INTRODUÇÃO
Nos dias de hoje, não é difícil perceber que, assim como os adultos, as crianças também estão se engajando na era digital. Com dispositivos próprios ou emprestados dos pais, os pequenos acessam e produzem diversos tipos de conteúdos ao mobilizar outras maneiras de brincar. Esse cenário mostra como as infâncias têm se transformado com o passar dos anos e como suas performances acontecem virtual. Com dispositivos cada vez menores e as possibilidades de conexão sem fio, ampliam as formas de locomoção e modificam os espaços atuados na infância.
O indicador TIC Kids Online Brasil, na pesquisa publicada em 2022, aponta que o smartphone é o principal aparelho utilizado pelas crianças. Os números mostram que 92%, da população entre 9 a 17 anos, acessam à internet com frequência. Além disso, observa-se o aumento significativo no uso das redes sociais como, WhatsApp, Instagram, TikTok, Facebook e Twitter. Outros aspectos mapeados incluem a crescente prática de ouvir música, download de aplicativos e a intensificação dos jogos on-line (estilo multiplayer) - com intenção de interagir em grupo.
Desse modo, é fundamental prestar atenção nas performances das crianças muito além dos números elencados. Para isso, é preciso identificar quais os lugares ocupados por elas no processo de investigação científica e como essa aproximação anuncia seus modos de atuação. Romanowski e Paulin (2006) enfatizam que a análise de trabalhos publicados contribui na compreensão dos temas abordados, identificar as escolhas metodológicas adotadas e as principais contribuições efetivadas sobre o objeto estudado. Em destaque, em considerá-las protagonistas no trajeto investigativo e, aliado a isso, como as escolhas teórico-metodológicas influem diretamente na percepção sobre qual o lugar (ou não lugar) ocupam nas produções científicas (Pereira, 2013).
Pensando nisso, apresentamos um levantamento de estudos do tipo Estado do Conhecimento (Morosini, Kohls-Santos Bittercourt, 2021). Essa modalidade de mapeamento é crucial para conhecer as pesquisas efetivadas, bem como entender as temáticas emergentes e recorrentes sobre o objeto estudado (Nascimento; Santos; Azevedo, 2020). Sendo assim, este levantamento1 teve como objetivo identificar as produções científicas realizadas nos anos de 2018 a 2022 acerca da utilização das tecnologias digitais por crianças. Esse recorte escolhido permitiu compreender quais as perspectivas teóricos-metodológicas que foram adotadas nos estudos dos últimos 5 anos, de modo a garantir o escrutínio do conhecimento mais recente e, além disso, possibilitou delimitar um volume manejável para análise do tema sobre infância e tecnologias.
O mapeamento, seguindo a metodologia do Estado do Conhecimento, conforme elucidam Morosini, Kohls-Santos e Bittercourt (2021), possui 4 etapas. Por isso, a primeira fase, denominada Bibliografia Anotada, consistiu na leitura flutuante e organização dos trabalhos selecionados. Na segunda, chamada Bibliografia Sistematizada, consistiu na seleção mais direcionada ao objetivo formulado. A terceira, intitulada Bibliografia Categorizada, foi adaptada no processo de levantamento e, por isso, no lugar de categorias fizemos a análise dos estudos e denominamos de eixos. Por último, a quarta etapa, nomeada de Bibliografia Propositiva, efetivamos a análise de modo a direcionar inferências sobre os achados e de relacionar o conhecimento estabelecido a partir dos resultados encontrados, conforme mostraremos nos próximos tópicos.
O MAPEAMENTO NAS BASES DE DADOS: PASSO A PASSO
Para iniciar o mapeamento na base de dados com intuito de alcançar o objetivo proposto, inicialmente, foram elencados critérios de exclusão e inclusão. Dentre os critérios de inclusão estavam: 1) trabalhos discutindo a relação da infância/criança e tecnologia digitais entre 2018 e 2022; 2) trabalhos abordando o uso das tecnologias digitais e ao mesmo tempo as redes sociais pelas crianças; 3) trabalhos sobre o acesso às tecnologias digitais e/ou performances com jogos. Nos critérios de exclusão foram desconsiderados: 1) trabalhos que envolviam tecnologia digitais, mas não incluíam a infância ou atuação das crianças; 2) trabalhos realizados espaços institucionais (incluindo as escolas) ou efetivados apenas com adultos e/ ou os pais/responsáveis; 3) trabalhos que não tinham explícito os termos no título, resumo ou palavras-chave (todos os campos) e trabalhos duplicados e que se distanciavam da proposta do estado do conhecimento.
