INTRODUÇÃO
Uma educação democrática e de qualidade é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. O Brasil não tem sido capaz de promover o acesso e a permanência de importante parcela da população na escola, principalmente aquela de menor poder aquisitivo, evidenciado pelas taxas de analfabetismo na faixa de 15 anos ou mais: 1990 (65%,3), 1940 (56,1%), 1960 (39,7%), 1980 (25,9%), 2000 (13,6%) (Brasil, 2021) e 2022 (5,6%) (IBGE, 2023). Essa exclusão tem impactado diretamente na participação e consciência política da maior parte da população brasileira, oprimida pelas classes dominantes, desde a ocupação destas terras pelos portugueses.
No período de 1964 a 1985 o país viveu uma ditadura militar que gerou mudanças em todos os setores da sociedade, incluindo as políticas públicas educacionais. Sob a égide dos governos militares, várias reformas foram implementadas com o objetivo de atender os interesses das elites em detrimento dos interesses e necessidades dos subalternos. Para tanto, estabeleceu-se um aparelho ideológico capaz de manter a ordem vigente e evitar qualquer tipo de contestação.
Conforme resumo, este artigo se propõe analisar o material didático “Integração Social” da matéria integração social da 1ª fase do ensino supletivo de 1º grau, 2ª a 4ª séries do MOBRAL, instituído pela Lei n. 5.379/1967 (Brasil, 1967), à luz, principalmente, da teoria política gramsciana e de outros autores.
O MOBRAL E SEUS DESDOBRAMENTOS
Dentre os instrumentos de dominação adotados pelo regime militar, verifica-se a promulgação da Lei n. 5.692/71, regulamentada pela resolução n. 8/1971 e Parecer n. 853/71, que fixou o núcleo-comum para os currículos do 1º e 2º graus, sendo: comunicação e expressão (língua portuguesa); estudos sociais (geografia, história e organização social e política do brasil) e ciências (matemática e as ciências físicas e biológicas) (Brasil, 1971a, b).
Importante esclarecer que o cenário político, entre o final do ano de 1963 e o início do ano de 1964, caracterizou-se pela constante ameaça de golpes e contragolpes, com a intensa mobilização de grupos políticos, militares e conservadores (Germano, 2011). Nessa atmosfera, ocorre em 1º de março de 1964 a efetivação do golpe contra o presidente João Goulart, comandada por grupos poderosos e insatisfeitos com os rumos do governo de Jango, culminando na instauração de um governo ditatorial que perduraria de 1964 a 1985.
Com a instauração da ditadura militar, todos os setores da sociedade passam a ser controlados pelos grupos que tomam o poder, inclusive, obviamente, a educação, visto que, segundo Paiva (1973, p. 259), a alfabetização de adultos, combinada à organização das políticas para as massas, promovida a partir de 1960, apresentava-se como uma ameaça aos grupos direitistas, um perigo para a estabilidade do regime e a preservação da ordem capitalista, além de “[...] provocar uma reação popular importante a qualquer tentativa mais tardia de golpes das forças conservadoras”. Assim, os projetos de educação popular que existiam foram proibidos, dando lugar a uma política educacional oposta aos preceitos de uma educação emancipadora.
Com base no pensamento gramsciano, de acordo com Liguori (2017) é possível verificar que o governo da ditadura militar no Brasil passou a difundir novas concepções, divergentes das anteriores ao golpe, nas quais os elementos de autoridade e organização eram muito importantes, segundo revelou Paiva (2015) sobre a história da educação de jovens e adultos e o MOBRAL.
Para Paiva (2015), a história da educação dos adultos no Brasil nos anos de 1970 ficou marcada pela atuação do MOBRAL, criado pela Lei n. 5.379, de 15 de dezembro de 1967 (Brasil, 1967), como o organismo executor de uma campanha de alfabetização em massa. Para Paiva (1973), o projeto de educação do governo militar se deu praticamente com a Cruzada do ABC e do MOBRAL, propriamente dito (Paiva, 1973).
