INTRODUÇÃO
A identificação “esquerdomacho” se disseminou na contemporaneidade. É atribuída ao homem progressista, desconstruído, mobilizado às questões sociais, sobretudo em relação a pautas feministas, mas que, na verdade, é um pseudo aliado às lutas pela igualdade de gênero na sociedade, pois é, supostamente, atravessado pelo machismo em suas práticas.
A desconfiança em torno do esquerdomacho, assim como do homem “desconstruído” ou “em desconstrução” coloca em disputa uma possível ressignificação dos comportamentos dos homens frente aos seus privilégios, tão denunciados pelos movimentos sociais. De todo modo, a desconstrução da masculinidade diz respeito aos homens conscientes de seu lugar hierárquico na sociedade, preocupados em se tornar sujeitos melhores, dispostos a ser menos violentos e mais empáticos em relação às mulheres e à sociedade como um todo (Casadei, Scabin, 2021).
No contexto contemporâneo, torna-se fundamental reconhecer a multiplicidade de discursos sobre o tema da masculinidade, sobretudo diante dos usos políticos das redes sociais e das disputas simbólicas que nelas se intensificaram. A digitalização da esfera pública tem operado, como observa Miskolci (2021), como catalisadora de transformações no modo como os sujeitos se engajam politicamente, ao mesmo tempo em que amplia a circulação de discursos conservadores e reacionários. Nesse ambiente, proliferam narrativas masculinistas e práticas discursivas marcadas por culturas do ódio e pela polarização política, que visam não apenas reafirmar a ordem das normas de gênero, mas também desacreditar movimentos sociais progressistas. Tal cenário é especialmente sensível às dinâmicas de enunciações das masculinidades, que passam a ser constantemente interpeladas e reposicionadas frente às críticas feministas e às tensões sociais intensificadas pela visibilidade em rede.
Paralelamente, destaca-se o protagonismo do movimento feminista brasileiro, cuja visibilidade aumentou significativamente a partir de 2015, num processo que ficou conhecido como primavera feminista. Segundo Biroli (2018), esse ciclo de mobilizações expressa uma contestação às desigualdades de gênero na vida social e política, em especial à sub-representação das mulheres nos espaços institucionais e à violência política de gênero. O impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, o assassinato da vereadora Marielle Franco e a ascensão do bolsonarismo em 2018 compõem um quadro de ofensiva neoconservadora que tensiona a presença de mulheres na política e reconfigura os embates em torno das normas de gênero. Nesse contexto, o fazer-se processual dos gêneros - especialmente no que tange à produção das masculinidades - deve ser analisado como relacional e profundamente atravessado por disputas políticas que se desenrolam tanto nas ruas quanto nas redes. A crítica feminista, nesse sentido, não apenas afeta a cultura, mas reconfigura os sentidos do masculino, desestabilizando seu suposto universalismo e convocando novos modos de existência política e subjetiva.
Sabe-se que esse debate das mudanças em torno das masculinidades está relacionado à desestabilização da chamada “masculinidade tóxica”, que diz respeito aos modos nocivos sobre “ser homem”, presentes na educação de meninos e jovens, que são atravessados pelo machismo, pela homofobia, entre outras intolerâncias e preconceitos, e que são prejudiciais às mulheres, mas também aos próprios homens (Castro, 2018).
Nesse contexto, uma pesquisa realizada no ano de 2019 e que teve como focalização o movimento estudantil do Colégio Pedro II1 - tradicional instituto federal de educação localizado no Estado do Rio de Janeiro - foi interpelada por enunciações como “esquerdomacho”, “masculinidade tóxica” e “homem desconstruído”, quando se problematizou o engajamento de jovens estudantes-ativistas que se identificavam com o gênero masculino em pautas feministas, raciais e LGBTI+, presentes recorrentemente no cotidiano escolar.