Após a delimitação dos critérios, a primeira base de dados selecionada foi a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), pois reúne dissertações e teses desenvolvidas nas instituições de nível superior do Brasil. E para complementar o mapeamento efetivado, com intuito de encontrar outros estudos e ampliar o escopo investigado, também optamos por fazer o mesmo processo no banco do Portal Brasileiro de Publicações em Acesso Aberto (Oasis). Esse repositório possui um mecanismo multidisciplinar e permite acesso à produção científica de universidades e institutos brasileiros e também de Portugal2. Assim, após essa escolha, a próxima etapa envolveu construir um descritor com conceitos e possíveis sinônimos que abarcassem o objeto investigado. Depois de vários testes, foi decidido pelo seguinte descritor3:
A partir da escolha da delimitação do marco temporal (2018 a 2022), na BDTD resultaram 387 estudos, dentre eles 309 dissertações e 78 teses. Já na Oasis restaram 441 dissertações e 105 teses, totalizando 546 trabalhos. Nesse retorno estavam inclusos os trabalhos de diversas áreas do conhecimento. Essa decisão pela inclusão das outras áreas tem em vista a amplitude de como os estudos das infâncias na era digital são atravessadas por diversos campos do conhecimento além da Educação, tais como: Comunicação, Psicologia, Direito, Sociologia, Antropologia etc. Essa abrangência ajudaria a compreender melhor as produções sobre a temática com base em múltiplos olhares e perspectivas a, além disso, conhecer outras escolhas metodológicas e opções teóricas.
Após o retorno dos trabalhos, foi necessário seguir os critérios adotados na primeira etapa proposta pelo Estado do Conhecimento, chamada Bibliografia Anotada (Morosini, Kohlssantos, Bittercourt, 2021). Nessa leitura inicial, as temáticas entre os excluídos abordavam a parentalidade e a percepção dos pais sobre a interação dos filhos(as) com as tecnologias, outros envolviam apenas a formação de educadores para dar aula às crianças, mediação de mães de bebês, análise de brincadeiras no ambiente escolar com atividades estipuladas pelos docentes, análise de desenhos animados ou uso de desenhos animados para pensar prática pedagógica, análise de estratégias dos pais para a competência crítica dos filhos(as) com as interfaces, percepção de professores e gestores sobre a utilização das crianças e acompanhamento dos pais nas redes sociais.
Desse modo, na fase de leitura para a construção da Bibliografia Anotada, muitos estudos encontrados não estavam de acordo com o objetivo do mapeamento e dos critérios de exclusão e inclusão. Diante disso, após a leitura flutuante, do total (387) apenas 32 trabalhos foram incluídos com base nos critérios estabelecidos e, por isso, restaram 24 dissertações e 8 teses que integraram o corpus extraído a ser analisado da base de dados BDTD. Do mesmo modo, dos 546 trabalhos encontrados na Oasis, restaram somente 8 trabalhos no total - 1 tese e 7 dissertações.
Tabela 1 Tipos de produções selecionadas na Bibliografia Anotada
| Ano | BDTD | OASIS | Total |
|---|---|---|---|
| 2018 | 5 dissertações 4 teses |
Não foram encontrados trabalhos | 9 |
| 2019 | 5 dissertações 2 teses |
2 dissertações | 9 |
| 2020 | 5 dissertações | 1 tese 1 dissertação |
7 |
| 2021 | 7 dissertações 2 teses |
3 dissertações | 12 |
| 2022 | 2 dissertações | 1 dissertação | 3 |
| Total de trabalhos das duas bases | 40 | ||
Fonte: elaborado pelas autoras (2023).
Em seguida, com os estudos selecionados da etapa inicial, foi o momento de começar a segunda etapa do Estado do Conhecimento chamada Bibliografia Sistematizada. De acordo com as autoras, Morosini, Kohls-Santos e Bittercourt (2021), nessa fase é preciso efetivar uma análise mais completa dos estudos restantes, considerando os objetivos, metodologia e os resultados. Assim, após esse escrutínio detalhado nos estudos lidos, na BDTD restaram 12 trabalhos (3 teses e 9 dissertações). Na Oasis, de 8 trabalhos, foram considerados 1 tese de 2020 e 2 dissertações dos anos de 2019 e 2021. Desse modo, restaram 15 estudos escolhidos. Em resumo, como mostra a figura abaixo, da BDTD ficaram 12, dos anos de 2018 (4), 2019 (3), 2020 (2), 2021 (1) e 2022 (2). Já na Oasis sobraram apenas 3, entre os anos de 2019 (1), 2020 (1) e 2021 (1). Essa diferença de número ocorreu porque muitos estudos encontrados na Oasis; e que estavam de acordo com objetivos e critérios de exclusão e inclusão; já haviam sido selecionados na BDTD, ou seja, eram duplicados e, portanto, não poderiam ser incluídos novamente no mapeamento.

Legenda: D= Dissertação; T= Tese.
Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
Figura 2 Quantidade de trabalhos restantes da BDTD e Oasis
Após isso, foi necessário achar as relações entre as teses e dissertações selecionadas. Nessa etapa, como aconselham Morosini, Kohls-Santos e Bittercourt (2021), ocorre uma análise aprofundada do conjunto de trabalhos. Para tanto, após o exame minucioso dos elementos revelados, realizamos o agrupamento e reagrupamento das informações encontradas, o que exigiu competência metodológica e teórico-analítica dos aspectos principais evidenciados no processo de análise para uma melhor interpretação e caracterização das estratégias de mapeamento.