Quanto à legitimação de um regime perante a sociedade, Coutinho (1981) esclarece que a classe dirigente passa a ser unicamente dominante e detentora da pura força coercitiva, quando ocorre a não crença das massas populares, em relação àquilo em que antes acreditavam. De acordo com Paiva (2015), o período pós-1964 é marcado por um forte preconceito contra o analfabeto, por uma visão economicista da educação, pelo uso da educação como instrumento de sedimentação do poder político e das estruturas socioeconômicas, corroborando Coutinho (1981) e coadunando com Gramsci (1991, 2001), sobre a relação entre a classe dominante e a classe dominada na sociedade capitalista.
Sustentada nessa concepção de educação tecnicista e alienante, Gramsci (2001) aponta que a civilização moderna se tornou tão complexa, que cada atividade prática passou a exigir a criação de uma escola de nível mais elevado para os próprios dirigentes e especialistas e outra escola para a formação de mão de obra, formando uma tendência que perpetua a relação de dominação sobre os subalternos.
Sobre essa questão, Paiva (1973, 2015) e Saviani (2013) acrescentam que a adoção do modelo econômico associado-dependente, com forte presença do capital estrangeiro, refletiu na política educacional, cuja demanda e preparação de mão de obra para as empresas multinacionais e a ideia de produtividade no sistema escolar culminaram no modelo educacional adotado pelos governos militares - reconhecido por “pedagogia tecnicista”, corroborando Gramsci (1999, 2001) ao denunciar a existência de dois tipos de educação.
Aliado ao modelo economicista de educação, elevava-se o preconceito contra o analfabeto, explicitado no discurso do então Ministro Muniz de Aragão, em 1966, bem como de outros tecnocratas do governo militar, ao afirmarem que os analfabetos eram cidadãos incultos, ignorantes, perigosos e intelectualmente incapazes de servir à comunidade e ao país, em um claro intento de culpar os esquecidos do país pelo atraso e pelo entrave ao seu desenvolvimento e progresso (Paiva, 1973). Nos bastidores, o objetivo era o uso da educação como instrumento ideológico, “[...] a sedimentação do poder político e das estruturas da sociedade, à segurança interna do regime” (Paiva, 1973, p. 267), corroborando Gramsci (2001, 2020).
Vencia, assim, a visão economicista de educação, confirmada por Corrêa (1979), representante dos militares e ex-diretor da Fundação MOBRAL, ao afirmar que no período entre 1965 e 1967 ocorreu a evolução econômica. Focou-se, assim, em uma educação com todas as suas implicações no processo de desenvolvimento material da sociedade brasileira, usando metodologias herdadas da área econômica, buscando, segundo seus idealizadores, desmascarar mitos e eliminar os obstáculos à modernização.
Para alcançar os objetivos políticos lançou-se mão de várias reformas educacionais, dentre elas a instituição das matérias integração social e estudos sociais, em substituição à geografia e a história. Para Issler (1971, p. 288), a Lei n. 5.692/71 “[...] suprimiu as antigas ‘matérias’ ao longo do currículo” e gerou uma consequente “fusão dos conteúdos dessas três matérias” (p. 288), coadunando com Höffling (1981, p. 238) ao denunciar que o regime almejava “[...] cidadãos comportados, acostumados a obedecer e a desempenhar estritamente o ‘papel que lhes coube’ na estrutura social [...]”, na manutenção da ordem vigente (Gramsci, 1999, 2001).
A partir de então, segundo Issler (1973) abandona-se a tradição mais rica e ampla de maiores habilidades para as áreas de estudos sociais, conforme Delgado de Carvalho e Anísio Teixeira, em favor de uma redução pura e simples dos conteúdos e simples conjugação de matérias, com a implementação do estudos sociais, coadunado com Vianna (2006) ao anunciar que o objetivo era preparar os jovens para o desenvolvimento nacional e eliminar as inquietações com o processo democrático.
Tratava-se, assim, de acordo com pensamento gramsciano (Gramsci, 1999, 2020), da busca pela passividade e acomodação perante os ditames das classes dominantes em relação às classes subalternas, em favor da ideologia dominante e hegemônica, e contra os verdadeiros interesses das classes oprimidas. Isso é corroborado por Waschineweski (2017), posto que os objetivos do estudos sociais era formar alunos que contribuíssem com a segurança, a estabilidade da sociedade e do Estado e não promover uma formação crítico-cidadão. Procurava-se eliminar quaisquer tipos de educação popular voltada para a formação de cidadãos conscientes e críticos da sua condição de explorados.