Assim, algumas questões orientaram esse recorte da pesquisa e serão discutidas neste artigo: como o movimento estudantil do Colégio Pedro II (MECPII) afeta os sentidos das masculinidades circulantes na instituição? Como o MECPII afeta os jovens estudantes-ativistas no tocante à significação das masculinidades? Quais são as especificidades das questões das masculinidades no que se refere à identificação etária dos estudantes? Como os coletivos feminista, negro e LGBTI+ se articulavam com a parceria/participação de estudantes que se identificavam com o gênero masculino em suas demandas e pautas?
Desse modo, busca-se, neste artigo, discutir enunciações sobre as masculinidades em narrativas sobre a participação de jovens estudantes que se identificam com o gênero masculino no MECPII. Nesse sentido, para problematizar as categorias masculinidade e juventude, busco fundamentação numa perspectiva teórico-política da diferença e que apresento na sequência deste texto.
MASCULINIDADE, JUVENTUDE E DIFERENÇA
O pensamento filosófico da diferença entende que somos constituídos na e pela linguagem e, radicalizados pelas perspectivas pós-estruturalistas, também duvidam das estabilizações estruturais por meio das disputas e dos jogos de poder. Nesse sentido, textos de autoria de Jacques Derrida e Judith Butler, acerca de processos sociais de significação e identificação, traduz o olhar para a masculinidade e a juventude neste artigo.
A noção de performatividade é basilar nessa construção epistemológica. Conforme Derrida (1991, p. 27), o performativo: “Não descreve algo que existe fora da linguagem e antes dela. Produz ou transforma uma situação, opera; [...] efetua também algo e transforma uma situação [...]”. Nesse entendimento, a linguagem performativa é uma forma de poder sobre a realidade, uma forma específica de ação, que pode atuar e modificar o mundo (Rodrigues, 2019).
Por esse mesmo caminho, Butler (2019) reitera que a performatividade da linguagem não é uma prática isolada ou singular, mas um ato de fala atravessado pela repetição e que produz os efeitos daquilo que nomeia, regula e impõe. A autora mobiliza esses preceitos para formular sua noção de performatividade de gênero:
A prática pela qual ocorre a generificação, a corporificação de normas, é uma prática obrigatória, uma produção forçada, mas não por isso totalmente determinante. Na medida em que o gênero é uma atribuição, trata-se de uma atribuição que nunca é plenamente mantida de acordo com a expectativa, já que as pessoas a quem essas atribuições se dirigem nunca habitam completamente o ideal a que são obrigados a se assemelhar (Butler, 2019, p. 382).
O caráter contingente da performatividade de gênero, presente na citação de Butler, carrega sua articulação com a noção derridiana de iterabilidade, que destaca a força da repetição das normas, que, no entanto, dada a (necessária) contingência de sua realização, jamais se realiza em plenitude (Leite, 2017b). Nas palavras de Derrida (1991, p. 22):
É porque essa unidade da forma significante só se constitui pela sua iterabilidade, pela possibilidade de ser repetida na ausência, não apenas de seu ‘referente’, o que é evidente, mas na ausência de um significado determinado ou da intenção de significação atual, como de toda intenção de comunicação presente.
Butler (2019) argumenta que a performatividade é possível precisamente porque as normas de gênero são iteráveis - isto é, dependem de uma repetição reiterada que, a cada encenação, podem tanto reforçar quanto desestabilizar as convenções. A iterabilidade, nesse sentido, opera como condição de possibilidade para a reiteração da norma, mas também para sua reconfiguração subversiva, uma vez que toda repetição implica necessariamente um deslocamento. É nesse intervalo entre a repetição e a diferença que se inscreve a agência política da performatividade.