O PANORAMA MAPEADO: AS PESQUISAS PARA/SOBRE/COM AS CRIANÇAS
Os cenários que abarcam as infâncias, suas produções culturais e a relação com as tecnologias são desafiadores, especialmente ao trazer foco amplo para as diversas áreas, o que provoca a pluralidade de olhares. Essa teia de encontros e conexões, segundo Fantin e Gilka (2019), é essencial para a compreensão sobre quais os lugares são ocupados por elas, os modos como se envolvem; seja como observada, observadora, parceira, dentre outros, para compreender, de maneira complexa, os sentidos e de quais lentes são vistas as crianças nos processos investigativos.
Nesse sentido, durante o mapeamento nas bases de dados, foi possível identificar a existência de estudos direcionados para, sobre e com as crianças. Para Fantin e Gilka (2019), os limiares entre as tipologias instituem uma linha tênue, para tal diferenciação, as seguintes dimensões precisam compreender os seus papéis no processo. Pensando nisso, como mostra a Figura 3, os estudos encontrados dividiram-se em: Eixo 1) pesquisas para as crianças com a temática central sobre instruções, diretrizes e tipos de uso; Eixo 2) pesquisas sobre crianças com enfoque nos impactos e contribuições das tecnologias digitais e Eixo 3) pesquisas com as crianças, abordando, por meio da escuta delas, as experiências e relações com as tecnologias digitais.

Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
Figura 3 Temáticas de pesquisas encontradas na análise dos trabalhos selecionados

Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
Figura 4 Os locais do Brasil onde estão situados os estudos encontrados
O corpus de análise foi constituído pelos 15 estudos (entre teses e dissertações) restantes. Com relação aos lugares e as universidades onde se originam, dos trabalhos encontrados no Brasil, 4 estão situados na região Nordeste entre - Universidade Católica de Pernambuco (1 dissertação), na Universidade Federal da Bahia (2 teses) e na Universidade Federal de Sergipe (1 dissertação). Na região Centro-oeste, na Universidade de Brasília (2 dissertações). Do total, os maiores números estão localizados no Sudeste (5) e Sul (3), especificamente, em São Paulo, todas na mesma instituição, na Universidade Estadual Paulista (1 tese e 2 dissertações), Rio de Janeiro na Universidade Católica do Rio de Janeiro (1 dissertação e 1 tese) e Rio Grande do Sul nas Universidades de Santa Maria (2 dissertações) e Universidade de La Salle (1 dissertação), como mostra o mapa ilustrado abaixo.
Além dos estudos situados em solo brasileiro, essa fase do mapeamento também abarcou uma dissertação de Lisboa - Portugal. No tocante a área dos estudos, 6 são da Educação; seguida da área da Comunicação com 3 estudos, Ciência da Informação com 2, Psicologia também com 2 estudos, seguidas por Administração e Direito com apenas 1 trabalho cada. Sobre esse recorte amostral, é possível perceber que as pesquisas que envolvem as infâncias na era digital têm um aspecto amplo e abarca uma interdisciplinaridade entre as diversas áreas de estudo, ademais, possibilita analisar os seus lugares nos estudos científicos por meio da variedade de produções.
Desse modo, ao delimitar o corpus a ser analisado, seguindo as etapas do estado do conhecimento, os estudos exigiram uma leitura mais aprofundada para explicar os encontros, desencontros e interpretar, por meio de uma análise minuciosa, os estudos selecionados. Assim, ao pensar nas crianças, enquanto grupo social, a partir da divulgação científica sobre suas vidas e atuações no cotidiano, surgiram os seguintes questionamentos inspirados em Martins Filho e Barbosa (2010): quais crianças são pesquisadas? Que lugar as diferentes infâncias ocupam nas pesquisas? Quais são as metodologias utilizadas? O que se tem adotado de recursos metodológicos? Quais procedimentos são eleitos? Quais os arcabouços epistemológicos escolhidos? Como suas vozes são consideradas?
PESQUISA PARA CRIANÇAS: INSTRUÇÕES, DIRETRIZES E TIPOS DE USO
As pesquisas para as crianças envolveram a abordagem de instruções, diretrizes e tipos de uso. Com o sentido de orientar e instruir por meio de um conjunto de informações, seja pensando na parentalidade, reflexão sobre os tipos de uso e/ou desenvolvimento de diretrizes, os estudos estavam voltados em direcionar as infâncias atuantes no universo digital. Apesar de abordar os modos de interagir e se relacionar, sejam eles positivos ou negativos, as argumentações se baseiam em conhecimentos já construídos sobre as crianças. Desse modo, o total 3 de estudos, 1 tese se refere às diretrizes e 2 dissertações as instruções e tipos de uso.
A partir da consulta das principais teorias, conceitos e estudos finalizados sobre a atuação das crianças na era digital, os trabalhos tentam abordar os lugares ocupados por elas por meio de outras pesquisas. Assim, é possível compreender que, apesar de ser pesquisa “sobre” as crianças, elas não participam dos estudos. Nesse sentido, é preciso ter uma visão geral sobre quais recursos foram adotados, e os procedimentos metodológicos escolhidos - como mostra a Tabela 2.