Destarte, o MOBRAL buscava a manutenção da ordem vigente, sendo o material didático uma importante ferramenta de disseminação dos valores e interesses das classes dominantes em detrimento das necessidades dos subalternos.
METODOLOGIA
Há uma vasta bibliografia sobre o MOBRAL, contudo, o Estado do Conhecimento, de acordo com Ferreira (2002), revelou a ausência de investigações que se dedicassem a estudar o material didático “Integração Social”, elaborado pela Fundação MOBRAL, principalmente no tangente à geografia escolar.
Assim, uma das ferramentas metodológicas utilizadas foi a análise documental do volume 1 do manual didático “Integração Social”, fornecido pela Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização da Secretaria de Ensino de 1º e 2º graus do Ministério da Educação.
O MATERIAL DIDÁTICO INTEGRAÇÃO SOCIAL
Na organização do MOBRAL existiam o Programa de Alfabetização Funcional (PAF) e o PEI. O PEI visava proporcionar aos alunos recém-alfabetizados a oportunidade de concluírem as primeiras séries do antigo 1º grau em 12 meses.
Conforme o Documento Básico do MOBRAL/CENTRAL (Brasil, 1973, era de responsabilidade da Fundação a produção e distribuição dos materiais didáticos e paradidáticos para alunos e professores, de modo a satisfazer o mais imediatamente possível a atual conjuntura socioeconômica do país naquela época); demonstrando o uso do aparelho hegemônico e da estrutura ideológica na disseminação da ideologia dominante e do conformismo junto às classes populares.
No interior desse estudo, compreender a metodologia e os materiais didáticos à luz da teoria de Gramsci é fundamental para desvelar a ideologia de mundo impressa no material didático “Integração Social”. O uso do aparato estatal é denunciado pelo teórico quando da construção do seu pensamento sobre o uso da educação como instrumento de manutenção da ordem vigente.
Para a elaboração, dentro dos critérios estabelecidos, impressão e distribuição dos materiais didáticos, o MOBRAL contou com vultuosos recursos e parceria com os grandes grupos editoriais do país (Paiva, 2015), que também tinham a incumbência de realizar a publicidade do Movimento em seus periódicos, como a revista Veja (Silva, 2019), e disseminar a ideologia das classes hegemônicas, via materiais didáticos do Movimento, em conformidade com Gramsci (2020, p. 342), ao evidenciar “[...] que tudo o que influi ou pode influir sobre a opinião pública, direta ou indiretamente, faz parte dessa estrutura”.
Na perspectiva do governo militar, o processo de educação de adultos compunha um sistema de educação permanente, caracterizado pela continuidade e progressividade das condições educativas, sendo o PEI o responsável por essa tarefa. Assim, como continuidade, os fundamentos metodológicos em que se apoiam o PEI e o PAF são os mesmos, segundo evidenciado no material didático, no método e na avaliação do aluno (Koff, Melhado, Bittencourt, 1979).
A método adotada pelo MOBRAL amparava-se no “erro e acerto”, ou seja, eram realizadas tentativas, até que se pudesse, segundo Koff e Campello (1979), selecionar o que melhor atendesse às necessidades do programa de massa, cuja flexibilidade atenderia às particularidades de cada região e de cada grupo populacional, o que contrariava a padronização dos materiais didáticos que eram distribuídos em todo o território nacional.
Assim, para caracterizar o método do PEI, Corrêa (1979) apontou os seguintes aspectos: a funcionalidade, relacionando diretamente o processo de ensino e aprendizagem à experiência de vida dos alunos; o princípio didático de aceleração, considerando as experiências e situações de vida dos alunos, de forma a evitar a perda de tempo em atividades cujas habilidades e atitudes já houvessem sido desenvolvidas pela experiência de vida; o método global, ou seja, partindo do tema geral para o particular; o estudo de temas ligados às necessidades básicas, como comunicação, produção, natureza, trabalho, esporte, diversão, turismo, alimentação, habitação, higiene, saúde, civismo, cultura, transporte e educação. Nessa abordagem, não havia uma sequência estabelecida, podendo os temas serem abordados de acordo com os interesses e necessidades do grupo e o estudo de cada tema, a partir do cartaz e texto gerador e da articulação de áreas de estudo.