Traduzir a categoria masculinidade pelas teorizações discutidas significa conceber os sentidos do masculino num jogo de relações de poder e de disputas de sentidos, entendendo que, por meio do reconhecimento da pluralidade das masculinidades, qualquer naturalização ou estabilização das identificações do masculino é colocada sob rasura. Entende-se que as masculinidades são produzidas por efeitos performativos, que dependem da repetição, da força e, ao mesmo tempo, da ruptura das normas, assim como do contexto e de suas convenções. Concordando com Rodrigues (2019, p. 34), a performatividade pode ser significada pela “[...] tensão permanente de manutenção e subversão das normas, que conserva e ao mesmo tempo supera as regras que estabelece”.
Nesse sentido, me afasto da noção de “identidade” na medida em que ela carrega, em grande parte de suas formulações, uma pretensa essência substantiva, implicando uma fixidez ontológica que desconsidera os processos de significação contingentes e contextualmente situados. Apoio-me, nesse ponto, na perspectiva performativa delineada por Butler (2019), segundo a qual as categorias identitárias - como o gênero - não preexistem às práticas discursivas e corporificadas que as constituem reiterativamente. É nesse mesmo marco teórico que situo a juventude como uma categoria igualmente performativa, relacional e atravessada por normas históricas de inteligibilidade.
Contudo, vale destacar que Hall (2006), ao mobilizar o conceito de identidade no âmbito das disputas culturais da pós-modernidade, não o faz a partir de uma concepção essencialista ou fixa. Ao contrário, sua elaboração teórica inscreve a identidade como um construto discursivo, instável e marcado por deslocamentos, o que permite apreendê-la não como uma entidade dada, mas como um ponto de articulação provisório entre posições subjetivas múltiplas e em constante negociação. Assim, embora mantenha reservas quanto ao uso do termo, reconheço sua produtividade analítica quando concebido nos marcos da não fixidez, como propõe o autor.
Assim, a identificação performativa da juventude (Leite, 2014, 2017a, 2017b) é concebida mediante o argumento antiessencialista que se contrapõe às tendências adultocentristas presentes não só nos espaços escolares, mas na sociedade em geral. Assim como ocorre com o gênero, existem as práticas reguladoras da coerência da idade que, performativamente, dicotomizam e hierarquizam o “ser adulto” e o “ser jovem”. Contestando qualquer tipo de substância determinada por aspectos biológicos e/ou culturais, a identificação performativa da juventude problematiza e tensiona as sedimentações presentes na sociedade e nas escolas, que atribuem ao jovem a identificação de um sujeito alienado, imaturo e hedonista, por exemplo.
Para Pocahy (2011), a idade cria condições de inteligibilidade para o que definimos na sociedade ocidental como “humano”, sobretudo quando a articulamos com a diferença. Nesse contexto, a idade em conjunto com as questões de gênero e sexualidade se torna um projeto biopolítico, em termos foucaultianos, que controla, normatiza e regula as subjetividades dos sujeitos. Conforme o autor: “O que significa dizer que a idade organiza a vida, ao conferir status de ‘humanidade’, em diferentes formas e condições político-culturais no mesmo instante em que gênero e sexualidade tornam-se visíveis e possíveis nesta trama discursiva (ao fixar as possibilidades para cada idade da vida)” (Pocahy, 2011, p. 206-207).
Por esse caminho que interessa à pesquisa a articulação entre as identificações da juventude e da masculinidade, e a abordagem interseccional se mostra produtiva para esse debate. Autoras como Bilge (2009, 2020) e Grillo (2013) entendem a interseccionalidade por uma perspectiva antiessencialista, que não apenas se restringe à soma de marcadores da diferença, que hierarquiza ou sobrepõe uma identificação a outra, mas como uma abordagem integrada. Além disso, as autoras também reconhecem que marcadores sociais em intersecção, que não foram previstos inicialmente, podem emergir nos contextos de pesquisas, posto que interseccionalidade não se define como uma perspectiva que considere, apenas, mobilizações prévias, mas também contingentes. Na sequência, discutem-se os caminhos para a produção de narrativas com o MECPII.