Tabela 2 Principais características dos estudos pertencentes ao eixo temático 1
| Tipo | Área e Instituição | Autor(a) | Título | Procedimentos metodológicos | Corpus de análise |
|---|---|---|---|---|---|
|
Tese |
Ciência da Informação _________ Universidade Estadual Paulista (UNESP) |
Bonfeti (2020) |
Princípios e diretrizes para o desenvolvime nto de interfaces de busca para as crianças |
Pesquisa bibliográfica e exploratória |
Artigos de periódicos, teses, dissertações e livros sobre os aspectos cognitivos e comportamentais e pedagógicos relacionados ao uso das tecnologias pelas crianças |
|
Dissertação |
Direito _______ Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) |
Silva (2019) |
O direito à privacidade das crianças nas redes |
Abordagem dedutivo, método histórico, monográfico, estatístico e estruturalista |
Dados publicados pelo indicador TIC Kids, bem como reportagens, notícias jornalísticas no geral e redes sociais |
|
Dissertação |
Psicologia __________ Universidade Católica de Pernambuco |
Lacerda (2021) | Um brincar com a tecnologia digital na primeira infância?: reflexões sobre o uso das telas e o processo de integração infantil |
Método do tipo exploratório | Literatura sobre o desenvolvimento psíquico na primeira infância |
Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
Tabela 3 Principais características dos estudos pertencentes ao eixo temático 2
| Tipo | Área e Instituição | Autor(a) | Título | Procedimentos metodológicos | Corpus de análise |
|---|---|---|---|---|---|
|
Dissertação |
Educação _________ Universidade de La Salle |
Pugens (2020) |
Da cultura da infância à cultura digital: reflexões sobre o brincar |
Pesquisa qualitativa interdisciplinar combinada com a hermenêutica para uma revisão de literatura |
Revisão de literatura realizada na BDTD com o marco temporal definido entre os anos de 2010 a 2020 |
|
Dissertação |
Ciências e Letras __________ Universidade Estadual Paulista (UNESP) |
Machado (2022) |
O brincar em uma (in)fância conectada |
Pesquisa qualitativa e pesquisa bibliográfica |
Levantamento de obras, artigos científicos, teses e dissertações entre produções clássicas |
|
Dissertação |
Arquitetura __________ Universidade Católica de Pernambuco |
Genebra (2020) |
A infância nativa digital e o fenômeno youtuber mirim: hibridização de entretenimento e publicidade |
Método quantitativo, qualitativo e interdisciplinar, utilizando métricas quantitativas |
209 publicidades observadas durante um mês em 3 canais de youtubers mirins com idades entre 6 e 11 anos |
|
Dissertação |
Comunicação __________ Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) |
Rabuske (2018) |
Crianças no YouTube: um estudo etnográfico sobre as infâncias e suas estratégias de relacionamento nas mídias digitais |
Inspiração na etnografia para internet, baseada no estudo de casos múltiplos de youtubers mirins e suas interações mobilizadas em vídeos publicados |
Estudo de casos múltiplos de youtubers mirins e suas interações mobilizadas em vídeos publicados |
Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
O estudo de Bonfeti (2020) se fundamenta nas teorias do desenvolvimento infantil, aliada aos métodos e práticas do design participativo. Com uma abordagem epistemológica interdisciplinar, integra elementos da ciência da informação, psicologia infantil e cognitiva para estabelecer um conjunto de princípios e diretrizes voltados ao desenvolvimento de interfaces para as crianças. A autora destaca que, embora as interfaces sejam projetadas pelos adultos e para eles, quando consideram o público infantil, o foco tem sido predominantemente na restrição de conteúdos considerados “inadequados”, em vez de promover uma interação que considere suas necessidades.
Já Silva (2019) discute as políticas de privacidade de algumas redes sociais e casos de exposição no Brasil, a exemplo, a cantora Melody. Para tal, apoia-se nos conceitos de sociedade em rede, nativos digitais imbricados aos aspectos legislativos, como os direitos fundamentais, Direito à Privacidade e o Marco Civil da Internet. Os resultados destacam que apesar de haver riscos no que concerne a preocupação de proteção das crianças, evidencia a importância de não excluí-las do mundo digital, pois precisam desenvolver habilidades indispensáveis para a atuação sociocultural contemporânea. Além disso, problematiza sobre a necessidade de um olhar atento dos adultos responsáveis por elas, em especial as instâncias que envolvem a Família, Sociedade, Estado e Escola e, portanto, traz um conjunto de instruções sobre o direito à privacidade para as crianças.
O estudo de Lacerda (2021) se estruturou na escolha de conceitos psicanalíticos mobilizados para a compreensão de fenômenos sociais e intersubjetivos. Os resultados estão alicerçados nas instruções de uso publicados pela Academia Americana de Pediatria (AAP), assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Academia de Ciências da França (ACF) e em teses e dissertações encontradas. Com base nos documentos oficiais citados, revela o encorajamento às restrições das crianças de 18 a 24 meses, bem como o controle do tempo de tela para a faixa etária maior. No entanto, indo de contra às instruções dos documentos oficiais mapeados no estudo, os resultados mostraram que os pais identificam os aspectos positivos da imersão dos seus fillhos(as) com as tecnologias digitais desde os primeiros meses de vida.