Importante destacar que nem sempre o que estava nos documentos oficiais correspondiam à realidade. Quanto à funcionalidade e à aceleração, a adoção de um mesmo material didático para todo o país já contrariava o princípio de partir da realidade e dos saberes dos educandos, posto que este era elaborado previamente pelo MOBRAL/CENTRAL e distribuído para todo o território nacional, desconsiderando toda a reflexão que antecederia a escolha das palavras e temas geradores.
Com relação aos temas ditos geradores, não se discutia a causa da falta de habitação, do desemprego e subemprego, da fome e/ou má alimentação, da falta de acesso à saúde, transporte público de qualidade, lazer, cultura, viagens etc. O foco era “lutar” por um lugar ao lado dos que “venceram”, culpabilizando os próprios analfabetos pela situação de exclusão em que se encontravam, e não a lutarem contra as desigualdades (re)produzidas às custas da exploração das classes subalternas, reafirmando o que preconiza Gramsci (1999) sobre o papel da educação na sociedade de classes.
Apesar de afirmarem não haver uma sequência estabelecida na abordagem dos temas, esses não poderiam levar os alunos a refletirem sobre a situação de marginalização da maioria dos brasileiros em relação à minoria, posto que o próprio material didático não permitia tais reflexões.
Ainda de acordo com o presidente da Fundação, Corrêa (1979), na educação integrada, o MOBRAL lançou uma metodologia inédita, porquanto, as várias disciplinas foram integradas e exploradas em temas ligados à vida cotidiana dos alunos, como habitação, lazer, trabalho, saúde, alimentação, transporte etc., pressuposto criticado veemente por Seabra (1983). Permitia-se, assim, segundo o regime, uma maior motivação por parte dos alunos e maior funcionalidade para os conhecimentos adquiridos. A funcionalidade era fornecer mão de obra barata para o mercado de trabalho.
Para Corrêa (1979), no futuro, toda a educação partiria sempre da solução de problemas concretos, aproveitando extensivamente as oportunidades que a vida e a comunidade propiciam para o processo de ensino-aprendizado, o que não se efetivava na concepção do material didático.
Segundo Corrêa (1979, p. 41-42), “[...] a integração e o enfoque multidisciplinar serão inevitáveis, porque a educação buscará sempre imitar a vida e a vida não se desenrola em compartimentos estanques, estabelecidos nos irrealistas currículos acadêmicos”, contrariando os pesquisadores da educação, como Seabra (1983), que denunciava o quanto uma formação geral prejudica o ensino e vulgariza a função social da escola, principalmente aquela destinada às classes subalternas.
Reafirmava-se, assim, a concepção de educação como importante instrumento ideológico nas mãos dos militares. Uma concepção de educação e de escola a favor do ajustamento e contra a transformação das estruturas dominantes, particularmente na escola destinada ao povo.
Nesse sentido, Nascimento (2019) enfatiza que essa organização curricular entendia a história e a geografia como “conteúdos específicos” ou “obrigatórios dos estudos sociais na escola de 1º grau” e estas perdiam o caráter de disciplina nesse grau de escolaridade. Apenas na escola de 2º grau elas mantinham-se como disciplinas independentes e autônomas, embora com carga horária diminuída em decorrência da profissionalização desse grau de ensino.
Contudo, o que se viu na prática foi a padronização do material didático, das palavras geradoras, por exemplo, contrariando o discurso de partir da realidade dos alunos e do concreto.
Para justificar a padronização do material didático em âmbito nacional, Corrêa (1979) afirmava que as cartilhas foram construídas a partir de palavras corriqueiras do universo linguístico brasileiro e retiradas das necessidades básicas do homem (comida, remédio, tijolo, família etc.), distorcendo o verdadeiro sentido das palavras geradoras e a concepção de educação e de mundo de Paulo Freire e denunciado por Höfling (1981) e Chopin (2004).
