Introdução
Hannah Arendt e Theodor Wiesengrund Adorno, conforme Zamora (2010) e Bueno (2013), viveram situações comuns que impactaram suas vidas e os fizeram ter experiências próximas: nasceram com três anos de diferença entre si na Alemanha; ela em uma família judaica, ele com pai judeu e mãe não judia. Seus cursos superiores, nas áreas das humanidades, foram feitos na República de Weimar, na Alemanha da década de 1920; tiveram de emigrar durante o regime nazista, ambos, ao final, se estabelecendo nos Estados Unidos da América, país que ambos admiraram. Ela talvez, porque a partir de 1951, deixou de ser apátrida, devido à possibilidade de ser estadunidense e por não ter voltado à sua terra natal, quando isso já era possível, e também por defender que a revolução americana, no século XVIII, pôde proporcionar condições para a discussão política democrática como em nenhum outro lugar; ele também reconhece, já tendo retornado à Alemanha, que se trata de um país democrático, no qual aprendeu muito, sobretudo com as técnicas de investigação científica lá desenvolvidas.
Se há muitos pontos em comum na obra de ambos os autores em suas análises do que ocorreu no surgimento e manutenção durante um longo período do terceiro Reich, as diferenças em suas análises e interpretações, ao que parece, indicam pontos importantes que permitem aprofundar o entendimento de sociedades opressivas e suas determinações na formação dos indivíduos. Uma dessas distinções ocorre entre sistemas autoritários, de um lado, e totalitários, de outro, que Arendt (2012 a) indica, e Adorno, não. Esse será o primeiro tema a ser apresentado neste texto; o seguinte trará, para os dois autores, as concepções de formas psíquicas subjacentes a esses sistemas sociais antidemocráticos; por fim, serão indicadas marcas da atualidade que remontam a esses sistemas e possibilitam a adesão individual a eles.
Regimes sociais Fascistas e totalitários
Para entender o que ocorreu em Auschwitz, e esse foi muito mais do que um campo de concentração e de extermínio, mas a expressão da morte em vida, Horkheimer e Adorno (1985)1 buscam sua origem na antiguidade grega, revelando um processo de adaptação, superação e limites da espécie humana dados a essa adaptação. Indicaram o fascismo como resultado do capitalismo dos monopólios, da sociedade administrada, que preserva os limites sociais que já poderiam ser superados; os grupos que ocuparam o poder em lugar da humanidade liberada impedem o surgimento desta pela violência direta, pela ameaça e pela ideologia:
Nas condições atuais, os próprios bens da fortuna convertem-se em elementos do infortúnio. Enquanto no período passado a massa desses bens, na falta de um sujeito social, resultava na chamada superprodução, em meio às crises da economia interna, hoje ela produz, com a entronização dos grupos que detêm o poder no lugar desse sujeito social, a ameaça internacional do fascismo: o progresso converte-se em regressão. O fato de que o espaço higiênico da fábrica e tudo o que acompanha isso, o Volkswagen e o Palácio de Esportes, levem a uma liquidação estúpida da metafísica, ainda seria indiferente, mas que eles próprios se tornem, no interior do todo social, a metafísica, a cortina ideológica atrás da qual se concentra a desgraça real não é indiferente. (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 15)
A mudança do capitalismo concorrencial para o dos monopólios, ainda que os autores, nesta citação, não a explicitem, promove a concentração do poder em poucos grupos que precisam de uma administração rígida para se manter, impedindo o avanço social, que objetivamente seria possível; em um texto publicado pouco antes, Adorno defende que:
A fase mais recente da sociedade de classes se vê dominada pelos monopólios; esta empurra ao fascismo, à forma de organização digna de tal sociedade. Enquanto reivindica a doutrina da luta de classes com concentração e centralização, não mediando nem o poder, nem a impotência extremos, e, sim, enfrentados entre si na contradição mais completa, permite que a existência de classes hostis caia em esquecimento. (Adorno, 2004, p.350)2
A contradição mais aguda entre as classes sociais é ocultada, e esse esquecimento, conforme esse autor, permite a preservação dos monopólios, mais do que a ideologia, e a quase ausência da distinção entre representação e realidade dificulta a percepção que esta sociedade já poderia ter como sujeito social a humanidade, como proposto na citação anterior. Nesse texto, Adorno (2004) também sublinha que se nossa história é a da luta de classes, é porque nunca saímos da pré-história. E nessa pré-história está presente a dominação pela sobrevivência da espécie humana no processo de Esclarecimento, e é essa dominação que deve ser superada, como natureza não dominada para se obter a liberdade, conforme se depreende do último parágrafo do primeiro fragmento da Dialética do Esclarecimento. (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 52). Há algo a mais, portanto, nessa dominação do que a luta de classes, pois, ao contrário, essa parece ser expressão daquela e não o contrário; em um texto de 1968, Adorno explicita:
O ponto central constitui a questão da dominação (...) a tendência - falo expressamente de tendência - segundo a qual a sociedade atual, se suas formas políticas deveriam aderir de forma radical e pela força às leis econômicas, dirige-se imediatamente, em sentido pregnante, de forma metaeconômica, isto é, não já por formas definidas mediante o intercâmbio clássico (...). Então o conceito de domínio alcança novamente o ponto central.3
Por essa citação depreende-se que a presença da dominação extrapola a dominação econômica, e se o capitalismo dos monopólios suscita a necessidade do fascismo, esse representa mais do que somente a dominação econômica, mas algo não superado, que mantém a humanidade em condições anacrônicas. Esses autores buscam na história de nossa civilização a barbárie oculta em sua forma civilizada: a tendência destrutiva sobreviveu inerente ao progresso material que, se é condição para a libertação social, torna-se seu oponente, quando se desenvolve independentemente do progresso da liberdade e perpetua o reino da necessidade; a dominação, dessa forma, ocorre também pelo avanço da tecnologia: a produção de armas capazes de destruir o planeta não visa à liberdade, e como defendem os autores (Horkheimer & Adorno, 1985): a técnica é tão democrática como a sociedade na qual se desenvolve.