Portanto, os estudos voltados para as crianças buscam mapear os modos como são exploradas as tecnologias e, com base nisso, indicar os caminhos para instruir o modo “correto” de acessar. No entanto, é possível identificar que a percepção sobre as performances acontece com base em outros trabalhos ou notícias divulgadas. Ou seja, as pesquisas voltadas para elas não têm como estratégia a escuta de suas vozes. Isso faz com que as diversas abordagens de pesquisas evidenciem resultados diversos, até mesmo mostrando contrapontos. É necessário escutar o que elas têm a dizer sobre suas próprias vidas, pois, caso contrário, destaca-se um foco apenas no pânico moral negativo, de que o espaço digital não se constitui como um território para as crianças
PESQUISA SOBRE AS CRIANÇAS: OS IMPACTOS E CONTRIBUIÇÕES
As pesquisas sobre as crianças totalizaram 4 estudos com foco nos impactos (negativos e positivos) e as possíveis contribuições do acesso às tecnologias digitais pelas crianças. Os impactos se referem aos efeitos e as possíveis consequências do uso dos aparelhos e as contribuições aparecem como efeito significativo na aproximação dessas interfaces enquanto suporte dos processos de interação, aprendizagem e produção cultural dos sentidos e significados das infâncias.
O primeiro trabalho desenvolvido por Pugens (2020) adota, de modo geral, uma discussão ampla com intersecção de conceitos entre educação, infância e tecnologia com base nos pressupostos epistemológicos dos conceitos de indústria cultural, propaganda, culturas infantis e saúde infantil. A partir da análise de 7 estudos, a investigação trouxe como foco três tópicos: 1) o uso excessivo das telas; 2) o empoderamento das crianças; 3) os desafios à cultura da infância contemporânea. Os resultados evidenciam a escassez de estudos na área de educação e também sobre a saúde das crianças. Em relação a última temática, apenas dois estudos discutiam sobre o vício em jogos eletrônicos. Pelas temáticas resultantes, percebe-se que a discussão dos dados permeou entre estudos de duas vertentes, sobre a figura da criança enquanto objeto de estudo e também delas como protagonistas das produções e atuações culturais. Muitos dos trabalhos encontrados destacaram que a utilização das tecnologias por elas não pode classificá-las enquanto seres passivos e a importância de ouvir suas vozes alicerçadas diretamente das experiências vividas.
Já Machado (2022) adotou os preceitos epistemológicos da Teoria Crítica aliados à discussão do brincar e sua relação com a cultura lúdica. O resultado aborda a combinação do debate sobre o processo histórico do brincar, mas traz o jogo por meio dos aparatos digitais como um processo de aceleração que não ocasiona mudanças reais. Além disso, pelas lentes da corrente capitalista, o estudo argumenta que há uma exploração da subjetividade para fins da lucratividade nessa aproximação. Com base nisso, conclui que o brincar com as tecnologias revela a “eliminação do outro” (Machado, 2022, p. 123) e a caracterização do ser voltada para as novas necessidades.
Em busca de compreender essas interações complexas na relação entre a infância, tecnologias, cultura e sociedade, Genebra (2020), inspirada por uma abordagem interdisciplinar, mostra nos resultados do seu estudo, como acontece a hibridização entre os conteúdos direcionados às crianças e a propaganda de produtos, mas também destaca que os youtubers mirins são produtores repertórios ao mesmo tempo inseridos na cultura do consumo. A pesquisa revela a reconfiguração das estratégias de publicidade no YouTube ao se adaptar aos modos de como as infâncias constituem apresentadoras e criadoras dos repertórios compartilhados. Apesar disso, destaca o empoderamento inédito nas redes e a necessidade de reconhecer a atuação delas.
Com foco também no YouTube, Rabuske (2018) analisou casos empíricos de crianças à frente de canais com grandes números de seguidores. Tendo por base diversos campos do conhecimento, tais como: Direito, Sociologia, Pedagogia e Psicologia e, além disso, os estudos culturais, traz conceitos sobre a interlocução, sociabilidades infantis, mídias digitais, a cultura participativa e culturas digitais como centro do estudo. Os resultados mostram que a atuação das infâncias no YouTube ainda é um tema pouco explorado. Sobre as crianças, os dados enfatizam suas interlocuções como produtoras de conteúdos, cuja participação revela o desenvolvimento da autonomia e, aliado a isso, a plataforma permite a promoção e enriquecimento da sociabilidade infantil, considerando seus protagonismos ativos em relação à mídia.