Nota-se claramente uma mudança na concepção de educação e de mundo na política educacional brasileira com o advento do golpe militar, refletida nos pressupostos norteadores para a elaboração dos materiais didáticos.
Quanto ao conjunto básico do PEI/MOBRAL, o tipo de material e sua constituição são identificados na figura 2 e na tabela 1, esquematizados como conjunto de materiais didáticos da primeira fase do PEI; posteriormente, outros materiais foram sendo acrescentados.
Tabela 1 Composição atualizada do conjunto didático do PEI
| Tipo de material | Constituição |
|---|---|
| Livro textos geradores | Apresenta, além de textos, variadas atividades de comunicação e expressão e um glossário |
| Livro de Matemática | Conteúdos e diferentes exercícios |
| Livro de Integração Social (2) e Ciencias* | Explora conteúdos e apresenta sugestões de atividades |
| Livro do Professor | Apresenta orientações metodológicas para o desenvolvimento do PEI |
| Conjunto de cartazes | Apresenta cartazes relacionados a todos os temas do PEI, mais cinco cartazes que constituem um apoio ao trabalho na área de Integração Social e Ciências |
| Enciclopedia “A aventura do homem”** | Material complementar, composto por 24 fascículos utilizados pelos alunos em sala de aula e/ou em sistema de empréstimo. |
Fonte: Elaborado pelo autor, de acordo com (Corrêa, 1979, Koff, Melhado, Bittencourt, 1979).
* A partir de 1972;
** a partir de 1973.

Fonte: Brasil (1975).
Figura 2 Composição inicial do conjunto didático do PEI/MOBRAL, conforme Documento Básico do MOBRAL de 1976
O manual “Integração Social”, figura 3, foi, segundo o próprio Movimento (Brasil, 1984), uma compilação da 1ª edição completa da Coleção de Roteiros de Atividades do Autodidatismo, composta por nove livros editados entre o final da década de 1970 e início da década de 1980, cujo lema era “Você pode aprender sem ir à escola e sem professor”.

Fonte: Brasil (1984).
Figura 3 Capa do manual didático “Integração Social”, volume 1, versão do aluno, referente ao Programa de Educação Integrada do MOBRAL
Além do material didático de “Integração Social”, o conjunto didático do PEI/MOBRAL também era composto por um Manual do Professor e as versões para o aluno de comunicação e expressão, matemática e ciências. A figura 4 apresenta a capa do Manual do Professor do Integração Social.

Fonte: Brasil (1985).
Figura 4 Capa do manual didático “Integração Social”, versão do professor, referente ao Programa de Educação Integrada do MOBRAL
Para maior controle da elaboração dos materiais didáticos do MOBRAL, foi organizado o documento “Orientação para elaboração e reforma do material didático: alfabetização funcional: caracterização de material didático” (Brasil, 1976) (Figura 5).

Fonte: Brasil (1976).
Figura 5 Capa do documento orientador para elaboração de material didático para o MOBRAL

Fonte: Brasil (1984).
Figura 6 Sumário do volume 1 do material didático “Integração Social”(PEI/MOBRAL)
Na apresentação do referido documento, Arlindo Lopes Corrêa explicita a importância do material didático, enfatizando a excepcional originalidade, qualidade, a custos jamais obtidos no Brasil.
O material didático, segundo Corrêa (1979), era submetido à rigorosa análise por um Grupo de Trabalho (GT) formado por uma equipe multidisciplinar que incluía linguistas, pedagogos, técnicos em programação visual etc., em constante processo de aperfeiçoamento, cuja acumulada experiência lançou as bases para uma avaliação objetiva extensível às outras atividades similares do Movimento.
Para maior controle e fiscalização do material didático produzido por grandes editoras, o GT tinha por funções: avaliar, continuamente os materiais didáticos e os projetos de novos materiais, elaborar critérios para avaliação e reformulação de materiais didáticos, acompanhar a experimentação de novos materiais, elaborar projetos sobre materiais didáticos e orientar a elaboração de novos materiais (Mendonça, 1985), de forma a garantir que a ideologia vigente continuasse penetrante junto às classes subalternas.