NARRATIVAS COLETIVAS
As narrativas que serão problematizadas foram realizadas com jovens estudantes-ativistas de dois campi do CPII, São Cristóvão III e Niterói, entre os meses de setembro e dezembro de 2019. A pesquisa contou com a participação de 35 estudantes integrantes dos grêmios e/ou dos coletivos feministas e LGBTI+.
Os princípios da cientista social argentina Leonor Arfuch sobre narrativas foram acoplados ao desenvolvimento das entrevistas coletivas com os estudantes-ativistas. A entrevista, para a autora, se configura como um gênero predominante e tradicional na comunicação midiática e na pesquisa acadêmica em ciências humanas e sociais, em que se atribui interesse na voz e na experiência dos sujeitos, com ênfase testemunhal. Entretanto, Arfuch (2010, p. 31-32) defende como mais produtiva para a operacionalização de entrevistas na pesquisa acadêmica, a incorporação de “[...] uma teoria de sujeito que considere seu caráter não essencial, seu posicionamento contingente e móvel nas diversas tramas em que sua voz se torna significante”, aproximando-se assim do pensamento pós-estrutural.
Além disso, a prática de operacionalização de grupos de discussão também se mostrou produtiva para a pesquisa. Conforme Weller (2006), os grupos de discussão passaram a ser um procedimento metodológico na pesquisa social já na década de 1980 e foram muito utilizados nas pesquisas com jovens, seja nos estudos clássicos da sociologia da juventude, seja nos estudos com base na psicologia do desenvolvimento no intuito de uma reflexão coletiva sobre uma temática específica. Para a autora: “Seu objetivo principal é a análise dos epifenômenos (subproduto ocasional de outro) relacionados ao meio social, ao contexto geracional, às experiências de exclusão social, entre outros” (Weller, 2006, p. 247).
Cabe colocar que os grupos de discussão se diferenciam da tradicional proposta de “grupos focais”, por exemplo, permitindo uma maior abertura na composição dos sujeitos participantes, bem como na condução das conversas coletivas desenvolvidas.
Para organizar os registros das narrativas coletivas produzidas com os jovens estudantesativistas me baseio da na proposta de contextos de iteração (Leite, 2017a, 2017b). Retomo a noção derridiana de iterabilidade, na qual a repetição de enunciados não se processa em completude e é tida também como contingente, permitindo, assim, a possibilidade de maiores ou de menores deslocamentos, a depender das disputas que ocorrem em torno dessa enunciação e da contingência em que se enuncia, como também a abertura e a instabilidade dos contextos em geral, pois, “[...] um contexto nunca é absolutamente determinável ou, antes, em que sua determinação nunca está assegurada ou saturada” (Derrida, 1991, p. 13).
Nos grupos de discussão registraram-se iterações de sentidos, por meio das narrativas coletivas, relativamente à participação de jovens estudantes-ativistas que se identificavam com o gênero masculino no MECPII, repetindo/deslocando significações. As iterações foram lidas nas narrativas, buscando, dessa forma, identificar o contexto - aberto e instável - mais imediato das enunciações, isto é, o conteúdo dialogado que se desenvolvia nessas conversas. Assim, arbitrou-se o agrupamento destes contextos, por meio do que propõe Leite (2017b, p.175), ao considerar “[...] a dupla determinação que deriva das indagações colocadas pela pesquisa e da abertura aos descaminhos da enunciação contingente”. O contexto de iteração que será discutido neste artigo é nomeado como masculinidades no movimento estudantil e será problematizado na próxima sessão.
MASCULINIDADES NO MOVIMENTO ESTUDANTIL
O primeiro trecho que trago para discussão é do jovem estudante-ativista Fidel: 16 anos, se identifica como pardo, homossexual, aluno do segundo ano do ensino médio no campus São Cristóvão III e participante do grêmio.
Pesquisador: E a questão da masculinidade e a participação no grêmio? Quais são os desafios? Vocês falaram sobre essa questão do esquerdomacho...