Horkheimer & Adorno (1985) não deixam de criticar o sistema soviético, à época liderado por Stálin, que reduziu o reino da liberdade ao reino da necessidade, perpetuando a necessidade do trabalho. Nisso coincidem com Arendt, uma vez que para essa pensadora a esfera da liberdade não é a do labor, nem a da fabricação, mas a da Política (Arendt, 1983). Para os frankfurtianos, o século XX teve três formas de domínios autoritários, que, por vezes, nomeiam de totalitários: o nazifascismo, o stalinismo e a democracia ocidental. Se as críticas aos dois primeiros sistemas são mais visíveis, o mérito desses autores está também em demonstrar a opressão sob a forma de democracia; não que esta - a democracia - não seja importante, mas seu limite, dado pelas forças sociais preponderantes, a possibilitam ruir por dentro. Arendt (2021) não deixa de criticar os problemas existentes nos países ditos democráticos, mas por seu caráter de sociedade de massas, pela burocracia, que restringe a possibilidade de ação e decisão políticas, limitando a possibilidade de liberdade.
Para Adorno (2015, 2021), a violência é produto da totalidade social, que tem sido contraditória; essa violência é expressão de uma sociedade que se reproduz por meio de antagonismos, também expressados, mas não só, pela luta de classes. O conflito entre classes sociais, permeado pelo capital é próprio à dominação, que ele e Horkheimer descrevem como ingrediente essencial à contradição do Esclarecimento, cuja superação pode implicar na realização de uma humanidade pacificada. Para sua concepção, o contraste entre a cultura e a natureza é vital para compreender o desenvolvimento da primeira; indo além da explicação marxiana, admitem a distinção necessária entre ambas:
Hoje, quando a utopia baconiana de “imperar na prática sobre a natureza” se realizou numa escala telúrica, tornou-se manifesta a essência da coação que ele atribuía à natureza não dominada. Era a própria dominação. É à sua dissolução que pode agora proceder o saber em que Bacon vê a “superioridade dos homens”. (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 52)
A crítica às massas, de Horkheimer & Adorno (1985), também é feita por meio de sua análise da indústria cultural, conceito pelo qual indicam que os meios de comunicação de massa não são da massa. Arendt (2019) também destaca o caráter manipulador ao qual as massas são submetidas. Mas, se para essa pensadora o caráter burocrático não é mais abstrato do que o de classes sociais (Arendt, 2021), para Adorno (2004), o capitalismo, mesmo em sua forma industrial, é modo de expressão da dominação ainda não superada. E essa parece ser uma distinção fundamental entre os dois referenciais sobre o que constituiu os regimes totalitários do século XX. Para os frankfurtianos a dominação expressa pelo capital é essencial para compreender esses regimes; os interesses econômicos preponderantes lhes são subjacentes, e implicam a necessidade de dominação, como afirmado, não superada.
Para Arendt (1983), não há ‘natureza humana’, pois, segundo ela, isso permitiria a ideia de uma essência humana que delimitaria a ação humana; prefere o conceito de “condição humana”, que descreve por meio do labor, trabalho necessário à produção do que é necessário imediatamente para conservar a vida, da fabricação, para a produção de bens duráveis, que são sempre meios para outras produções, e da ação e do discurso, próprios à Política, esfera da liberdade; do que decorre que para um indivíduo ser livre é necessário que as outras atividades estejam sendo realizadas por outros, ou pela automação; nisso se aproxima de Adorno (1995a) para quem o trabalho desagradável já poderia ser reduzido a um mínimo em decorrência do desenvolvimento das máquinas que podem substituir os indivíduos.
Para Horkheimer & Adorno (1985), a sociedade se encaminha para a total administração, e essa corresponde não somente aos interesses existentes no capital, mas à necessidade de subjugação de muitos por poucos e isso ocorre, como acentuado, também nas democracias formais; para Arendt (2021), a burocracia é uma tirania sem tirano, restringindo a ação das pessoas, sua liberdade, que poderia se expressar na política. Pode-se inferir que para ambos a política é reduzida à administração e à burocracia, e perde sua relativa autonomia necessária para superar as limitações de nosso tempo.
Horkheimer & Adorno (1985) utilizam, como Arendt (2012 a), as expressões regimes ou sociedades totalitárias, mas sem distingui-las de regimes fascistas. Como ilustração, segue uma das muitas citações em que empregam aquela expressão ou similares:
Pouco importa como são os judeus realmente; sua imagem, na medida em que é a imagem do que já foi superado, exibe os traços aos quais a dominação totalitária só pode ser hostil: os traços da felicidade sem poder, da remuneração sem trabalho, da pátria sem fronteira, da religião sem mito. (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 185)
Em outra citação, o fascismo é considerado como totalitário: “O fascismo também é totalitário na medida em que se esforça por colocar diretamente a serviço da dominação a própria rebelião da natureza reprimida contra essa dominação.” (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 172).
Se para os frankfurtianos, está no desenvolvimento do Esclarecimento, e já em sua origem, a tendência à dominação, na obra de Arendt (2012a, 2021), o totalitarismo, como ela nomeia os regimes nazista e stalinista, é um fenômeno novo, distinto de outras formas autoritárias de regime social, como a tirania ou a ditadura unipartidária. Tem como seus antecedentes o declínio das classes sociais com o surgimento, em seu lugar, das massas e o declínio da tradição e da autoridade que representava essa tradição. Apresenta uma nova expressão de dominação, cuja lógica dificilmente pode ser compreendida pelo senso comum, que também enfraquece diante da ruptura com a tradição.
Para Arendt, a distinção entre regimes fascista e totalitário é nítida; no período da segunda guerra mundial, ela compreende que a Itália, dirigida por Mussolini, era fascista, e a Alemanha de Hitler, totalitária:
Depois da Primeira Guerra Mundial, uma onda antidemocrática e pró-ditatorial de movimentos totalitários e semitotalitários varreu a Europa: da Itália disseminaram-se movimentos fascistas para quase todos os países da Europa Central e oriental (...), contudo, nem mesmo Mussolini, embora useiro da expressão “Estado totalitário”, tentou estabelecer um regime inteiramente totalitário, contentando-se com a ditadura unipartidária (...). Os nazistas, cujo instinto era infalível para discernir essas diferenças, costumavam comentar com desprezo as falhas dos seus aliados fascistas, ao passo que a genuína admiração que nutriam pelo regime bolchevista da Rússia (...) só era igualada e refreada por seu desprezo em relação às raças da Europa oriental (Arendt, 2012 a, p. 436-437).