Uma afirmação do Presidente do MOBRAL chama a atenção em relação à importância do material didático para o MOBRAL:
A sua importância dos gastos com o material didático justifica plenamente os cuidados de sua direção com esse item. Além disso, é através do material didático que se exerce a atividade-fim do MOBRAL, visando ao aprimoramento do homem brasileiro. Só este último aspecto bastaria para explicar todo o empenho de nossa administração no sentido de aperfeiçoar os métodos de análise e utilização daquele material. (Corrêa, 1979, p. 6, grifo nosso).
O excerto demonstra a importância do material didático na disseminação das ideias pedagógicas do regime militar, a ideologia e a ordem vigente, coadunado com Chopin (2004). Como atividade-fim, o governo militar confidencia o quanto se devia controlar o que iria compor os vários materiais didáticos do MOBRAL, seja pela análise prévia, seja pela utilização em sala de aula. A atividade-fim do MOBRAL era formar mão de obra barata e passiva diante da cruel realidade de exclusão e pobreza de grande parcela da população brasileira.
Em tempo, importante ressaltar que o livro didático é reconhecido como instrumento privilegiado de construção de identidade e símbolo da soberania popular, assumindo importante papel político, em uma tendência de doutrinar de forma implícita ou explícita (Chopin, 2004).
No caso do Brasil, Höfling (1981) evidencia que os livros didáticos da matéria estudos sociais, criada pelo regime militar, contribuíam para a alienação do indivíduo em relação aos diferentes aspectos da realidade concreta em que vive, não só pelo conteúdo em si, mas também pela passividade, o que é também evidenciado nos manuais do “Integração Social”, corroborando com Chopin (2004) e Gramsci (1999).
A questão da doutrina é recorrente na política educacional militar, de acordo com Germano (2011) ao se referir ao tripé ideológico do período analisado, constituído pela Doutrina da Segurança Nacional, pela Teoria do Capital Humano e por correntes do pensamento cristão conservador. Pela Doutrina da Segurança Nacional, entendia-se permanente controle e vigilância da população contra quaisquer questionamentos em relação ao regime.
De acordo com Germano (2011), a Teoria do Capital Humano buscava fornecer mão de obra barata para atender o projeto de desenvolvimento econômico, romantizando, inclusive, as cidades para atrair os trabalhadores, e disseminando o pensamento cristão conservador no combate ao comunismo e na defesa dos valores cristãos das elites.
Contrariando o discurso sobre o material didático “Integração Social”, cabe ressaltar que esse foi produzido em papel jornal e impresso em preto e branco, em contraste com o discurso sobre a qualidade do material e dos custos de sua produção. O papel mal suportava o uso da borracha, por exemplo. A capa também é de baixa qualidade, de papel cartão, impressa nas cores laranja, preta e branca (figuras 3 e 4).
Além do título, contém as seguintes informações: Ministério da Educação - Secretaria de Ensino de 1º e 2º graus - Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização, Educação de Adultos - Supletivo 1ª fase 1º grau, a logomarca do MOBRAL com alusão à impressão digital e pequenas ilustrações que remetem à pátria, aos setores da economia, à família, à cultura, aos transportes etc.
O Sumário se organizava em três partes, em que cada uma corresponde a um Roteiro de Atividades do Programa do Autodidatismo, além do Recado inicial antes da primeira parte e um Glossário ao final da terceira parte.
A parte I, “Terra de nossa gente” foi organizada a partir do Roteiro de Atividades do Autodidatismo, ao qual, infelizmente, não se conseguiu ter acesso após busca na rede mundial de computadores e sebos virtuais, dificuldade comprovada por Mello (2010).
A parte II, intitulada “Conhecendo sobre a indústria e o comércio” foi elaborada a partir do Roteiro de Atividades do Autodidatismo de mesmo título, vide Figura 7.

Fonte: Brasil (1979).