Fidel: Eu acredito, inclusive, que esse problema da masculinidade com o esquerdomacho vai surgir com embates, porque você vai ver o movimento dos homens da esquerda tentar incorporar a desconstrução que tá nesse ambiente. Aí o feminismo hegemônico vai acusar ele como macho, como escroto, isso e aquilo. Logo, você vai ver ambos se rejeitando, e não vai ter espaço pra encontro. O feminismo hegemônico ignora o fato que a masculinidade tóxica também vai fazer mal ao homem - tanto o negro, quanto o branco, quanto o gay, o trans. Elas vão ignorar essa problemática, vai chamar de macho, vai descartar, jogar fora qualquer ação. Então, assim, o meu melhor amigo é hétero, e ele fala que tem dificuldade em desconstruir a masculinidade porque ele não vê espaço pra isso. Até nas rodas de feminismo você vai ver que não tem espaço pra falar da socialização do homem, só vai estudar a socialização da mulher, como ela é objetificada, como o sentimento dela é desconsiderado. E quando chegar no homem a gente vai ver ele na figura do abusador, do culpado pelo patriarcado e vai ignorar a forma como ele também é afetado. Por isso que eu não gosto de hierarquizar a opressão. A gente põe o homem acima e a mulher abaixo, mas eu gosto de ver como ambos foram afetados, mesmo ele sendo o agente ativo da opressão e a mulher o agente passivo, de um modo mais geral. A mulher sofre a opressão direta, mas o homem também sofre opressão, mas de outras maneiras.
Fidel, em sua narrativa, problematiza uma das construções da enunciação esquerdomacho, por meio das tensões com o movimento de mulheres. O jovem estudante-ativista destaca a deslegitimação do chamado “feminismo hegemônico” às ações e práticas de desconstrução da masculinidade, como um espaço de difícil parceria entre os homens de esquerda e as feministas.
A tensão entre homens progressistas com os movimentos feministas não é algo recente e, historicamente, foi uma relação atravessada por disputas. Uma narrativa recorrente que distancia, por exemplo, os homens de parceria com os movimentos de mulheres é a de que só quem vivencia os efeitos do machismo pode se engajar nas lutas por sua desestabilização. Divergente desse pensamento, outras vertentes dos movimentos feministas reconhecem que o enfrentamento sobre as desigualdades de gênero na sociedade deve incorporar os homens, pois o machismo, como foi falado por Fidel, afeta toda sociedade e também só poderia ser erradicado com a participação deles (Freitas, Felix e Carvalho, 2018).
Nesse sentido, a enunciação “esquerdomacho” performatizou-se na sociedade, por um lado, dificultando os homens no debate sobre a desconstrução da masculinidade e na parceria com as mulheres nas lutas a favor da igualdade de gênero, mas, por outro, visibilizou no contexto do debate público, que uma parte dos homens progressistas refletem sobre pautas relativas aos direitos das mulheres e talvez até pudessem se engajar mais nelas, se as tensões fossem menores.
Além disso, Fidel também problematizou que o machismo afeta os homens na construção de suas masculinidades. Tal sentido parte de uma perspectiva não essencialista, que não homogeneíza os homens em categorias fixas e estanques, e complexifica as significações em circulação no social sobre homens, machismo e masculinidade.
O jovem estudante-ativista reivindica em sua narrativa uma redefinição para os sentidos das masculinidades, entendendo que o debate pode ser ampliado quando o olhar restritivo para os homens é deslocado. Concordando com Medrado e Lyra (2008, p. 825): “[...] investigar sobre masculinidades significa não apenas apreender e analisar os signos e significados culturais disponíveis sobre o masculino, mas também discutir preconceitos e estereótipos e repensar a possibilidade de construir outras versões e sentidos”.