Para haver um regime totalitário, segundo Arendt (2012 a), é necessária uma população suficientemente grande, que permita que parte dela seja expurgada e eliminada de tempos em tempos; Stalin já contava com essa população quando assumiu o poder, Hitler a foi obtendo após a guerra, com a conquista de outras nações. Diferencia entre ‘movimento totalitário’ que pretende atingir o poder, mas ainda não o tem, ou não o tem por completo, do ‘regime totalitário’, para o qual não há mais oposição. Para se manter, o regime totalitário precisa de um ‘inimigo objetivo’ interno, para se justificar e obter apoio de parcela massiva da população. Quando o regime se instala, qualquer um pode se tornar inimigo a ser eliminado; segundo Arendt (2012a), mesmo parte da população alemã, não considerada ‘pura’ poderia ser eliminada. Na análise que Horkheimer & Adorno (1985) fazem do antissemitismo também a existência de um inimigo interno não precisa ser necessariamente o judeu, e há uma tendência de perseguição imanente a esta sociedade, relacionada à dominação da natureza. Considerando que esse ‘inimigo’ a ser exterminado era interno, as forças policiais ganham ascendência, segundo Arendt (2012a), sobre o exército; e mesmo o poder policial era desdobrado em diversas corporações, quer para aumentar o número de adeptos do regime, quer para não deixar nítido a quem se deveria seguir e temer.
Nas ditaduras unipartidárias, a constituição, ainda que restringida, não elimina inteiramente as demais formas de liberdade; a constituição, mesmo que algo modificada, ao menos, aparentemente, parece ser respeitada; nos regimes totalitários, o que importa é o movimento que cumpre os desígnios da natureza ou de uma história teleológica; o que importa não é o que se conserva, mas o próprio movimento de ‘libertação’ das forças da natureza, na Alemanha nazista, e das forças de uma história sem sujeito, na URSS stalinista.
O totalitarismo não tem critérios de sucessão, pois como movimento, todos devem estar imbuídos do mesmo propósito, cuja expressão é o desejo do líder. Nos demais sistemas autoritários - ditadura, tirania - a hierarquia é fundamental, no totalitarismo, não, ainda que possa existir, mas sem ser essencial; a autora representa essas diferenças da seguinte forma: na ditadura, há uma hierarquia com diversas camadas intermediárias entre o topo e a base; na tirania, só há a hierarquia entre o tirano e o povo; no totalitarismo:
Em contraposição tanto aos regimes tirânicos quanto aos autoritários, a imagem adequada para o governo e a organização totalitários parece-me ser a estrutura da cebola, em cujo centro, em uma espécie de espaço vazio, está o líder; o que quer que ele faça, seja integrar o corpo político como em uma hierarquia autoritária, seja oprimir seus súditos como um tirano, ele o faz de dentro e não de fora ou de cima. (Arendt, 2021, p. 113).
O fato de ser um movimento totalitário e não poder se caracterizar como partido, pois paralisaria esse movimento, impede de se estabelecer leis, pois essas indicam estabilidade, e as regras a serem seguidas não são estáveis em uma sociedade em movimento: dependem de interpretar os desejos do líder, o que permite um ambiente cheio de dúvidas e de terror se esse desejo inferido, mas não necessariamente real, não for identificado e seguido.
Para compreender o que ocorreu na matança de milhões de pessoas, eliminadas sem nenhum motivo, a não ser legitimar um sistema social destrutivo, conforme Arendt (2012a), é necessário compreender essa nova forma de regime - o totalitarismo, que para Horkheimer & Adorno (1985) não é novo e nem distinto do fascismo.
2- Personalidade autoritária ou antidemocrática?
Adorno (2015) afirma a primazia da determinação social sobre a psíquica para explicar o fascismo, ainda que haja um momento psicológico que não possa ser desconsiderado; a mediação da totalidade social sobre a constituição individual é para ele fundamental para compreender quer a violência, quer seu oposto; a psique é uma agência social incrustrada no indivíduo de forma imperceptível, fazendo com que ele reproduza a sociedade, julgando-se autônomo:
A psicologia individual é em grande parte uma agência através da qual as leis econômicas se tornam operantes em atitudes e comportamentos, sem que o indivíduo esteja ciente disso. Logo, na sociedade competitiva do liberalismo do século XIX, o funcionamento do sistema de mercado era mediado por anseios e desejos subjetivos que não estavam cientes do fato de que sua satisfação dependia largamente do funcionamento do todo e apenas em um grau muito pequeno de iniciativa individual per se (Adorno, 2021, p. 365-366).
E à medida que a sociedade se torna mais integral, mais administrada, mais o indivíduo a reflete, perdendo inclusive a relativa autonomia que tinha durante o liberalismo:
Se no liberalismo, a individuação de uma parte da população era uma condição da adaptação da sociedade em seu todo ao estágio da técnica, hoje, o funcionamento da aparelhagem econômica exige uma direção das massas que não seja perturbada pela individuação. (Horkheimer & Adorno, 1985, p. 190)
Tal concepção de mediação social não aparece na obra de Arendt (2012b) que também indica a prioridade da explicação sociológica sobre a psicológica, mas como conjunção de variáveis que explicam o fenômeno total. Aliás, se Adorno (2015, 2021) utiliza a Psicanálise para entender a configuração dos indivíduos e seus comportamentos, mesmo quando essa se torna anacrônica (Adorno, 2015), não é localizável nenhuma teoria psicológica predominante em diversas das obras de Arendt (1983, 2012a, 2012b, 2019, 2021), e dificilmente pode-se supor que ela não tenha conhecimento da Psicanálise; mas, não chegou, no entanto, a utilizá-la em seus estudos, o que não significa que o conceito de indivíduo não tenha sido importante, pois é sua atomização, desintegração na massa que, segundo ela, é uma das condições que possibilitam o totalitarismo; o isolamento do indivíduo expressa essa condição:
A verdade é que as massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura competitiva e concomitante solidão do indivíduo eram controladas apenas quando se pertencia a uma classe. A principal característica do homem de massa não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais. (Arendt, 2021, p. 446)
Arendt descreve a psicologia pelas condições sociais que condicionam seu comportamento, no caso, dos regimes totalitários: a atomização, a frustração, o abandono da necessidade de autoconservação, no que é seguida por Adorno (2015), ao indicar que no período do fascismo as pessoas tenderam a agir contra seus interesses racionais, inclusive contra a própria vida, e, segundo ele, é um indivíduo narcisista, que abandona a própria consciência, que sobrevive ao fascismo e no fascismo.