Os estudos até aqui analisados mostram como as perspectivas epistemológicas adotadas direcionam o olhar para as infâncias de modos diferentes. Os dois primeiros, alicerçados pelas lentes das teorias críticas, entendem as crianças como seres passivos, desconsideram suas vozes enquanto participantes do processo investigativo, no entanto, definindo-as enquanto objeto a ser estudado e alienado pelas estruturas impostas em sociedade. Por outro lado, as duas últimas investigações, ao se apoiarem na linha dos estudos culturais, as reconhecem como autoras de suas vivências mobilizadas no digital. Portanto, apesar de serem pesquisas sobre as crianças e não com elas, os posicionamentos epistemológicos influenciam diretamente nos modos de considerá-las na investigação, seja como simples objeto de estudo ou como protagonistas ativas na sociedade.
PESQUISA COM CRIANÇAS: EXPERIÊNCIAS E RELAÇÕES COM AS TECNOLOGIAS
As pesquisas efetivadas com as crianças procuraram compreender os tipos de experiências e suas relações com as tecnologias digitais, consequentemente, como exploram alguns aplicativos, aprendem, brincam e percebem a mediação parental. As experiências se referem às percepções delas e os tipos de interações no digital, ao mesmo tempo como os repertórios acessados reverberam nas produções culturais e os modos de constituir essas produções. Em destaque, as relações engendradas com os aparelhos, as mudanças nas maneiras de ser e estar no mundo, no brincar e de compartilhar os grupos de pares e os protagonismos e reivindicação de lugares.
Os estudos que procuraram ouvir as crianças, perpassaram pelas diferentes áreas como: Ciência da Informação (1 dissertação), Comunicação (1 dissertação), Administração (1 dissertação), Psicologia (1 dissertação) e Educação (1 dissertação e 3 teses), totalizando 8 trabalhos. Desse total, 2 pesquisas se referem às experiências com o Instagram e Youtube, 3 discutem o brincar com as tecnologias e 3 analisam a relação com a tecnologia de modo geral, conforme o quadro a seguir.
Tabela 4 Principais características dos estudos pertencentes ao eixo temático 3
| Tipo | Área e Instituição | Autor(a) | Título | Procedimentos metodológicos | Corpus de análise |
|---|---|---|---|---|---|
|
Dissertação |
Administração __________ Universidade de Fortaleza |
Bezerra (2018) |
A influência dos youtubers no universo infantil |
Qualitativa, exploratória e descritiva |
Entrevista, observação participante e gravação de áudios e vídeos com 10 famílias e crianças de 3 a 6 anos moradoras de um condomínio fechado |
|
Tese |
Educação _________ Universidade Federal da Bahia |
Fraga (2019) |
Viver e compartilhar: fotografias de crianças no |
Método qualitativo de caráter descritivo e analítico com inspiração na metodologia participativa com as crianças |
Entrevista semiestruturada, entrevista focalizada e a observação participante dos perfis no Instagram com um grupo de crianças entre 9 e 11 anos |
|
Dissertação |
Comunicação _________ Universidade Católica Portuguesa |
Oliveira (2018) |
A adoção de smart toys em Portugalpercepções e consumo das famílias |
Estudo empírico tendo por base a abordagem interpretativista de caráter exploratório e qualitativo |
Entrevistas semiestruturadas com os pais e observação com as crianças de idades entre 5 e 10 anos no espaço domiciliar |
|
Tese |
Educação __________ Universidade Federal da Bahia |
Souza (2019) |
O brincar em tempos de tecnologias móveis digitais |
Pesquisa qualitativa alicerçada nos pressupostos da metodologia de pesquisa com crianças |
Observação participante e rodas de brincadeiras com 2 grupos de crianças de idades entre 4 e 5 anos no espaço familiar |
|
Dissertação |
Educação __________ |
Oliveira (2021) |
Aqui em casa, com o tablet e videogame, eu sempre |
Método qualitativo com inspiração na etnografia e |
Observação interativa com duas crianças entre 3 e 5 anos de idade residentes em um |
| Universidade Federal de Sergipe |
aprendo um montão de coisas |
também nos pressupostos na metodologia de pesquisa com crianças |
condomínio fechado. Questionário com os pais, produção de vídeos, fotos e áudios |
||
|
Tese |
Educação _________ Universidade Católica do Rio de Janeiro |
Martins (2018) |
Adultos, smartphones e crianças pequenas: Um estudo sobre famílias midiatizadas |
Pesquisa qualitativa e de campo |
Observação participante com 14 crianças, entre 3 a 6 anos de idade, e entrevista com 17 adultos. Ao todo, foram 10 famílias investigadas |
|
Dissertação |
Saúde __________ Universidade de Brasília |
Kruger (2018) |
Infância urbana e novas tecnologias: uma análise pela perspectiva da criança |
Pesquisa qualitativa e de campo |
Rodas de conversa e produção de vídeos com crianças de idades entre 9 e 12 anos residentes de um condomínio fechado |
|
Dissertação |
Ciências da Informação __________ Universidade de Brasília |
Wohlgemuth (2022) |
Percepções de crianças sobre a mediação parental em suas práticas informacionais |
Pesquisa qualitativa, exploratória e bibliográfica |
Observação efetivada junto aos pais e crianças com idades entre 8 a 12 anos |
Fonte: elaborada pelas autoras (2023).