Fidel também trouxe um outro debate relacionado à problemática da “identidade” e os movimentos sociais. Segue o trecho:
Fidel: Eu acho que assim, o problema talvez seja que os movimentos sociais causaram esse boom de militância, de “vamos nos empoderar”. Então, agora grupos identitários estão se juntando pra se fortalecer, só que eles não estão visando uma transformação material, estão visando mudanças mais pros seus. Tanto que tem umas feministas que vão muito pro afastamento de outros grupos, porque você vê muita transfobia, você vê muita homofobia, racismo, muitas problemáticas que elas estão se fechando. Outra coisa que eu vejo assim dos problemas gerais desses movimentos é o liberalismo por trás. O movimento negro e movimento LGBT são os mais afetados por isso. O movimento LGBT, que eu tenho mais propriedade pra falar, é muito afetado por isso porque é parada LBGT, tem a venda de bandeiras, de produtos... O movimento negro também tem essa pegada.... inclusive foi um problema com um amigo meu do colégio que tá na frente negra é que ele segue uma política do movimento negro que eu acho problemática demais. E a gente teve um embate por isso, porque eu falei que, assim, o movimento dele não causa mudança, só vai deixar ele confortável com os amigos dele. E foi um problema gigante porque a gente discutiu depois, tanto que alguns foram pro Twitter me atacar, falaram que eu era racista e homofóbico. Então falavam assim: essa chapa do grêmio tem um gay homofóbico e afroconveniente.
O jovem estudante-ativista levanta em sua narrativa a complexa questão do que se nomeia na contemporaneidade como “identitarismo”. Uma parcela dos movimentos sociais, sobretudo aqueles ligados às lutas de classe, tem se debruçado recentemente com alguma força em críticas ao identitarismo, que diz respeito às pautas sobre gênero, sexualidade e raça, que se tornou um tema recorrente nas discussões políticas da esquerda global. Essas críticas apontam que o identitarismo enfraquece os movimentos de ordem progressista e levam à fragmentação, ao afastamento das massas e à desconexão com pautas tidas como “essenciais” como, por exemplo, os direitos trabalhistas.
A posição política de jovem-ativista performatizada por Fidel caminhava por essa perspectiva, que se aproximava mais das demandas relativas à classe social, sobretudo pela sua fala: “eles não estão visando uma transformação material”. Ainda que o jovem se identificasse como homem pardo e homossexual, sua posição se afastava dos chamados movimentos identitários. Nesse contexto de disputas, defensores de políticas identitárias afirmam que a rejeição a elas e a acusação de “identitarismo” dizem respeito aqueles que não estão preparados para as mudanças que deslocam as demandas restritas à classe social para também incluir as agendas de gênero, sexualidade e raça a partir de uma perspectiva interseccional.
A outra crítica de Fidel sobre a questão do identitarismo diz respeito à captura pelo capital das pautas sobre gênero, sexualidade e raça. Moraes (2024) destaca que um número cada vez mais crescente de empresas têm adotado posturas institucionais em favor das pautas por efetivação de direitos e justiça social articuladas à diferença, ao mesmo tempo em que enxergam, sobretudo na população LGBTI+, um nicho de mercado com alto poder de compra (o chamado Pink Money), e altos potenciais de exploração e geração de lucro. Conforme o autor, essa aproximação do mercado não acontece sem o questionamento e crítica de parcela da militância LGBTI+, que apontam que a diversidade vendida em suas publicidades não se confirma nos quadros de funcionários, conselhos gestores e dirigentes.
No entanto, o fato de Fidel se identificar como pardo e homossexual, o que lhe aproximaria dos movimentos negro e LGBTI+ no colégio, mas manter sua posição de crítica, lhe fez ser acusado de homofóbico e afroconveniente. Nesse debate, cabe recuperar a discussão proposta por Colling (2013) sobre a tensão entre a política de identidade (o identitarismo) e a política da diferença. Para este autor, a política de identidade normatiza e fixa as identidades por uma concepção de homogeneização dos sujeitos. Já a política da diferença, “[...] entendem que as identidades são fluidas e que novas identidades podem ser criadas e recriadas permanentemente” (p. 409). Localizada na defesa de uma política da diferença, por meio da aliança entre grupos que lutam por causas distintas, Butler (2018) também reconhece a existência da pluralidade dentro de um próprio grupo identitário, desvelando a existência de sua heterogeneidade interna e as dificuldades que possam ocorrer em uma aliança. Todavia, defende que as lutas pelas condições de existência e contra a precariedade da vida serão potencializadas pelas alianças, ainda que contingentes, entre as diferenças. A narrativa de Fidel destaca as tensões no CPII nas questões de gênero, sexualidade e raça e a circulação de diferentes pensamentos.