Adorno apresenta o descuido com a própria vida de parcela da população e o sentimento de descartabilidade projetado sobre os judeus:
A ideia expressa no tratamento dos judeus, nos campos de concentração e nas fábricas da morte, de que eles eram meros objetos de manipulação, cadáveres vivos, virtuais “bolos de sabão”, pode facilmente ter sido a projeção da fraca consciência da pessoa preconceituosa sobre sua própria situação social, uma consciência que ela só poderia suprimir com sucesso, se pudesse provar a si mesma e aos outros que é o outro sujeito que pode ser dispensado. (Adorno, 2021, p. 367)
Pouco tempo antes, no entanto, Adorno et al. (1950) descreviam o indivíduo autoritário mais propriamente como sadomasoquista, com um eu frágil. Se Adorno (2015) indica, por meio de conceitos psicanalíticos, que o avanço da sociedade administrada pode prescindir de indivíduos diferenciados, esses tendem a se reduzir a respostas conformistas, meros reflexos do que é exigido para a adaptação. A histeria, a neurose obsessiva, eram próprias ao tempo de Freud; o narcisismo, o abandono da consciência, é mais frequente na época na qual escreveu esse texto. Arendt (2012a), por sua vez, mostra que compõem as massas dos movimentos e regimes totalitários, indivíduos desiludidos, que se julgam descartáveis, para os quais a própria autoconservação deixa de ser a principal preocupação; para eles qualquer outro estado de coisas é melhor do que o existente; constituem presa fácil para defender regimes nos quais a liberdade da natureza e/ou de uma história teleológica, de todo modo, afastadas dos designíos humanos, substitui a liberdade necessária para a ação e o discurso humanos entre indivíduos.
Se Horkheimer & Adorno (1985), conforme ressaltado antes, não distinguiram as expressões ‘fascismo’ e ‘totalitarismo’, tal ocorreu também com as expressões “personalidade autoritária” e “personalidade ou caráter antidemocrático” e, em alguma medida, com as diferentes formas de violência existentes sob o termo “preconceito”, que ora se refere ao existente ao final do século XIX, ora ao predominante no período hitleriano, pois, para eles, nesse período, o antissemitismo se alterou em sua forma e expressão.
Na pesquisa sobre a personalidade autoritária (Adorno, 2019), importante estudo realizado em conjunto pelo Instituto de Pesquisa Social e pelo grupo de pesquisadores de Berkeley, sob financiamento do Comitê Judaico de Nova York, é frequente o uso da expressão “caráter antidemocrático”, ainda que o título escolhido para a obra tenha sido A Personalidade Autoritária. No capítulo, “Tipos e Síndromes”, assinado somente por Adorno, o tipo autoritário tem, no nível da consciência, a defesa forte dos valores, princípios e ideias que permitem conservar a sociedade existente: os indivíduos com as características desse tipo são conservadores, mas, inconscientemente, gostariam de destruir o que esses valores, princípios e ideias representam; são caracterizados por esse conflito entre tendências de conservar ou destruir o existente; mas por viverem em um país de regime democrático, como o era, e continua a ser, o existente nos Estados Unidos da América, não podem ser plenamente antidemocráticos, e por isso, surge essa contradição lógica na análise dos dados desse estudo: se a personalidade autoritária tem uma dimensão convencional, defende os valores existentes no momento, ela é conservadora, ainda que seja ambígua em relação à autoridade: conscientemente a defende, inconscientemente desejaria destruí-la. Poderíamos nomeá-la, como os autores o fazem, de falsos conservadores, mas ainda assim, se na década de 1940, a democracia, nos EUA, era exaltada contra o fascismo, esse tipo não era plenamente contrário ao que defendia. Por isso, esse tipo autoritário pode ser distinguido do antidemocrático, representado por outros analisados por Adorno, como o psicopata ou o manipulador. O psicopata, conforme o autor, não foi atingido pela cultura e faz tudo de acordo com seus desejos, não respeitando, quando pode, nenhuma lei; o manipulador transforma tudo e todos, inclusive a si próprio, em coisas a serem manipuladas, desrespeitando as relações sociais e pessoais.
Seguindo a distinção feita no item anterior, podemos pensar que a personalidade autoritária pode se desenvolver em regimes democráticos ou em ditaduras unipartidárias, mas para expressar os desígnios do totalitarismo, que objetivam tudo destruir para que as leis externas - da natureza ou da história sem sujeito - possam ser libertadas, caberia pensar que o tipo antidemocrático seria mais adequado, nele o desejo de destruição não é limitado pelo medo da autoridade que o leva a querer preservar o estabelecido.
No capítulo sobre a Escala do Fascismo, do livro A Personalidade Autoritária, os autores indicam que os primeiros três fatores que caracterizam essa escala - agressão autoritária, submissão autoritária e convencionalismo - seriam próprios ao sadomasoquismo, e os outros seis fatores a um eu fragilizado, que expressaria outras formas de regressão psíquica - antiintracepção, superstição e estereotipia, poder e força, destrutividade e cinismo, projetividade e exagero de críticas ao sexo. Se as primeiras três indicam a necessidade de um objeto externo para se expressar, delimitado pela própria hierarquia social, as últimas são mais genéricas, sem um objeto definido para se expressarem. Sobre um desses fatores - destrutividade e cinismo -, escrevem os autores:
Outros itens lidaram com o desprezo pela humanidade, sendo a nossa teoria a de que aqui a hostilidade é tão generalizada, tão livre de direcionamento contra qualquer objeto particular, que o indivíduo não necessita se sentir responsável por ela. Outra concepção orientadora foi a de que uma pessoa pode expressar agressividade mais livremente quando crê que todos estão fazendo o mesmo, por exemplo, que é da ‘natureza humana’ explorar e fazer guerra contra seus vizinhos. Não é necessário dizer que tal agressividade indiferenciada poderia por meio da propaganda, ser facilmente dirigida contra grupos de minorias ou contra qualquer grupo cuja perseguição fosse politicamente vantajosa, (Adorno, 2019, p. 155)
Quanto aos três primeiros fatores, argumentam:
O indivíduo que foi forçado a renunciar aos prazeres elementares e a viver sob um sistema de rígidas restrições, e que, portanto, se sente sobrecarregado provavelmente não apenas buscará um objeto sobre o qual possa ‘descarregar’, mas também fica particularmente irritado com a ideia de que outra pessoa está ‘se safando de algo’. Assim, pode-se dizer que a presente variável representa o componente sádico do autoritarismo, assim como a imediatamente anterior representa seu componente masoquista. É de se esperar, portanto, que o convencionalista que não consegue fazer qualquer crítica real à autoridade aceita o desejo de condenar, rejeitar e punir aqueles que violam esses valores. (Adorno, 2019, p.142-143)
Adorno (2019, 2021) insiste que se trata de uma síndrome com diversos tipos, que tem variada presença de mesmas características; isso, no entanto, é questionável, dadas as descrições que faz (Adorno, 2019) desses diversos tipos: a dinâmica psíquica do psicopata não é a mesma do autoritário ou do convencional, ou mesmo do manipulador; a diferença de intensidade das diversas características indicadas entre os tipos como próprias a essa síndrome geram configurações psíquicas distintas, devido a conflitos psíquicos também diferençados. Podemos inferir, contradizendo Adorno, que os autores de A Personalidade Autoritária concebiam distintos tipos de personalidade: os propriamente autoritários, que teriam uma consciência moral mal constituída, por isso, teriam a necessidade de exagerar o apoio ao que de fato não apoiam, e os antidemocráticos, que possuíam um desejo de agressividade não diferenciada.
