de Teses e Dissertações e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), tendo em vista a construção de trabalhos que estabelecessem uma relação entre o Afrofuturismo e a Educação, buscando construir um painel de pesquisas, categorizando o ano, a plataforma, a instituição, o título, as palavras-chave, a área de concentração e a URL. Além disso, buscamos identificar lacunas, falhas e abordagens ausentes ou insuficientemente debatidas, com o intuito de contribuir para estudos futuros.
É importante salientar que realizar uma pesquisa sobre Afrofuturismo é notório e inédito do ponto de vista acadêmico, cultural e social. Do ponto de vista acadêmico, o estudo do desse tema permite compreender as relações entre ficção especulativa, cultura popular e questões raciais, culturais e políticas, contribuindo para o desenvolvimento de novas teorias e metodologias para o estudo de narrativas afrofuturistas e para a compreensão de como as questões de raça e etnia são representadas. A partir da perspectiva cultural, busca-se o reconhecimento e a valorização das contribuições da comunidade negra na produção de narrativas especulativas e na cultura popular em geral, cujo propósito é compreender como as narrativas afrofuturistas influenciaram as mais diversas áreas de conhecimento, conforme podemos perceber neste trabalho, destacando-se na literatura, música, cinema, artes visuais e outras formas de arte e cultura popular.
Portanto, pontuamos que este trabalho compõe um conjunto de publicações que será realizado durante o doutorado do autor 1, quando será construído um trabalho fundamentado na elaboração de uma tese multipaper, que, de acordo com Frank e Yukihara (2013), se trata da elaboração de um trabalho a partir de um conjunto de artigos científicos. Para tanto, buscamos apresentar o ineditismo na concepção da pesquisa sobre Afrofuturismo na Educação, dentro de um programa de pós-graduação em educação na UFRRJ, nos tornando assim um dos trabalhos pioneiros no debate em questão no país.