A próxima problematização sobre as masculinidades e o MECPII vem do jovem estudanteativista Lyra: 18 anos, negro, homossexual, aluno do terceiro ano do ensino médio no campus São Cristóvão III e participante do grêmio e do coletivo negro. Lyra relata que sua performatização de masculinidade foi afetada em suas experiências de participação política dentro e fora do colégio. Segue o excerto:
Pesquisador: A sua participação aqui no grêmio, ela afetou você na questão da masculinidade?
Lyra: Ah sim, de fato. Eu só consegui me encontrar, assim, em relação ao gênero, à sexualidade depois de entrar em círculos de militância, de ter contato com a pessoa que eu sou, tanto de questão de gênero, sexualidade e de questão racial, de saber que eu posso ser um homem gay, mas eu não tenho que ser aquele padrão de gay, de homossexual, quer dizer, aquela figura homossexual estereotipada, não tenho que seguir aquela figura, eu posso ser da minha forma, pois existem muitas formas. A pessoa que eu sou hoje em dia é fruto de todos os debates que eu participei durante os anos aqui no grêmio e na militância fora daqui.
Apesar das disputas e tensões presentes no MECPII, Lyra destacou como positiva suas experiências no grêmio e fora dele, reconhecendo a importância de sua conscientização na identificação como um jovem homem gay e negro nestes espaços. Ainda que seja recorrente a deslegitimação da juventude como sujeito político na sociedade, a organização política dos estudantes do CPII é favorecida por uma formação crítica e reflexiva presente na instituição, possibilitando, além do reconhecimento de demandas emergenciais e contemporâneas da sociedade (Brito, 2023), a formação do jovem estudante-ativista, por meio de uma identificação performativa da juventude consciente politicamente.
Desse modo, reconheço que emergência de ações do movimento estudantil no contexto da crise política, econômica e institucional brasileira, vem ao encontro do avanço no reconhecimento da juventude como sujeito de processos formativos próprios e de mobilizações políticas significativas, bem como na aposta de uma performatização da juventude capaz de falar por si, de ser responsável, de elaborar demandas, de criar estratégias de ação e proteção, consequentemente desestabilizando sentidos tradicionais e sedimentados sobre “ser jovem” (Peçanha, 2022).
Por fim, debateu-se nas entrevistas a temática masculinidade sendo discutida no âmbito mais geral do colégio. O jovem estudante-ativista Cuca - 16 anos, pardo, bissexual, aluno do segundo ano do ensino médio do campus Niterói e participante do grêmio e do coletivo LGBTI+, trouxe seu relato:
Pesquisador: A questão da masculinidade tem sido uma pauta de vocês? Essa discussão da masculinidade tóxica? De repente conscientizar os meninos... como que você vê isso?
Cuca: Eu acho, principalmente porque agora na aula de sociologia nesse trimestre a gente tá falando sobre gênero e em filosofia a gente tá falando de Simone Beauvoir. Então é inevitável o assunto da masculinidade e eu já consigo notar mudanças no comportamento dos meninos, por mais que não seja da água pro vinho e do nada, dá pra notar, assim, as coisas tão começando a ficar melhores. As pessoas têm sentimentos apesar de serem homens, independente da sua genitália você vai ter sentimento, você tem direito de expressar esse sentimento, esquerdomacho também tem sentimento, tá ligado?!