Essa distinção entre personalidade autoritária e personalidade antidemocrática também pode ser inferida do texto de Horkheimer & Adorno (1985) - Elementos do Antissemitismo -, sobretudo no início do sétimo elemento, no qual os autores dizem que não há mais antissemitas, os últimos expressavam formas de burgueses exporem sua raiva ao final do século XIX; cabe lembrar, no entanto, que a diferenciação do antissemitismo de outrora do que examinam não elimina a contradição social, sempre enfatizada por eles, nesse caso, entre o passado e o presente: a convivência do antigo e as novas formas de expressão.
Se, conforme Adorno (2015), não há uma estrutura de personalidade própria a cada época, mas, sim, que a sociedade leva às regressões psíquicas necessárias para sua reprodução, em uma sociedade contraditória, deve haver aquelas que tentam conservar o existente e aquelas que tentam transgredi-lo, mesmo que seja para a regressão social; assim como na obra desses autores aparecem diversos tipos de ideologia e seus significados: liberal, conservadora, técnica, mentira manifesta, também expõem formas diversas de personalidade em suas análises: sadomasoquista, narcisista, psicótica. Assim, podemos supor que os tipos predominantes de personalidade propícios a uma ditadura unipartidária e a um regime totalitário não sejam os mesmos, e que possam coexistir em uma mesma época, em regimes sociais distintos ou sob um mesmo regime social.
Arendt critica a análise feita pelos autores da pesquisa sobre a personalidade autoritária, por pressupor a hierarquia nos sistemas totalitários:
O princípio do Líder não estabelece nenhuma hierarquia no Estado totalitário, como não faz no movimento totalitário, a autoridade não se filtra de cima para baixo através de todas as camadas intermediárias até a base da estrutura política, como no caso dos regimes autoritários. A razão concreta é que não há hierarquia sem autoridade: e a despeito dos muitos erros de interpretação cometidos em relação à personalidade autoritária”, o princípio da autoridade é, para todos os efeitos, diametralmente oposto ao princípio do domínio totalitário. (Arendt, 2012 a, p.543)
Ainda que não explicite os erros que percebe na pesquisa sobre a personalidade autoritária, ao contrapor o princípio da autoridade ao domínio totalitário, fortalece nossa suposição de que o tipo autoritário é propício às ditaduras unipartidárias e outros tipos, descritos por Adorno, como o psicopata, o manipulador e mesmo o delinquente sejam mais propícios aos regimes totalitários. No primeiro, há ambiguidade em relação à autoridade, o que força o autoritário a defender o que não aceita; no último, não há mais autoridade no sentido tradicional.
A questão do declínio da autoridade também é tema das duas teorias. Para Adorno (1995b), com o avanço do Esclarecimento não houve a autonomia esperada com o enfraquecimento da autoridade, pois a necessidade dessa prosseguiu, em um sentido similar ao que Kant (2022) pode expor em seu texto “Resposta à pergunta o que é esclarecimento’, há pessoas que por medo ou por preguiça se recusam a guiar suas ações sem a tutela dos outros; em sentido próximo também à obra de Freud (2011), as necessidades psicológicas são base das grandes ilusões, e, assim, quando não conhecidas podem ser cooptadas por ideologias. Arendt (2019) argumenta que o enfraquecimento da autoridade é correlata ao da tradição, uma vez que a primeira se delimita por representar e apresentar essa última; a autoridade do professor, segundo ela, não é necessariamente devida às suas competências, certamente necessárias, mas por sua defesa do mundo existente, cujo passado deve ser transmitido para que as novas gerações possam modificá-lo. Essa queda da tradição e da sociedade de classes resulta, como salientado, em uma sociedade de massas e essas são formadas por indivíduos desiludidos.
Em relação à educação, Adorno (2004) demonstra que ela se reduziu predominantemente à adaptação ou à formação como um fim em si mesmo, ambas formas de pseudoformação; já Arendt (2019), ao analisar a crise da educação nos Estados Unidos, na década de 1950, faz a crítica dos métodos que enfraquecem a autoridade que, para ela, representa a tradição e o amor pelo mundo. Ambos refletem sobre o declínio da autoridade na sociedade e na educação, mas se para Adorno (1995b) a educação é necessariamente política, para Arendt (2019), deve haver nítida distinção entre educação e política: não deve haver política na educação e nem se deve educar os indivíduos quando atuam politicamente:
Cumpre divorciarmos decisivamente o âmbito da educação dos demais, e acima de tudo do âmbito da vida pública e política, para aplicar exclusivamente a ele um conceito de autoridade e uma atitude face ao passado que lhe são apropriados mas não possuem validade geral, não devendo reclamar uma aplicação generalizada no mundo dos adultos. (Arendt, 2016, p.246)
Se não há autoridade nos regimes totalitários, Arendt indica que sua ideologia não apresenta a mesma lógica de conteúdos próprios ao senso comum, mas em sua forma reproduz os elementos da lógica formal; parte de uma premissa falsa, deduzindo cada uma de suas consequências; segundo ela, o que deveria corrigir o pensamento, o anula. É a forma lógica servindo ao delírio:
Para a limitada mobilização das pessoas, que nem ele pode dispensar, o governante totalitário conta com a compulsão que nos impele para a frente; essa compulsão interna é a tirania da lógica, contra a qual nada se pode erguer senão a grande capacidade humana de começar algo novo. A tirania da lógica começa com a submissão da mente à lógica como processo sem fim, no qual o homem se baseia para elaborar os seus pensamentos (...) Tal como o terror é necessário para que o nascimento de cada novo ser humano não dê origem a um novo começo que imponha ao mundo sua voz, também a força autocoerciva da lógica é mobilizada para que ninguém jamais comece a pensar - e o pensamento como a mais livre e a mais pura das atividades humanas, é exatamente o oposto do processo compulsório de dedução. (Arendt, 2012a, p.631)
O teor desta longa citação é confirmado pela frase dos frankfurtianos: “A expulsão do pensamento da lógica ratifica na sala de aula a coisificação do homem na fábrica e no escritório” (Adorno & Horkheimer, 1985, p. 42).