Figura 7 Capa do Roteiro de Atividades “Conhecendo sobre a Indústria e o Comércio”, do Autodidatismo/MOBRAL
A parte III, intitulada “O fazer, o saber, o sentir de nossa gente” foi uma compilação do Roteiro de Atividades do Autodidatismo de mesmo título, figura 8.

Fonte: Brasil (1979).
Figura 8 Capa Roteiro de Atividades “O fazer, o saber, o sentir de nossa gente”, do Programa de Autodidatismo/MOBRAL
Sobre a estrutura e organização do “Integração Social” constituía-se, conforme figura 9, de um Recado inicial em forma de um texto verbal, o qual esclarecia que o assunto central é o Brasil. Para tanto, informa que o Brasil é um país enorme e que os alunos teriam acesso às várias informações, como a localização do Brasil no mundo, a sua divisão, o que produz, a história do comércio e da indústria no Brasil, passando pelo artesanato, a literatura, as lendas, as danças, músicas e outras manifestações da cultura popular brasileira, além do glossário a partir da página 207, em um total de 213 páginas (Brasil, 1984). As três partes do “Integração Social” dividiam-se no que neste trabalho denominou-se de subtemas/sequências (Tabela 2).
Tabela 2 Partes, temas geradores e subtemas do v. 1 do “Integração Social”
| Partes | Temas geradores | Subtemas/Sequências |
|---|---|---|
| Parte I | Terra de nossa gente | • A vida em comunidade • Conhecendo outras comunidades A cidade: sua gente, sua vida... • A cidade: sua história, sua arte... • Os municípios • Na família... no município... organização é importante • O Governo do Município • Nossa grande comunidade - o Brasil • Onde está o Brasil? • Brasil - um país tropical • Onde está o Brasil? • Brasil - um país tropical • Onde mora a população brasileira? • Como conhecer o Brasil? |
| Parte II | Conhecendo sobre indústria e comércio | • O comércio - uma atividade bastante antiga
• O início do comércio no Brasil • A indústria - sua história • O início da indústria no Brasil • O comércio e a indústria crescem no Brasil • A indústria hoje • Matérias-primas da indústria • O comércio hoje • O comércio e a indústria precisam de gente preparada • A ação do Governo para o desenvolvimento do comércio e da indústria |
| Parte III | O fazer, o saber, o sentir de nossa gente | • Cultura • Formação do povo brasileiro • Os tipos característicos da cultura do Brasil • Cultura popular • Artesanato • Literatura de cordel • Provérbios • Crendices • Lendas e mitos • Música, dança e ritmos populares • Adivinhações • Jogos e brincadeiras • Comidas típicas • Outras artes, as ciências e o esporte no Brasil • A conservação da cultura |
Fonte: elaborado pelo autor, de acordo com (Brasil, 1984).

Fonte: Brasil (1984).
Figura 9 Capa de introdução da parte I “Terra de nossa gente”, do “Integração Social”
Cada uma das partes, parte I “Terra de nossa gente”, parte II “Conhecendo sobre a indústria e o comércio” e parte III “O fazer, o saber, o sentir da nossa gente”, é iniciada com uma página com o título e uma imagem em alusão ao que será abordado (figuras 9, 10, 11).

Fonte: Brasil (1984).
Figura 10 Capa de introdução da parte II “Conhecendo sobre indústria e comércio”, do “Integração Social”

Fonte: Brasil (1984).
Figura 11 Capa de introdução da parte III do “Integração Social”: “O fazer, o saber, o sentir de nossa gente”
Na figura 9, referente à parte I, cujo tema central é o Brasil, observa-se, na ilustração, a representação das diversidades regionais, por meio da presença de um indígena e as riquezas naturais, um lavrador, um pescador do litoral, o homem do campo e seu carro de boi, e um homem cuja vestimenta lembra o gaúcho do sul do país. Observa-se a ausência do negro, cuja etnia compõe de forma significativa a população brasileira.