Fidel também contribuiu com o debate:
Pesquisador: Discussões sobre gênero e sexualidade estão presentes nas disciplinas do colégio ou em outros projetos?
Fidel: Sim. A minha iniciação científica é sobre os corpos que são apagados dentro do colégio. Então dentro dela cada um vai estudar um grupo diferente. Eu tô estudando indivíduos LGBTs e os homens dentro do Colégio Pedro II. Como eles se manifestam, como ocorre a performatividade da masculinidade aqui no colégio. E falar fora do colégio também, no âmbito social. Inclusive eu tenho que entregar o texto, que eu não terminei ainda, que vai falar sobre as questões da masculinidade no Colégio Pedro II.
Apesar de vivermos um contexto no qual os temas gênero e sexualidade estão ausentes das políticas públicas de educação, como no Plano Nacional de Educação (PNE) e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o CPII é uma instituição em que o debate sobre questões relacionadas às diferenças se fazem presentes no cotidiano escolar. Rememoro que, no ano de 2014, uma mobilização no colégio nomeada como “saiato” trouxe mudanças significativas na instituição no que diz respeito às discussões sobre gênero e sexualidade. Após um estudante que se identificava com o gênero masculino circular pelo colégio vestindo o uniforme destinado até então às meninas (saia), acabou sendo interpelado pela direção a retirá-la, pois a única opção de uniforme para os meninos seria vestir calça. Dias depois, os estudantes mobilizaram um saiato (saia + ato), com destaque para os meninos, que foram à escola vestindo saia. Nesse contexto, o saiato foi um acontecimento importante na instituição, marcando a criação de coletivos estudantis feministas e LGBTI+ nos campi do colégio (Brito, 2023).
Desse modo, o debate sobre gênero e sexualidade é presente no CPII e, obviamente, aborda, conforme as falas de Cuca e Fidel, a temática da masculinidade, seja nos componentes curriculares ou em projetos diversos. Autores como Carvalho (2020) e Oliveira e Fontes (2021) defendem a importância do debate no espaço escolar sobre a desconstrução da masculinidade, pois se faz necessário reconhecer as construções das subjetividades de meninos e os processos que as legitimam, além de intervir na construção de possibilidades mais plurais que balizam a educação de sujeitos que se identificam com o gênero masculino. Nesse sentido, o CPII se mostra engajado nas perspectivas de mudanças relativas aos processos de identificação de jovens homens estudantes da instituição, no que diz respeito às lutas pelo reconhecimento da diferença na sociedade, com destaque para a igualdade de gênero e a participação dos homens nesse processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscou-se, neste artigo, discutir enunciações sobre as masculinidades em narrativas sobre a participação de jovens estudantes que se identificam com o gênero masculino no MECPII. Os jovens estudantes-ativistas participantes da pesquisa enunciaram em suas narrativas as disputas, relações e jogos de poder que atravessavam a participação política deles nos grêmios e a articulação com os coletivos feministas, negros e LGBTI+.
Nesse contexto, a formação de jovens estudantes-ativistas, que faz parte da história do CPII, trouxe, por meio da pesquisa, novos sujeitos críticos, reflexivos, contraditórios em algumas questões, mas também engajados em ações que reconhecem a importância das mudanças relativas à masculinidade na sociedade contemporânea.
Além disso, os debates sobre gênero e sexualidade, presentes nos diversos componentes curriculares e nos projetos desenvolvidos na instituição, também traziam a temática sobre a desconstrução da masculinidade na sociedade, contribuindo com discussões mais amplas sobre a igualdade de gênero na contemporaneidade e o papel dos homens.
Por fim, aponta-se a importância de instituições que, mesmo em meio ao contexto conservador que vivemos, aposta no debate sobre as questões da diferença por meio de uma formação que favorece a participação política da juventude na escola. Tal fato contribui para uma performatização da juventude mais consciente e engajada nos desafios porvir.