Adorno (2021) põe a questão de se, no período nazista, as pessoas efetivamente acreditavam na mentira manifesta que constituía a ideologia; são necessárias modificações psíquicas para suportar a defesa ou a confirmação de algo que se sabe não ser verdadeiro, mas se é obrigado a seguir. Em outro texto escrito em conjunto com Simpson (1986) mostra como alguém que não gosta da música popular industrializada se obriga a virar seu fanático defensor; o exagero do fanático é a defesa contra a não apreciação dessa música. Parece que algo similar ocorre com os adeptos de sistemas totalitários: obrigam-se a defender o que sabem ser indefensável, e a lógica sem conteúdo real, tal como Arendt indicou, pode servir de justificativa.
A fúria expressa pelos adeptos desses regimes, para ambas as referências, dá vazão a algo que não é próprio somente a esses regimes: o ressentimento ou a violência desenfreada, próprios àqueles que a cultura não conseguiu modificar suas pulsões:
O fato de que a demonstração de sua (do judeu) inutilidade econômica antes aumenta do que modera a força de atração da panaceia racista (völkisch) indica sua verdadeira natureza: ele não auxilia os homens, mas sua ânsia de destruição. O verdadeiro ganho com que conta o “camarada de etnia” (Volksgenosse) é a ratificação de sua fúria”. (Horkheimer & Adorno, 1985, 159)
Para ambas as teorias, o desespero do indivíduo atomizado, que busca se integrar à multidão de indivíduos solitários é fundamental para que defenda ideias de sociedade contrárias a seus interesses mais racionais: para Adorno (2015), a própria vida e uma vida digna de ser vivida, para Arendt (2019), a vida e o apreço pelo mundo.
O declínio do processo de individuação, processo este possível pela incorporação da cultura, como conhecimento da tradição, para Arendt (2019) ou como forma de expressão, para Adorno (2004), se não é causa dos movimentos fascistas e totalitários constitui-se sua base subjetiva. O empobrecimento da expressão, proporcionado pela Indústria Cultural (Horkheimer & Adorno, 1985), obsta que os indivíduos possam ter formas para expressar seus sentimentos e pensamentos, que não sejam por fórmulas bastante reduzidas à realidade existente; o infantilismo que abriga a hiper-realidade para compensar um sujeito com dificuldades de existir, se já está presente nos estudantes (Adorno, 1995b), prossegue sua existência na vida adulta. Para Arendt (2019), se a tradição não é transmitida de geração para geração, quem nasce não consegue contribuir com sua singularidade para a modificação do mundo. Para Adorno (1995b), o amor pelo conhecimento é fundamental para compreender o mundo e tentar superá-lo, mas, sobretudo, para formar as novas gerações que podem modificá-lo; para Arendt (2019), o amor pelo mundo é necessário para cumprir esse objetivo.
3- Resquícios do totalitarismo
Dada a determinação social sobre a configuração psíquica, para Horkheimer & Adorno (1985) e para Adorno (2019), como nossa sociedade é contraditória, há tendências autoritárias e tendências democráticas: dependendo de algumas variáveis determinadas socialmente - como a educação familiar, a educação escolar e a indústria cultural - o indivíduo pode ser mais autoritário ou mais democrático. Assim, foi possível para Adorno et al. (1950) localizarem na democracia dos Estados Unidos da América, na década de 1940, tipos autoritários e tipos não autoritários. Como esses autores entendem haver uma dialética do movimento social ao longo da história (Horkheimer & Adorno, 1985), é esperado haver uma tendência autoritária mesmo em regimes democráticos. Mais do que isso, como salientado, esses autores notam que no capitalismo de monopólios, uma administração fascista é necessária, assim a organização política autoritária pode se expressar em uma democracia formal, que ainda não é plena, e a organização econômica pode ser dirigida de forma não democrática.
Essa contradição pode ser expressa pela eleição de Hitler na Alemanha, na década de 1930, assim como, atualmente, pela eleição de vários governantes, que são contrários à democracia, por meio do voto da população. Horkheimer & Adorno (1985) indicam que nossa sociedade caminha para ser uma sociedade administrada, mesmo em regimes democráticos, mas uma democracia que não expressa a vontade de cidadãos emancipados. Arendt (2012a), por seu lado, defende que o declínio das classes sociais, que possibilitavam partidos políticos que expressassem seus respectivos interesses, originou uma sociedade de massas, restringindo o âmbito da política; se na sociedade de classes, a maior parte da população não se interessava pela política e a delegava para seus representantes, quando a situação social e econômica piorou, revoltaram-se contra todo tipo de política; como deserdados da Polis passaram a integrar massas contra os poderes estabelecidos; dada sua atomização, seu sentimento de serem descartáveis possibilitou unir-se a causas ilusórias, julgando que qualquer sistema seria melhor do que o existente.