Na figura 10, referente à parte II “Conhecendo sobre a indústria e o comércio”, o tema central, como o próprio título diz, é a origem e o desenvolvimento do comércio e da indústria no mundo e no Brasil. A ilustração traz a imagem de rede de transmissão de energia, um trabalhador de capacete e uma esteira de uma máquina industrial para representar a indústria. Para fazer alusão ao comércio, utiliza a imagem de uma mulher realizando compras no supermercado e dois trabalhadores carregando um caminhão com sacos que lembram café, açúcar ou algo similar.
A terceira e última parte, intitulada “O fazer, saber, o sentir de nossa gente” traz como tema a cultura brasileira, figura 11, por meio da representação de personagens cujas características representam as regiões brasileiras, como o bumba-meu-boi, o cantor Luiz Gonzaga “Gonzagão” e seu acordeão, uma igreja em razão da forte presença da religião católica, uma viola, instrumento típico do homem do campo “caipira”, um casal dançando em uma festa junina e uma mulher bebendo uma água de coco.
Na tese é realizada uma análise minuciosa do volume 1, com foco nos conteúdos relativos à geografia, em razão da fusão da geografia e da história na matéria integração social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentre as descobertas reveladas pela pesquisa se destacam: a) nas primeiras séries do 1º grau, os estudos sociais receberam o nome de integração social; b) o material didático “Integração Social” para o ensino supletivo 1ª fase do 1º grau era composto por dois volumes, contudo, só se teve acesso ao volume 1, comprovando a dificuldade de acesso a esses documentos e desenvolvimento de novas pesquisas; c) o “Integração Social” foi elaborado a partir de uma compilação dos cadernos do Programa de Autodidatismo do MOBRAL, o qual, após comparação, se mostrou uma cópia, com pouquíssimas adequações e/ou alterações; d) quanto à qualidade dos materiais, elogiada pelos próprios mentores do Movimento, verificou-se que o papel, a impressão, as imagens e mapas são de baixa qualidade, com erros relativos às normas cartográficas e, em alguns casos, ilegíveis.
Comprovou-se o uso da “cultura” como parte da “estrutura ideológica” e como instrumento de propaganda MOBRAL, posto à época como o redentor do problema do analfabetismo, o que as pesquisas evidenciam como uma grande falácia.
A cultura, bem como a imprensa, foi amplamente utilizada para legitimar tanto o programa de educação quanto o regime militar, disseminando o pensamento e a ideologia hegemônicas. O MOBRAL obteve um forte apoio da mídia impressa com propagandas em importantes revistas semanais como a Veja, demonstrando que setores conservadores da sociedade civil apoiavam e compartilhavam a ideologia do Estado e das elites.
Reafirmaram-se os verdadeiros objetivos dos governos militares e das classes dominantes no sentido de ajustar os subalternos ao que está posto, com o firme propósito de sedimentar, cada vez mais, o pensamento hegemônico e a ordem vigente, conforme evidenciado pela teoria política de Antonio Gramsci.
As leituras sobre a educação de jovens e adultos no Brasil demonstraram a necessidade de se apoiar e aprofundar a compreensão da teoria política de Gramsci, devido ao uso, pelos mais diversos autores, das categorias gramscianas, fundamentais para a compreensão do MOBRAL, do PEI e do “Integração Social”. As categorias gramscianas de hegemonia, ideologia, concepção de mundo, política, classes dominantes, classes subalternas, aparelho hegemônico, estrutura ideológica, ordem vigente, intelectual e outras, de forma explícita ou implícita, demonstram a relevância e atualidade da obra de Gramsci na apreensão do Movimento e dos respectivos materiais didáticos. Ou seja, o pensamento gramsciano permite analisar diversos momentos históricos do Brasil, particularmente no que diz respeito à educação, pois evidencia o papel da ideologia na manutenção e sedimentação da hegemonia das classes dominantes sobre as classes subalternas.
O MOBRAL e os materiais didáticos do Movimento objetivavam atender à nova fase do capitalismo brasileiro, controlar, coagir e dominar. Não é por acaso que, no período da ditadura militar, explodiram a concentração de renda e a desigualdade social, posto que o trabalhador era visto como depósito passivo que deveria se ajustar à ordem imposta pelos grupos hegemônicos. Por fim, era preciso manter o controle em todas as dimensões da esfera educacional.