O estudo de Bezerra (2018) se fundamenta em pressupostos epistemológicos sobre mediação, comportamento, consumo e as produções culturais, considerando a criança como protagonista dos processos de decisão. Os resultados evidenciam que o YouTube, enquanto parte das interações das infantis, influencia comportamentos, como a maneira de se vestir e a escolha de brinquedos. O trabalho também destaca que, embora existam tanto aspectos positivos quanto negativos, as crianças ainda são capazes de reconhecer propagandas nos conteúdos que consomem. Além disso, apesar do impacto da prática do unboxing4 na decisão para a compra de produtos; utilizam os repertórios para aprender, reciclar e construir seus próprios brinquedos na ação lúdica.
Com foco na rede social, Fraga (2019) buscou analisar 23 fotografias produzidas pelas crianças com objetivo de compreender como narram nos registros publicados no Instagram. Os resultados mostram que por meio das fotografias há o enriquecimento das experiências e o acesso às informações sobre as culturas infantis. A plataforma também é um espaço que promove pedagogias, saberes, comportamentos, práticas e interações sobre os modos como se apresentam a si mesmas e constroem apropriações. Na oportunidade, desenvolvem a autonomia e visibilidade das produções culturais enquanto sujeitos ativos, ressignificam os processos presentes no digital, especialmente para desconstruir a invisibilidade e buscar a visibilidade das suas produções culturais.
Oliveira (2008) analisa a tipologia smart toys adotados por crianças portuguesas, avaliando essa categoria de brinquedo a partir de uma investigação empírica. O estudo se baseia em conceitos como comportamento de compra, consumo, marketing, publicidade infantil e internet das coisas. Embora tenha como foco o consumo, a escuta das vozes e percepções das próprias crianças revelou que elas sabem diferenciar os tipos de brinquedos com características tecnológicas. Os resultados mostram que, além de aprenderem rapidamente as funcionalidades técnicas, elas conseguem conectar os smart toys a outros dispositivos, integrando-os aos demais brinquedos e demonstrando conhecimento no manuseio desses artefatos. Apesar da resistência das famílias em adotá-los - devido à falta de clareza sobre seus possíveis benefícios -, as crianças, ao obtê-los, tendem a perder o interesse tão rapidamente quanto acontece com os brinquedos analógicos.
A partir da análise do brincar, Souza (2019) teve como objetivo compreender como a interação das crianças com as tecnologias móveis digitais contribuem para a construção das culturas infantis. Os resultados apontam os modos como elas são ativas na produção cultural a partir das interações com as interfaces digitais. Evidencia ainda que as aproximações com os repertórios digitais têm enriquecido as experiências sociais e culturais do brincar ao hibridizarem, nos momentos de brincadeiras, esses aparelhos com os brinquedos analógicos. Em complemento, outro estudo que envolve o brincar desenvolvido por Oliveira (2021), mostrou como as brincadeiras com as tecnologias constituem, notavelmente, autorias curriculantes ausentes na escola e presentes no contexto familiar. Além disso, efetivam estratégias de conectivismos inspiradas no digital e a transposição imaginária do conteúdo para brincadeira nos contextos físicos. De modo geral, a crítica principal envolve não apenas a ausência dos dispositivos móveis nos processos educacionais, mas também mostra as experiências curriculantes construídas fora do espaço escolar.
Já a pesquisa de Martins (2018) objetivou mostrar, na aproximação com as crianças e também com seus pais/responsáveis, como a presença dos smartphones influencia nas interações familiares. Os resultados destacam a ausência de pesquisas a partir dos contextos vivenciados pelas crianças e revela a grande quantidade de estudos devolvidos na escola. Aliado a isso, evidencia a predominância de uma mediação restritiva por parte dos adultos, ou os aparelhos são usados como uma espécie de “babá eletrônica” dos filhos(as) sem fornecer à devida supervisão. Sobre as práticas das crianças, por outro lado, os dados mostram que elas mesclam os brinquedos “tradicionais” aos dispositivos tecnológicos nas brincadeiras e praticam constantemente a convergência. Outro fator importante, é que elas reconhecem a necessidade de supervisão, ao mesmo tempo que percebem o uso excessivo de smartphones pelos seus pais/responsáveis, influenciando-as diretamente.
Kruger (2018) analisou os significados presentes nas narrativas audiovisuais produzidas pelas crianças com as tecnologias digitais. O estudo mostra como elas percebem as tecnologias integradas às suas rotinas, enquanto também são agentes do processo de comunicação e construção de conhecimento. Os resultados destacam que os aparelhos são mais que instrumentos, pois possibilitam a demarcação de um lugar nas dimensões do espaço-tempo atravessadas pela atuação com as tecnologias. Em destaque, a oportunidade de estar on-line intensifica interações singulares com os pares e contribui para as participações contínuas em mais um território. Menciona também ainda a necessidade de um olhar cuidadoso para o aumento de acesso e os modos de uso.