Se, como desenvolvido no item anterior, pode haver a convivência entre estruturas psíquicas que expressam o sadomasoquismo, e as que expressam outros tipos - psicopatas, manipuladores, narcisistas - a forma de violência que exercem também não deve ser diferenciada, devido às suas distintas necessidades psíquicas? A configuração mais propícia a desenvolver preconceitos não seria a sadomasoquista, e a mais direcionada à prática da intimidação, da perseguição, do que hoje nomeamos bullying, não seria a narcisista? Do ponto de vista psíquico, o indivíduo sadomasoquista é mais desenvolvido que os demais citados, por já se relacionar com um objeto específico, ainda que imaginário, seja ao que obedece, ou ao que persegue; os demais dirigem a violência a objetos quaisquer sem significado específico que corresponda às suas necessidades. Se as respostas às questões acima forem afirmativas, pode-se considerar que o preconceito seria mais propício à conservação de democracias formais com tendências fascistas, que abrigariam a ambivalência da personalidade autoritária (sadomasoquista), e o que hoje é nomeado de bullying seria mais próximo de regimes totalitários, que precisariam de indivíduos mais regredidos psiquicamente. Como, segundo Freud (2011), formas mais evoluídas trazem consigo as do passado, as estruturas psíquicas mais desenvolvidas podem abrigar desejos mais primitivos, mas as menos desenvolvidas não devem conter o que será desenvolvido posteriormente. Dessa maneira, a estrutura sadomasoquista pode se associar quer com o preconceito, quer com o bullying, uma vez que traz consigo traços narcisistas; mas os narcisistas devem manifestar sua violência predominantemente pelo bullying, mesmo quando é contra alguém pertencente a minorias, que são presas do preconceito; quando isso ocorre, não é por essa pertença que é agredido, mas pelo desejo de destruição.
Se as duas formas de estrutura psíquica - sadomasoquista e narcisista - e as correspondentes expressões de violência - preconceito e bullying - são contemporâneas, as duas referências teóricas são complementares, antes do que antagônicas, ainda que haja distinções importantes, como a crítica de Arendt à análise da personalidade autoritária, explicitada anteriormente. Assim, há os que se desenvolvem para obedecer autoridades mesmo que irracionais, que seriam preconceituosos, e aqueles que podem ser comandados por uma ordem que não tem no poder, mas na continuidade do movimento social, sua razão de ser, que seriam os intimidadores de quem quer que seja, realizando assim, com permissão social, sua necessidade de destruição generalizada.
O preconceito é compreendido de formas distintas pelas duas referências. Arendt (2012b), de forma contraditória, o entende como algo necessário para a dinâmica da vida, para não se ter de conceituar tudo novamente, ao mesmo tempo que o trata como um conceito estabelecido em determinada época, que na seguinte perde seu significado, ainda que o preconceito se mantenha. Para Horkheimer & Adorno (1985), deve ser entendido considerando os conflitos cultura-natureza, com repercussões sobre a estrutura de personalidade.
A agressão conhecida como bullying só recebeu esse nome a partir da década de 1970, pelos estudos de Olweus (1993); não obstante, sua existência é reconhecida há muito mais tempo (Fante, 2005; Antunes e Zuin, 2008). Adorno relata episódio de sua vida escolar, que poderíamos definir como bullying, e o associa com o nazifacismo que só irá ocorrer poucas décadas depois:
A rigor eu deveria ser capaz de derivar o fascismo das lembranças de minha infância. Como faz um conquistador em relação a províncias longínquas, o fascismo enviara seus emissários muito antes de fazer sua entrada: meus camaradas da escola. (...) Todos os temas da catástrofe permanente tinham-me roçado tão de perto, os sinais de advertência do despertar da Alemanha tinham-me marcado de uma forma tão indelével, que fui capaz de identificar cada um deles nos traços da ditadura de Hitler (...) Os cinco patriotas que se precipitaram sobre um único colega, espancando-o, e que o difamaram como traidor da classe quando ele se queixou ao professor - não são eles os mesmos que torturaram prisioneiros para desmentir os que, no exterior, diziam que torturavam prisioneiros? (Adorno, 1993, p.168-169)
Como se pode inferir, no episódio de sua infância, não havia para os agressores um objeto delimitado para a agressão. Como destacado antes, em alguns textos (Horkheimer & Adorno, 1985; Adorno, 2019), são feitas distinções entre diferentes formas de violência, associadas entre si, e a perda de um vínculo mais claro com o objeto da agressão passa a se tornar mais frequente. É possível supor que a ‘mentalidade do ticket’, que Horkheimer & Adorno propõem substituir o antissemitismo do final do século XIX, seja próxima ao que nomeamos de bullying - guardam a mesma impessoalidade -, e como expressões do passado convivem com suas modificações, é possível fortalecer a hipótese acima enunciada de que ambas as formas de violência - preconceito e bullying - coexistam, mas que expressem necessidades sociais e psíquicas distintas. O preconceito, por sua associação maior com a moralidade e com o sadomasoquismo, com regimes definidos como ditaduras unipartidárias, nos termos de Arendt (2012a), e o bullying que pode prescindir de qualquer objeto delimitado, uma vez que pode se voltar contra qualquer um que não resista suficientemente (Fante, 2005; Crochick, 2019), a regimes totalitários. Neste sentido, é importante a análise que Arendt (2012a) faz do inimigo objetivo necessário aos regimes totalitários para unir o restante da população contra eles - o judeu, o comunista ou qualquer outro - e que podem ser substituídos um após o outro, pois têm como fim a realização da liberdade das forças naturais ou históricas, desse modo, pode sempre justificar novos obstáculos que surgem para serem eliminados.
Ao considerarmos a análise de Adorno (2015) que indica que quanto mais a sociedade se aperfeiçoa do ponto de vista técnico e administrativo, menos os indivíduos se constituem, e a de Freud (2011) de que o desenvolvimento individual ocorre pela diferenciação possibilitada com a identificação com objetos externos, podemos supor que esta sociedade, cada vez mais administrada, menos ofereça objetos diferenciados para que o desenvolvimento individual ocorra; as pulsões individuais sem se vincularem a objetos, sem manterem com eles relações profundas e perenes não se diferenciam e têm uma precária associação com a cultura, o que dificultaria a formação de um Eu bem constituído e uma consciência moral adequada que guie suas ações, sem precisar de celebridades para seguir, e nem mesmo um Eu que expresse a ambiguidade frente à autoridade, como é o caso do sadomasoquista. A tendência, então, seria de termos indivíduos menos desenvolvidos e mais propensos a violências primitivas destituídas de objetos e objetivos, mais propícias assim a sistemas totalitários do que a democráticos e mesmo a ditaduras. Como salientado antes, no entanto, como a sociedade é contraditória não expressa somente essa tendência, mas a que se opõe a ela e que defende a democracia; se essa defesa, no entanto, for apenas devido à aderência a um ‘ticket progressista’, a pouca diferenciação individual e o risco de um regime totalitário permanecem.