A última pesquisa de Wohlgemuth (2022) teve como ponto central a percepção das crianças sobre o controle parental. A partir dessa aproximação, a autora destaca que, embora reconheçam a importância da mediação dos pais e se sintam mais seguras com orientações, também desejam maior liberdade para acessar diferentes tipos de conteúdos. As crianças demonstram compreender o que é internet, identificar riscos e enfatizam a necessidade de fazer parte do mundo informacional para garantir o direito de acesso às informações. Por outro lado, os adultos relatam perceber um uso excessivo dos filhos(as), enquanto os pequenos também sentem falta de regras claras. Assim, apesar da tentativa de mediação por parte dos adultos, o diálogo sobre uso das redes é limitado, prevalecendo as regras restritivas e a imposição de proibições sem explicações aprofundadas.
Portanto, as pesquisas com as crianças mapeadas mobilizaram a escuta de suas vozes buscando informações na temática diretamente das próprias experiências e perspectivas. No geral, o ato de reconhecê-las como protagonistas na experiência de atuações também refletiu nas escolhas epistemológicas, teóricas e metodológicas. De tal modo, com os avanços das tecnologias digitais nas vivências cotidianas, esse público procura seu lugar e reivindica o reconhecimento das vivências construídas na era digital. Seja nos momentos lúdicos do brincar, manuseando de modo interativo as plataformas ou enriquecendo as relações na imersão destes aparelhos, os estudos encontrados acionaram dispositivos que enriqueceram escuta e o olhar das infâncias sobre este universo, registrando as performances singulares constituídas da relação com essas ambiências.
REFLEXÕES SOBRE O CENÁRIO MAPEADO
O cenário mapeado revela os modos como as escolhas teóricas-metodológicas direcionam a escuta (ou sua falta) e a visão de quem é a criança atuante na era digital. A partir do mapeamento feito surgiram os eixos temáticos: 1) pesquisas para as crianças com a temática central sobre instruções, diretrizes e tipos de uso; 2) pesquisas sobre - com ênfase nos impactos e contribuições das tecnologias digitais e, por último, 3) pesquisa com crianças a partir do foco na escuta de suas vozes para relevar as experiências e as relações com esses dispositivos.
As pesquisas para as crianças mostraram como as interfaces não são pensadas para as existências das infâncias e, também, como os adultos, enquanto principal autoridade mediadora, decidem desde o desenho e até às demais tomadas de decisões sobre o design e estrutura das interfaces. Essa exclusão é alimentada pela visão da criança enquanto ser incapaz de intervir, opinar e compartilhar suas experiências, seja nos espaços físicos e/ou digitais. Estes aspectos ignoram como as atuações realmente acontecem, alimenta uma supervisão restritiva e, na maioria das vezes proibitiva, pois as maneiras de as crianças transformarem e habitarem o digital são ignoradas, bem como outros/novos significados atribuídos e as reconfigurações efetivadas dessa aproximação.
Assim, as pesquisas sobre as crianças mostraram dois tipos de perspectiva: o ser passivo e também enquanto sujeitos atuantes das produções culturais. A primeira, corroborando com o eixo anterior, disserta sobre objetificação da infância que, a partir de sua incapacidade de reflexão sobre a sociedade contemporânea, é alienada pelos processos tecnológicos, consequentemente, não considera essa vivência como parte da experiência. Já as pesquisas com foco os estudos culturais, buscam as produções das próprias crianças no digital e, com base nisso, reconhecem os protagonismos efetivados em sociedade e também a capacidade de transformar o cenário atual.
Já as pesquisas com crianças, alicerçadas pela abordagem empírica, revelam as controvérsias presentes nos estudos mencionados. Com base nos dados, apresentam como as crianças subvertem e se transformam no contato com as tecnologias. Notavelmente, rompem com as previsões negativas e catastróficas, alicerçadas pelo pânico moral, advindas do receio dos adultos e das investigações predominantemente teóricas, porque revelam como elas alicerçam a transgressão das paisagens dadas, ao subverter cenários e se apropriar de modo singular do digital.
Sendo assim, o panorama investigado aponta as contradições e as ambivalências de pesquisas voltadas para a relação das crianças com as tecnologias digitais. Entretanto, a escuta de suas vozes nos estudos empíricos revela a emergência do objeto, da necessidade de (re)pensar métodos de pesquisas eficazes e capazes de mostrar a realidade a partir das experiências. No contexto da contemporaneidade, esse objeto se revela como um fenômeno complexo que envolve diversas problemáticas e dimensões. Pensando nisso, a literatura mapeada traz em seu esboço muitas temáticas a serem discutidas e atualizadas. No entanto, o componente a ser considerado é situar o olhar para o verdadeiro agenciamento, criatividade e apropriação, ou melhor, para as performances ocorridas e evidenciadas a partir das próprias interpretações das crianças.



![“IF YOU TAKE [A CELLPHONE], IT’S OVER!”: the re-signification of mobile devices in childhood](/img/en/prev.gif)