Em estudo recente (Crochick et al.2023), essas tendências foram assinaladas: indivíduos com um Eu mais frágil, como os narcisistas, tendem mais a praticar o bullying do que os sadomasoquistas que tendem a desenvolver mais preconceitos do que bullying; felizmente, há também os que não são nem preconceituosos, nem autores do bullying.
Quando se examina as tendências atuais em alguns países como os Estados Unidos da América e o Brasil, pode-se constatar movimentos antidemocráticos que não são somente conservadores, mas contrários às instituições democráticas existentes. De formas distintas, nesses dois países, essas tendências perderam as últimas eleições para forças democráticas, que se juntaram em frentes em defesa do status quo. Nessas frentes, podem-se destacar conservadores e progressistas, que, provavelmente vão disputar entre si, enfraquecendo a resistência a esses movimentos que seriam melhor nomeados de totalitários e não de extrema-direita.
Essa distinção entre regimes antidemocráticos, feita por Arendt, mas não pelos frankfurtianos, é importante para compreender o modo como o terror se constitui na atualidade, quando movimentos totalitários se tornam regimes, ainda que mesmo o movimento já seja uma marca de retrocesso da civilização; de outro lado, quer a perspectiva histórica dos frankfurtianos, que indicam a gênese e o desenvolvimento do terror moderno na história, quer a crítica que fazem às democracias formais que não deixam de conter a barbárie, possibilitam uma crítica não da parte de movimentos e regimes totalitários, mas da humanidade, constituída até o momento, como um todo, a contradição, nesse caso, é interna, inclusive às democracias. Nos termos de Adorno:
Hoje em dia o nazismo sobrevive menos por que alguns ainda acreditam em suas doutrinas - e é discutível inclusive a própria amplitude em que tal crença ocorreu no passado - mas principalmente em determinadas conformações formais do pensamento. Entre estas enumeram-se a disposição a se adaptar ao vigente, uma divisão com valorização distinta entre massa e lideranças, deficiência de relações diretas e espontâneas com pessoas, coisas e ideias, convencionalismo impositivo, crença a qualquer preço no que existe (Adorno, 1995b, p.62-63)
O temor da pseudoformação e da volta de regimes totalitários (2021) também está presente na obra de Arendt, mas não é algo inerente a uma história da dominação que precisa ser superada, e, sim, algo que sob determinadas condições - existência de uma população massificada, descontentamento com a política e com a vida - pode voltar a existir. Ela também indica a restrição da esfera da política à burocracia, que transforma a ação em comportamento, e assim julga, tal como Adorno (2021), que o behaviorismo pode explicar, atualmente, melhor o comportamento reflexo das pessoas do que em outros tempos.
Se Hannah Arendt e Theodor Wiesengrund Adorno receiam a volta ou a continuidade desses movimentos antidemocráticos, não deixam de indicar formas de resistências a eles, e têm na educação dos indivíduos um dos alicerces para a possibilidade de individuação pelo apreço ao conhecimento e ao mundo e, claro, por sua continuidade.
Por fim, é importante ressaltar que estamos trabalhando com a ideia de tipos - de regimes sociais, de estruturas de personalidade, de violências -, que tentam se aproximar dos objetos que representam, sem nunca os esgotar por meio de uma pretensa identidade entre eles e seus objetos. Não cabe fazer uma leitura esquemática das relações entre tipos de regimes sociais, estruturas de personalidade e tipos de violência, mas indicar a coexistência de tendências diversas e, por vezes, antagônicas. Assim, uma sociedade democrática contém tendências autoritárias e vice-versa; há forças psíquicas conflitantes nos indivíduos, com predomínio de uma ou outra, predomínio que pode ser alterado ao longo do tempo; são tendências que se compõem e se contrapõem.
Pela análise social dos frankfurtianos, a união de uma cultura avançada, do ponto de vista técnico e administrativo, com impulsos primitivos gerou a barbárie moderna, e essa necessita de indivíduos pouco diferençados que a sustentem, mesmo que eles não sejam os responsáveis por tal junção. Conforme Adorno, a individuação é necessária para não sermos mera espécie, nem tampouco seres transcendentais:
É inverossímil que, no princípio, tenha surgido, primeiro, arquetipicamente um homem individual qualquer. A crença nisso projeta miticamente para o passado, ou para o mundo eterno das ideias, o ‘principium individuationis’ já plenamente constituído na história. A espécie talvez se tenha individuado por mutação para, logo, através da individuação, reproduzir-se em indivíduos, apoiando-se no biologicamente singular. O homem é resultado, não Eidos; o conhecimento de Hegel e de Marx funda suas raízes no mais íntimo das chamadas questões da constituição. (Adorno, 1995a, p. 200)
Desta citação depreende-se que a diferenciação individual, fruto do desenvolvimento social, é necessária para a constante diferenciação da própria sociedade; dessa forma, uma sociedade e uma cultura que não se reduzam à repetição percebida nas leis da natureza devem ter indivíduos singulares para se diferenciarem. Mas uma sociedade avançada, que tende à administração do desenvolvimento individual, torna-se alheia aos seus membros não os diferenciando em sua relação, mas distanciando-os de si, e o desencantamento possibilitado pelo Esclarecimento retira também o encanto da vida: “O animismo havia dotado a coisa de uma alma, o industrialismo coisifica as almas.” (Horkheimer & Adorno, 1985, P. 40). Trata-se, assim, de reencantar a vida ou o amor pelo mundo, segundo Arendt, ou de desencantar a objetificação sofrida. O declínio dos indivíduos, expressado por seu isolamento, por sua regressão psíquica, convive com a possibilidade de sua individuação, dadas as condições sociais objetivas, que podem deixar de ser fins em si mesmas e passarem a ser meios para a realização da liberdade e felicidade individuais, que não prescindem de sua diferenciação.
Para o momento, no entanto, torna-se visível a tendência que associa movimentos totalitários a personalidades antidemocráticas e a formas de violência mais primitivas, como a intimidação sem nenhum objeto específico, mas como regra de comportamento; caberia estarmos atentos a essa tendência.














